Serial Killers: O Assassino do Tronco de Cleveland

Fantasias sexuais bizarras, horríveis cenas de crimes, o mal encarnado. Há poucos interesses aparentemente mais lascivos do que a estranha obsessão de pessoas “normais” por serial killers. A atração...
O Assassino do Tronco de Cleveland

O Assassino do Tronco de ClevelandO Assassino do Tronco de Cleveland

Fantasias sexuais bizarras, horríveis cenas de crimes, o mal encarnado. Há poucos interesses aparentemente mais lascivos do que a estranha obsessão de pessoas “normais” por serial killers.

A atração por essas criaturas parece saciar nossa curiosidade natural sobre qualquer pessoa que se comporta com audácia e inteligência, mas que radicalmente se desvia da conduta comum. Nascemos e somos ensinados, desde pequenos, a respeitar a vida e praticar o bem, ser bondosos, ter empatia e piedade. Talvez por isso não possamos compreender o funcionamento de uma mente que rapta, tortura, estupra, mata, às vezes mutila, ou literalmente come outro ser humano. Serial Killers provocam um fascínio mórbido, muitas pessoas passam mal apenas de escutar o início de uma história, mas muitas outras (como eu e você) não. Somos compelidos a entender o porquê de essas pessoas fazerem coisas tão horríveis com um semelhante.

Muitos de nós gostamos de assistir ao espetáculo sangrento de um serial killer, recebemos uma carga de adrenalina ao saber ou ler suas histórias. Mas muitas vezes nos sentimos culpados por esses bizarros atos nos enraizarem uma inapropriada emoção. Serial Killers parecem apelar para o nosso mais básico e poderoso instinto: a sobrevivência. Eles têm um apelo visceral que é alimentado por nossa adrenalina, um hormônio que tem um poderoso, eufórico e até mesmo viciante efeito em nossos cérebros.

Por isso, para mim, não é surpresa que eles tenham se tornado um padrão “rentável” na cultura popular. Nossa fascinação por eles é inconscientemente alimentada pela enorme atenção que a mídia lhes dá (principalmente se eles não matarem pobres, prostitutas ou travestis). Nos Estados Unidos, essa cultura ganhou status de superstar nos anos de 1970. Assassinatos ocorridos em Nova York em 1977 fizeram a imprensa chamar o serial killer de “O Filho de Sam”, a imprensa cobriu os fatos de forma totalmente sensacionalista durante todo aquele verão, que ficou conhecido como “O Verão de Sam”, e virou até filme, que por sinal excelente, nas mãos do maluco Spike Lee. Similarmente, serial killers da ficção foram glorificados e endeusados em personagens como Hannibal “The Canibal” Lecter, do excelente filme O Silêncio dos Inocentes, e Dexter, da popular série Dexter. Sem contar as inúmeras séries que tratam de criminologia como CSI, Bones, Criminal Minds, Law & Order… séries que, vira e mexe, aparecem com um episódio de um serial killer inteligente e mortal.

Não tenho a mínima intenção de endeusar essas mentes perturbadas, ao contrário, compartilhando conhecimento sobre esses homens, espero contribuir para um aprendizado maior sobre eles. As pessoas têm a falsa impressão de que isso não é assunto a se tratar. Eu discordo, deveríamos discutir sobre eles no café da manhã com a família, ou no almoço com os colegas de trabalho. As pessoas preferem mentir para si mesmas ignorando a maldade que existe no mundo, com a falsa impressão de que nada nunca acontecerá a elas. Serial Killers são de carne e osso. Comem, vão ao banheiro, conversam, sorriem, sentam à sua mesa em um bar e interagem normalmente. Eles usam uma máscara diante da sociedade. É preciso conhecer o mal para que você possa combatê-lo (se um dia precisar). 

A história que conto a seguir é um mergulho por completo num dos mais notórios e intrigantes casos de assassinatos em série da história dos Estados Unidos. Sem exagerar, essa história parece ter saído das canetas dos melhores roteiristas de filmes e séries criminais de Hollywood. Não é à toa que a Paramount Pictures deseja há mais de 10 anos fazer um filme sobre o ocorrido (Matt Damon faria o papel principal). A Paramount deu o projeto para David Fincher (de Alien 3, Se7en, Clube da Luta, Zodíaco, A Rede Social), mas Fincher preferiu filmar um antigo projeto: O Curioso Caso de Benjamin Button. Desde então o projeto está engavetado. Torço para que saia da gaveta.

Os ingredientes vão sendo mostrados ao longo do texto, mas antecipo um pouco do que você encontrará nessa história: temos aqui um dos mais bestiais, astutos e inteligentes serial killers norte-americanos. Na sua caça, um dos mais competentes e famosos homens da Lei da história americana, homem que já foi tema de um filme indicado a quatro Oscars em 1987. Na caça do serial killer, um bairro inteiro ardeu em chamas, uma conspiração encabeçada por um influente congressista foi feita, e uma máscara da morte (molde da cabeça de uma das vítimas do serial killer), pela primeira e única vez na história, foi a atração principal de uma gigantesca exposição que reuniu sete milhões de pessoas.

Pegue a coca-cola e divirta-se. O show irá começar.

Vamos começar nossa história na Chicago dos anos 20. A cidade dos gangsters.

A Chicago dos anos 20

Chicago era um lugar perfeito para construir um império criminoso. Era uma cidade turbulenta e explosiva que parecia ter suas portas abertas para qualquer um que tivesse dinheiro suficiente, não importasse de onde viesse. Nas palavras de um jornalista da época: “Chicago era vibrante e violenta, estimulante e implacável, intolerante e impaciente com aqueles que eram física e intelectualmente fracos.”

Era uma cidade brutal e sangrenta, onde dezenas de milhares de vacas, ovelhas e porcos eram abatidos por vagabundos à luz do dia. As ruas tinham cheiro de sangue. Uma cidade comercial que não tinha espaço para esnobismo.

A corrupção política era uma tradição na cidade, o que contribuiu para a criação de uma atmosfera de impunidade que fez florescer o crime organizado. Em pouco tempo a cidade ficou conhecida por sua riqueza e promiscuidade sexual. O chefão dos bordéis, Diamond “Big Jim” Colosimo, faturava 50 mil dólares por mês, uma fortuna para a época.


Na foto: Diamond Jim Colosimo. Na foto à direita, Colosimo e sua amante Dale Winter.

Diamond Jim Colosimo, ou simplesmente “Big Jim”, nasceu na Calábria, Itália. Big Jim mudou-se para os Estados Unidos em 1895, tendo ido morar no distrito de Levee, Chicago. Ele rapidamente se tornou assistente de políticos corruptos como Bathhouse, John Coughlin e Michael “Hinky Dink” Kenna, que lhe deram o cargo de gerente de um salão de bilhar e, depois, de um bar. Fazia parte do seu trabalho coletar dinheiro nos inúmeros bordéis, cassinos e casas de ópio da área. Em 1902, casou-se com a dona de um bordel, Victoria Moresco; juntos, os dois abriram mais bordéis, oferecendo garotas por preços abaixo do valor de mercado na época (1 ou 2 dólares). Em 1903, Big Jim já era dono de mais de 100 bordéis, ficando com 1,20 dólar de cada 2 dólares ganhos pelas prostitutas e dando 20 centavos aos políticos corruptos por proteção. Big Jim precisava de um “suprimento” regular de mulheres, tendo começado a comprar escravas brancas por 500 dólares cada uma. A aprovação da Lei contra a Escravidão Sexual, em 1910, contudo, representou o fim do mercado. A essa altura, Big Jim possuía um grande império de prostitutas, donos de bar, chantagistas e funcionários de cassino. Ele contratava homens musculosos para manterem seus funcionários na linha.

Com os negócios crescendo, Big Jim contratou um discreto “empresário” do Booklyn para operar e fazer crescer ainda mais seu império. Seu nome: Johnny Torrio.


Na Foto: Johnny Torrio.

Jhonny Torrio era um dos homens mais barras-pesadas de Nova York. Com dinheiro de roubos abriu um grande pub de dois andares onde também funcionava um bordel. Vendeu seu negócio para trabalhar com Big Jim em Chicago. Com Johnny Torrio sendo uma espécie de executivo chefe dos negócios, Big Jim abriu o Colosimo’s Café, que se tornou o ponto mais popular de Chicago. O restaurante oferecia uma orquestra completa, pista de dança, artistas de talento e uma excelente comida, preparada pelos melhores chefs que o dinheiro podia comprar.

Na foto: Diamond "Big Jim" Colonismo, seu pai e o seu braço direito Johnny Torrio.

No final de 1919, Johnny Torrio avisou ao seu patrão que se preparasse para a proibição da comercialização de bebidas alcoólicas (A Lei Seca), mas Big Jim não estava interessado na venda ilícita de álcool: “Fico com as garotas e as apostas”, disse Big Jim para Johnny Torrio

Essa decisão de Big Jim resultaria em sua morte. Baixinho (1,67m), mas ambicioso, Johnny Torrio decidiu que o reinado de Big Jim chegaria ao fim. Em 11 de maio de 1920, ele armou uma emboscada para Big Jim em seu próprio vestíbulo, o Colosimo’s Café. Big Jim morreu com vários tiros na cabeça. Acredita-se que Johnny Torrio tenha ordenado a morte do seu chefe para que a quadrilha pudesse atuar no ramo de venda ilegal de bebidas. O fato é que agora Johnny Torrio era o todo poderoso da Chicago.

Johnny “A Raposa” Torrio

Com a morte de Big Jim, Johnny Torrio passou a ser o homem mais poderoso de Chicago, supervisionava milhares de prostíbulos, casas de jogos de azar e estabelecimentos que ilegalmente vendiam bebidas.

Com um vasto império criminoso nas mãos, Torrio tinha de ter homens de confiança e eficientes ao seu lado. Para cuidar da contabilidade dos negócios, ele chamou um velho conhecido, de apenas 22 anos, morador da cidade de Baltimore, Maryland. Seu nome: Alphonse Gabriel Capone ou, simplesmente, Al Capone.


Na foto: Al Capone.

Nascido no Brooklyn, Nova York, Alphonse Capone começou sua carreira com duas gangues, a Brooklyn Rippers (Estripadores do Brooklyn) e a Forty Thieves Juniors (Quarenta Ladrões Juniores), antes de se tornar garçom e guarda-costas no Harvard Inn, quartel-general do gangster Frankie Yale, em Coney Island. Foi enquanto trabalhava lá, no verão de 1917, que ele sofreu o ferimento que o levaria a ser chamado de “Scarface” (Cicatriz). Frank Galluccio cortou seu rosto como vingança pelas liberdades que ele tomava com sua irmã.

Com sua perspicácia nos negócios, logo ele se tornou sócio de Johnny Torrio. Al Capone assumiu o controle da Four Deuces, o quartel general do chefe, lugar onde o dinheiro rolava solto. Four Deuces era uma casa de jogos, bordel e local de vendas de bebidas ilegal.

De 1920 a 1925, Johnny Torrio passou a maior parte do tempo combatendo gangues rivais. Em 19 de maio de 1924, Dion O’Banion, um gangster rival, entregou-o para a polícia, acusando-o de contrabando, mas Torrio se vingou no dia 10 de novembro do mesmo ano, matando O’Banion. O assassinato desencadeou uma luta sangrenta nas ruas de Chicago e, no dia 24 de janeiro de 1925, Johnny Torrio sofreu um atentado em frente do prédio onde morava. Quatro gangsteres, dentre eles, Bugs Moran, atiraram várias vezes contra o chefão de Chicago. Ao cair no chão, Bugs Moran ficou de pé sobre Torrio com a arma na mão e disse: “Isto é por Dion O’Banion, seu carcamano bastardo!”, mas, quando Bugs Moran puxou o gatilho, a arma não tinha mais balas.

Johnny Torrio ficou à beira da morte por uma semana. Seu braço direito, Al Capone, colocou uma guarda armada de trinta homens do lado de fora do Jackson Park Hospital a fim de evitar outro atentado. No dia 9 de fevereiro de 1925, Johnny Torrio foi condenado a nove meses de prisão por contrabando.

Sua experiência de quase morte e sua estada na prisão fizeram-no refletir sobre sua vida. Um dia, ele chegou a Al Capone e disse: “É tudo seu Al. Eu? Estou me retirando. A europa me espera.”

Começava o reinado de sangue e morte do Czar do crime. Al Capone exterminou centenas de inimigos, inclusive os que tentaram matar seu antigo chefe, Johnny Torrio. Estima-se que 10 mil pessoas tenham morrido em decorrência das bebidas estragadas vendidas pelo mafioso.

Em quatro anos, com a organização sob o seu comando, Al Capone tornou-se um dos homens mais poderosos do mundo, expandiu seu negócio para várias outras cidades fora de Chicago, controlava informantes da polícia, subornava promotores, advogados, juízes, controlava pontos de apostas, casas de jogos, bordéis, bancas de apostas em corridas de cavalos, clubes noturnos, casas de bebidas etc. Foi eleito em 1930 pela revista Time, um dos homens mais importantes do ano. Al Capone conseguiu transformar uma sociedade criminal feudal em uma moderna empresa criminal.


Na foto: A edição da prestigiada revista Time de 24 de Março de 1930 trazia na capa um dos homens do ano: Alphonse "Scarface" Capone. Al Capone foi eleito um dos homens mais importantes do mundo ao lado de nomes como Albert Einsten e Mahatma Ghandi.

Estima-se que a renda anual de Al Capone era de 100 milhões de dólares, e ele não pagava um centavo de imposto de renda. Na lista telefônica ele aparecia como: “A. Capone, Antiquário, South Wabash Avenue, 2200.”

No dia 20 de setembro de 1926, a gangue do falecido Dion O’Banion tentou matar Capone atirando em seu quartel-general, no Hawthorne Hotel. Al Capone saiu ileso e pagou pela reforma do prédio e pelo conserto dos carros que foram danificados na vizinhança. Três anos depois, ele planejou a eliminação do seu rival no que ficou conhecido como “O Massacre do Dia de São Valentim”, no qual sete homens da gangue de Bugs Moran foram metralhados na Rua North Clark.

A Queda do Gangster

Em 4 de março de 1929, Herbert Hoover tomou posse como Presidente dos Estados Unidos. E uma de suas primeiras medidas foi dar uma árdua tarefa para o Secretário do Tesouro Americano. A tarefa era: derrubar Al Capone.

A publicidade em cima do Massacre do Dia de São Valentim foi enorme e o sentimento geral na população era de impunidade. Sete mortos em um mesmo incidente era muito, mesmo para uma cidade como Chicago. Isso contribuiu para que o novo governo catalisasse forças para derrubar Al Capone. Com apenas alguns dias no cargo, o Presidente Herbert Hoover pressionou Andrew Mellon, Secretário do Tesouro, a liderar uma batalha contra o gangster.

Mas como colocar um dos homens mais poderosos do mundo na cadeia? Definitivamente não seria fácil. Andrew Mellon elaborou um plano em duas frentes:

  1. obter provas necessárias para provar a evasão de imposto de renda do gangster;
  2. acumular provas suficientes para processar Al Capone por violações da Lei Seca.

Uma vez que as evidências fossem coletadas, agentes do Tesouro Americano trabalhariam com o escritório da Procuradoria dos Estados Unidos, que seria o responsável por iniciar o processo de indiciamento de Al Capone e os principais membros-chave de sua organização.

Para liderar o time que se encarregaria de coletar provas de que Al Capone violava a Lei Seca, Andrew Mellon nomeou o homem que anos depois se tornaria uma lenda. Ele era jovem, tinha 26 anos, era inteligente, competente e incansável.

Seu nome: Eliot Ness.


Na foto: Eliot Ness.

Eliot Ness nasceu em 19 de abril de 1903 em Chicago, Illinois. Ele era o caçula de cinco irmãos de um casal de imigrantes noruegueses, Peter Ness e Emma Ness. Concluiu o ensino médio na prestigiada Christian Fenger em Chicago. Graduou-se em economia, em 1925, pela Universidade de Chicago, onde também foi um membro da famosa Fraternidade Sigma Alpha Epsilon. Pouco tempo depois, tornou-se doutor em criminologia pela mesma universidade.

A força policial de Chicago era quase inteira corrupta. Com o dinheiro sujo, Al Capone controlava informantes, policiais e agentes. E Eliot Ness sabia disto, compor uma equipe de policiais honestos e competentes seria como procurar uma agulha no palheiro, o sucesso de sua missão dependeria da honestidade dos agentes, mas Eliot Ness exigiu muito mais do que integridade.

“Solteiro, não mais do que 30 anos, ter resistência física e mental para trabalhar por longas horas e coragem e habilidade para empunhar uma arma. Possuir técnicas especiais de investigação. Eu precisava de um homem que fosse um bom telefonista, um que pudesse tocar em um fio com velocidade e precisão. Eu precisava de um homem que fosse um excelente motorista, grande parte do nosso sucesso dependeria de como eles poderiam habilmente seguir e sumir da vista de carros e caminhões da máfia… e também de rostos novos, de outros departamentos, os quais não seriam reconhecidos pelos mafiosos de Chicago.” (Trecho da biografia de Eliot Ness).

Parecia uma tarefa árdua, mas se tinha uma coisa que Eliot Ness não sabia era o significado da palavra derrota. Competente, perseverante e um líder nato, Eliot Ness começou sua busca pesquisando nos arquivos de agentes ligados ao combate da violação da Lei Seca. Ele destacou 50 nomes, depois reduziu para 15 e, finalmente, 9 nomes foram listados como aqueles que se juntariam a Eliot Ness para colocar um dos homens mais temidos e poderosos do século 20 na cadeia.

Esse grupo de 10 pessoas entrou para a história como:

Os Intocáveis

O grupo de 9 homens (outros foram integrados posteriormente) incorruptíveis e destemidos trabalhou ostensivamente durante três anos. Com apenas seis meses de operação, o grupo invadiu várias cervejarias clandestinas, usando, para isso, escutas clandestinas. Os homens de Al Capone fizeram várias tentativas de assassinato contra Eliot Ness e seus homens, tentaram suborná-los, mas sem sucesso. A imprensa da época os apelidou de “Os Intocáveis”

Não é objetivo do post detalhar as operações que levaram à prisão de Al Capone, mas é fato que os esforços de Eliot Ness tiveram um grande impacto nas operações do gangster. Pouco tempo depois, Al Capone foi condenado por evasão fiscal e violação da Lei Seca.


Na foto: Cena do filme "Os Intocáveis". A história do grupo liderado pelo lendário Eliot Ness ganhou as telonas em 1987. Dirigido por Brian de Palma, o filme tinha no elenco nomes consagrados como Kevin Costner (Eliot Ness), Robert De Niro (Al Capone), Seann Connery (Jim Malone) e Andy Garcia. O filme recebeu quatro indicações ao Oscar, tendo Sean Connery ganho o Oscar de melhor ator coadjuvante.

Merecidamente, Eliot Ness ganhou fama e prestígio nacional ao ter participação ativa na prisão do homem mais perigoso dos Estados Unidos. Após a prisão de Al Capone, o intocável foi promovido a investigador-chefe do Escritório de Combate à Violação da Lei Seca de Chicago. Em 1933, assumiu o controle do Escritório de Investigação De Combate à Violação da Lei Seca dos estados de Ohio, Kentucky e Tennessee. Em 1934 foi transferido para a cidade de Cleveland, Ohio.

Em dezembro de 1935, o intocável ganharia seu cargo máximo. O prefeito recém-eleito de Cleveland, Harold Burton, nomeou Eliot Ness como Secretário de Segurança da cidade de Cleveland. E como de praxe, Eliot Ness imediatamente começou uma campanha para limpar a corrupção policial e modernizar o Corpo de Bombeiros e o Departamento de Polícia da cidade. Definitivamente, Cleveland não seria mais a mesma com o intocável no comando.

Mas como nos filmes de Hollywood, um acontecimento fora do comum colocou o competente homem da lei, Eliot Ness, frente a frente com um inimigo que ele jamais imaginou enfrentar. Esqueçam Al Capone ou os gangsteres de Chicago. Esse novo inimigo público não tinha rosto e não tinha nome. Seus métodos eram completamente incomuns para a época, agia sozinho, como um animal, sem piedade, sem medo. Um inimigo que antecipou um fenômeno que se consolidaria 40 anos depois. O fenômeno dos serial killers.

John Wayne Gacy, Ted Bundy, David Berkowitz e o Zodíaco assustaram a sociedade norte-americana no final dos anos 60 e década de 70. Eles chegavam para ficar. A gravidade dos crimes e a publicidade gerada em torno desses assassinos fizeram com que o mundo olhasse com mais atenção para esse novo (?) tipo de assassino. O FBI criou um departamento apenas para estudar suas mentes, surgiria lá a expressão serial killer, criada pelo agente federal e psicólogo Robert Ressler para designar aqueles homens que cometiam assassinatos em série. Coincidência ou não, Robert Ressler nasceu em 15 de fevereiro de 1937, na mesma Chicago onde, anos antes, Eliot Ness fazia história. E coincidência ou não, quatro dias depois do nascimento do homem que criaria o termo serial killer, o corpo mutilado de uma mulher era encontrado na cidade de Cleveland. Apesar de as autoridades começarem a dar atenção ao fenômeno dos serial killers apenas em meados dos anos de 1970, eles já existiam há bastante tempo.

Em uma época inoportuna, quando não existia nenhum tipo de conhecimento sobre esses perversos assassinos, crimes bestiais na Cleveland dos anos 30 colocaram frente a frente dois homens completamente distintos.

Parece um roteiro de cinema, mas não é. De um lado, um dos maiores e mais famosos homens da lei dos Estados Unidos. O homem que ajudou a colocar o maior gangster norte-americano do século 20 atrás das grades, o homem que virou filme, Eliot Ness. Do outro, o primeiro serial killer ianque a ter repercussão internacional; inteligente, bestial e sanguinário, um homem que construiu um dos enigmas mais intrigantes da história criminal dos Estados Unidos.

É a famosa fórmula dos roteiros de filmes. De um lado temos o mocinho, casado, pai de família e herói, que se utiliza de todas as suas forças para vencer o terrível e odiado vilão, que é mau e perverso. A única diferença aqui é que esta história está longe de ser ficção, é uma história real, e o final pode não ser o que estamos acostumados a ver nos filmes. 

Em quem você apostaria???

Aperte o play!

