Crimes Históricos: James Holmes e a Violência Midiática (Análise)

Trago para vocês um texto do jornalista Renato Queiroz, repórter do jornal O Popular (www.opopular.com.br), publicado no dia 29 de julho último. O texto é uma análise interessante sobre o...
James Holmes e a Violencia Midiatica

James Eagan Holmes

Trago para vocês um texto do jornalista Renato Queiroz, repórter do jornal O Popular (www.opopular.com.br), publicado no dia 29 de julho último. O texto é uma análise interessante sobre o caso de James Holmes e a possível influência que a violência das telas pode causar no público. James Holmes assassinou 12 pessoas num cinema no estado norte-americano do Colorado em 20 de julho último durante a estréia do filme Batman – O Cavaleiro das Trevas. O texto possui algumas inserções feitas por mim mas nada que altere o original.  

A Procura de Um Vilão

De tempos em tempos, o soluço vem em escala mundial. Um jovem, normalmente branco e de classe média, choca o mundo ao abrir fogo contra inocentes, sem motivação aparente. O caso mais recente foi o de James Holmes, de 24 anos, que matou 12 pessoas e feriu 58 em um cinema durante a estreia de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, no Colorado, nos Estados Unidos. Após o massacre, mais uma vez surgiu a pergunta: Quem realmente é o vilão?

A aparente obsessão de Holmes por Batman (ele chegou a dizer para a polícia que era o Coringa, personagem defendido com maestria por Heath Ledger no longa anterior da trilogia de Christopher Nolan e espécie de alter-ego invertido do herói) e a escolha da sala de cinema como palco para seu crime revelam, de acordo com especialistas, algo de mais profundo na ação do rapaz. Naquela noite, a tênue fronteira entre realidade e ficção foi fatalmente rompida.

O fato de que muitos fãs foram fantasiados como personagens do filme à estreia do Batman permitiu ao agressor passar despercebido pela segurança com máscara de gás, bombas e uma escopeta AR-15. Relatos de sobreviventes dão conta de que, quando os tiros começaram na sala escura, as pessoas demoraram a perceber que o barulho e os gritos de dor dos feridos não vinham da tela grande. O horror era real.

“O que mais me impressionou neste massacre foi não somente o horror da situação em si, mas a identificação de Holmes com o mal, com a possibilidade de poder entrar e matar todo mundo. Isso demonstra um sofrimento psíquico imenso e a dificuldade do reconhecimento do outro”, explica a psicanalista Maria Vitória Maia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A falta de limites, hoje em dia, o ato de entrar na fantasia e não voltar para a realidade, de acordo com ela, provocam momentos horríveis como esse.

Em casos como o massacre do Colorado, o primeiro vilão apontado é a mídia, em especial os filmes e os videogames violentos. O raciocínio causa infindáveis polêmicas, mas Maria Vitória explica que é preciso relativizar, até porque a violência nos filmes sempre existiu.

“Mas, certamente, quando esses filmes são vistos por pessoas com uma constituição psíquica fragilizada, podem levar a uma identificação nada positiva. Algumas produções banalizam a violência e a colocam no terreno do possível e com um final reversível, o que, na vida real, não acontece”, diz ela.

Isso, segundo ela, pode contribuir para tragédias como a do Colorado.

Por via das dúvidas, o estúdio Warner, responsável por Batman, anunciou a decisão de adiar para 2013 o lançamento do filme Caça aos Gângsteres, com Sean Penn e Ryan Gosling, por causa de uma cena que mostra um tiroteio em um cinema. A cena causou uma incômoda comparação com o massacre.

O estúdio disse que ainda está decidindo se vai alterar ou eliminar a cena em que gângsters rompem uma tela de cinema e começam a atirar na plateia. A impressão que ficou é que a membrana de celuloide entre o mundo da ficção e o mundo real é porosa, talvez cada vez mais.

