Serial Killers: A Condessa Sanguinária

A nossa história é marcada por tragédias e crimes. A humanidade teve que passar por muitos estágios para chegar ao complexo modo em que vivemos hoje. Houve um tempo...
Erzsebet Báthory - Aprendiz Verde

A Condessa Sanguinária

A nossa história é marcada por tragédias e crimes. A humanidade teve que passar por muitos estágios para chegar ao complexo modo em que vivemos hoje. Houve um tempo em que vivíamos apenas para nos alimentar, houve um tempo em que vivíamos para nos defender, houve um tempo em que uma instituição religiosa queimava pessoas vivas, houve um tempo em que Reis tiranos torturavam e matavam o seu próprio povo. Na Roma Antiga, era normal homens manter relações sexuais com crianças, já em outras civilizações era comum o sacrifício das mesmas para os seus deuses. Tudo isso pode soar horrendo para nós hoje, mas para a época, fazia parte da cultura e não havia nada demais nisso. Ainda hoje compactuamos com práticas seculares que não ficaram para trás e que nos envergonham, como a mutilação genital feminina em algumas tribos da África e o genocídio de minorias como os ocorridos em Ruanda e no Kosovo, nos anos de 1990.

Entretanto, através dos séculos, surgiram pessoas que mesmo em uma época em que era comum a tortura e a morte, elas chocaram a todos por sua crueldade e perversidade. Um exemplo é o Príncipe romeno do século XIV que deu origem às histórias das criaturas da noite: OS VAMPIROS.

Seu nome: Vlad III, conhecido como Vlad Tepes (Vlad O Empalador) ou, simplesmente, Drácula.

Na foto à esquerda, o mais conhecido retrato de Vlad III, príncipe da Valáquia. Na foto à direita ele é retratado julgando Jesus Cristo como Pôncio Pilatos. A pintura feita em 1463 está exposta no museu de Ljubljana, Eslovênia.

Filho de Vlad II, conhecido como Dracul (Dragão, em romeno), por pertencer à ordem do Dragão, Vlad III tornou-se príncipe da Valáquia (região sul da Romênia) pela primeira vez em 1448. Por ser filho de Dracul, recebeu a alcunha de Dracula, ou seja, O Filho de Dracul. Drácula teria sido apenas mais um entre as centenas de príncipes e reis que governaram a Europa não fosse por um detalhe: sua EXTREMA MALDADE. Vlad III entrou para a história como um dos homens mais monstruosos e sádicos de todos os tempos. Por seus crimes ganhou o apelido de “Vlad, O Empalador”. Seus métodos de execução e tortura incluíam:

  • Empalamento de pessoas vivas;
  • Queimava e fervia em caldeirões pessoas vivas;
  • Matava amigos e parentes e obrigava pessoas da família a comerem a carne de seus entes queridos;
  • Esquartejamento e afogamento;
  • Esfolava a sola dos pés de pessoas e colocava sal, e então, colocava um animal (como vacas ou ovelhas) para lamber.

Vlad III empalava pessoalmente suas vítimas: com um bambu embebido com óleo (para não matar a pessoa logo no início), ele enfiava pelo ânus e fazia sair pela boca. Gostava também de pregar com estacas crianças recém nascidas às barrigas de suas mães. Construiu uma floresta com mais de 20 mil pessoas empaladas. Ao ver a cena, o líder do maior império do planeta, O Sultão Mehmed II, conquistador de Constantinopla e veterano de muitas guerras, ficou horrorizado. Preparado para invadir a Valáquia, o Sultão deu meia volta e disse não ser possível enfrentar um inimigo que se dispunha a tal ato. Na idade contemporânea, Drácula ficou famoso após o escritor Bran Stoker escrever, em 1897, o romance Dracula. A partir daí, sua ligação com as criaturas da noite (sem na verdade ter nada em comum com elas) só aumentou, ao ponto de o conhecermos hoje como o Rei de Todos os Vampiros.

Oitenta e quatro anos depois da morte de Vlad III nascia, quase que na mesma região, uma das pessoas mais cruéis e sanguinárias da história da humanidade. Seu nome: Erzsébet Báthory. Esqueçam Hitler, Mao-Tsé-Tung ou Osama Bin Laden. Esses tinham uma justificativa de matança que ia de ideais, crenças à religião. Nenhum deles cometia assassinatos, não sujavam suas mãos, apenas arquitetavam e mandavam outros realizarem o serviço sujo, já Erzsébet Báthory não; matava por prazer, tirava a vida de suas vítimas com as próprias mãos e unhas, literalmente. É verdade que matou muito menos que os citados acima, mas seu sadismo era infinitamente maior. Sua história é tão chocante e inimaginável que deixou seus próprios contemporâneos horrorizados. Em uma época em que era comum pessoas serem queimadas vivas, torturadas e mortas, ela conseguiu fazer com que seus crimes passassem para a posteridade.

Dos mais de 106 bilhões de pessoas que já viveram no planeta Terra, sem sombra de dúvidas podemos colocá-la entre as dez mais monstruosas.

Sangue, tortura e uma das primeiras serial killers conhecidas da história da humanidade. Conheça a macabra história da condessa húngara Erzsébet Báthory, a mulher que está no Guinnes Book, o Livro dos Recordes, como a maior assassina de todos os tempos.

seta

A Família Báthory


O brasão da Família Báthory e o brasão de armas do clã húngaro Gutkeled. A família Báthory era uma das mais tradicionais famílias da Europa, pertencentes ao clã Gutkeled. A família Báthory teve significativa influência na Europa Central durante o final da Idade Média. Ocuparam altos cargos militares, administrativos e eclesiásticas do reino da Hungria. No início do período moderno, a família teve vários príncipes da Transilvânia e um rei da Polônia.

A família Báthory pertencia ao nobre clã húngaro Gutkeled. Esse clã era descendente dos irmãos Gut e Kelad, que imigraram para a Hungria (em torno do ano 1040) vindos da Swabian, uma região ao sul da Alemanha, pertencente ao estado de Württemberg.

A linhagem moderna dos Báthory começou no século XIII com Andrew de Rakoméz, codinome “O Careca”, filho de Nikolaus. Andrew é mencionado em 1250 como o patrono do Mosteiro de Sárvár, no estado de Szatmár (atual Eslováquia).

Em 1279, o rei húngaro Ladislaus IV , em gratidão por seus serviços militares, deu para o irmão de Andrew, Hados, e para seus filhos, George (morte: 1307), Benedict (morte: 1321) e Briccius (morte: 1322), a região de Bátor, no estado de Szabolcs, nordeste húngaro.

Pintura de autor desconhecido do rei húngaro Ladislaus IV.

Em 1310, a região de Bátor tornou-se posse exclusiva de Briccius, depois que o mesmo fez um acordo de divisão de bens da família com seu sobrinho Michael e seu primo Vid. A partir daí, todos os descendentes de Briccius usariam o sobrenome “de Bátor” ou “Báthory”.

Os Báthory ramificaram-se em duas linhagens, os quais descendiam dos filhos e netos de Briccius.

A linhagem mais velha da família, “os Báthory de Somlyó”, eram descendentes de John, Conde de Szatmár, o filho primogênito de Briccius. Com o passar dos tempos, os descendentes de John retiraram o nome Báthory e adicionaram o sobrenome Szaniszlófi.

A linhagem mais nova da família, “os Báthory de Ecsed”, eram descendentes de Luke, o filho caçula de Briccius. Luke possuía vastas propriedades em Szatmár e, certa vez, ganhou terras do rei húngaro na região de Ecsed, onde ele construiu um castelo chamado Hrséy (Lealdade). Essa linhagem da família manteve o nome Báthory. Erzsébet Báthory descende dessa linhagem, ou seja, ela é heptaneta de Luke.

Os Báthory de Ecsed até o nascimento de Erzsébet


Os Báthory de Ecsed tiveram seus primeiros descendentes famosos no início do século 15, e eram os filhos de Luke:

  • Bartolomeu I; morreu em 1432 na guerra contra os Hussites;
  • Stephen III, tornou-se Palatino (Primeiro-Ministro) da Hungria; morreu em 1444 na Batalha de Varna.

