Serial Killers: A Besta da Bastilha

“Ele é uma pessoa diabólica… a encarnação do mal!” “…um psicopata narcisista!” “Ele é como um gato, que aprisiona pássaros por instinto!” “…as mortes atingiram um ritual de vampirização!”...
Serial Killers - A Besta da Bastilha

A Besta da Bastilha

“Ele é uma pessoa diabólica… a encarnação do mal!”

“…um psicopata narcisista!”

“Ele é como um gato, que aprisiona pássaros por instinto!”

“…as mortes atingiram um ritual de vampirização!”

“Seu real prazer vem da caça, a excitação, aquele momento em que ele parado observa a vítima.”

“…ele se alimentava da energia e da força vital daquelas que ele exercia seu poder.”

“Suas vítimas não existiam como pessoas, apenas como objetos para apoiar suas tentativas perversas de se apropriar de suas qualidades interiores.”

Um Pouco de História

A Revolução Francesa foi um divisor de águas na história moderna da Europa e também do mundo. Durante aqueles dias de ira, cidadãos franceses arrasaram e, também, redesenharam a paisagem política do país, pulverizando do mapa instituições centenárias e organizações econômicas tais como a monarquia absolutista e o sistema feudal. Como a Revolução Americana, a Revolução Francesa foi influenciada pelos ideais do Iluminismo, particularmente os conceitos de soberania popular e direitos alienáveis. Embora a revolução não tenha conseguido atingir todos seus objetivos e tenha, em partes, se degenerado em caóticos banhos de sangue, o movimento teve um papel fundamental na formação das nações modernas, mostrando ao mundo de uma vez por todas o inerente poder da vontade do povo.

A história da Revolução Francesa é tão minunciosamente detalhada e contada nas aulas do ensino fundamental e ensino médio que não há quase nada de que eu possa falar que vocês jão não saibam. Naquela época, a insatisfação popular era grande. A Europa vinha de uma decadente e sangrenta idade média (ou idade das trevas como alguns gostam de dizer). Reis absolutistas viviam às custas do povo. Enquanto o Rei Luis XIV podia dormir tranquilamente em uma das suas 413 camas do seu enorme palácio depois de devorar uma suculenta refeição que incluía 4 pratos de sopa e dois faisões inteiros, o povo sofria para conseguir um pedaço de pão. Estima-se também que mais de 17 mil pessoas foram executadas na França durante os reinados dos Reis Luis XIV, XV e XVI. Outros milhares morreram em prisões sem terem direito a um julgamento. Talvez um dos símbolos máximos da tirania monarquista francesa tenha sido a Bastilha.

A Bastilha, uma fortificação que começou a ser construída em 1357, foi usada por vários séculos pelos Reis franceses como prisão. Para lá eram enviados quaisquer infortunados que ousassem desafiar a nobreza. O mais famoso desses prisioneiros foi o homem que é conhecido hoje como “O Homem da Máscara de Ferro”. Ele foi preso em 1669 (ou 1670), durante o reinado de Luis XIV, e passou 34 anos atrás das grades, vindo a falecer em 19 de Novembro de 1703. Por ter seu rosto escondido sob uma máscara de ferro, sua identidade nunca foi descoberta, e até hoje é motivo de inúmeros livros que tentam revelar seu verdadeiro nome.

A partir da década de 1610, a população francesa começou a mudar consideravelmente. Os cidadãos que compunham o chamado “Terceiro Estado” (leia-se: pobres marginalizados) começaram a se mobilizar em prol da igualdade social. Além disso, eles compartilhavam um desejo por reformas judiciais e fiscais (Leia-se: pagamento de menos impostos). Claro que os nobres não estavam nem um pouco contentes em abrir mãos dos seus privilégios. O estopim dessa queda de braço aconteceu no dia 14 de Julho de 1789. Havia rumores em Paris de que um golpe militar era iminente, começou-se então uma insurgência popular. Em 14 de Julho de 1789, a população simplesmente invadiu a Bastilha em uma tentativa de assegurar toda pólvora e armas que pudessem ser utilizados por militares (a Bastilha também era usada como depósito de armas). O diretor da Bastilha, marquês Launay, ainda tentou negociar com os insurgentes. Não conseguiu. Sua cabeça terminou espetada numa lança. Era a queda da Bastilha e o início da Revolução Francesa. O resto já é história.

Na Foto: Representação da Queda da Bastilha em 14 de Julho de 1789. Fonte da Imagem: Corbis

A onda do fervor revolucionário e a histeria generalizada, rapidamente varreram o campo. Revoltados contra anos de exploração, camponeses saquearam e queimaram casas de cobradores de impostos, proprietários de terra e da elite em geral. A Bastilha foi destruída a golpes de machado e pelo fogo. Restaram apenas escombros.

A Bastilha já não existe mais. É viva hoje apenas nos livros de história. O que por 400 anos foi a Bastilha, hoje é uma bonita praça de Paris conhecida como Place de la Bastille (Praça da Bastilha). A praça, assim como seus arredores, são simplesmente chamados de Bastilha. É um local boêmio com inúmeros bares, cafés e boates. Hoje o local parece calmo e divertido, mas nem sempre foi assim. Em meados da década de 1990, a Bastilha foi assombrada por uma série de crimes violentos.

Talvez o que os revolucionários não soubessem é que 200 anos depois, a Bastilha seria palco de horrendos assassinatos que deixaram a população e a polícia francesa em pânico. Mas esses assassinatos não foram cometidos por um revolucionário, terrorista ou durante uma manifestação sangrenta de direitos. Esses assassinatos foram cometidos por um sanguinário serial killer. Um homem que foi chamado de “a encarnação do mal”, um psicopata que tinha apenas um desejo: satisfazer a si mesmo, ou seja, matar.

Em uma quinta-feira, 19 de fevereiro de 1998, a rede britânica BBC publicou a seguinte reportagem:


“Polícia frustrada no inquérito da Besta da Bastilha”

A reportagem dizia:

“A polícia francesa sofreu um revés hoje em sua busca pelo serial killer conhecido como “A Besta da Bastilha”. Testes de DNA mostraram que um suspeito preso em Londres não está conectado aos crimes. 

A polícia francesa tem certeza de que um único homem é o responsável pelo assassinato e estupro de 3 mulheres no leste de Paris entre 1994 e 1997. Há indícios de que ele tenha assassinado outras 4 mulheres em crimes não resolvidos que datam de 1991. Os assassinatos provocaram pânico na Bastilha, as mulheres tem medo de andarem sozinhas à noite. Os investigadores acreditam que o assassino tenha ente 25 e 30 anos, seja de ascendência africana e fale francês sem sotaque. A descrição veio de uma mulher que conseguiu escapar de um ataque em 1995. 

Todas as vítimas moravam sozinhas. Elas foram estupradas e tiveram suas gargantas cortadas com uma faca. Houve uma intensa especulação na mídia e os crimes tiveram um grande impacto na França, um país que costuma associar assassinatos em série com os Estados Unidos.”

A reportagem da BBC foi escrita num momento em que o desespero da polícia francesa era enorme. Desde 1991, um serial killer agia impunemente nas região da Bastilha, mas apesar das similaridades entre os assassinatos, a polícia nunca admitiu que os crimes eram obra de um serial killer, apesar das características serem quase que óbvias:

  • Todas as vítimas eram mulheres jovens, bonitas e solteiras;
  • Os ataques ocorriam ou em estacionamentos subterrâneos da cidade ou dentro do apartamento das vítimas;
  • Todas foram estupradas antes de serem mortas;
  • Os sutiãs eram cortados entre as copas e as calças do lado esquerdo;
  • Todas foram mortas por degolamento;

A grande verdade é que polícia francesa nunca deu a devida atenção ao caso. Como pode ser lido na reportagem da BBC, os franceses cometeram um erro básico, pra não dizer infantil: associar assassinatos em série aos Estados Unidos, como se esses crimes só acontecessem por lá. Mas não era só isso, além de investigarem os crimes de forma errada, os assassinatos em série de jovens mulheres na área da Bastilha sempre ficaram em segundo plano. Em 1995, a cidade foi assombrada por vários atentados terroristas que deixaram vários mortos. Quase todo o esforço policial concentrou-se na investigação desses atentados. Para piorar, em 1997, a Princesa Diana morre em um acidente de carro  no túnel da Ponte de l’Alma. Apesar de ter sido um acidente, o mundo inteiro começou a se perguntar: Não terá sido um assassinato? Teorias conspiratórias envolvendo mortes de pessoas importantes são quase que imediatamente levantadas no momento da morte do indivíduo. Para saciar a fome do mundo e da mídia, a polícia francesa teve que conduzir uma imensa e detalhada investigação sobre a morte da princesa, e mais uma vez, os assassinatos das mulheres da Bastilha ficava em segundo plano.

Mas em 16 de Novembro de 1997, um acontecimento faria que, de uma vez por todas, a polícia entrasse de cabeça no caso das mulheres mortas na Bastilha.

  • 16 de Novembro de 1997

Era 18 de Novembro de 1997. Os pais da bela jovem francesa Estelle Magd, 25 anos, estavam apreensivos. A jovem, que trabalhava como secretaria de uma companhia de produção de filmes, já havia dois dias que não dava notícias, ela nem sequer atendia ao seu telefone. Achando estranho o repentino sumiço da filha, seus pais decidem ir até o apartamento onde ela morava na região da Bastilha, mais precisamente na Rue de La Forge Royale, 11º Distrito de Paris, região da Bastilha.

Obs.: Clique na Foto Para Ampliar. Vista da estreita Rua La Forge Royale, moradia da bela jovem Estelle Magd. Créditos da Imagem: Google Street View

Obs.: Clique na Foto Para Ampliar. Outra vista da estreita Rua La Forge Royale, moradia da bela jovem Estelle Magd. Créditos da Imagem: Google Street View

Os pais da jovem Estelle caminham na estreita rua que leva ao seu apartamento. Eles passam pela porta, à esquerda, eles vêem a caixa de correios pertencente à filha.

Na Foto: A caixa de correios de Estelle Magd, no térreio do seu prédio. Créditos da Imagem: Corbis.

Os pais da bela Estelle Magd não sabiam, mas ela já estava morta a dois dias. A cena é chocante: Estelle estava nua na cama, suas roupas rasgadas, mãos amarradas, um corte profundo na garganta.

A reação à horrível morte de Estelle Magd não poderia ter sido pior para a polícia. A anos mortes parecidas já vinham acontecendo e nenhuma havia sido resolvida. Parentes de outras mulheres mortas na região da Bastilha foram à imprensa e expressaram suas raivas não só contra a polícia mas também contra os meios de comunicação que pareciam não dar importância para as mulheres mortas. Porém, a morte de Estelle Mag foi um divisor de águas. Isso porque a polícia já investigava assassinatos semelhantes de mulheres na Bastilha (bem ou mal mas investigavam), e quando eles conseguiram uma amostra de DNA do assassino, retirada de uma das peças de roupa de Estelle, veio a confirmação de algo que eles sempre negaram com veemência.

O DNA do assassino de Estelle combinava com amostras de DNA retiradas de duas outras cenas de assassinatos contra mulheres na região da Bastilha ocorridas anos antes: Agnes Nijkamp, uma holandesa morta em 10 de Dezembro de 1994, e Hélène Frinking, morta em 8 de Julho de 1995. E mais, os assassinatos de Estelle, Agnes e Hélène, possuiam a mesma assinatura de dois assassinatos ocorridos em garagens subterrâneas de Paris. Elsa Benadi, encontrada morta em 8 de Novembro de 1994 e Catherine Rocher, encontrada morta em 7 de Janeiro de 1994. Todas essas cinco mulheres haviam sido mortas seguindo o mesmo ritual. Suas roupas foram rasgadas à faca, foram amarradas, amordaçadas, sofreram estupro e foram degoladas. Todas também possuíam o mesmo perfil: eram mulheres jovens e bonitas. A única diferença era que Estelle, Agnes e Hélène foram mortas dentro dos seus apartamentos.

