Leonardo Pareja, O Psicopata Superstar

Leonardo Pareja

“Na realidade, Pareja se mostrou um talento excepcional para manipular os meios de comunicação… Em todas as suas ações, Pareja humilhou a polícia e o governo e só atraiu simpatia.” (Revista Veja, 10 de abril de 1996).

Leonardo Pareja. Já ouviram falar nesse nome? Pra quem tem mais de 30 anos, o nome ainda é um refresco na memória. Se você tem menos, provavelmente nunca ouviu falar dele. Leonardo Pareja, porém, é talvez o mais notório criminoso brasileiro dos últimos 20 anos. Marcola, Fernandinho Beira Mar, Nem da Rocinha e Maníaco do Parque foram outros notórios criminosos brasileiros das últimas duas décadas. Em comparação a esses bandidos, Leonardo Pareja é um pé-de-chinelo, um assaltante e ladrão de carros que não usava de violência para com suas vítimas. Mas, por outro lado, sua inteligência e capacidade de usar a mídia para tornar-se um “astro” do crime o colocam definitivamente um patamar acima dos demais.

Esqueçam a figura do bandido que cospe fogo pela boca, que fala um português todo errado e é mais feio que um macaco espancado. Leonardo Pareja era um galã; estudou inglês, espanhol, piano e programação de computadores. Praticava natação e caratê. Viveu a vida nos padrões da classe média alta, mas jogou tudo para o alto para entrar no mundo que o excitava: o mundo do crime. Com um discurso coerente e jogos mentais, gostava de manipular as pessoas ao seu redor. Pareja era um psicopata inteligentíssimo, narcisista, vaidoso, articulado e extremamente carismático. Não é à toa que conseguiu admiração de presidiários a cidadãos comuns, de juízes a desembargadores de justiça.

Gostava de sentir a adrenalina correndo pelas veias; o perigo o excitava. Em um dos seus inúmeros assaltos, as moradoras de uma casa entraram em pânico, e o que ele fez? Pegou um violão, sentou em uma cadeira e começou a tocar e a cantar para elas, enquanto, do lado de fora da casa, seu comparsa trocava tiros com a polícia.

“Minha overdose é a música, é a adrenalina que uma guitarra, uma bateria… a fibra que uma guitarra faz. Aquilo transforma a adrenalina dentro do meu cérebro em minha droga. Se eu tivesse que assaltar um banco, eu acho que teria que entrar com um walkman tocando Guns N’ Roses e eu não estaria nem aí, esperava a Rotam chegar pra trocar tiros com eles escutando Guns N’ Roses. Meteria bala neles e deixaria um buquê de rosas.”

Em setembro de 1995 ficou conhecido por todo o Brasil ao manter como refém a sobrinha do todo poderoso Antônio Carlos Magalhães, governador da Bahia, após um assalto. Ele escapou e começou a zombar da polícia e das autoridades, dando entrevistas para rádios e anunciando as cidades em que seus futuros ataques teriam cenário.

Em abril de 1996 liderou uma fuga cinematográfica do maior presídio do Estado de Goiás, o Cepaigo. O diretor do presídio, na época, o Coronel Nicola Limongi (apelidado de Nazista por Pareja), foi acusado pelos presos de maus tratos e torturas. Um juiz do estado começou a investigar as denúncias e, a partir daí, iniciou-se uma queda de braço entre o diretor do presídio e o juiz.

Em 26 de abril de 1996, o Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, o desembargador Homero Sabino, decidiu ir por conta própria ao presídio analisar a situação dos presos. Irritado com a visita do desembargador, Nicola Limongi reuniu uma turma de amigos importantes para acompanhar a visita. Dentre eles, o Secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, coronéis de polícia, juízes, promotores e políticos. Tudo em uma tentativa de intervir na visita do desembargador.

O palco estava montado. Mais de uma dezena de autoridades estavam no presídio discutindo a gestão feita por Nicola Limongi quando uma turma de presos decidiu começar a rebelião. Imaginem: o diretor do presídio, promotores de justiça, juízes, delegados, coronéis, um desembargador do estado, o secretário de segurança pública, todos nas mãos de sanguinários assassinos. A rebelião parou o Brasil.

Leonardo Pareja - Psicopata Superstar- O PopularFoto: Capa do jornal O Popular. Créditos: O Popular.

