Serial Killers: O Assassino da Fazenda dos Porcos

Vancouver, Columbia Britânica. Canadá. 1981 A adolescente Janet Henry, de 14 anos desaparece sem deixar rastros. Sua família em desespero comunica o desaparecimento à  polícia. Os detetives do Departamento...
Serial Killers - O Assassino da Fazenda dos Porcos
Serial Killers - O Assassino da Fazenda dos Porcos - CapaO Assassino da Fazenda dos Porcos

Vancouver, Columbia Britânica.

  • Canadá. 1981

A adolescente Janet Henry, de 14 anos desaparece sem deixar rastros. Sua família em desespero comunica o desaparecimento à  polícia. Os detetives do Departamento de Polícia de Vancouver começam a investigar o desaparecimento mas não encontram nenhuma pista do que poderia ter acontecido com a garota. Sequestro? Assassinato? 

Os detetives imaginam que ela poderia ter fugido de casa, algo comum entre adolescentes, mas a família nega, Janet nunca nem dormira em casa de amigos. Alguns dias depois do desaparecimento, a polícia liga para a família de Janet com uma notícia: Janet Henry foi encontrada viva, perambulando por um bairro periférico da cidade de Vancouver. O que teria acontecido com ela? 

Janet não se lembrava de nada. Lembrava apenas de ter saído do colégio e pouco depois lembrava de um homem parando um carro ao lado dela a oferecendo carona. Quando os policiais a encontraram ela parecia ter sido dopada. Um exame médico confirmou algumas suspeitas da polícia: Janet fora mesmo dopada e estuprada durante três dias. Que tipo de monstro poderia ter feito isso com Janet? A resposta viria só alguns meses depois.

Vancouver, Columbia Britânica.

  • Canadá. Agosto de 1981

O Canadá inteiro está parado, o Departamento de Polícia de Vancouver com mais de 100 detetives trabalhando 24 horas por dia sem descanso e a imprensa só fala de uma coisa: “A Besta da Columbia Britânica”.

Conhecido como A Besta da Columbia Britânica, o serial killer canadense foi preso em 12 de agosto de 1981 pelo assassinato de duas crianças e nove jovens. Foi condenado a 11 prisões perpétuas. Ficou famoso no mundo inteiro depois de dar uma entrevista a um jornalista em que disse: “Hannibal Lecter é fictício. Eu sou real!”. Tem hoje 71 anos. Teve todos os seus pedidos de clemência negados, o último em novembro de 2010. Dez meses depois, aos 71 anos, o serial killer faleceu de câncer.

A Besta da Columbia Britânica foi o nome dado pela imprensa a um terrível serial killer que apenas no mês de julho de 1981 matou seis adolescentes com idades entre 09 e 18 anos, mais de uma vítima por semana. Mas o rastro de morte do serial killer vinha desde dezembro de 1980. O Canadá inteiro estava de olho na Polícia de Vancouver, o serial killer deveria ser parado imediatamente, sua sede de sangue mostrada no mês de julho parecia mostrar que ele não pararia de matar até ser pego.

E em 12 de Agosto de 1981, a policia de Vancouver prendeu Clifford Olson, 41 anos, como o suspeito de ser a Besta da Columbia Britânica. Poucos dias depois, Olson confessou todos os seus 11 assassinatos.

Olson tinha uma extensa carreira criminosa e em dado momento confessou que foi ele quem sequestrou e estuprou a adolescente Janet Henry. Os motivos pelos quais Clifford Olson deixou Janet com vida ainda são um mistério. Por uma ironia podemos dizer que Janet teve um destino muito melhor do que as outras vítimas de Olson: apesar dela ter sido molestada sexualmente e de ter sofrido nas mãos do psicopata, ela saiu com vida.

  • Janet Henry

A caçula de uma família de 11 irmãos, Janet Henry era uma menina tímida e sensível. Depois do estupro cometido pelo serial killer Clifford Olson passou a sofrer de crises do pânico. A pobre garota parecia não ter sorte na vida. Em meados dos anos 90 namorou um rapaz que a introduziu para o mundo das drogas. Passou a frequentar as ruas de Vancouver para sustentar o seu vício.

Existe um ditado que diz que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Por alguns fatos da vida que as vezes chegam ao nosso conhecimento sabemos que esse ditado não pode ser levado ao pé da letra. Mas agora eu lhes pergunto: Qual seria a chance de uma pessoa que foi vítima de um serial killer e escapou e tempos depois ser vítima novamente de um outro serial killer?? Muito difícil, senão impossível. Um roteiro de filme alguns podem dizer. Mas nossa história de hoje mostra que coincidências macabras podem sim acontecer, e a uma mesma pessoa.

Janet Henry sobreviveu ao ataque de um letal serial killer em 1981. Tempos depois ela encontraria um novo predador nas ruas de Vancouver, mas dessa vez, Janet Henry não teria tanta sorte.

A Cidade de Vancouver, Canadá

Vancouver no Canadá é simplesmente a melhor cidade para se viver em todo planeta. É referência mundial em saúde, cultura, entretenimento, educação e infraestrutura. É uma das poucas cidades que conseguiu alinhar desenvolvimento com natureza. Suas montanhas e parques são opções certas para aqueles que gostam de natureza e esportes radicais. Não é a toa que pessoas do mundo inteiro vão à Vancouver tentar a vida. É inclusive um dos destinos preferenciais de brasileiros que vão para o exterior, seja para estudar, seja para trabalhar.

Mas nem tudo são um mar de rosas em Vancouver. Inserido em um cartão postal de prosperidade e beleza, está um dos locais mais pobres e sujos de toda América do Norte: Downtown Eastside.

Downtown Eastside é o bairro mais pobre da Columbia Britânica (a terceira maior província do Canadá e onde se situa a cidade de Vancouver). Nenhuma outra favela ou gueto no país faz frente à miséria desse bairro de 10 quadras. Hotéis e lojas degradadas, calçadas sujas e manchadas, calhas e vielas cheias de lixo, com preservativos e agulhas espalhados por todos os lugares. Os moradores que habitam essa área a chamam de Low Track.

Low Track é o fundo do poço. É o coração da cena criminosa da Columbia Britânica. Gangues de motociclistas asiáticos distribuem cocaína e heroína à luz do dia, defendendo seu território com armas e violência. A maioria das mulheres viciadas sustentam o seu vicio prostituindo-se, vagando pelas ruas à noite caçando criaturas também assombradas por suas próprias vidas. Sexo seguro é uma ilusão neste bairro, Low Track possui a maior taxa de HIV da América do Norte.

Na foto: Downtown Eastside. Créditos: frimminjimbitsNa foto: Downtown Eastside. Créditos: frimminjimbits.
Na foto: Fachada de um prédio em Downtown Eastside. Créditos: boppin.comNa foto: Fachada de um prédio em Downtown Eastside. Créditos: boppin.com.
Na foto: Homem usando drogas em Downtown Eastside. Créditos: benmills.ca/Na foto: Homem usando drogas em Downtown Eastside. Créditos: benmills.ca/

A história recente de Low Track é um conto implacável sobre o fracasso. Em 1986, Vancouver recebeu 22 milhões de turistas atraídos pela Exposição Mundial de Transporte e Comunicação, mas grande parte desses turistas não eram executivos e nem pessoas importantes do mundo da comunicação. Atraídos pela perspectiva de dinheiro fácil, milhares de pessoas pobres e desempregadas chegaram à Vancouver na esperança de se darem bem com a exposição, a grande maioria passou a vagar em torno de Low Track. Na mesma época, a concorrência entre os cartéis de drogas inundou as ruas da cidade de Vancouver com viciados, bandidos e prostitutas. Leis foram criadas para tirar as prostitutas das ruas.  Elas então fora mmpurradas para locais como Burnaby (uma província ao norte de Vancouver) e Low Track. Em 1994, durante uma crise no país, o governo federal cortou gastos com programas de assistência, o que agravou a situação nas áreas mais degradadas das grandes cidades, doentes mentais saíam dos hospitais psiquiátricos e eram despejados nas ruas e mães de família passavam a se prostituir para sustentar a casa. Em 1997, um quarto dos moradores de Low Track tinham HIV, muito por causa do sexo sem cuidados e do compartilhamento de seringas de injeção de drogas. Quando o governo canadense decidiu agir já era tarde demais, programas de trocas de seringas não conseguiam conter a disseminação das doenças apesar da distribuição de 2.8 milhões de agulhas apenas em Low Track a cada ano.

Serial Killers - O Assassino da Fazenda dos Porcos - Expo86Na foto: A Exposição Mundial de Transporte e Comunicação de 1986 (ou somente Expo 86) foi uma exposição mundial em Vancouver, Canadá, entre os meses de maio a outubro de 1986. A Expo 86 foi aberta em 2 de maio pelo Príncipe Charles, Princesa Diana e o Primeiro Ministro do Canadá Brian Mulroney. Ela apresentava pavilhões de 54 nações e diversas corporações. Foi classificada como classe II, ou exibição especializada, refletindo sua ênfase específica em transporte e comunicação. Créditos: Wikipedia

Low Track tem uma infâmia fama por ser o lugar das “crianças perdidas”, com prostitutas muito jovens de até 11 anos de idade. Algumas delas trabalham nas ruas, enquanto outras trabalham para seus cafetões. Novos moradores chegam a Low Track todos os dias, fugitivos e criminosos procurados pela polícia são os mais comuns. Em 1995, uma pesquisa revelou que 73% das mulheres entraram para o mundo da prostituição quando crianças e o mesmo percentual eram mães solteiras, com três filhos cada. Dessas, 90% haviam perdido a custódia dos seus filhos para o estado, menos da metade sabiam onde seus filhos estavam. Mais de 80% das prostitutas de Low Track haviam nascido fora de Vancouver.

Em 1998, os números chegavam a uma morte por dia por overdose de drogas, o maior número na história do Canadá.

Entretanto, haviam outros perigos nas ruas de Low Track. Três anos antes da exposição de 1986 abrir as portas, prostitutas começaram a desaparecer misteriosamente. Ano após anos, mulheres desapareciam das ruas sem deixar vestígios. Mas alguém se importa?