Não adiantava mais lutar contra o óbvio: Havia um serial killer à solta nas ruas de Paris, e eles deviam pará-lo. Logo a imprensa o chamou de:

A Besta da Bastilha

Nome: Estelle Magd

Idade: 25 anos

Ocupação: Secretária

Estado Civil: Solteira

Morte: 16 de Novembro de 1997

Local: Rue de la Forge Royale, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Estelle foi encontrada morta dentro do seu apartamento pelos seus pais. Após sua morte, uma verdadeira caçada humana foi iniciada pela polícia francesa.

Investigando registros dos assassinatos e de outros semelhantes, detetives desconfiaram que o serial killer poderia estar envolvido em assassinatos que datavam de 1991. Vamos voltar no tempo.

 

Pascale Escarfail

Paris, França.

  • 24 de Janeiro de 1991

Na noite do dia 24 de Janeiro de 1991, a linda estudante de letras, Pascale Escarfail, 19 anos, foi estuprada e assassinada dentro do seu apartamento na rua Delambre, 14º Distrito de Paris, região da Bastilha. De modo particular, o assassino cortou seu sutiã entre as copas. Ela foi encontrada com as mãos amarradas e possuía três cortes profundos na região do pescoço, tendo um dos cortes atingido a artéria carótida esquerda.

A polícia vasculhou o apartamento de Pascale em busca de digitais ou outro tipo de pista mas não encontraram nada. Os vestígios de sêmen não foram suficientes para isolar o DNA do agressor e posteriormente o processo de investigação do assassinato foi passado ao Juiz Martine Bernard que também não fez avanços no caso.

Obs.: Clique na Imagem Para Ampliar. Na Foto: Vista da Rua Delambre, 14º Distrito de Paris, região da Bastilha. A estudante Pascale Escarfail morava em um apartamento situado nesta rua.

Nome: Pascale Escarfail

Idade: 19 anos

Ocupação: Estudante de letras

Estado Civil: Solteira

Morte: 24 de Janeiro de 1991

Local: Rue Delambre, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Pascale foi encontrada  nua e com as mãos amarradas e amordaçada dentro do seu apartamento. A polícia não conseguiu encontrar nenhuma pista que levasse ao seu assassino.

A misteriosa morte de Pascale ficaria sem solução e nos próximos anos nenhum assassinato parecido com o dela foi reportado pela polícia. Entretanto, três anos depois, em 1994, três assassinatos parecidos aconteceriam.

Catherine Rocher

Paris, França.

  • 7 de Janeiro de 1994

Em 7 de Janeiro de 1994, a linda assistente de marketing Catherine Rocher, 27 anos, foi encontrada morta dentro do seu carro em um estacionamento subterrâneo na 70 boulevard de Reuilly, 14º Distrito de Paris, região da Bastilha. O local é perto de onde, três anos antes, a estudante Pascale Escarfail fora encontrada morta dentro do seu apartamento.

Catherine Rocher fora estuprada e degolada dentro do seu carro. Ela voltava de um feriado com amigos quando foi atacada. Havia hematomas em seu corpo, o que conclui-se que ela tentou resistir ao estupro e por isso fora espancada. Seu corpo foi encontrado pelo seu chefe. Seu sutiã estava cortado entre as copas e sua calça possuía um longo rasgo no lado esquerdo que ia um pouco acima do joelho até a cintura.

Nome: Catherine Rocher

Idade: 27 anos

Ocupação: Assistente de Marketing

Estado Civil: Solteira

Morte: 7 de Janeiro de 1994

Local: 70 boulevard de Reuilly, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Catherine foi encontrada  morta dentro do seu carro em uma garagem subterrânea. Tinha hematomas no corpo. Seu sutiã foi cortado entre as copas e sua calça possuía um rasgado.

Seis dias após o assassinato de Catherine, em 13 de Janeiro de 1994, Annie L., uma jovem apresentadora de uma rádio da cidade, voltava tarde da noite para casa. Ela caminhava pelas estreitas ruas parisienses quando percebeu que um homem a seguia. Ela olhou para trás e o homem firmemente fixou seu olhar em seus olhos. Ela apressou seus passos, quase que correndo. Ao mesmo tempo o homem também apressava os seus passos. Ele a estava seguindo. Ela entrou dentro do seu prédio, subiu um lance de escadas e quando estava prestes a abrir a porta do seu apartamento… deixou a chave cair, ao olhar para trás…

“Eu quero você!”

Um homem com uma faca a agride, ela grita, mas naquela hora da noite ninguém podia escutá-la. O homem pega a bolsa e o casaco de Annie. Com uma mão ele esfrega sua faca no rosto da sua vítima, com a outra ele abre o seu zíper. Ele a obriga a fazer sexo oral. Depois de praticar o ato, ele diz: “Abra a porta do seu apartamento!”

Paralisada de medo e violentada sexualmente, Annie mente para o agressor: “Não posso, tem gente lá dentro.”

O homem levanta irritado e joga o seu casaco pelas escadas. Ela soluça enquanto ele a olha. Ele então desce os degraus da escada para pegar o casaco que acabara de jogar. E é nessa hora que Annie aproveita a oportunidade para abrir a porta do seu apartamento, entrar e fechar. Sozinho do lado de fora, o homem fica furioso, como um animal aterrorizado ele esmurra a porta, mas impotente, ele aos poucos se esvai e deixa o prédio.

Annie imediatamento chamou a polícia. Patrulhas chegaram e começaram a rondar a área, mas não encontraram o “homem negro”.

Elsa Benady

A assessora de imprensa Elsa Benady, 22 anos, foi estuprada e morta na noite do dia 8 de Novembro de 1994 em um estacionamento subterrâneo na Auguste-Blanqui, 13º Distrito de Paris, região da Bastilha.

Seu corpo foi encontrado pelo seu irmão no dia seguinte. Assim como Catherine Rocher, Elsa estava morta dentro do seu carro. Haviam também outras similaridades.

O sutiã de Elsa havia sido cortado entre as copas e a sua calça possuía um grande rasgado do lado esquerdo.

Na Foto: O sutiã de Elsa Benady cortado entre as copas. Do lado direito é possível ver um rasgado em sua calça, provavelmente feito pela faca do assassino.

Na Foto: Comparação das calças de Elsa Benady e Catherine Rocher. Nota-se claramento que o agressor rasgou as calças no lado esquerdo (perna esquerda).

Na fatídica noite, Elsa havia saído para jantar com amigos e ao ir embora, foi atacada pelo seu assassino. O assassinato chamou à atenção da polícia. Eles tinham duas mortes com as mesmas características ocorridas em estacionamentos subterrâneos da região da Bastilha. E não eram mortes de traficantes de drogas ou de criminosos. Eram duas mulheres jovens, bonitas, bem sucedidas e que foram estupradas e degoladas dentro dos seus carros. A assinatura dos assassinatos também era a mesma: Sutiãs cortados entre as copas e calças rasgadas no lado da perna esquerda.

Nome: Elsa Benady

Idade: 22 anos

Ocupação: Assessora de imprensa

Estado Civil: Solteira

Morte: 08 de Novembro de 1994

Local: Auguste-Blanqui, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Elsa foi encontrada  morta dentro do seu carro em uma garagem subterrânea. Seu sutiã foi cortado entre as copas e sua calça possuía um rasgado no lado esquerdo.

Agnès Nikjamp

Um mês depois do assassinato de Elsa Benady em uma garagem subterrânea de Paris, a holandesa Agnès Nikjamp, uma designer de interiores de 33 anos, foi encontrada morta em seu apartamento na rua Faubourg-Saint-Antoine, 11º Distrito de Paris, região da Bastilha. Agnès foi encontrada deitada em sua cama, vestindo apenas sua jaqueta de couro. Estava amordaçada e sua calçinha rasgada. Sua garganta estava dilacerada.

Exames concluíram que Agnès fora estuprada. Peritos conseguiram isolar o DNA do assassino através de vestígios de sêmen.

Obs.: Clique Na Imagem Para Ampliar. Na Foto: Vista da Rua du Faubourg Saint-Antoine, região da Bastilha. Agnès morava em um apartamento nesta rua quando foi encontrada morta em 10 de Dezembro de 1994.

Nome: Agnès Nikjamp

Idade: 33 anos

Ocupação: Designer de interiores

Estado Civil: Solteira

Morte: 10 de Dezembro de 1994

Local: Rua Faubourg-Saint-Antoine, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Agnès foi encontrada  morta dentro do seu apartamento. Foi degolada com vários golpes de faca no pescoço. O assassino roubou alguns objetos no seu apartamento.

Apesar dos três assassinatos de mulheres em 1994, todos com características comuns, a polícia francesa pareceu fazer pouco caso. As investigações eram feitas de forma lenta e em nenhum dos casos um suspeito foi levantado. Além do mais, cada assassinato era investigado de maneira separada, não havia troca de informações. Seis meses depois do assassinato de Agnès, uma outra mulher foi atacada na região da Bastilha. Mas como no caso da radialista Annie L., ela conseguiu escapar.

Paris, França.

  • 16 de Junho de 1995

A jovem Elisabeth Ortega caminha até o seu apartamento no 4º Distrito de Paris após sair de uma boate. Ela abre a porta do edifício onde mora, na rua Tournelles, e ao fechar a porta… um homem aparece do nada. Com uma grande faca na mão ele ameaça Elisabeth e os dois sobem até o seu apartamento. O homem parece não ser agressivo e os dois chegam a conversar em alguns momentos enquanto ele fuma o seu cigarro. Mas logo ele mostra para o que veio. Ele a amarra na cama e começa a passar a faca pelo seu corpo. Incomodado com uma luz acessa no andar de cima, ele sobe as escadas do apartamento duplex para apagar as luzes. E é nessa hora que Elisabeth consegue desamarrar seus punhos, abre a janela do seu apartamento (que ficava no primeiro andar) e pula. Mancando ela sai correndo gritando pela rua. Encontra uma patrulha da polícia mas o suspeito já havia fugido.

A polícia recolhe o cigarro que o agressor fumava e consegue extrair o DNA através da saliva. Interrogada pela polícia, Elisabeth diz que o homem: “Tipo afro-americano, cerca de 25 anos, corpo atlético, cabelo raspado preto, cerca de 1,70 metros, pele escura, rosto oval, traços finos. Fala francês sem sotaque.”

Através da descrição de Elisabeth e com a ajuda de um software desenvolvido pela Scotland Yard (a polícia inglesa), um retrato falado é feito:


Na Foto: Retrato falado feito pela polícia francesa através do depoimento de Elisabeth Ortega.

O retrato falado não foi divulgado ao público e serviu apenas de pista para a polícia. Elisabeth passou várias semanas ajudando investigadores. Ela viu mais de 2.500 fotos de suspeitos mas não identificou nenhum como sendo o seu agressor. Ela ainda acompanhou a polícia em várias rondas à noite, todas sem sucesso. Mas o mais interessante viria a seguir. Comparações do DNA colhido no toco do cigarro e na cena do crime da holandesa Agnès Nikjamp concluíram: a mesma pessoa assassinou que Agnés, atacou Elisabeth. E mais: a análise genética permitiu identificar a raça do assassino: Negro.

A polícia ainda investigava o ataque à Elisabeth quando, um mês depois, outro corpo apareceu.