Stephen III teve sete filhos, dentre os sete destacam-se:

  • Ladislaus V, que se tornou Conde supremo de Szatmár e Szarand; morreu em 1474;
  • Andrew III, que se tornou um grande proprietário de terras, tendo entre suas posses a região de Bujak; morreu em 1495;
  • Stephen V, que se destacou como um excelente comandante militar, tornando-se Voivoid (Príncipe) da Transilvânia; Stephen V foi o primeiro da linhagem dos Báthory a chegar a um alto cargo de governante; morreu em 1493;
  • Nicolaus III, o caçula de Stephen III, que foi o primeiro bispo da Syrmia (região hoje entre a Sérvia e a Croácia) e, posteriormente, em 1474, bispo da cidade húngara Vác. Destacou-se também como um estudioso renascentista e serviu de conselheiro para o rei Matthias Corvinus (aliado de Drácula na guerra contra os turcos otomanos. Lembram do Sultão que deu meia-volta após ver a floresta de empalados de Drácula? Pois é, posteriormente ele mudou de ideia e atacou a Valáquia); Nicolaus III morreu em 1493;

O sétimo filho de Stephen III, Stephen VII, tornou-se, em 1519, Conde de Temesvár, e foi eleito Palatino da Hungria. Em 1526, ele lutou na desastrosa batalha de Mohács contra o império otomano, no qual morreu o rei Húngaro Louis II.

O rei Húngaro Louis II em quadro do pintor italiano Titan. Coroado em 1616, aos 10 anos de idade, morreu 10 anos depois na batalha de Mohác, contra as tropas do império otomano liderados pelo Sultão Suleiman, O Magnífico.

Depois da feroz batalha contra os turcos, a Hungria foi arrasada e duas dinastias de nobres começaram a disputar o poder: os Habsburgs e os Zápolyas. As duas linhagens da família Báthory ficaram em lados opostos após o conflito.

A linhagem Ecsed apoiou os Habsburgs. Stephen VII, que escapou da morte na batalha, fugiu com a viúva do rei Louis II para Pozsony (hoje Bratislava, capital da Eslováquia), onde organizou a eleição de Ferdinand da Áustria como novo rei da Hungria. Stephen VII morreu em 1530. Um de seus sobrinhos, Bonaventura Báthory, governou a Transilvânia nos anos de 1550.

A linhagem Somlyó apoiou John Zápolya, que foi eleito rei da Hungria pela maior parte da nobreza húngara. Zápolya nomeou Stephen VIII (primo de Stephen VII) como Voivoid (Príncipe) da Transilvânia, região que governou até sua morte em 1534.

O rei John Zápolya. Zápolya foi coroado Rei da Hungria em 1526. Ocupou o trono por 14 anos, até sua morte em 22 de julho de 1540.

Posteriormente, o filho de Stephen VIII, Stephen IX, tornou-se Príncipe da Transilvânia e posteriormente rei da Polônia.

O rei Stephen Báthory (Stephen IX) e sua esposa Anna Jagiellon. Membro da nobre família Báthory, Stephen foi Príncipe da Transilvânia (1571 a 1586) e rei da Polônia (1576 a 1586). É considerado por muitos historiadores como um dos melhores reis da história do reino polonês.

A assinatura do Rei Húngaro Stephen Báthory.

Impressionado com o reinado de Stephen Báthory, George VI Báthory, da linhagem Ecsed e irmão de Bonaventura Báthory, resolveu romper sua aliança com os Habsburgs e declarou apoio aos Zápolyas. George estreitou ainda mais essa aliança casando-se com Anna Báthory, irmã do rei Stephen, unindo assim novamente as duas linhagens da família.

E do casamento entre George VI Báthory e Anna Báthory, nasceu o mais famoso membro de toda linhagem dos Báthory: Erzsébet Báthory (Ecsedi Báthori Erzsébet, no húngaro).

E essa é a sua história:

seta

O castelo de Cachtice.

Reino da Hungria


Década de 1600

Há anos jovens mulheres desaparecem misteriosamente no noroeste do império húngaro. A grande maioria desses desaparecimentos aconteciam em vilas e cidades ao redor do castelo de Cachtice, habitado por uma condessa, uma mulher nobre, de uma das famílias mais ricas e importantes da Europa. Boatos na região diziam que as jovens mulheres iam até o castelo e nunca mais eram vistas.

Alguns iam mais além, diziam que no castelo aconteciam coisas muito estranhas. Gritos de terror eram ouvidos e o falatório era de que a moradora do lugar tinha adoração pelo demônio e que ela estaria por trás das dezenas de desaparecimentos da região. Ninguém, entretanto, ousaria incomodar uma pessoa da nobreza. Ano após ano, pessoas viam as carruagens da condessa durante à noite com jovens mulheres dentro, elas nunca mais eram vistas. As famílias não podiam fazer nada a não ser chorar e rezar para que suas filhas, irmãs ou mulheres, voltassem para casa.

O boato se espalhou por toda Hungria.

Entre 1602 e 1604, o Ministro húngaro István Magyari foi até uma corte em Viena reclamar publicamente sobre os rumores de centenas de jovens de famílias de classes inferiores que estavam desaparecidas.

Reino da Hungria


1609

Durante o ano de 1609, oito jovens e bonitas mulheres morreram nos aposentos do castelo de Cachtice, de propriedade da condessa húngara Erzsébet Báthory. Há anos boatos percorriam toda a Hungria. Eram rumores sobre jovens garotas que nunca mais eram vistas após entrar no castelo. As autoridades, porém, faziam vista grossa.

Entretanto, essas oito jovens que morreram não eram de famílias de classes inferiores, elas pertenciam à famílias nobres húngaras. Elas foram até o castelo aprender boas maneiras, mas voltaram em caixões para suas famílias. Quando uma outra jovem nobre perdeu sua vida dentro do castelo a situação pareceu tornar-se insustentável. As mortes de jovens camponesas poderiam ser negligenciadas, mas a morte de nobres não. Erzsébet alegou que a jovem havia suicidado. As autoridades, porém, decidiram agir. Esse incidente suspeito, juntamente com muitos outros rumores ao longo dos anos em torno de Erzsébet, fez com que houvesse um ação. O rei Matthias II autorizou o Palatino (Primeiro Ministro) György Thurzo a investigar o caso.

György Thurzo. Thurzo foi o Palatino da Hungria entre 1609 a 1616. Era o segundo homem mais poderoso do império húngaro, abaixo apenas do Rei Matthias II.

A investigação para Thurzo não seria fácil. Erzsébet era de uma família rica e nobre, todo cuidado era pouco. E para piorar, Thurzo era amigo pessoal de Erzsébet. Em março de 1610, Thurzo enviou dois homens para colher evidências na região. Enquanto isso, ele planejou a possível prisão de Erzsébet. Thurzo tinha total interesse em solucionar o caso já que dois membros da família Báthory, Gábor e Zsigmond, haviam causado problemas com nobres húngaros e Erzsébet os havia apoiado contra o Rei. A diminuição do poder da família Báthory era uma questão de interesse para o rei Matthias II e essa poderia ser uma boa oportunidade.

Em 27 de dezembro de 1610, Thurzo saiu da cidade de Bratislava em direção ao castelo de Cachtice, uma viagem de dois dias. Ele estava acompanhado de Megyeri (um parente de Erzsébet), o governador local Drugeth de Homonnay, um padre chamado Zrinyi e vários soldados.

Eles chegaram à região em 29 de dezembro de 1610. Planejaram a ação e decidiram entrar no castelo na noite de 30 de dezembro de 1610, pois descobriram que uma espécie de ritual seria feito naquela noite. Eles armaram uma emboscada para pegar a condessa em flagrante.

Não existe nenhum documento sobrevivente a respeito do que Thurzo e seus homens encontraram naquela noite de 30 de dezembro de 1610 no castelo de Cachtice, alguns especialistas dizem que a monstruosidade da cena encontrada foi tão horrorosa que Thurzo ordenou que aquela carnificina não poderia ser escrita e passada para a posteridade. Porém, para aqueles que viram, a cena ficaria marcada em suas cabeças pelos restos de seus dias. Tudo o que sabemos hoje sobre a condessa Erzsébet Báthory veio através do julgamento dos seus cúmplices, alguns meses depois.

O texto abaixo foi extraído de vários livros e textos publicados ao longo dos tempos. A partir daqui farei uma narrativa em forma de Conto.