A Cidade de Cleveland

Cleveland é uma cidade do estado norte-americano de Ohio e faz parte do Condado de Cuyahoga, o maior condado do estado. Cleveland é a segunda maior cidade do estado, está localizada no nordeste de Ohio e é banhada pelo Lago Erie.

A cidade foi fundada em 1796 pelo General Moses Cleaveland, que foi o inspetor-chefe da Companhia de Terras de Connecticut. Nos anos de 1790, a companhia comprou 3 milhões de acres no que hoje é o nordeste do estado de Ohio. O nome da cidade foi uma homenagem ao general Moses, reduzindo a grafia de Cleaveland para Cleveland.

A grande cidade de Cleveland (hoje com quase 400 mil habitantes e a 45ª maior cidade norte-americana) ficou conhecida através de sua história como uma área de produção de bens manufaturados. Entretanto, seguindo a tendência nacional, Cleveland foi mudando para uma economia voltada à prestação de serviços. Cleveland hoje é um centro mundial corporativo de grandes empresas nacionais e multinacionais dos mais variados setores: transporte, seguros, varejo, bancos comerciais e finanças.


*Clique na foto para ampliar. Na foto: Mapa dos Estados Unidos. A cidade de Cleveland está localizada no ponto vermelho do mapa. Nota-se que a cidade é completamente banhada pelo grande Lago Erie.

*Clique na foto para ampliar. Na Foto: Uma imagem de satélite da Cidade de Cleveland. O centro da cidade é representado pelo ponto vermelho na imagem. Créditos da Imagem: Google Earth.

Cleveland é uma cidade que respira arte. O Museu de Arte de Cleveland recebe milhares de visitantes todos os anos. Sua orquestra sinfônica é uma das mais aclamadas do país, sem falar que Cleveland tem nada mais nada menos do que o Museu do Hall da Fama do Rock & Roll.


*Clique na foto para ampliar. Na foto: A bela cidade de Cleveland. Na foto podemos ver a Torre Terminal, cortando a cidade o Rio Cuyahoga e, ao fundo, o grande Lago Erie.

Lago Erie

O Lago Erie é o quarto maior lago dos cinco Grandes Lagos (Superior, Michigan, Huron, Erie e Ontario) da América do Norte e o maior em volume de água. Mundialmente, é o décimo maior lago do mundo. Os cinco Grandes Lagos são um conjunto de lagos localizados na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá.

O nome do lago é uma homenagem à tribo de índios Erie, que viveu ao longo da margem sul do lago (onde hoje está a cidade de Cleveland). O lago é importantíssimo tanto para os Estados Unidos quanto para o Canadá, pois sua vazão fornece energia hidrelétrica para os dois países.


Na foto: Imagem de satélite dos cinco grandes lagos da América do Norte. O Lago Erie (o Lago mais ao sul), como dito, faz parte dos 5 Grandes. O Lago Erie é um divisor entre Canadá e Estados Unidos. Ao norte do lago fica a cidade de Ontario, no Canadá, e ao sul banha o estado de Ohio, principalmente a cidade Cleveland, nos Estados Unidos.

O Rio Cuyahoga

O rio Cuyahoga corta todo o estado de Ohio. Passa por Cleveland e desemboca no Lago Erie. É uma formação geológica relativamente recente, esculpida pelo avanço e recuo das camadas de gelo ocorridas durante a última era glacial do planeta. O degelo definitivo ocorreu entre 10 e 12 mil anos atrás e causou mudanças no padrão de drenagem do rio perto da região de Akron. Essa mudança fez com que a água do rio mudasse seu curso, indo desembocar no norte, no Lago Erie, que banha a cidade de Cleveland. Por essas correntes recém-revertidas, o rio esculpiu seu caminho em torno de detritos glaciais deixados pelo recuo do gelo, resultando em um rio sinuoso em forma de U.

O Rio Cuyahoga foi um dos rios mais poluídos dos Estados Unidos no século 20. Tão poluído que se alguém caísse nele deveria ser imediatamente levado para o hospital. Peixes nem pensar. Ganhou atenção nacional quando ele literalmente explodiu em 22 de junho de 1969. Nesse dia, lixo, óleo e dejetos químicos foram o combustível para o rio queimar durante meia hora.

A música Cuyahoga de 1986, da banda norte-americana R.E.M., tem como tema o Rio Cuyahoga.


*Clique na foto para ampliar. Imagem aérea tirada da cidade de Cleveland durante o inverno de 1937. Na imagem podemos ver a forma sinuosa do Rio Cuyahoga cortando toda a cidade de Cleveland e desembocando no Lago Erie.

Kingsbury Run, Cleveland.

23 de Setembro de 1935

Kingsbury Run é uma grande área paupérrima que corta todo o lado leste de Cleveland. Como uma ferida irregular, Kingsbury Run rasga o terreno acidentado como se o próprio Deus tivesse tentado estripar a cidade. Em alguns pontos são quase 20 metros de profundidade, resultando em colinas e caminhos tortos. É uma terra árida, coberta com pedaços de grama selvagem, jornais amarelados, latas vazias e cascos enferrujados de carros velhos sob o sol. Empoeiradas, casas próximas umas das outras mantêm um silêncio sobre a área.

Indo em direção ao centro da cidade, Kingsbury Run esvazia para o negro, as águas oleosas e sujas do Rio Cuyahoga refletem a paisagem sombria e fria. Lá, bancos sombrios fazem brotar uma floresta de concreto e metal de pontes levadiças, tanques de armazenamento e edifícios de fábricas negras que florescem na fumaça amarela sulfurosa com os brilhos ardentes dos seus fornos.

Kingsbury Run é como uma ferida aberta, purulenta, com lixo, e decadente. No entanto, entre os pneus velhos e garrafas de vinho vazias, existe uma pequena cidade de homens nômades, uma cidade feia e incrustada dentro da grande Cleveland, uma cidade que havia sido invadida pela onda de depressão que assolou o país na década de 1930 (lembrem-se da grande crise de 1929). Seus papelões e barracos de lona pontilham a sinistra paisagem. Fogueiras pequenas penetram na escuridão, iluminando a feiura robusta e desesperada de Kingsbury Run. Os homens dormindo, suas cabeças contra a terra fresca só são assombradas com o passar dos comboios de trens nos trilhos que cortam o lugar.

Naquela manhã do dia 23 de setembro de 1935, o sol nasceu dourado para a maioria dos moradores de Cleveland. Dourado para a maioria, mas negro e empoeirado para aqueles que dormiam em seus barracos imundos em Kingsbury Run. Para eles, o som do trânsito da manhã contrastava com o melódico canto dos pássaros e das vozes lúcidas de crianças a caminho da escola. Gafanhotos verdes saltavam preguiçosamente pela grama alta, pareciam acenar, ou querer falar alguma coisa.

No final da tarde do dia 23 de setembro de 1935, dois adolescentes rindo alto sob o céu claro tropeçaram na grama ao pé de um barranco íngreme conhecido como Jackass Hill, em Kingsbury Run. Um deles viu alguma coisa estranha saindo do mato e decidiu investigar. Ao chegar perto, ele praticamente caiu de joelhos com a visão horrenda que acabara de ter. Sua fala sumiu, seu outro colega deu um grito de desespero. Assustados, gritando e chorando, eles voltaram pelo estreito caminho. Pareciam ter visto o próprio Demônio, e correram com todas suas forças, até que toparam de frente com um homem.

“Ei, qual é a pressa? Vocês quase me derrubaram!”, indagou o homem, mas ele não teve resposta. Vendo o medo nos olhos dos garotos, ele perguntou: “Qual o problema? O que vocês fizeram?”

Talvez se ele soubesse… não teria perguntado. Um dos meninos ainda engasgando disse: “Tem um homem lá em cima e… e… ele… ele não tem cabeça!”

A Cena do Crime

Os detetives Emil Musil e Orly May foram os primeiros policiais de Cleveland na cena do crime. E, para surpresa dos dois, eles acharam não apenas uma, mas duas cabeças. Ambas limpas e com o sangue drenado. O relatório da polícia, datado de 23 de setembro de 1935, diz o seguinte:

“Os corpos de dois homens brancos, ambos decapitados, deitados no mato; ambos os corpos estavam nus, exceto um deles que tinha meias. Após uma extensa busca, as cabeças dos dois homens foram encontradas enterradas em locais separados, uma a cerca de 20 metros de um dos corpos e a outra cabeça estava enterrada a 75 metros de distância do outro corpo. Ambos os homens tiveram seus pênis removidos, que foram achados perto de uma das cabeças. Nós também encontramos um velho casaco azul, um boné claro e mancha de sangue em um terno. Perto havia um balde de metal contendo uma pequena quantidade de óleo e uma tocha. Era evidente que óleo, ácido ou algum produto químico foi derramado sobre um dos corpos, já que um deles estava com o tecido queimado; é também evidente que ambos os corpos haviam permanecido lá vários dias até começarem a se decompor.”

Clique nas imagens abaixo e veja duas fotos dos corpos encontrados em Jackass Hill em 23/09/1935.

Créditos das fotos: In the Wake of the Butcher : Cleveland’s Torso Murders.

Imagem 1

Imagem 2

O médico-legista Arthur J. Pearse descreveu um dos homens, chamado pela polícia de “Vítima 2″ como: “…decapitado com um dos testículos faltando. Pele bronzeada e danificada por um ácido. Morte de 7 a 10 dias. Homicídio por pessoa ou pessoas desconhecidas até o presente momento. Morte por decapitação, hemorragia e choque”.

Sua idade foi estimada entre 40 e 45 anos; 74 kg, 1,70 metro de altura. Seu cabelo era castanho escuro.

Análises de laboratório da pele da vítima 2 deram os seguintes resultados: “A pele da vítima tinha uma cor avermelhada amarela e estava dura, mas não como casca de bacon. A pele foi cuidadosamente lavada em benzol, secada e examinada no microscópio. Nada de importante, que não os folículos capilares, foi notado. Aparentemente, o cabelo foi raspado ou queimado. A pele em si estava dura, e muito resistente a ácidos e álcalis. Água morna ou quente, no entanto, causou um inchaço, embora nenhuma diferença na textura tenha sido notada. Tal condição foi produzida apenas superficialmente, entretanto, já no tecido morto. Examinando o conteúdo do balde, há evidência de drenagem do tronco, parcialmente decomposto de sangue humano, e consideráveis cabelos negros (provavelmente humanos). Conclusões: os resultados indicam que este corpo após a morte foi saturado com óleo e fogo aplicado. A queima, porém, foi superficial, por isso a condição peculiar da pele”.

A conclusão da causa da morte pelo médico legista foi assustadora. A pele e os músculos no corte exato da decapitação estavam retraídos. Isso significa que ele foi decapitado vivo com um instrumento bastante afiado. A decomposição avançada impediu a tomada de quaisquer impressões digitais que pudessem ajudar a polícia.

O outro corpo pertencia a um homem na casa dos 20 anos, olhos azul-acinzentados, cabelos castanhos e pele clara. 1,55m de altura, pesando aproximadamente 67 kg. Ele estava nu, exceto por suas meias de algodão pretas (o que pode ser notado na foto). Ele tinha comido uma refeição de legumes pouco antes de morrer. Ao contrário da vítima 2, ele tinha sido morto havia 2, 3 dias.

A causa da morte foi a mesma: decapitação. Definitivamente um tipo de morte bastante incomum, até mesmo nos dias atuais. Tinha queimaduras feitas por uma corda em cada um dos pulsos, foi castrado e decapitado ainda consciente, com as mãos amarradas para trás.

Vítima 1 identificada

Imediatamente após a descoberta dos corpos, o Departamento de Homicídios de Cleveland começou a investigar as mortes. Em caso de assassinatos, a primeira pergunta que se faz é: Quem são essas vítimas? Descobrir a identidade das vítimas é meio caminho andado para desvendar o crime.

Digitais identificaram a Vítima 1 como Edward A. Andrassy, que tinha aproximadamente 28 anos. Investigando a vida de Edward, os detetives descobriram que ele havia trabalhado na ala psiquiátrica do Hospital da Cidade de Cleveland. Em 1928, conheceu uma enfermeira e os dois se casaram. Pouco tempo depois, ela deixou o hospital e logo engravidou. Edward deixou o hospital em 1931 e vendeu revistas por algum tempo. Na época de sua morte, ele não tinha emprego ou meio visíveis de apoio.

O corpo de Andrew Andrassy foi encontrado em 23 de setembro de 1935, em Jackass Hill, Kingsbury Run. Ele foi castrado e decapitado vivo. Ao contrário do outro corpo encontrado perto, Edward havia sido morto apenas alguns dias.


Na foto: Andrew Andrassy.


*Clique na foto para ampliar: Na foto: Edward Andrassy. A "Vítima 1" foi identificada por suas impressões digitais. Edward Andrassy havia sido preso várias vezes por bebedeiras, confusões e por porte ilegal de armas. Ele era conhecido por frequentar Kingsbury Run e não trabalhar. Créditos da Foto: Museu da Polícia de Cleveland.

Na foto: Edward Andrassy. Esta é uma das quatro fotos descobertas pelos detetives Peter Merylo e Martin Zalewski de Edward em 1938, dois anos depois de sua morte.

Os pais de Edward eram imigrantes húngaros vindos de uma família aristocrata. Seu pai, Joseph Andrassy, e seu irmão, identificaram o corpo no necrotério da cidade. Em depoimento à polícia, eles disseram que haviam visto Edward pela última vez quatro dias antes. Eles disseram também que estavam muito preocupados com o tipo de vida que ele estava levando e com suas companhias.

Edward era um homem bonito, alto, esguio, de cabelos escuros, mas com uma reputação extremamente ruim. Ele havia sido preso por porte ilegal de armas e passou um tempo preso em Warrensville Workhouse. Foi preso outras vezes por intoxicação pública e por se meter em confusões.

A polícia tentou tirar o que pôde da família de Edward. Sua mãe, Hellen Andrassy, disse aos policiais que dois meses antes, um homem de média idade foi até sua casa e disse que iria matar Edward por ele “estar dando em cima de sua mulher”. A polícia descobriu também, que poucos antes de sua morte, Edward estava com medo de sair de casa devido a uma briga que teve com um italiano.

Seu pai disse que Edward frequentava a Rua E. Ninth e a área de Bolivar Road, e tinha amizades com pessoas de caráter duvidoso. Em determinado ponto, um dos detetives que interrogava os pais de Edward se lembrou dele e comentou posteriormente com outro detetive: “ele era um vagabundo irritante… ele era um tipo de sujeito que dava à polícia várias versões de uma história quando questionado. Uma vez tive que ser duro com ele”.

Na foto: Capa do livro Torso, de Steven Nickel.

Com o avanço das investigações sobre a vida de Edward, a polícia começou a suspeitar sobre sua sexualidade. Alguns conhecidos da vítima acreditavam que ele era bissexual. Apesar dos fortes rumores sobre sua orientação sexual, a única coisa que a polícia encontrou e que poderia dar alguma credibilidade para esses rumores foi uma revista sobre fisiculturismo achada no seu quarto. Muitas pessoas afirmavam que ele tinha amantes homens. Alguns dos seus amigos mais próximos eram conhecidos por serem homossexuais.

Steven Nickel, em seu livro Torso, resume uma das sórdidas descobertas sobre a Vítima 1.

“Edward era amante da literatura pornográfica, fumou maconha, esteve em Detroit em 1934 e fugiu às pressas depois de irritar um gangster oriental; ele também se envolveu com uma mulher casada, cujo marido prometeu matá-lo”.

Vale lembrar que ser “amante de literatura pornográfica” naquela época era algo absurdo, a pessoa era considerada “doente”. Após alguns dias de investigação, a polícia teorizou seis possibilidades:


*Clique na foto para ampliar

A polícia tinha quase certeza de que as duas vítimas tiveram de ser carregadas, provavelmente à noite, indo abaixo do barranco íngreme de Jackass Hill. Uma linha do tempo dos acontecimentos, tomando como base o assassinato de Edward, foi feita:

  • Edward deixou sua casa na noite de quinta-feira, 19 de setembro de 1935, e não disse para sua família aonde estava indo;
  • Pelo relatório do médico-legista, ele foi morto na sexta-feira à noite, dia 20 de setembro;
  • Na tarde de segunda-feira, seu corpo foi achado. Ninguém o viu depois que ele deixou sua casa na quinta-feira.

Apesar da extensa investigação, os detetives não conseguiam encontrar nada de concreto. O passado de Edward era conhecido, mas nada que levasse a uma pista plausível. A polícia passou semanas tentando traçar o que aconteceu com Edward naquele fim de semana, mas não descobriu nada. A polícia também não conseguiu identificar a outra vítima encontrada, ela ficou registrada apenas como Vítima 2. Todas as pistas levavam a polícia a um beco sem saída, a investigação tornou-se infrutífera. Para os detetives, o pior estava acontecendo, dois corpos esquartejados e eles estavam de mãos atadas. Não tinham nada de relevante, estavam completamente perdidos.

O Intocável

Em novembro de 1935, acontecia a eleição para prefeito da cidade. Os moradores de Cleveland estavam cansados da crescente escalada de criminalidade, que parecia estar fora de controle. Décadas de corrupção política e policial tinha transformado Cleveland em um paraíso para mafiosos e contrabandistas. Como promessa de campanha, o republicano Harold Burton assumiu o cargo garantindo limpar a cidade do crime e reerguer a força policial.

Em dezembro, Harold Burton começou a fazer valer sua promessa nomeando um famoso e jovem homem, com uma excelente reputação de combatente ao crime. Ele mesmo, o intocável Eliot Ness assumia a Secretaria de Segurança de Cleveland para chefiar os Departamentos de Polícia e de Bombeiros da cidade. E como já sabemos da competência do cara, Eliot Ness não perdeu tempo, lançou uma ofensiva imediata contra jogos de azar e corrupção policial. Ao mesmo tempo, ele fez planos para atualizar a máquina policial e estabelecer uma moderna academia de polícia.O intocável entrava em ação.

Com o arrojado jovem Eliot Ness diariamente dominando as páginas dos jornais, os cidadãos de Cleveland tinham toda a sensação de que a criminalidade na cidade estava com os dias contados.


Na foto: O intocável Eliot Ness nas ruas de Cleveland em 1936. Créditos da foto: The Cleveland Press Collection

Cleveland, Ohio. 

26 de Janeiro de 1936

Domingo, 26 de janeiro de 1936, era mais um dia frio do inverno que castigava a cidade de Cleveland. O dia parecia ter amanhecido tranquilo, calmo. Calmaria que foi interrompida dentro da Delegacia de Homicídios de Cleveland por um telefonema.

O tenente Harvey Weitzel respondeu à chamada às 11h25min, e escreveu em seu relatório: “Uma mulher de cor com nome desconhecido informou a Charles Paige que havia um corpo de uma pessoa assassinada em um prédio na East 21st Place. Charles Paige afirmou que ele encontrou várias partes de um corpo humano…”

0bs.: *mulher de cor ou homem de cor, era um termo usado para designar pessoas negras.

Charles Paige era um açougueiro proprietário de um mercado de carne branca na avenida central da cidade.

Os primeiros a chegar ao local foram os detetives Shibley, Wachsman, Weitzel e o Sargento James Hogan, da Delegacia de Homicídios. Weitzel encontrou, no canto nordeste da Fábrica da Companhia Hart, na East 20th Street, partes de um corpo humano. Algumas partes estavam em uma cesta e outras foram embrulhadas em sacos de aniagem, com um terno de algodão que estava embrulhado em jornais. Pouco depois, o tenente David L. Cowles, superintendente do escritório de balística do departamento de polícia, chegou ao local para examinar o cesto e os sacos que continham o corpo desmembrado.


Na foto: O corpo desmembrado encontrado atrás de uma fábrica em Cleveland. Partes estavam dentro de um cesto e outras partes embrulhadas em sacos.

Joseph Sweeney, Chefe Interino da equipe de detetives, em um primeiro levantamento, disse que o corpo tinha sido colocado atrás da fábrica em torno das 02h30. James Marco, cuja casa ficava ao lado da fábrica, disse à polícia que ouviu seu cachorro latindo e uivando nesse horário perto do local onde o cesto e os sacos foram achados. A descoberta do corpo ocorreu mais tarde, naquela manhã, depois do alerta de uma cadela chamada Lady que não parava de latir perto do local.

Os detetives enviaram ao medico legista o que encontraram: a parte inferior do tronco de uma mulher com as extremidades das coxas. Impressões digitais dos dedos das mãos direita e esquerda foram tiradas e enviadas para o departamento de polícia de Bertillon.

A análise do médico legista Arthur Pearse indicou que a mulher havia sido morta entre dois a quatro dias. O desmembramento do corpo foi feito com um instrumento cortante, como uma faca bastante afiada. Novamente, como nas mortes de Edward e da vítima 2, as bordas das peles foram drasticamente cortadas e limpas. Arhtur Pearse concluiu que quem fez aquilo tinha uma habilidade de especialista para cortar a carne.

Pouco tempo depois, o departamento de polícia de Bertillon conseguiu identificar a mulher morta por meio dos arquivos de digitais. Ela era Florence Saudy Polillo, 42 anos. Uma mulher forte, de origem irlandesa, pele clara e cabelos tingidos com uma cor avermelhada.

Com a identificação da mulher em mãos começava a odisseia de dois detetives, Orley May e seu parceiro Emil Musil, para desenterrar o passado da vítima. Para descobrir quem fez isso com Florence Saudy Polillo, era de fundamental importância saber quem era ela, e eles não fizeram feio.

Flo Polillo

Investigando a vida de Flo Polillo, os investigadores descobriram uma triste história. Flo era uma amigável e simpática mulher, querida pela maioria das pessoas que a conheciam. Trabalhava como governanta e sua patroa gostava bastante dela, pois Flo era muito gentil com suas três filhas. Flo tinha uma coleção de bonecas muito extensa em seu modesto quarto e deixava as filhas da patroa brincar com elas com frequência.

Mas Flo tinha um sério problema com bebidas. Quando bebia, ficava agressiva e violenta. Seus relacionamentos eram muito conturbados e abusivos, muitas vezes ela terminava de muletas e com o corpo inchado de tanto apanhar, seus olhos carregavam a tristeza das surras que levava das mãos dos seus amantes.