Hèlene Frinking

A bela jovem Hélène Frinking, 27 anos, foi estuprada e morta dentro do seu apartamento no dia 8 de Julho de 1995. Naquela noite, ela voltava para casa após passar algumas horas na casa de amigos quando um homem na varanda de um prédio a viu conversando com um homem negro. O homem negro aparentemente pediu um cigarro para Hélène que parou para lhe dar um. A testemunha entrou para dentro do seu apartamento após ver a cena.

Hélène foi encontrada morta pelo seu namorado, no dia seguinte, com as mãos amarradas e amordaçada. Suas roupas estavam rasgadas, sutiã cortado entre as copas e a calça com um longo corte do lado esquerdo. A polícia descobriu vestígios de um “pé egípcio” (dedão do pé maior que os outros) na cena do crime.

Ao receber a notícia da morte da filha, Annie Gauthier, mãe de Hélène, entrou em estado de choque. Demorou mais de dois meses para que ela encontrasse novamente o “mundo dos vivos”. A polícia parecia não se empenhar totalmente nas investigações dos assassinatos, mas com o assassinato de Hélène, isso mudaria… um pouco. Tudo porque a mãe de Hélène tornou-se uma espécie de assombração para a polícia. Ela não descansaria enquanto eles não encontrassem o assassino da sua filha. Ela iniciou uma investigação própria. Além disso, começou a questionar o trabalho da polícia. Ela descobriu que a polícia francesa nem mesmo interrogou vizinhos ou moradores do prédio onde a filha morava. Eles nem mesmo refizeram os passos de Hélène na noite do crime. Ela levou suas denúncias ao Juiz que cuidava dos casos, Gilbert Thiel, que cobrou um maior empenho da polícia.

Mas o melhor ainda estava por vir. Amostras de DNA retiradas do semen do assassino eram compatíveis com o assassino de Agnès Nikjamp e com o agressor de Elisabeth Ortega. Ou seja, Agnès Nikjamp e Hélène Frinking foram mortas pelo mesmo homem. E foi esse mesmo homem que atacou Elisabeth Ortega em 16 de Junho.

Nome: Hélène Frinking

Idade: 27 anos

Ocupação: Enfermeira

Estado Civil: Solteira

Morte: 08 de Julho de 1995

Local: 10º Distrito de Paris, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Hélène foi encontrada  morta dentro do seu apartamento. Foi degolada e a polícia encontrou a marca de um “pé egípcio” na cena do crime.

Apesar dos indícios, o trabalho era lento. Um mês depois do assassinato de Hélène, uma outra mulher seria atacada na região da Bastilha.

Melanie B., 20 anos, foi surpreendida no dia 25 de agosto de 1995 quando subia as escadas do seu prédio no bairro de Marais, região da Bastilha, por um homem com uma faca. Ele a ameaçou e ordenou que abrisse a porta do seu apartamento. Quando ela abriu a porta, o homem viu o namorado de Melanie assistindo televisão na sala. Os dois se encararam e o namorado de Melanie levantou-se em sua direção. Ao vê-lo se aproximando o agressor fugiu. Na fuga ele deixou cair sua carteira.

Melanie B. e seu namorado deram queixa e levaram a carteira do agressor para a polícia. A polícia tinha agora a identidade de um criminoso que se encaixava no perfil levantado por outras mulheres vítimas de ataques na região. Segundo Melanie, ele era negro, de estatura média e atlético. A mesma descrição que a radialista Annie L. deu a polícia  em 1994 e que Elisabeth Ortega deu em junho de 1995. Além do mais, análises de DNA concluíram que o assassino de Agnès Nikjamp e Hélène Frinking era da raça negra. Poderia ser esse o assassino que andava à solta pela Bastilha?

A polícia nem precisou investigar muito pois, menos de 24 horas depois do ataque a Melanie B, o próprio criminoso apareceu espontaneamente na Delegacia. Ele era Guy Georges, 33 anos.

 

Na Foto: Guy Georges, 33 anos, é preso pela polícia francesa em 9 de Setembro de 1995 por uma suposta tentativa de roubo no apartamento da jovem Melanie B.

Guy Georges apareceu na delegacia para reportar a perda dos seus documentos no dia anterior. Ingenuidade? Proposital? É claro que a polícia tinha algumas perguntas para fazer a ele. Guy Georges negou veemente que estivesse envolvido no ataque a Melanie B. Segundo ele, ele havia perdido sua carteira na noite anterior e foi à delegacia apenas para fazer um boletim de ocorrência. A polícia não caiu na conversa dele e chamou Melanie à delegacia para reconhecê-lo. E ela reconheceu Georges como sendo seu agressor. Ele finalmente confessou o ataque à jovem e garantiu a polícia que a sua intenção era entrar no apartamento para roubar. Será?

Guy Georges parecia ser o suspeito perfeito para os assassinatos de Agnès Nikjamp e Hélène Frinking, além dos ataques a Elisabeth Ortega e Annie L. Ele era negro, atlético e estatura mediana. Apesar de negro, ele era francês, o que explica sua fala sem sotaque, pista levantada por Elisabeth. Esmiuçando o passando de Guy Georges, a polícia teve quase certeza que esse era o homem por trás dos ataques na Bastilha.

Sua ficha criminal era extensa. Em 6 de fevereiro de 1979, aos 17 anos, ele atacou uma adolescente chamada Pascale C. Ele tentou estrangulá-la no meio da rua mas ela gritou e ele fugiu. Menos de três horas depois foi preso e passou uma semana na cadeia. Em maio de 1980, ele esfaqueou o rosto de uma jovem chamada Linda C.

Em 5 de maio de 1980 ele espancou uma mulher de 24 anos, Jocelyne S., quando esta voltava para casa à noite. Dez dias depois ele atacou Roselyne C., 33 anos. Roubou sua bolsa mas a mulher o segurou, ele sem hesitação cortou o seu rosto com uma faca e fugiu. Dois dias depois foi preso e condenado. Ficou menos de um ano na cadeia e saiu em fevereiro de 1981.

Em 16 de Novembro de 1981, ele atacou Nathalie L., 18 anos, na região da Bastilha. Nathalie estava grávida e foi espancada por Georges. Ele cortou seu vestido, suas roupas íntimas e a estuprou. Por fim deu uma facada no seu pescoço e foi embora. Aparentemente Georges pensou ter assassinado Nathalie, mas ela sobreviveu para contar sua história. Ele foi preso novamente em fevereiro de 1982.

Saiu no mesmo ano e pouco depois atacou Violeta K. também na região da Bastilha. Violeta chegava no prédio onde morava quando Georges a atacou e exigiu que ela fizesse sexo oral. Ela não fez e ele começou a estrangulá-la. De alguma forma Violeta conseguiu escapar. Um guarda com um cão passava pelo local. Ele atirou e soltou o cachorro em George que conseguiu escapar, mas o cachorro ficou com a sua bolsa e seus documentos. Ele foi preso 20 dias depois e negou o ataque. Em 10 de fevereiro de 1983 ele foi condenado a 18 meses de prisão por atentado ao pudor cometido com violência.

Saiu da prisão em 27 de fevereiro de 1984 por bom comportamento. Mais uma vez livre, Georges voltou a fazer o que gostava: atacar mulheres. Em um estacionamento subterrâneo na região da Bastilha, ele atacou a estudante Pascale N., 22 anos, quando ela entrava no seu carro. Ele tentou obrigá-la a fazer sexo oral, colocou-a no banco de trás e começou a amarrá-la e amordaçá-la. Ela resistiu e conseguiu escapar da fúria de Georges. Ela começou a gritar e ele fugiu. Mas não conseguiu ir muito longe pois foi preso no mesmo dia. Ele alegou que estava bêbado e que se não lembrava de nada, mas um teste no bafômetro provou que ele estava mentindo.

Em 5 de Julho de 1985 ele foi condenado a 10 anos de prisão por estupro sob ameaça de uma arma. Ele ficou preso na cadeia de Caen, uma prisão francesa especializada em criminosos sexuais.

Em 8 de Janeiro de 1991, ele saiu sob liberdade condicional. Ele poderia trabalhar de dia e voltar para dormir na cadeia. Mas dez dias depois ele simplesmente desapareceu. Só voltou para a prisão mais de um mês depois, em fevereiro de 1991. Devido a esse fato perdeu sua liberdade condicional, mas foi solto definitivamente em 4 de abril de 1992, três anos antes de cumprir toda sua sentença.

Apenas 8 dias depois de solto ele atacou a estudante Eléonore P. com uma faca. Ele pediu que a estudante fizesse sexo oral nele. Ela tentou persuadi-lo mas com raiva Georges a jogou no chão e começou a chutá-la. Em um ato de desespero Eleonore começou a gritar. Alguns moradores do prédio abriram as portas e ele fugiu. A polícia foi chamada e o prendeu a poucas quadras do local.

Embora reincidente, ele foi julgado e condenado a apenas cinco anos de prisão. Mais uma vez ele não cumpriu toda sua pena e saiu em 5 de Novembro de 1993.

Analisando o passado de Guy Georges, parecia impossível que ele não fosse o assassino e o agressor das mulheres da Bastilha. Os indícios pareciam incontestáveis:

  • Ele tinha todo um histórico de ataque a mulheres;
  • Seu tempo em liberdade correspondia com os ataques fatais;
  • Atacou mulheres na Bastilha;
  • Atacou mulheres em estacionamentos subterrâneos e em prédios;
  • Usava uma faca a qual tentou matar outras vítimas com golpes no pescoço;
  • Correspondia à descrição de sobreviventes;

Entretanto, apesar de todas similaridades, parecia que Georges não era o cara. Pra começar, ele era diferente do retrato falado feito pouco tempo antes com à ajuda de uma mulher atacada, Elisabeth.


Na Foto: Comparação entre o suspeito Guy Georges e o retrato falado feito com a ajuda de Elisabeth Ortega

Por via das dúvidas, a polícia chamou Elisabeth até a delegacia para que ela reconhecesse Georges como sendo ou não o seu agressor na noite do dia 16 de junho de 1995. E ela não teve dúvidas… Georges NÃO era o seu agressor. Mas mesmo diante da negativa de Elisabeth, Georges continuava na mira.

Um molde do pé de Georges foi feito e comparado com o pé egípcio encontrado no apartamento de Hélène Frinking, morta pouco tempo antes. O resultado: Negativo. Georges não tinha um pé egípcio. A polícia não se deu por satisfeita e resolveu comparar o DNA extraído das cenas dos crimes nos apartamentos com o de Guy Georges. Os resultados foram inconclusivos.

A polícia ainda tentou ligá-lo aos assassinatos de Catherine Rocher e Elsa Benady, ocorridos em garagens subterrâneas da região da Bastilha. Comparações de sangue encontradas em uma das cenas com o sangue de Guy Georges deu negativo.

Apesar das similaridades, Guy Georges não era o assassino das mulheres da Bastilha. Ele foi removido como suspeito e condenado a dois anos e meio de prisão pelo ataque a Melanie B.

A Besta da Bastilha Volta a Atacar

  • 1997

No ano de 1996, estranhamente, nenhum assassinato ou ataque a mulheres na região da Bastilha foi reportado. O assassino parece ter tirado “umas férias prolongadas”. A polícia francesa continuava sua lenta investigação dos assassinatos e ainda não admitia a ação de um serial killer na cidade de Paris. A mídia também parecia não dar muita importância ao caso. Apenas os familiares das vítimas é que sofriam em silêncio a perda de suas filhas. Annie Gauthier, mãe de Hélène Frinking, continuava a pressionar a polícia e o juiz do caso, mas em vão.

Tudo parecia calmo, mas em 2 de Julho de 1997 o misterioso “negro” voltaria a atacar.