Prostitutas são por natureza pessoas difíceis e explosivas. Muitas começam como adolescentes fugitivas e nunca perdem o hábito de fugir, mudando nomes e endereços tantas vezes que investigadores perdem esperanças de investigar o paradeiro de uma determinada prostituta. Quando prostitutas desapareçem, ninguem pode dizer com certeza se elas desapareceram por opção ou se foram vítimas de alguma ação criminosa.

No final das contas, ninguém sem importa. Nem no Canadá, nem no Brasil e muito menos na China.

Serial Killers - O Assassino da Fazenda dos Porcos - ProstitutaNa foto: Prostituta de Low Track. Créditos da foto: trevorbrady.com

Vancouver, Canadá.

  • Setembro de 1998

Um grupo ligado aos direitos humanos entra no Departamento de Polícia de Vancouver. Em mãos, eles tem uma lista com dezenas de nomes de mulheres desaparecidas da região de Low Track. O grupo exige da polícia canadense uma investigação imediata dos desaparecimentos. A lista é enviada para diversos jornais de Vancouver e a mídia sem perder tempo começa a noticiar o estranho sumiço de mulheres. Pressionados, o Departamento de Polícia de Vancouver decide agir.

Começava ai uma das investigações mais longas e difíceis de toda história do Departamento de Polícia de Vancouver. O que ninguém poderia suspeitar é que o desfecho dessa investigação deixaria todo um país em choque.

O Início das Investigações

  • Setembro de 1998

As buscas oficiais pelas mulheres desaparecidas de Vancouver começaram em setembro de 1998, após um grupo ligado aos direitos humanos entregarem uma lista à polícia de supostas vítmas assassinadas em Downtown Eastside. Apesar da repercussão do caso, a Polícia canadense num primeiro momento não deu muita importância para a lista de desaparecidas, talvez por achar que “procurar prostitutas” não fosse o trabalho da polícia e talvez também pela própria experiência policial.

Após examinarem a lista, o Departamento de Polícia de Vancouver fez um pronunciamento dizendo que algumas delas poderiam estar mortas por doenças ou overdose de drogas; outras deixaram Vancouver e fugiram para outras cidades.

Mas um detetive do Departamento de Polícia de Vancouver ficou intrigado com a denúncia. Dave Dickson começou a fazer uma investigação por conta própria seguindo a lista de prostitutas de Low Track que haviam desaparecido do mapa. Conversou com moradores e prostitutas. Ao final da sua investigação, Dickson tinha uma segunda lista, com dezenas de nomes de prostitutas desaparecidas. Ao apresentar sua investigação ao Departamento de Polícia, seus superiores concluíram que existiam nomes o suficiente para uma investigação mais detalhada. Uma força tarefa foi montada para investigar o caso.

O policial Dave Dickson. Reprodução Internet.

Com condecorações e menções honrosas aos seus serviços prestados, Dickson era um dos detetives mais conhecidos e respeitados do Departamento de Polícia de Vancouver. Foi autor de vários projetos sociais para diminuição da criminalidade em bairros violentos e aproximação da população à polícia. Entre os seus projetos está o The Hard Targeting Project, que tinha como objetivo juntar vários serviços sociais com ações estratégicas para prover informações à população e à polícia e o Safe Have Program, uma iniciativa criada por ele em 1999 para diminuir a criminalidade em Low Track. Aposentou em 2003, depois de 24 anos de serviço. Quis continuar seu trabalho como policial mas foi impedido pelo Departamento de Polícia de Vancouver. Em 2006, Dickson processou o Departamento de Polícia de Vancouver, a União dos Policiais de Vancouver e a Cidade de Vancouver por discriminação. Segundo Dickson, ele foi impedido de continuar seu trabalho policial por causa da sua idade.

A Lista

A polícia de Vancouver começou com a revisão de 40 casos de desaparecimentos não-solucionados de mulheres locais datados de 1971. Os desaparecimentos vinham de todos os lugares de Vancouver, mas na busca por um padrão, a lista foi reduzida a 16 prostitutas de Low Track, dadas como desaparecidas em apenas três anos (1995 a 1998).

Os investigadores descobriram que nos primeiros desaparecimentos, nenhum padrão foi perceptível. Rebecca Guno, 23 anos, foi vista pela última vez viva em 22 de junho de 1983, foi dada como desaparecida três dias depois. Muitas das mulheres desaparecidas em Downtown Eastside não estavam propriamente desaparecidas. Muitas só eram dadas como desaparecidas muitos anos depois, como no caso de Sherry Rail, 43 anos, que não foi reportada como desaparecida até três anos depois do seu sumiço em janeiro de 1984. Elaine Auerbach, 33 anos, disse a amigos que estava se mudando para Seatle em março de 1986, mas ela nunca chegou ao seu destino; foi dada como desaparecida em abril do mesmo ano. Teressa Ann Williams, 26 anos, foi vista viva pela última vez em julho de 1988; dada como desaparecida em março de 1989. Catorze meses se passaram do desaparecimento da doente mental Ingrid Soet, 40 anos, até ser dada como desaparecida em outubro de 1990. Kathleen Wattley, 39 anos, desapareceu em junho de 1992, e foi dada como desaparecida em 29 do mesmo mês. 

Na foto: Rebecca Guno, Sherry Rail, Elaine Auerbach, Teressa Ann Williams, Ingrid Soet e Kathleen Wattley.

Depois do desaparecimento de Kathleen Wattley em 1992, os investigadores observaram uma lacuna no tempo: não houve reportagem de desaparecimentos em 1993 e em 1994. Mas em 1995 novas mulheres começaram a desaparecer.

Catherine Gonzales, 47 anos, sumida em março de 1995 e reportada como desaparecida em 9 de fevereiro de 1996. A segunda vítima no ano, em abril, Catherine Knight, 32 anos, desapareceu sete meses antes da polícia reportar seu desaparecimento em 11 de novembro. Dorothy Spence, 36 anos, desaparecida quatro meses depois de Catherine Knight, em agosto de 1995, mas seu desaparecimento foi reportado antes, em 30 de outubro. A última vítima do ano foi Diana Melnick, 23 anos, desaparecida em dezembro, reportada como desaparecida no dia 29 do mês.

Na foto: Catherine Gonzales, Catherine Knight, Dorothy Spence e Diana Melnick.

Em 1996, mais uma vez, o número de mulheres desaparecidas foi baixo. Tanya Holyk, 24 anos, desapareceu em outubro de 1996, reportada desaparecida em 3 de novembro. Olivia Williamns, 22 anos, desapareceu em dezembro de 1996 e foi ignorada até 4 de julho de 1997.

Em 1997, os desaparecimentos começaram com Stephanie Lane, 20 anos. Ela foi hospitalizada em 10 de março de 1997 por overdose de drogas. Teve alta no dia seguinte e foi vista viva pela última vez no Hotel Patricia na Rua Hastings. Janet Henry, a nossa personagem do começo do post, desapareceu em 28 de junho de 1997, dois dias depois de seu último contato com parentes.

Na foto: O Hotel Patrícia que fica na Rua Hastings número 403, Downtown Eastside. Aqui, Stephanie Lane foi vista pela última vez antes de desaparecer misteriosamente em 1997.
Na foto: Tanya Holyk, Olivia Williams, Stephanie Lane e Janet Henry.

O mês de agosto de 1997 foi o mês mais letal, três mulheres desapareceram embora a polícia só fosse ter conhecimento dos desaparecimentos após um ano. Marnie Frey, 25 anos, dada como desaparecida em 4 de setembro de 1998. Dezenove dias depois, em 23 de setembro, Helen Hallmark, 32 anos, desapareceu. Jacqueline Murdock, 28 anos, foi dada como desaparecida em 3 de outubro de 1998.

A lista de desaparecidas só crescia. Cindy Bec, 33 anos, desapareceu do mapa em setembro de 1997; seu desaparecimento foi relatado em 30 de abril de 1998, quatro meses antes da primeira desaparecida do mês de agosto, Andrea Borhaven. Ela desapareceu em 1997, porém só foi dada como desaparecida em 18 de maio de 1999, dois anos depois. Kerry Koski, 39 anos, desapareceu em janeiro de 1998 e foi reportada como desaparecida em 29 do mesmo mês.

Na foto: Marnie Frey, Helen Hallmark, Jacqueline Murdock, Cindy Bec, Andrea Borhaven e Kerry Koski.

Mais quatro sumiram em 1998. Jacqueline McDonnell, 23 anos, desapareceu em janeiro de 1998, oficialmente dada como desaparecida em 22 de fevereiro de 1999. Inga Hall, provavelmente 46 anos, foi vista pela última vez em fevereiro de 1993, dada como desaparecida em 3 de março. Sarah Jane de Vries, 29 anos, vista pela última vez em 14 de abril de 1998, dada como desaparecida no mesmo dia por amigos. Sheila Egan, prostituta desde os 15 anos, desaparecida em 20 de julho de 1998, dada como desaparecida em 5 de agosto do mesmo ano.

Na foto: Jacqueline McDonnell, Inga Hall e Sheila Egan.

 

Na foto: Sarah Janes de Vries. Sarah deixou para trás um diário escrito com observações sobre sua vida sofrida: “Eu acho que o meu ódio vai ser o meu destino, minha execução”, disse ela.

A Investigação Continua

A esta altura os detetives do Departamento de Polícia de Vancouver estavam confusos. Não tinham a mínima ideia do que poderia estar acontecendo às prostitutas de Low Track. Mas a grande verdade é que a Polícia não estava totalmente interessada nesses desaparecimentos. O departamento de polícia montou uma força tarefa para investigar esses casos apenas para dar uma satisfação à sociedade e aos grupos de direitos humanos que faziam pressão. Os detetives investigavam, mas de maneira separada e pouco eficiente.

Entretanto, a investigação de um criminólogo do Departamento de Polícia de Vancouver daria um novo rumo às investigações e criaria divergências dentro do próprio departamento.

A Teoria de Kim Rossmo

O inspetor e criminólogo do Departamento de Polícia de Vancouver, Kim Rossmo, achou bastante estranho o desaparecimento das mulheres e criou um perfil geográfico, que consistia de um mapa de crimes não resolvidos, destinado a descobrir qualquer padrão ou assinatura criminosa ignorada pelos detetives que investigaram os casos de forma separada.