Reino da Hungria | 30 de Dezembro de 1610


O fim da Condessa e o início do horror

A Condessa Sanguinária

Estes homens sabiam que deveriam ser cuidadosos. A bela misteriosa daquelas terras conhecida por seu lustroso cabelo negro e sua pele pálida, era um sangue real e era especialmente bem conectada. Uma vez casada com um guerreiro conhecido como Herói Negro Húngaro por sua bravura nas batalhas contra os turcos, ela era bem relacionada com príncipes e reis, bispos e cardeais, e ela era amiga do Primeiro Ministro Thurzo, um membro do partido do Rei, que sempre à apoiou em seu domínio. Se ela reconhecesse suas cores, as cores de um nobre, ela o deixaria entrar, mas Thurzo queria chegar sem avisar. O tio da mulher, Stephen Báthory, havia sido rei da Polônia. Se os persistentes rumores provassem ser infundados, ela poderia se tornar uma poderosa inimiga política. Na outra mão, se eles estivessem certos, então alguma coisa deveria ser feita para pará-la.

Fazia frio e os homens tiveram dificuldades para encontrar o caminho, mesmo com algumas tochas nas mãos. O boato na cidade era de que a mulher que eles procuravam estaria tendo um de seus encontros clandestinos naquela noite, uma vista do crime seria o suficiente para incriminá-la, por pelo menos bruxaria. Eles esperavam pegá-la em flagrante. Pessoas que desciam as colinas da vila sempre afirmavam ouvir gritos vindos daquele lugar, e eles relacionavam isso aos desaparecimentos de garotas e aos corpos encontrados ao redor do castelo, mas ninguém se atrevia a abordar a realeza, eles contavam 50 desaparecimentos pelo menos.

Os homens que se reuniram para investigar a história haviam ouvido que essa senhora era uma praticamente das artes das trevas, por isso não deixaram que ninguém soubesse que eles estavam chegando. Supersticiosos, eles acreditavam que se fossem descobertos, a senhora poderia realizar uma magia contra eles. É por isso que eles chegaram perto do castelo sem anunciar a sua presença. Subindo a colina, na qual estava o castelo, eles pararam para descansar e para assegurar que eles não haviam sido seguidos. Muitas das janelas estavam escuras, mas o castelo era uma grande fortaleza e aqueles que estavam lá dentro podiam ver quase que qualquer lugar. Até aquele momento, não haviam ouvido nenhum grito, nenhum alarme e não havia evidências de guardas no portão. Eles se moveram em direção ao castelo, preparando para entrar.

Para a surpresa deles, a maciça porta de madeira estava entreaberta, como se os estivesse convidando para entrar. Eles a empurraram e entraram. De repente, ao virarem à direita, um gato preto pulou em suas direções, o que causou um grande susto nos homens. Eles haviam ouvido que a condessa usava esses animais como seus emissários feiticeiros, enviando-lhes para atacar seus inimigos. Dois outros gatos emergiram das sombras. O padre imediatamente benzeu-se. Ele contou seis gatos, e logo eles saberiam a razão de tantos gatos. Neste momento eles viram, inesperadamente, a primeira evidência de que os boatos eram verdadeiros.

No piso de pedra fria do grande salão, estava uma pálida e parcialmente vestida jovem. Ela não conseguia se mover. Eles se perguntavam se ela estava simplesmente dormindo ou bêbada. Alguns soldados foram até sua direção. Ainda assim, ela não fez nenhum esforço em despertar. Um dos homens estendeu sua mão em direção a ela, que apenas balançou sua cabeça. Ele disse aos outros que ela estava morrendo. Eles a viraram e viram como ela tinha um olhar pálido. Parecia que seu sangue havia sido drenado, exatamente como nos rumores que circulavam pela região.

Então, em seguida, ouviram um gemido. Apenas a poucos passos de distância estava outra garota, desfalecida, mas ainda viva. Os homens descobriram que seu corpo havia sido perfurado em muitos lugares. Ela estava pálida, como se não tivesse sangue circulando em seu corpo. Estava claro para eles que ela não duraria muito, não o suficiente para eles a levarem para a vila. Relutantemente, eles a deixaram e foram investigar as entranhas do castelo. Naquela hora, eles já podiam cheirar os maus odores da decomposição.

Contra um pilar, os homens encontraram outro corpo sem vida de uma garota, acorrentada a um poste. Ela tinha marcas de espancamento e queimaduras, bem como cortes feitos pelo que parecia ser um chicote. Ela, também, havia perdido muito sangue. Claramente, o que fosse que estivesse acontecendo a essas garotas estava relacionado a algum tipo de cerimônia que envolvia sangue, tais como aqueles praticados por adoradores do diabo.

Agora ansiosos sobre suas culpas neste domínio, os homens desceram as escadas de pedra dos andares inferiores afim de localizar as masmorras. Thurzo havia visto a área anos antes, quando jovem, então ele se lembrava do caminho. Eles desceram as escadas tocando as frias pedras das paredes que constituíam o palácio, seus corações batiam forte ao pensar no que podiam encontrar. Então eles ouviram um movimento na escuridão e um choro melancólico não muito longe.

Apressando os passos em direção aos ruídos, eles descobriram várias celas repletas de crianças e mulheres, muitas delas cheias de cicatrizes formados por repetidos sangramentos. As que estavam vivas imploravam por ajuda. Ficou claro para os homens que elas seriam sacrificadas. Eles haviam ouvido que ninguém que entrava no castelo saía com o mesmo estado de saúde. Aquelas que estavam vivas tiveram sorte dos homens as terem encontrado. Elas foram resgatadas. Os homens libertaram as mulheres e as conduziram para fora do castelo antes de se aventurarem nos andares superiores para encontrar a mulher responsável por aquelas atrocidades.

Para a surpresa dos homens (segundo algumas fontes), dentro de uma grande sala iluminada por tochas, eles descobriram evidências de uma orgia regrada a bebidas e muita tortura.

Na foto: A única imagem da condessa Erzsébet Báthory. O quadro acima foi pintado no ano de 1585, quando Báthory tinha 25 anos. Ele desapareceu do Museu de Cachtice na década de 1990.

A única imagem da condessa Erzsébet Báthory. O quadro acima foi pintado no ano de 1585, quando Báthory tinha 25 anos. Ele desapareceu do museu de Cachtice na década de 1990.

Como dito anteriormente, não existe nenhum registro sobrevivente do que Thurzo e seus homens encontraram naquela noite. O fato é que Thurzo prendeu todos os servos da condessa Erzsébet, libertaram todas as vítimas sobreviventes e prenderam a “feiticeira” em um de seus quartos, até que uma decisão fosse tomada sobre o seu destino.

A Vida da Condessa Erzsébet Báthory


Erzsébet Báthory nasceu em 7 de agosto de 1560, em Nyírbátor, Hungria. Ela era membro da poderosa família Báthory, conhecida por dominar as montanhas de Carpathian (uma enorme cadeia de montanhas de 1.500 quilômetros quadrados que foi berço de diversos povos europeus, com destaque para os romenos).

Nesta época, a Hungria travou numerosas batalhas contra o império otomano e os exércitos dos Hapsburg austríacos. A família Báthory era protestante, uma nova religião na época, e Erzsébet cresceu em Ecsed, Transilvânia (atual Romênia). Quando ela tinha 11 anos, seu tio Stephen tornou-se príncipe da Transilvânia e tinha como principal bandeira unir os europeus contra os poderosos turcos. Como membro de uma família nobre, Erzsébet teve uma educação clássica: falava latim, alemão e grego.

Erzsébet não foi uma criança fácil, nem sua vida fora fácil, embora tenha nascido numa privilegiada classe. Ela sofria de convulsões e tinha um comportamento descontrolado, o que sugere (desde cedo) que ela tinha um transtorno mental. Esse transtorno, associado a uma enraizada raiva, pode ter sido uma semente para seu futuro comportamento. Alguns estudiosos relatam que ela sofria de epilepsia.

“A lenda diz que Erzsébet testemunhou coisas terríveis durante sua infância, como a horrível visão de um homem sendo costurado ao estômago de um cavalo. Seu crime? Roubo. A história continua revelando que a pequena Erzsébet gargalhou de forma estridente ao ver a cabeça do camponês saindo do corpo do cavalo. Muitas das anedotas folclóricas sobre a sua infância são tentativas de explicar seus crimes posteriores, mas, independentemente dos detalhes, Erzsébet provavelmente viu uma grande quantidade de violência quando criança. Naqueles tempos, era mais do que aceitável bater em seus criados – de acordo com a lei húngara, os camponeses eram “propriedades” dos nobres – e também é provável que Erzsébet tenha testemunhado algumas execuções públicas.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

“Quando ela tinha dez anos, Erzsébet ficou noiva do conde Ferenc Nádasdy, um adolescente de 15 anos, filho de outra poderosa família húngara. Como era comum naquele tempo, Erzsébet mudou-se para o palácio de Nadasdy durante o noivado e começou a aprender tudo sobre a massiva propriedade do seu sogro. Rumores dizem que ela teve um caso com um garoto camponês durante este tempo, ficou grávida e foi forçada a se separar da criança, tudo às escondidas, enquanto seu noivo castrou o infeliz garoto e jogou-o para cães selvagens. Se isso é verdade ou não, Erzsébet acabaria por desenvolver a reputação de uma mulher com uma libido voraz, e o jovem Nadásdy logo se tornaria famoso por sua violência louca e criativa.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

O garoto em questão seria Ladislas Bende e o filho dos dois teria sido levado para a Transilvânia. Ninguém nunca mais ouviu falar do seu suposto filho.