Estelle F., 24 anos, editora de uma companhia de produção cinematográfica, foi surpreendida quando chegava no seu apartamento no 11º Distrito de Paris, região da Bastilha. Um homem apareceu do nada e a jogou contra a parede, ameaçando-a com uma faca. Em seguida, ele tentou arrastá-la para o fundo do prédio mas Estelle começou a gritar e vizinhos apareceram. O homem fugiu.

Ela descreveu o agressor como um homem “não muito alto, atlético, negro, cabelo curto”. A polícia francesa não ligou o ataque aos assassinatos ocorridos anos antes e o caso foi arquivado “porque o ataque não mostrou nenhuma natureza sexual.”

Um mês depois a Princesa Diana morreria tragicamente em um acidente automobilístico em um túnel de Paris. Enquanto o mundo inteiro chorava a morte da princesa, a polícia francesa foi quase que obrigada a iniciar uma extensa investigação sobre as circunstâncias do acidente. Se a investigação sobre os assassinatos das mulheres da Bastilha caminhavam a passos de tartaruga, agora é que não sairia do lugar.


Magali Sirotti

A estudante Magali Sirotti, 19 anos, foi estuprada e assassinada no dia 23 de setembro de 1997, dentro do seu apartamento no 19º Distrito de Paris, região da Bastilha. Ela foi encontrada com as mãos amarradas com cadarços e amordaçada. Diferentemente das outras vítimas, a polícia concluiu que Magali fora morta durante o dia pois seu corpo foi encontrado pelo seu namorado as 19:00 horas, quando chegou do trabalho.

Peritos não conseguiram encontrar material para que o DNA pudesse ser extraído. Mas a assinatura do assassino não deixava dúvidas: sutiã cortado entre as copas, calça rasgada no lado esquerdo e o habitual corte na garganta.

Nome: Magali Sirotti

Idade: 19 anos

Ocupação: Estudante

Estado Civil: Solteira

Morte: 23 de Setembro de 1997

Local: 19º Distrito de Paris, região da Bastilha, Paris.

Características: Estupro e degola

Obs.: Magali foi encontrada  morta dentro do seu apartamento pelo seu namorado. Foi estuprada e degolada. Diferentemente dos assassinatos anteriores ela foi morta durante o dia.

Após a morte de Magali, a terceira mulher encontrada morta com as mesmas características dentro de apartamentos desde 1995, a polícia francesa começou a perceber que os assassinatos poderiam ser obra de um serial killer. Eles pensaram em divulgar o retrato falado feito em 1995 por Elisabeth Ortega, mas o juiz do caso, Gilbert Thiel, foi contra. Segundo ele, o retrato já estava velho e o assassino poderia ter mudado de aparência. Além disso, a publicação do retrato poderia alertar o suspeito e, principalmente, os meios de comunicação. O juiz temia que a propagação do retrato causasse uma histeria em Paris já que ninguém na cidade suspeitava que um assassino agia impunemente a vários anos. Além disso, ele temia que o caso fosse inundado por centenas de depoimentos mentirosos, fato comum quando casos assim ganham as páginas dos jornais.

Pouco mais de um mês depois da morte de Magali, outra mulher foi atacada nos arredores da Bastilha. Em 28 de outubro de 1997, a gerente de vendas Valerie L., 25 anos, foi atacada com uma faca na escadaria do seu prédio no 6º Distrito de Paris. Ela caminhava tarde da noite para sua casa depois de uma noite com amigos quando um homem começou a segui-la. Ela nem percebeu. Ela subia as escadas até o seu apartamento quando um homem a atacou ameaçando-a com uma faca. Em um ato de desespero Valerie agachou-se e começou a gritar. O homem fugiu. Ainda tremendo de medo ela entrou em seu apartamento e trancou a porta. Apesar dos seus gritos, ninguém apareceu para ajudá-la.

Ela chamou a polícia e descreveu o homem de: “pele escura, em torno dos 30 anos, atlético e barbeado.”

Apesar de ter um assassino à solta matando mulheres em Paris, a polícia não fez nenhuma investigação sobre o ataque. 15 dias depois, outra jovem mulher apareceria degolada na Bastilha.

Estelle Magd

A linda Estelle Magd, 25 anos, foi estuprada e degolada no dia 15 de novembro de 1997, no seu apartamento no 11º Distrito de Paris, região da Bastilha. Ela havia passado a noite com amigos e voltado sozinha para o seu apartamento. Ela estava com as mãos amarradas e amordaçada. Sutiã cortado entre as copas e sua calça cortada no lado esquerdo. Seu corpo foi encontrado dois dias depois pelos seus pais.

Dessa vez, sangue deixado pelo assassino em uma peça de roupa permitiu isolar o DNA.

E as análises do DNA encontrados no apartamento de Estelle Magd confirmaram: era o mesmo assassino que matou Agnes Nikjamp, Hélène Frinking e atacou Elisabeth Ortega.

Após o assassinato de Estelle Magd, a mãe de Magali Sirotti, assassinada apenas dois meses antes, foi a público e deu a seguinte declaração:

“Pobre Diana, sua morte foi uma tragédia, mas ela não sofreu uma morte tão horrenda quanto o da minha filha e das outras vítimas. Apenas gostaria que a polícia passasse o mesmo tempo investigando a morte da minha filha quanto passou investigando esse acidente. Houve muito barulho sobre a morte da Diana e quando Magali foi morta o caso acabou esquecido. Quantas mais serão mortas antes que o assassino seja preso?”

“Se a polícia tivesse feito seu trabalho corretamente essas duas mulheres ainda estariam vivas. Eu entendo a importância da investigação da Diana, mas sei que a polícia não deu a devida importância a essas mulheres”, disse Annie Gauthier, mãe de Hélène Frinking.

Até então, ninguém em Paris sabia da existência de um serial killer. Até mesmo a polícia parecia não ter acordado para o caso das mulheres mortas na região da Bastilha. Poucos dias depois do assassinato de Estelle, os jornais de Paris enchiam as páginas dos seus periódicos com manchetes do tipo “Serial Killer em Paris”“O Assassino do Leste Parisiense”, “A Besta da Bastilha”. Vários jornais começaram a publicar histórias das vítimas e o modus operandi do assassino:

“O Serial Killer está à solta, rondando as ruas. Suas vítimas são mulheres. Na maioria dos casos ele força a entrada em seus apartamentos, as amarram em suas camas e sem seguida pratica o estupro, para depois cortar suas gargantas.”

“Em 16 de novembro o assassino atacou pela sétima vez. A secretária Estelle Magd, 25 anos, foi assassinada em seu apartamento a algumas ruas de onde morava Magali. Ela foi encontrada em uma poça de sangue por seu pai, Jean-Claude. Ela foi estuprada e torturada. O assassino deixou para trás seu sangue, assim como o dela.”

“Em junho de 1995 o assassino atacou Elisabeth Ortega, 25 anos. Ele a amarrou mas ela conseguiu se libertar quando ele subiu as escadas para desligar a luz. Elisabeth deu à polícia sua melhor pista até agora: Ele tem de 25 a 30 anos, negro, musculoso, fala bem o francês e é bem vestido.”

“O assassino atacou pela primeira vez em 1991. Ele estuprou e assassinou a estudante de letras Pascale Escarfail, 19 anos. Ele só voltou a atacar em 1994 quando assassinou Catherine Rocher, 27 anos, Esla Benady, 23 anos e Agnes Nikjamp, 33 anos.”

A explosão do caso na mídia provocou uma psicose na capital francesa, principalmente entre as mulheres. Através da mídia o caso chegou até os ouvidos da prefeitura da cidade que convocou o chefe de polícia a responder imediatamente às notícias que eram publicadas nos jornais. Não havia mais volta. Com a pressão da mídia e do governo, a polícia francesa ficou num beco sem saída. Analisando o caso friamente  e revendo casos antigos de assassinatos e ataques a mulheres, a polícia não podia mais negar: Havia um serial killer a solta na cidade das luzes, e eles deviam pará-lo imediatamente.

Caçando a Besta

Martine Monteil, chefe da Brigada de Elite Criminosa de Paris assumiu o caso. Coincidentemente ela também era a responsável pelo inquérito da morte da princesa Diana. Ela colocou 24 dos seus melhores homens no caso. Uma de suas primeiras ações foi reunir com os familiares das 7 vítimas: “Eu prometo a vocês que pegaremos ele!”, disse ela.

Martine era conhecida na França e bastante experiente tendo trabalhado em várias operações policiais, do tráfico de drogas ao combate ao terrorismo. Ela também liderou a investigação que, 20 anos antes, colocou “O Estrangulador do Estacionamento”, um serial killer francês que assassinava mulheres em estacionamentos, na cadeia. Ela não falou publicamente sobre o caso, sua única frase foi dada a um repórter:

“Isso é entre mim e ele!”

Para tentar entender a mente do assassino, Martine pediu que traçassem o seu perfil:

“Ele é possivelmente um ex-soldado. Ele possui um kit de crime. Leva consigo uma faca de açougueiro, navalha e cordas para amarrar as vítimas. Ele também coleciona lembranças das suas casas”, dizia uma parte do perfil traçado por psiquiatras.

Vários outros detetives foram designados para o caso. Eles realizaram uma extensa pesquisa em prisões, hospitais e até em academias, pois o autor do crime era “atlético”. Mas apesar do esforço eles não conseguiram resultados. Em 23 de Novembro de 1997, o juiz Gilbert Thiel ainda relutante concordou em publicar o retrato falado feito em 1995 pela polícia de acordo com a descrição dada por Elisabeth Ortega. O retrato foi retocado por computador e o resultado foi muito diferente do retrato estabelecido em 1995. Isso enfureceu ainda mais a mãe de Hélène Frinking que havia visto o primeiro retrato.

A polícia recebeu mais de 3 mil chamadas que não levaram em nada, o que fez com que fosse perdido bastante tempo. A medida que o tempo passava, o medo de que o serial killer atacasse novamente aumentava, não só para a polícia, mas também para a população parisiense. A Brigada Criminal francesa estudou mais de 1.800 casos de agressões sexuais e interrogou cerca de 50 possíveis suspeitos. Os meses passaram e a polícia não tinha nada de concreto. Talvez asustado com a cobertura da mídia, o assassino não atacou.

Em 24 de Novembro de 1997, o juiz Gilbert Thiel irritado com a falta de progresso das investigações, ordenou que todos os laboratórios privados das cidades de Bordeaux, Strasbourg, Nantes e Grenoble e os laboratórios públicos policiais, fizessem um trabalho de comparação das amostras de DNA retiradas dos locais dos crimes com amostras que esses laboratórios mantinham em seus arquivos. Em meados de dezembro alguns laboratórios privados começaram a realizar os testes. Mas peritos que trabalhavam nos laboratórios da polícia técnico-científica chiaram dizendo que tal ordem violaria a lei francesa.

Determinado o Juiz não voltou atrás em sua decisão e depois de um período de discussão a polícia técnico-científica concordou em realizar as análises.

A Identidade da Besta

O ano de 1998 começava com a sombra de um inimigo assustador. A última vítima da Besta foi Estelle Magd, no dia 15 de Novembro de 1997. Apesar do serial killer poder estar acuado devido a enorme cobertura sobre o caso, para a polícia era apenas uma questão de tempo até ele voltar a atacar. Ele não poderia segurar sua urgência por muito tempo. Mas, talvez, o pior dos pesadelos não fosse esse. O maior pesadelo da polícia francesa e de Martine Monteil era a falta de pistas ou evidências que pudessem levá-los a um suspeito. Eles não tinham nada.

Mas em fevereiro de 1998, a polícia francesa recebeu uma chamada. Era a Scotland Yard, a Polícia Metropolitana de Londres. Eles haviam prendido um homem que eles acreditavam ser a Besta da Bastilha. Ele era negro, atlético e havia vindo da França a poucas semanas. Poderia ser esse homem o terrível serial killer que a anos degolava mulheres na Bastilha?