  • O chamado Perfil Geográfico é uma metodologia de investigação criminal que analisa as localizações de uma série de crimes ligados uns com os outros para determinar a área mais provável da residência do criminoso ou assassino. Essa metodologia é normalmente utilizada em casos de assassinatos em série ou estupro (mas também bombardeio, incêndios, roubo e outros crimes). A técnica ajuda os detetives da polícia a priorizarem informações fornecidas em grande escala, oriundas de investigações que envolvem centenas ou milhares de suspeitos e pistas.

Em maio de 1999, Rossmo relatou uma concentração incomum de desaparecimentos em Downtown Eastside. E para Rossmo, esses desaparecimentos eram frutos da ação de um único criminoso, ou seja, havia um serial killer agindo em Downtown Eastside.

A teoria de Rossmo, que ligava o desaparecimento de prostitutas à ação de um serial killer deixou alguns membros do Departamento de Polícia de Vancouver bastante raivosos.

“Não estamos de nenhuma maneira dizendo que há um serial killer lá fora. Não estamos de maneira nenhuma dizendo que todas essas mulheres desaparecidas estão mortas. Nós não estamos dizendo nada disso”, disse na época um dos inspetores chefe, Gary Greer, à imprensa canadense.

Na foto: O inspetor Kim Rossmo.

Criminólogo, Rossmo entrou para o Departamento de Polícia de Vancouver em 1978. Em 1987 recebeu o título de mestre em criminologia pela Universidade Simon Fraser e em 1995 tornou-se o primeiro policial do Canadá a ter doutorado. Em sua tese de doutorado desenvolveu uma ferramenta computadorizada para elucidação de crimes como estupro, assassinatos em série, incêndios e roubos, chamada Perfil Geográfico. A ferramenta ganhou muitos prêmios e é largamento utilizada hoje pelo FBI e países da União Européia. Por esse feito foi promovido a detetive inspetor em 1995 coordenando um departamento próprio onde ele utilizava sua ferramenta para elucidação de crimes.

Clique aqui e veja um artigo escrito por Rossmo sobre sua ferramenta.

A promoção de Rossmo a detetive inspetor em 1995 não foi bem recebida por alguns membros da polícia. Alguns superiores e outros inspetores não gostaram nenhum pouco de sua promoção. Rossmo foi promovido devido ao seu doutorado bem sucedido e isso era difícil para alguns policiais que ficavam uma vida inteira dentro da Polícia para serem promovidos. E foi por essas intrigas e ciúmes que a polícia descartou o padrão de Rossmo. Começava ai uma guerra interna no Departamento de Polícia de Vancouver entre Rossmo e outros membros do departamento. Apesar de estarem investigando os desaparecimentos, para a polícia de Vancouver, a imprensa e os grupos de direitos humanos estavam fazendo uma tempestade em copo d’água, o mais provável era que as prostitutas tivessem saído da cidade em busca de novas oportunidades.

Discussões internas não eram o único problema enfrentado pelos investigadores na busca pelas mulheres desaparecidas de Low Track. Primeiro, o Sistema de Crimes Violentos canadense não inseria pessoas desaparecidas sem alguma evidência ou indícios de crime, portanto, o banco de dados do sistema não poderia ser utilizado para ajudar nas investigações. Segundo, a polícia não tinha nenhum corpo ou cena de crime, nem mesmo uma data específica para os desaparecimentos, evidências forenses então nem pensar. E isso dificultava a investigação. Terceiro, cafetões e prostitutas naturalmente não cooperavam com os investigadores com medo de serem presos. Essa situação era tão dramática que em dado momento da investigação, os policiais identificaram um homem que assaltou várias prostitutas em dois meses, mas nenhuma das vítimas deu queixa. Elas eram assaltadas, molestadas e sofriam abusos, mas não iam à polícia de jeito nenhum. As pistas e os recursos da polícia eram escassos e a mídia cada vez mais dava atenção ao caso. Em 12 de maio de 1999, uma passeata com 400 pessoas foi organizada por familiares e amigos das mulheres desaparecidas de Low Track. Cantando, carregando flores, velas acesas e cartazes com dizeres como:“Achem as mulheres agora”, a passeata marchou até o Parque Crab.

Na foto: A marcha dos familiares das mulheres desaparecidas de Downtown Eastside.
Na foto: A porta-voz do grupo Libby Davies.

Ainda assim, com o que tinham, os detetives continuaram as investigações. Em junho de 1999 eles se reuniram com parentes de dezenas de mulheres desaparecidas, em busca de informações que pudessem dar alguma luz ao caso. Material de DNA foram coletados para possíveis identificações futuras. Bancos de dados da polícia e de hospitais foram revistos por todo Canadá e, também, Estados Unidos, assim como asilos, instituições de doentes mentais e doentes de AIDS e clínicas de reabilitação de dependentes químicos. Os registros do Cemitério Glenhaven foram examinados, remontando a 1978. Dessas investigações, a polícia descobriu que em Edmonton, Alberta, havia 12 assassinatos de prostitutas não resolvidos entre 1986 e 1993. Outras quatro foram mortas e encontradas em Agassiz, em 1995 e 1996, mas nenhuma delas estava na lista das mulheres desaparecidas de Low Track.

As buscas continuavam a cada dia, mas os investigadores estavam literalmente no escuro, como se estivessem vendados sem saber para onde ir.

Mulheres não param de desaparecer

Quatro outras prostitutas desapareceram em Downtown Eastside enquanto a força tarefa fazia as investigações nos últimos três meses de 1998. Julie Young, 31 anos, foi vista pela última vez em outubro. Ela foi reportada como desaparecida em 1 de junho de 1999. Angela Jardine, 28 anos, uma doente mental, desapareceu em novembro de 1998; foi reportada como desaparecida em 6 de dezembro. Michelle Gurney, 30 anos, desapareceu em dezembro, reportada como desaparecida em 22 de dezembro. Marcella Creison, 20 anos, saiu da cadeia em 27 de dezembro de 1998, mas nunca apareceu no apartamento em que sua mãe e seu namorado à esperavam para um jantar em comemoração ao Natal. A polícia a colocou na lista em 11 de janeiro de 1999.

Na foto: Julie Young, Angela Jardine, Michelle Gurney e Marcella Creison.

Anos 2000

Os anos 2000 começaram como um pesadelo para a polícia de Vancouver. Após dois anos de investigações, a lista inicial de 16 prostitutas já havia aumentado para 54. Oitenta e cinco investigadores trabalhavam no caso. Alguns dos desaparecimentos datavam de meados dos anos 80, e apenas naquele momento, quase que 20 anos depois, as mulheres foram dadas como desaparecidas.

Leigh Miner foi vista pela última vez em dezembro de 1984. Laura Mah desapareceu em 1985. Já outras mulheres, os policiais não tinham nenhum dado, era como se elas tivessem evaporado. Nancy Clark, Elsie Sebastien, Angela Arsenault e Frances Young presumivelmente desapareceram em algum lugar dos anos 80 ou 90.

Na foto: Leigh Miner, Laura Mah, Elsie Sebastien, Angela Arsenault e Frances Young.

Outras três mulheres que haviam desaparecido em 1997 foram inseridas na lista. Maria Laliberte, 52 anos, foi vista pela última vez em Low Track no dia de ano novo. A outras duas vítimas, Cindy Feliks e Sherry Irving, a polícia não tinha a mínima ideia do dia exato do desaparecimento.

Wendy Crawford, Jennifer Furminger e Georgina Papin desapareceram em 1999, mas só foram inseridas na lista em março de 2000. Um mês depois, em 25 de abril de 2000, os detetives reconheceram o desaparecimento de Brenda Wolfe, 32 anos, em fevereiro de 1999.

Quanto mais a investigação se aprofundava, mais mulheres desaparecidas eram descobertas e mais perdida parecia a investigação. Mas eles continuavam, e quanto mais eles continuavam, mais mulheres eram colocadas na lista.

Dawn Cry, 42 anos, foi vista pela última vez em 1 de novembro de 2000, dada como desaparecida em 11 de dezembro. Debra Lynn Jones, 43 anos, desapareceu em 21 de dezembro de 2000, foi colocada na lista em 25 de dezembro.

Na foto: Maria Laliberte, Cindy Feliks, Sherry Irving, Wendy Crawford. Abaixo: Jennifer Furminger, Georgina Papin, Brenda Wolfe, Dawn Cry e Debra Lynn Jones.

O ano de 2001 começava com mais desaparecidas:

  • Patricia Johnson, 25 anos, desaparecida em 27 de fevereiro de 2001;
  • Yvonne Boen, 34 anos, desaparecida em 16 de março de 2001;
  • Heather Bottomley, 24 anos, desaparecida em 17 de abril de 2001;
  • Heather Chinnock, desaparecida em abril;
  • Angela Josebury, desaparecida em junho;
  • Sereena Abotsway, desaparecida em julho;
  • Diane Rock, 34 anos, desapareceu em 19 de outubro de 2001;
  • Mona Wilson, 26 anos, vista pela última vez em 23 de novembro de 2001.
Na foto: Patricia Johnson, Yvonne Boen, Heather Bottomley, Heather Chinnock. Abaixo: Angela Josebury, Sereena Abotsway, Diane Rock e Mona Wilson.

Suspeitas

A polícia de Vancouver não falava abertamente sobre os desaparecimentos. Oficialmente o Departamento de Polícia insistia na teoria de que as prostitutas mudaram para outras cidades ou morreram de doenças ou overdose de drogas e foram enterradas como indigentes.

Os desaparecimentos em Downtown Eastside datavam de duas décadas. A polícia de Vancouver começou a considerar a possibilidade de que algum assassino conhecido poderia estar envolvido nos desaparecimentos mais antigos.