Mas sua vida sofrida nem sempre foi assim. Ela tinha sido casada durante seis anos com Andrew Polillo, um respeitável homem empregado no Sistema de Correios dos Estados Unidos. Desde quando soube da morte da ex-mulher, Andrew se dispôs a ajudar, tendo dirigido por quatro horas de Buffalo, Nova York (sua residência), até Cleveland, para depor à Polícia e ajudar no que fosse preciso. Segundo Andrew, eles se casaram em meados dos anos de 1920 e ficaram juntos por 6 anos. Então, Flo começou a beber demais, ela ficava agressiva e ambos brigavam constantemente, até chegar ao ponto de se separarem. “Ela deveria tomar seu próprio rumo”, disse ele em seu depoimento.

Depois de se separar, a vida de Flo Polillo foi um completo caos. Ela teve vários casos, ia de homem para homem. Trabalhou de garçonete e se prostituiu para sobreviver.

Em Cleveland, seus conhecidos eram a chamada parte “suja da sociedade”: donas de bordéis, prostitutas, contrabandistas, drogados e alcoólicos. Todos eles a conheciam, muitos deles gostavam dela, mas nenhum deles tinha a menor ideia do que poderia ter acontecido com ela no fim de semana em que ela morreu.


*Clique na foto para ampliar: Na foto: Florence Saudy Polillo. Esta é a única fotografia conhecida de Flo Polillo. Ela foi identificada através das digitais da sua mão direita. Foi garçonete e prostituta. A parte inferior do seu tronco, duas coxas, braço direito e mãos foram encontrados atrás da Fábrica Hart, no número 2315 da Rua East 20th. Sua cabeça nunca foi encontrada. Créditos da foto: Museu da Polícia de Cleveland.

As escassas evidências forenses encontradas com o seu corpo eram tão silenciosas quanto seus amigos estavam em relação às circunstâncias de sua morte. Apenas a parte inferior do tronco fora encontrada. Sem a parte superior, ficou impossível para o médico-legista determinar a causa da morte. A investigação continuava, a polícia rastreou sacos de aniagem nos quais foram encontradas partes do corpo, mas nada que desse à polícia alguma luz. Apesar do excelente trabalho dos detetives em investigar a vida de Flo, eles pareciam estar em um túnel sem luz, sem saber para onde ir.

Mas, em 7 de fevereiro de 1936, uma pequena luz se acendeu no fim do túnel. O resto do corpo de Flo, com exceção da cabeça, foi encontrado atrás de uma casa vazia, espalhado a esmo contra uma cerca. O frio manteve as partes do corpo muito bem preservadas. Foi a partir da parte superior do tronco e tórax que o Dr. Arthur Pearse fez sua assustadora descoberta: Flo Polillo fora decapitada. Os músculos de seu pescoço estavam retraídos, ou seja, Flo Polillo fora decapitada viva.

A partir dessa descoberta, o Departamento de Polícia de Cleveland ficou agitado. Entretanto, apesar de no período de poucos meses três pessoas terem sido assassinadas com o mesmo modus operandi (decapitadas vivas), o que é por si só algo bastante incomum, oficialmente ninguém da Polícia interligou esses assassinatos. A polícia via os três crimes de forma isolada. Ninguém se atentou para o fato de que os crimes poderiam ser obra de um único assassino. E como nos outros dois crimes anteriores, a resolução do assassinato de Flo Polillo parecia estar longe de acontecer. Com o passar dos meses as pistas foram secando, até o caso se esfriar por completo.

Cleveland, a cidade do futuro

Cleveland vivia um período próspero. A imprensa apoiava o governo, uma reforma na polícia havia sido feita e os sistemáticos ataques contra o crime organizado estavam bem alinhados com o programa do prefeito Harold Burton de construir uma imagem positiva da cidade. Na verdade, todos esses eventos de “limpar” a cidade foram uma articulação bem planejada do Prefeito, já que Harold Burton estava preparando Cleveland para receber a Convenção Nacional Republicana, que se iniciaria na primeira semana de junho de 1936. A Convenção Nacional Republicana é o mais importante evento do Partido Republicano, já que na Convenção é escolhido o republicano que poderá ser o novo Presidente dos Estados Unidos. Cleveland deveria estar uma pérola.

Durante a semana anterior à Convenção Nacional Republicana, o intocável Eliot Ness trabalhou diariamente e supervisionou, nos mínimos detalhes, o plano de segurança para os candidatos. Checando e rechecando cada item do plano, ele tinha consciência de que sua reputação estava em jogo. Se acontecesse qualquer tentativa de assassinato ou demonstração de violência durante a semana que viria, sua cabeça estaria em jogo, além da sua bem conceituada reputação perante o país.

Cleveland, Ohio.

Sexta-Feira, 5 de Junho de 1936

Os delegados do Partido Republicano começam a aparecer na cidade para iniciar um fim de semana de festa antes da Convenção, que começaria oficialmente na segunda-feira, dia 8 de junho. Muitos daqueles visitantes políticos nunca tinham ido a Cleveland. Uma vez na cidade, eles levariam de volta as impressões de uma cidade moderna com vários prédios, lindas paisagens com árvores e fontes de água. A estratégia do Prefeito Harold Burton quando assumiu Cleveland era para torná-la uma das principais cidades dos Estados Unidos, por isso a contratação de homens-chave para liderar o processo, como por exemplo, Eliot Ness.

Pouco antes da depressão, Cleveland tinha empreendido um enorme número de projetos de construção pública no centro da cidade. O ponto chave desse programa de desenvolvimento urbano maciço era um grande Shopping Center com a nova Câmara da cidade e outras esplêndidas construções no estilo da arquitetura clássica. A mais memorável de todas foi a Torre Terminal, um precursor dos arranha-céus modernos, e um dos edifícios mais altos do mundo na época. À frente dessa magnífica torre, estava a Praça Pública, cujos hotéis, restaurantes e lojas de departamentos foram uma atração central para os delegados da convenção.


*Clique na foto para ampliar. Na foto: A praça pública de Cleveland. Foto tirada na década de 1920.

Mas apenas alguns metros dali, atrás da Torre Terminal, uma paisagem diferente começava a aparecer, uma paisagem que definitivamente a maioria dos conferencistas nunca viu.

Apenas a alguns quarteirões da elegante e sofisticada Praça Pública de Cleveland havia uma vasta área industrial que se estendia por muitos quilômetros em torno de sua alma, o Rio Cuyahoga. O Rio Cuyahoga fedia a óleo e durante muitos anos foi usado como depósito de minério de ferro e outros dejetos químicos dos altos-fornos e fábricas que existiam na cidade. Cleveland era o coração da fabricação de aço e outros produtos manufaturados. Tais produtos eram distribuídos para os quatro cantos do país através de uma enorme rede ferroviária que parecia vir de todas as direções possíveis.

Essa área era a parte mais feia da cidade, suja da fuligem preta da queima do carvão, com cheiro sulfuroso, cheia de lixo e resíduos industriais. Simbolicamente, era o lugar de despejo para os mais pobres. Voltando alguns anos atrás, milhares de homens que viviam na zona rural de Ohio e no oeste dos estados da Virgínia e Indiana se tornaram sem-teto do dia para a noite por causa da depressão no final dos anos 20. Essa fonte inesgotável de trabalho, os hobos, como eram chamados (algo como sem-teto), embarcou em trens de carga rumo a Cleveland à procura de emprego, inexistente nas usinas de seus locais de origem. Uma vez na terra da esplêndida Torre Terminal, os hobos acampavam em esquálidos barracos de metal, criando assim uma cidade com vida e alma próprias dentro da grande Cleveland.


Na foto: Três "hobos" moradores de Kingsbury Run. Sem emprego, sem dinheiro e passando fome, esses homens subiam em trens de carga e viajavam por todo os Estados Unidos. Desciam onde houvesse uma fábrica ou indústria para trabalharem. Cleveland foi invadida por milhares deles no começo dos anos 30. Invisíveis para a sociedade, eles não tinham nada. Estabeleceram-se em volta das fábricas e das linhas de trens. Foi assim que Kingsbury Run nasceu. Créditos da foto: The Cleveland Press Collection. Data: 1938

Na foto: Dois hobos caminham ao longo de uma ferrovia após terem sido expulsos de um trem. Data desconhecida. Créditos da imagem: Livraria do Congresso Norte-Americano

Era lá, no Rio Cuyahoga, que um longo e profundo barranco chamado Kingsbury Run começava a ter vida. Antes da invasão dos hobos, Kingsbury Run era um lugar de muita beleza com pedras esculpidas na paisagem pontilhada com lindos lagos silvestres. Mas agora a terra do lugar era cortada por trilhos da ferrovia Erie e Nickel Plate. Era o lugar ideal para emergir uma cidade de papelão. Na extremidade de Kingsbury Run, a cerca de 50 quarteirões ao leste da Praça Pública, um Posto da Polícia foi montado. O objetivo: patrulhar a área para manter os hobos longe dos trens.

O Homem Tatuado

Aquela manhã de sexta-feira, 5 de junho de 1936, três dias antes da abertura oficial da Convenção do Partido Republicano, reservava para a Polícia um trabalho muito mais emergencial e definitivamente muito mais importante do que manter hobos longe dos trens ou longe das imediações da Praça Pública. Naquela manhã, dois jovens garotos tiraram o dia para pescar e tomaram um atalho por Kingsbury Run. Caminhando pelas entranhas da vegetação, eles viram um pacote e um par de calças enroladas debaixo de um arbusto. O que teria naquele pacote? Pensaram os garotos. Curiosos, eles resolveram cutucar o mesmo com suas varas de pescar. A visão foi horrenda, uma cabeça saiu rolando do pacote como se tivesse pernas próprias. Aterrorizados com o que viram, correram de volta para a casa do garoto mais velho e esperaram o dia inteiro até que sua mãe chegasse em casa, e chamaram a polícia.

A essa altura a polícia já sabia do ocorrido, outra pessoa viu a cabeça e chamou a polícia. Naquela tarde, a polícia começou uma busca pelo corpo do homem. Na manhã seguinte, encontraram o cadáver nu, sem cabeça, quase em frente do Posto de Polícia de Nickel Plate. Quem o havia deixado ali parecia estar jogando uma piada sinistra sobre a polícia ferroviária, cujo trabalho era manter a área segura.

Veja abaixo fotos tiradas pela Polícia de Cleveland da cabeça achada no dia 5 de junho de 1936 em Kingsbury Run

A vítima era um homem alto, esguio, com um rosto sensível e bonito, sua idade foi estimada na casa dos 20 anos. Havia 6 distintas tatuagens em seu corpo, o que sugeria que ele poderia ter sido um marinheiro:

  • um cupido sobreposto a uma âncora;
  • uma pomba com as palavras Helen-Paul;
  • uma borboleta;
  • um personagem de desenho animado, Jiggs;
  • uma seta atravessando um coração e mastro de bandeira e;
  • as iniciais W.C.G..

Uma pilha de roupas manchadas de sangue foi achada perto do corpo. A cueca tinha uma marca de lavanderia indicando as iniciais do proprietário como J.D.

Mesmo que tivesse sido encontrado entre os hobos, definitivamente ele não era um deles. Ao contrário dos hobos, ele estava bem barbeado, bem nutrido, e muito bem vestido com roupas quase novas. O sangue havia sido drenado do corpo, o que levou a polícia a concluir que ele fora morto em outro lugar e levado para Kingsbury Run.

O médico-legista, Dr. Arthur Pearse, ficou visivelmente incomodado ao examinar a vítima. Como nos três crimes anteriores, essa também havia sido morta no ato da decapitação. A morte por decapitação é um ato bastante difícil de ser feito e muito, muito raro na história do crime. O Dr. Arthur Pearse começou a perceber que um padrão bestial estava emergindo assustadoramente em Cleveland. E foi num momento de reflexão que ele se lembrou de um caso ocorrido dois anos antes.

A Dama do Lago

Exatamente um ano antes de os corpos de Edward Andrassy e da Vítima 2 terem sido encontrados em Kingsbury Run, a metade inferior de um tronco brilhou na costa do Lago Erie, perto do Parque de Diversões de Euclid. As pernas haviam sido cortadas na altura do joelho. Na época (setembro de 1934), Dr. Arthur Pearse concluiu que o tronco da mulher havia estado na água por um período de três a quatro meses. A coloração estranha da pele sugeria que o corpo tinha sido queimado ou tratado com um produto químico, talvez um conservante. Duas semanas antes, a parte superior do tronco da mulher fora encontrado a 48 quilômetros de distância, mas o homem que descobriu o pedaço do corpo na época não achou que fosse humano. O resto da mulher nunca foi encontrado.

Veja abaixo uma foto do que sobrou da Dama do Lago

A mulher nunca foi identificada, e ficou oficialmente conhecida como “A Dama do Lago”.

Voltando a 1936, a polícia não vinculou os estranhos assassinatos de decapitação ao tronco encontrado boiando no Lago Erie em 1934. Mas o Dr. Arthur Pearse, após realizar a autópsia no Homem Tatuado, lembrou-se daquela feita na Dama do Lago em 1934, e imediatamente ligou os cinco assassinatos. Todos foram desmembrados, tiveram o sangue drenado e suas peles pareciam ter sofrido experiências pelo assassino. Apesar das conclusões do médico-legista, para o Departamento de Polícia de Cleveland esses crimes não tinham ligação nenhuma.

Cleveland, Ohio

Domingo, 7 de Junho de 1936

Cleveland amanheceu calma na véspera do maior evento da história da cidade, a Convenção Republicana. O intocável Eliot Ness apenas descansaria naquele dia, após várias semanas de serviço intenso, preparando todo o esquema de segurança dos candidatos. Como todos os dias de manhã, ele foi tomar o seu café na cozinha lendo os principais jornais da cidade. Ao fazer isso, o intocável teve uma desagradável notícia, apenas um dia antes da Convenção. No domingo, histórias de um maníaco psicopata solto em Cleveland já estavam em todos os jornais da cidade. Os jornais davam tratamento tenebroso aos crimes de decapitação. Até mesmo a Dama do Lago estampava as matérias, alguns a chamavam de “Vítima Zero” do assassino que arrancava cabeças.

Como para todo cidadão de Cleveland, os crimes eram algo inédito para Eliot Ness, e perfeccionista e competente como era, nem terminou de ler os jornais. O intocável levantou-se de sua cadeira e foi procurar saber o que estava acontecendo com os Chefes de Polícia.

Ele silenciosamente reuniu-se com o Sargento James Hogan, recém-nomeado para a Divisão de Homicídios, e com David Cowles, chefe do Laboratório de Criminalística. Eliot Ness queria que o veterano detetive de polícia, James Hogan, no auge dos seus cabelos brancos, deixasse-o a par dos assassinatos por decapitação que estampavam as páginas dos jornais. A essa altura, Eliot Ness já havia conversado com o médico-legista Arthur Pearse, que mencionou 4, possivelmente 5, assassinatos por decapitação datados de 1934.

Eliot Ness queria saber se esses quatro assassinatos tinham ligação e o que o Sargento James Hogan achava sobre A Dama do Lago. O veterano de polícia, como todo bom americano, não gostou do chefão intocável vindo interferir no seu trabalho, mas Ness era o chefe e James Hogan sabia o seu lugar. Relutante em um primeiro momento, James Hogan expressou sua opinião de maneira forte:

“Essas mortes não têm ligação. Mesmo os três homens achados em Kingsbury Run (Edward Andrassy, Vítima 2 e Homem Tatuado) tinham padrões diferentes na mutilação. Talvez os dois primeiros corpos achados tenham sido obra do mesmo assassino, pois ambos foram emasculados. As duas mulheres, Flo Polillo e Dama do Lago foram encontradas em locais diferentes, fora de Kingsbury Run”, disse o Sargento James Hogan.

Eliot Ness pareceu perdido em seus pensamentos por alguns minutos. Antes ele havia conversado com o Chefe do Laboratório de Criminalística, David Cowles, que tinha uma opinião totalmente diferente de James Hogan. David Cowles estava convencido de que era um único assassino, mas suas opiniões não foram ouvidas pelo truculento Sargento James Hogan.


Na foto: Eliot Ness.

“Jim (apelido de James Hogan), você tem um sério problema em suas mãos. O mesmo cara matou todos eles. É muita similaridade para ser apenas coincidência. Morte por decapitação. O corte preciso. Corpos totalmente limpos e arrumados. Eu não posso te dizer por que ele mata as mulheres de um jeito e os homens de outro, mas é o mesmo homem, isso eu garanto para você”, disse Eliot Ness.

O velho Sargento James Hogan se sentiu humilhado, mas decidiu não discutir com Eliot Ness, afinal, o chefe ali era o intocável. Ele não conhecia o garoto maravilha (como a imprensa apelidou Eliot Ness) suficientemente para saber se ele toleraria que um subordinado discordasse de sua teoria. James Hogan perguntou se havia alguma coisa de especial que ele queria que fosse feito, já que chegara à conclusão de que era um único assassino.

Eliot Ness foi muito claro em suas instruções. Absolutamente nenhuma sugestão ou informação deveria ser dada aos jornais sobre as mortes enquanto a Convenção Republicana estivesse acontecendo, caso contrário, os visitantes teriam medo de sair de seus quartos de hotel. Após o esforço do prefeito Harold Burton para trazer a Convenção para Cleveland, ele ficaria furioso ao saber que sua festa seria estragada por causa de um psicopata lunático.

“Jim, eu quero que você faça tudo que estiver ao seu poder para pegar esse maníaco. Cowles, eu sei que você vai colocar o laboratório criminal â disposição de Jim”, disse Eliot Ness.

Eliot Ness não tinha intenção de se envolver profundamente no caso. Esse era um trabalho para o Sargento James Hogan, e ele estava seguro de que James traria resultados. Além do mais, investigar a corrupção policial tinha uma prioridade muito maior do que encontrar um porco açougueiro lunático que matava vagabundos e zés-ninguém.

Uma cabeça em exposição


Na foto: Pessoas caminham na Lake Erie Plaza, no centro da Exposição dos Grandes Lagos em 1936, em Cleveland. Créditos da imagem: Plain Dealer Photograph


*Clique na foto para ampliar. Mais de 83 mil pessoas se espremiam nas ruas em apenas um dia da Exposição dos Grandes Lagos que aconteceu em Cleveland em 1936. A Exposição que ocorreu em 1936 e 1937 era uma comemoração do centenário da cidade. Em 1936 foram quatro milhões de visitantes. Em 1937, três milhões.

Com o corpo da última vítima em perfeitas condições, mais 6 distintas tatuagens, James Hogan estava bastante otimista em obter a identidade do Homem Tatuado. Enquanto alguns detetives checavam arquivos de impressões digitais e relatórios recentes de pessoas desaparecidas, outros levavam fotos dos desenhos do jovem homem morto a estúdios de tatuagem e locais que marinheiros costumavam frequentar. Mas os dias iam passando, e nada. Detetives trabalharam vários dias rastreando as roupas que foram encontradas, tentando achar o fabricante e as lojas por onde elas poderiam ter passado. Sem conseguir identificar a vítima, o Sargento James Hogan tomou uma decisão bizarra. Colocou em exposição fotos e a cabeça do Homem Tatuado no necrotério da cidade em uma tentativa de que alguém o reconhecesse.

O rosto e as tatuagens receberam muitas visitas no necrotério. Duas mil pessoas olharam para a cabeça na primeira noite e outras milhares nos dias seguintes.

A equipe de Eliot Ness teve mais sorte na Convenção Nacional Republicana. Seu plano de segurança foi excelente e a Convenção foi concluída com sucesso, com o candidato republicano Alfred Landon, governador do Kansas, escolhido para concorrer com o democrata Franklin Roosevelt.

Logo após a Convenção acabar, a cidade foi varrida pelo glamour da Exposição dos Grandes Lagos, que era uma combinação dos maiores e melhores parques de diversão do mundo. Após a miséria dos anos da Depressão, foi uma diversão magnífica oferecida a um modesto preço, onde até os pobres poderiam desfrutar dos espetaculares shows com celebridades como Esther Williamns, Sally Rand, Billy Rose e Johnny Weismuller. Teve até uma exibição coordenada por Eliot Ness mostrando os mais modernos métodos da polícia de combate ao crime.

Mas algo bizarro invadiu a Exposição. Algo exposto trazia uma mistura de medo e fascinação. Mães passavam longe com seus filhos, homens e curiosos ficavam olhando e discutindo entre si. Nada chamava mais a atenção dos visitantes do que a máscara da morte do Homem Tatuado.

seta

Na foto: A Máscara da Morte. A máscara mortuária feita de gesso a partir da cabeça do Homem Tatuado foi um esforço do Departamento de Polícia de Cleveland para identificar a vítima. Essa máscara foi exposta nos dois anos da Exposição, 1936 e 1937. Se você for a Cleveland, poderá vê-la no Museu da Polícia de Cleveland.

A máscara da morte, junto com fotografias do rosto da vítima e das tatuagens, foi exibida para os sete milhões de visitantes que vieram para a Exposição dos Grandes Lagos em 1936 e 1937. Apesar de todo o esforço, o que parecia simples tornou-se um pesadelo, o Homem Tatuado, como ficou conhecido, permaneceu sem nome.

Cleveland, Ohio.

22 de Julho de 1936

O departamento de polícia ainda trabalhava no caso do assassinato do Homem Tatuado quando, em 22 de julho de 1936, uma chamada chegou para os detetives de homicídios. Outro assassinato ocorrera. Em seu relatório, o detetive Orley May informou que o Sargento James Hogan foi até a área de Big Creek, no lado sudoeste da cidade, onde uma adolescente havia descoberto um cadáver decapitado de um homem branco perto de um campo de hobos. O relatório de Orley May dizia ainda: “(O homem morto) foi deitado de bruços; a cabeça estava parcialmente embrulhada em sua roupa cerca de 4,5 metros ao norte do corpo. Parecia que o corpo tinha sido deitado nesse ponto há pelo menos dois meses e estava em avançado estado de decomposição”.

A polícia conduziu uma milimétrica busca na área e achou a cabeça do homem, a qual estava praticamente sem carne. Dezenas de baratas faziam a festa no local, roupas manchadas de sangue, a qual o homem estava usando, foram encontradas. O patologista descobriu uma grande quantidade de sangue seco que havia se infiltrado no solo sob o corpo, isso indicava que ele havia sido morto ali mesmo.