No dia 19 de fevereiro de 1998, a BBC publicou a seguinte reportagem:

“A polícia francesa sofreu um revés hoje em sua busca pelo serial killer conhecido como “A Besta da Bastilha”. Testes de DNA mostraram que um suspeito preso em Londres não está conectado aos crimes.”

O suspeito preso em Londres não era o homem que a França procurava. O DNA o isentou totalmente. Foi um balde de água fria para a polícia francesa que mais uma vez ficava às cegas. Um mês depois, no dia 24 de março de 1998, Martine Monteil convocou uma reunião com as famílias das vítimas no quartel general da Brigada de Elite Criminosa de Paris. O que ela tinha para dizer?

Era notório que em três meses de caçada a polícia francesa não havia feito progresso. Eles não tinham pistas, quanto menos um suspeito, e isso era bastante significativo tendo em vista que praticamente toda força policial foi mobilizada para prender a Besta. Naquela manhã, Martine Monteil disse aos familiares das vítimas da Besta da Bastilha: “Nós temos a identidade do assassino. Sabemos quem ele é. É questão de tempo até ele ser pego.”

Quem era ele?

 

Na Foto: Guy Georges

Guy Georges, O Assassino do Leste Parisiense

Guy Georges nasceu Guy Rampillon na cidade francesa de Vitry-le-François em 15 de Outubro de 1962. Seu pai, George Cartwright, era um soldado norte-americano negro que na época servia como cozinheiro em uma base da OTAN em Paris. Sua mãe, Helene Rampillon, parecia ter uma queda por homens de farda já que seu primeiro filho, Stéphane Rampillon, nasceu de uma noite com um outro soldado norte-americano.

George Cartwright, que era casado, voltou para os Estados Unidos pouco depois e deixou mãe e filho sozinhos na França. O destino do pequeno Guy Georges foi traçado quando ele nasceu. Podemos resumir sua vida fora da barriga da mãe com um nome: Preconceito. Ao nascer, o menino negro, tornou-se um segredo e um tabu para a família da mãe. Ninguém o aceitou. Sua mãe, Helene, era a típica jovem “sem cabeça”. Ter dois filhos de dois pais diferentes, sem nunca ter casado, em uma época em que não havia liberdade sexual, mostra bem os caminhos por onde andava. Pior ainda foi o que ela fez com os dois filhos: Abandonou-os. Stéphane tinha três anos enquanto Guy poucos meses. Ao saber do abandono, os pais de Helene foram até a França (eles moravam nos Estados Unidos) e pegaram Stéphane e recusaram Guy. Stéphane era branco e Georges negro.

Na Foto: O pequeno Guy Georges. Impressão minha ou ele já tinha uma cara de mau?

Na Foto: O pequeno Guy Georges. Rejeitado pela família biológica, Georges foi adotado aos seis anos de idade.

Em 1968, aos seis anos de idade, Georges foi colocado sob a tutela do Departamento de Serviço de Crianças, um departamento do Serviço Social francês. Eles então mudaram o nome dele de Guy Rampillion para Guy Georges (nome do pai) e também mudou seu local de nascimento de Vitry-le-François para Angers. Em sua certidão de nascimento foi ocultado o nome do pai. Essa nova certidão de nascimento, com informações falsas, tinha como objetivo impedi-lo de descobrir suas origens. Era um procedimento muito comum e utilizado por décadas na França, mas foi proibido em 1996 sob alegação de privação dos direitos básicos.

Mas a vida do pequeno Georges nem sempre foi sofrimento. Pouco tempo depois ele foi adotado e cresceu em uma nova família. E essa família tinha tudo o que uma criança órfã precisa: Carinho e amor. Ele foi adotado por um casal bastante religioso, um daqueles casais que parecem que vieram ao mundo para fazer o bem. Georges o sétimo filho que o casal adotara. Além de sete filhos adotados, eles ainda tinham quatro filhos biológicos.


Na Foto: Guy Georges. Guy foi adotado por uma família católica em 1968. Ele era o décimo primeiro filho do casal.

Na Foto: Georges e seus irmãos adotivos.

Georges era a única criança negra da cidade de Agnes. Apesar do amor dos pais adotivos, ele crescia para dentro de si, era uma criança reservada.

“Ele era genti, alegre, palhaço, carinhoso, inteligente, charmoso e bem educado,” disse sua mãe adotiva Jeanne Morin.

Entretanto, aos 10 anos de idade, Guy Georges começou com dois comportamentos muito preocupantes para uma criança. O roubo e tortura e morte de animais. Quem leu o post sobre crianças psicopatas sabe que esses são dois comportamentos recorrentes em crianças com psicopatia. Muitas dessas crianças, que torturam e matam animais, na idade adulta começam a matar pessoas.

Aos 10 anos, ele descobriu sua verdadeira paixão: caçar animais. Com uma faca, ele passava o dia inteiro caçando animais nas matas que rodeavam sua casa. Ele fazia armadilhas e tinha prazer em assistir a presa perdendo sua vida. Ele passava horas apenas assistindo, espreitando e rastreando animais na floresta. Anos depois ele faria isso com pessoas. Ele também roubava a padaria da família além de dinheiro da carteira dos seus pais. O menino começava a ficar incontrolável.

Na Foto: Guy Georges. Aos 10 anos Georges começou a torturar e matar animais. Tinha prazer em espreitá-los pela mata ao redor da sua casa. Passava dias esfaquando animais.

Aos 14 anos o primeiro ato de violência. Ele tentou estrangular uma de suas irmãs adotivas. Roselyne, que era deficiente mental, gritou e conseguiu escapar das mãos do irmão adolescente. Ele não conseguiu explicar para os pais o porque do ataque e eles abafaram o caso. Quanto mais o tempo passava, mais ele crescia isolado e diferente. Tornou-se agressivo e rebelde à autoridade de seus pais e irmãs mais velhas.

Em 31 de março de 1978, aos 16 anos, ele tentou estrangular outra irmã adotiva, Christiane, com uma barra de ferro. Ela lutou contra o irmão e o mordeu arrancando um pedaço de carne da sua mão. Os pais chegaram a ver o menino com “os olhos fixos como se estivesse em transe.” Mais uma vez ele não conseguiu explicar o que o motivou ao ato. Também não expressou nenhum tipo de arrependimento.

Devido ao novo ataque, o pai adotivo de Georges não teve outra escolha: Ele devolveu a guarda do garoto ao Serviço Social francês temendo pela vida das suas outras filhas. Um mês depois Guy Georges voltou aos corredores do Departamento de Serviço de Crianças da França. Ele ficou lá de abril a novembro de 1978. Durante sua estadia ele pareceu mais amigável e não era agressivo. Mas tinha um comportamento estranho: passava quase que todo o tempo assustando as mulheres que trabalhavam no local, obtendo um prazer doentio em fingir ataques à elas.

Em 15 de novembro ele foi colocado na casa de uma outra família mas não se ajustou à nova casa. Era amigável por fora mas algo o corroía por dentro. Ele passou o Natal daquele ano na casa dos seus antigos pais adotivos, mas eles o colocaram para dormir em um cômodo no jardim temendo que ele voltasse à atacar alguém.

Dois meses depois começava seu reinado de ataques. Em 6 de Fevereiro de 1979 ele agrediu Pascale C. quando ela desceu de um ônibus. Ele a empurrou no chão, exigiu dinheiro e tentou estrangulá-la. Ela gritou e ele fugiu. Três horas depois ele foi preso e passou uma semana na cadeia. Esse ataque foi a gota d’água para sua família adotiva que o expulsou de casa. Se com uma família ele tinha esse comportamento violento, sem uma, agora é que a coisa ia piorar. Ele começou a beber e entrou de vez no mundo da criminalidade. Ainda menor de idade acumulou várias passagens pela polícia por roubos. Em todas as vezes em que era preso ele carregava uma faca, uma tesoura e uma chave de fenda.

Em 5 de maio de 1980 ele atacou Jocelyne S, 24 anos. Ele a seguiu até o seu prédio, abriu a porta do elevador, a empurrou para dentro e desferiu um violento soco no seu rosto. Ele fugiu com sua bolsa.

Dez dias depois ele agrediu Roselyne C., 33 anos. Roselyne reagiu quando ele tentou roubar sua bolsa. Ele não teve dó em enfiar a faca no seu rosto. Dois dias depois ele foi preso na cidade de Angers bebendo na rua com dois moradores de rua. Psiquiatras o examinaram e disseram que ele era um: “…indivíduo imaturo, instável, impulsivo, perigoso e que pode ter explosões de violência devido a emoções reprimidas.”

Na Foto: Guy Georges fichado pela polícia. Data da imagem desconhecida.

Ele foi condenado a um ano de prisão e saiu em 10 de Fevereiro de 1981. Ele foi para Paris onde morou na casa de um amigo. Ele vivia nas ruas e, ocasionalmente, se prostituía. Em 16 de Novembro de 1981 ele atacou Nathalie L, 18 anos, no 14º Distrito de Paris. Cortou suas roupas com sua faca, a estuprou e deu uma facada no seu pescoço. Em fevereiro de 1982 ele foi condenado a cinco meses por roubo. Pouco depois de sair da cadeia, em julho de 1982, ele atacou Violeta K, no 16º Distrito de Paris. Ele tentou estuprá-la, ela reagiu e levou duas facadas nos pescoço. Mesmo assim Violeta conseguiu escapar da fúria de Georges e gritou por ajuda. Um guarda que passava pelo local com um cachorro atirou em Georges mas ele conseguiu escapar mas sua bolsa ficou na boca do cachorro policial. Vinte dias depois ele foi preso e condenado a mais 18 meses de prisão por “atentado ao pudor cometido com violência”.

Na prisão ele vivia isolado e tinha um comportamento normal. Em maio de 1983 ele foi transferido para a prisão de Ecouvres, em Meurthe-et-Moselle. Em 27 de Fevereiro de 1984 ele foi libertado por bom comportamento e voltou a Paris. “Ele gostava da Bastilha”.

Mal chegou em Paris e ele atacou a estudante Pascale N., 22 anos, em um estacionamento subterrâneo na região da Bastilha. Ele tentou estuprá-la dentro do seu carro mas ela conseguiu escapar e pedir por ajuda. Ele foi preso na mesma noite e alegou que não se lembrava de nada por estar bêbado.

Na Foto: Guy Georges é fichado pela polícia em março de 1985. Fonte da Foto: Corbis.

Em 5 de Julho de 1985 ele foi condenado a 10 anos de prisão por “estupro sob ameaça de uma arma”. Parece que agora o “tarado” ficaria um bom tempo na cadeia. Ele foi mandado para Caen, uma prisão especializada em criminosos sexuais. Entretanto, Georges não quis participar das sessões de terapia na cadeia, pois ele não se sentia uma pessoa doente e na verdade não entendia o que eles queriam “curar”.

Durante os seis anos que passou em Caen, em nenhum momento ele tentou viver a realidade da prisão. Não se relacionava com outros presos, não participava das oficinas de qualificações profissionais, ao contrário, a cada dia ele se escondia ainda mais dentro de si mesmo. Tão quieto, que quase ninguém sabia que ele existia ali dentro. Lá, apenas uma vez (em 1989) ele concordou em encontrar com um psiquiatra: “O perigo que Guy Georges representa na comunidade é difícil de definir. Não há nenhuma evidência de que ele seja capaz de conter seus impulsos”, disse o laudo do psiquiatra.