  • O Assassino do Rio Verde

O primeiro suspeito nesse sentido foi um serial killer americano conhecido como “Assassino do Rio Verde” e “Homem do Rio”, acusado pela morte e desaparecimento de 49 mulheres, a maioria prostitutas, entre janeiro de 1982 e abril de 1984, em Washington, Estados Unidos. O Homem do Rio era também suspeito de outros 40 assassinatos no Condado vizinho de Snohomish. Os assassinatos pararam em 1984, deixando o FBI de mãos atadas. O Homem do Rio continuou matando por anos até que em 30 de novembro de 2001, através de um exame de DNA, o FBI prendeu Gary Leon Ridgway, 52 anos, e o acusou de ser o terrível serial killer que a anos matava impunemente. Na mesma época a polícia de Vancouver levantou as suspeitas de que Ridgway poderia estar envolvido nos desaparecimentos ocorridos no começo dos anos 80 em Low Track. Realmente ele havia visitado a cidade, mas nenhuma evidência que o ligasse aos desaparecimentos em Low Track foi encontrada.

Serial Killers - O Assassino da Fazenda dos Porcos -Gary RidgwayNa foto: Gary Ridgway. Créditos: serial killers wikia.

Conhecido como O Assassino do Rio Verde e o Homem do Rio, suas vítimas eram em sua grande maioria prostitutas que ele pegava na estrada Pacific Highway South, em Washington. Ele as estrangulava e descartava os corpos em volta do Green River (Rio Verde), em Washington. Muitas vezes voltava ao local e praticava necrofilia. “Matei tantas que perdi a conta”, disse ele certa vez. Ridgway lembrou e detalhou a morte de 71 mulheres, porém a polícia só conseguiu provas do assassinato de 49. A polícia estima que Gary Leon Ridgway tenha assassinado mais de 90 mulheres nos Estados Unidos.

  • O Assassino da Floresta Molalla

Outro suspeito foi o serial killer Americano Dayton Leroy Rogers, conhecido como “O Assassino da Floresta Molalla”. Seus assassinatos começaram em 1983 em Portland. Suas vítimas eram prostitutas e viciadas em drogas. Foi preso em 1987 e condenado a várias prisões perpétuas. A polícia de Vancouver chegou a considerá-lo suspeito nos desaparecimentos ocorridos nos anos 80, porém após um exame detalhado de seus passos, ele foi rejeitado como suspeito.

Na Foto: Dayton Leroy Rogers. Rogers era mecânico de motores, casado e tinha um filho. Pegava prostitutas nas ruas de Portland, levava para dentro da Floresta Molalla onde ele amarrava, estuprava e matava. Matou pelo menos 6. Foi condenado em 1989. Tem hoje 57 anos e está preso no Oregon.
  • O Assassino da Cara Feliz

Um outro serial killer que havia sido preso em 1995 e foi levantado pela polícia de Vancouver como possível suspeito em alguns desaparecimentos de Low Track foi Keith Hunter Jesperson, conhecido como “O Assassino da Cara Feliz”. Keith Hunter nasceu em 1956 em Chilliwack, uma cidade da Província da Columbia Britânica. Em 1990 começou um treinamento para entrar para uma das melhores polícias do mundo: a Royal Canadian Mounted Police. Mas um acidente o deixou incapaz para servir na polícia. Após isso Keith Hunter virou motorista de caminhão e saiu matando pelos Estados Unidos. Após uma verdadeira caçada, foi preso em Washington. Chegou a confessar 160 assassinatos descrevendo suas vítimas do sexo feminino como “pilhas de lixo”. Só que mais uma vez, a Polícia de Vancouver não achou nenhuma pista ou evidência que ligasse Keith Hunter a algum desaparecimento ocorrido em Low Track.

Keith Hunter JespersonNa Foto: Keith Hunter Jesperson.

Outros suspeitos considerados pela Polícia de Vancouver foram:

George Waterfield Russel. Um sinistro assassino afro-americano condenado à prisão pérpetua pelo  assassinato de três mulheres em 1990. Foi descartado pelo seu modus operandi. George envenenava e  mutilava suas vítimas em suas próprias casas, deixando-as posteriormente e posições sexuais bizarras em suas camas.

Robert Yates, condenado em outubro de 2000 pelo assassinato de 13 prostitutas em Washington, Estados Unidos e duas outras em um condado vizinho. Mais uma vez a polícia de Vancouver não achou nada que ligasse Yates a algum desaparecimento de Low Track.

John Eric Armstrong, um veterano da marinha americana preso em abril de 2000 por ter matado quatro prostitutas em Detroit. Entretanto, durante o interrogatório, confessou ter matado mais de 30 mulheres ao redor do mundo quando serviu na marinha. O FBI iniciou uma investigação internacional, descobrindo assassinatos de John na Tailândia, Honk Kong e Havaí, mas suas confissões excluíam Vancouver e nenhuma evidência foi encontrada que o ligasse aos desaparecimentos de Low Track

Ronald Richard McCauley, suspeito em potencial

Suspeitos nunca faltaram para a polícia. Na verdade, nesse mundo de prostitutas e drogas, o que não faltam são candidatos. Um problema muito comum nesses casos são os inúmeros suspeitos. E no caso das mulheres desaparecidas de Low Track, Ronald Richard McCauley foi um dos principais. Sentenciado a 17 anos de prisão em 1982, foi libertado em 14 de setembro de 1994. Em 1996 voltou para a prisão depois de praticar um assalto. Apesar de nunca ter sido acusado de assassinato, era considerado pela polícia de Vancouver como principal suspeito do assassinato de quatro prostitutas de Low Track em 1995 (ano em que estava solto). Três das vítimas foram achadas entre Agassiz e Mission, local onde Richard morava. As suspeitas recaíram sobre ele depois que ele pegou uma prostituta no Hotel Astoria em Vancouver. Ele a levou até um local a esmo onde a espancou e estuprou, deixando-a à beira da morte em um local perto de onde o corpo de uma prostituta assassinada havia sido encontrado poucos dias antes.

Um dos detetives do caso chegou a dizer na época “Eu acho que nós pegamos o cara.” Entretanto, exames de DNA só puderam ser feitos em 2001, e eles provaram que Richard não era o assassino. Uma ducha de água fria para os investigadores.

Afinal: É ou não um serial killer o responsável pelos desaparecimentos?

Quanto mais os detetives investigavam mais eles ficavam perdidos. A lista de mulheres desaparecidas não parava de crescer, a imprensa e os grupos de direitos humanos faziam uma pressão enorme e a população começava a querer uma resposta.

Kim Rossmo, um criminólogo respeitado no meio acadêmico comprou uma briga com todo um departamento e disse que havia um serial killer à solta. O mesmo pensava a imprensa. Jornais e revistas já publicavam matérias onde ligava os desaparecimentos à ação de um serial killer. Em junho de 2001, depois de vários atritos com superiores, Rossmo foi despedido sem justa causa. Em 26 de junho de 2001, ele foi à imprensa e disse o seguinte:

“Se acreditarmos com algum grau de probabilidade que há um predador responsável por 20, 30 mortes em um curto período de tempo, você acha que a resposta da polícia foi adequada? O inspetor Biddlecombe ameaçou interromper a investigação e não compartilhar informações. Se ele não gosta de mim tudo bem, mas ele está lidando com vidas… Eu falo a vocês que há um seril killer agindo em Downtown Eastside. Há 18 meses prostitutas vem desaparecendo sem parar. O departamento não dá a devida atenção porque são prostitutas, pessoas que eles consideram inferiores. Na verdade ninguém quer fazer nada”.

A declaração de Rossmo causou grande repercussão no Canadá. Na verdade o que todos já sabiam (que o Departamento de Polícia de Vancouver não estava totalmente empenhado em resolver os desaparecimentos) foi apenas confirmado. A opinião pública, os familiares e os grupos de direitos humanos já suspeitavam que os desaparecimentos podiam esconder a ação de um ou mais serial killers. A fala de Kim Rossmo, um ex-membro do departamento e premiado criminólogo só veio a confirmar as suspeitas.

Porém, para à Polícia de Vancouver, esses desaparecimentos não eram obra de um serial killer. Não havia nenhuma evidência que ligasse os desaparecimentos a um assassino. Primeiro: não havia maneira de um só homem estar matando a tanto tempo sem ter sido descoberto, sem ter cometido um erro sequer, sem ter testemunhas, sem nada. Segundo: A polícia nunca encontrou um corpo sequer de alguma das mulheres desaparecidas. Se fosse um serial killer, depois de ter matado todas essas mulheres, como ele  sumiria com seus corpos?

Um dos detetives do Departamento, Scott Dreimel, veio a público e contradisse Rossmo. Ele disse que nos três anos de investigação nunca encontraram nenhuma evidência nesse sentido, e se eles tivessem encontrado, o público seria o primeiro a saber. Sobre a demora da investigação, Dreimel disse que havia uma série de razões que levavam a isso, como por exemplo a dificuldade em rastrear prostitutas nas ruas e a lacuna no tempo entre o desaparecimento e a reportagem do mesmo.

Algumas teorias foram levantadas pela polícia, como a de que prostitutas poderiam ter sido vítimas de tripulações de navios de cargas estrangeiros. Elas eram convidadas a fazerem programas com os tripulantes dos navios, eram estupradas, mortas e seus corpos jogados ao mar. Outros detetives até acreditavam na ação de um serial killer. Poderia ser um caminhoneiro que pegava prostitutas em Low Track, as matava e descartava seus corpos em estradas desertas do Canadá ou Estados Unidos.

De qualquer forma, se esses desaparecimentos fossem obra de um serial killer, ele deveria ser completamente metódico, sagaz e esperto como um animal. Não deixava pistas e nem rastros e descartava os corpos de uma maneira tão eficaz que não poderiam ser encontrados. O assassino deveria ser ao mesmo tempo arrogante. Matar prostitutas mesmo após a polícia estar investigado o caso a três anos mostra sua coragem e também sua estupidez. Mas a polícia estava às cegas, se houvesse um assassino, a polícia só poderia esperar que ele cometesse um erro.

No Final de 2001 já eram quase 60 as mulheres desaparecidas de Low Track. Uma recompensa de 100 mil dólares foi oferecida para quem desse informações que pudessem dar alguma luz ao caso.

2002, O ano do porco

Para a polícia de Vancouver, o ano de 2002 começou com a sombra de um inimigo invisível. A investigação já entrava no seu quarto ano sem nenhum tipo de resultado. A opinião pública, familiares e grupos de direitos humanos cada vez mais pressionavam a polícia. Como se não bastasse, detetives do próprio Departamento de Polícia vinham a público desmoralizar o departamento, como no caso de Kim Rossmo. Para piorar, o departamento tinha que lidar com problemas legais, como processos de famílias das desaparecidas e um processo de danos morais movido pelo seu ex-agente Kim Rossmo.