Em oito de maio de 1574, aos 14 anos, ela casou-se com Ferencz diante de quatro mil e quinhentos convidados. A festa pródiga prosseguiu por três dias. .

Quadro de Ferencz Nádasdy. O quadro pode ser visto no Museu Nacional Húngaro, em Budapeste.

Nádasdy era filho de um ex-palatino da Hungria, Nádasdy Thomas. Ele teve uma educação extremamente clássica, tendo como tutores príncipes e reis. O casamento entre Ferencz e Erzsébet foi arranjado entre as duas famílias para aumentar o poder de ambas perante a nobreza húngara. Ferencz teve importante papel político na Hungria, mas destacou-se como um grande guerreiro nas guerras travadas contra os turcos. Ficou conhecido no campo de batalha por sua crueldade. Gostava de jogar futebol com as cabeças dos inimigos mortos e dançar em volta dos seus cadáveres.

As duas famílias tinham sintomas de loucuras, ambas com reputação cruel. A tia de Erzsébet, uma distinta dama da corte, tinha a reputação de lésbica e bruxa. Um tio era um alquimista e adorador do diabo, e seu irmão fora banido da sociedade: não podia chegar perto de crianças ou mulheres (teria sido ele um serial killer?). Para piorar, sua babá, Ilona Joo (uma das presas em 1610), era uma adepta da magia negra e há relatos de que ela exigia o sacrifício de crianças.

No livro A História Verdadeira dos Vampiros, Donald Glut diz que Erzsébet cresceu praticando bruxarias. Ela carregava um pergaminho com uma citação de proteção que dizia:

“Quando eu estiver em perigo, mande 99 gatos. Eu ordeno que você faça isso porque você é o comandante supremo dos gatos… ordene 99 gatos para vir com velocidade e morder o coração do Rei Matthias… E mantenha Erzsébet segura de qualquer mal”.

No livro, A Condessa Sanguinária, o autor Valentim Penrose diz que o pergaminho era composto da membrana fetal de um recém-nascido.

Capas dos livros “Verdadeiros Vampiros da História”, de Donald Glut e “A Condessa Sanguinária – As Atrocidades de Erzsébet Báthory”, de Valentine Penrose. O primeiro livro traz o relato de 50 casos de histórias de “vampiros”. O príncipe romeno Drácula e a Condessa Húngara Erzsébet tem destaque especial. O segundo livro é todo dedicado à história de vida da Condessa, desde os seus antepassados até sua morte.

Depois do casamento com Férencz, Erzsébet mudou-se pra o castelo Sárvár e aprendeu a administrar sua grande propriedade. Seu comportamento com os funcionários era brutal. Não era incomum entre os aristocratas exercer seu violento poder entre aqueles que eles consideravam seres inferiores. Espancamentos e assassinatos eram muito comuns e Erzsébet não era diferente. Ela impunha seu poder e tinha um vicioso impulso que só a fortaleceu naquele ambiente sem limites para aristocratas como ela.

Na Foto: O Castelo de Fonte: Blog Rogerandcaroly

O castelo de Sárvár e propriedade do Guerreiro Húngaro Ferencz Nadasdy e sua Esposa Erzsébet Báthory. A pequena cidade de Sárvár está localizada na parte ocidental da Hungria, na região oeste de Transdanubia, a cerca de 30 quilômetros a leste da cidade de Szombathely. O castelo foi construído provavelmente no século 16 em estilo renascentista italiano. O castelo possui dois andares e foi usado com uma fortificação e como moradia do Conde Nadásdy e sua esposa Erzsébet Báthory. O castelo hoje abriga o museu Nadasdy e é atração turística na região. Fonte: Blog Rogerandcaroly.

Na foto: Vista frontal do Castelo de Sárvár. Fonte: stormfront.org

Vista frontal do Castelo de Sárvár. Fonte: stormfront.org

Há muitos relatos que dizem que ela era uma pessoa narcisista e bastante vaidosa. Ela mudava de roupas de cinco a seis vezes ao dia e ficava horas admirando sua “lendária” beleza nos espelhos. Ela usava todos os tipos de óleos e pomadas para preservar e branquear sua pele. Ninguém negava qualquer coisa a ela, e ela exigia que seus funcionários a louvassem. Seu comportamento começava a ficar sádico.

Ferencz Nádasdy era um notório guerreiro que amava o exército, e ao chegar ao castelo para ser a mulher de Ferencz, Erzsébet foi introduzida ao seus fortes modos de disciplina. Em seu livro, Penrose diz que Ferencz apenas tolerava a crueldade de Erzsébet, mas não torturava ninguém com suas mãos. Já outros livros dizem que ele era duro com seus funcionários, fazendo de Erzsébet sua aprendiz na arte da tortura. Nunca saberemos qual o papel dos dois nos assassinatos, mas dois métodos de tortura e morte do casal entraram para a história.

O primeiro era  levar uma funcionária a uma floresta, amarrá-la em uma árvore e derramar mel em cima dela, para que abelhas, formigas e outros insetos a picassem até a morte. A pobre moça agonizava semanas até morrer. O outro método era a de congelar uma garota até a morte durante o inverno. Em noites de frio intenso e neve, eles levavam uma funcionária para fora do castelo e derramavam água sobre o corpo nu até que ela endurecesse e fosse incapaz de se mover.

“O Cavaleiro Negro foi uma fonte de inspiração para uma jovem sociopata impressionável como Erzsébet.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

Ferencz passava muito tempo fora de casa em batalhas. Às vezes ele enviava pedras negras de terras distantes a Erzsébet, pedras que ele alegava possuir magia. Os presentes eram a forma de Ferencz mostrar seu amor por sua esposa. Ele também encorajava Erzsébet a bater em suas criadas até a morte, uma tarefa que dava prazer imenso à condessa. Em cartas apaixonadas ela contava a Ferencz sua satisfação em matar jovens garotas.

Como dito, Ferencz viajava frequentemente em campanhas militares. Erzsébet ficava no castelo praticando seus rituais de bruxaria e escrevia ao marido para contar sobre eles. Em seu livro, Donald Glut revela o conteúdo de um ritual que Erzsébet descreveu ter aprendido com um mentor que a ensinou sobre rituais com sangue:

“Thurko me ensinou um amável. Pegue uma galinha preta e bata nela até a morte com uma bengala branca. Segure o sangue e jogue-o no seu inimigo. Se você não tiver a chance de jogar no corpo do seu inimigo, obtenha pedaços de roupas e espalhe o sangue nas mesmas”.

Erzsébet tinha uma variedade de amantes e, como sua famosa tia, existe a suposição de que ela gostava de manter relações com mulheres. Dentre seus amigos acumulou diversas pessoas que eram adeptas da alquimia, feitiçaria e bruxaria. Um deles era conhecido por ser um nobre de pele pálida, cabelos escuros e que tinha fama de beber sangue. Ele foi levado ao castelo para ensinar as artes das trevas para Erzsébet. Donald Glut diz com um pouco de sensacionalismo que:

“O estranho homem tinha todos os atributos físicos de um vampiro sobrenatural… talvez ele fosse mesmo o Príncipe Drácula que saiu do seu túmulo.”

Valentine Penrose diz que esse mesmo homem era na verdade uma mulher travestida de homem. Por um breve período, Erzsébet teria fugido com esse homem e posteriormente voltado sozinha. Donald Glut diz que ao voltar para o castelo, a boca de Erzsébet estava suja de sangue.

A existência desse bruxo ou bruxa é confirmada por vários pesquisadores e historiadores e até mesmo pelos cúmplices de Erzsébet. O fato dela ter fugido com ele é que permanece um mistério, não há relatos ou documentos que comprovem o fato. Lenda e realidade se misturam.

