Serial Killers: O Estripador da Floresta

“Ele era uma pessoa séria, com boas maneiras. Não era bom, nem mau. Fora do trabalho nenhum de nós tínhamos nada com ele. Quando os jornais vieram com as...
Andrei Chikatilo - O Estripador da Floresta

O Estripador da Floresta

“Ele era uma pessoa séria, com boas maneiras. Não era bom, nem mau. Fora do trabalho nenhum de nós tínhamos nada com ele. Quando os jornais vieram com as histórias do que ele fez, fiquei muito surpresa. Por um longo tempo eu não pude acreditar.”

[Maria Kolokhova]

“Nos anais do crime, ele é sem dúvidas um dos mais sádicos assassinos que já viveu.” 

[Jack Levin, criminólogo]

“Ele fala sobre algumas de suas motivações, no entanto, quando você ouve qualquer explicação, mesmo sendo a verdade, você nunca terá o suficiente para explicar os hediondos crimes cometidos por este homem.” 

[Richard Lourie, autor do livro Hunting The Devil]

“Seus crimes eram doentios, mas eu não acho que ele estava doente no sentido psiquiátrico ou jurídico. Certamente não era insano. Ele era mais mau do que louco, e ele certamente era muito habilidoso, mas não louco.” 

[Jack Levin, criminólogo]

“Tendo visto os corpos de tantas vítimas, seria natural odiá-lo. Era o que eu sentia até ele finalmente ser preso. E então, naquele momento, eu percebi que ele não estava no controle do que ele estava fazendo. Ele era uma pessoa muito doente, agindo contra a sua vontade.”

[Viktor Burakov, investigador]

“Sem dúvidas, ele é o pior serial killer dos tempos modernos.” 

[Robert Cullen, autor do livro The Killer Department]

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Créditos da Imagem: Russia 1904-1924: The Revolutionary Years, de Eric Baschet. Foto tirada na província de Samara, região do Volga, Rússia, 1921.

Russia 1904-1924: The Revolutionary Years, de Eric Baschet. Foto tirada na província de Samara, região do Volga, Rússia, 1921.

Créditos da Imagem: Russia 1904-1924: The Revolutionary Years, de Eric Baschet. Foto tirada na província de Samara, região do Volga, Rússia, 1921.

Foto tirada do livro Russia 1904-1924: The Revolutionary Years, de Eric Baschet.

O Comunismo e a Fome


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“A fome te deixa louco, ela te transforma num animal.” 

[Kim Eun-sun]

A imagem acima é forte e mostra uma das grandes tragédias do século 20. A foto mostra uma dupla de canibais russos fotografados ao lado de pedaços de corpos de crianças que eles haviam raptado.

Não, não é o que vocês estão pensando. O casal da foto não são sádicos serial killers que raptavam crianças para satisfazerem seus desejos de matar. Eles, literalmente, estavam com fome.

A foto tirada em 1921, mostra até que ponto o desespero humano por comida pode chegar. Entre os anos de 1921 e 1922, uma onda de fome assolou a então União Soviética. Estima-se que mais de 5 milhões de pessoas tenham morrido. A crise de alimentos foi o resultado de perturbações econômicas vindas da Primeira Guerra Mundial, aliada com a Revolução Russa de 1917 e a Guerra Civil russa. Para piorar, em 1919, Lênin decidiu confiscar plantações de grãos de camponeses que dois anos depois deixaria a população, literalmente, sem comida. A fome era tão grave que as pessoas comiam as sementes que sobravam ao invés de plantá-las (e posteriormente colher).

A fome russa foi uma das maiores tragédias do século XX. Uma parte da população esfomeada simplesmente recorreu ao canibalismo. Textos da época dizem que os camponeses famélicos arrancavam o fígado dos cadáveres para fazer patês e vender no mercado. Já outros comiam partes dos cadáveres em decomposição que jaziam espalhados pelo país, uma boa parte, de crianças. Algumas delas são retratadas em várias fotos chocantes, raquíticas, nuas, sujas e abandonadas. Já outros… raptavam-as para comer.

A fome fez com que vários camponeses se rebelassem contra o governo. Não é preciso dizer que os “rebeldes” foram massacrados por ordem de Lênin. Muitos eram metralhados pelo exército ao tentarem invadir armazéns de grãos que haviam sido confiscados. Com o caos total, o governo resolveu afrouxar suas medidas e, em 1922, os confiscos cessaram. Mas o estrago já havia sido feito. Essa, porém, não seria a última grande fome pela qual os soviéticos passariam. Dez anos depois, ocorreria uma muito pior.

Holodomor

Em 1932, uma escassez de alimentos devastou a Ucrânia. Sob a bandeira da distribuição coletiva de alimentos, o ditador Joseph Stálin ordenou o confisco de lavouras e plantações de camponeses em toda União Soviética. Na Ucrânia, essa ação resultou numa terrível onda de fome que levou as pessoas aos mais bestiais atos que se possa imaginar, leia-se: Canibalismo. Essa terrível época ficou conhecida como Holodomor, expressão que em ucraniano significa “matar pela fome”.

A Ucrânia era um dos principais países que compunham a União Soviética e muitas das vezes saudada como o “celeiro” dos comunistas. A Ucrânia produzia mais de um quarto da produção agrícola soviética, de grãos a legumes, da carne ao leite. Após a revolução russa de 1917, os bolcheviques tomavam conhecimento da grande importância dos solos ucranianos e torciam os olhos para o conceito de agricultura de lá, baseado na propriedade privada. Em 1929, Joseph Stálin decidiu empurrar para todo o território soviético o comunismo puro. Apoiado pela ideologia marxista, ele implementou a coletivização forçada tendo como alvo, principalmente, os ucranianos. Todas as terras passaram a ser do estado, transformando-as em grandes fazendas coletivas, as chamadas Kolkhoz.

O resultado dessa desastrosa política agrícola de Stálin, foi que em 1932, uma assustadora escassez de alimentos tomou conta de várias partes da União Soviética, e principalmente da Ucrânia. Para piorar, o paranoico ditador proibiu, numa lei assinada por ele em Janeiro de 1933 (Lei da Inviolabilidade da Propriedade Socialista), qualquer tipo de ajuda humanitária ou envio de alimentos para as regiões da fome. Escritores e intelectuais que ousavam escrever a respeito do que acontecia eram sumariamente executados por conspiração ou sentenciados a, no mínimo, dez anos de prisão.

Em março de 1933, 35 funcionários do Comissariado para Agricultura ucraniana foram executados depois de receberem acusações absurdas do Partido Comunista. Eles foram mortos porque “permitiram que ervas daninhas crescessem no campo” e “incentivo à difusão de meningite entre cavalos” [1]. A verdade é que essas 35 pessoas foram usadas como bodes expiatórios do governo para explicar as más colheitas que se sucederam e posterior fome. Para Stálin, esses homens trouxeram descrédito internacional para a União Soviética.

O número de pessoas mortas de fome durante o Holodomor varia bastante, fato que pode ser atribuída a insuficiência de dados ou do indevido uso das estatísticas soviéticas. De qualquer modo, os números mais aceitos variam entre 5 e 10 milhões de mortos (apesar de muitos dizerem que foi muito mais), sendo mais de um terço de crianças. A população ucraniana foi reduzida em 25% e mais de 80% dos intelectuais, escritores e professores, simplesmente, desapareceram.