*Clique na foto para ampliar

Veja abaixo uma imagem do corpo da Vítima 5 encontrada em 22 de Julho de 1936

Este assassinato foi um pouco diferente. Pela primeira vez, o assassino atravessou a cidade, e ao invés de transportar a vítima, matou-a no mesmo lugar que ela foi descoberta. O homem morto, baixo, com cerca de 40 anos, tinha sido morto entre 2 e 3 meses, o que indicava que sua morte ocorrera antes do Homem Tatuado. A forma em decapitar continuava a mesma, ele parecia estar se tornando um especialista e aquela parecia ser a sua assinatura.

Naquela altura parecia evidente demais e o Sargento James Hogan parecia não ter escolhas a não ser concordar que aquelas decapitações eram obra de um único homem, mas James Hogan não tinha intenção de compartilhar suas descobertas com a imprensa. O avançado estado de decomposição do corpo tornou a retirada das impressões digitais impossível, a polícia tinha apenas suas roupas para rastreá-lo. James Hogan não estava otimista. Os cabelos longos da vítima, sua pobre roupa, e a localização do corpo perto de um campo de hobos sugeriam que ele era um dos milhares sem-teto que perambulavam ao longo das ferrovias. Descobrir sua identidade seria uma tarefa praticamente impossível.

James Hogan fez o seu melhor na investigação sem atrair muito a atenção dos jornais, mas seu sucesso era limitado. A história já tinha sido capturada pela imaginação dos aspirantes a escritores dos jornais locais.

“Existe algum lugar no condado onde um louco cujo estranho Deus é a guilhotina? …Será que existe uma fantástica química da mente que o converte para um açougueiro humano? …Será que ele imagina-se como um carrasco da Revolução Francesa ou um fanático religioso salvando a raça humana com um machado?”, dizia um dos principais jornais da cidade.

Essas foram as sementes iniciais da histeria que estava por vir, e elas só não tomaram as devidas proporções porque naquele momento havia muitas coisas mais interessantes acontecendo na cidade. Por que perder tempo com perdedores? Eliot Ness e seus homens conduziam cada vez mais ataques a importantes criminosos da cidade. Os que não eram presos saíam da cidade. Os jornais e o povo gostavam dessas histórias, era Cleveland sendo limpa, assim como acontecera em Chicago anos antes.

A Histeria

Em meados de setembro de 1936, a Convenção da Legião Americana estava prestes a acontecer, proporcionando à cidade de Cleveland um grande final para aquele movimentado verão após a Convenção Nacional Republicana e a Exposição dos Grandes Lagos. O ambicioso plano do Prefeito Harold Burton estava tomando forma, Cleveland estava começando a se tornar candidata a sede de grandes eventos do país. Ele definitivamente estava fazendo um excelente trabalho. Mas com o que ele não contava era que, em vez de as grandes conquistas da cidade e de seu governo serem manchetes dos jornais, o que estamparia as capas dos mesmos seria algo muito assustador.

No dia 11 de setembro de 1936, os jornais marcaram em negrito suas páginas, alertando a todos que um macabro maníaco estava à solta. E ele havia feito uma nova vítima.

O local, mais uma vez, Kingsbury Run. Em 10 de setembro de 1936, um hobo estava sentado na Rua E. 37th esperando por uma carga de trem vinda do leste. Em uma poça de água oleosa e negra, ele viu duas metades de um tronco humano boiando.

O Detetive Orley May foi até o local acompanhado pelo detetive Emil Musil. Seu relatório diz:

“Descobrimos que o tronco foi descoberto por Jerry Harris de St. Louis. Ele estava sentado no cais ao lado do riacho quando notou dois pedaços do tronco, ele então notificou a polícia. O tronco foi removido do córrego e enviado para o necrotério do condado. As buscas começaram imediatamente ao lado do riacho, apoiávamos na vegetação para equilibrar o corpo. Os bombeiros foram chamados e a vegetação cortada, utilizaram ganchos para recuperar a outra parte do tronco. Pequenos pedaços de carne foram encontrados em uma borda do riacho. Não foi possível recuperar qualquer parte do corpo com os ganchos, então utilizamos outro tipo de gancho e conseguimos recuperar duas pernas que estavam cortadas abaixo do joelho. Em seguida, continuamos as buscas… recuperamos a coxa direita. Eu procurei na mata e achei um chapéu de feltro cinza, não estava sujo e parecia ter manchas de sangue na parte superior. O chapéu era da loja Laudy Smart Shop, Bellevue, Ohio. A camisa azul foi encontrada embrulhada em um jornal ao longo da margem do riacho, onde o corpo foi jogado. A camisa estava coberta de sangue”.


Na foto: Policiais procuram partes do corpo encontrado em 10 de setembro de 1936 em um riacho em Kingsbury Run. Créditos da foto: The Cleveland Press Collection

 

Centenas de mórbidos espectadores se amontoaram em volta para assistir aos policiais drenarem o riacho à procura da cabeça da vítima. James Hogan pôde sentir a histeria crescendo entre as pessoas que viviam nos pequenos barracos de Kingsbury Run. Se aquela mesma histeria tomasse os jornais, certamente James Hogan e Eliot Ness não conseguiriam mais manter o controle em relação à imprensa. Mas, a essa altura, os jornais já tinham até um nome para o maníaco: O Açougueiro Louco de Kingsbury Run.

Mais tarde naquele dia, James Hogan conversou com o médico legista que confirmou que a morte ocorrera entre um a dois dias antes por decapitação. A vítima dessa vez era um homem branco entre 25 e 30 anos, de altura mediana e cabelos castanhos-claros. Naquela noite, o sargento e 12 detetives ficaram madrugada adentro pesquisando em arquivos de pessoas desaparecidas alguém que correspondesse ao homem encontrado.

Veja abaixo imagens do corpo recuperado pela polícia em 10 de Setembro de 1936

Na manhã seguinte, a macabra descoberta era a história da primeira página. Enquanto milhares de pessoas ficavam chocadas ao lerem os jornais, mergulhadores desciam na obscura profundeza do riacho à procura da cabeça da vítima e de outras partes do corpo. Se no dia anterior uma centena de pessoas acompanhava as buscas, naquela manhã o número já multiplicara. Amontoados e em pé por horas, os curiosos assistiam à sinistra caça dos policiais pelos pedaços restantes do homem. Após duas horas de lavagem de alta pressão com mangueiras de incêndio, os policiais decidiram chamar a Guarda Costeira para usar seus equipamentos especiais para pesquisar centímetro por centímetro o fundo do riacho coberto de lixo.

O calejado Sargento James Hogan só fez piorar a histeria dizendo a um repórter que ele achava que o assassino vivia em torno ou em algum lugar de Kingsbury Run. Para as infortunadas pessoas que viviam no local, o fato de o assassino usar seu jardim como cemitério não importava muito, mas quando James Hogan disse que o criminoso estava entre eles, o medo foi generalizado. Poucos saíam de casa. A população de cães e gatos cresceu rapidamente após isso (entendeu, certo? Não? Eu explico: hobos costumavam almoçar e jantar esses animais).

Após ver a notícia de mais uma morte estampada nas capas dos jornais, um irritado Eliot Ness pulou de sua cadeira, da qual comandava a Secretaria de Segurança, e resolveu se envolver pessoalmente no caso. O prefeito estava furioso, tudo o que Cleveland não precisava era de notícias sobre um açougueiro louco matando a esmo pessoas na cidade. Os jornais noticiavam apenas os crimes por decapitação. Eliot Ness estava irritado, ele teria de interromper seu importante trabalho de combate à corrupção para caçar um louco varrido que decapitava pessoas vivas. De uma forma ou de outra, Eliot Ness viu que aqueles crimes deveriam cessar, o caso havia se tornado grande demais para que James Hogan o conduzisse sozinho. O intocável entrava em cena.

Eliot Ness e a investigação do Açougueiro Louco de Kingsbury Run

Com Eliot Ness no comando, a investigação tomou um novo rumo. Ele definitivamente era um homem à frente do seu tempo, e se debruçou totalmente sobre o caso. Cada detalhe era minuciosamente investigado, ele mesmo entrevistou dezenas de detetives que trabalharam nos crimes e ordenou que uma limpeza fosse feita em Kingsbury Run. Todo e qualquer hobo que morasse no local era levado ao escritório de Eliot Ness e questionado pessoalmente pelo intocável. Alertava-os sobre o assassino e dava ordens para que mudassem de local.

Vinte detetives foram designados permanentemente para as entrevistas, que deveriam ser feitas com todos que moravam em volta de Kingsbury Run. Nesse ponto o que não faltava eram especulações e teorias sobre a identidade do assassino, ao mesmo tempo que os detetives eram metralhados com milhares de ligações. Pessoas ligavam sem parar informando sobre comportamentos suspeitos de vizinhos, parentes, colegas de trabalho etc. Qualquer um que tivesse horários incomuns, carregasse grandes pacotes nas ruas ou levasse uma faca no bolso era apontado como suspeito pela população. A histeria era total. Açougueiros, médicos, enfermeiros, agentes funerários e caçadores sentiram na pele o medo da população.

O detetive Orley May reportou uma informação típica dos milhares que o departamento de polícia recebia todos os dias:

“O detetive Musil e eu recebemos informações de uma pessoa que não gostaria que sua identidade fosse revelada e que afirmou que enquanto ela estava no reformatório, uma mulher com o nome de Helen O’Leary disse a ela que conhecia o homem que matou Florence Polillo. Helen era ex-mulher de um homem que foi assassinado muitos anos atrás. Essa pessoa perguntou a Helen quem era o homem que matou Polillo e ela respondeu: ‘Seu nome é Jack Wilson’. Esse Jack Wilson era um açougueiro e trabalhava em uma mercearia na avenida St. Clair. Ele é conhecido por sempre levar uma faca de açougueiro de grande porte. Segundo nosso informante, Jack Wilson era também estuprador, tendo estuprado pessoas conhecidas dessa informante. Ela acha que ele é a pessoa que está cometendo esses crimes de decapitação em Kingsbury Run. Ele mata para que possa sodomizar as vítimas”.

Mas o pior de tudo para os investigadores não era o excesso de informações. O novo pesadelo de quem trabalhava no caso se chamava Eliot Ness. O intocável queria a cabeça do assassino em sua mesa e ordenou aos investigadores que cada ligação, cada informação, mesmo a mais idiota de todas, deveria ser investigada. Com o número de denúncias que eles recebiam, a investigação poderia durar anos. Mas para o intocável isso não importava, ele nunca havia perdido uma batalha, e não seria um louco varrido que mancharia o seu nome.


Na foto: O detetive August Nicolaus vasculha um barraco na área de Kingsbury Run à procura de pistas sobre o assassino. Qualquer pista, até mesmo as mais inconsistentes eram verificadas. Os detetives chegavam a varar a noite checando informações.

Na foto: Detetive questiona um hobo em Kingsbury Run. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Detetive leva dois hobos para interrogatório sobre o caso das mortes por decapitação. Créditos: The Cleveland Press Collection

Os detetives corresponderam às ordens de Eliot Ness. Além de investigar cada informação, eles repetidamente vasculhavam arquivos de hospitais psiquiátricos em busca de alguma pista. Pacientes que estavam livres também eram investigados. Nesse ponto abro um parêntese. É interessante vermos o padrão de investigação da polícia décadas e séculos atrás. Casos de assassinatos em série, crimes violentos etc., a polícia sempre buscava pelo criminoso padrão: louco (saído de um hospital psiquiátrico de preferência), sujo (hobos), feio, carregando uma faca no bolso e cuspindo fogo. Naquela época era esse o padrão de investigação. Arrisco-me a dizer que essa ideia vigora até hoje, mas sabemos (principalmente em casos de assassinos em série) que o criminoso muitas vezes é um homem acima de qualquer suspeita.

Os detetives também tentaram alguns métodos pouco ortodoxos. Vestiam-se como hobos e se escondiam nos arbustos de Kingsbury Run à procura de pessoas com comportamento suspeito. Outros detetives se infiltravam em bares gays e saunas, tudo na tentativa de obter pistas sobre homossexuais com tendências sádicas. Certamente algo engraçado, imagine um hetero frequentando saunas gays e tentando se comportar como homossexual? Difícil para qualquer homem daquela época.

O chefe da Agência Federal de Narcóticos em Cleveland veio com uma teoria estranha, para ele um viciado em maconha era o responsável pelos assassinatos: “Existe uma oferta abundante dessa erva que cresce selvagem e mortalmente em torno da linha férrea em Kingsbury Run. Tanto o desejo da emoção como o da obsessão homicida são facilmente induzidos pelo cigarro dessa erva maldita.”

Poucos dias depois do sexto assassinato, o jornal Cleveland News ofereceu uma recompensa de mil dólares, uma quantia considerável para a época, por informações que levassem à prisão do assassino de Kingsbury Run. O Conselho Municipal de Cleveland também estava votando uma resolução para oferecer uma recompensa similar.


Na foto: Mike Borich, um hobo suspeito é levado para interrogatório em 1936. Ele logo foi liberado pelo intocável Eliot Ness. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Outra imagem do suspeito Mike Borich sendo levado por investigadores. Créditos: The Cleveland Press Collection

Existe uma fascinação em casos de crimes não resolvidos que estimula a imaginação popular. Um dos melhores exemplos disso é Jack, O Estripador, que, após ter matado 5 (ou 6) prostitutas em Londres (um principiante para os padrões atuais dos serial killers), inspirou inúmeros livros, filmes e teorias sobre sua identidade. Se o Estripador de Londres tivesse sido capturado, o interesse nele seria muito menor e certamente não teria virado uma lenda.

Em uma escala menor, O Açougueiro Louco de Kingsbury Run inspirou o mesmo tipo de especulação imaginativa. Os jornais do centro-oeste americano ficaram impressionados com a esperteza e audácia do assassino. A falta de pistas e evidências não era acidental. O decapitador, apesar do nome, não tinha nada de louco. Não havia nada, nenhuma moeda, chave ou pedaço de papel que pudesse incriminá-lo. É comum a polícia coletar impressões digitais em corpos até mesmo através do sangue o qual o assassino manuseia sua vítima. Mas esse não era o caso, não havia impressões digitais. Os corpos estavam totalmente limpos. O sangue drenado.

O tempo passava e nada. Os detetives já admitiam que o assassino jogava com eles, que parecia desafiá-los. Os corpos eram deixados sempre na mesma área e quando o corpo do Homem Tatuado foi deixado perto da polícia ferroviária de Nickel Plate, os detetives chegaram a uma conclusão: o assassino estava jogando o seu lixo no quintal da casa da polícia. O assassino estava brincando com eles, chamando para a briga. É possível que o assassino tenha feito isso para chamar mais atenção. As primeiras mortes foram um treino, para saber até onde ele poderia chegar, mas agora ele queria os holofotes, sua arte deveria ser admirada por todos, sair nos jornais. Talvez ele mesmo tenha conversado com amigos em bares ou no trabalho sobre os assassinatos. Ele era inteligente, na verdade, era muito inteligente. Esperto e também arrogante. Talvez mais inteligente do que os próprios detetives que o investigavam. Assim como Eliot Ness, esse assassino estava à frente do seu tempo. Era um inimigo à altura do intocável.

Os jornais contribuíam para o imaginário sem fronteiras e especulavam sobre os motivos das estranhas mortes. Começava aqui a mistureba de lenda e realidade.

Uma das teorias dos jornais era que o assassino era um médico muito rico que matava pessoas das classes inferiores apenas por esporte. Outra teoria dizia que o assassino era um fanático religioso que tinha de livrar o mundo das prostitutas e homossexuais porque “Deus lhe disse para fazer aquilo”. Outra teoria popular propôs que o assassino era alguém normal que matou as 5 pessoas decapitadas durante lapsos de loucuras.

Uma típica reportagem dos jornais da época pode ser vista em um editorial saído no The Cleveland News: “De todos os horríveis pesadelos que ganham vida, o mais diabólico é o demônio que decapita suas vítimas na escuridão, nas trevas de Kingsbury Run. O homem dessa natureza que permite trabalhar sua vingança louca sobre 6 pessoas em uma cidade do tamanho de Cleveland é a nossa vergonha. Nem Edgar Allan Poe em seu mais profundo sonho de ópio poderia conceber tão meticulosamente tal horror…”

O Perfil do Açougueiro Louco de Kingsbury Run

Mesmo não tendo à disposição o conhecimento que a ciência possui hoje sobre serial killers, Eliot Ness sabia que esse assassino não era um ordinário qualquer. Como um homem à frente do seu tempo, Eliot Ness reuniu um grupo de especialistas para compartilhar informações sobre os assassinatos. Nesse time estavam: o médico-legista Arthur Pearse; o Dr. Reuben Strauss, patologista que fez várias autópsias nas vítimas; o Promotor Público Frank Cullitan; o Chefe de Polícia Matowitz; o Tenente David Cowles; o inspetor Joseph Sweeney; o Sargento James Hogan; e vários consultores médicos externos. O grupo se reuniu sob a liderança de Ness, ele queria saber quem era esse assassino.

Depois de muitas horas, o grupo chegou a conclusões sobre o assassino:

Um homem, sozinho, assassinou todas as 6 vítimas. A Dama do Lago, que certamente foi uma vítima anterior do mesmo serial killer, não foi incluída na contagem oficial pelo fato de ter sido morta em 1934, um ano antes da morte de Andrassy.

O assassino, mesmo com distúrbios psicológicos, um psicopata, provavelmente não era insano. Houve discordância sobre a questão de o assassino ser homossexual, considerando a mutilação genital dos corpos. A mutilação pode ter sido feita para dificultar a identificação ou para facilitar o transporte do corpo. As outras mutilações sofridas não tinham um propósito claro para o grupo.

Todos concordaram que o assassino tinha algum conhecimento de anatomia, mas os peritos médicos não acharam evidências suficientes para estabelecer se as mortes eram executadas por algum médico. Afinal de contas, um açougueiro ou um caçador facilmente reconhecem marcos anatômicos tão bem quanto um cirurgião.

O assassino deveria ser grande e forte. Os peritos descartaram que os assassinatos pudessem ter sido cometidos por uma mulher. A natureza dos ferimentos, além do fato de que pelo menos 3 das vítimas foram carregadas por uma distância considerável, reforçava a tese de que deveria ser um homem forte.

Era muito provável que o assassino fosse um residente da área de Kingsbury Run. Com exceção da quinta vítima, todas as outras foram achadas no lado leste do lugar.

Considerando o quão bizarro é decapitar uma pessoa viva, já que a veia jugular espirra sangue para todas as direções, o grupo concordou que o assassino tinha um lugar privado onde as vítimas eram mortas e posteriormente limpas. Teorias sobre um matadouro de um açougueiro, escritório de um médico ou até mesmo uma casa onde as vítimas eram ludibriadas a se instalarem por comida ou abrigo foram levantadas pelo grupo.

O assassino selecionava suas vítimas nas camadas mais baixas da sociedade. Se isso tinha ou não como objetivo eliminar os miseráveis da cidade, não foi determinado.

A maioria dos especialistas acreditava que não fora por acaso que apenas duas das seis vítimas tinham sido identificadas, e as duas estavam entre os primeiros corpos: Edward Andrassy e Flo Polillo. Para os experientes investigadores, isso indicava que o assassino ficava mais esperto. As cabeças e as mãos se decompunham mais rápido, o que dificultava a identificação. Mesmo corpos com marcas visíveis, como o Homem Tatuado, ninguém apareceu ou reconheceu as vítimas. Isso indicava que o assassino selecionava-as uma por uma, e escolhia aquelas que eram sozinhas.

Outra característica única dos crimes foi a escolha de Kingsbury Run como cemitério. Quatro das seis vítimas foram encontradas na área. O Homem Tatuado foi colocado perto da Polícia Ferroviária de Nickel Plate, o que fez a polícia acreditar que o assassino estava brincando com eles. Então, em setembro de 1936, quando todos os hobos e detetives estavam em alerta máximo, o assassino novamente escolheu Kingsbury Run para enterrar sua sexta vítima. Ele parecia estar assumindo riscos consideráveis para humilhar a polícia.

O excêntrico detetive Peter Merylo

Após a morte da sexta vítima, Eliot Ness não mediu esforços para encontrar o assassino. Entre os muitos patrulheiros e detetives de homicídios que trabalhavam no caso, o nome de Peter Merylo é o mais frequentemente lembrado como figura-chave da polícia. Peter Merylo era um policial muito inteligente, mas também muito excêntrico, falava várias línguas europeias e havia começado sua carreira policial como um guarda. Ele era baixo e atarracado, com a tenacidade de um cão pitbull. Uma vez que uma ideia se fixava em sua mente, ele a levava até o fim, mesmo que isso custasse as 24 horas do seu dia.


Na foto: O detetive Peter Merylo mostra facas à imprensa que ele acreditava que tinham sido usadas pelo Açougueiro Louco de Kingsbury Run

A homossexualidade era ilegal na Cleveland dos anos 30, e o detetive Peter Merylo assumiu uma responsabilidade pessoal de tirar do “armário” “pervertidos sexuais” e colocá-los atrás das grades. Reza a lenda que ele preencheu toda a ala de uma cadeia com homossexuais. De acordo com alguns oficiais da polícia da época, Peter Merylo fazia ronda em torno de bares gays e seguia homens que saíam em dupla. Ao chegar ao seu destino, o detetive ficava de tocaia esperando para dar o bote nos homens no momento em que ambos fizessem algo comprometedor. Ele, então, entrava nas casas ou hotéis e prendia os pobres coitados.

Peter Merylo foi sem dúvida um dos maiores detetives que trabalharam no caso dos assassinatos de Kingsbury Run. Ele fazia de tudo que estivesse ao seu alcance e trabalhava no caso em período integral. Tinha muita persistência e dedicou-se ao caso por anos. Ele e seu parceiro Martin Zalewski fizeram carreira no caso do Açougueiro Louco. Ninguém na força policial duvidava da eficiência de Peter Merylo ao rastrear todos os suspeitos. Entretanto, seus métodos, que incluíam passar noites em claro na região de Kingsbury Run a fim de servir como isca para o assassino, tornaram-se controversos e ele foi alvo de comentários sarcásticos.