E mais uma vez Georges não cumpriria toda sua pena. Ele foi solto sob liberdade condicional em 08 de Janeiro de 1991. Ele poderia trabalhar durante o dia e voltar para dormir na cadeia a noite. Dez dias depois ele simplesmente sumiu, ele já estava de volta a Paris, rondando as ruas da Bastilha como um lobo, observando as ovelhas… à espreita. E 16 dias depois de sair da cadeia ele faria a sua primeira vítima fatal.

  • Pascale Escarfail, 19 anos.

De acordo com o inquérito policial, Georges estava sentado em um café quando viu a linda estudante de cabelos longos passando pela rua. Ela voltava de uma entrevista de emprego em uma sorveteria. Ele a seguiu até o seu prédio. Subiu as escadas atrás dela até o sexto andar.

“O que você quer?”, perguntou Pascale. “Você!”, respondeu Georges.

Ele a ameaçou com uma faca e forçou sua entrada no seu apartamento. Ele a jogou em sua cama e amarrou suas mãos com fita. Em seguida fez o habitual corte nas roupas e a estuprou. Ela não reagiu, provavelmente paralisada de medo e em choque. Ao terminar o ato Georges ainda ficou no apartamento. Em dado momento, em um ato de repulsa contra o seu algoz, Pascale deu um chute em Georges. Ele deu três facadas no seu pescoço fazendo jorrar sangue para todos os lados. Lavou as mãos, bebeu uma cerveja e roubou alguns objetos (1 walkman, 1 máquina fotográfica, 1 relógio e 1 corrente de ouro).

“Devo dizer que não era realmente um impulso sexual que me fez agir daquela maneira. Eu estava com prostitutas pouco antes. Não posso dizer que força me fez fazer aquilo,” diria ele anos depois.

Este seria o primeiro de vários outros assassinatos cometidos por Georges. Sempre o mesmo modus operandi e assinatura. Quase Um mês depois do assassinato de Pascale, Georges apareceu para “dormir” na cadeia de Caen. Ele foi repreendido e sua liberdade condicional foi suspensa. Passou mais um ano trancafiado sendo solto de uma vez por todas em 4 de abril de 1992, 3 anos antes do término da sua sentença.

Como de costume ele voltou a Paris e foi nessa época que ele entrou para a CNT (Conferetation Nationale du Travali), um movimento anarco-sindicalista, que era composto por cerca de 50 homens, a maioria viciados e vagabundos que perambulavam pelas ruas de Paris. Era conhecido como “Joe”. Mulheres o descreviam como um homem charmoso e protetor. Teve várias namoradas e uma delas, de nome Sandrine, disse que os dois faziam sexo, em média, 8 vezes por dia. Para todos daquele lugar, “Joe” era apenas mais um homem com interesse em protestar contra o regime capitalista. Ninguém imaginava que ele poderia estar envolvido em crimes sexuais (como de praxe, psicopatas são bons em parecerem normais).

“Ele era útil, coerente, educado, pronto para arbitrar disputas, especialmente quando nossa atividade política foi transferida para um bloco da rua Saint Sauveur, um lugar sujo perto de Les Halles. Ninguém suspeitava que ele poderia estar envolvido em assassinatos, mas olhando para trás, lembro que ele chorou em três ocasiões que coincidiram com assassinatos”, disse Philippe Dusanter, um militante do partido.

“Se um homem matar uma mulher, ele provavelmente irá chorar”, dizia “Joe” para seus colegas de CNT.

Na Foto: Guy Georges posa com uma arma de fogo em um quarto onde, provavelmente, o CNT fazia suas reuniões. Nota-se na parede, acima dele, fotos de mulheres nuas. “Eu gostava de cruzar a famosa prisão revolucionária, a Bastilha.” Data da imagem desconhecida.

Na Foto: Guy Georges. Data da imagem desconhecida.

Apenas 18 dias depois de sua libertação, ele atacou a estudante Eleanor P. Tentou estuprá-la mas o barulho fez com que vizinhos fossem socorre-la. Georges fugiu mas foi pego pela polícia poucos minutos depois.

Apesar de ser um criminoso reincidente, ele foi condenado a cinco anos de prisão (posteriormente reduzida a três). O tribunal não reconheceu a natureza sexual do ataque. Na cadeia, o psicopata manipulador soube persuadir os outros presos. Ele estava lá por tentar estuprar uma mulher e ele sabia o tratamento que homens como ele recebiam nas prisões. De alguma forma ele conseguiu fazer com que os outros presos acreditassem que ele não era um estuprador.

Em 5 de novembro de 1993 ele foi solto e voltou a morar com amigos em Paris. Para sobreviver, mais uma vez, ele voltou a se prostituir saindo com homens ricos.

  • Catherine Rocher, 27 anos

“Naquela noite eu estava caçando, então eu estava com uma faca e fita na minha bolsa… Eu sabia que ia matá-la!”, disse Guy Georges sobre Catherine Rocher.

Em 7 de Janeiro de 1994 ele comete o seu segundo assassinato. Catherine Rocher foi morta em um estacionamento subterrâneo no 12º Distrito de Paris. Ela foi estuprada e espancada por Georges. Antes ele roubou seu cartão de crédito e, na esperança de ficar viva, Catherine deu a senha. Logo após matá-la ele fez um saque de 580 euros em um caixa eletrônico nas proximidades.

No outro dia o esperto psicopata se afiliou como voluntário de uma Igreja Católica, muito provavelmente com o objetivo de mascarar sua verdadeira face da sociedade. Seis dias depois de matar Catherine Rocher ele atacou a radialista Annie L. Espertamente Annie conseguiu entrar no seu apartamento e fechar a porta deixando Georges do lado de fora. Ela chamou a polícia e descreveu o seu agressor como “um homem negro”.

Nessa época Georges começou a trabalhar como gari, o que dava para sustentar seu estilo de vida degradante, movido principalmente a bebidas e prostitutas. Ainda namorava com Sandrine e ambos moravam em um prédio velho na rua Didot, a seis quilômetros da Praça da Bastilha.

Obs.: Clique na Imagem Para Ampliar. Na Foto: Vista da Rua Didot, local onde Guy Georges morou com sua namorada

Georges voltaria a atacar no final do ano. Sua terceira vítima fatal: Elsa Benady, 22 anos.

Ela foi estuprada e assassinada no dia 8 de novembro de 1994 em um estacionamento subterrâneo no 13º Distrito. Como no assassinato de Catherine Rocher, a assinatura era a mesma: sutiã cortado entre as copas e o corte no lado esquerdo da calça.

Um mês depois foi a vez da holandesa Agnes Nikjamp perder sua vida. Ela foi encontrada deitada em sua cama com as mãos amarradas e amordaçada. Vestígios de sêmen permitiram a polícia isolar o DNA do assassino, “DNA desconhecido”

O namoro de Guy Georges e Sandrine acabou em abril de 1995. Georges ficou afetado com a separação e começou a beber cada vez mais, além de fumar haxixe e vagabundear com seus conhecidos pelas ruas de Paris. Ganhava algum troco com trabalhos temporários e gastava tudo com prostitutas.

Em 16 de junho de 1995, Elisabeth Ortega quase teve o mesmo destino das vítimas anteriores. Ele a segiu até o seu apartamento no 4º Distrito de Paris. Quando ela abriu a porta do prédio Georges a atacou com uma faca. Ela escapou pulando da janela quando Georges subiu alguns lances de escada para desligar luzes acesas.

Saliva no toco de cigarro que Georges fumava permitiram a peritos isolar material genético. Elisabeth o descreveu como: “Tipo afro-americano, cerca de 25 anos, corpo atlético, cabelo raspado preto, cerca de 1,70 metros, pele escura, rosto oval, traços finos. Fala francês sem sotaque”.

Um retrato falado foi feito, mas agora podemos ver que não tinha quase nada a ver com Georges. Isso atrapalhou a investigação policial já que a polícia procurava um tipo de suspeito diferente. A polícia também não fazia um bom trabalho. Equipes diferentes investigavam os crimes, uns envolvidos com os crimes ocorridos em estacionamentos subterrâneos, e outros os assassinatos ocorridos na cidade, não trocavam informações.

Georges continuou no submundo de Paris, bebendo e fumando. Seus amigos da CNT também notaram uma mudança de comportamento. Ele agora estava mais agressivo e desconfiado. Passava vários dias trancafiado em seu quartinho. Quando saia parecia estar sem rumo.

  • Hélène Frinking, 27 anos

“Ela falou sobre o seu trabalho, sua idade e outras coisas que eu esqueci. Ela disse para eu me acalmar. Ela me fez muitas perguntas”, disse Georges sobre Hélène Frinking.

Em 8 de julho de 1995, Georges assassinou Hélène Frinking dentro do seu apartamento no 10º Distrito de Paris. Hélène ainda tentou convencê-lo a não estuprá-la mas foi em vão. Antes de sair ele roubou alguns objetos do apartamento. A polícia também descobriu vestígios de um pé egípcio em uma poça de sangue no chão.

Com o DNA investigadores estabeleceram uma ligação direta entre os assassinatos de Agnes Nikjamp e Helen Frinking, além da agressão a Elisabeth Ortega. Enquanto a polícia investigava os assassinatos, Georges continuava com sua vida desregrada. Em agosto de 1995 ele conseguiu um emprego com salário de 530 euros por mês. Com a grana ele alugou um quarto de hotel no 18º Distrito de Paris, região da Bastilha.

Alguns dias depois ele atacou a jovem Melanie B., 20 anos. Melanie B. foi salva pois seu namorada estava no seu apartamento no momento em que Georges a atacou. Na sua fuga ele deixou sua carteira para trás. Foi preso no outro dia quando foi na delegacia dar queixa da perda dos seus documentos. Ele se tornou suspeito nos assassinatos mas foi descartado depois que testes de DNA deram resultados inconclusivos. Incrivelmente Elisabeth Ortega, que fora atacada dois meses antes, também não o reconheceu como sendo seu agressor.

E o pé egípcio? Na verdade tudo não passou de um erro de análise. Georges não tinha um pé egípcio. O fulcro do seu dedão era para trás, o que deu a impressão na pegada de que o assassino tinha pé egípcio. Um serial killer de sorte. Ele foi removido como suspeito nos assassinatos e condenado a 30 meses de prisão pelo ataque a Melanie B. Essa sentença explica porque não tivemos assassinatos em 1996, não?

Na Foto: Guy Georges é fichado pela polícia em 1995.

Mais uma vez na cadeia ele manipulou os outros presos. Lá, ele era bem eficiente em mostrar o seu desprezo e raiva pelos “pointeurs” (apelido dado aos estupradores). Georges era até respeitado lá. Para todos Georges estava lá porque tentou matar um branco racista. Era um preso modelo, calmo, amigável e solitário. Em 6 de Junho de 1997 ele saia mais uma vez da cadeia.

Um mês depois de sair ele atacou Estelle F., 24 anos. Ela escapou do ataque e descreveu o agressor como “não muito alto, atlético, negro, cabelo curto.”

Em agosto de 1997, Georges arrumou um emprego de empacotador de um supermercado. Seu salário era gasto em haxixe, álcool e comida para seus companheiros de rua. Em setembro do mesmo ano passou a distribuir folhetos pelas ruas.

  • Magali Sirotti, 19 anos

Em setembro de 1997 ele mata sua sexta vítima. Magali Sirotti foi morta no seu apartamento no 19º Distrito de Paris. Ela foi a única vítima atacada em plena luz do dia. Peritos não conseguiram extrair material genético para DNA, isso porque Georges usou preservativo ao estuprar Magali. Entretanto, a assinatura do assassino era clara: degola, mãos amarradas, vítima amordaçada, sutiã cortado entre as copas.