Se não bastasse, mais duas mulheres foram acrescentadas à lista no início do ano:

  • Ruby Hardy, 37 anos, desapareceu em algum momento de 1998, colocada na lista em 2002.
  • Tiffany Drew, 27 anos, desapareceu em 31 de dezembro de 1999, colocada da lista em 2002.
Na foto: Ruby Hardy e Tiffany Drew.

Em 13 de fevereiro de 2002, a Prostitution Alternatives Counseling Education, uma ONG de programas sociais, disse que 110 prostitutas da Columbia Britânica foram mortas nas duas décadas anteriores. Dados computacionais obtidos da Polícia Real Canadense dava um número um pouco maior: 144 prostitutas assassinadas ou desaparecidas. A situação parecia estar fora de controle, a Polícia não tinha pistas e sua negligência nos casos envolvendo crimes de prostitutas estavam sendo escancarados para todo o país.

Mas em 22 de fevereiro de 2002, o caso daria uma reviravolta, confirmaria as suspeitas levantadas em 1999 pelo criminólogo Kim Rossmo e chocaria o mundo.

Vancouver, Colúmbia Britânica.

  • 22 de Fevereiro de 2002.

O anúncio veio na manhã de 22 de fevereiro de 2002. Repórteres já haviam descoberto que há dias policiais estavam fazendo buscas em uma fazenda em Port Coquitlam, uma cidade a 27 quilômetros de Vancouver. A imprensa queria saber se essas buscas tinham alguma  relação com as mulheres desaparecidas.

Naquela manhã, a porta-voz da Polícia de Vancouver Catherine Galliford disse o seguinte:

Serial Killers - O Assassino da Fazenda dos Porcos - Catherine GallifordNa foto: Catherine Galliford.
Na Foto: O detetive Scott Driemel e Catherine falam à imprensa.Na foto: O detetive Scott Driemel e Catherine Galliford falam à imprensa.

Aqui começava toda uma ação do governo Canadense, Departamento de Polícia de Vancouver e da Polícia Real Canadense para encobrir todos os detalhes relacionados ao caso. Diferentemente de outros países, as autoridades canadenses tentaram de todas as formas esconder os detalhes dos assassinatos em série das prostitutas de Low Track. Talvez pelo horror descoberto ou talvez para preservar a imagem das próprias autoridades que foram negligentes durante anos. Grande parte da investigação permanece obscura até hoje, mas detalhes macabros foram descobertos pela imprensa canadense e compartilhadas com o mundo inteiro.

Robert William Pickton, O criador de porcos

Sem ter nenhum tipo de pista, a polícia resolveu rever casos antigos que envolviam crimes contra prostitutas. Ao consultar os documentos a polícia encontrou um velho conhecido, seu nome: Robert William Pickton, um fazendeiro criador de porcos de 52 anos.

    • Robert William Pickton nasceu em 24 de outubro de 1949 em uma pequena fazenda de dois alqueires perto da cidade de New Wesminster na Columbia Britânica. Seu pai, Leonard Pickton, um imigrante inglês, criava porcos para o sustento da família. Leonard herdou uma fazenda do pai, William, comprada em 1905, mas teve que vendê-la e meados da década de 1950. Pouco depois ele comprou uma fazenda de 40 acres e passou a criar porcos. Com o passar dos anos o negócio cresceu, tornando-se a principal atividade da família Pickton.
    • O principal alimento da família era a carne de porco, tornando-se naturalmente a comida preferida de Robert Pickton. Robert era o segundo de três filhos. Ele e seus irmãos David e Linda costumavam brincar no quintal de uma instituição para criminosos insanos. Linda cresceu na cidade, estudando, já Robert e David cresceram na fazenda dos pais.
    • Enquanto crescia, Robert (apelidado de “Willie”) passava a maior parte do tempo na fazenda (nessa época a família já morava em Port Coquitlam) cuidando dos porcos. Sua vida escolar não foi muito boa, com seus colegas de classe o zombando por causa de sua pobre higiene e pelo fato dele frequentemente cheirar mal.
  • Pickton sempre usava suas botas de andar na lama, tratando dos dejetos dos porcos e trabalhando no abatedouro da fazenda. A medida que ia crescendo, Pickton cada vez mais deixava de ir à escola para ficar ao lado dos porcos.
Na foto: Uma imagem de Pickton usando suas botas em um dos criadores de Porcos de sua fazenda. Créditos: Murderpedia.
    • Em 1994, os irmãos Pickton ficaram ricos. A fazenda comprada pelo pai deles por 18 mil dólares em meados da década de 1950 valia 300 mil dólares no início dos anos 90. Em 1994 eles venderam uma parte da fazenda por 1.7 milhão. No mesmo ano a prefeitura da cidade de Port Coquitlam comprou outro pedaço da fazenda dos Pickton por 1.2 milhão, transformando o local num parque. Em 1995, novamente a prefeitura da cidade pagou mais 2.3 milhões por outro pedaço da fazenda, construindo no local a Escola Elementar Blakeburn.
    • Após ficarem milionários, os irmãos Pickton seguiram seus próprios caminhos, desenvolvendo seus próprios negócios. Robert Pickton continuou na fazenda de criação de porcos, sendo o administrador do local. Eventualmente David ajudava o irmão. Robert Pickton só saía da fazenda para frequentar Donwtown Eastside. E foi nessa época que o número de prostitutas do local começou a diminuir.
    • Seu irmão David havia mudado da fazenda de porcos e criado a Piggy’s Palace, um local para festas. Robert Pickton era um frequentador assíduo das festas do seu irmão e costumava preparar a carne de porco que era servida:
    • “Eu estava para comer o porco, mas quando vi Robert picando o porco com as mãos, eu decidi não comer… suas mãos eram sujas”, disse Bill Hiscox, um funcionário dos irmãos Pickton.
    • Em 1997 Robert Pickton foi acusado de tentativa de assassinato contra uma prostituta chamada Wendy Lynn Eistetter. Pickton a algemou e a esfaqueou no estômago, mas Wendy conseguiu lutar com ele, feri-lo com uma faca, e fugir de sua fazenda. Um homem a encontrou correndo, sangrando e algemada na rua. Enquanto ela era levada para um pronto-socorro, Pickton ia até o hospital Eagle Ridge tratar do seu ferimento. Pickton foi preso e libertado sob fiança de dois mil dólares. A acusação sobre ele foi retirada em janeiro de 1998 depois que Wendy não testemunhou no tribunal.
  • Essa não era a primeira vez que o nome Pickton estivera envolvido em crimes. Seu irmão, David Pickton, foi acusado de estupro em 1992. A vítima disse à polícia que ele a levou para o seu trailer na fazenda, onde o seu irmão criava porcos, e a atacou, mas ela conseguiu escapar. Outro evento envolvendo os Pickton ocorreu em abril de 1998 quando autoridades de Port Coquitlam tentaram sacrificar um dos cachorros de David sobre a Lei de Proteção dos Animais, mas o processo foi arquivado. Robert Pickton também havia sido processado três vezes por perdas e danos resultantes de acidentes automobilísticos ocorridos em 1988 e 1991.
Na foto: David Pickton. Créditos: Murderpedia.
    • Tempos depois, os irmãos Pickton, mais precisamente David, estariam novamente envolvidos em problemas com a lei. David Pickton foi processado pela cidade de Port Coquitlam por “violação dos preceitos de zoneamento da cidade”. Segundo a denúncia, a Piggy’s Palace estava zoneada para uso agrícola, mas David “alterou uma grande área na fazenda com propósito de realização de festas, concertos e outras recreações”, que as vezes reuniam quase duas mil pessoas. Em janeiro de 199 o local foi proibido de realizar eventos. A liminar dizia que a polícia estava “autorizada a prender e retirar qualquer pessoa” que estivesse participando de qualquer festa na fazenda. David alegou que o espaço era para realização de eventos beneficentes; ele inclusive tinha o registro da ONG Piggy’s Palace Good Times Society, registrada em 1996, mas em janeiro de 2000, a tal ONG perdeu seu status de organização sem fins lucrativos por falta de demonstrações financeiras que comprovassem tal fato.
Na foto: David Pickton conversa com um homem do governo sobre sua propriedade. Foto tirada em 1996. Créditos: Global BCTV.Na foto: David Pickton conversa com um homem do governo sobre sua propriedade. Foto tirada em 1996. Créditos: Global BCTV.
    • Mas o que mais chamou a atenção dos investigadores foi outra coisa.
    • Em 1998, um homem chamado Bill Hiscox, 37 anos, foi até o Departamento de Polícia de Vancouver. Ele tinha um suspeito nos desaparecimentos das prostitutas de Low track.
    • Em 1996 ele havia conseguido um emprego em uma empresa chamada P&B Salvage in Surrey, de propriedade dos irmãos Pickton. Ele recebia os contracheques na fazenda de criação de porcos dos irmãos. Ele disse à polícia que a fazenda tinha um ar bastante assustador e que era “patrulhada” por um enorme porco.
    • “Eu nunca vi um porco como aquele, ele corria atrás de você e te mordia. Ele ficava vigiando a propriedade, correndo do lado de fora com os cães.”
    • Depois que ele viu reportagens nos jornais sobre os desaparecimentos das prostitutas em Low Track, ele imediatamente suspeitou do seu patrão: Robert Pickton. Suspeitas que só aumentaram pois um ano antes Pickton havia tentado matar uma prostituta. Bill disse à polícia que o patrão era “uma quieta e estranha pessoa” e ainda chegou a dizer que “todas essas garotas desaparecidas podem estar lá; em seu trailer tem um monte de objetos como bolsas e outros objetos femininos… ele frequenta aquela área (Low Track) o tempo todo procurando garotas”. Bill disse que os irmãos costumavam promover festas com prostitutas em sua fazenda.
  • A polícia registrou o depoimento de Bill e um detetive chegou a acompanhá-lo até a fazenda dos porcos, prometendo investigar o suspeito. A polícia chegou a ir até a fazenda três vezes e fazer buscas no local, mas aparentemente sem resultado. Os irmãos continuaram nos arquivos da polícia sobre a descrição: “pessoas de interesse”, mas isso foi tudo, nem mesmo uma vigilância foi montada para vigiá-los na época.
Na foto: Bill Hiscox (foto tirada em 2010). Depois de ficar viúvo em 1996, Bill entrou em depressão,  virou alcóolatra e viciado em drogas. Foi resgatado do fundo do poço por sua irmã mais velha que o arrumou um emprego na P&B Salvage in Surrey, um frigorífico de suínos a sudoeste de Vancouver de propriedade dos irmãos Pickton’s.
  • Extremamente negligentes em 1998, quatro anos depois, às escuras e às cegas, o Departamento de Polícia de Vancouver resolveria dar uma atenção maior ao criador de porcos Robert William Pickton, e pelo número de dias que eles já estavam fazendo buscas em sua fazenda, parecia que eles haviam encontrado muito mais do que porcos.