Mas a pergunta que não quer calar: o que pode acontecer a um ser humano em um ambiente assim? Nós todos não passamos de animais, animais civilizados é claro, que conversam uns com os outros, dão bom dia para o colega de serviço, e que tiram foto da comida para postar nas redes sociais. É tudo muito bonitinho quando vivemos em um ambiente favorável à nossa existência. Mas e quando somos expostos a um ambiente desfavorável? O que pode acontecer? O que pode acontecer quando vivemos em um mundo sem comida? O que pode acontecer quando você disputa um punhado de sementes com outras pessoas? O que pode acontecer se você estiver num mundo onde o seu antigo amigo agora o olha com um olhar diferente? Situações extremas fazem de nós, seres humanos, verdadeiros animais. E isso é um fato comprovado por inúmeros sobreviventes de guerras ou de episódios de fome em massa, como o Holodomor.

“Mães cortavam e furavam seus filhos e os colocavam em panelas para cozinhá-los. Minha mãe foi para o campo onde alguns cavalos estavam morrendo e trouxe a cabeça de um deles. Cerca de cinco mulheres que estavam na casa começaram a morder e a comer a cabeça do cavalo crua. Um horror inimaginável, pessoas agonizavam nas estradas.” 

[Nina Popovych, sobrevivente do Holodomor]

“Houve casos em que mães enlouqueceram e matavam crianças para alimentar o restante da família. Caminhões conduzidos por policiais ou por Membros da Liga da Juventude Comunista transportavam corpos, alguns ainda vivos, para serem jogados nos limites da cidade.” 

[Varvara Dibert, sobrevivente do Holodomor]

“Uma cena que nunca vou esquecer é a de um garoto de 16 anos que, ao lado de sua madrasta, eram os únicos sobreviventes da família, e morto de fome, arrastou-se até um cavalo morto e começou a roer suas patas furiosamente. O menino nunca mais foi visto e circularam rumores de que ele havia sido comido por sua madrasta.” 

[Polikarp Kybkalo, sobrevivente do Holodomor]

Em 1932, eu tinha 10 anos, e me lembro bem de tudo o que aconteceu em nossa vila na região de Kiev. Na primavera daquele ano, nós estávamos sem sementes. Os comunistas pegaram todo o grão de nossa fazenda … As pessoas não conseguiam andar, não tinham força. Os que conseguiam andar eram presos na tentativa de pegar algumas sementes. Minha tia, Tatiana Rudenko, foi levada e nunca mais a vimos. As estações de trem estavam lotadas de pessoas, todas morrendo de fome. Todos queriam ir para a Rússia, pois diziam que não havia fome lá. A maioria morria no caminho e os que chegavam eram proibidos de entrar e morriam nas plataformas. Em fevereiro de 1933, quase não haviam mais crianças, as escolas foram fechadas. A essa altura, não existia um cachorro, gato ou passarinho em minha aldeia. Nesse mês, meu primo Mykhailo Rudenko morreu, um mês depois morreram minha tia Nastia Klymenko e seu filho, meu primo Ivan Klymenko. Houve canibalismo em nossa aldeia. Na minha fazenda, um menino de 18 anos de idade, Danylo Hukhlib, morreu e sua mãe, irmãs e irmãos o picaram e o comeram. Os comunistas vieram e levaram toda família embora. Nunca mais os vi. As pessoas diziam que eles foram mortos no mesmo dia num local mais afastado, os adultos e as crianças, tudo junto. Quando o inverno acabou, o cheiro de corpos em decomposição impregnou todo o ar. As pessoas não se pareciam com pessoas, eram na verdade, fantasmas famintos.”

[Tatiana Pawlichka, sobrevivente do Holodomor]

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Na Foto: Créditos: Getty Images.

Criança é fotografada ao lado do cadáver do seu pai, logo após ele ser morto por soldados comunistas ao tentar entrar numa fazenda para roubar comida. Data: 1 de Janeiro de 1934. Créditos: Getty Images.

Na Foto: O cadáver de uma jovem mulher apodrece perto da cidade de Poltava. Data: 01 de Janeiro de 1934. Créditos: Getty Images.

O cadáver de uma jovem mulher apodrece perto da cidade de Poltava. Data: 01 de Janeiro de 1934. Créditos: Getty Images.

Na Foto: Créditos: Getty Images

Cavalos agonizam de fome perto da Fazenda Coletiva de Belgorod, Ucrânia. Certamente os cavalos da imagem foram comidos pelas famintas pessoas. Data da Foto: 01 de Janeiro de 1934. Créditos: Getty Images

Na Foto: Dois garotos conversam com um deles carregando um saco de batatas encontrado no porão da casa de uma velha mulher. A senhora foi presa por soldados comunistas sob alegação de esconder alimentos. Posteriormente o saco de batatas foi retirado dos meninos pelos soldados. Data da Foto: 1 de Janeiro de 1934. Créditos: Getty Images.

Dois garotos conversam com um deles carregando um saco de batatas encontrado no porão da casa de uma velha mulher. A senhora foi presa por soldados comunistas sob alegação de esconder alimentos. Posteriormente o saco de batatas foi retirado dos meninos pelos soldados. Data da Foto: 1 de Janeiro de 1934. Créditos: Getty Images.

Na Foto: Milhares de pessoas tentam escapar da fome na Ucrânia embarcando em Trens para a Rússia. A grande maioria morriam durante a viagem.

Milhares de pessoas tentam escapar da fome na Ucrânia embarcando em Trens para a Rússia. A grande maioria morriam durante a viagem.

Na Foto: Garoto é fotografado em Moscou após chegar de Trem da Ucrânia. Seus pais morreram durante a viagem e ele passou a vagar pelas ruas da cidade sem destino. Créditos: Getty Images.

Garoto é fotografado em Moscou após chegar de Trem da Ucrânia. Seus pais morreram durante a viagem e ele passou a vagar pelas ruas da cidade sem destino. Créditos: Getty Images.

Dizem que o socialismo tem duas faces: uma é a miséria, a outra é a tirania.

Talvez, quem mais tenham sofrido com essa barbárie foram as crianças. Imaginem uma pessoa vivenciando este horror num momento em que o seu caráter, personalidade, conceitos éticos e morais ainda estão em formação? Que impacto um evento como esse poderia ter na mente de uma criança? Milhares ficaram órfãs e outras milhares passaram seus dias acuadas, inseguras, com medo. E elas sofreriam muito mais. Após o Holodomor, veio a Segunda Guerra Mundial, e com o fim da Guerra, a terceira grande fome na União Soviética e segunda em grande escala no território ucraniano, em 1946 e 1947. Mais uma vez, o povo ucraniano teria que conviver com o horror de ficar sem comida, e o pior… o de ser comido!

O texto acima foi uma pequena introdução, uma introdução importante para a história que vocês lerão abaixo. A seguir, conto a história de um homem, um homem que um dia foi uma criança, e que um dia viveu os horrores do Holodomor. Ele não estava presente durante esta atrocidade, ele nasceu alguns anos depois, mas os reflexos e consequências desse genocídio, o acompanhariam por toda sua vida.