Os presos, porém, estavam dispersos, não tinham uma liderança e não sabiam ao certo o que fazer. E foi aí que eles lembraram de alguém que poderia ajudá-los. Um preso que estava numa espécie de solitária; Leonardo Pareja. O showman entrava em ação e logo assumiu todo o controle da rebelião mesmo sem ter tido nem um pingo de culpa no motim. Na verdade ele só queria ver o circo pegar fogo, uma espécie de Coringa da vida real. E em um dos primeiros problemas surgidos durante a rebelião, ele pôde colocar à prova todo o seu poder de persuasão.

Todos os presidiários queriam estraçalhar o diretor “nazista” do presídio, e um deles chegou a dizer que cravaria 100 facas no seu peito. Nicola Limongi estava prestes a ser massacrado quando Pareja disse que não, a vida do diretor era importante. Na verdade, a vida do diretor pouco importava para Pareja. Aquela era simplesmente uma oportunidade única para o psicopata narcisista colocar à prova o seu poder de persuasão e liderança. Era mais um teste real para ele. Enquanto todos os presos queriam trucidar e esquartejar o diretor da cadeia, Pareja foi na direção contrária e salvou a vida de Limongi, persuadindo todos os bandidos. 

Em meio ao caos da rebelião, uma cena ecoou pelo mundo. Pareja e um outro presidiário escalaram a caixa d’água do Presídio. Pareja subiu na frente com uma bandeira do Brasil e o outro preso atrás com um violão. Ao chegar ao alto da caixa d’água, Leonardo Pareja hasteou a Bandeira do Brasil e tocou seu violão, cantando a música Vida de Gado de Zé Ramalho.

Foto: Em meio ao caos de um dos maiores motins de presos em penitenciárias da história brasileira, Leonardo Pareja sobe numa caixa d’água e canta a música Vida de Gado, de Zé Ramalho.

E Leonardo Pareja aproveitou todos os dias da rebelião para exacerbar seu marcante senso de espetáculo. Num dia jogou futebol. No outro, tocou violão. Pediu bolos e refrigerantes para os negociadores do Estado para comemorar o seu aniversário de 22 anos e do Desembargador Homero Sabino. Como um verdadeiro Coringa da vida real, Pareja decidiu que era hora de se divertir. No segundo dia de rebelião ele fez um pedido inusitado para as autoridades. Que se gravasse um Você Decide, famoso programa global da década de 1990, com a seguinte pergunta: “Você acha que o governador deve ceder às exigências e liberar os reféns? Ou manter os reféns em cativeiro?”

É óbvio que Pareja sabia que seu pedido não seria atendido, mas para ele, seu absurdo poderia ser interpretado pelas autoridades como algo vindo de um lunático pronto para espetar a cabeça do Secretário de Segurança Pública do estado numa vara. A mensagem de Pareja com esse pedido era clara: era ele quem mandava ali e ele devia ser atendido no que quisesse. E não deu outra.

Foto: Um feito para poucos. Leonardo Pareja foi capa da revista Veja em abril de 1996. Num dos títulos da reportagem está a frase: “Leonardo Pareja ressurge numa rebelião em Goiás e humilha a polícia e o governo”.

Sob a liderança de Pareja, os presos conseguiram algo inédito no mundo da negociação policial: começaram pedindo pouco e terminaram levando tudo.

A rebelião terminou ao vivo, e em rede nacional, com a espetacular fuga de vários presidiários em carros cedidos pelas autoridades goianas durante as negociações. Pareja dirigia um desses carros, junto com outro condenado, o desembargador Homero Sabino, e seu filho de 23 anos. E o que Pareja fez? Como se nada tivesse acontecido, começou a andar tranquilamente pelas ruas de Goiânia, passeando. Parou em um dos barzinhos mais agitados da cidade, comprou cerveja e refrigerantes. Pagou com uma nota de 50 reais e não quis o troco. Foi reconhecido pelos frequentadores do bar e fez a alegria de todos ao pagar uma rodada de cerveja para todo mundo.

Num caso único no mundo, Pareja entrava para a história como o preso que colocou no chinelo especialistas federais brasileiros treinados pelo FBI e uma comissão com oito autoridades do primeiro escalão de Goiás, que incluía o presidente da OAB, o procurador-geral de Justiça e o comandante da Polícia Civil. Tais autoridades comandaram as negociações com Pareja pelo lado do Estado, mas foi o bandido quem, no final, saiu rindo dirigindo um Fiat Tempra zero bala com uma maleta ao lado cheia de grana, R$ 100 mil reais pra ser preciso.

“No mais longo motim da história policial brasileira, acabou sendo Pareja quem promoveu as negociações entre presos e o governo. Acabou espetando um nariz de palhaço no rosto do governador Maguito Vilela, em todo o governo goiano e, por que não, no do ministro Nelson Jobim, da Justiça… Não há nada mais monótono do que motim em penitenciária, mas o bandido sabia como tornar a rebelião de Goiânia uma atração à parte”. (Revista Veja, 10 de abril de 1996).