As buscas na fazenda dos porcos

Na foto: Vista aérea da fazenda de criação de Porcos dos irmãos Pickton’s.
Na foto: Trailer na Fazenda dos Porcos onde Robert Pickton morava.
Na foto: Robert William Pickton.

Desconfiados que Robert Pickton pudesse estar envolvido nos desaparecimentos das prostitutas de Low Track, a polícia de Vancouver expediu um mandato de busca em sua fazenda. Em 9 de fevereiro, Pickton foi preso por porte ilegal de armas, mas foi solto depois de pagar fiança. Em 22 de fevereiro, ele foi preso novamente, mas dessa vez a polícia não divulgou o motivo.

A essa altura, a imprensa e os familiares das mulheres desaparecidas estavam ansiosos e ao mesmo tempo querendo respostas. O dono da propriedade estava preso e a polícia a mais de um mês faziam buscas em sua fazenda. A área estava toda isolada, e não eram apenas os policiais da força tarefa das mulheres desaparecidas que eram vistos por lá: peritos médicos e homens vestidos de branco assim como homens carregando maletas e mochilas eram vistos saindo e entrando. O que eles haviam encontrado e o que estavam procurando?

Em 8 de março de 2002, investigadores deram a notícia de que um exame de DNA comprovou que manchas de sangue encontradas na fazenda de Pickton pertenciam a Sereena Abotsway. Aparentemente a polícia fizera testes em manchas de sangue encontradas na fazenda. Em 21 de março de 2002 a polícia declarou que as buscas na fazenda de Pickton poderiam durar até três anos. Mais de 120 oficiais estavam trabalhando no caso.

Quase um mês depois, em 3 de abril, outros exames comprovaram a identidade de Jacqueline McDonnell, Heather Bottomley e Diane Rock. No dia 9 de abril foi a vez de Angela Josebury.

A cada identificação de DNA, uma acusação de assassinato contra Robert Pickton era acrescida. Ele disse estar em “choque” com as acusações. Concomitamente os parentes das vítimas das mulheres desaparecidas ficaram enraivecidos já que os vestígios encontrados na fazenda de Pickton eram de mulheres desaparecidas três anos após ele ser acusado de assassinato.

A falta de informações deixavam todos nervosos. A princípio a polícia encontrara apenas vestígios de sangue, mas nenhum corpo.

Val Hughes, irmã de Kerry Koski, disse ao jornal The Province:

“Como todas as famílias, eu sinto ódio quando ouço falar na Polícia de Vancouver. Eles não se importavam com nada… Nós queremos que os dados venham a público, não queremos interferir na investigação, nós queremos respostas”.

A polícia não falava, mas as suspeitas eram de que os policiais haviam encontrado os restos mortais de quase 30 mulheres na fazenda.

A versão oficial do governo canadense sobre encobrir os detalhes do caso era para proteger o acusado da publicidade pré-julgamento, o que poderia afetar um júri.

A polícia não dava informações, mas os parentes das vítimas e todos que acompanhavam o caso tinham um aliado: a imprensa e sua sede pela informação (e principalmente pela venda dela). E no dia 10 de abril de 2002, jornais do mundo inteiro publicaram a seguinte manchete:

Reportagem do Jornal Ingles The Sun.

54 Mulheres Alimentadas aos Porcos!

A Fox News deu mais detalhes:

“A polícia encontrou partes de corpos humanos em freezers usados para armazenar carne. Eles também descobriram restos em um picador de madeira, os corpos das vítimas eram transformados em ração para porcos.”

A notícia chocou o Canadá e o mundo. Mães e parentes das vítimas eram internadas em hospitais. Sem ter como esconder todas as informações sobre o caso, a polícia e o governo Canadense ficaram mais flexíveis e tiveram que vir a público para comentar sobre as reportagens que saiam na imprensa. O caso das mulheres desaparecidas de Low Track ganhava contornos de filme de terror.

Kerry Kendall, Ministro da Saúde da Colúmbia Britânica disse em um artigo escrito na AP Worldstream que existia a possibilidade de que restos humanos das vítimas tivesse sido misturados com carne de porco e processados para consumo.

“É muito perturbador pensar a respeito, mas existe a possibilidade de alguma contaminação cruzada. Mas o grau disso ou o quanto pode ter acontecido nós realmente não sabemos. Dado o estado da fazenda e o que sabemos sobre a investigação, não podemos descartar a possibilidade de que tenha acontecido a contaminação… quem ainda tem congelado carne suína de origem da fazenda de Pickton, retorne com esses produtos para a polícia”.

[Kerry Kendal, Ministro da Saúde da Colúmbia Britânica]

De acordo com as autoridades, a carne da fazenda de Pìckton nunca havia sido comercializada. Oficialmente a carne de sua fazenda era comprada apenas por amigos e vizinhos do serial killer. Mas a essa altura, credibilidade era tudo o que o governo e a polícia canadense não tinham.

A possibilidade de que pessoas e famílias acidentalmente consumiram carne humana causou raiva, repulsa e desespero em Vancouver, mas as autoridades faziam de tudo para tentar manter a ordem.

“Se a carne do porco tiver sido bem cozinhada, é provável que qualquer agente infeccioso presente tivesse sido destruído”, escreveu Kendall sobre a possibilidade do risco de qualquer doença humana ser transmitida para aqueles que consumiram a carne “contaminada” .

O mais terrível serial killer canadense

“Esse agora é o maior caso de investigação de um serial killer da história do Canadá”, disse a porta-voz da polícia canadense Catherine Glifford.

A medida que os meses iam passando, mais vítimas de Robert Pickton eram confirmadas através de exames de DNA. Até o final de 2002, já eram 26 confirmadas, quatro ainda não tinham identificação.

Dezessete das 26 vítimas confirmadas eram:

  • Sereena Abotsway;
  • Mona Wilson;
  • Jacqeline McDonnel;
  • Heather Bottomley;
  • Diane Rock;
  • Angela Josebury;
  • Brenda Wolfe;
  • Heather Gabrielle Chinnock;
  • Tanya Marlo Holyk;
  • Sherry Irving;
  • Inga Monique Hall;
  • Yvonne Boen;
  • Dawn Crey;
  • Wendy Crawford;
  • Andrea Borhaven;
  • Kerry Koski;
  • Cara Ellis.

Equipes percorriam toda a fazenda em busca de evidências físicas, ossos, manchas de sangue, dentes, cabelos, qualquer coisa que pudesse ser feita uma análise de DNA. Escavaram fundo para tentar encontrar possíveis vítimas enterradas anos antes. Não havia data para o fim da busca.

Dois oficiais da RCMP (Polícia Real Canadense) descreveram como em abril de 2002 eles encontraram restos humanos na fazenda. Em uma sala construída debaixo da terra, encontraram cabeças e carnes congeladas em um freezer. As carnes foram posteriormente identificadas como de Sereena Abostway e Andrea Josebury. Investigadores também encontraram os maxilares de Brenda Wolfe e Marnie Frey atolados na lama de um chiqueiro. Cabeças em decomposição e pedaços de corpos e órgãos eram encontrados em baldes e latões. Vísceras humanas e de porcos foram encontradas misturadas em barris. Ossos do pé, calcanhar e costelas foram encontradas misturados com ossos de animais atrás de um galpão.

Modus Operandi

Robert William Pickton não tinha muita dificuldade em conseguir vítimas. Frequentava Low Track onde pegava prostitutas e levava para a sua fazenda para um suposto programa. Ludibriava as mulheres viciadas em drogas convidando-as para cheirar cocaína em sua fazenda.

Chegando lá, Pickton levava as mulheres para o seu trailer. Ele as amordaçava e amarrava suas mãos com fios. Colocava as mulheres em posição de quatro em sua cama e mantinha relações sexuais com elas. A forma como Pickton as matava é um mistério. Em quatro das vítimas foram encontradas balas, o que sugere que foram mortas por armas de fogo. Durante o julgamento de Pickton, uma testemunha disse que ele havia lhe confessado que matava prostitutas com uma substância chamada metanol. Uma seringa com essa substância foi encontrada no escritório de Pickton. Outra suspeita da polícia é que Pickton estrangulava suas vítimas. No final das contas é bem provável que ele matava dessas três formas.

Após matá-las, Pickton esquartejava as mulheres na mesma mesa onde desmembrava porcos. Usava machadinhas, serras, facões e outros objetos. Atirava pedaços das mulheres para os suínos comerem, outros pedaços eram triturados juntos com a ração dos porcos. Vísceras e órgãos eram misturados com vísceras de porcos e despejados em uma fábrica. Pickton guardava cabeças e mãos dentro de baldes. Outras cabeças eram mantidas congeladas em freezers. Alguns crânios eram deixados na beira de estradas. Pickton também era festeiro e gostava de promover animados churrascos para os vizinhos. Carne humana era servida em seus churrascos e em jantares e festas que ele promovia na fazenda e na Piggy’s Palace. Outros pedaços de carne humana eram misturados com carne de porco e Pickton distribuía e vendia para amigos e vizinhos. Oficialmente, segundo as autoridades canadenses, a carne de Pickton nunca foi comercializada em larga escala.