A Cultura da Violência

Entre as vozes que se levantaram no Brasil para dizer que as produções cinematográficas têm sim culpa no cartório, talvez tenha sido a do escritor Ruy Castro a mais eloquente. Ele confirmou que acredita que a violência nas telas colabora para chacinas como a do Colorado. O escritor lembra que nos primeiros 70 anos de história do cinema a violência era asséptica, não se mostrava no mesmo take o tiro e a bala atingindo o alvo.

Tudo mudou no final da década de 1960.

“Com o incremento dos efeitos especiais e a avassaladora infantilização dos filmes, matar deixou de ter a carga dramática que caracterizava o cinema adulto. Fuzilar, explodir, reduzir a pó tornaram-se atos banais, levianos, quase um desenho animado”, escreveu em artigo publicado na Folha de S. Paulo.

Em uma das cenas mais marcantes de Batman – O Cavaleiro das Trevas, o vilão Coringa diz ao herói que eles são equivalentes, eternamente ligados e apenas opostos. Batman defende a ordem e o autossacrifício, enquanto Coringa destaca-se pela desordem, pelo assassinato e roubo. Não é o dinheiro que lhe interessa, é o caos.

Para a professora da Universidade de Brasília (UnB), Tânia Montoro, pós-doutora em cinema e audiovisual, existe em muitos momentos uma espécie de ponto de contato entre ficção e realidade, potencializado pela indústria do entretenimento. Os atentados do 11 de setembro talvez sejam o exemplo mais preciso disso.

“O cinema tem dois princípios que são a base da linguagem cinematográfica: a identificação e a subjetivação. Acredito que os processos de identificação ainda necessitam ser melhor estudados.”

Tânia, porém, ressalta que a violência é um fenômeno social global que atinge todas as classes, etnias e nações. É um dado do mundo contemporâneo.

“O nosso mundo é o da cultura da violência e não da paz. Está baseado no mercado, na competição. As pessoas estão cada vez mais individualistas e isso causa um grau de ansiedade enorme.”

São as imagens de guerras, do Vietnã ao Iraque e ao Afeganistão, e não o cinema que mais influenciam jovens norte-americanos a cometer chacinas, defende o jornalista americano Michael Kepp. Ele acredita que a alienação social e a pobreza espiritual necessárias para cometer assassinatos em massa são um produto da cultura norte-americana mais que de qualquer outra.

“É uma sociedade altamente competitiva e individualista, com pouco sentimento de comunidade”, escreveu em artigo na Folha de S.Paulo. O risco é que esse modelo seja reproduzido em quase todo o mundo.

Influência real?

Alguns estudos apontam que a violência na tela pode sim afetar o comportamento das pessoas e, de fato, alguns filmes ficaram marcados para sempre e de forma negativa por esse rompimento da fronteira entre realidade e ficção.

Clockwork Orange

Laranja Mecânica foi lançado em 1971 e tornou-se um clássico absoluto do cinema. O filme do mestre Stanley Kubrick narra a história de um sociopata chamado Alex, que vive nas ruas de Londres liderando uma gangue movida a muita violência.

Após o seu lançamento, uma série de crimes ocorridos na Inglaterra apresentaram similaridades com o filme . Dos mais notáveis, dois casos de 1973 que envolveram jovens de 16 anos que imitaram cenas do filme. O primeiro bateu em uma prostituta até a morte (semelhante ao ataque que a gangue do filme faz a um bêbado). O outro vestido com o uniforme característico do bando do filme esfaqueou um rapaz mais jovem.

Natural Born Killers

Assassinos Por Natureza (1994), de Oliver Stone, é um dos filmes mais controversos de todos os tempos. Foi proibido em alguns países e chegou a ser tema de discussão entre senadores dos Estados Unidos.  O filme foi acusado de promover a violência e, realmente, desencadeou uma onda frenética de crimes pelo país. O filme conta a história do casal de namorados Mickey e Mallory, além do amor um pelo outro, eles compartilham a paixão de matar. Eles matam mais de 50 pessoas na película.