Na foto: O detetive Peter Merylo em uma das inúmeras vezes em que se disfarçou de hobo na tentativa de servir como isca para o Açougueiro Louco de Kingsbury Run

Ninguém escapou da minuciosa investigação de Peter Merylo. Dos cerca de 10 mil suspeitos que foram interrogados durante todo o tempo que dedicou ao caso, os mais bizarros foram descobertos por ele:

“Aberração do Frango”: Esse suspeito descoberto por Peter Merylo contratava prostitutas para ficarem nuas. Ao ficarem nuas, elas deveriam decapitar cabeças de frangos para que ele pudesse se masturbar assistindo à cena.

“Doutor Voodoo”, “Raio da Morte” e “O Gigante Enlouquecido”: Esses eram conhecidos por carregar uma enorme peixeira por Kingsbury Run.

Todos esses personagens, que mais pareciam ter saído de histórias em quadrinhos de terror, foram caçados, capturados, e se sentaram frente a frente com Peter Merylo. Vários outros tiveram o privilégio de ser interrogados pelo excêntrico detetive, a maioria era criminosos, outros, deficientes mentais, vagabundos etc.

Suas desventuras com os personagens mais sinistros da cidade fizeram de Peter Merylo uma fonte popular para os jornais da época. O dedicado detetive nunca se sentiu constrangido pelo departamento de Polícia puxar sua orelha por comentários que ele fazia aos jornais. Pouco tempo depois, o departamento até achou interessante as histórias de Peter já que essas desventuras distraíam a imprensa, tendo em vista a total falta de progressos na investigação.

Lago Erie, Cleveland.

23 de Fevereiro de 1937

Quando o intocável Eliot Ness começava a sentir que os crimes estavam sob controle, já que toda a Polícia estava à caça do assassino e ele não seria idiota de cometer outro crime sabendo que todos estavam na sua cola, o Açougueiro Louco atacou novamente em 23 de fevereiro de 1937. Dessa vez, parecia uma cópia virtual do crime da Dama do Lago. A parte superior de um tronco foi achada limpa na praia na Rua 156th, quase o mesmo lugar onde partes da Dama do Lago foram achadas três anos antes. O decapitador voltava à ativa e sua arrogância era nítida.

Como as outras vítimas, a Vítima 7 foi decapitada. Seus braços foram amputados e o tronco dividido. Enquanto o tronco foi levado para o necrotério, os Detetives Peter Merylo e seu parceiro Martin Zalewski seguiram o que parecia ser uma trilha de sangue e questionaram residentes da área. Como no assassinato de 1934, a questão permanecia: o corpo foi descartado no Lago Erie onde lavou-se na praia, ou o corpo flutuou de Kingsbury Run até o Rio Cuyahoga e então foi para o lago? Mais de dois meses depois, a parte inferior do tronco de uma mulher foi encontrada flutuando na East 30th Street, bem perto da foz do Rio Cuyahoga.

A essa altura, um novo médico-legista havia sido eleito para o Escritório de Patologia:Samuel Gerber, que tinha formação em medicina e direito. A eleição aconteceu em novembro de 1936. Os assassinatos de Kingsbury Run lhe ofereceram um especial desafio intelectual e ele dedicou incontáveis horas para revisar os detalhes do caso. A recompensa oferecida pelos jornais deixou todos os envolvidos no caso com água na boca, e Samuel Gerber também estava atrás dessa grana.

Quando a porção superior do tronco foi encontrada em 23 de fevereiro de 1937, o médico-legista Samuel Gerber estimou que a mulher havia sido morta entre dois a quatro dias antes e não havia passado mais do que três dias na água. A mulher sem cabeça tinha entre 25 e 35 anos, pesava aproximadamente 50 quilos, tinha a pele clara e cabelos castanho-médios. As únicas pistas que a polícia descobriu sobre ela era que morava na cidade (pela sujeira encontrada em seus pulmões), que tinha um enfisema moderado, e que estivera grávida pelo menos uma vez. Apesar de um enorme esforço, ela nunca foi identificada, e ficou conhecida apenas como Vítima 7.

As pernas foram removidas com golpes limpos de um instrumento bastante afiado, os braços também foram removidos com extrema perícia, entretanto, a mutilação do tronco não se deu da mesma forma. Ao contrário da maioria das outras vítimas, a morte pareceu não ser causada por decapitação. Os coágulos de sangue no coração indicavam que a decapitação foi post-mortem. As roupas, a cabeça, as pernas e os braços nunca foram achados.

Havia um detalhe sinistro. Talvez fazendo uma piada ou desafiando a polícia, o assassino inseriu o bolso de uma calça (provavelmente da vítima) no reto da Vítima 7. O reto teve de ter esticado para acomodar o objeto.

Veja abaixo imagem do tronco da sétima vítima do Açougueiro Louco de Kingsbury Run

Em março de 1937, o médico-legista Samuel Gerber produziu um sumário das sete vítimas. Curiosamente, a Dama do Lago, morta em 1934, ainda não estava incluída na contagem oficial das vítimas do Açougueiro Louco. Como o seu antecessor, Arthur Pearse, Samuel Gerber estava convencido de que todos os assassinatos foram cometidos por um único indivíduo. Ele considerou que a dissecação dos cadáveres era um meio que o assassino utilizava para facilitar o transporte do corpo e uma maneira de dificultar a identificação. Isso fazia sentido (pelo menos na época) já que das últimas vítimas, apenas a Vítima 3, Flo Polillo, fora identificada.

O assassino era destro e usava uma grande faca. Seu conhecimento de anatomia era claro. Pela primeira vez, um médico-legista enfatizou que o assassino poderia ser um cirurgião, um estudante de medicina, um enfermeiro ou um veterinário, assim como um açougueiro ou um caçador. Samuel Gerber achou que o fator sexo seria difícil de avaliar nesse caso. O Açougueiro Louco parecia ser o primeiro (certamente não o primeiro, mas um dos primeiros a ser bem documentados) psicopata sexual da história dos Estados Unidos que matava pessoas de ambos os sexos.

Tentando manter o controle sobre a situação e evitar o pânico na população, Eliot Ness fez algo antes nunca feito: contatou seus amigos dos jornais e fez um apelo especial. Armado com conselhos de diversos psiquiatras forenses, ele implorou para os jornais baixarem o tom sensacionalista sobre os recentes assassinatos. Eliot Ness e os psiquiatras acreditavam que o carnaval feito nas primeiras páginas dos principais jornais da cidade sobre os crimes inflou o ego do maníaco encorajando-o a matar novamente. Não apenas isso, a histeria promovida pela mídia fez com que o departamento de polícia tivesse de correr atrás de pistas e dicas inúteis que inundavam os investigadores todos os dias. Durante meses parecia que todos os moradores da cidade sabiam quem era o assassino: um homem excêntrico, alguém que matou uma galinha na rua, um desconhecido que chegou a cidade… qualquer característica atípica era suficiente para que a população denunciasse pessoas à polícia.

Os editores concordaram em cooperar e começaram a suavizar a cobertura do caso. O relatório do Dr. Samuel Gerber foi editado para ser publicado nos jornais. Samuel, um homem com um ego enorme pra não dizer prepotente, ficou furioso com Eliot Ness. Afinal, com essa nova postura da imprensa, a publicidade que o médico-legista poderia ganhar seria bastante afetada. Começava aqui uma disputa entre o escritório do médico-legista Samuel Gerber e o gabinete de Eliot Ness, disputa que só piorou com o tempo. Samuel Gerber queria publicidade com o caso enquanto Eliot Ness queria o menor burburinho possível.

Cleveland, Ohio, 6 de Junho de 1937

O ego inflado do médico-legista fez com que Eliot Ness rompesse relações com ele e ambos pararam de conversar. Mas por um breve período. Em 6 de junho de 1937, um adolescente chamado Russel Lawer observava os barcos da Guarda Costeira no Rio Cuyahoga. Ao voltar para casa, o adolescente fez uma descoberta macabra a 139 metros a oeste de Stone’s Levee sob a Ponte Lorain-Carnegie. Deitado em um saco de aniagem, junto com papel de jornal de junho do ano anterior, estava uma parte do esqueleto de uma mulher que estava morta havia aproximadamente um ano.

Samuel Gerber descreveu a Vítima 8 como uma mulher pequena, não mais do que 1,5 metro de altura, com ossos pequenos e delicados (mesmo que seus braços e pernas estivessem faltando).


*Clique na imagem para ampliar.

O esqueleto foi enrolado em um pedaço de papel que continha a propaganda de um show no Palace Theater em Junho de 1936. O detetive Orley May contatou o diretor do teatro, que confirmou que um grupo de mulheres conhecidas como Nils T. Grantfund fizeram um show no teatro em junho de 1936 e que elas estavam em teatros de Nova York no dia em que a vítima foi descoberta. Ele não se lembrava do desaparecimento de nenhuma das garotas quando elas estavam em Cleveland.

A polícia recebeu uma carta que fazia referência a um dentista morto há muitos anos. A carta propunha que a vítima era uma prostituta de nome Rose Wallace. Depois de uma longa investigação sobre a vida de Rose Wallace e seu desaparecimento em agosto de 1936, tanto o Dr. Samuel Gerber quanto o sargento Hogan rejeitaram Rose Wallace como sendo a Vítima 8. Entretanto, o detetive Peter Merylo acreditava firmemente que Rose era a Vítima 8.


Esse retrato, feito por Michael Nevin, é baseado em uma fotografia publicada em um jornal da época. Embora o médico legista Samuel Gerber nunca tenha concordado com sua identificação como a Vítima 8, sua arcada dentária foi identificada por um jovem afro-americano em abril de 1938, que dizia ser seu filho. A Vítima 8 nunca foi oficialmente identificada. Créditos: Museu da Polícia de Cleveland

Kingsbury Run, Cleveland, 6 de Julho de 1937

Exatamente um mês depois de o esqueleto de uma mulher ter sido encontrado, o Açougueiro Louco atacou novamente, e dessa vez não havia dúvidas sobre a sua identidade, o local: Kingsbury Run. Em 6 de julho de 1937, a parte superior do tronco de um homem, além de suas duas coxas, foi encontrada flutuando no Rio Cuyahoga logo abaixo de Kingsbury Run. Na semana seguinte, pedaços da vítima flutuavam como num filme de terror. Quase tudo foi recuperado, exceto sua cabeça.

Esse homem, que também nunca foi identificado, tinha 1,72m de altura e pesava 67 quilos. Suas unhas estavam limpas e cortadas. A idade foi estimada em 42 anos. Ele tinha sido morto havia 2 dias, a contar de quando a primeira parte do seu corpo foi achada.

A assinatura do Açougueiro Louco ficou mais uma vez evidente: a decapitação foi a causa da morte. Mas dessa vez, algo novo apareceu. Pela primeira vez o assassino retirou todos os órgãos abdominais, inclusive o coração, e nenhum deles nunca foi encontrado.

Desde que o médico legista Samuel Gerber sugeriu que o assassino de Kingsbury Run poderia ser um médico, a polícia começou a focar suas investigações nos homens que vestiam jaleco branco. De fato, todos os médicos da cidade, estudantes e enfermeiros foram investigados. Uma vigilância especial foi feita para médicos que possuíam histórico de excentricidades ou fraquezas por sexo ilícito (leia-se sexo com prostitutas), drogas ou qualquer suspeita de atividade homossexual.

Um dos médicos da cidade se encaixava perfeitamente no perfil do assassino que a polícia procurava. Ele era médico, alto e forte. Seu nome: Dr. Frank E. Sweeney.

Frank Sweeney cresceu na área de Kingsbury Run e por várias vezes teve seu consultório no local. Ele teve sérios problemas com álcool que lhe custaram caro. Sua mulher pediu a separação e levou os filhos, além disso, perdeu sua residência cirúrgica no Hospital St. Alexis, um hospital bastante próximo de Kingsbury Run. Para piorar sua situação, havia rumores de que ele era bissexual e possuía um temperamento muito violento quando bebia. Mas em 1937, a polícia abandonou o Dr. Frank Sweeney como suspeito. O médico sempre estava fora da cidade atendendo em um hospital de veteranos na cidade de Sandusky em Ohio. Esse álibi fez com que os investigadores o descartassem, já que ele estava em Sandusky quando o oitavo crime foi cometido.

*Obs: O Dr. Frank Sweeney não tem nenhum parentesco com o chefe interino dos detetives Joseph Sweeney.

O ano de 1937 terminou com mais três corpos decapitados, os quais, após exaustivas investigações, ficaram apenas conhecidos como Vítima 7, Vítima 8 e Vítima 9. A esse ponto, moral era tudo o que a polícia não tinha, e a agitação na cidade crescia cada vez mais. Após uma consulta com especialistas, Eliot Ness persuadiu os jornais a publicarem reportagens menos sensacionalistas. Segundo sua argumentação, a publicidade dada para o caso alimentava o ego do assassino.

Com os jornais silenciados após a morte das três vítimas em 1937, a polícia estava livre para seguir pistas concretas ao invés de perder tempo investigando milhares de pistas inúteis. Baseado na nova análise do Dr. Samuel Gerber, eles investigaram com mais rigor médicos, estudantes de medicina e enfermeiros. Samuel Gerber percebeu evidências de que o assassino tinha algum treinamento médico, algo que passou despercebido pelo médico-legista anterior.


Na foto: Eliot Ness examina os estragos causados pela onda de violência que assolou Cleveland no verão de 1937. Créditos: The Cleveland Press Collection

O ano de 1937 foi emocionante o bastante sem a histeria induzida pela mídia dos assassinatos em Kingsbury Run no ano anterior. Enormes greves e motins no segundo semestre do ano esgotaram os recursos de Eliot Ness e do Departamento de Polícia de Cleveland. A Guarda Nacional de Ohio foi chamada, armada com gás lacrimogêneo, armas de fogo e cassetetes, deixando milhares de feridos nos confrontos. Pelo resto do ano Eliot Ness dedicou seus esforços a reerguer a cidade e deixou de lado o caso do serial killer decapitador. Pouco depois ele deixaria o caso para os Chefes de Polícia e voltaria a engajar-se com total empenho nos seus programas de modernização da segurança da cidade.

A investigação continua

Enquanto Eliot Ness estava no topo da crista após controlar os motins na cidade, os detetives Peter Merylo, Martin Zalewski, Orley May e Emil Musil e muitos outros continuavam na incansável e frustrante cruzada pelo Açougueiro Louco de Kingsbury Run. Muitos meses se passaram desde a descoberta da Vítima 9, e as investigações ficavam cada vez mais sem rumo. No entanto, o trabalho continuava, centenas de suspeitos continuavam a ser interrogados.

Mas isso já não bastava. Eles deveriam conseguir algo concreto, alguma evidência, qualquer coisa. Os interrogatórios não davam resultado e as pistas deixadas pela última vítima não levaram a lugar nenhum. Sem ter para onde ir, os detetives decidiram, então, concentrar-se apenas nas duas únicas vítimas identificadas: Edward Andrassay e Florence Polillo.

Olhando para trás, é fato que esses dois assassinatos não foram investigados da maneira adequada. Somente após a descoberta de pedaços da sexta vítima é que a polícia alertou sobre um possível assassino louco nas ruas. Talvez, voltando os olhos para trás, os detetives conseguissem alguma coisa.

Eles rastrearam todas as pistas e suspeitos dos assassinatos anteriores. Um pente fino foi feito, entretanto, o que sobrou para os detetives foram apenas fotos de Edward Andrassay e um oceano de bizarras histórias sobre sua vida e a de Flo Polillo.

Em meados de março de 1938, uma descoberta teria um silencioso, mas duradouro, impacto sobre o caso do serial killer de Kingsbury Run. Em Sandusky, uma cidade a duas horas de carro de Cleveland, um cachorro achou a perna mutilada de um homem. Imediatamente a polícia começou uma busca na pantanosa área onde a perna havia sido encontrada. O Tenente David Cowles, do Departamento de Polícia de Cleveland, foi a Sandusky para ver se o caso poderia ter alguma conexão com o Açougueiro Louco.

David Cowles, um brilhante especialista forense autodidata, lembrou-se de que um dos cirurgiões de Cleveland que se encaixava no perfil do Açougueiro Louco havia sido eliminado como suspeito porque ele estava no hospital de veteranos em Sandusky quando um dos assassinatos ocorreu. Seu coração bateu mais forte e o seu sangue esquentou como se estivesse perto de uma fogueira ardendo em chamas. Um filme passou pela sua cabeça, e ele, num piscar de olhos, começou a farejar feito um animal atrás de sua presa. David Cowles foi até o hospital, conversou com soldados e marinheiros de Sandusky, foi de casa em casa e começou a falar com as pessoas da cidade.

David Cowles descobriu que o Dr. Frank Sweeney voluntariamente havia se internado várias vezes no hospital para tratar o alcoolismo. Algumas dessas visitas se intercalavam perfeitamente com os assassinatos do Açougueiro Louco de Cleveland. Em uma análise inicial, parecia que as internações do Dr. Frank Sweeney forneciam um álibi perfeito para ele.

Entretanto, isso não bastava, e David Cowles sabia disso. Ele procurou saber o quão de perto os pacientes do hospital eram assistidos e tratados. A resposta foi que os pacientes não eram realmente “assistidos”, ou seja, não havia um controle sobre eles, afinal de contas, era um hospital e não uma prisão de segurança máxima. Além disso, principalmente durante feriados e fins de semana, o hospital lotava de visitantes. Pacientes ambulatoriais como o Dr. Frank Sweeney poderiam muito bem ir e vir quando quisessem. Não era incomum pacientes que sofriam de alcoolismo sucumbir às suas necessidades e desaparecer por um ou dois dias. O que David Cowles concluiu foi o seguinte: era perfeitamente possível que o Dr. Frank Sweeney saísse do hospital dos veteranos, viajasse de carro ou trem até Cleveland, cometesse os assassinatos e voltasse para o hospital sem que sua ausência fosse notada.

David Cowles não se deu por satisfeito e continuou a investigar a vida do Dr. Frank Sweeney e sua estreita e negra relação com o hospital dos veteranos. O investigador descobriu que a Penitenciária de Honor Farm de Ohio compartilhava algumas de suas instalações com o hospital de veteranos. Em sua meticulosa investigação, David Cowles descobriu que o Dr. Frank Sweeney ficara amigo de um condenado chamado Alex Archaki, e que ambos desenvolveram uma relação simbiótica.

Alex, através dos seus vários contatos, fornecia álcool para o Dr. Frank Sweeney quando ele estava no hospital, em troca, o Dr. prescrevia barbitúricos e outras drogas para o condenado. Mas isso não foi a descoberta mais interessante para David Cowles.

Para Alex, o Dr. Frank Sweeney era o Açougueiro Louco de Cleveland.

Alex havia conhecido o Dr. Frank Sweeney dois anos antes em um bar no centro da cidade de Cleveland. Ele estava sozinho quando o Dr. Frank Sweeney se aproximou. Alex o descreveu como um homem bem vestido, de boa aparência e extrovertido. O médico pagou para Alex algumas bebidas e fez várias perguntas pessoais.

“De onde você é?”

“Você tem algum parente na cidade?”

“Você é casado?”

Alex achou as perguntas estranhas vindas de alguém que acabara de conhecer, mas não deu muita importância. Tempos depois, após as mortes em Cleveland, Alex imaginou que o médico o estava analisando como uma vítima em potencial. E isso parecia bastante plausível, já que o Açougueiro Louco parecia escolher vítimas que ele tinha certeza de que não seriam identificadas, possivelmente homens e mulheres que não eram da cidade e que não tinham amigos ou parentes em Cleveland.

David Cowles tentava tirar o máximo de informações possível de Alex, que, ao ser confrontado com as datas dos assassinatos, percebeu que as ausências inexplicáveis do Dr. Frank Sweeney do hospital coincidiam com as datas estimadas da morte de várias vítimas do decapitador. Em princípio parecia que quando Frank Sweeney desaparecia do hospital dos veteranos, um corpo decapitado aparecia em Cleveland.

No fim de março, apenas poucos dias depois da visita do detetive David Cowles ao hospital, a polícia de Sandusky veio com uma notícia que poderia esfriar a suspeita sobre o médico. A perna mutilada encontrada por um cachorro era resultado de uma cirurgia feita num hospital, ou seja, a perna era lixo hospitalar. Porém, essa notícia não abalou o detetive David Cowles. Pela primeira vez no caso do decapitador de Cleveland, todos sentiam que possuíam um forte suspeito.

Quando voltou para Cleveland, David Cowles começou uma discreta e silenciosa investigação sobre o Dr. Frank Sweeney. Ele deveria ser cuidadoso, pois existia um problema. Apesar de o médico vir de uma família pobre, ele era primo em primeiro grau do Congressista Martin L. Sweeney, uma figura colorida e controversa do partido democrata local e, para piorar as coisas, o congressista sempre foi um crítico declarado da administração do prefeito (que era republicano) de Cleveland Harold Burton. Frequentemente Sweeney mirava sua fúria no intocável Eliot Ness, um homem a quem chamava de obsessivo e terrorista contra policiais que foram acusados de receber suborno durante a Lei Seca. Para o congressista, em vez de Eliot Ness caçar o insano serial killer que caminhava nas ruas de Cleveland, ele colocava atrás das grades policiais. Chegou até a arquitetar nos bastidores uma forma de destituir Eliot Ness do cargo de Secretário de Segurança de Cleveland. A investigação de um primo primeiro do congressista era uma batata quente que o detetive David Cowles tinha nas mãos.


Na foto: O congressista Martin Sweeney

Quem era o Dr. Frank Sweeney?

O médico Francis Edward Sweeney (chamado de Frank) nasceu em 1894. Sua família, pobres imigrantes irlandeses, morava no lado leste de Cleveland, à borda de Kingsbury Run. A tragédia marcou a infância de Frank. Seu pai morreu em um acidente, e sua mãe, de um derrame cerebral quando ele tinha apenas 9 anos. Ele e seus irmãos ficaram sozinhos vivendo como ratos nas ruas.

Apesar da pobreza da família e de ter crescido sem nenhum tipo de apoio, Frank era um garoto esperto e muito inteligente. Sua inteligência fora do comum e sua eficiência nos trabalhos que conseguiu ao longo dos anos o fez conseguir algo inimaginável para alguém que cresceu nas ruas, muito possivelmente andando por Kingsbury Run. Frank graduou-se (curso técnico) em farmácia e medicina, mesmo tendo de trabalhar em período integral. Seus colegas de classe na escola de medicina o elegeram vice-presidente da turma e seus professores o recomendaram para universidades.