“De vez em quando, garotas criadas morriam na propriedade de Nádasdy-Báthory, mas não valia a pena levantar uma sobrancelha real. Aos olhos das classes dominantes, essas jovens camponesas eram totalmente descartáveis. Depois de uma revolta antifeudalista ter sido esmagada em 1514, um novo código legal húngaro chamado Tripartitum reduziu os direitos dos camponeses e servos a quase nada, enquanto protegia os nobres que abusavam deles.

Isto não quer dizer que ninguém notou nada desagradável acontecendo aos criados de Erzsébet. As suspeitas dos pastores locais cresciam quando Erzsébet continuava pedindo a eles para executarem ritos funerários para suas criadas que morriam de ‘cólera’ ou ‘causas desconhecidas e misteriosas.’ Em dado momento, ela pediu-lhes que abençoassem um caixão de grandes dimensões, mas os pastores se recusaram quando ouviram um rumor de que o mesmo continha três cadáveres. As especulações tornaram-se tão escandalosas que um dos pastores ousou colocar a Condessa Báthory na parede após um sermão, chamando-a de assassina cara a cara. ‘Sua Graça não deveria ter agido porque ofendeu ao Senhor, e nós seremos punidos se não reclamarmos e criticarmos Sua Graça,’ ele disse. ‘E, para confirmar que minhas palavras são verdadeiras, nós precisamos apenas exumar o corpo [da última menina morta], e você achará as marcas que identificam como ocorreu a morte.’

A condessa chiou dizendo que ela tinha parentes que não tolerariam tais acusações vergonhosas, e o pastor respondeu, ‘Se Sua Graça tem parentes, então eu também tenho um parente: o Senhor Deus… Vamos desenterrar os corpos, e então veremos o que você fez.’ Erzsébet saiu vociferando da igreja, e eventualmente Nádasdy interpelou para acalmar o pastor. Mas Nádasdy não conseguiu proteger Erzsébet para sempre.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

Depois de ter quatro crianças com Erzsébet, três homens e uma menina, Ferencz ficou confinado a uma cama por problemas na perna, vindo a falecer em 1604, deixando Erzsébet viúva, na época com 44 anos. Ela se mudou para um castelo em Viena, onde ela teve uma ativa vida social, mas eventualmente retornava aos seus domínios na Hungria (nessa época já morando no castelo de Cachtice) onde ela tinha mais privacidade para suas sessões de tortura.

Erzsébet teve uma cúmplice em seus crimes chamada Anna Darvulia, e depois, Erzsi Majorova, uma viúva. Outros servos sabiam e outros participavam de seus jogos sádicos. Há indícios de que Majorova a encorajou a sequestrar garotas de classes inferiores.

Ano após ano, dezenas de garotas eram sequestradas e mortas, mas ninguém ousava incomodar a Condessa. Em 1524, alguns camponeses decidiram se rebelar contra o abuso de alguns nobres. Foram massacrados. O reflexo desse massacre ainda estava na cabeça deles. Eles não incomodariam Erzsébet.

O antropologista alemão Michael Wagener diz que Erzsébet continou usando a tortura após a morte do seu marido, e até refinou seus métodos. Muitos relatos dizem que ela era psicótica, e que sua doença mental teria aumentado com a idade. Muitos detalhes de sua selvageria vieram à tona somente durante o julgamento de seus crimes.

Erzsébet matou durante anos, chegando a um ponto onde não havia mais jovens garotas camponesas para matar. Todas haviam morrido. Erzsébet, sempre ousada, visou sua sede de sangue para as nobres de classes aristocratas inferiores. Ela tinha proferido muita dor sem ser parada, e como muitos serial killers ao longo do tempo, sua arrogância fez dela corajosa e estúpida ao mesmo tempo. Ela parecia estar ansiosa para atingir o máximo do seu prazer, matando jovens nobres e sentir-se no fio da navalha. Ela poderia também estar tão obcecada com o prazer que conseguia que simplesmente não podia parar.

Então, Erzsébet teve a brilhante ideia de fingir a abertura de uma escola de formação para jovens meninas, chamada gynaeceum. As taxas para esta falsa gynaeceum proporcionariam a Erzsébet bastante – e uma aguardada – liquidez, e as filhas dos nobres forneceriam exatamente o que ela precisava que elas fornecessem. Ela não se importou em pensar no plano até sua conclusão lógica – dezenas de garotas mortas, pais poderosos enlouquecidos de preocupação. Ela apenas guiou um barulhento grupo de jovens aristocráticas e, bem, acabou com elas.

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

Erzsébet se ofereceu para ensinar “comportamentos sociais” para jovens mulheres de famílias nobres. Depois da morte de uma dessas jovens em 1609, a qual Erzsébet tentou forjar como um suicídio, as autoridades finalmente decidiram agir. O rei Matthias II apoiou. Foi também uma jogada política do rei. Matthias II devia dinheiro para Erzsébet. Ele havia tomado alguns empréstimos do seu marido e Erzsébet já havia cobrado. Se os rumores fossem verdade e ela fosse presa, talvez ele se livrasse da dívida.

“Erzsébet não estava apenas protegida pela lei; ela estava acima da lei. Naquele tempo, o rei da Hungria foi obrigado a pedir dinheiro emprestado às famílias Báthory-Nádasdy tantas vezes que Erzsébet era basicamente intocável. (Na época da morte de Nádasdy, o rei devia quase dezoito mil gulden, uma dívida praticamente impagável.) Escondida em seu rochoso castelo no topo de uma colina, Erzsébet poderia fazer o que quisesse.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

A Investigação


Como Erzsébet aguardava a audiência, oficiais procuraram evidências em seu castelo. Eles descobriram ossos e restos humanos, juntamente com roupas e pertences pessoais de jovens desaparecidas. O memorando de Thurzo cita o descobrimento de corpos de jovens garotas por todos os lugares do castelo. Muitos dos corpos não tinham os braços e olhos. Um corpo parcialmente queimado estava na lareira, outros corpos foram encontrados enterrados em covas rasas em volta do castelo. “Nós presenciamos com horror os cachorros correndo com partes de corpos das garotas em suas bocas”, escreveu Thurzo.

Grande parte do horror descoberto por Thurzo e seus homens vieram de sobreviventes, bem como os detalhes da história de alguns cúmplices. Os homens e as mulheres que haviam assistido Erzsébet Báthory em seus atos sangrentos cooperaram com as investigações com a finalidade de ganhar indulto ou de não serem torturados. O medo veio após a retaliação por parte das autoridades a uma cúmplice de Erzsébet: uma de suas servas recusou-se a depor contra a patroa e, por isso, teve seus olhos arrancados e seus seios removidos antes de ser queimada na fogueira (como disse no começo do post, algumas coisas eram bastante normais). Com medo, eles contaram tudo.

Erzsébet não compareceu ao seu julgamento e não testemunhou. Ao contrário, ela permaneceu em seu castelo jurando inocência. Sua posição social permitia isso e seus parentes (de altas classes aristocratas) convenceram o juiz a mantê-la sob prisão domiciliar.

O julgamento dos crimes da bruxa | 2 de Janeiro de 1611

Vinte e um juízes participaram do julgamento que iniciou-se em 2 de janeiro de 1611 e durou vários meses. Os trabalhos foram começados pelo Juiz Theodosius de Szulo da Suprema Corte Real. Eles chamaram várias testemunhas, as vezes 35 em um dia, incluindo familiares das vítimas que haviam desaparecido e vítimas que haviam sobrevivido. Uma mãe havia perdido sua filha de 10 anos de idade.

Os testemunhos principais contra Erzsébet foram dados por seus servos e por pessoas que haviam presenciado sua onda de matança. De acordo com Penrose, cada um dos seus cúmplices responderam às mesmas 11 perguntas. Cinco dessas perguntas eram:

  • Há quanto tempo morava no castelo?
  • Que tipo de participação teve o réu nos crimes?
  • Eles mataram alguma garota?
  • De onde eram as vítimas?
  • Quem trazia as vítimas para o castelo?

Os réus também foram pressionados a descrever as torturas que usaram e o que havia acontecido às garotas que tinham morrido. Indo mais ao ponto, eles foram perguntados a descrever completamente o envolvimento da condessa nas mortes. O que eles disseram naquele julgamento entrou para a história. A condessa Erzsébet Báthory que conhecemos hoje é aquela contada por seus cúmplices em 2 de janeiro de 1611. Nesse dia a condessa entrou para a história como um dos monstros mais cruéis da história da humanidade.