Crimes inspirados no filme começaram no mesmo ano do seu lançamento. Em setembro de 1994, um adolescente de 14 anos de Dallas, Texas, decapitou uma colega de classe de 13 anos.

“Eu queria ser famoso, como os Assassinos Por Natureza”, disse o garoto na época.

Um mês depois, Nathan Martinez, 17 anos, assassinou em Bluffdale, Utah, sua madrasta e sua meia-irmã de 10 anos enquanto elas dormiam. Nathan estava obcecado pelo filme e quando foi preso usava os mesmos óculos do personagem Mickey. Em 1995, após assistir ao filme 19 vezes seguidas, uma gangue de adolescentes assassinou um motorista de caminhão. Em março do mesmo ano, uma adolescente de 15 anos da cidade de Senoia, estado norte-americano da Georgia, assassinou os pais e ligou para uma amiga dizendo que havia feito como “Mickey & Mallory.” Três meses depois em Avon, Massachusetts, dois adolescentes assassinaram um deficiente físico de 65 anos com 27 facadas. Um dos adolescentes contou para a namorada sobre o crime que imediatamente demonstrou horror pelo ocorrido, então ele disse:

“Você nunca viu Assassinos por Natureza?”

Em 05 de Março de 1995, o casal de namorados Sarah Edmondson, 19 anos, e Benjamin James Darras, 18 anos, passaram a noite inteira assistindo ao filme Assassinos por Natureza. Dois dias depois o casal saiu em uma camionete com direção a Memphis, Tennessee. No caminho assassinaram em Hernando, Mississipi, William Savage com dois tiros na cabeça e deixaram paraplégica Patsy Byers, uma vendedora de uma loja de conveniência na cidade de Ponchatoula, Lousiana. Patsy Byers processou o diretor Oliver Stone e a Warner Brothers em 1997 sob alegação de que cineastas e os estúdios de filmes devem ser responsabilizados por trabalhos que incitem pessoas a cometerem crimes. O caso foi arquivado em 2001 depois que um Juiz alegou que não havia nenhuma evidência de que a Warner ou o diretor Oliver Stone pretendiam incitar a violência com o filme.

Em 1997, William Sodders, 21 anos, foi condenado à prisão perpétua por assassinar um homem sem motivo algum em Long Island, Nova York. De acordo com seu pai, o comportamento do filho mudou depois que ele ficou obcecado com o filme Assassinos Por Natureza, tendo inclusive mudado o comportamento agindo como se fosse o personagem Mickey.

Ainda em 1997, em Paducah, Kentucky, o adolescente de 14 anos, Michael Carneal, assassinou três colegas de classe em um ataque sem motivos aparente. Dois anos depois, o advogado das famílias das crianças mortas moveu um processo contra vários estúdios de cinema e empresas de video game alegando que produtos criados por essas empresas incitaram o autor do massacre a perpetuar os assassinatos. O advogado citou o filme da Warner Assassinos por Natureza e o filme Diário de um Adolescente (veja abaixo) da New Line Cinema, além dos jogos Mortal Kombat e Doom. As famílias perderam o processo e o caso foi encerrado em julho de 2001.

Em 20 de abril de 1999 aconteceu um dos mais trágicos e famosos ataques a escolas nos Estados Unidos. O Massacre de Columbine deixou 15 mortos e 21 feridos e foi cometido por 2 adolescentes, Eric Harris, 18 anos, e Dylan Klebold, 17 anos.

Na Foto: Os adolescentes Eric Harris e Dylan Klebold dentro da Columbine High School. Com armas automáticas os jovens assassinaram vários colegas antes de suicidarem.

Ambos assassinos eram fãs do filme Assassinos por Natureza. Em uma das várias fitas encontradas na casa dos agressores, os jovens discutem como Hollywood iria adaptar a história do massacre na grande telona. Eles chegam a discutir quem seria o melhor diretor, Steven Spielberg ou Quentin Tarantino? Tarantino foi um dos roteiristas de Assassinos por Natureza.