O julgamento do século

Depois de cinco anos de buscas na fazenda dos porcos, finalmente em 30 de janeiro de 2007 começava o chamado Julgamento do Século no Canadá. Devido a natureza dos crimes, do grande número de evidências e do grande número de vítimas, o julgamento de Robert William Pickton seria dividido em dois. Nesse primeiro ele seria julgado pela morte de seis mulheres e posteriormente pela morte de 20.

Robert William Pickton declarou-se inocente perante o júri de todas as 26 acusações de assassinatos em primeiro-grau.

Havia milhares de evidências no que seria o mais longo julgamento da história canadense. Mais de 40 mil fotos foram tiradas da cena do crime, 235 mil itens foram recolhidos, e havia cerca de 600 mil análises laboratoriais. Noventa e oito testemunhas de acusação e trinta da defesa foram ouvidas, leigos, familiares, peritos, policiais… meio milhão de páginas de documentos foram escritas, incluindo os perfis de todas as seis vítimas: Mona Wilson, Brenda Wolfe, Seerena Abotsway, Andrea Joesbury, Georgina Papin e Marnie Frey. Em adição, interrogatórios com Pickton somaram mais de 20 horas de fitas.

O primeiro julgamento de Pickton: seis Vítimas.

Todas as evidências, de acordo com o jornal Vancouver Sun, foram descobertas em volta do trailer onde Pickton morava e para onde ele levava as mulheres. O promotor Mike Petrie metodicamente deu atenção às evidências mais significantes, como análises de DNA, baldes com partes de corpos, um vibrador em um revólver com DNA de uma vítima; DNA de vítimas não identificadas, e restos de duas mulheres congelados em um freezer. Cinco dos 61 itens conectados pelo DNA a mulheres desaparecidas confirmaram a ligação com Pickton. Uma testemunha afirmou ter visto ele com uma serra em uma sala onde o corpo de uma mulher foi encontrado, e outras associaram ele com uma série de vítimas. As declarações de Pickton à polícia nos interrogatórios também foram usadas.

Nos meses de fevereiro e março, oficiais de polícia e peritos em DNA deporam. Em abril, após 60 testemunhas terem dado seus testemunhos, advogados e o promotor se encontraram para tentar encurtar os procedimentos. Duzentas e trinta e cinco mil análises forenses foram feitas pelo laboratório forense da RCMP, a utilização dessas análises poderiam estender o julgamento por meses. A defesa disse que os restos mortais haviam sido devidamente tratados, assim o promotor poderia pular as etapas de analisar cada evidência de cada vítima.

Dia após dia, a expressão de Pickton era quase sempre a mesma, olhava para o espaço vazio, algumas vezes olhava para alguma das testemunhas. Entrava na sala de audiências usando uma de suas quatro camisas e carregando uma pasta para anotações e rabiscos. Seu tédio parecia um espelho do julgamento. As análises das inúmeras evidências científicas tornou-se tediosa. Um professor de direito disse que o julgamento não foi interessante, em parte poque faltava uma “narrativa mais emocionante”.

Na foto: Caricatura de Robert William Pickton durante o seu julgamento.

As vezes Pickton mostrava interesse no julgamento, e até parecia sorrir, como durante a análise de um amaciador de carnes usado para cortar crânios e outros ossos humanos. Havia marcas de cortes no maxilar de Brenda Wolfe, assim como em outros ossos encontrados (costelas, ossos do calcanhar, vértebras). Dez das 45 lâminas do amaciador entraram como evidência mas não foi comprovado como elas produziram os cortes.

Dr. Gail Anderson, entomologista forense, testemunhou que os restos de Abotsway e Joesbury haviam sido expostos durante semanas a vários elementos externos antes de serem guardados no congelador, onde foram encontrados. Insetos já haviam entrado nos baldes quando Pickton colocou-os no freezer. O tipo e o estágio de desenvolvimento das larvas ajudaram a estabelecer um prazo científico para a morte.

De abril a maio, imagens de cabeças em decomposição e outros restos analisados em autópsias foram mostradas ao júri. Assim como evidências de que Pickton serrava os crânios com uma serra. Analistas descreveram que três das vítimas tinham ferimentos de armas de fogo, embora peritos em balísticas não puderam ligar as balas recuperadas a nenhuma das armas encontradas na fazenda. Recessos eram dados quando imagens de larvas sobre pedaços de corpos em decomposição e descamações de pele eram mostradas. Um revólver calibre .22 encontrado com um vibrador acoplado continha DNA de uma vítima.

O químico forense Tony Fung disse que uma substância achada dentro de uma seringa em um escritório de Pickton era metanol. Um conhecido do serial killer disse que uma vez ele mencionara que usava essa substância para matar drogadas. Entretanto, metanol não foi encontrado nos restos mortais das vítimas. Traços de cocaína foram encontrados em todos tecidos analisados, assim como metadona e valium, mas o toxicologista Heather Dinn negou que a concentração dessas drogas encontradas fosse fatal.

O testemunho de pessoas ligadas às vítimas comprovaram o fato de que eram pessoas sofridas, algumas, como no caso de Brenda Wolfe, prostituiam-se para poder alimentar os filhos e “comprar presentes de natal” para a família, como disse Elaine Allen, empregada de uma casa de ajuda à mulheres.

O policial disfarçado

Um testemunho importante foi dado por um policial disfarçado de criminoso que foi colocado junto com Pickton em sua cela. Pickton caiu feito um pato na armadilha montada pela polícia.

O policial disfarçado ouviu dele que o seu objetivo era matar 50 mulheres. Pickton disse ainda ao policial que a polícia só o pegou porque ele ficou desleixado no final e que também queria matar mais mulheres do que “aqueles dos Estados Unidos”. O vídeo que mostra Pickton conversando com o policial disfarçado em sua cela foi disponibilizado pela polícia em 2010. Veja abaixo legendado.

“Porra… porra… eles me pegaram, me pegaram. Fiquei desleixado no final. Eu cavei minha própria cova sendo desleixado no final. Mas o que mais me deixa puto, o que realmente me deixa puto é que só faltava mais uma… pra chegar em 50. Queria que fosse maior do que aqueles, aqueles dos Estados Unidos… seu recorde é por volta dos 48 eles dizem” [em referência ao assassino do Rio Verde].

[Robert William Pickton]

Duas testemunhas importantes levadas pela promotoria apareceram em junho de 2006: Pat Casanova e Scott Chubb.

  • Pat Casanova

Na foto: Pat Casanova chega para testemunhar no Julgamento do Seu Patrão Robert Pickton.

Pat Casanova, 67 anos, era um funcionário de Pickton e chegou a ser preso em 2003 por suspeita de estar ligado aos crimes, mas a polícia não conseguiu nada que o incriminasse.

“Era mais do que um amigo de negócios”, disse Casanova sobre seu relacionamento com o patrão.

Casanova disse que Pickton nunca mencionou nada a respeito das mulheres desaparecidas. A defesa deu muita atenção a Casanova durante o julgamento pois ele tinha acesso regular à fazenda e ao abatedouro, onde partes de seis mulheres foram encontradas.

Casanova disse não lembrar de usar o freezer onde partes dos corpos das vítimas foram achados. Ele disse que apenas Pickton o usava. Entretanto, em uma audiência preliminar, Casanova disse que de fato usou o freezer um mês antes da prisão do seu patrão. Pressionado pelo advogado de Pickton, Casanova entrou em contradição.

Pego em contradição, Casanova admitiu ter dito à policia que havia tido relações sexuais com uma mulher conhecida como Roxanne, mas em declarações anteriores Casanova dissera que recebera sexo oral de uma das vítimas, Angela Josebury, no trailer de Pickton. A estratégia da defesa com as contradições de Casanova foi colocá-lo como um suspeito na morte de Angela Josebury. Embora ele não tivesse sido acusado de crime algum, a defesa queria mostrar ao júri o quanto Casanova poderia mentir para proteger a si mesmo, dando a Pickton o benefício da dúvida e mostrando que o testemunho era insignificante e mentiroso.

  • Scott Chubb

Scott Chubb.

Outra testemunha chave da promotoria era Scott Chubb. Chubb foi o informante da polícia que fez com que os investigadores conseguissem um mandado de busca na fazenda de Pickton.

Chubb conheceu Pickton em 1993, tornado-se um empregado do criador de porcos. Em 2002, um investigador o pagou U$ 1.450,00 dólares para que ele filmasse o interior da fazenda. A partir dai a polícia conseguiu um mandado de busca contra armas ilegais. Chubb disse que não sabia que Pickton era suspeito no desaparecimento das mulheres de Low Track. Ele acreditava que a polícia queria apenas confiscar armas ilegais.

O promotor Geoff Baragar instigou Chubb a falar sobre uma estranha conversa que ele havia tido com seu patrão. Chubb disse que nessa conversa, Pickton havia mencionado que uma mulher chamada Lynn Ellingse o estava causando problemas e queria que Chubb fosse “conversar” com ela. Chubb entendeu o recado do patrão (a polícia suspeita que ela estava chantageando Pickton sobre algo que ela tenha visto). Pickton teria oferecido mil dólares por esse “favor” . Ainda segundo Chubb, durante a conversa, Pickton disse o quão era fácil matar viciadas em drogas pois elas já tinham marcas de agulhas no corpo; se uma pessoa injetasse metanol nelas, elas morreriam e a causa da morte seria overdose de drogas.

Quando foi passada a vez à defesa, o advogado de Pickton tentou desmoralizar Chubb, com a intenção de mostrar que ele era uma pessoa que se preocupava apenas com seus interesses e que falaria qualquer coisa para alguém que lhe “pagasse”. O advogado tentou fazer com que Chubb admitisse que ele queria dinheiro da polícia para testemunhar, Chubb respondeu que o dinheiro era para sua família e também para se proteger do irmão de Pickton, David, que ameaçou ir atrás dele se ele depusesse contra o irmão no tribunal. Ele negou que era pago para ser informante, apesar de notas da polícia indicarem que ele era pago para dar informações. Chubb caiu em contradição algumas vezes e isso era tudo o que a defesa queria.

Ele negou e depois admitiu certos fatos, como por exemplo, não conhecer armas, mas quando foi mostrada uma ficha sua por porte ilegal de armas ele voltou atrás. Em outras perguntas, Chubb admitia estar confuso.