“A segunda testemunha, o honorário Tamás Jaworka, Juiz da Cidade de Kostolány, por volta dos 40 anos, foi jurado e interrogador; ele falou sobre a crueldade de Erzsébet Báthory… e disse ter ouvido de algumas jovens servas da condessa o quão ela era cruel com suas empregadas; ela queimou algumas no abdômen com um ferro em brasa, outras ela mandava sentar em um grande tanque de terra e então despejava em cima delas água fervendo, causando muito sofrimento… as mesmas servas disseram ter sido testemunhas de frequentes aparições de virgens na companhia da condessa, as quais estavam desfiguradas e cheias de manchas pretas e azuis causadas por espancamentos.”

[Carta de András of Keresztúr, endereçada ao rei Matthias II, em 28 de Julho de 1611]

Modus Operandi


Ficzko, um jovem desfigurado (que algumas fontes citam ser um anão com retardo mental), alegou que tinha sido levado para o castelo à força. Ele não tinha certeza de quantas mulheres ajudou a matar, mas ele disse saber o destino de 37 delas.

  • Cinco foram enterradas em buracos;
  • Duas no jardim; duas foram enterradas à noite em uma Igreja;

Em seu depoimento, Ficzkó disse que as garotas eram atraídas com a promessa de emprego no castelo. Erzsébet também ludibriava mulheres de algumas aldeias para que as mesmas levassem garotas ao castelo em troca de dinheiro e pequenos presentes. Se as garotas não viessem por conta própria, elas eram espancadas até desmaiarem e, então, carregadas até o castelo. Elas eram escolhidas pela macieza de suas peles, até mesmo de suas línguas, e por sua juventude e beleza. Se elas tivessem os seios grandes, melhor ainda.

“Elas eram levadas para serem torturadas até dez vezes ao dia, como ovelha,”

[Ficzkó]

O Ritual


No castelo, as garotas eram amarradas e esfaqueadas com agulhas e tesouras, entre outras crueldades.

Quando perguntado sobre o tipo de tortura usada, Ficzkó disse:

“Eles amarravam as mãos e os braços delas com uma corda de Viena. Elas eram espancadas até os seus corpos ficarem pretos como carvão e suas peles rasgadas. Uma menina teve que levar mais de 200 golpes antes de morrer. Dorkó [outra cúmplice] cortava seus dedos um por um com uma faca e depois cortava suas veias com uma tesoura”.

A enfermeira de Erzsébet que a acompanhou desde criança, e uma de suas cúmplices, Ilona Joo, admitiu que Erzsébet tinha matado cerca de 50 garotas. Em seu depoimento ela disse que Erzsébet marcava suas vítimas com um ferro quente, enfiava esse ferro em brasas dentro da boca ou narizes das garotas até elas morrerem. A própria enfermeira testemunhou uma vez Erzsébet colocando os dedos dentro da boca de uma menina e puxando sua língua com suas unhas até rasgar completamente sua língua e suas bochechas (muito provavelmente com uma luva com garras, presente de seu marido Nádasdy). Ela também desfigurava todo o corpo das vítimas usando vários tipos de agulhas, fazendo-as sangrar, ou até abrir suas carnes. Segundo Ilona Joo, Erzsébet gostava de abrir a pele das vítimas com suas próprias unhas e dedos.

“Geralmente começava com algum erro de uma criada. Talvez a menina perdesse um ponto do crochê, fazendo com que a condessa se virasse contra ela com um rosnado. Erzsébet iniciava batendo, chutando ou socando a criada, mas, eventualmente, ela cavava mais fundo, produzindo algum castigo imaginativo para satisfazer seu desejo sangue. Aqueles que cometiam erros na costura eram torturados com agulhas, já uma menina que roubou uma moeda foi marcada com a mesma moeda. Erzsébet brincava de jogos mentais, enfiando alfinetes nos dedos da menina e dizendo: ‘Se dói a prostituta, então ela pode remover.’ Então, quando as meninas tiravam os alfinetes, Erzsébet cortava seus dedos fora. Muitas vezes, desnudava suas criadas antes de espancá-las, e uma vez arrancou com uma mordida um pedaço do rosto de uma garota porque ela estava muito doente para sair da cama [e perpetuar ela mesmo as torturas].”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

Erzsébet administrava muitos espancamentos de maneira cruel e arbitrária, e logo estava torturando e assassinando as meninas. Ela podia cortar os dedos de alguma menina ou bater em seu rosto até que os ossos quebrassem. Mesmo quando Erzsébet estava doente, ela não parava. Em vez disso, ela mandava trazer as meninas até sua cama para que ela pudesse bater e mordê-las. As vezes, ela mordia até arrancar a carne, levando-as à morte. Não satisfeita, fazia seus servos homens comerem a carne da garota. De acordo com Ilona Joo, a condessa colocava papel embebido com óleo entre as pernas das garotas e ateava fogo – uma brincadeira aprendida com o maridão Nádasdy. Erzsébet cortava o corpo das meninas em lugares estratégicos, onde o sangue escorria mais fácil, cinzas dos corpos eram colocados em volta da cama de Erzsébet para que o sangue não escorresse. Os corpos eram enterrados em lugares secretos e Erzsébet e sua trupe realizavam cerimônias sobre eles.

O terceiro cúmplice acrescentou que a condessa gostava de aplicar um ferro em brasas nas solas dos pés das garotas, outras testemunhas disseram ter visto quatro garotas em mortalhas, aparentemente vivas, mas incapazes de se mexer. Outra disse que ela viu o próprio demônio sentado no colo da condessa Báthory, e que ela teve relações sexuais com ele, aparentemente ela estava completamente sob seu feitiço. Segundo a testemunha, isso foi devido, em parte, ao seu “imenso órgão sexual”.

Os testemunhos também revelaram que as meninas sequestradas eram acorrentadas às paredes nas masmorras e engordadas, pois a condessa acreditava que o sangue aumentaria em seus corpos. O sangue era fundamental para seus rituais satânicos lunares. Elas também eram supostamente forçadas em atividades sexuais com a condessa. Se elas reagissem com desagrado, eram torturadas até a morte.

A condessa era imprevisível, aquela que era sua preferida poderia ter o pior tratamento. Uma garota havia sido forçada a tirar um pedaço de carne do próprio braço, outras foram empurradas em gaiolas cheias de espinhos. Outras formas de tortura e morte incluíam amarrar as jovens em aparelhos de tortura sexual. Uma vez amarradas, eram torturadas. A condessa usava desde o espancamento até o ferro em brasas nos genitais das garotas.

Mesmo em uma época onde a tortura era comum, os juízes que ouviram essas histórias ficaram horrorizados, principalmente quando as sobreviventes falavam. Elas contaram como tinham sido perfuradas, espancadas e queimadas pela condessa. Muitas estavam com pensamentos suicidas.

Mais de 650 assassinatos


A audiência ficava cada vez mais horripilante. Quanto mais pessoas davam seus testemunhos, mais o horror aumentava e maior o número de corpos. Baseado nos esqueletos e partes de cadáveres encontrados, como também em relatos de testemunhas, a condessa Erzsébet Bathóry e seus comparsas foram condenados em 80 acusações de assassinatos. Em uma segunda parte do julgamento, um livro recém-descoberto foi introduzido como evidência. Era o diário de Erzsébet. O diário continha nomes e pequenos detalhes da tortura de mais de 650 mulheres. O diário foi aceito como evidência, mas as mortes não puderam ser comprovadas. Porém, acredita-se que Erzsébet tenha matado todas elas.

“Ninguém sabia com certeza quantas garotas Erzsébet Báthory matou. Seus cúmplices afirmaram que o número de garotas assassinadas jazia entre 30 e 50 – e eles sabiam disso por motivos óbvios – enquanto os funcionários de outro dos castelos de Erzsébet disseram que ela matou de 175 a 200 meninas. Do boca a boca, o rei ouviu que ela matou 300, e uma jovem testemunha afirmou que a condessa matou cerca de 650 garotas e tinha seus nomes escritos em um pequeno livro.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

As acusações oficiais ficaram nas 80 mortes, embora o rei Mathias II, em uma carta para Thurzo, durante a audiência, disse que ele havia contabilizado no mínimo 300 vítimas.

Mathias II, Rei da Hungria (1611-1619).

“O que dizer de nós… nós não podemos ouvir isso sem um sério desagrado, um medo paralisante, um tremor interno… ela colocou para trás qualquer reverência a Deus e ao homem, impulsionada pela sua crueza animal e sua diabólica influência, matando mais de 300 virgens inocentes e mulheres de ambas as classes, nobres e servas… de uma forma monstruosa e cruel, seus corpos mutilados, queimados com ferro quente, suas carnes arrancadas, assadas no fogo e então servidas…”.