Em abril de 2001, Luther Casteel, 42 anos, abriu fogo contra os frequentadores de um bar na cidade de Elgin, estado do Kentucky. “Eu sou um Assassino Por Natureza!”, gritou ele enquanto atirava. Ele matou duas pessoas e feriu outras 6.

Em 23 de dezembro de 2004, o casal de namorados Angus Wallen e Kara Winn, ambos de 27 anos, assassinaram Brandon Murphy em Jacksonville, Florida, e colocaram fogo em seu apartamento. Durante o julgamento do crime o promotor disse que os dois assistiram ao filme Assassinos Por Natureza um dia antes do crime e que o assassinato é similar a uma das cenas do filme onde Mickey e Mallory matam um homem e colocam fogo em seu corpo. Em 2008, Eric Tavulares estrangulou sua namorada Lauren Aljubouri na cidade de Milwaukee, Wisconsin. Os dois assistiam ao filme Assassinos Por Natureza quando Eric a estrangulou. Ele admitiu ser viciado no filme e que a matou quando sua “mente mudou.”

Em 23 de abril de 2007, Jeremy Allan Steinke, 23 anos, assassinou o casal Marc Richardson e Debra Richardson, assim como o filho do casal de 8 anos, Jacob Richardson, em Medicine Hat, Alberta, Canadá. Jeremy teve a ajuda de sua namorada de apenas 12 anos. Ela era filha dos mortos. Os pais da garota haviam proibido ela de namorar Jeremy devido a diferença de idade, o que desencadeou o plano macabro. Antes de cometer os assassinatos Jeremy comentou com amigos que:

“Serei o assassino por natureza da sua família (namorada)”

The Basketball Diaries

No filme de Scott Kalvert, o personagem de Leonardo DiCaprio, um adolescente viciado em drogas, tem um sonho em que, vestido com uma capa preta, extermina tudo e todos a seu redor. Na vida real, Eric Harris, 18 anos, e Dylan Klebold, 17, fãs do filme, também vestiram capas pretas para matar 15 pessoas e depois cometer suicídio no dia 20 de abril de 1999 na Columbine High School. O curioso é que o massacre inspirou outras produções do cinema como Tiros em Columbine, de Michael Moore, e Elefante, de Gus Van Sant.

Os adolescentes acertaram: Sua história foi para o cinema, porém, Steven Spielberg e Quentin Tarantino passaram longe de qualquer projeto envolvendo a história.

The Siege

Nova York é desde sempre a cidade fetiche de todo filme desastre. Os Caça-Fantasmas (1984), Independence Day (1996) e Armageddon (1998) foram alguns dos muitos filmes que tiveram o prazer de destruir Manhattan. Mas Nova York Sitiada ficou marcado pelo caráter premonitório do que aconteceria em 11 de setembro de 2001.

Na trama, um líder muçulmano é preso pelo exército norte-americano e, em represália, terroristas começam uma série de atentados na cidade. As imagens dos corpos e destroços no filme não são menos chocantes do que a visão de pessoas saltando para a morte do World Trade Center.

Fight Club

O dia 3 de novembro de 1999 caiu numa quarta-feira, dia de meia-entrada. Na sala 5 do cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, Brad Pitt e Edward Norton se enchiam de hematomas no filme Clube da Luta, um dos mais controversos filmes dos anos 90. Enquanto isso na platéia, 28 pessoas prestavam atenção no no excesso de testosterona do filme. De repente, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, na época com 24 anos, saiu do banheiro com uma submetralhadora e descarregou quase todas as balas.

O saldo foram três mortos e o resto em pânico. Detido minutos depois, o autor dos disparos confessou o crime e disse à polícia que já planejava algo do tipo havia mais de 7 anos.

“Sei que prejudiquei várias pessoas, mas era uma coisa que precisava ser feita,” disse Marcelo que  sofria de delírios, alucinações e crises de agressividade e havia interrompido um tratamento psiquiátrico pouco tempo antes.