Em 28 de Outubro, Valerie L., foi atacada no seu prédio no 6º Distrito de Paris. Quinze dias depois, Georges faria sua sétima e última vítima: Estelle Magd.

Após a morte de Estelle, uma verdadeira caçada se iniciou. A mídia tomou “conhecimento” das mortes e “A Besta da Bastilha” se tornou o principal assunto no país.

Talvez assustado com a cobertura da mídia, Guy Georges decidiu “dar um tempo”. Ele mudou-se para a cidade de Mansle onde morou na casa de um amigo. Mas não tardou muito para ele voltar a Paris. Em janeiro de 1998, enquanto a polícia caçava a Besta, Georges fazia suas artes nas ruas.  Em Janeiro ele foi preso pela polícia no 13º Distrito de Paris depois de roubar uma moto. Na fuga ele caiu e bateu o seu nariz no chão.


Na Foto: Guy Georges fichado pela polícia francesa em janeiro de 1998 pelo roubo de uma moto. Apesar de toda Polícia Francesa estar atrás dele, ninguém poderia imaginar que ele era “A Besta da Bastilha”

Ele foi liberado logo em seguida e preso novamente um mês depois durante uma briga em Saint-Germain-en-Laye. A sorte e a impunidade que cercaram a vida de Guy Georges seriam definitivamente pulverizadas no dia 23 de Março de 1998. Neste dia, o chefe do laboratório da cidade de Nantes ficou chocado: Ele havia descoberto a identidade da Besta da Bastilha. Executando a ordem do Juiz Gilbert Thiel em realizar testes comparativos das análises de DNA do serial killer colhidas nas cenas dos crimes com os arquivos privados do laboratório, ele encontrou o assassino e o seu nome era Guy Georges. Ele imediatamente contatou o Juiz, o Diretor da Polícia Jurídica de Paris, Patrick Riou, e a Comissária Martine Monteil.

A identificação só foi possível porque o DNA de Guy Georges fora armazenado no laboratório de Nantes em 1995, na época em que ele atacou Melanie B. Nessa época uma amostra de sangue de Guy foi retirada para análise e os resultados foram inconclusivos. Mas três anos depois, com os avanços nos testes de DNA e o uso de um supercomputador, o laboratório confirmaria de uma vez por todas a identidade da Besta.

E analisando a ficha de Guy Georges, a polícia descobriu algo vergonhoso: passaram-se 85 meses desde o seu primeiro assassinato (1991) até a identificação do seu DNA. Nesses 85 meses, ele passou 55 meses preso e apenas 30 meses nas ruas. A dispersão das investigações dos crimes aliada a uma sucessão de erros e também negligência, fizeram com que várias mulheres perdessem suas vidas.

Mas a polícia não tinha tempo para contar seus erros, era hora de pegá-lo. No dia seguinte a descoberta começava a caça. Policiais revistaram tudo quanto é beco no qual Guy Georges costumava frequentar, sem sucesso. No dia 26 de Março de 1998, enquanto dezenas de policiais a paisana caçavam Georges nas ruas, uma rádio da cidade, RTL, revelou que a “Besta da Bastilha” havia sido identificado e que seu nome era Guy Georges. Isso causou a ira da Polícia e também do Juiz Gilbert Thiel que temiam que a notícia chegasse aos ouvidos do assassino. Sabendo que ele estaria sendo caçado, certamente fugiria de Paris.

Neste mesmo dia toda a polícia francesa estava mobilizada. 3 mil fotos do assassino foram impressas e dadas a cada policial da cidade. Policiais a pé e motorizados (motos e carros) rodeavam cada centímetro da quadrada Paris. Pouco antes das 13 horas da tarde dois investigadores da Polícia Júridica de Paris, Bernard Basdevant e El-Karim, reconheceram Guy Georges quando este saía da estação de metrô de Blanche.

Obs.: Clique Na Imagem Para Ampliar. Estação de Blanche. Guy Georges foi preso no dia 26 de Março de 1998 neste local.

Era o fim de Guy Georges. Ele não resistiu a prisão. Policiais o revistaram e encontraram sua velha amiga: uma Faca!

Finalmente e graças à ordem do Juiz Gilbert Thiel, na qual laboratórios privados deveriam comparar amostras de DNA extraída das cenas dos crimes com amostras dos seus arquivos, Georges foi parado.

“Você não pode desafiar a polícia francesa, eles são arrogantes e se acham os melhores no mundo, mas eles tiveram Guy Georges pelo menos 3 vezes em suas mãos e nem assim o vincularam aos assassinatos, mesmo quando ele deixou várias pistas”, disse Anne Gautier, parente de uma das vítimas.

Na época a polícia francesa não escapou do sentimento de vergonha. O superintendente da Polícia de Quai des Orfévres foi afastado. Outros detetives também foram colocados de molho.

Ele foi colocado sob custódia e em um interrogatório com a presença do Juiz Gilbert Thiel, em 28 de maio de 1998, que durou das 10:10 horas da manhã as 17:55 horas da tarde, Georges confessou todos os assassinatos. Ele descreveu friamente desde o momento em que observava suas vítimas até o momento em que ele deixava seus apartamentos. Um passeio com amigos, uma bebida em um bar, um bate-papo no telefone sobre a festa do casamento ou a compra de roupas de marca em um shopping. Ele era como um lobo faminto atrás de suas presas.

Em menos de 48 horas, Georges se ofereceu para “aliviar sua consciência”, dando detalhes à polícia dos seus crimes. Nos dias seguintes detalhou o assassinato de cinco mulheres em seus apartamentos em Paris, quatro deles em torno da meia-noite, e de outras duas mulheres que haviam sido estupradas e degoladas em estacionamentos subterrâneos.

O Juiz Gilbert Thiel ficou impressionado com a aparente falta de remorso e emoção de Guy Georges. Ele era incapaz de reconhecer suas vítimas como pessoas nas fotografias que eram mostradas a ele.

O Homem Vampiro

“1,73 metros, 38 anos de idade. Afro-europeu. Bem constituído e fisicamente vigoroso. Praticante de esportes. Arrumado e limpo. Tímido. QI de 101”, assim começa o laudo psiquiátrico de Guy Georges.

“O que me impressionou primeiro foi a memória perfeita de toda sua vida e também a importância que ele atribui à forma como as outras pessoas o enxergam. Eu tinha a impressão de estar diante de um super indivíduo adaptado para o mundo real. Mas ele era um indivíduo frio, sem qualquer emoção ou remorso de suas ações,” disse o psiquiatra Michel Dubec.

Psiquiatras retrataram Guy Georges como um assassino psicopata solitário, que espreitava suas vítimas na noite parisiense e as escolhiam de acordo com sua “energia”. Um psiquiatra chegou a compará-lo a um gato, que aprisiona pássaros por instinto. O psiquiatra Dr. Henri Grynzspan disse que: “Ele se alimentava da energia e da força vital daquelas que ele exercia seu poder. O que chama sua atenção não é a fraqueza ou vulnerabilidade das vítimas e sim suas belezas radiantes, seu status social, o qual ele via em suas roupas de marca. O que era insuportável para ele era o sucesso da outra pessoa, o qual refletia nos seus sentimentos de frustração e fracasso.”

A conclusão dos psiquiatras é que as mortes de George atingiram um “ritual de vampirização.” É como se ele, movido internamente através de uma vingança silenciosa, aproximasse de suas vítimas com o objetivo de absorve-lhes a vitalidade, enfraquecendo-as, para assim exercer sobre elas seu domínio.

“As vítimas de George não existiam como pessoas, apenas como objetos para apoiar suas tentativas perversas de se apropriar de suas qualidades interiores. Não era raiva ou agressividade, nem ódio. O foco é o alvo. Ele trata suas vítimas como objetos. É um comportamento que causa sentimentos e benefícios psicológicos assustadores de onipotência e controle absoluto,” diz o laudo psiquiátrico.

Durante seu interrogatório, Guy Georges não reconheceu as fotos de suas vítimas. No entanto, ele reconhecia cada local que as matara. Ele despersonalizava totalmente suas vítimas e não tinha nenhum tipo de remorso.

Os médicos também observaram que Guy Georges era um homem “tímido, inteligente, que não manifestava ódio contra ninguém.”

No laudo, os psiquiatras ainda exploram com profundidade os detalhes da forma como ele usava a faca “em um senso cirúrgico do termo para cortar suas roupas antes do estupro e do corte na garganta.”

Entre muitas cartas escritas a uma namorada depois de sua prisão, Georges diz sobre sua admiração pelo tigre. Sua escrita sublinha o seu fascínio por um “inteligente animal, poderoso, resistente, cuidadoso e adaptável.”

Sobre esse fascínio pelo tigre, os psiquiatras disseram: “A caça na natureza e as questões de comportamento animal estavam constantemente presentes na sua conversa, e mostra uma identificação atavística com dominação e predação. Seu real prazer vinha da caça, a excitação, aquele momento em que ele parado observava a vítima”.

Georges foi abandonado por sua mãe quando tinha 06 anos de idade. Ele nunca soube a identidade do seu verdadeiro pai, algo descrito por psiquiatras como “morte genealógica”, fator fundamental, segundo eles, para o desenvolvimento posterior do pequeno Guy.

A Dupla Personalidade

Guy Georges criou um personagem e ele se chamava Joe. Joe era um homem agradável, atencioso, amigo protetor e amante carinhoso. Ele era um sedutor que não tinha problemas sexuais e fazia sexo tranquilamente com suas namoradas, um homem normal que conseguia ficar com uma só mulher muitos anos, caso de sua namorada Sandrine.

Era essa personalidade que ele usava dentro da cadeia, lá dentro ele era um assaltante, um homem que mostrava desprezo pelos estupradores. Guy Georges incorporou esse personagem ainda criança, fascinado pelo “Índio Joe”, um personagem do desenho “As Aventuras de Tom Sawyer”. O pequeno Georges se identificava com o vilão, um excluído que havia sido acusado de homicídio usando uma faca. Em todos os locais que Georges morou, todos o conheciam como Joe, um cara tímido mas muitas vezes brincalhão. Ninguém suspeitava que ele levava uma vida dupla. Um psiquiatra recém-formado, que conversou com Georges em uma das várias vezes em que ele fora preso, confessou nunca ter encontrado algum indício no seu comportamento que pudesse levar a violência.

Esta identidade fragmentada, dividida entre a marginalidade e a necessidade de reconhecimento, fez nascer o “Joe Assassino”.

A Besta & O Chacal

“Georges é calmo e não mostra nenhum sinal de agressividade. Falar com ele é como conversar com alguém no café local. Ele é extremamente bem informado e fala sobre tudo, esportes, política, questões sociais, de forma calma e inteligente”, disse François Honnorat, o primeiro advogado de Georges.

“Quando finalmente foi dito a ele o nome do seu verdadeiro pai, foi como se ele tivesse renascido. Ele pulou de alegria. Ele recuperou sua identidade. Ser descendente de um americano inflou o seu sentimento de importância”, disse François Honnorat.

Na época, o ex-advogado de Georges estava dividido sobre a pena a ser aplicada ao serial killer. Qual a punição adequada para um criminoso que foi tratado como lixo pela sociedade?

“Pedi aos psiquiatras se eles poderiam encontrar uma maneira de salvá-lo da prisão perpétua. Mas eles foram claros. Ele não era louco e foi totalmente responsável pelos seus atos. Eles disseram que só poderia haver dois caminhos para um homem como Georges: Ele era pré-destinado a ser um serial killer ou um herói de guerra.”

E em um lampejo de humor negro, os psiquiatras disseram ao advogado: “Não estamos interessados em iniciar uma guerra mundial para salvar Guy Georges.”

Parecia que o destino do serial killer estava traçado antes mesmo do seu julgamento. Ele parecia fadado a receber a prisão perpétua.