Todos nós sabemos que algumas pessoas no mundo nascem com distúrbios psicológicos. Não é culpa delas nascer assim. Ninguém pede para nascer psicopata, esquizofrênico ou com transtorno bipolar. Mas essas pessoas, de alguma forma, nascem com lesões no cérebro que as fazem agir diferente do que nós consideramos um comportamento normal. Um grupo dessas pessoas, os psicopatas, são bastante conhecidos por nós e podem chegar a matar. Segundo o neurocientista norte-americano Jim Fallon (veja o post Ciência Psicopata), psicopatas compartilham de duas características genéticas: lesão numa área do cérebro conhecida como córtex órbito frontal e presença do gene MAO-A, conhecido como gene guerreiro, um gene que estaria ligado a um comportamento criminoso. Entretanto, alguns psicopatas chegam a matar, por quê? Para esse grupo, os dos psicopatas que matam, uma terceira e poderosa característica faria toda a diferença: o ambiente. O ambiente no qual o psicopata cresça, pode fazer a diferença entre ele se tornar um assassino ou ser apenas mais um psicopata que anda entre nós.

A criança a qual citei, nascida nos horríveis anos pós-Holodomor, foi uma dessas pessoas que nasceu com um distúrbio mental. Psicopata, esquizofrênico? Não sei. Mas o que eu sei é que, ao ficar adulto, essa criança se tornaria um dos mais letais assassinos em série de todos os tempos. Um homem até hoje incompreendido por psiquiatras, psicólogos, criminólogos, e que pode ter tido o seu gatilho para a maldade disparado ao crescer num ambiente completamente desfavorável para qualquer ser humano, o ambiente da morte. Vivendo seus dias de criança nos horríveis anos de guerra e fome, ao se tornar adulto, esta criança ganharia o sinistro apelido de:

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O Estripador da Floresta

E esta é a sua história.

Rostov-on-Don, Rússia


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Rostov-on-Don é uma bela cidade russa distante mais de mil quilômetros da capital Moscou. A Rússia é o maior país do mundo com uma área territorial praticamente o dobro da do Brasil. Com pouco mais de um milhão de habitantes, Rostov-on-Don pode ser comparada (em tamanho) às cidades brasileiras de Campinas (São Paulo) e São Luis (Maranhão).

A cidade é composta em sua grande maioria por descendentes dos Cossacks, povos eslavos que tiveram um importante papel no desenvolvimento histórico da Ucrânia e Rússia. Fiéis às tradições dos seus antepassados, os Cossacks aindam andam pelas ruas de Rostov-on-Don com seus tradicionais uniformes azul-escuro e calças de listras vermelhas. A cidade, que até 1928 chamava-se apenas Rostov, adicionou o sufixo on-Don para diferenciar-se de uma outra cidade de mesmo nome da região de Yaroslavl e também devido ao Rio Don, que corta a cidade ao meio. Entretanto, todos na Rússia a chamam apenas como Rostov.

Rostov é uma das 12 cidades russas com mais de um milhão de habitantes e é uma cidade-chave no que diz respeito a transporte. Rostov provê rotas para cinco mares incluindo o Mar Negro, o Mar de Azov e o Mar Cáspio. As duas rotas terrestres mais importantes da Rússia também passam pela cidade.

Atualmente Rostov está a todo vapor e tudo por causa de uma excelente notícia: a Rússia sediará a Copa do Mundo de Futebol em 2018 e Rostov foi escolhida como uma das cidades sede. 

Na Foto: Localização de Rostov-on-Don. Rostov localiza-se no extremo oeste do território russo.

Localização de Rostov-on-Don. Rostov localiza-se no extremo oeste do território russo e quase faz divisa com o Mar de Azov.

Na Foto: Uma vista da bonita cidade de Rostov-on-Don. Créditos: Aeroavia.

Uma vista da bonita cidade de Rostov-on-Don. Créditos: Aeroavia.

Na Foto: Uma vista da cidade de Rostov-on-Don e do Rio Don. Créditos: IBSC.

Uma vista da cidade de Rostov-on-Don e do Rio Don. Créditos: IBSC.

Na Foto: Sistema de transporte de Rostov. Rostov possui um excelente sistema de transporte de Trens e ônibus. Créditos: Wikipedia

Sistema de transporte de Rostov-on-Don. Rostov possui um excelente sistema de transporte de trens e ônibus. Linhas de trens saem da cidade para todos os cantos da Rússia, inclusive para a capital ucraniana Kiev. Créditos: Wikipedia

Apesar de ser uma cidade grande, a vida em Rostov é calma e tranquila. Nos finais de semana, o programa preferido das famílias é passear pelo bucólico e imenso Parque dos Aviadores, um gigantesco parque de mata natural cercado por estátuas de leões, e frequentar as praias artificiais formadas pelo Rio Don. Se você quer conhecer um pouco mais Rostov, sugiro ver o ótimo vídeo abaixo:

Se você for hoje a Rostov, nem imaginaria que a 22 anos atrás, um verdadeiro pandemônio tomava conta da cidade. Desespero e pânico são duas palavras que eu posso usar para descrever aqueles meses do ano de 1990. E se você quer saber do que eu estou falando, é melhor se preparar.

Rostov-on-Don


Outubro de 1990

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As grandes estações de trens e ônibus da cidade de Rostov-on-Don estão infestadas de policiais uniformizados. As pessoas se assustam ao ver aqueles policiais vestidos como se fossem para a guerra, alguns deles usavam óculos especiais para enxergar no escuro. Mais de 300 deles podiam ser vistos nas estações. Qualquer homem poderia ser parado por eles, ser revistado, e ter seu nome anotado numa agenda, e não importava se ele fosse um pai de família ou um mendigo.

Em estações menores, policiais femininas disfarçadas usavam roupas provocativas e maquiagem pesada. Muitos outros policiais disfarçados enchiam trens e ônibus da cidade e patrulhavam as estações e os seus arredores dia e noite.

Na Foto: No segundo semestre do ano de 1990, a população de Rostov-on-Don foi surpreendida por . Na imagem acima, um cidadão de Rostov é interrogado por um policial. Créditos: Biography Channel.

No segundo semestre do ano de 1990, a população de Rostov-on-Don foi surpreendida por um grande número de policiais em estações de trens e ônibus da cidade. Na imagem acima, um cidadão de Rostov é interrogado por um policial. Créditos: Biography Channel.

Na Foto: Créditos: Biography Channel

Os policiais paravam qualquer homem e pediam seus documentos e faziam perguntas rápidas como o que faziam, para onde estavam indo. Créditos: Biography Channel

Qual seria o motivo de tal operação? A resposta é assustadora. A essa altura, o desespero da polícia russa era enorme. Há quase uma década, um sádico serial killer deixava um rastro de corpos mutilados de mulheres e crianças pelos arredores da cidade de Rostov. A grande maioria das vítimas eram encontradas ao longo de florestas que cercavam as estações de trens, o que indicava que o assassino usava extensivamente o sistema de transporte soviético. O serial killer estava completamente fora de controle. Até outubro de 1990, a polícia já havia encontrado 9 corpos que somados com os assassinatos dos últimos 8 anos, perfazia um total de 36 vítimas. A grande maioria eram mortas selvagemente. Olhos, línguas e seios arrancados, homens castrados, mulheres sem os úteros…

Assustados e pressionados pela morte de um adolescente, Viktor Tishchenko, em 30 de outubro, a polícia decide aumentar o seu efetivo e tentar de uma vez por todas capturar o serial killer que não deixava rastros e nem testemunhas, apenas corpos mutilados.