E não foi só no Brasil que o filme Clube da Luta influenciou jovens perturbados. Nos Estados Unidos, adolescentes criaram “clubes da luta” no Texas, New Jersey, Washington, Alaska e Nova York. Em 2002, Lucas John Helder, um estudante da Universidade do Wisconsin, foi preso depois de implantar 18 bombas em caixas que ele enviou pelo correio, uma clara inspiração no modus operandi da “seita” de lutadores do filme.

Em 2009 um jovem foi preso depois de detonar uma bomba no Starbucks Coffee em Nova York, a polícia encontrou com o suspeito um plano chamado “Projeto Mayhem”, o mesmo nome do projeto terrorista fictício do filme.

Dogville

Em Dogville, a personagem central, interpretada por Nicole Kidman, é torturada e estuprada por habitantes de uma aldeia, cujo nome é Utoya. No final, ela se vinga ao mandar matar todos os seus moradores.

O próprio diretor admitiu que a cena final de Dogville pode ter servido de inspiração ao norueguês Anders Breivik para perpetuar um dos piores ataques de assassinos  em massa desse século. Em 22 de julho de 2011, ele entrou em uma ilha na Noruega chamada Utoya (a mesma do filme) e assassinou 77 pessoas.

O diagnóstico psiquiátrico de Breivnik dique ele sofre de: psicose paranoica, desordem da personalidade narcisista, síndrome de asperger e síndrome de tourette.

Cinema não é bode expiatório

Não é de hoje que pesquisadores estudam as correlações entre mídia e comportamento. Um estudo recente da Dartmouth College, uma das mais prestigiadas universidade americanas, mostrou que assistir à promiscuidade sexual na TV leva os adolescentes a uma maior promiscuidade na vida real. De acordo com a pesquisa, os adolescentes que estão expostos a conteúdo sexual na ficção começam a ter relações sexuais mais jovens, têm mais parceiros e são menos propensos a usar preservativos.

Para os pesquisadores, quanto mais residimos em mundos virtuais, mais difícil pode tornar-se distinguir entre o que é apropriado no mundo da ficção e o que é apropriado no mundo de carne e osso. Professor do Departamento de Cinema da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernão Pessoa Ramos não acredita que exista uma relação direta de causa e efeito dos filmes violentos nas audiências. Para ele, em casos como o do massacre do Colorado, o cinema acaba sendo um bode expiatório de uma sociedade que não consegue discutir temas mais delicados como o acesso às armas de fogo.

Na Foto: Interessante cartoon que mostra uma hipotética campanha de James Holmes para Presidente da Associação Nacional norte-americana de Rifles.

“Claro que existem determinados conteúdos que devem ser divulgados com mais cuidados porque a representação exerce uma influência, principalmente, em plateias em formação”, admite.

Mas o fato de as pessoas não conseguirem lidar com uma sociedade violenta faz com que muitos, de acordo com o professor, aponte o dedo acusatório para as telas, esquecendo-se das reais causas que estão por detrás desse fenômeno.

Cida Almeida, psicóloga especialista no atendimento à vítimas de violência, reforça que estudos científicos apontam que a violência na mídia afeta o comportamento e as atitudes dos espectadores, especialmente dos adolescentes. Entre os processos apontados por ela talvez o que mais impressiona quando o assunto é violência é a chamada dessensibilização.

“A exposição constante à violência da mídia atenua a reação a ela com o passar do tempo. Não apenas ocorre um decréscimo na reação à violência, mas também há uma falta de solidariedade para com as vítimas dos ataques”, explica.

Há o endeusamento dos mais jovens para com o vilão, e o pior: O endeusamento dos vilões da vida real. Não são as vítimas que merecem atenção, mas sim o assassino, o psicopata, o serial killer. São eles que possuem fãn-clubes fervorosos.

Em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Coringa fala que “é na hora da morte que conhecemos o verdadeiro caráter das pessoas”. Aparentemente foi essa frase que mais marcou o autor do massacre. Apesar de não concordar com a relação direta de causa e efeito da violência nas telas e no mundo real, o cineasta Mauro Baptista Vedia acredita que a mídia e o cinema precisam começar a refletir sobre seus conteúdos.