Após duas décadas de exaustivos esforços, ele graduou-se na Escola de Medicina de St. Louis em 1928 e tornou-se residente cirúrgico no hospital St. Alexis em Kingsbury Run. Seus irmãos definiam Frank como um homem completamente absorvido pela ciência e pela medicina. Mesmo mergulhado em suas pesquisas científicas, Frank imediatamente parava o que estava fazendo caso tivesse de atender algum membro de sua família que estivesse doente. Sua preocupação com a saúde dos irmãos e dos seus sobrinhos o tornou uma pessoa querida e respeitada. Todos respeitavam sua inteligência e sua perícia médica.

A expertise de Frank como cirurgião residente lhe permitiu tornar-se protegido de um médico altamente respeitado na sociedade, o Dr. Carl Hamann. Frank parecia ter uma promissora carreira pela frente. Casou-se com uma bela mulher de cabelos negros e origem eslava, e teve dois filhos. Ele conseguira algo aparentemente impossível para um garoto pobre na América dos anos 20, respeito e uma linda família.

Infelizmente para Frank, na mesma época em que ele se estabelecia como um importante homem para a sociedade, dentro dele pressões destrutivas começavam a se enraizar em seus pensamentos. O excesso de trabalho, a tendência ao alcoolismo e a psicose pareciam ser algo hereditário. Começava a sua ruína. Ele foi internado no Hospital da Cidade para tratar o vício, mas o tratamento não surtiu efeito. O consumo de álcool piorou e a sua carreira, bem como o seu casamento, começou a se desintegrar. Ele era violento e abusivo com sua família e isso piorou quando foi despedido do hospital em que trabalhava. Sua esposa pediu definitivamente o divórcio em 1936, pedindo a custódia dos filhos. Uma ordem judicial foi emitida, ele não poderia “visitar, interferir ou molestar” seus filhos e sua esposa.

De acordo com sua mulher, o Dr. Frank Sweeney começou a beber continuamente dois anos depois do casamento, em julho de 1927, e isso continuou como um hábito até sua separação, em setembro de 1934. Nesse ponto, o detetive David Cowles notou uma compatibilidade entre o tempo de deterioração do médico e a data da descoberta da Dama do Lago, a provável primeira vítima dos assassinatos em série, descoberta boiando no Lago Erie em 5 de setembro de 1934. Era como um clímax: o médico bebia continuamente havia cinco anos, sua ruína total veio com a separação da família em setembro de 1934, e a Dama do Lago apareceu no mesmo mês. A vítima: uma mulher. Coincidência?

A investigação do detetive David Cowles continuava. Os problemas do Dr. Frank Sweeney foram considerados principalmente resultados de predisposição genética. O alcoolismo na família atacou tanto o pai como o próprio Frank. A doença mental foi um fator levantado também. O pai de Frank passou os últimos anos de sua vida em um asilo sofrendo do que foi vagamente chamado pelos relatórios de “psicose”. Ele teve um ferimento grave na cabeça quando serviu na Primeira Guerra Mundial, posteriormente ganhou uma pensão parcial por invalidez.

Outro fator que fez com que o Dr. Frank Sweeney se tornasse um suspeito foi o fato de ter crescido na área de Kingsbury Run. O médico conhecia a área intimamente por causa de suas explorações quando criança. Provavelmente ele conhecia cada atalho, cada árvore e cada buraco daquela área. Além disso, o médico era um homem grande e forte, certamente poderoso o suficiente para levar Edward Andrassay e a Vítima 2 até o aterro íngreme de Jackass Hill em Kingsbury Run. Claramente Frank tinha conhecimentos médicos suficientes para realizar decapitações e desmembramentos de forma tão eficaz. Para fechar as evidências contra o médico, sua alegada bissexualidade explicaria por que o Açougueiro Louco escolhia tanto homens como mulheres. Um heterossexual atacaria mulheres, um homossexual pessoas do mesmo sexo.

Rio Cuyahoga, Cleveland, 8 de Abril de 1938

David Cowles estava completando sua investigação sobre o Dr. Frank Sweeney quando uma nova descoberta fez estremecer ainda mais a cidade de Cleveland. A perna quebrada de uma mulher foi achada no rio Cuyahoga em 8 de abril de 1938.

Nesse momento tudo que David Cowles, Eliot Ness e o departamento de polícia inteiro não queriam era uma nova vítima. Talvez tenha sido resultado de um acidente de barco, um lixo hospitalar, como a perna encontrada por um cachorro em Sandusky, ou até mesmo os restos de uma das vítimas anteriores, teorizavam os policiais.

Mas as esperanças da polícia foram por água abaixo quando o médico-legista Samuel Gerber anunciou que a perna encontrada tinha sido removida havia poucos dias. Ou seja, pertenciam a uma nova vítima do Açougueiro Louco de Cleveland. Porém, esse anúncio do legista deixou Eliot Ness furioso. Ele não acreditava em Samuel Gerber. Para Eliot Ness, o médico queria dar para si mesmo uma reputação nacional com o caso e usava os assassinatos em série para construir uma publicidade em torno do seu trabalho. E isso era plausível, já que Samuel Gerber usou de sua influência para publicar textos em jornais da cidade sobre as bizarras mortes. E para piorar, o caso ganhava muito mais publicidade quando as mórbidas palavras do médico-legista saíam nos papéis.

Eliot Ness comprou uma briga com Samuel Gerber e pediu que uma avaliação independente dessa nova descoberta fosse feita. Enfurecido, o médico recusou o pedido do intocável e o respondeu dizendo que devia satisfações apenas para o povo de Cleveland, povo que o elegeu para o escritório legista. Não devia satisfações para o Departamento de Polícia de Cleveland, departamento que, por sua vez, falhou em encontrar o assassino.

As trocas de farpas entre os dois acabaram um mês depois. E dessa vez, como em poucas vezes em sua vida, Eliot Ness saiu derrotado. Dois sacos de aniagem contendo o corpo nu de uma mulher com o tronco dividido ao meio foram encontrados no Rio Cuyahoga. Coxas e pés foram encontrados na margem do rio. A cabeça e os braços nunca foram encontrados. O decapitador atacara de novo. Era a sua 10ª vítima.


Na foto: Imagem de 02 de maio de 1938. A polícia retira do Rio Cuyahoga um dos sacos contendo pedaços do corpo da 10ª vítima do serial killer de Cleveland. Créditos: Plain Dealer Collection, Cleveland Public Library

Samuel Gerber estimou que a mulher morta tivesse entre 25 e 30 anos, aproximadamente 1,60m e 54 kg, com cabelos castanho-claros. Muito pouco foi descoberto sobre a Vítima 10. O médico-legista, em seu relatório, diz que ela tinha um tórax plano (?), já havia feito uma cesariana, tinha um laceração bilateral do colo do útero, devido a um nascimento adicional ou um aborto, e teve seu apêndice removido. A autópsia mostrou que não havia presença nos tecidos de nenhum tipo de droga. Mais uma vez, a causa da morte foi decapitação.


Na foto: O médico legista, Dr. Samuel Gerber, examina um dos pés da Vítima 10, encontrada em sacos no Rio Cuyahoga em 2 de maio de 1938

Mais uma vez, um esquadrão de detetives saiu às ruas. E mais uma vez, a Vítima 10 não foi identificada. O Açougueiro Louco de Cleveland parecia não ter nada de louco. A não identificação dos corpos mostrava que o assassino estava em outro patamar. Na maioria dos assassinatos, as cabeças e as mãos (as maneiras mais óbvias de se identificar alguém) não eram encontradas. E se o assassino enterrasse a cabeça e as mãos em algum lugar? E se a cabeça e as mãos fossem jogadas no Lago Erie amarradas a pedras? Pensaram os detetives.

Os sacos de aniagem que embrulhavam o corpo não forneceram nenhuma pista concreta para a polícia. E assim o tempo foi passando… passando… e passando. Como nos assassinatos anteriores, sem ter nenhum sucesso, os detetives eram transferidos para atuarem em outros casos, deixando o Detetive Peter Merylo sozinho na sua incansável busca.

Infelizmente, nos anos 30, o fenômeno dos serial killers era muito pouco entendido. Não percebendo que os serial killers usualmente escolhem estranhos como vítimas, a polícia usava a abordagem tradicional na solução de homicídios, que consistia em procurar por motivos e oportunidades entre os conhecidos das vítimas. Serial Killers era algo desconhecido, e raramente a polícia trabalhava em casos de assassinatos em série. Em uma época em que a comunicação e a troca de informações eram precárias, era difícil saber até mesmo o que acontecia na cidade vizinha. Nem mesmo Eliot Ness, nem Samuel Gerber perceberam que o assassino era organizado e altamente inteligente e que seria quase impossível pegá-lo com o conhecimento e as tecnologias forenses disponíveis na época. A notícia dos crimes que estavam aterrorizando Cleveland há pelo menos quatro anos chegou no velho continente, e a Scotland Yard, uma das melhores polícias do mundo, voluntariamente deu sua opinião sobre os crimes, afinal, o serial killer mais famoso do mundo, Jack, O Estripador, derramou sua onda de fúria 40 anos antes na velha Londres, e a mesma Scotland Yard por anos perseguiu o maníaco. Alguma experiência eles tinham, mas nem mesmo a ajuda da Scotland Yard pareceu dar alguma luz ao caso.

O detetive David Cowles enxergou uma ponta de esperança com o seu novo suspeito, o Dr. Frank Sweeney. David Cowles era por natureza um homem cauteloso e ele compreendia totalmente que qualquer investigação sobre um primo de um congressista deveria ser absolutamente discreta. A última coisa que o seu chefe, Eliot Ness, precisava era de mais um problema nas mãos, caso o congressista descobrisse que o departamento de polícia suspeitava que seu primo era o Açougueiro Louco. O congressista poderia entender isso como um ataque por parte do prefeito da cidade pelo fato de ele ter, repetidas vezes, criticado a administração. Eliot Ness já se sentia bastante perturbado por não conseguir dar um ponto final nesses crimes. Um problema político agora seria um verdadeiro caos.

Na Cola do Dr. Frank Sweeney

David Cowles decidiu vigiar o Dr. Frank Sweeney, afinal de contas, se realmente fosse o assassino, e ele conseguisse pegá-lo em flagrante, nem mesmo o Presidente dos Estados Unidos poderia reclamar. Entretanto, a vigilância demandava alguém inteligente e confiável, uma pessoa que agisse como um fantasma, alguém como um animal, que apenas farejasse a vítima e que nunca fosse visto. Thomas Whalen, um jovem e promissor policial do departamento foi um dos escolhidos pelo chefe David Cowles para seguir o Dr. Frank Sweeney onde quer que ele fosse.

O jogo de gato e rato começava. Se o Dr. Frank Sweeney fosse mesmo o terrível serial killer de Cleveland, será que o jovem policial seria páreo para ele? Afinal, nesse ponto da história já sabemos que o decapitador, que de louco não tinha nada, deveria ser um assassino muito inteligente e provavelmente alguém com uma posição alta na sociedade, como um médico. Eu apostaria no serial killer.

E realmente o jovem policial não foi páreo para o brilhante Dr. Frank Sweeney. Se o médico era o serial killer ou não, não sabemos, mas que ele era brilhante e inteligente, isso sabemos. Um dia, o jovem policial Thomas Whalen seguiu o doutor, olhando-o a distância, espreitando-o feito um animal. O médico entrou em uma grande loja de departamentos e começou a fazer compras. Thomas Whalen o espreitava a distância, observando cada passo do suspeito, o que ele fazia, seus gestos, se ele conversava com alguém, e o que comprava.

A loja era grande, o médico foi até os fundos e o policial o seguiu. De repente, o suspeito fez uma curva brusca à direita perto dos elevadores do prédio e desapareceu por completo da vista do policial Thomas Whalen, que ficou sem saber o que fazer, o médico desaparecera debaixo do seu nariz e, como nos filmes do cinema, ele se encontrava sozinho em um corredor nos fundos de uma loja apenas olhando para o vazio. Ao virar para sua direita, uma surpresa, o Dr. Frank Sweeney o espreitava, o rato virava o gato, e o policial é que agora estava sendo observado.

Assustado e meio que envergonhado, o jovem policial não disse nada e começou a caminhar como se nada tivesse acontecido. O Dr. Frank Sweeney sorriu e disse: “Ei, meu nome é Sweeney, e o seu? Qual o seu nome? Se nós dois vamos estar juntos com tanta frequência, poderíamos muito bem nos conhecermos.”

O que você responderia?

O jovem policial, perplexo e sem jeito, disse o seu nome e se afastou. O médico continuou suas compras e foi embora. Thomas Whalen continuou a segui-lo, seu disfarce havia sido descoberto, mas isso não impediu que ele continuasse a seguir o médico pelas ruas de Cleveland.

Thomas Whalen continuava a seguir o doutor, e começou a perceber seu perverso senso de humor. Uma vez o policial o seguiu até um bar de negros. O médico estava sentado em uma ponta de um longo banco do bar, e ele se sentou na outra extremidade. A multidão de negros olhava com desconfiança para aqueles dois brancos estranhos. Passado algum tempo, o médico começou a enviar canecas de cerveja para o seu novo amigo Thomas Whalen na outra extremidade do bar.

Enquanto o policial e outros colegas faziam o seu melhor para manter o Dr. Frank Sweeney sob vigilância, a polícia vasculhava centímetro por centímetro o seu escritório e os quartos, e também começou a monitorar suas cartas.

Apesar do enorme crescimento da pressão para capturar o Açougueiro Louco, Eliot Ness recusava-se a engajar-se no caso. Ao contrário, ele continuava seus programas iniciados anos atrás: modernizar os departamentos de polícia e bombeiros, dar um fim no crime organizado e consequentemente tornar Cleveland um lugar seguro para a população.

Quando o alvoroço público em torno do caso se abrandava, em agosto de 1938 um corpo desmembrado foi encontrado acidentalmente em um depósito no final da Rua East Ninth. Homens que despejavam sucatas no depósito depararam-se com o corpo de uma mulher envolta em panos, papel pardo e papelão. Estranhamente, dessa vez, a cabeça e as mãos foram encontradas com o resto do corpo.


Na foto: Os hobos que encontraram a Vítima 11 em um depósito em Cleveland. Edward Smith, 50 anos, James Dawson, 21 anos e James McShack, 23 anos. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Os Detetives Herbert Wacksman e George Buckingham buscam por evidências em volta do depósito. Créditos: The Cleveland Press Collection

A polícia vasculhou a área para obter evidências forenses. Mas o que parecia ser mais um problema para a polícia piorou. Um andarilho andava perto do depósito quando encontrou ossos. O sargento James Hogan foi ao local e, ao olhar para frente, viu um grande latão, e foi pegá-lo na intenção de usá-lo para carregar os ossos. Mas quando olhou para dentro do latão, um crânio sorria para ele. O lugar parecia ser um cemitério. A sede de sangue do Açougueiro Louco parecia não ter fim. Mais duas pessoas para sua lista.


Na foto: O Sargento James Hogan (direita) examina um dos crânios encontrados em um depósito em agosto de 1938. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: O médico legista Samuel Gerber examina o crânio da Vítima 12 encontrado em agosto de 1938 em um depósito de Cleveland.

Na Foto: O Inspetor Nevell, o Sargento James Hogan e o médico legista Samuel Gerber examinam um dos esqueletos encontrados. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Sargento James Hogan (centro) e o médico legista Samuel Gerber recolhem os ossos da Vítima 12

Na foto: Detetive examina evidências encontradas com a Vítima 11. Créditos: The Cleveland Press Collection

Imediatamente a polícia começou as buscas na área. Os restos do esqueleto da nova vítima estavam espalhados, algumas partes haviam sido embrulhadas em papel pardo.

Samuel Gerber concluiu que a mulher era branca, tinha entre 30 e 40 anos, 1,62m de altura e pesava aproximadamente 55 quilos. Suas vísceras estavam decompostas, mas a pele das costas parecia bem preservada. Ela havia sido desmembrada por uma grande e afiada faca. Samuel Gerber estimou que ela tivesse sido morta entre fevereiro e abril de 1938, possivelmente antes da Vítima 10, que fora morta no início de abril. Para o médico-legista, seus restos mortais tinham sido jogados no depósito havia apenas algumas semanas. A causa da morte não pôde ser determinada, mas foi considerada como um “provável homicídio”.

Apesar das novas descobertas, a polícia ficou animada. Tudo porque finalmente conseguiram uma impressão digital da vítima. Mas a alegria durou pouco, apesar de terem conseguido extrair a digital, eles não foram capazes de identificá-la pelos arquivos que possuíam.

Os outros restos mortais encontrados na área pertenciam a um homem branco que tinha entre 30 e 40 anos. Tinha entre 1,67m e 1,72m. Pesava entre 61 kg e 68 kg. Tinha o cabelo longo, grosso e de cor castanho-escura. Ele também foi desmembrado com uma longa e afiada faca. Como na outra vítima, não foi possível determinar a causa da morte.


Na foto: O Dr. Samuel Gerber examina os restos da Vítima 12.

Se essas duas pessoas foram realmente vítimas do Açougueiro Louco, então ele tinha mudado seu estilo de operação. As cabeças e mãos foram encontradas, algo incomum desde os crimes cometidos em 1936. Além disso, o local de descarte dos corpos nunca tinha sido usado antes pelo serial killer. Quando Kingsbury Run foi invadida por detetives e investigadores, o Açougueiro Louco passou a utilizar o Rio Cuyahoga como seu cemitério favorito. Além disso, os 2 corpos foram encontrados por acidente. O Açougueiro, na maioria das vezes, parecia querer que suas vítimas fossem encontradas, seja em campo aberto, como em Kingsbury Run, ou boiando no Rio Cuyahoga. Eliot Ness e David Cowles tinham dúvidas se essas duas pessoas foram mesmo assassinadas, principalmente se tinham sido vítimas do decapitador.

Mutilação de um cadáver, seja por brincadeira ou para necrofilia, definitivamente não é algo incomum. Nem mesmo era considerado um crime sério em Ohio. Esses corpos apresentaram alguns desvios do padrão do Açougueiro, o que levantou questionamentos. A partir de uma denúncia anônima, o departamento de polícia começou a investigar um homem que trabalhava em uma faculdade de embalsamento, mas as investigações não deram em nada, e o homem estranhamente mudou seu negócio para fora da cidade.

Independente de os dois corpos encontrados terem sido obra do Açougueiro Louco, para o povo de Cleveland não interessava. A pressão pública e política sobre os assassinatos explodiram como um vulcão em chamas sobre Eliot Ness e o Departamento de Polícia. Os jornais exigiam o fim dos macabros crimes que haviam manchado a reputação da cidade, uma cidade que lentamente se recuperava da depressão do fim dos anos 20.

Eliot Ness estava desesperado. Ele precisava mostrar resultados rapidamente e reuniu-se com seu chefe supremo, o prefeito Harold Burton, e com pessoas-chave do Departamento de Polícia. A decisão que ele tomou após essa reunião entrou para a história.

Shantiville, Kingsbury Run, 18 de Agosto de 1938

Na noite do dia 18 de agosto de 1938, dois dias após os dois corpos terem sido encontrados perto de um depósito, Eliot Ness liderou um esquadrão que vasculhou as favelas da cidade. As grandes vilas de barracas em ruínas que haviam crescido desde a Grande Depressão estavam sendo revistadas sistematicamente por Eliot Ness, nem mesmo um carrapato enrustido em um vira-latas poderia escapar das revistas. O esquadrão de homens liderados pelo intocável começou a operação perto da Praça Pública, então foram a fundo nas áreas em volta do Rio Cuyahoga, e finalmente chegaram até Kingsbury Run.


Na foto: O esquadrão de Eliot Ness faz um pente fino em Shantyville, uma das favelas de Kingsbury Run em agosto de 1938. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Hobos são presos durante invasão a Kingsbury Run comandada pelo intocável Eliot Ness.

Com sirenes gritando e como uma tempestade, Eliot Ness e seus homens invadiram as selvas dos hobos, perseguindo e capturando qualquer morador local. Todos ficaram aterrorizados, pois não sabiam o que estava acontecendo. A maioria dos presos foi levada até a delegacia de polícia, impressões digitais foram tiradas e, então, eles eram enviados para reformatórios. Enquanto isso, o esquadrão do intocável vasculhava os escombros de Kingsbury Run em busca do Açougueiro Louco. No fim, em uma decisão que chocou Cleveland, Eliot Ness deu uma ordem para que toda aquela área fosse incendiada. Kingsbury Run queimou como se estivesse no inferno.


Na foto. Shantyville, Kingsbury Run arde em chamas em agosto de 1938. Eliot Ness ordenou a queima da área na tentativa de dar um fim na onda de mortes por decapitação que assolava a cidade há três anos. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Uma das favelas de Kingsbury Run arde em chamas. Mais de 100 casas de latas foram queimadas, mais de 300 pessoas foram expulsas da área.

No outro dia, o jornal Cleveland Press criticou Eliot Ness veementemente por queimar e expulsar os pobres hobos de seus casebres.

“A existência de tais favelas é um reflexo doloroso sobre o estado da sociedade. Mas jogar na cadeia homens sofridos pela vida e queimar suas miseráveis habitações não resolverá o problema econômico. Essa ação nem mesmo pode levar a uma solução do mais macabro mistério da história de Cleveland”.

Em uma atitude desesperada de parar um bestial serial killer, Eliot Ness colocou fogo em toda uma favela. Certamente, essa foi uma das poucas, se não a única vez, em que o brilhante Eliot Ness deixou-se levar pela emoção ao invés da razão. Essa atitude, porém, como mencionou o jornal, não traria efeito nenhum para o assassino, principalmente se ele não fosse um hobo, e, pelas evidências do caso, não, ele não parecia ser um.

A cidade ficou um alvoroço. A pressão para que o intocável resolvesse os assassinatos era tão intensa que, numa decisão extrema, ele resolveu ficar cara a cara com o principal suspeito dos crimes: o alcoólico Dr. Frank Sweeney. Seria um interrogatório secreto, em uma suíte no Hotel Cleveland, no centro da cidade. O médico não tinha escapatória, ou ele enfrentava o intocável Eliot Ness, ou seria levado para interrogatório na delegacia. Com toda publicidade que isso poderia dar, o médico optou pelo interrogatório secreto no hotel.