Para você entender melhor como eu cheguei aqui, vamos voltar no tempo, até junho de 1982.

Seta-O-Aprendiz-Verde

Aldeia de Donskoi, Área Rural de Novocherkassk


Julho de 1982

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Um camponês procurava lenha em uma retangular faixa de floresta com árvores plantadas para evitar erosão, quando encontrou um corpo em avançado estado de decomposição, quase reduzido a ossos. Estranhamente, a área tinha cerca de 50 metros de largura, com apenas um caminho para passagem, mas ninguém antes havia visto o corpo. Havia pequenos retalhos de pele em alguns dos ossos e alguns cabelos pretos pendurados no crânio. Certamente uma cena de filme de terror. O homem que encontrou o cadáver reportou o fato a Militsia, uma espécie de Polícia Civil russa.

O cadáver não tinha roupas que pudessem facilitar sua identificação. Estava de bruços e com a cabeça virada para um dos lados. As orelhas estavam intactas, o suficiente para que fossem notados pequenos furos para brincos, e isso, juntamente com o comprimento do cabelo, sugeria que aquela pessoa era do sexo feminino. Parecia também que a vítima havia tentado lutar contra seu agressor. Duas costelas pareciam estar quebradas, talvez por uma faca, e uma olhada mais apurada indicou numerosos cortes nos ossos. A vítima estava sem os globos oculares e a região pélvica parecia ter sido trucidada a golpes de faca.

Quem quer que tenha feito isso, para a polícia, era uma besta em um frenesi assassino.

Algumas horas depois da descoberta, o major Mikhail Fetisov chegou do quartel general da Militsia em Rostov-on-Don. Ele era o detetive-chefe da região. Imediatamente ele pediu por registros de pessoas desaparecidas e mandou cadetes em treinamento procurar evidências nos bosques que circundavam o local onde o corpo fora encontrado. Ele também ordenou que impressões digitais fossem tiradas do que restou da pele das mãos.

Investigando pessoas desaparecidas da região, os policiais se depararam com o nome de uma adolescente de apenas 13 anos: Lyubov Biryuk, de Novocherkassk, uma cidade distante apenas 36 quilômetros de Rostov. Os investigadores russos chamaram um tio da menina que, desde o seu desaparecimento, a buscava incansavelmente. Talvez não querendo acreditar que sua sobrinha estivesse morta, o tio de Lyubov disse que o cabelo dela não era tão escuro como o do cadáver encontrado, além do mais, para o tio, aqueles ossos pareciam ser velhos demais. Sua sobrinha estava desaparecida a pouco tempo, aqueles não podiam ser seus ossos.

Dois dias depois da descoberta do cadáver, os cadetes encontraram um saco amarelo e uma sandália branca. As impressões digitais do cadáver, assim como impressões tiradas de um livro escolar encontrado dentro do saco confirmaram o que o tio de Lyubov não queria. O corpo era de sua sobrinha. O médico legista concluiu que as altas temperatudas e as chuvas fortes que ocorreram no local aceleraram o processo de decomposição do corpo. Apesar de uma minunciosa busca em torno de onde o corpo foi encontrado, nenhuma evidência física foi encontrada.

Na época, a polícia acreditou que a morte fora causada em um ataque aleatório, portanto, seria muito difícil de se resolver. A polícia russa também seguia sempre os mesmos métodos de investigação. E não era por menos, naquela época, assassinatos sempre seguiam duas linhas: assassinatos íntimos em que uma pessoa em um ataque de fúria ou em um estado de embriaguez, assassina alguém que ele conhecia, geralmente um membro da família, e assassinatos instrumentais, onde o assassino matava para roubar algo da vítima. Mas esse não era o caso da jovem Lyubov. Ninguém em sua família tinha uma ficha suspeita e ela não levava nada de valor.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Lyubov BiryukNome: Lyubov Biryuk

Idade: 13 anos

Moradia: Novocherkassk, cidade distante 36 quilômetros de Rostov-on-Don

Desaparecimento: 12 de Junho de 1982

Ferimentos: Globos oculares foram removidos; hematoma na cabeça devido ao impacto de um objeto contundente; ferimentos no abdômen e peito que indicavam, no mínimo, 22 facadas.

Fatos: Aparentemente Lyubov se perdeu de suas colegas quando voltava de um passeio. Seus restos mortais foram encontrados por um camponês que procurava lenha em uma floresta perto da aldeia de Donskoi.

Perto do local onde o corpo foi encontrado havia um caminho por onde pessoas passavam. Uma estrada também passava ali por perto. Parece que o assassino não se importou muito com isso e assumiu um grande risco ao matar a garota. Outra coisa que martelava a cabeça dos investigadores era o fato da menina ter sofrido violência sexual, ou seja, seria um crime sexual? Isso não era bem visto pelos soviéticos que acreditavam que crimes sexuais eram uma manifestação da degenerada sociedade ocidental. Leia-se: Estados Unidos.

Uma autópsia concluiu que Lyubov fora atacada por trás e acertada ferozmente na cabeça com um instrumento afiado. Não ficou claro se ela caiu imediatamente inconsciente, o que é bastante provável. Certo mesmo foi a forma feroz com a qual ela foi mutilada. Exames concluíram que ela levou, no mínimo, 22 facadas em todo corpo. Mas não foram só facadas. O legista concluiu que ela fora mutilada de outras maneiras também, mas não conseguiu especificar quais.

Enquanto o legista trabalhava no corpo, a polícia trabalhava na busca pelo assassino. Doentes mentais, menores infratores ou alguém com um histórico de crimes sexuais eram os principais suspeitos. Os investigadores refizeram os passos de Lyubov e investigaram suas amizades e conhecidos. Durante a investigação eles encontraram um suspeito ideal, o típico suspeito que todo policial adora. Era um conhecido estuprador que morava na região. A polícia parecia ter encontrado o homem. Lembrem-se, estamos na União Soviética, um país assombrado por mortes e loucuras, e que ainda vive os reflexos do pós-guerra. Torturas e espancamentos em suspeitos de crimes eram comuns. E o pior, muitas das vezes, Tribunais negligenciavam a confissão sob tortura. E tudo ficou mais claro para a polícia quando o estuprador suspeito de matar Lyubov… se enforcou. Parece que ele descobrira que a polícia o estava investigando e decidiu dar cabo da própria vida. Talvez ele já soubesse o que estava por vir… Para os investigadores não restava mais dúvidas, ele era o assassino e havia encontrado a sua própria forma de redenção.

Mero engano. Menos de dois meses depois, outro corpo seria descoberto.

Uma Mulher sem Nome


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Menos de dois meses depois da descoberta dos restos mortais da adolescente Lyubov, um trabalhador ferroviário que andava perto de uma estação de trem que levava a Shakhty, uma pequena cidade industrial a 64 quilômetros de distância de Rostov-on-Don e 34 quilômetros de Novocherkassk, viu restos esqueléticos em uma floresta que cerca a estação. Eles pareciam estar ali a cerca de 6 semanas e logo o legista indentificou como sendo de uma mulher adulta.

Exames indicaram que a mulher havia sido estripada. Ela foi deixada de bruços no chão com as pernas abertas. Seus globos oculares também haviam sido removidos. Essas características chamaram a atenção dos investigadores pois combinavam com o assassinato da adolescente Lyubov. A mutilação, o corpo de bruços, os globos oculares removidos. Certamente esta era uma rara manifestação de assassinato.