Para ele, nem os próprios produtores sabem o grau de responsabilidade que têm.

“Essa complacência com a violência, o elogio da crueldade e da perversidade é uma variante da nossa cultura. Neste sentido, o cinema, mas não apenas ele, tem sim sua parcela de culpa.”

Crueldade

Diretor de teatro, roteirista e autor do livro O Cinema de Quentin Tarantino, Vedia dá como exemplo desse “elogio da perversidade” a novela Avenida Brasil. Na trama, ninguém ao certo sabe quem é a vilã ou a mocinha. A crueldade parte dos dois lados.

“Sei que vai parecer conservador o que vou falar, mas é complicado você entrar na casa das pessoas com uma violência sem redenção, com um clima tão pesado”, aponta. Foi esse mesmo climão que o cineasta afirma ter sentido ao sair de Batman – O Cavaleiro das Trevas.

Ele ainda diferencia a violência de filmes como o do Homem Morcego com os do diretor Quentin Tarantino, famoso por falar em suas produções do submundo, mesclando sempre doses de humor e pancadaria.

“Nos filmes de Tarantino, a violência é uma coisa lúdica, estética, nunca para ser levada a sério. Tem elementos fortes de perversidade, mas sempre secundários. É mais uma linguagem cinematográfica, uma homenagem aos antigos filmes de Hollywood cheia de ironia que tira sarro de tudo e de todos, até de Hitler”, diz, referindo-se a Bastardos Inglórios.

Em carta publicada no site oficial do filme, o diretor Christopher Nolan disse acreditar que filmes são uma das grandes formas de arte americana e que compartilhar a experiência de ver uma história se desenrolar na tela é um importante e prazeroso passatempo.

“A sala de cinema é minha casa e a ideia de quem alguém tenha violado esse lugar inocente e cheio de esperança de forma tão insuportavelmente selvagem é devastadora para mim”.

O que fica do massacre do Colorado é a dificuldade de entender uma história que, apesar de não ter mocinhos nem vilões bem definidos, fez da plateia sua maior vítima.

Joker

Talvez não haja outro vilão mais complexo e cheio de nuances nas histórias em quadrinhos de super-heróis que Coringa, o maior oponente de Batman. Isso porque, quem sabe, não haja um herói mais complexo e cheio de nuances que o Homem-Morcego. Batman carrega elementos de um imaginário soturno que o torna fascinante.

O supervilão apareceu pela primeira vez em 1940. Foi diretamente responsável por numerosas tragédias na vida do homem-morcego, incluindo a paralisia da Batgirl Barbara Gordon e pela morte de Jason Todd, o segundo Robin.

Ao longo de suas aparições nas revistas em quadrinhos, Coringa é retratado como um mestre do crime, cuja caracterização varia. A mais dominante é a de um psicopata altamente inteligente, com um deformado sentido de humor sádico, mas também, já foi retratado como um excêntrico brincalhão.

Durante várias décadas, ele foi, talvez, o mais definível super-vilão da cultura popular. Seu olhar icônico, a atitude jocosa, sua perturbadora história, tudo isso era de conhecimento de qualquer moleque de 10 anos.

Sua sede de justiça não vem de uma experiência científica mal-sucedida ou de um planeta que foi destruído e sim de algo bem real, que pode acontecer com qualquer cidadão comum, ainda mais agora nestes tempos de enorme violência. Quando criança, Bruce Wayne viu seus pais serem mortos em um beco. Depois disso, foi criado por um mordomo dedicado e o lugar onde se sente bem é uma caverna escura, sombria como sua alma. Não consegue ter um relacionamento amoroso mais firme e todos os seus afetos lhe impõem barreiras intransponíveis.