[Carta do rei Matthias II para Thurzo, durante audiência no dia 14 de janeiro de 1611]

As condenações dos cúmplices


Os servos de Erzsébet foram condenados e tiveram suas punições estabelecidas por um Juiz chamado Bicse. Ilona Joo e Dorattya Szentes foram torturadas: tiveram seus dedos, olhos e seios arrancados e foram queimadas na fogueira. Dorkó, Ficzkó, Janos Ujvar e muitos outros foram decapitados. Outros cúmplices tiveram seus dedos e línguas arrancadas, outros foram enterrados vivos. Apenas um dos cúmplices de Erzsébet, Katalin Beneczky, foi poupada da morte. Seu destino é desconhecido.

O destino da Condessa Sanguinária


Após as condenações dos cúmplices, houve uma grande discussão em torno de qual seria a pena de Erzsébet Báthory. O rei Matthias II era a favor da sua execução, mas para que isso fosse possível, um estatuto especial deveria ser aprovado para tirar a imunidade real da condessa. Esse estatuto já havia sido iniciado para que a condessa pudesse ser julgada. O primeiro ministro Thurzo interveio à favor da condessa e insistiu que ela era incapaz de compreender a crueldade dos seus atos. No entanto, o relatório final do tribunal indicou que o número de instrumentos de tortura encontrados em seu castelo era o suficiente para determinar sua capacidade de compreender os seus atos. Ela sabia muito bem o que estava fazendo.

O destino da condessa foi mais político do que propriamente judicial. Se Erzsébet fosse queimada na fogueira, ela seria considerada herege e teria todas suas terras confiscadas pela Igreja, e isso era tudo o que os Báthory e o próprio rei Matthias não queriam. O rRei reviu sua posição e juntamente com a família fizeram muita pressão nos juízes.

Erzsébet Báthory foi então condenada a passar o resto dos seus dias encarcerada, em um pequeno conjunto de salas em seu próprio castelo. Todos os registros de Erzsébet ficariam fechados por mais de um século e seu nome foi proibido de ser pronunciado na sociedade húngara.

Um de seus filhos, Paul Báthory, escreveu uma carta em seu nome, pedindo misericórdia, pedido que não foi atendido. Sua filha, chamada Anna, jurou nunca mais falar com a mãe novamente, ou permitir que seus filhos falassem. Erzsébet alegou que era inocente de todas as acusações. Ela disse que as garotas morreram de diferentes formas, de doenças contagiosas a envenenamento, e que ela não deveria ser responsabilizada por esses “caprichos da natureza”.

“Erzsébet odiou Thurzó, e enquanto ela tentava convencer seus parentes a libertá-la, ela continuamente atacava o palatino por encarcerá-la. Em um ponto, Thurzó perdeu a paciência e vociferou, ‘Você, Erzsébet, é como um animal selvagem. Você está nos últimos meses de sua vida. Você não merece respirar o ar da terra ou ver a luz do Senhor. Você deve desaparecer deste mundo e nunca mais reaparecer nele. À medida que as sombras a envolvem, você devia encontrar tempo para arrepender-se de sua vida bestial.’

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

Confinamento e morte


Erzsébet foi confinada em seus aposentos. Seu quarto foi todo emparedado, exceto por pequenas fendas para entradas de ar e alimentos. Sem poder praticar seus rituais de sangue e bruxaria, Erzsébet entrou em depressão profunda e morreu três anos depois, durante o verão de 1614. Um dos guardas olhou pela fenda e viu seu prato de comida intacto. Olhou para o lado e a viu deitada de bruços no chão.

Os homens derrubaram as paredes e pegaram o seu corpo. Diz a lenda que eles encontraram um bilhete que datava do dia 29 de dezembro de 1610, um dia antes de Thurzo entrar no castelo e descobrir a carnificina. No bilhete, ela invocava o poder das trevas para enviar 99 gatos para arrancar os corações dos seus acusadores e dos juízes que a julgariam. Ao ler o bilhete, o pastor local (o mesmo que acompanhou Thurzo no dia da prisão da condessa) lembrou-se imediatamente da quantidade de gatos vistos dentro do castelo naquela noite.

“A morte da Senhora Nadasdy já era esperada, ela inesperadamente desistiu de sua vida. À noite, ela disse ao guarda: ‘Olhe como minhas mãos estão frias!’. O guarda disse a ela: ‘Não é nada Senhora. Basta ir e deitar-se’. Ela então foi dormir. Ela pegou o travesseiro que estava sobre sua cabeça e colocou-o sobre seus pés. Ela dormiu e morreu nesta noite. De manhã, foi achada morta. Os guardas disseram que ela rezou, implorando e louvando a Deus com bonitos cantos. Quanto ao seu funeral, nós ainda não temos informações… ”

[Carta de Stanislas Thurzo, endereçada ao seu irmão, o Primeiro Ministro György Thurzó]

Lenda e Realidade


Os serial killers tem a necessidade de possuir o corpo de suas vítimas, seja pela prática do vampirismo, canibalismo ou da necrofilia. O notável em Erzsébet é que ela é uma das poucas serial killers mulheres da história que praticaram vampirismo e canibalismo em suas vítimas.

Após sua morte, espalharam-se dezenas de boatos sobre o seu comportamento. O que chega a nós hoje é uma mistura de realidade, superstições, mitos e lendas. Alguns autores declaram enfaticamente que Erzsébet massacrava suas vítimas para que ela pudesse realizar o seu tratamento de beleza. Michael Wagener diz:

“Erzsébet tinha o costume de se vestir bem, afim de agradar ao seu marido. Ela passava quase a metade do dia no banheiro. Em uma ocasião, uma funcionária estava penteando o seu cabelo quando a escova prendeu. Erzsébet atacou sua criada até o seu sangue espirrar em suas mãos. Depois que o sangue secou, ela percebeu que sua pele parecia muito mais bonita, mais branca, mais transparente nos pontos onde o sangue tinha pingado.”

Ela então começou a banhar no sangue de suas vítimas em uma banheira no seu castelo. O motivo dos crimes seria sua preocupação extrema com a juventude eterna. Wagener diz:

“Erzsébet criou uma rotina de banhar o seu rosto e todo o seu corpo com sangue humano, de modo a realçar ainda mais a sua beleza. Seus criados preparavam a banheira as quatro horas da manhã. Após o banho, ela parecia mais vigorosa e mais bonita do que antes”.

Essa história ganhou notoriedade ao longo dos séculos, sendo a mais contada por escritores, mas não há nada, nenhum documento ou texto que comprove essa história. Nunca saberemos. O COBSAE, grupo dedicado a estudar o caso, diz em seu site que: “Erzsébet nunca banhou no sangue de suas vítimas (aprenda como a lenda começa)”.

No início dos anos 80, o professor de História do Leste Europeu e especialista em histórias de horror, Raymond McNally, viajou até a Eslováquia para examinar os resquícios dos registros do tribunal que condenou a condessa e seus cúmplices em 1611. McNally não encontrou nada nos documentos que mencionasse que a condessa banhava no sangue de suas vítimas, mas ao invés disso comprovou alguns fatos, como as mordidas que a Condessa infligia em suas vítimas até que suas carnes fossem arrancadas.

“Infelizmente para os vampiros obsessivos entre nós, isso certamente não é verdade [banhos de sangue]. Nenhum dos criados que testemunharam contra Erzsébet mencionou qualquer quase sobre a condessa tomando banho em sangue. De fato, o que eles mencionaram é que tanto sangue foi derramado durante as sessões de tortura que ele poderia ter sido retirado do chão, o que significa que Erzsébet não parecia muito preocupada em coletar – muito menos banhar – o precioso sangue que derramava de suas vítimas. A primeira menção de seus banhos de sangue apareceu mais de um século após sua morte, em um livro de 1729 chamado Tragica Historia, escrito por um estudioso jesuíta depois que ele descobriu as transcrições do julgamento de Báthory.”

[Tori Telfer – Lady Killers: Deadly Women Killers Throughout History]

Raymond McNally (1931-2002). Um dos maiores especialistas em histórias de horror, era também um dos maiores especialistas no Príncipe romeno Vlad III, o Drácula. Escreveu vários livros, dentre eles: “Drácula é Uma Mulher: Em Busca da Condessa De Sangue da Transylvania”, “Na Busca Por Drácula”, “A Essência de Drácula”, “Drácula: Uma Biografia de Vlad, O Empalador”. 