Olhando os registros de desaparecidos, a polícia não conseguiu encontrar nenhuma mulher com as características dos restos encontrados. Ela permaneceu sem identificação. A polícia soviética ainda investigava as duas semelhantes mortes quando um terceiro corpo foi encontrado.

Kazachi Lagerya, zona rural de Rostov-on-Don


27 de Outubro de 1982

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Em 27 de outubro de 1982, um soldado recolhia madeiras em Kazachi Lagerya, zona rural da cidade de Rostov-on-Don, quando ele encontrou os restos mortais de uma mulher deitada de bruços. Ela havia sido coberta com galhos. Exames indicaram o mesmo padrão de ferimentos encontrados nos corpos anteriores: múltiplos ferimentos a faca, com lesões graves no pescoço, coração e pulmões. Os olhos também foram removidos. O legista estimou a idade da vítima entre 16 e 19 anos.

A ligação era os três assassinatos parecia ser óbvia: 3 mulheres, as 3 foram mutiladas com múltiplos golpes de faca, tiveram seus globos oculares removidos e foram deixadas deitadas de bruços. Parecia que as três mulheres foram mortas por um mesmo homem que assassinava seguindo um ritual. Em outras palavras… um serial killer. Entretanto, a hipótese da ação de um serial killer nem passou pela cabeça dos investigadores. Apesar dos ferimentos comuns nas três vítimas, eles precisavam de mais dados para ligar os três assassinatos a um só assassino. Oficialmente o que eles tinham eram três diferentes assassinatos não resolvidos.

O major Mikhail Fetisov organizou uma Força Tarefa de 10 homens para iniciar uma agressiva investigação sobre os três assassinatos. Ele pretendia pegar o assassino ou assassinos o mais rápido possível. Entre os homens que ele recrutou estava o segundo tenente do laboratório de criminologia: Viktor Burakov, 37 anos. Viktor era o melhor homem que Fetisov tinha em mãos. O melhor em análise de evidências físicas, assim como impressões digitais, pegadas e outras manifestações em cenas de crimes. Além do mais, Viktor era um especialista na ciência criminal e em artes marciais. Conhecido por sua dedicação, Fetisov o convidou para fazer parte da Divisão de Crimes Especiais Graves em janeiro de 1983. Viktor não sabia, mas ao final dessa investigação, ele se tornaria uma lenda no mundo inteiro.

E a investigação começou da pior forma possível para a Força Tarefa criada pelo major Fetisov. No mesmo mês, em janeiro de 1983, uma quarta vítima foi encontrada. Como as outras, era uma mulher. Ela parecia ter sido morta seis meses antes e foi encontrada perto de onde o segundo corpo foi descoberto. Os ferimentos eram os mesmos: mutilação a faca e remoção dos globos oculares. Mas diferentemente das outras vítimas, algumas de suas roupas foram encontradas nas proximidades. Ela, possivelmente, era uma adolescente.

Esses quatro assassinatos deixaram os investigadores soviéticos assustados. Corpos mutilados e sem os olhos. Os assassinatos fugiam do padrão no qual estavam acostumados. Eles sabiam que o assassino (ou assassinos) não fumava, pois cigarros intactos foram encontrados próximos ao corpo de Lyubov e, certamente, era do sexo masculino. Ele também deveria ter algum problema com os olhos, mas os investigadores não sabiam se isso era baseado em uma superstição russa ou em um fetiche. Na Rússia, naquela época, existia uma superstição de que a última imagem que uma pessoa vê antes da morte, é de alguma forma gravada em sua retina. De qualquer forma, os investigadores concluiram que a remoção dos olhos indicava que o criminoso passava algum tempo com as vítimas antes de assassiná-las.

Sem nenhuma pista, a força tarefa decidiu voltar no tempo e investigar assassinatos semelhantes. A primeira tarefa real de Viktor Burakov foi chefiar uma investigação em Novoshakhtinsk, uma cidade agrícola distante 60 quilômetros de Rostov. Lá, ele recebeu a denúncia do recente desaparecimento de uma menina de apenas 10 anos de idade.

Olga Stalmachenok


Desaparecida em 10 de dezembro de 1982

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“Eu andei pela cidade, por todos os lugares. Vi um policial com um rádio e falei sobre minha filha desaparecida. Disse para ele falar pelo rádio para sua central e o que ele fez? Ele riu. Risadas, sabe? Fui na polícia, Ministério Público e nada. Ninguém procurou.”

[Depoimento da mãe de Olga Stalmachenok, retirado do livro “Hunting the Devil”]

No dia 10 de dezembro de 1982, Olga Stalmachenok, 10 anos, saiu como de costume para sua aula de piano. Ela nunca mais voltou. Viktor Burakov questionou os pais e descobriu que o relacionamento da família era harmonioso, portanto, Olga não tinha motivos para fugir. Estranhamente, seus pais receberam um estranho cartão postal intitulado “O Sádico Gato Preto”. O cartão dizia que a filha deles estava na floresta e que haveria outras 10 mortes no ano que viria. Burakov não deu muita importância ao doente cartão postal apesar de temer que a menina estivesse morta.

Quatro meses depois, em 14 de abril de 1983, o corpo de Olga foi encontrado por um tratorista que arava uma fazenda de cultivo coletivo a cerca de 5 quilômetros do conservatório de música onde ela tinha aulas. Por causa do intenso frio do começo do ano de 1983, seu corpo ainda estava congelado.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Olga StalmachenokNome: Olga Stalmachenok

Idade: 10 anos

Moradia: Novoshakhtinsk, cidade distante 60 quilômetros de Rostov-on-Don

Desaparecimento: 10 de Dezembro de 1982

Ferimentos: Globos oculares foram removidos; hematoma na cabeça devido ao impacto de um objeto contundente; ferimentos no abdômen e peito que indicavam, no mínimo, 22 facadas.

Fatos: Olga desapareceu depois de sair para ir até sua aula de piano. Ela foi encontrada na mata de uma fazenda de cultivo coletivo no dia 14 de abril de 1983, quatro meses após o seu desaparecimento.

Os policiais não foram até a cena do crime até a chegada de Burakov. A morte de Olga durante o inverno pôde conservar os ferimentos de faca que estavam claramente visíveis em sua pele branco-azulada. O crânio estava perfurado, assim como o tórax e estômago. O assassino desferiu dezenas de facadas no corpo como se estivesse num ataque de loucura. Seus alvos principais foram o coração, pulmão e a vagina. Útero e intestinos foram removidos, e como nos assassinatos anteriores, haviam buracos nas cavidades oculares, sem sinais dos seus olhos.

Sem sombra de dúvidas Burakov sabia que estava procurando por algo que os soviéticos não imaginavam (ou não queriam imaginar): um cruel serial killer. Evidentemente havia conotações sexuais nos assassinatos e estava claro também que ele deveria ser esperto como um animal. Algumas das vítimas foram mortas em locais que poderiam ser facilmente vistos por testemunhas, mas mesmo assim, ele as matou sem chamar à atenção de ninguém.

Na foto: O investigador-chefe Viktor Burakov em uma das florestas . Data da Foto: 01 de setembro de 1992.

O investigador-chefe Viktor Burakov em uma das florestas onde corpos foram encontrados. Data da Foto: 01 de setembro de 1992. Créditos: Getty Images.