É para fazer frente a esse sujeito, um anti-herói por excelência, atormentado e triste, que surge o vilão risonho. A gargalhada que não denota alegria, mas loucura. Coringa é o negativo de Batman, um palhaço assassino que se veste com cores berrantes para combater o Cavaleiro das Trevas, sempre de negro. O sorriso tatuado no rosto deste ser assustador é o mesmo que nunca surge na face de Bruce Wayne. O embate entre o bem e o mal transforma-se, assim, no confronto entre a melancolia silenciosa e a alegria psicopata e histérica. É por isso que Coringa é tão sedutor. É por isso que suas aparições no cinema, nas adaptações das HQs de Batman, são inesquecíveis e preponderam sobre o protagonista.

Foi assim em 1989, no Batman de Tim Burton, cujo Coringa de Jack Nicholson lhe valeu uma indicação ao Oscar. Repetiu-se em O Cavaleiro das Trevas, com a espantosa interpretação que Heath Ledger deu ao vilão, valendo-lhe um Oscar póstumo.

Não parece ser um mero detalhe que o assassino do Colorado tenha escolhido o Coringa como fantasia para seu ato. Nem Duas Caras, nem Charada, nem Pinguim chegam aos pés do palhaço mortífero. Matar é seu prazer, sobretudo se as vítimas forem pessoas inocentes. Sua personalidade é imprevisível, sua maldade é incontrolável.

Só ele foi capaz de matar, por espancamento, Robin em uma história em quadrinhos que ficou famosa. Só com Coringa não soa falsa aquela tradicional situação em que o herói, depois de capturado, é preso a uma armadilha maquiavélica que geralmente inclui serras afiadas, tanques de ácido ou choques elétricos.

A tortura é algo que se espera de um sujeito como Coringa, que se refestela na dor alheia e para o qual só o pânico de quem está em suas mãos justifica sua vilania. Coringa é sádico, inclemente, tão louco quanto Batman. Ambos poderiam estar no Asilo Arkham. A verdadeira dupla dinâmica é composta pelos dois.

No cinema, foi interpretado, em épocas distintas, por três atores.

Cesar Julio Romero, Jr.

Na década de 50, o Coringa passou por uma metamorfose da sua personalidade quando um grupo chamado Comics Code Authority foi criado em resposta ao que alguns chamavam de “material inadequado.” Eles censuraram e proibiram a violência excessiva nas revistas em quadrinhos, o Coringa, então, tornou-se menos sinistro e mais bobo. E foi essa personalidade meio “pateta” que apareceu na série de TV nos anos 60 e no primeiro filme do Batman em 1966.

Batman – The Movie, foi lançado em 1966, quando a série Batman estava no auge da sua popularidade na TV americana. No filme, a dupla dinâmica Batman e Robin enfrentam os mais diabólicos vilões do planeta: Pinguim, Charada, Mulher-Gato e ele, o Coringa.

O Coringa de Cesar Romero, com seu cabelo verde e terno roxo, mais ria do que falava. Era um verdadeiro palhaço, e apesar de parecer uma criança perto dos Coringas posteriores, a representação que Romero deu ao Coringa, dentro do contexto da época, foi magnífica.



John Joseph Nicholson

Foi em 1989 que o diretor Tim Burton e o ator Jack Nicholson mostraram para o mundo de uma vez por todas a verdadeira natureza do Coringa. Eles mostraram ao mundo que o Coringa não era simplesmente um criminoso, mas sim um lunático.

O Coringa de Nicholson é inesquecível devido à combinação perfeita que o ator fez da personalidade psicopata com a esmagadora representação teatral do personagem, algo até hoje insuperável.

Depois da magnífica interpretação que Nicholson deu ao Coringa em 1989, parecia impossível alguém chegar perto, o personagem parecia ser intocável. Se alguém usasse o Coringa de novo em um filme, eles não teriam outra escolha senão reinventá-lo totalmente. E foi isso o que aconteceu.