Como dito, não há nenhum documento que mencione o bizarro comportamento de banhar em sangue humano, é muito mais provável que Erzsébet tivesse um enorme prazer em ver sangue, e o usava em seus rituais e cerimônias de bruxaria. Alguns autores, porém, dizem que esse comportamento da condessa foi retirado dos registros do julgamento para que a nobreza húngara não caísse em descrédito e e, também, para preservar a própria família Báthory, uma família de príncipes e reis.

De uma forma ou de outra, com seus cerca de 600 assassinatos, Erzsébet entrou para a história como uma das assassinas mais sanguinárias já registradas na história da humanidade.

Em 1744, o Padre Laslo Turáczi publicou um relato histórico da Hungria, o qual incluía Erzsébet. Ele se baseou em documentos oficiais, bem como em lendas e folclore para escrever o seu conto. Nele, o padre fala sobre lobisomens, bruxas e vampiros (alguém leu o post Serial Killers – Anatomia do Mal?). No entanto sabemos que a Igreja Católica beneficiou-se durante séculos dessas histórias de lobisomens, bruxas e vampiros para “doutrinar” os fiéis e mostrar-lhes a diferença entre Deus e Satã. O conto do padre sobre esses seres é bastante suspeito por ser tendencioso aos ideais da Igreja. Seu livro apareceu na Europa em uma época em que havia um medo generalizado de vampiros. Como grande parte do conto foi “embelezado”, é difícil dizer o que é verdade e o que é lenda.

Não sabemos se Erzsébet Báthory banhou-se em sangue e não sabemos também se ela estava obcecada com sua juventude. O que sabemos é que ela tinha uma fúria enorme, certamente podemos dizer que ela foi uma pessoa sanguinária, mesmo em uma época em que aristocratas raramente eram repreendidos por seus atos. Mesmo desconsiderando a maioria dos contos e lendas existentes sobre ela, as evidências do desaparecimento de centenas de garotas, o testemunho dos sobreviventes e a descoberta de restos humanos por todo o seu castelo servem para termos certeza absoluta de que as acusações de assassinatos e tortura extrema realmente foram reais.

Em relação aos que sustentam que a prisão da condessa foi política, Tori Felfer diz que:

“O argumento de que o rei queria aproveitar a riqueza de Erzsébet e cancelar seu débito com os Nadásdy-Báthorys também não se sustenta, porque quando Nádasdy morreu, seu filho de seis anos se tornou, no nome, o proprietário das propriedades e, quando fez catorze anos, na prática. Na época em que Erzsébet foi presa, ela não mais possuía essas vastas faixas de terras Nádasdy-Báthory, e o rei teria que prender toda a família para reivindicar sua fortuna e cancelar sua dívida. Além disso, de acordo com as regras do Tripartitum, Thurzó não podia obter ganhos materiais e financeiros ao processar Erzsébet, então ele podia enquadrá-la se o objetivo fosse apenas enriquecer.”

Erzsébet Báthory foi enterrada em solo sagrado, mas seu corpo foi posteriormente removido após moradores se queixarem, e levado para a cripta dos Báthory. A cripta foi aberta em 1995. Nenhum resto de Erzsébet foi encontrado.

O Castelo de Cachtice


Na foto: Placa informando a direção para o castelo de Cachtice, lar da Condessa Sanguinária. Fonte: bathory.org

Placa informando a direção para o castelo de Cachtice, lar da Condessa Sanguinária. Fonte: bathory.org.

Na foto: A entrada principal do castelo. Fonte: bathory.org

A entrada principal do castelo. Fonte: bathory.org.

Foto tirada pela equipe da Discovery Channel em 2001. Primeira vista subindo a colina do castelo de Cachtice. O lar da Condessa Erzsébet Báthory.

Tirada Pela Equipe da Discovery Channel em 2001. A Torre da Morte – Castelo de Cachtice. O lar da Condessa Erzsébet Báthory.

Castelo de Cachtice. O lar da Condessa Erzsébet Báthory. Vista de baixo da colina.

Castelo de Cachtice. O lar da Condessa Erzsébet Báthory. Vista superior.

Na foto: A torre da morte do castelo de Erzsebet Báthory. Fonte: bathory.org

A torre da morte do castelo de Erzsebet Báthory. Fonte: bathory.org.

Na foto: Por uma janela do castelo é possível ver a cidade abaixo. Fonte: bathory.org

Por uma janela do castelo é possível ver a cidade abaixo. Fonte: bathory.org.

Filmes


A Condessa de Sangue

Cena do filme “A Condessa de Sangue”. Título Original: Báthory. Lançado em 2009.

Dirigido pelo eslovaco Juraj Jakubisko com Anna Friel interpretando a Condessa Erzsébet Báthory. Com um visual muito bonito e um bom retrato de época, o filme de Jakubisko não passa apenas de um bom entretenimento. Totalmente tendencioso, o filme lança uma versão de que Erzsébet foi alvo de uma conspiração de Thurzo para tomar suas terras e por não ter seu amor correspondido. Essa linha do diretor pra mim nada mais é do que uma estratégia para vender o filme. O pior foi a inserção do pintor italiano Caravaggio. Quem conhece um pouco de história sabe que Caravaggio nunca foi a Hungria. Na película ele acaba sendo o grande amor da Condessa. A Condessa, aliás, deve ter se revirado em seu túmulo ao saber do filme. Uma das mulheres mais poderosas da Hungria e que era mais rica do que o próprio Rei, foi reduzida como uma metáfora de fraqueza. O filme deve ser visto apenas como uma obra de ficção, nada mais. Como disse anteriormente no post sobre Jack, O Estripador, as pessoas vêem filmes e acham que o mistério está solucionado. Não caia nessa!

O filme A Condessa de Sangue pode ser visto no Youtube.

A Condessa

A Condessa. Título Original: The Countess. Lançado em 2009.

Um outro filme sobre a Condessa Erzsébet Báthory foi lançado em 2009. Assim como o filme A Condessa de Sangue, esse filme mistura de lenda e ficção, mas ao contrário do primeiro, não desconstrói totalmente os mitos em torno de Erzsébet, mas peca ao retratar suas atrocidades como uma resposta a um amor não correspondido. Mais uma vez, veja o filme pelo prisma da sétima arte.

Ópera


Em 2011, o compositor Dennis Báthory-Kitsz (que diz ser descendente de Erzsébet) lançou a ópera “Erzsébet – The Blood Countess Saga”. O compositor, que começou a rascunhar a ópera em 1987, explora a questão: Foi Ezsébet a pior serial killer da história? Ou ela foi vítima de uma conspiração? Lisa Jablow, uma notável soprano, interpreta Báthory. A primeira parte da ópera pode ser vista abaixo.

Informações


Nome: Erzsébet Báthory

Conhecida como: A Condessa Sanguinária, A Condessa Sanguinária de  Cachtice

Nascimento: 07 de Agosto de 1560. Nyírbátor, Hungria

Morte: 21 de Agosto de 1614 (54 anos). Csejte, Reino da Hungria. Hoje  Cachtice, Eslováquia.

Captura: 30 de dezembro de 1610

Acusação: Tortura e assassinato

Número de Vítimas: 80 confirmadas. Estimativas são de que Erzsébet matou mais de 650 mulheres.

Pena: Prisão perpétua

Período: 1590 a 1610

País: Hungria

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

Fontes consultadas: True Vampires in History (Donald Glut), Dracula was a Woman: In Search of the Blood Countess of Transylvania (Raymond McNally), The Bloody Countess: Atrocities of Erzsébet Báthory (Valentine Penrose), Crime Library, bathory.org, infamouslady.com, The Telegraph.

Colaboração:


Revisão por:

isabella

Curta O Aprendiz Verde No Facebook

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
DarkSide Books

RELACIONADOS

Dupla Identidade – Bruno Gagliasso

Glória Perez

Ilana Casoy

OAV TV

OAV TV

Queremos Você!

Queremos Você!

O Aprendiz Verde no Whatsapp!

OAV no Whatsapp

Siga-nos no Facebook!

Siga-nos no Twitter!

21 Anos de Arquivo-X

20 Anos da Execução de Andrei Chikatilo

20 Anos da Execução de John Wayne Gacy

O nascimento de um serial killer

Categorias

Contribua com O Aprendiz Verde!

Bate-Papo

Blogs Brasil

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers

Receba nosso conteúdo no WP
Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers

Receba nosso conteúdo no WP