Burakov trabalhava com o que tinha em mãos e seus recursos eram escassos. Homens que matavam dessa maneira na então União Soviética eram “supostamente” poucos e apenas o alto escalão do Partido Comunista poderia ter acesso aos arquivos desses casos (típico de países que controlam o que deve e o que não deve ser dito).

Burakov refez os passos de Olga, do conservatório de música até o local onde seu corpo foi encontrado, e chegou a conclusão que o assassino deveria ter um carro. Ele também tinha certeza que ele não era o tipo de homem que poderia assustar alguém quando se aproximasse. Deveria ser uma pessoa acima de qualquer suspeita, com aparência normal, e apesar de claramente ter algum tipo de transtorno mental, isso não seria algo que as vítimas poderiam notar.

A Força Tarefa sob liderança de Burakov decidiu concentrar seus esforços na investigação de crimes sexuais ocorridos na área de Novoshakhtinsk. Investigaram doentes mentais que foram libertados de hospitais nos últimos anos e homens que viviam ou trabalhavam perto do conservatório de música, e claro, que possuíam um carro. Peritos em caligrafia tiveram uma árdua tarefa: Comparar a caligrafia do cartão “Sádico Gato Preto” com amostras de toda a população masculina de Novoshakhtink. Certamente era um trabalho muito tedioso e sem a promessa de que daria em algo concreto. No entanto, era o que eles poderiam fazer naquele momento. Era um começo.

Nos quatro meses seguintes nada de valor surgiu. Enquanto investigavam, Burakov chegou a uma terrível conclusão: Levando-se em conta que o assassino tinha sede de sangue, seu número de vítimas poderia ser muito maior do que apenas os cinco corpos encontrados. Como naquela época, início de 1983, a Rússia ainda estava coberta de neve, seria bem possível que muitos corpos poderiam estar enterrados sob ela e só serem descobertos no verão. Mas apesar da suspeita, o que ele podia fazer naquele momento era investigar aqueles cinco assassinatos. Cinco não! Seis!

Parque dos Aviadores de Rostov


8 de Agosto de 1983

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Enquanto a força tarefa estava concentrada em conseguir alguma pista do assassino de Olga, um grupo de meninos encontrava ossos humanos em um barranco da imensa área do Parque dos Aviadores em Rostov. Parecia que eles tinham mais um assassinato.

O ossos revelaram-se ser de uma menina e, para horror dos investigadores, ela parecia ter Síndrome de Down. Essa descoberta facilitou a vida dos investigadores apesar do horror de saber que o assassino atraiu uma criança com retardo mental que não teria possibilidade de se defender. Investigando em escolas da região, os detetives chegaram até uma adolescente de 13 anos, Irina Dunenkova, que estudava em uma escola para crianças especiais. Incrivelmente, ninguém sentiu falta dela, consequentemente não havia um relatório de desaparecimento.

Um mês depois, o sétimo corpo foi encontrado. Como Irina Dunenkova, a sétima vítima também foi morta no Parque dos Aviadores de Rostov. Mas ao contrário das vítimas anteriores, essa era apenas uma criança, um menino, de apenas 8 anos de idade, o que chocou muitos da Força Tarefa. O menino foi esfaqueado selvagemente, teve os órgãos genitais e olhos removidos e o corpo deixado deitado de bruços. Bom, parecia não haver mais dúvidas. Os policiais soviéticos tinham sete corpos, os sete mortos em áreas isoladas de cidades muito próximas, Rostov, Shakhty, Novocherkassk e Novoshakhtinsk, e todos com o mesmo padrão de ferimentos: mutilação, remoção dos olhos, deixados deitados de bruços… Os crimes pareciam não deixar dúvidas, havia um serial killer agindo na região, e aquela era a sua assinatura.

Entretanto, algo intrigou os policiais, principalmente Viktor Burakov. Naquela época, o conhecimento sobre serial killers não era como hoje, mas de qualquer forma, o sempre a frente do seu tempo Viktor Burakov notou uma coisa estranha: serial killers sempre matam o mesmo tipo de vítima. Homem ou mulher, loira ou morena, criança ou adolescente. Vejam, por exemplo, Jack, O Estripador. Ele só matava prostitutas. Jeffrey Dahmer, por sua vez, somente assassinava homens jovens e atléticos. Já Ted Bundy, assassinava universitárias morenas de cabelos lisos partidos ao meio. Já Pedrinho, o Matador, apenas bandidos. A preferência de Erzsebet Báthory, era por jovens bonitas de seios grandes. Marcelo de Andrade só assassinava crianças de até 13 anos. A resposta para isso é que determinado tipo de vítima representa uma fantasia na mente do serial killer. Mas no nosso caso aqui, parecia ocorrer uma rara exceção. O assassino começou matando adolescentes, depois passou a matar crianças do sexo feminino, como Olga de 10 anos e por fim, também, crianças do sexo masculino, como o último encontrado no Parque dos Aviadores em Rostov. Poderia haver mais de um assassino realizando o mesmo perverso tipo de ritual? Não era o que parecia ser e Burakov concluiu que ele estava lidando com um tipo diferente de serial killer, um homem com perversões contra vários tipos de pessoas: adultos e crianças, homens e mulheres. Um tipo raro, difícil de encontrar. E era essa a sua visão que, claro, não era compartilhada pelo restante da Força Tarefa, e principalmente pelo Alto Comando que dizia que serial killer era “coisa de país capitalista.”

Na Foto: Mapa mostrando a grande cidade de Rostov e suas cidades vizinhas, Novocherkassk, Shakhty e Novoshakhtinsk. Créditos: Maps Google.

Mapa mostrando a grande cidade de Rostov e suas cidades vizinhas, Novocherkassk, Shakhty e Novoshakhtinsk. Créditos: Maps Google.

A polícia soviética tinha agora sete assassinatos com características de assassinatos em série. Todas as vítimas sofreram múltiplos ferimentos a faca, tiveram os olhos arrancados, mutilação genital e órgãos removidos. Em todos os sete casos os policiais não conseguiram uma única prova que levasse ao assassino, nem mesmo haviam testemunhas. Para piorar, os corpos sempre eram encontrados algum tempo depois do assassinato, em diferentes estágios de decomposição, o que prejudicava o trabalho do médico legista.

A investigação andava a passos lentos quando Burakov recebeu um telefonema. Parecia que o assassino havia sido preso.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Yuri Kalenik

O suspeito era Yuri Kalenik, 19 anos. Yuri era um adolescente que durante anos viveu em um lar para crianças com retardo mental. No final de 1983, ele foi pego por uma funcionária de uma casa para deficientes agarrando a força um menino em uma mata ao redor da instituição. Yuri foi preso e interrogado. Ele não teve direito a um advogado ou de permanecer em silêncio. Na verdade, ele mal sabia o que estava acontecendo ali. No entanto, ele negou a autoria dos crimes, o que não convenceu a polícia. Acreditando que ele poderia ser o assassino que agia na região, os detetives o mantiveram preso por vários dias.

E não tardou para que Yuri Kalenik confessasse todos os sete assassinatos. Ele ainda acrescentou quatro outros assassinatos não resolvidos. Era tudo o que os truculentos detetives soviéticos queriam ouvir. Agora, eles só precisavam de provas.