Heathcliff Andrew Ledger

A interpretação que Heath Ledger deu ao Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas levou o personagem ao extremo absoluto. Foi como se Christopher Nolan e Heath Ledger tivessem dado o próximo passo lógico na evolução do palhaço. Em muitos aspectos, o Coringa de Ledger foi o oposto do de Nicholson e, talvez, o mais assustador, é pensar que o Coringa de Ledger foi moldado em nossa realidade: o caos personificado. Ele não tinha insegurança sobre o seu papel na sociedade, era um criminoso demente que não sentia empatia nem por aqueles que o ajudava. Nesse ponto, o Coringa de Nicholson e o de Ledger se equivalem.

A interpretação de Heath Ledger para o Coringa de 2008 foi espantosa e surpreendente, mas teve o seu preço. O ator australiano disse na época que mal conseguia dormir durante as filmagens e mesmo enquanto estava descansando, não conseguia fazer com que o Coringa saísse da sua mente.

Quando Jack Nicholson soube da morte de Heath Ledger, sua resposta foi imediata:

“Eu o avisei!”

Assim que James Holmes cometeu o crime, jornalistas correram para ouvir o que Kim Ledge, pai do ator Heath Ledger, cuja morte por overdose de remédios é associada a sua imersão profunda na interpretação de Coringa, achava de toda a situação. Sua resposta foi emblemática:

“Não devemos culpar Heath Ledger ou o personagem.”

Kim Ledge tem razão. Creio que toda essa discussão que envolve a influência da violência do cinema, TV, ou outros meios nas pessoas é válida. Mas para mim isso acaba desviando o foco da real discussão que deve ser feita. O culpado não é o Batman, o culpado não é o Coringa, o culpado não são os filmes cheios de morte no cinema, o culpado não é a polícia, o culpado não são os pais. O culpado nessa história é James Holmes, unicamente ele. 

Na Foto: James Holmes aponta para uma Lhama. Fotografia foi enviada junto com sua monografia de final de curso da Universidade de Illinois.

E você? Qual a sua opinião? Acha que James Holmes é uma vítima da banalização da violência nas telas? Não? Deixe sua opinião.

Informações

Nome: James Eagan Holmes

Conhecido Como: O Atirador de Aurora

Nascimento: 13 de dezembro de 1987. San Diego, Califórnia. Estados Unidos

Formação: Graduado em Medicina pela Universidade da California. PhD incompleto em Neurociência pela Universidade do Colorado

Ocupação: Estudante

Acusação: Acusado de 124 crimes, incluindo 24 homicídios

Captura: 20 de Julho de 2012

Situação: Preso


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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
  • Superzedix

    Muito interessante este post. Nem imaginava que tinham tantos crimes envolvendo filmes. Já assisti todos os filmes e documentários citados, são muito bons. 
    Não creio que os filmes sejam os grandes culpados dessas tragédias. Uma pessoa que passou por momentos traumáticos e decide se vingar do mundo, sempre irá procurar alguma motivação ou “desculpa”. Os filmes/livros/etc podem cooperar para que essa chama se acenda, mas a maldade, a sede por vingança e até a busca por fama, já fazem parte do pensamento destas pessoas.

  • Robertoviana16

    Do mesmo modo que os filmes não são indicados para crianças também não deveriam ser indicados para aqueles com doenças psiquiátricas, acho que a culpa está na educação dos pais.

  • Fizófolo de Apucarana

    Parabéns pela agilidade e versatilidade. Percebi que você escreve, muitas vezes, acompanhando os acontecimentos atuais. 

  • Pingback: Pra Saber Mais: Qual a Diferença entre Serial Killers, Spree Killers e Mass Murderers ? | O Aprendiz Verde()

  • Caroline Ferreira

    Ótimo post..adorei ler! Parabéns mais uma vez!!

  • Pingback: Crimes Históricos: 22 Notorios e Horripilantes Crimes de 2012 | O Aprendiz Verde()

  • O Conspirador

    Meu, sinceramente. Todo mundo assiste aos meus filmes e não é por isso que saímos matando pessoas a torto e a direito. O filme pode ter alguma influência, mas a causa de tudo está dentro de cada um.

  • Pingback: Elliot Rodger: Perfil de um assassino | Blog O Aprendiz Verde()

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