Eliot Ness Vs. Frank Sweeney

No dia 23 de agosto de 1938, um sorridente, divertido e confiante Dr. Frank Sweeney apareceu no hotel Cleveland. Ele seria interrogado por quatro homens com sangue nos olhos:

  • o intocável Eliot Ness;
  • o psiquiatra do tribunal de Cleveland, Royal Grossman;
  • o Tenente David Cowles e;
  • o Dr. Leonard Keeler, um dos inventores do polígrafo.

Leonard Keeler veio, com seu aparelho, de Chicago especialmente a pedido de Eliot Ness.


Na foto: O ator Richard Conte e Leonard Keeler. Leonard Keeler foi um dos inventores do polígrafo, aparelho usado para detectar mentiras. Em 1997, um estudo conduzido por mais de 400 psicólogos concluiu que o polígrafo tem uma eficácia de 61%. Leonard Keeler ficou famoso mundialmente e até estrelou filmes nos quais usava sua invenção para testar criminosos. A imagem acima é do filme Call Northside 777 de 1948.

O sigilo era fundamental pelo fato de o médico ser primo do poderoso congressista Martin Sweeney. Eliot Ness não queria que ele ficasse sabendo do interrogatório, portanto, todo cuidado era pouco. Com um telefonema, o congressista poderia acabar com o encontro dos 5 homens.

Estava armado o cerco. O principal suspeito, que há anos aterrorizava a cidade, estaria frente a frente com homens à sua altura. Imagino a cena: de um lado, um inteligentíssimo e perspicaz médico, suspeito de ser um dos mais terríveis serial killers da história americana, do outro, um dos mais inteligentes, competentes e famosos homem da lei de toda história dos Estados Unidos.

Na manhã de uma terça-feira, 23 de agosto de 1938, o Dr. Frank Sweeney apareceu elegantemente vestido com uma camiseta branca, terno e gravata. Sua altura, combinada com seu corpo forte e sua idade na casa dos 40 anos, dava-lhe um ar de confiança e tranquilidade. Para os outros, era como se estivessem frente a frente com um homem imponente e poderoso. As armações dos seus óculos de grau davam um olhar acadêmico às suas feições irlandesas características. Sua imagem parecia a daquele cirurgião respeitado e bem-sucedido que um dia fora.

Ele se apresentou cordialmente aos sérios homens que estavam lá para interrogá-lo. Enquanto Leonard Keeler ia até um quarto para configurar o polígrafo, Eliot Ness, David Cowles e o psiquiatra Royal Grossman sentaram-se com o médico na sala principal da suíte.

Durante duas horas, o médico foi metralhado com perguntas. Sua tradicional sagacidade não ficou de lado, o Dr. Frank Sweeney claramente brincava com seus interrogadores. Fazia piadas e não respondia claramente aos questionamentos. Calado, Eliot Ness ouvia tudo atentamente. Visivelmente contrariado e nervoso com aquele homem que zombava da polícia na sua frente, ele se levantou e foi até o quarto conversar com Leonard Keeler. O médico poderia zombar dos policiais, mas Eliot Ness gostaria de vê-lo zombando do polígrafo.

Leonard Keeler a essa altura estava pronto. O médico foi escoltado até o quarto onde foi pregado aos sensores do polígrafo. Apenas Eliot Ness e o Dr. Leonard Keeler permaneceram no quarto enquanto o teste era administrado.

David Cowles havia preparado uma lista com perguntas para que Leonard Keeler fizesse ao médico. Algumas outras foram adicionadas pelo próprio Keeler, perguntas óbvias que serviam para calibrar o aparelho. Eliot Ness já havia sido informado pelo próprio inventor do aparelho sobre o seu funcionamento.

Como em todo teste feito com polígrafos, as perguntas começaram óbvias:

À medida que as perguntas eram feitas, a máquina registrava a veracidade das respostas conforme as reações fisiológicas do médico.

Eliot ness vigiava atentamente o aparelho enquanto prestava atenção no frio comportamento do médico.

Quando o teste acabou, o Dr. Leonard Keeler agradeceu a Frank Sweeney e pediu que ele permanecesse no mesmo lugar por alguns minutos. Leonard Keeler e Eliot Ness saíram do quarto e foram ao encontro do psiquiatra Royal Grossman e do detetive David Cowles, que aguardavam na sala principal da suíte.


Leonard KeelerLeonard Keeler

Eliot NessEliot Ness

Royal GrossmanRoyal Grossman

Eliot Ness parecia não acreditar que aquele inteligente e falante cirurgião poderia ser o insano maníaco que decapitava pessoas vivas.

“Não entra na minha cabeça que alguém com sua inteligência e educação possa ser o monstro que estamos procurando. Quero falar com ele sozinho por meia hora. Além disso, gostaria que Leonard refizesse o teste só para termos certeza”, disse Eliot Ness.

O intocável voltou para o quarto, fechou a porta, sentou-se na cama em frente do médico e o olhou nos olhos. Estavam frente a frente um dos mais famosos homens da lei dos Estados Unidos e o suspeito número 1 de ser o terrível Assassino do Tronco de Cleveland.

“Bem, você está satisfeito agora?”, perguntou ironicamente o médico.

“Sim”, respondeu calmamente Eliot Ness.

“Eu acho que você é o assassino”.

Frank Sweeney levantou-se, virou-se de costas e olhou por uma janela. Sua sombra quase escureceu o quarto. Nesse momento, Eliot Ness percebeu o quão poderoso e ameaçador poderia ser o doutor. O médico, então, virou-se para o intocável e foi em sua direção a passos lentos. Eliot Ness se preparou para um ataque. O médico se inclinou para baixo e colocou o seu rosto a apenas alguns centímetros do homem que colocou o maior gangster da história dos Estados Unidos atrás das grades e sussurrou:

seta


"Então prove!"“Então, prove!”

Pela primeira vez em toda sua vida, Eliot Ness sentiu medo. Assustado, levantou-se da cama e abriu a porta.

“Cowles!”, ele gritou. Ninguém respondeu.

“GROSSMAN?”, gritou ele mais alto ainda. Mais uma vez, o silêncio o vencia. Seus gritos pareciam fazer eco na vazia sala.

“Parece que todos eles foram para o almoço”, disse ironicamente o médico com um sorriso no rosto.

Ainda assustado, Eliot Ness pegou o telefone rapidamente. Levou alguns minutos para que ele pudesse localizar seus colegas (lembrem-se de que naquela época telefone era raridade), minutos que pareceram horas tendo em vista que ele estava na mesma sala que o provável decapitador. David Cowles e companhia haviam saído para tomar um café em um bar próximo. Eliot Ness ordenou que eles voltassem imediatamente. Anos depois, Eliot Ness confessaria à sua esposa que ele nunca havia sentido tanto perigo em sua longa carreira quanto naquele momento. Al Capone era uma piada comparado ao médico Frank Sweeney.

Naquela tarde, o Dr. Leonard Keeler testou várias vezes o médico, obtendo sempre o mesmo resultado. O médico estava mentindo. Os homens chegaram à conclusão de que o médico era o assassino, entretanto, eles tinham apenas evidências circunstanciais. Eliot Ness estava certo de que nunca teria uma confissão do médico com as evidências que eles tinham, especialmente quando isso chegasse aos ouvidos do seu inimigo congressista. Percebeu que o máximo que ele poderia fazer era manter o médico sob vigília constante, algo que na prática provou-se ser ineficaz, já que o médico já havia demonstrado que era mais esperto que os próprios detetives.

O que exatamente aconteceu após aquele encontro é um completo mistério até os dias atuais. A única coisa conhecida é que o Dr. Frank Sweeney internou-se por vontade própria no hospital dos veteranos em Sandusky dois dias após o interrogatório. E ele continuou vagando por hospitais pelos quase 30 anos seguintes. Foi paciente de hospitais para doentes mentais e para veteranos de guerra em várias partes do país. Ele nunca foi um prisioneiro e podia sair voluntariamente por dias e até meses. Entretanto, pelo menos no Hospital dos Veteranos em Sandusky, havia um aviso para que quando o doutor deixasse o hospital, ele deveria imediatamente notificar a polícia de Sandusky e de Cleveland.

Até hoje, perguntas queimam as cabeças de vários estudiosos do caso. E ninguém nunca respondeu, aliás, existem vários livros sobre o caso que tentam responder a essas perguntas. Mas como no caso de Jack, O Estripador, tudo o que podemos ter são apenas suposições.

Por que o Dr. Frank Sweeney internou-se por vontade própria?

Por que ele ficou internado voluntariamente nessas instituições pelo resto da vida?

Será que o médico percebeu que a polícia estava perto de pegá-lo?

Ou será que esse homem cujo Eliot Ness afirmava veementemente ser o Açougueiro Louco era na verdade apenas um pobre alcoólatra inocente?

Com o tempo, o alcoolismo do Dr. Frank Sweeney piorou e isso parece ter contribuído para seu comportamento estranho. Mais no fim de sua vida, quando estava no Hospital dos Veteranos em Dayton, ele enviou uma série de estranhos e incompreensíveis cartões postais para o intocável Eliot Ness. Mais uma vez, esse sarcástico homem parecia zombar da polícia. Apesar dos bizarros cartões postais, sua família nunca acreditou que ele fosse capaz de cometer algum ato de violência. Alguns membros da família especulavam que ele escondia sua natural melancolia com seu senso de humor. Eles o viam como uma figura trágica, que tinha tudo em suas mãos e depois perdeu tudo, um homem brilhante, destruído pelo alcoolismo e por seus próprios demônios.


Na foto: Um dos cartões postais enviados pelo Dr. Frank Sweeney para Eliot Ness.

Os assassinatos em série acabaram oficialmente em 1938. A última vítima foi morta em abril de 1938 e é conhecida como Vítima 10. A Dama do Lago e as vítimas encontradas em agosto de 1938, conhecidas como Vítima 11 e Vítima 12, não entraram na contagem oficial da época, embora a maioria esmagadora de estudiosos, e até mesmo vários detetives da época, dentre eles o incansável Peter Merylo, afirmem que essas vítimas também foram obra do Açougueiro Louco de Kingsbury Run.

Com o passar dos anos, assassinatos parecidos aconteceram na Pensilvânia, Ohio e no estado de Nova York. O mais famoso deles foi o da Dália Negra, acontecido na Califórnia. Elizabeth Short foi retalhada em 1947, teve seu tronco partido ao meio e seu sangue drenado. A história virou filme em 2006 pelas mãos do diretor Brian de Palma.

Apesar das similaridades, as mortes em Kingsbury Run tiveram seu fim oficial em 1938. A polícia de Cleveland continuou na investigação do caso e examinou detalhe por detalhe esses assassinatos acontecidos fora de Cleveland, mas nunca encontrou nada, nenhuma evidência que provasse que o Açougueiro Louco era também responsável por essas mortes. O médico-legista Samuel Gerber, que ficou conhecido no país inteiro por usar o caso para se promover, não viu nenhuma ligação dessas mortes com as ocorridas em Cleveland. Então, se na época, ele que gostava de uma publicidade não aceitou, certamente esses crimes não tinham ligação. Além do mais, Samuel Gerber poderia ser pretensioso e arrogante, mas no seu trabalho, ele era competente e aparentemente imparcial.

Entretanto, muita gente acreditava que esses assassinatos eram também obra do Açougueiro Louco de Kingsbury Run. Seis meses após a descoberta da Vítima 12, o Chefe de Polícia de Cleveland, Martin Matowitz, recebeu uma carta datilografada carimbada de Los Angeles, Califórnia. A carta escrita no dia 21 de dezembro de 1938 dizia o seguinte:

“Chefe de Polícia Matowitz,

Você pode descansar bem agora, já que vim para a ensolarada Califórnia para o inverno. Me senti mal operando aquelas pessoas, mas a ciência deve avançar. Eu irei surpreender a classe médica — um homem que tem apenas um D.C.

O que significam suas vidas em comparação com centenas de corpos doentes. Apenas porcos de laboratório da Guiné que podem ser achados em qualquer rua pública. Ninguém sentiu falta deles quando eu falhei. Meu último caso foi bem sucedido. Eu sei agora o sentimento de Pasteaur, Thoreau e outros pioneiros.

Agora mesmo eu tenho um voluntário que irá provar absolutamente minha teoria. Eles me chamam de louco e açougueiro, mas a verdade será descoberta. 

Eu falhei mais uma vez aqui. O corpo não foi descoberto e nunca será, mas a cabeça está enterrada em Century Blvd (Boulevard), entre Century Ocidental e Crenshaw Century. Eu sinto que é meu dever dispor dos corpos que eu trabalho. É Deus que não irá deixá-los sofrer”.

A carta parecia ser saudações do serial killer de Cleveland. Nota-se que (segundo o autor) ele havia feito uma nova vítima na Califórnia, livrado-se do corpo e enterrado a cabeça em Century Boulevard, Los Angeles. Na época a polícia fez buscas no local, mas não encontrou nada. Oito anos depois, o corpo selvagemente mutilado da Dália Negra era encontrado em um terreno da mesma Los Angeles. Diversos aspectos dos cortes no corpo da Dália Negra coincidiam com o trabalho do serial killer de Cleveland, mas muitos outros eram totalmente diferentes. Seis outros assassinatos como o da Dália Negra ocorreram até o final de 1946. Muitos acreditam que esses crimes foram obra do Assassino do Tronco de Cleveland e muitos outros não. O fato é que existem muito mais perguntas do que respostas, e o que não faltam são evidências a serem confirmadas, provadas.

A caça pelo decapitador continuou, e ninguém suou tanto sangue nesse caso quanto o Detetive Peter Merylo. Ele simplesmente fez carreira no caso, investigou cada pista, cada fuxico, cada burburinho sobre o Açougueiro Louco. Onde quer que saísse alguma notícia sobre o assassino, lá ia o incansável detetive investigar. Ele foi uma das muitas pessoas que se tornaram obcecadas pelo caso, incluindo muitos escritores. E foi um dos muitos detetives que acreditaram que o Açougueiro Louco de Kingsbury Run fez muito mais do que 12 vítimas.

A Conspiração Frank Dolezal

Se o caso era um completo mistério para o mundo inteiro, para o Xerife Martin O’Donnel, o assassino de Kingsbury Run tinha um nome. Martin O’Donnel sucedeu o Xerife do Condado de Cuyahoga John Sulzman. E ele resolveu contratar um detetive particular para investigar as mortes. Começava aqui uma conspiração para incriminar um homem inocente pelos crimes.

O filho do Xerife Martin O’Donnel era casado com a filha de ninguém menos do que Martin Sweeney, o congressista inimigo do prefeito Harold Hogan e consequentemente um crítico da atuação de Eliot Ness. Rumores apontam que o congressista persuadiu o Xerife a encontrar um bode expiatório para as mortes e com isso tirar a atenção de seu primo, o médico Frank Sweeney, principal suspeito das mortes. Nada é comprovado, mas grande parte dos estudiosos do caso acreditam que juntos, Martin O’Donnel e Martin Sweeney desenvolveram um plano que ficaria conhecido como O Caso Dolezal.

Poucos meses depois de o médico Frank Sweeney ter estranhamente se internado por conta própria no Hospital dos Veteranos de Sandusky, o Xerife Martin O’Donnel contratou um detetive particular, de nome Pat Lyons, para investigar os assassinatos de Kingsbury Run. Depois de alguns meses, o detetive particular pareceu ter encontrado um o infortunado: um homem de meia-idade e alcoólico, de nome Frank Dolezal. Supostamente, Pat Lyons o encontrou em um bar que tinha sido frequentado por duas das vítimas do serial killer: Edward Andrassay e Flo Polillo.

Com um mandado de busca, o xerife Martin O’Donnel fez uma busca no quarto em que Frank Dolezal havia morado e encontrou manchas de sangue e uma faca. O irmão de Pat Lyons, um químico, analisou as manchas de sangue e confirmou que era sangue humano. Tudo isso foi feito de forma secreta, nem mesmo o Departamento de Polícia de Cleveland sabia da investigação do xerife Martin O’Donnel, e isso só faz confirmar que tudo não passou de uma armação. Um Xerife contratar um detetive particular? O irmão do detetive particular fazer uma análise química? E o escritório do legista? Além do mais, o sangue e a faca poderiam ser facilmente plantados no local.

O fato é que o faro do incansável detetive Peter Merylo farejou essa estranha investigação do Xerife do Condado de Cuyahoga. Esse mesmo homem, Frank Dolezall, havia sido interrogado por Peter Merylo, que o descartou totalmente como suspeito. O Xerife fez de tudo para que as coisas andassem rápido, tudo para que a polícia de Cleveland não interferisse na sua investigação. Frank Dolezal foi preso em 5 de julho de 1939. Depois de ser espancado na cela pelo carcereiro Michael Kilbane, ele confessou ter matado Flo Polillo. O mesmo carcereiro tinha fama de ser um homem cruel, fato que confirma ainda mais a possível conspiração contra Frank Dolezal.


Na foto: O suspeito Frank Dolezal, 52 anos. Segundo investigações de um detetive particular, o pedreiro Frank Dolezal frequentava o mesmo bar que três das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland.

Na foto: Frank Dolezal (ao centro) cercado de detetives. Ele confessou os assassinatos e se ofereceu para mostrar aos policiais onde havia enterrado partes dos corpos que não foram encontrados. Mas esses restos nunca foram achados e sua confissão é cheia de buracos.

Na foto: O suspeito Frank Dolezal ao lado do Detetive Joseph Krupansky. Créditos: The Cleveland Press Collection.

Segundo o Xerife, Frank Dolezal e Flo Polillo tiveram uma briga, ela o atacou com uma faca de açougueiro e, para se defender, ele a matou em sua banheira. Assumindo que ela estivesse morta, ele a esquartejou e carregou os pedaços. Sua cabeça e outras partes do corpo supostamente foram jogadas no Lago Erie.

A verdade é que a “confissão” de Frank Dolezal foi uma mistura de frases incoerentes e detalhes óbvios, como se tivesse sido treinado para falar aquilo.


Na foto: O Xerife O'Donnel, Detetive Harry Brown, carcereiro Mike Kilbane e o Dr. Ecber examinam a suposta banheira onde Frank Dolezal esquartejou Flo Polillo. Créditos: The Cleveland Press Collection

Outra evidência foi levantada contra Frank Dolezal. Segundo Pat Lyons, ele ouviu falar de uma jovem mulher alcoólatra que tivera um estranho encontro com o suspeito. Os dois estavam sozinhos quando Frank Dolezal a atacou com uma faca, mas ela conseguiu escapar pulando do segundo andar de um prédio, tendo apenas arranhões em seu calcanhar. Uma mulher bêbada pula do segundo andar e tem apenas arranhões no pé… Estranho, não?

O final dessa história você já deve saber. Frank Dolezal foi indiciado como o Açougueiro Louco e iria para julgamento. Em dado momento, ele resolveu abrir a boca e disse ter sido espancado para que admitisse as mortes. Frank Dolezal, de 52 anos, foi encontrado morto em sua cela quando ainda estava sob custódia do Xerife Martin O’Donnel. A causa da morte: suicídio. O diabólico e maquiavélico plano tinha o seu horrível fim.


Na foto: O corpo de Frank Dolezal é colocado no carro do escritório do médico legista de Cleveland.

Suicídio? Estranho, já que Frank Dolezal era maior do que a janela que ele supostamente usou para se enforcar. A autópsia do médico-legista Samuel Gerber indicou que ele tinha seis costelas quebradas, uma prova definitiva de que ele havia sido espancado. Não há dúvidas de que Frank Dolezal pagou o preço com a vida por ser o bode expiatório do Xerife. Estudiosos e pesquisadores são unânimes ao dizer ele não era o assassino, ao contrário, em qualquer livro sobre o caso vocês irão ler: Por que o Xerife Martin O’Donnel fez isso?

Conclusões

Os assassinatos em Kingsbury Run continuam sendo um dos casos mais intrigantes da história criminal dos Estados Unidos. Apesar dos rumores e das lendas criadas em torno dos crimes, uma coisa é certa: Eliot Ness acreditava piamente que o médico Frank Sweeney era o assassino. E esse fantasma chamado Francis Edward Sweeney continuou assombrando o intocável por anos. Para aumentar ainda mais o mistério sobre esse caso, os registros oficiais da polícia foram todos perdidos e destruídos.

Mas a pergunta que não quer calar: O Dr. Frank Sweeney era o Açougueiro Louco de Kingsbury Run?

Sem dúvidas ele é um suspeito em potencial, daqueles em que todos acreditam que é o cara. Era médico, tinha esquizofrenia, foi diagnosticado como psicopata, era alto, forte, e por aí vai. Para completar, fica nas entrelinhas desse caso que uma possível interferência do seu primo, o influente e importante Congressista Martin Sweeney, fez com que ele conseguisse escapar. Porém, existem mais coisas a se pensar com relação a isso.

John Fransen, um ex-detetive que tentou recuperar os documentos do caso em 1991, disse que o fator definitivo para que a polícia não prendesse o doutor foi a falta de provas, e que isso é muito mais evidente do que uma provável conspiração. Afinal, essa mentira poderia durar 10 ou 20 anos, mas com certeza não duraria meio século.

“Mesmo que ele (o assassino) tivesse conexões políticas, é difícil acreditar que esse tipo de coisa poderia ter sido mantido em silêncio durante todos esses anos. Isso pode funcionar por um curto período de tempo, mas eventualmente, sempre alguém acaba falando alguma coisa e a verdade vem à tona”. (John Fransen)

Mas se não foi O Dr. Frank Sweeney, quem poderia ter sido? Por que Eliot Ness abandonou o caso após 1938?

Uma coisa parece ser unânime, o assassino era médico. O médico legista Samuel Gerber descreveu o assassino como: “…um médico demente que executa o crime em um momento de fúria após um longo dia de bebedeiras ou uso de drogas. Ele deve ter sido um médico ou estudante de medicina no passado. Açougueiro, osteopata, quiroprático, enfermeiro ou caçador, também teria conhecimento suficiente para realizar essas perfeitas dissecações”.

Se eu hoje consigo escrever sobre o caso com todos esses detalhes é por causa de um homem: Peter Merylo.


Na foto: O detetive Peter Merylo.