Quando Burakov recebeu a ligação, Yuri já havia confessado os crimes. Burakov então aceitou a tarefa vinda do alto-comando de investigar as declarações de Yuri. Para os padrões de investigação policial da época, ele parecia um suspeito bastante viável. Tinha um distúrbio mental e fora pego tentando agarrar um menino. E além do mais, por que ele confessaria crimes tão brutais se não fosse ele o autor? Na época, e ainda hoje, existia pouca compreensão da psicologia e das chamadas falsas confissões. Pessoas menos inteligentes tendem a ser mais suscetíveis à sugestões, especialmente se estiverem cansadas. Eles dizem o que agradam aos interrogadores, geralmente fornecem pistas que escutam nas próprias perguntas. Um caso que teve grande repercussão no ano passado, e que ilustra bem o que eu digo, é o caso de Thomas Quick. Considerado o pior serial killer da história da Suécia, Thomas Quick, na verdade, era um impostor que durante anos fez falsas confissões de dezenas de assassinatos. Thomas Quick era um astuto observador e conseguia extrair pistas da própria polícia ou de reportagens dos crimes. Ele então dava aquelas pistas e as autoridades aceitavam como uma confissão “que apenas o assassino poderia saber”. Um grande erro das autoridades, principalmente da polícia, é a febre cega em tentar achar um culpado. Na ânsia de culpar alguém, muitas das vezes, eles pegam a pessoa errada.

E foi isso o que aconteceu com Yuri Kalenik. E o primeiro a enxergar isso foi Viktor Burakov. Yuri foi levado aos locais onde corpos foram encontrados e em nenhuma vez conseguiu dizer o local exato onde matara as vítimas. Mesmo quando estava perto do local, ele parecia vagar sem direção. Ao analisar a confissão escrita de Yuri, Burakov se convenceu ainda mais de que aquele não era o homem. Estava claro que Kalenik parecia ter sido intimidado e mais claro ainda eram as informações dadas por ele, informações sem sentido e que qualquer um poderia dar.

A situação, porém, era complicada para Burakov. Ele sabia que aquele suspeito não era o terrível assassino que ele procurava. Mas ao mesmo tempo, o alto-escalão soviético não queria saber. Eles queriam alguém, e esse retardado era o homem ideal. Mas logo Yuri seria deixado de lado porque…

seta

O Oitavo Corpo

O Oitavo Corpo

Shakhty


30 de Outubro de 1983

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Em 30 de outubro de 1983, em uma área florestal, ao lado de uma fábrica de algodão, de Shakhty, os restos mutilados de uma jovem mulher foram encontrados. O mamilo do seio esquerdo, segundo o legista, foi arrancado a dentadas. O seio direito estava cortado e seu abdomem completamente aberto. Não havia sinal do útero e um dos globos oculares estava parcialmente removidos.

O legista concluiu que a mulher havia sido morta à apenas três dias. Isso isentaria totalmente Yuri. E essa vítima foi inteiramente estripada. Parecia que o assassino crescia em sua frenética remoção de órgãos. Mas diferentemente dos outros assassinatos, os olhos não foram totalmente removidos, na verdade, apenas um estava parcialmente fora da órbita. Talvez o assassino tenha mudado seus métodos ou talvez ele possa ter sido interrompido. Os investigadores também encontraram indícios de que houve uma luta entre a vítima e o seu assassino.

Quatro semanas mais tarde um conjunto de restos de ossos foi encontrado em uma floresta não muito longe de onde a última vítima, em Shakhty, foi encontrada. O médico legista concluiu que os olhos dessa nova vítima foram arrancados e que sua morte ocorrera no ano anterior.

E não demoraria muito para que mais corpos fossem encontrados. Em dezembro de 1983, uma mulher foi encontrada morta em uma área rural de Shakhty. Alguns dias depois, em 04 de janeiro de 1984, o corpo de um menino foi encontrado perto dos trilhos de uma ferrovia em Rostov. Ele aparentava estar na casa dos 14 anos e foi brutalmente assassinado. O corpo que posteriormente foi identificado como sendo de um adolescente chamado Sergei Markov, 14 anos, estava bastante conservado devido ao congelante inverno russo.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Sergei MarkovNome: Sergei Markov

Idade: 14 anos

Moradia: Rostov-on-Don

Desaparecimento: 27 de Dezembro de 1983

Ferimentos: Globos oculares foram removidos; confirmação de estupro, órgãos genitais removidos, órgãos internos removidos; ferimentos no corpo do adolescente indicavam, no mínimo, 70 facadas.

Fatos: Sergei Markov desapareceu após sair de casa para uma entrevista de emprego. Provavelmente conheceu o seu assassino dentro de um trem ou em uma plataforma, já que seu corpo estava perto dos trilhos de uma ferrovia de Rostov.

Mikhail Fetisov fez questão de ir ver pessoalmente o corpo e ficou horrorizado com a imagem. O menino havia sido esfaqueado dezenas de vezes no pescoço e, ao todo, o médico legista contou 70 facadas. O assassino abriu sua região pélvica e estripou tudo o que havia dentro. Os testículos e pênis do adolescente foram removidos a faca e estavam “sumidos”. O legista também confirmou que ele foi estuprado.

Claramente Yuri Kalenik não era o responsável pela onda de crimes. Na pressa por achar um culpado, a polícia soviética cometeu um erro.

Mikhail Fetisov decidiu refazer os passos de Sergei no dia em que desapareceu. O menino morava numa cidade chamada Gukovo e foi lá que Fetisov embarcou num trem. Paralelamente a isso, outros detetives seguiam pistas na cidade, e foi lá, em uma casa para doentes mentais, que eles conseguiram uma pista, ou seria mais do mesmo? Professores de uma escola para doentes mentais de Gukovo informaram aos detetives que um estudante da casa, Mikhail Tyapin, 23 anos, havia pego um trem no mesmo horário que os pais de Sergei disseram que o menino saira. (Mais um retardado… o suspeito ideal para a polícia). Mikhail Tyapin, que era um jovem forte e alto, mal sabia falar. Mas isso não importava, o importante… era que ele confessou o assassinato.

Tyapin disse que ele e um amigo, Aleksandr Ponomaryev, toparam com Sergei Markov e o atrairam para a floresta, onde o mataram. A polícia parecia satisfeita com o depoimento de Tyapin que parecia fantasiar sobre a situação. Ele confessou ainda vários outros assassinatos mas, estranhamente, nunca mencionou a remoção dos globos oculares das vítimas. Dessa vez, a “experiência” com esse deficiente mental foi importante para a polícia porque, com o aprofundamento das conversas, eles perceberam que ele estava dando mais uma falsa confissão.

“Em janeiro de 1984, Mikhail Tyapin, um doente mental, foi preso suspeito de assassinar o menino Markov. No entanto, o testemunho dele era tão confuso e contraditório que suas versões desmoronaram diante de nossos olhos.”

[Amurhan Yandiev, investigador do caso]

Os detetives estavam confusos e enquanto Fetisov tinha dúvidas sobre Mikhail, Viktor Burakov tinha certeza absoluta: Ele não era o homem o qual procuravam.

Burakov tinha certeza que o homem, apesar de claramente possuir algum distúrbio mental, não era um qualquer que mal sabia falar. Devia ser um solitário, como um lobo. Não fazia parte de gangues e certamente não era um frequentador de escolas e hospitais para doentes mentais.