Enquanto aguardava o seu julgamento, Georges foi colocado em uma cela em uma prisão nos arredores de Paris. E vocês sabem que era o vizinho de cela de Guy Georges??? Simplesmente este homem:

Illich Ramirez Sanchez

Illich Ramírez Sánchez, mais conhecido como “Carlos, O Chacal”, é um dos maiores terroristas de todos os tempos. O venezuelano foi o homem mais procurado do mundo nos anos 70 e 80. Em 1975 cometeu um dos atos terroristas mais espetaculares da história quando sequestrou 11 ministros da OPEP que estavam reunidos na Áustria. Na sua fuga matou três pessoas. Foi capturado no Sudão em 14 de agosto de 1994 pelo serviço secreto francês. Foi condenado à duas prisões perpétuas na França. Apesar do apelo do presidente venezuelano Hugo Chávez (que o apóia ideologicamente), O Chacal continua preso na França. Tem hoje 63 anos.

Um insólito encontro, não? Em uma cela nós temos a “Besta” e na cela ao lado, “O Chacal”. Uma mortal combinação. O que esses homens poderiam ter conversado? Ninguém nunca soube. Mas de uma coisa todos tinham certeza. Desde que conheceu Carlos, O Chacal, Georges inventou uma estranha defesa. Ele alegou que fora enquadrado pelo serviço secreto francês porque ele supostamente roubou uma limusine oficial que carregava documentos confidenciais. Documentos os quais incriminavam pessoas influentes na morte do ex-primeiro ministro francês Pierre Bérègovoy. Além disso, amigos receberam cartas do serial killer nas quais ele afirmava que se declararia inocente.

E foi isso o que ele fez, Guy Georges negou todos os assassinatos, mesmo já tendo confessado-os anteriormente. Em seguida ele pediu que fosse designado um Juiz diferente para cada assassinato, ele não queria ter que enfrentar um único Juiz.

E de fato foram nomeados três Juízes para o caso. Olivier Deparis (para o assassinato de Magali Sirotti), Martine Bernard (para o assassinato de Pascale Escarfail) e Gilbert Thiel (Catherine Rocher, Elsa Benady, Agnes Nikjamp e Helene Frinking). A imprensa e os familiares das vítimas foram contra. A promotora tentou intervir com os juízes. Ela pediu ao Juiz Olivier Deparis que abdicasse da sua jurisdição em favor do Juiz Gilbert Thiel, mas ele recusou. Depois de várias semanas de incertezas, em 30 de Abril de 1998, o Presidente do Tribunal, finalmente, decidiu confiar todos os casos ao Juiz Gilbert Thiel. Provavelmente Guy Georges se divertia em sua cela sendo o centro das atenções.

Julgamento

No dia 26 de dezembro de 2000, três meses antes do julgamento, Guy Georges tentou escapar da prisão com dois outros prisioneiros. Seus planos foram frustrados por um policial que resolveu fazer sua ronda um turno mais cedo. Eles haviam serrado as grades da cela e por pouco não escaparam. Por essa tentativa de fuga Guy foi mandado para a solitária.

O julgamento de Guy Georges começou no dia 19 de março de 2001. Contra o aconselhamento do seu advogado, Guy declarou-se inocente.

“Eu diria que não tenho nada a ver com os fatos alegados contra mim”, disse o psicopata.

Durante a primeira semana de julgamento, sempre com um sorriso no rosto, Guy negou veemente as acusações, mesmo com as esmagadoras evidências contra ele. Ele parecia jogar um jogo dentro do tribunal. Uma hora dizia que confessaria os crimes. Outra hora não. Em dado momento disse que confessaria os assassinatos somente para os familiares das vítimas, em uma sala reservada. O psicopata parecia se divertir com a situação.

“Ele é uma pessoa diabólica… a encarnação do mal!”, disse a promotora Evelyne Lesieur.

Enquanto defesa e promotoria debatiam os familiares das vítimas sofriam em silêncio assistindo ao julgamento. Apesar do sorriso no rosto, Guy Georges não conseguiria manter sua páfia durante muito tempo.


Na Foto: 19 de Março de 2001. Guy Georges chega no Tribunal para o início do seu julgamento. Fonte da Imagem: Corbis.

Na Foto: O serial killer Guy Georges chega para o seu julgamento no dia 19 de Março de 2001.

Na Foto: Guy Georges durante o seu julgamento.

Na Foto: 19 de Março de 2011. O réu Guy Georges conversa com seu advogado Alex Ursulet. Fonte da Imagem: Corbis.

Serial Killers: A Besta da Bastilha - Guy Georges no Tribunal

Na Foto: 19 de Março de 2001. Guy Georges conversa com seu advogado durante o seu Julgamento

Na Foto: 19 de Março de 2001. Close no serial killer Guy Georges durante o seu Julgamento. Fonte da Imagem: Corbis.

Com o passar dos dias, diante da pressão do seu advogado Alex Ursulet, o rosto soberano de Guy Georges foi dando espaço para uma expressão mais fechada, como se algo estivesse vencendo sua arrogância interna. O advogado de Georges queria que ele confessasse os assassinatos pois só assim ele teria uma pequena chance de livrá-lo da prisão perpétua. E no dia 27 de março de 2001, 8 dias após o início do julgamento, Guy Georges finalmente confessou os assassinatos, mas mesmo assim, sua voz era quase inaudível:

Advogado: “Chegou a hora de falar sobre certas coisas. Você matou Pascale Escarfail?”

Georges: “Sim”, respondeu Georges com uma voz quase inaudível.

Advogado: “Você matou Catherine Rocher?”

Georges: “Sim”

Advogado: “Você matou Elsa Benady?”

Georges: “Sim”

Advogado: “Você matou Agnes Nikjamp?”

Georges: “Sim”

Advogado: “Você matou Helene Frinking?”

Georges: “Sim”

Advogado: “Você matou Magali Sirotti?”

Georges: “Sim”

Advogado: “Você matou Estelle Magd?”

Georges: “Sim”

E foi ai que Georges mostrou uma face que ninguém imaginava que ele poderia ter. Chorando ele olhou para sua mãe adotiva que, aos 71 anos, acompanhava o julgamento e disse: “Eu te amo mãe. Eu peço perdão por minha família, pela minha irmã, pelo meu pai, e por Deus, se existir um.”

Georges brincou com todos até o fim. Retirou as confissões feitas em 1998 e indignou até mesmo o seu advogado ao se declarar inocente no tribunal, mas se rompeu em lágrimas ao confessar, finalmente, de uma vez por todas os assassinatos.

As admissões vieram como um alívio para as famílias das vítimas, que temiam que Georges manteria sua negação até o fim.

Ele ainda disse: “Quando eu batia, estava num estado que não posso explicar. Estava ciente sem estar consciente. Nesses momentos eu não tenho nenhuma piedade.”

“É um desejo sexual ou apenas o desejo de matar?”, perguntou o Juiz. “Matar!”, respondeu Georges.

Antes do Júri se retirar para deliberação, Georges fez um pedido, ele pediu que não fosse condenado à prisão perpétua, pois, segundo ele, já estava com quase 40 anos e se fosse condenado à perpétua perderia todo o resto da sua vida na cadeia. Engraçado não? Um serial killer pedindo por misericórdia. Ele ainda disse: “Por que meus pais me abandonaram? Por que tiraram minha identidade? Por que o Serviço Social mentiu para mim quando fui pesquisar sobre a minha identidade? Por que comecei a matar em 1991? Por que não me pararam em 1995? Por que eu me tornei um assassino cruel? Por que eu apaixonadamente amo meus amigos, amigas, minha família e sou capaz de fazê-los rir quando estão tristes?”

E o júri levou pouco mais de quatro horas para considerá-lo culpado de 7 homicídios. A condenação? Prisão perpétua para a Besta da Bastilha com possibilidade de condicional em 22 anos. Ao ouvir a sentença, Georges disse:

Guy Georges

Após a decisão do júri, foi aberto espaço para que os familiares das vítimas falassem em público.

“Você pode pedir perdão a Deus, a quem você quiser, mas você não pode pedir perdão para as famílias, você não tem direito, você sabe muito bem o que está fazendo,” disse Franck Sirotti, irmão de Magali Sirotti.

“Para mim, você é completamente falso e desagradável. Você diz que é inocente mas é muito mais do que um arrogante. Você é insuportável”, disse o pai de Pascale Escarfail.

“Ouvi dizer que você foi colocado para adoção. Eu também fui colocada para adoção por minha mãe quando tinha cinco anos. Mas nem por isso me tornei uma delinquente”, disse Chantal Sirotti, mãe de Magali Sirotti.

Abaixo um vídeo com uma reportagem da TV francesa sobre o resultado do julgamento. Na reportagem, Liliane Rocher, Chantal Sirotti e Gislaine Benady, mães das vítimas de Georges comemoram a sentença imposta ao serial killer.

Após este caso, a então Ministra da Justiça da França, Elisabeth Guigou, decretou a criação de um banco de dados com o DNA de todos os condenados por crimes sexuais. A polícia francesa também investiu em ferramentas de elucidação de crimes como o ViCAP e o VICLAS, ambos usados nos Estados Unidos e Canadá.

Elisabeth Ortega sobreviveu ao ataque de Guy Georges em 1995. Veio dela as melhores pistas para a polícia francesa. Ela passou várias semanas ajudando a polícia, inclusive participando de rondas à noite. Tempos depois, Elisabeth decidiu dar um tempo em Paris. Ela queria esquecer por tudo que passou e viajou para a Grécia. Lá, ao mergulhar em um lago numa ilha bateu a cabeça em uma pedra e ficou paraplégica. Mesmo em uma cadeira de rodas, ela não deixou de comparecer a todos os dias do julgamento de Guy, ela queria ter a certeza de que ele nunca mais colocaria os pés nas ruas.

O pai de Magali Sirotti, Aldo Sirotti, passa seus últimos dias visitando e limpando o túmulo da filha. Após sua morte, ele desenvolveu uma espécie de complexo de perseguição e chegou a invadir a sala do prefeito de Paris. Já o pai de Catherine Rocher tornou-se um alcoólatra após a morte da filha. Em um dia de 1997 ele voltava para casa embriagado quando bateu o seu carro morrendo na hora.

Após a condenação Guy Georges começou a fazer terapia dentro da prisão. “Ele já viu um psicólogo e quer também ver um psiquiatra. Ele disse que estava ciente da gravidade dos seus atos e decidiu fazer terapia. Ele quer saber duas coisas, porque ele fez isso e porque sua mãe o abandonou”, disse o advogado de Georges na época.

Atualmente Guy Georges está preso. Ele poderá pedir liberdade condicional em 2020. A terapia na cadeia parece ter dado resultado já que, além de descobrir mais sobre si mesmo, Georges parece ter desistido do suicídio, fato levantado por psiquiatras após sua frase ao ouvir a decisão do júri. Ou ele desistiu do suicídio ou ainda não teve oportunidade de fazê-lo

Informações

Nome: Guy Rampillon Georges

Conhecido como: A Besta da Bastilha, O Assassino do Leste Parisiense

Nascimento: 15 de Outubro de 1962 (50 anos). 

Local de Nascimento: Vitry-le-François, França

Crimes: Tortura, estupro e assassinato.

Vítimas: 7

Período: 1991-1997

Captura: 26 de março de 1998

Julgamento: 19 de março de 2001

Sentença: Condenado à Prisão perpétua em abril de 2001.

Local: Bastilha, Paris. França

Obs.: Poderá pedir liberdade condicional em 2020

“Se um homem matar uma mulher, ele provavelmente irá chorar.”
[Guy Georges, “A Besta da Bastilha”]



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