Como dito, Peter Merylo foi o cara, o homem que deu seu sangue pelo caso. Dedicou-se durante toda sua vida na investigação dos crimes do Tronco; guardou vários relatórios, documentos e imagens sobre o caso. No final dos anos 90, Marjorie Merylo Dentz, filha do detetive Peter Merylo entrou em contato com o Museu da Polícia de Cleveland e disponibilizou vários documentos que ela havia descoberto em um porão na casa do seu falecido pai. São essas informações e fotos que você leu e viu durante toda essa matéria. Autópsias, registros hospitalares, audiências, entrevistas com lunáticos de todos os tipos (lembra do Aberração do Frango?), serviram para dar uma nova interpretação sobre o caso e estão disponíveis hoje no Museu.

Veja abaixo uma das fotografias recuperadas pela filha do detetive Peter Merylo

Peter Merylo foi um dos detetives que acreditaram que o Açougueiro Louco de Kingsbury Run fez muito mais do que 12 vítimas. Em seus cálculos, mais de 40 mortes podem ser atribuídas a ele, inclusive o da famosa Dália Negra.

“O assassino é um degenerado sexual, possivelmente um necrófilo que pode ter trabalhado no departamento de patologia de algum hospital, necrotério ou alguma faculdade de medicina onde ele teve a oportunidade de lidar com um grande número de corpos. Ou talvez, ele tenha sido empregado em alguma empresa de dissecamento de cadáveres onde… ele pegou a mania de decapitar corpos nus.” (Peter Merylo)

Eliot Ness continuou sua cruzada contra o crime organizado declarando guerra contra os principais gangsteres da época, dentre eles “Big” Angelo Lonardo, “Little” Angelo Scirrca, Moe Dalitz, John Angerola, George Angersola, e Charles Pollizi.

Mas podemos dizer que os crimes ocorridos em Cleveland entre 1935 e 1938 representaram o começo da ruína de um dos homens-símbolo do combate ao crime do século 20. O fim oficial dos crimes do Assassino do Tronco de Cleveland coincide com o início da decadência profissional e pessoal de Eliot Ness. O que era uma carreira extremamente bem sucedida foi se tornando uma triste história de vida. Em 1938, ele divorciou-se da sua esposa Edna. Seu divórcio e a pressão exercida nos últimos anos o fizeram começar a beber. Envolveu-se em brigas e em um acidente de carro. Mas sua bagagem o fez ficar no cargo de Secretário de Segurança Pública de Cleveland no governo seguinte do Prefeito Frank Lausche. Casou-se novamente em 1939 e mudou-se para Washington, onde trabalhou para o governo federal no combate à prostituição. Em 1944, tornou-se Presidente da Diebold (empresa de Cleveland), hoje uma das grandes empresas de eletrônicos do mundo (e que vocês devem conhecer por aquelas impressoras que emitem papéis com senhas para atendimentos em bancos, instituições do governo…). Posteriormente foi demitido da Diebold. Sua falta de tato para os negócios o fez perceber que o serviço público era sua vida. Separou-se novamente e casou-se com uma terceira mulher. Em 1947, candidatou-se para Prefeito de Cleveland.


Na foto: Eliot Ness cumprimenta eleitores, ao lado de sua terceira esposa, Betty, durante sua campanha para Prefeito de Cleveland em 1947. Créditos: The Cleveland Press Collection

Na foto: Eliot Ness e sua esposa Betty Ness durante a Campanha Eleitoral para Prefeito de Cleveland em 1947. Créditos: The Cleveland Press Collection

Eliot Ness perdeu as eleições. Depois disso, o intocável virou um fantasma perdido em sua própria existência. Começou a beber e a frequentar bares onde reunia vários bêbados ao seu redor que ficavam maravilhados ao escutar suas histórias do tempo em que colocou Al Capone na cadeia. Endividou-se e ficou no fundo do poço. Dizem que quando você está no fundo do poço, os amigos somem e aqueles poucos que ainda o visitam, é para ajudar a te afogar. E foi isso que aconteceu com Ness. Difícil acreditar, mas, para sobreviver, ele trabalhou como balconista em uma livraria, vendedor de hambúrgueres e de eletroeletrônicos. Em 1953 ele aceitou uma oferta de trabalho em uma empresa especializada em produzir papéis com marca d’água (a fim de evitar falsificação), a Guaranty Paper Corporation. Ele se mudou para uma pequena cidade do interior da Pensilvânia, onde morava de aluguel. Quatro anos depois, Eliot Ness morreria precocemente e completamente esquecido, aos 54 anos de idade, de um ataque cardíaco fulminante. Um mês depois de sua morte, foi publicado o livro Os Intocáveis, que ele ajudara a escrever com o biógrafo Oscar Fraley. O livro virou uma série de TV dois anos depois na rede de TV ABC e filme em 1987.

Para Eliot Ness, o caso do Açougueiro Louco de Kingsbury Run foi encerrado em 1938. O serial killer? Dr. Frank Sweeney. Por que Eliot Ness não o prendeu? Essa é uma pergunta para a qual não existe resposta. O Dr. Frank Sweeney morreu em 1965, no Hospital dos Veteranos em Dayton, Ohio, hospital no qual ele passou os últimos anos de sua vida. Mesmo estando internado, ele podia sair livremente e andar pela vizinhança, prescrever drogas para si mesmo e para seus amigos.

O Museu da Polícia de Cleveland e outras fotos

Ficou interessado no caso? Visite o Museu da Polícia de Cleveland. Lá você verá as máscaras da morte feitas pelo médico legista Samuel Gerber, terá acesso a documentos e fotos das cenas dos crimes, dentre outros.


*Clique na imagem para ampliar. Na foto: Parede do Museu da Polícia de Cleveland com as máscaras da morte feitas pelo médico legista Samuel Gerber, documentos, textos e imagens retiradas dos arquivos do mega detetive Peter Merylo.

Na foto: Parede do Museu da Polícia de Cleveland. Em destaque, a máscara da morte de Florence Polillo, a Vítima 3 do Açougueiro Louco de Kingsbury Run. Acima, imagens das cenas dos crimes com descrição feita na época pela polícia.

Na foto: Em destaque a máscara da morte de Edward Andrassy, Vítima 1 do serial killer. Acima, imagens da Dama do Lago, da Vítima 2 e do corpo de Edward.

Na foto: As máscaras da morte do caso do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr Dan Coulter.Na foto: As máscaras da morte do caso do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr Dan Coulter.

Na foto: Máscaras da morte das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Elizabeth Misson/WEWSNa foto: Máscaras da morte das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Elizabeth Misson/WEWS

Na foto: Mulher observa documentos do caso do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr Dan Coulter.Na foto: Mulher observa documentos do caso do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr Dan Coulter.

Na foto: A máscara da morte de uma das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr Dan Coulter.Na foto: A máscara da morte de uma das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr Dan Coulter.

Na foto: A máscara da morte de Edward Andrassay. Créditos: Flickr Dan Coulter.Na foto: A máscara da morte de Edward Andrassay. Créditos: Flickr Dan Coulter.

Na foto: A máscara da morte de Flo Polillo. Créditos: Flickr Dan Coulter.Na foto: A máscara da morte de Flo Polillo. Créditos: Flickr Dan Coulter.

Na foto: Máscara da morte de uma das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Elizabeth Misson/WEWSNa foto: Máscara da morte de uma das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Elizabeth Misson/WEWS

Na foto: Máscara da morte  de Flo Polillo. Créditos: Flickr gargantuen.Na foto: Máscara da morte de Flo Polillo. Créditos: Flickr gargantuen.

Na foto: Máscara da morte  de vítima do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr gargantuen.Na foto: Máscara da morte de vítima do Assassino do Tronco de Cleveland. Créditos: Flickr gargantuen.

Na foto: Máscara da morte  de Edward Andrassay. Créditos: Flickr gargantuen.Na foto: Máscara da morte de Edward Andrassay. Créditos: Flickr gargantuen.

Na foto: Professor e escritor James Jessen dá uma palestra sobre o caso. James é autor de dois livros sobre o caso: "In the Wake of the Butcher" e "Though Murder Has No Tongue: The Lost Victim of Cleveland's Mad Butcher". Este último, o professor investiga os fatos por trás da conspiração Frank Dolezal. Créditos: Flickr Ksulib.Na foto: Professor e escritor James Jessen dá uma palestra sobre o caso. James é autor de dois livros sobre o caso: “In the Wake of the Butcher” e “Though Murder Has No Tongue: The Lost Victim of Cleveland’s Mad Butcher”. Este último, o professor investiga os fatos por trás da conspiração Frank Dolezal. Créditos: Flickr Ksulib.

Na foto: Crânio de uma das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Data: 1939. Fonte: Coleção Cleveland PressNa foto: Crânio de uma das vítimas do Assassino do Tronco de Cleveland. Data: 1939. Fonte: Coleção Cleveland Press

Na foto: Investigadores analisam restos mortais de vítima do Assassino do Tronco de Cleveland. Fonte: The Plain Dealer Historical Photo CollectionNa foto: Investigadores analisam restos mortais de vítima do Assassino do Tronco de Cleveland. Fonte: The Plain Dealer Historical Photo Collection

Na foto: O médico-legista Dr. Samuel Gerber e seus assistentes busca por evidência onde uma cabeça foi encontrada. Fonte: Na foto: O médico-legista Dr. Samuel Gerber e seus assistentes busca por evidência onde uma cabeça foi encontrada. Fonte: The Plain Dealer Historical Photo Collection

Na foto: Eliot Ness, primeiro à direita, em uma conferência com o General Conelly, Capitão Abele e o Prefeito Harold Burton. Fonte: ohiohistorycentralNa foto: Eliot Ness, primeiro à direita, em uma conferência com o General Conelly, Capitão Abele e o Prefeito Harold Burton. Fonte: ohiohistorycentral

Filme sobre o caso

Post atualizado em 3 de Agosto de 2013

Um filme sobre essa história tem sido especulado há tempos, e a notícia boa é que, ao que parece, finalmente o filme sairá do papel.

A história de um filme contando o caso dos assassinatos em série que abalaram Cleveland, há mais de 80 anos, começou com Todd McFarlane, criador do personagem em quadrinhos Spawn. Com a ajuda dos magos dos quadrinhos Brian Michael Bendis e Marc Andreyko, ele escreveu um roteiro que chegou às mãos da Paramount em 2006. O estúdio encomendou um novo script para o trio e o projeto parecia que sairia do papel, com o ator Matt Damon interpretando Eliot Ness e direção de David Fincher, de filmes como Clube da Luta, Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social.

Mas no último instante, devido aos altos custos de produção e à vontade de David Fincher de filmar em preto e branco, a Paramount deu para trás e o projeto foi engavetado. Os direitos da história passaram para a dupla Bendis e Andreyko que, nesse meio tempo, se tornaram os maiores escritores de quadrinhos da gigante Marvel, com suas histórias X-Men e Guardians fo the Galaxy, tendo vendido mais de 1 milhão de cópias.

E agora, o Hollywood Reporter, conhecido site de notícias sobre filmes de Hollywood, anunciou que o filme sobre O assassino do Tronco de Cleveland será finalmente realizado. Segundo o site, o filme será independente e terá baixo orçamento. O diretor será o elogiado cineasta David Lowery, de Them Bodies Saints?, com produção da Circle of Confusion, a mesma empresa que produz a série The Walking Dead.

O filme será baseado na premiada graphic novel Torso, lançada no final de 1998, de autoria dos próprios Bendis e Andreyko. Torso conta a história, em quadrinhos, dos assassinatos em série que assolaram Cleveland entre 1934 e 1938.

Na foto: Capa da primeira edição da graphic novel "Torso".Na foto: Capa da primeira edição da graphic novel “Torso”, escrita por Brian Bendis e Michael Andreyko.

“É uma história real e legal, que muito pouca gente conhece. Você acha que conhece a história de Elliot Ness? Você não conhece. Você conhece histórias de serial killers? Você não conhece. Foi por isso que mantive a fé”, disse o escritor Brian Bendis ao site Hollywood Reporter.

Parece que agora vai.

Informações

Nome: Desconhecido

Conhecido como: O Assassino do Tronco de Cleveland, O Açougueiro Louco de Kingsbury Run

Vítimas oficiais: 10

Vítimas extra-oficiais: 3 (Incluindo a Dama do Lago e as Vítimas 11 e 12, que na época não foram incluídas)

Método: Decapitação e desmembramento

Situação: Nunca foi pego

Período: 23 de setembro de 1935 a 08 de abril de 1938

Local: Cleveland, Ohio. Estados Unidos

Foto: Cabeça de uma das vítimas reconstruída pelo médico legista Samuel Gerber. Samuel e sua equipe imergiram a cabeça decapitada em várias soluções até conseguir trazer os contornos naturais do rosto, que foi revestido com cera.

Agradecimentos especiais a Hellen Cristofolini pelo seu ótimo trabalho na revisão do texto.



Com colaboração

Revisão por:

hellen

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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  • Joaocamposmendo

    Sinistro, já conhecia o caso, mas não em detalhes!

  • Ritaslax

    Está de parabéns pela riqueza dos detalhes,pelas imagens e pelas opiniões expressadas.Realmente,como vc disse no início,é importante termos acesso a essas informações,até mesmo para própria proteçã,caso nos deparemos com um serial killer em potencial.

  • JeanVictor

    Parabens pelo site, acho que já li todos os artigos sobre serial killers e são todos muito bons – é especialmente legal como voce nos traz tantas evidencias e como contextualiza os crimes.
    Nesse caso, acho que o Sweeney provavelmente foi o culpado- e uma dúvida: voce sabe se ha alguma possibilidade de ele ser responsavel pelo caso da Dália Negra?
    Continue com o ótimo trabalho!

    • http://twitter.com/oaprendizverde O Aprendiz Verde

      Obrigado Jean Victor !! Sua pergunta é difícil rss … crimes sem solução são um prato cheio para teorias, conspirações e tudo mais que você pode imaginar. O caso da Dália Negra assim como o Açougueiro Louco de Kingsbury Run é um mistério sem fim e com muitos acontecimentos estranhos, tanto é que já virou filme e foi tema de dezenas de livros. Pra começar, a maioria das evidências físicas-chaves do caso desapareceram, inclusive cartas enviados pelo suposto assassino para a polícia, estranho não ? O fato é que tanto o Departamento de Polícia de Los Angeles quanto o de Cleveland investigaram o caso na tentativa de descobrir se o crime tinha alguma relação com o Assassino do Tronco de Clveland, mas ambas as polícias descartaram o fato. Para a maioria que trabalhou no caso a resposta pra sua pergunta é Não. Mas sabemos que serial-killers em geral, e principalmente o de Cleveland, são bastante inteligentes. Então há uma possibilidade dele ter matado a Dália Negra e ter enganado a polícia ? Fazendo cortes diferentes e atuando de forma diferente ? Sim, claro. Mas tudo são apenas suposições. Podemos ficar supondo aqui o dia inteito.
      Abs !!

      • João Mendonça

        Acredito que o assassino do torso de Cleveland não seja o assassino da Dália Negra. Geralmente, assassinos narcisistas, que gostam de brincar com a polícia agem ao contrário: Eles assumem a autoria de crimes que eles nem cometeram. Crimes como o da Dália Negra são praticados por pessoas inteligentes, que visam atrair a atenção da mídia e da policia para si. Um outro exemplo é o zodíaco, que assumiu mais de 50 crimes, mas alguns policiais acreditam que ele cometeu apenas sete. Se o assassino do torso fosse o mesmo que o da Dália negra, sem dúvida ele teria o prazer de esfregar isso na cara da polícia, mesmo sendo anos depois dos crimes já houverem prescrito. Tipo: Ele poderia ficar quieto enquanto os policiais investigavam a ligação entre os crimes, mas depois, seria horrível pra ele ver outro assassino levar a fama por sua “arte”. Outro fato, é que um assassino inteligente como o da Dália Negra saberia que apolicia ligaria os casos e, se ele quisesse que a policia não ligasse os crimes, ele teria quer assinar o crime de forma bem diferente (e bota diferente nisso). Acredito que, se o assassinato da Dália Negra pertence a uma série, acredito que o responsável seria o assassino conhecido como assassino do batom. Outro fato é que, assassinos em série, em geral, não são tão inteligentes assim. A maioria é desorganizada ou de comportamento misto. O que acontece algumas vezes é a dificuldade de se correlacionar casos, uma vez que nem todo assassino deixa assinaturas e o Modus Operandi não é algo fixo.

        • João Mendonça

          Esqueci: Isso é só suposição! Não há como se saber como um assassino agiria ou não!

  • Pedro_r Santos

    aahhhh, a forma com que vc relata os casos é viciante… muito bom , muito bom ,parabéns, abraço!

    • http://twitter.com/oaprendizverde O Aprendiz Verde

      Eu que agradeço sua visita !! Abs !!

  • Johnny Queiroz

    Sensacional. Ótimo artigo. Sua escrita me prendeu até o final, “devorei” o post. E olha que ão 03 da manhã e eu não tô sóbrio. Hahaha
    Parabéns. ótimo blog e ótimos posts. Ganhou um leitor fiel e fã.

    • O Aprendiz Verde

      Obrigado Johnny. Abraços!

  • Elen Serejo

    Muito Show. Adorei. Esse assunto me fascina. Eu queria muito que voce fizesse um sobre Richard Ramirez. Ele é um dos meus preferidos.

  • Luiz murilo

    porra!!!naquela época já era assim,agora to até com medo de sair de casa vou sair com 1 armadura

  • roberto

    de boa arrumaram um laranja e encerraram o caso,a policia na época vacilou,o cara era importante e abafaram o caso uma pena.

  • Joker-clown55

    Sei que o post é sobre um assassino,mas é uma das reportagens mais completas sobre Al Capone que eu já li,poste mais coisas sobre o “Scarface”,por favor!

    • O Aprendiz Verde

      Dica anotada Joker.

  • Sandy Ricci

    grande. Mi è piaciuto molto.

  • http://www.facebook.com/amanda.duque.31 Amanda Duque

    Seus posts me prendem durante horas, mas esse, pela incrível riqueza de detalhes, me fez ficar 4 horas lendo incansavelmente. No momento do interrogatório me deu um frio na barriga como se estivesse vivenciando aquilo! Vou ficar pensando no assassino durante uns bons dias… Parabéns!

  • Douglas Alves Salles

    Eu Acredito Que O Doutor é o açogueiro louco de cleveland se você para para estudar 90% de chances dele ser o assasino vejam gente caracteristicas fisicas de acordo,esquizofrenia diagnosticado como psicopata medonho o teste deu que ele era o assasino ele era doutor e os cortes dos assasinatos eram ´´precisos´´e ele sabia fazer tudo direito os policias perdiam ele ele fugia,é assim que ele se internou os assasinatos pararam e é com algumas chances do assasino poderia está agindo agora na faixa de 80 a 90 anos com alguns ajudantes concordam?eu acho que você deveria bota uma pesquisa de suspeito para nós votarem sobre quem é o assasino.

  • cris

    EU FAÇO PIPOCA E DURANTE HORAS VIAJO NESSA IMENSA CHUVA DE CULTURA, ARTE,CIENCIAS, GEOGRAFIA, HISTÓRIA, TUDO DE BOM QUE SE PODE IMAGINAR. QUANTAS PESSOAS HÁ NA EQUIPE DE VOCES?? TEM UMA MINI BIOGRAFIA SOBRE O PESSOAL DESSE BLOG?? ESTOU VICÍADA

    • O Aprendiz Verde

      Não tem, mas aparecerá no momento oportuno =D Abraços Cris!

  • Pt

    Demorei a ler tudo mas valeu a pena. Desconhecia tudo isto e qualquer mistério que ficou por resolver desperta curiosidade. Tudo indica que foi esse médico psicopata. Pessoas altamente inteligentes podem tender para os extremos. É o “andicap” do «brilhantismo»(?). Afinal, é realmente admirável que um miúdo de rua, miserável, chegue a doutor! (E tinha um primo político?). A carta dactilografada parece sugerir que os assassinatos tinham um propósito científico de investigação médica. Será que a decapitação era a procura para a cura da sua psicose? Da psicose que atacou seu pai e que o assombrava? Procuraria ele de forma psicótica alguma resposta para os seus distúrbios mentais na decapitação? E o fim de vida de Eliot Ness… triste. A beber demais, tal como o médico… Existem homens que podem ser grandes, desde que não lhes retirem a IDENTIDADE que é o trabalho que fazem. Porque dificilmente saberão fazer outra coisa ou se sentirão bem não a fazendo. Acabar os dias a falar das “velhas glórias” num bar… Enfim.

  • ABREU

    ilmo sr
    sou estudante de enfermagem e uma coisa que me chamou atençao na carta anonima
    mandada a eliot ness é eliot AMBIG UOUS NESS na lingua inglesa DUBIOUS quer dizer dubiedade;;acho que o doutor descobriu algo por tras da couraça que eliott ness usava para viver e se relacionar com o mundo externo

  • Witz

    Acho que ouve um errinho numa tradução…

    “Os pais de Edward eram imigrantes húngaros vindos de uma família aristocrata. Seu pai, Joseph Andrassy e seu irmão, identificaram o corpo no necrotério do Condado de Morgue.”

    Acredito que “county morgue” foi traduzido incorretamente..
    county=condado, morgue=necroterio.

    • http://twitter.com/OAprendizVerde O Aprendiz Verde

      Você está correto Witz, consertamos o erro. Obrigado pelo comentário e volte sempre.

      • Witz

        Estou sempre por aqui…continuem com o bom trabalho!

  • Pingback: Serial Killers: Michael Madison, o assassino copycat | Blog O Aprendiz Verde

  • josé humberto da cruz bezerra

    A história mais impressionante e detalhada que já vi em minha vida foi tão emocionante quanto ler o livro “O Silêncio dos Inocentes” muito rico em detalhes muito bacana rico em suspense…. SENSACIONAL! só tenho que parabenizar vocês….

  • erika

    =^.^=

  • Felipe

    Ótimo site, bom post. Quando vcs vão fazer um poste sobre o serial killer Keith hunter jesperson (The Happy face killer). Achei interessante a história dele. http://en.wikipedia.org/wiki/Keith_Hunter_Jesperson

    • http://www.oaprendizverde.com.br/ O Aprendiz Verde

      Olá Felipe! Não podemos fazer uma previsão, mas certamente sua história ainda será contada no blog. Já o citamos no post “Crianças Psicopatas”. Abs!

  • Pingback: Batman e o Assassino do Tronco de Cleveland | Blog O Aprendiz Verde

  • Elson Jr

    Fantástico aprendiz verde sua narrativa, os pormenores do caso e dos personagens envolvidos. Parece um grandioso filme de suspense. Parabéns!

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