Pickton parecia se divertir com o fato da credibilidade de Chubb ser posta em xeque; em alguns momentos parecia querer rir, apesar da natureza cruel das acusações.

Pickton parecia se divertir com o fato da credibilidade de Chubb ser posta em xeque; em alguns momentos parecia querer rir, apesar da natureza cruel das acusações.

Andrew Bellwood deu o testemunho mais horripilante. Ele foi a testemunha de número 97.

  • Andrew Bellwood

Andrew Bellwood deixa a Suprema Corte da Columbia Britanica durante uma pausa para o almoço.

Em seu testemunho, Bellwood disse que uma vez, Pickton disse como ele havia matado prostitutas antes de alimentar com seus restos os porcos. Ele alegou que Pickton mantinha relações sexuais com elas primeiro então as matava em sua fazenda, esquartejava seus corpos e atirava os pedaços aos porcos, que os consumiam; outras partes eram misturadas em barris com vísceras de porcos e jogadas em uma fábrica. Era uma operação fácil, segundo Bellwwood, e Pickton as enganava dizendo que tinha drogas.

Os métodos de assassinato de Pickton, segundo Bellwood, envolviam amordaçar as vítimas e algemá-las com fios.

“Ele mencionou que as colocava de quatro na cama e mantinha relações sexuais com elas… ele me contava essa história e para ele era quase que se fosse um jogo”.

Um dos advogados de defesa, Adrian Brooks, disse achar difícil acreditar nas palavras de Bellwood.

“Se uma pessoa diz que mata pessoas e serve sua carne em jantares, você ainda jantaria com ela?”

Bellwood respondeu dizendo que Pickton era um bom amigo, que havia lhe dado dinheiro quando precisou e pensou que sua história fosse uma brincadeira, além do mais, ele não procurou a polícia porque era usuário de drogas.

Brooks apontou uma séria inconsistência no testemunho: Bellwood alegou estar sozinho com Pickton durante essa conversa, mas em depoimentos anteriores, ele afirmou que uma mulher chamada Lynn Ellingsen estava com eles. Em resposta, Bellwood disse que depois de tudo que ele havia passado nos últimos cinco anos, não iria sentar na cadeira de um julgamento perante um juiz e mentir. Ele apenas confundiu dois eventos distintos, e Ellingsen provavelmente estivera presente em uma outra conversa entre eles.

A credibilidade de Bellwood foi colocada em xeque pelo fato dele ter sido interrogado sobre o desaparecimento de dezenas de mulheres na área de Edmonton. Ele alegou à polícia que ele apenas foi interrogado porque conhecia Pickton, dizendo que houve um certo preconceito da Polícia por ele ser um usuário de drogas e amigo do serial killer. Terminou dizendo que ele não foi acusado de nada.

Final

O advogado Adrian Brooks insistia que as vítimas não estavam claramente ligadas a Pickton. Ele argumentou que a investigação foi mal feita e negligente. Segundo ele, Pickton não tinha inteligência suficiente para matar tantas pessoas sem ser pego.

“Pickton não confessou nada, foi enganado em uma cela na cadeia e disse coisas por medo das mentiras que estavam contando sobre ele. Ele não tem o conhecimento que o verdadeiro assassino tem. Se Pickton alegou que sua meta era o assassinato de 50 vítimas, isso era apenas para aumentar o seu status na prisão. Ele era amável, uma pessoa submissa que permitiu que pessoas questionáveis frequentassem sua propriedade. As amostras inconclusivas de DNA e a baixa credibilidade de testemunhas usuárias de drogas (Bellwood) que não tem nem memória, deve ser o suficiente para no mínimo termos dúvidas. Além do mais, a balística não comprovou que nenhuma das balas pertenciam a alguma arma de Pickton, o desmembramento dos corpos foi feito de maneira diferente da qual Pickton fazia com porcos e algumas das evidências apontam para outros potenciais suspeitos. Pat Cassanova é o primeiro da lista.”

O promotor retrucou:

A inteligência de Pickton não importa. Ele tinha experiência como açougueiro e já tinha experiência com a morte. Tentou matar uma prostituta em 1997. Ele tinha várias maneiras em suas mãos de descartar corpos sem deixar rastros. O senso comum deve ditar o veredito. Não foi um bicho-papão ou um bicho que matou e estraçalhou aquelas mulheres. Foi esse homem”.

Após as falas, o juiz Williamns ajudou os jurados em alguns pontos da lei canadense e na leitura de uma grossa pasta de notas. Ele advertiu-os para que concentrassem apenas nesse julgamento, desconsiderando o fato de que Pickton seria julgado novamente por outras mortes. Ele então recontou os resultados da extensiva busca na fazenda de Pickton e os pontos onde peritos discordavam. Finalmente ele explicou o conceito da “dúvida razoável”, acrescentando que eles não precisavam considerar que Pickton agira sozinho, afim de decidir se ele era ou não culpado.

“Para dar um veredito vocês não precisam ter todas as perguntas respondidas. Vocês tem apenas que decidir aquelas questões que são essenciais para vocês dizerem se os crimes foram cometidos por ele além de uma dúvida razoável”, disse o Juiz.

Uma vez que as alegações finais foram feitas e o juiz detalhou suas instruções, o júri se retirou. Novembro e dezembro vieram, as famílias das vítimas não recebiam nenhum tipo de informações.

Em 9 de dezembro de 2007, o júri retornou com o veredito de que Pickton não era culpado pelas acusações de seis assassinatos em primeiro grau, mas culpado por seis assassinatos em segundo grau. A condenação por assassinato em segundo grau traz a pena de prisão pérpetua com possibilidade de pedir liberdade condicional no período de 10 a 25 anos (a ser determinado pelo juiz).

Em 11 de dezembro de 2007, o Juiz da Suprema Corte da Columbia Britânica, James Williamns, sentenciou Robert William Pickton a seis prisões perpétuas com possibilidade de condicional em 25 anos (2031).

“A conduta do Sr. Pickton foi assassina e covarde. Eu não posso saber os detalhes, mas sei que o que aconteceu com elas foi absurda e repugnante.”

Pickton permaneceu imóvel durante todo o julgamento. Nas alegações finais e na leitura da sentença pelo juiz, ele apenas olhou para o chão.

Notas Finais

Em 30 de julho de 2010, os pedidos dos advogados de Pickton de anulação do julgamento de 2007 foram recusados.

Em outubro do mesmo ano, uma notícia pegou a todos de surpresa: a Suprema Corte de Vancouver disse que o julgamento de Pickton, das suas outras 20 acusações de assassinato, provavelmente não irá acontecer. Segundo Neil MacKenzie, porta voz da Columbia Britânica, seria desnecessário outro julgamento, com mais gastos para o estado sendo que “uma acusação a mais ou a menos” não iria mudar em nada a situação de Pickton.

Famílias das vítimas reagiram fortemente a esse anúncio. Alguns vieram a público dizer que as autoridades queriam esconder os detalhes das mortes.

Kim Rossmo processou o estado, o Departamento de Polícia de Vancouver e a Polícia Real canadense por demissão injusta em 2001. Ele perdeu a causa. Hoje é diretor do Centro de Inteligência e Investigação da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

Dave Dickson também perdeu seu processo contra a Polícia de Vancouver. Ele continua seus projetos sociais de ajuda à mulheres e viciados em drogas de Downtown Eastside.

As cartas de Pickton

Em 2006, o jornal The Vancouver Sun publicou algumas cartas escritas por Robert Pickton. Nelas ele afirma que é inocente e que foi um “bode expiatório”, critica abertamente a polícia, mostra que está seguindo o processo passo a passo, inclusive apontando alguns erros, e diz também que pretende escrever um livro. Nota-se também nas cartas que Pickton tem inclinações religiosas. Veja abaixo:

As cartas de Pickton publicadas em 2006 pelo jornal canadense The Vancouver Sun.

David Pickton

Apesar de muitos acharem que David Pickton tivesse conhecimento dos assassinatos em série cometidos pelo irmão, ele nunca foi acusado. Nem sequer foi chamado para depor no julgamento.

Nos anos após a prisão do seu irmão, David foi visto várias vezes andando por Downtown Eastside.

Em novembro de 2011, grupos ligados ao caso das mulheres desaparecidas de Low Track começaram a pregar cartazes com a foto de David como uma espécie de advertência. Segundo o grupo, David vaga pelo bairro a procura de prostitutas.

“Não sabemos se ele causou algum problema, mas as mulheres estão com medo”, disse o diretor de uma agência habitacional numa reportagem do National Post, em fevereiro de 2012.

Em 2009, David Pickton e Linda Pickton processaram a Polícia Real Canadense por danos causados pelas investigações policiais realizadas nas propriedades da família. Segundo os irmãos, a polícia danificou e matou várias plantas, árvores e peixes de suas propriedades. O processo ainda corre na justiça canadense.

Na foto: Cartaz com a foto de David Pickton, irmão do serial killer Robert Pickton. O cartaz pregado em algum ponto de Downtown Eastside em novembro de 2012, adverte os moradores locais de que David é um agressor sexual. Créditos:  National Post.Na foto: Cartaz com a foto de David Pickton, irmão do serial killer Robert Pickton. O cartaz pregado em algum ponto de Downtown Eastside, em novembro de 2012, adverte os moradores locais de que David é um agressor sexual. Créditos: National Post.

Informações

Nome: Robert William Pickton

Conhecido como: O Assassino da Fazenda de Porcos

Nascimento: 26 de Outubro de 1949. Port Coquitlam, Columbia Britânica. Canadá

Acusação: Assassinato em segundo grau

Pena: Seis prisões perpétuas

Vítimas: Seis confirmadas. Ainda será julgado pela morte de 20 mulheres. Pickton confessou informalmente a autoria de 49 assassinatos. Estimativas da polícia indicam que ele possa ter matado mais de 60 mulheres.

Período: 1983 a 2002

Local: Vancouver, Columbia Britânica. Canadá.

Situação: Preso.

“Eu mesmo não sou deste mundo, mas eu nasci neste mundo através da minha mãe terrena. Se eu tivesse que mudar alguma coisa, eu não iria, pois não fiz nada de errado.”

[Robert William Pickton]


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