“Eu sou um herói dos presos, gente que foi humilhada e maltratada pela polícia. Não me considero um Robin Hood, mas confesso que me identifico com ele.” (Leonardo Pareja)

Sua vida foi curta, mas digna de entrar para a história. Em 1996, Régis Faria, filho do ator global Reginaldo Faria e irmão do também global Marcelo Faria, dirigiu um arrepiante e excelente documentário chamado Vida Bandida. O documentário sobre a vida de Pareja foi lançado em 1998 e transmitido pelo Canal Brasil. É definitivamente um dos melhores produtos documentais veiculados pela televisão brasileira. O documentário mostra diversas entrevistas com Leonardo Pareja, além de imagens de arquivo dos seus assaltos e da cinematográfica fuga do presídio em Goiás. O documentário acerta também em ser imparcial, colocando entrevistas de Leonardo e de autoridades da época, autoridades às quais o bandido acusava de assassinatos e corrupção.

Algumas de suas frases tornaram-se antológicas:

“Eu sou humano com quem é humano e sou cruel com quem é cruel”.

“Eu tenho uma maneira de provocar adrenalina diferente. Desafiando o perigo, a morte. Desafiando as autoridades, desafiando uma troca de tiros. Não penso duas vezes em peitar uma barreira da polícia, porque ali sim está a adrenalina que eu preciso.”

“Eu não existiria se não fosse o perigo. O perigo é o que me faz viver.”

“Foi nesse sequestro (o da sobrinha de Antônio Carlos Magalhães) que comecei a dar entrevistas. A opinião pública diz que foi uma inversão de valores, mas não. Eu estava colocando os valores nos seus devidos lugares.”

“A imprensa foi moldando ao seu critério e eu fui moldando ao meu critério, e assim surgiu Leonardo Pareja.”

“A polícia usa demais os punhos para trabalhar ao invés dos neurônios.”

“Não sou superbandido, mas certamente sou mais inteligente do que a polícia”.

“A Polícia Militar é mais organizada. Você mata um e aparecem 10; Mata 10 e aparecem 100. Na Polícia Civil, você mata 1 e o resto sai correndo.”

“Abdul Sebba, nome de árabe, aqueles torturadores, carrasco mesmo. Abdul Sebba é um deputado federal, um delegado, é um dos maiores matadores do estado de Goiás. E o Hitler Mussolini, olha só nome do cara, é o que abafa todo tipo de escândalo da Polícia Civil. Essas pessoas encobrem assaltos, policiais corruptos, assassinos”, sobre Abdul Sebba, ex-Deputado Federal de Goiás e Hitler Mussolini, ex-diretor Geral da Polícia Civil do estado de Goiás.

“Eu chamo ele de nazista! Às vezes eu fico imaginando ele numa cena de filme pornográfico, sendo aquele que está levando”, sobre o Coronel Nicola Limongi, ex-diretor do Cepaigo.

“Todos os reféns também tinham uma certa afinidade. Era como a Síndrome de Estocolmo, eles começaram a se adaptar com os próprios aglutinados”, sobre a rebelião no Cepaigo.

“Bobo é o homem que confia no homem.”

Leonardo Pareja foi um psicopata clássico. Seu objetivo de vida era sempre estar acima de todos, inclusive da própria morte. Como ele próprio diz, desafiou a morte várias vezes. O único problema, porém, é que a morte só precisa de uma chance para vencer. Ele se entregou logo depois de fugir do Cepaigo e, contra a vontade dos seus advogados, decidiu voltar a cumprir pena lá por um simples motivo: metade da cadeia queria matá-lo. Uma vez mais, ele queria desafiar a morte e sentir a emoção e a adrenalina de estar no fio da navalha. Seu novo desafio de vida era mostrar para todos que, apesar de estar marcado para morrer, ele era bom o suficiente para continuar vivo ali dentro, protegido por presos que ele manipulou durante anos. Mas, como eu disse, a morte só precisa de uma chance!

O excelente documentário Vida Bandida está disponível abaixo:

Leonardo Pareja, o Psicopata Superstar, o mais notório criminoso brasileiro dos últimos 20 anos. Para muitos, um herói; para outros, um bandido mimado. Assista e tire suas conclusões.



Esta matéria teve colaboração de:

Revisão por:

ester

Curta O Aprendiz Verde No Facebook


—————————————————————————————————-

About O Aprendiz

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)