Em seguida, a Força Tarefa soviética teve a sua primeira boa prova. O médico legista encontrou sêmen no ânus de Sergei Markov, o que confirmava o estupro. Agora, se eles tivessem algum suspeito, poderiam comparar os antígenos sanguíneos. Claro que essa comparação não era precisa, mas de qualquer forma, serviria para eliminar possíveis suspeitos. E foi isso o que aconteceu. A comparação dos antígenos sanguíneos encontrados no sêmen do assassino eliminou todos que haviam confessado os assassinatos, dentre eles Mikhail Tyapin e Yuri Kalenik (claro! Ele estava preso e não poderia ter cometido esse assassinato, mas por via das dúvidas, os investigadores resolveram fazer a comparação).

O Décimo Segundo Corpo


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Em 10 de janeiro de 1984, o corpo de uma adolescente foi (novamente) encontrado no Parque dos Aviadores em Rostov, não muito longe de onde seis meses antes o corpo de Irina Dunenkova, a menina com Síndrome de Down, foi encontrado. A cabeça da adolescente estava coberta com terra e, ao contrário de vítimas anteriores, ela estava vestida com suas roupas. Ela foi identificada como Natalya Shalapinina, 18 anos. Natalya morava em um vilarejo perto de Rostov e certamente vagava pelas plataformas de trem da região. No dia do assassinato ela foi vista em uma estação de ônibus com um jovem que trabalhava nas proximidades. Ele foi questionado mas a polícia não descobriu nada que pudesse incriminá-lo.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Natalya ShalapininaNome: Natalya Shalapinina

Idade: 18 anos

Moradia: Rostov-on-Don

Desaparecimento: 9 de Janeiro de 1984

Ferimentos: Globos oculares estavam intactos, porém, outras partes do corpo foram removidas, como nariz, dedo, lábio, mamilos.

Fatos: Natalya foi encontrada morta no Parque dos Aviadores em Rostov-on-Don. Já era a terceira vítima encontrada lá. Investigações posteriores confirmaram que ela era amiga de Olga Kuprima, também assassinada pelo mesmo maníaco, mas que a polícia ainda não havia identificado.

Segundo o médico legista, o corpo de Natalya possuía múltiplos ferimentos a faca, incluindo um grave ferimento no coração, que resultou numa grande perda de sangue. Seu nariz, lábios, dedos e mamilos estavam cortados. No entanto, seus olhos estavam intactos.

A polícia também conseguiu uma prova importante: uma pegada deixada na lama, tamanho 45. Na cena do crime, a polícia também conseguiu encontrar vestígios de sêmen.

O relatório do médico legista apontou três fatos significativos: a adolescente tinha piolhos pubianos, seu estômago continha alimento não digerido e não havia sêmen dentro dela. Aparentemente, o assassino se masturbou em cima dela. Era possível também que, devido ao seu estado, ela tenha sido atraída com a promessa de um prato de comida ou até mesmo dinheiro para se prostituir. A polícia verificou em farmácias próximas compras de remédios para tratamento de piolhos mas não encontrou nada. Eles também descobriram que Natalya tinha uma amiga que estava desaparecida desde agosto de 1982. E combinando registros dentários com crânios de vários restos mortais já encontrados, eles fizeram uma importante descoberta. Lembram dos restos mortais encontrados em Kazachi Lagerya, zona rural de Rostov, no dia 27 de outubro de 1982? Então, aqueles restos mortais pertenciam a essa amiga de Natalya, desaparecida em agosto de 1982. Bingo! Mais assustador ainda é que os investigadores chegaram a conclusão que essa amiga de Natalya também fora morta pelo mesmo homem. Mas enquanto ela teve os seus olhos removidos, Natalya não.

A amiga de Natalya era Olga Kuprina, 16 anos, encontrada morta no dia 27 de outubro de 1982. Ambas eram amigas e moravam no mesmo vilarejo, Kazachi Lagerya.

“No dia 10 de agosto (1982), ela chegou em casa muito tarde, umas 03 horas da manhã. Perguntei pra ela onde ela estava e ela não respondeu. Eu bati no seu rosto duas vezes. Ela saiu dizendo que nunca mais voltaria para casa e nunca mais a vi.”

[Testemunho da mãe de Olga Kuprina, retirado do livro “Hunting the Devil”]

Investigando os passos da adolescente Olga Kuprina após sair da casa da mãe, os investigadores descobriram que ela ficara na casa de uma amiga, Natasha Shalopininoy, numa fazenda no distrito de Zolotarevka. As garotas, típicas “rebeldes sem causa”, gostavam de fumar, beber e sair com rapazes. O falatório na região era que Natasha era uma mulher “dada”, do tipo que as mulheres chamam de prostituta e os homens de fácil. Um certo dia sua amiga Olga simplesmente desapareceu e ela nunca mais a viu. Natasha também conhecia Natalya e essa relação estabelecida entre as duas vítimas deu aos investigadores um novo rumo. Talvez o assassino tenha procurado entre os amigos mútuos das duas meninas.

Mas a polícia não teve muito tempo para investigar essa hipótese pois, em fevereiro de 1984, uma outra vítima seria encontrada em Rostov. E novamente, a vítima fora morta no Parque dos Aviadores da cidade. A quarta a ser encontrada lá.

Marta Ryabenko – A mais velha das vítimas


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A identidade da vítima foi descoberta rapidamente. Ela era Marta Ryabenko, 45 anos, moradora do centro de Rostov. Investigadores descobriram que ela era fora casada até 1977. Era uma mulher sem estudos e que se prostituia para sobreviver. Foi presa em 1976 depois de uma briga num bar e novamente presa em 1980 sob acusação de “contaminação deliberada de DST’s”. Ela foi internada para tratamento de sífilis mas fugiu. Marta era um tipo fácil para assassinos, o tipo de mulher que um homem poderia facilmente ganhar oferecendo uma dose de vodka.

Conhecidos disseram sobre o seu difícil comportamento e vício em álcool. Exames feitos pelo legista comprovaram que no momento de sua morte, ela estava bêbada. O perfil de Marta mostrou claramente aos investigadores a preferência do assassino: Prostitutas, mulheres bêbadas, crianças de famílias pobres e doentes mentais. Pessoas que, normalmente, são taxadas pelas pessoas de a “escória” da sociedade.

O modo de vida das vítimas facilitava a ação do maníaco. Ninguém prestava atenção nessas pessoas, elas eram invisíveis para a sociedade. Mas não invisíveis para ele. Muitas vezes nem mesmo a família dava queixa de desaparecimentos, como no caso de Olga e Irina Dunenkova. Isso era um obstáculo para a investigação pois era difícil determinar a rota de uma possível vítima. Se era difícil identificar uma, imagine tentar antecipar ao próximo assassinato?

Na Foto: O corpo de Marta Ryabenko, 45 anos, encontrado em 21 de fevereiro de 1984 no Parque dos Aviadores em Rostov.

O corpo de Marta Ryabenko, 45 anos, encontrado em 21 de fevereiro de 1984 no Parque dos Aviadores em Rostov.

Sabendo que Marta Ryabenko tinha uma vida promíscua com histórico de doenças sexualmente transmissíveis, os investigadores russos pensaram: Talvez o assassino seja alguém da mesma “laia”, um promíscuo que sai e mata prostitutas. Provavelmente ele tenha alguma DST e, se sim, talvez ele tenha frequentado alguma clínica para tratamento. O Ministério Público de Rostov, que acompanhava o caso, enviou um ofício a pedido da polícia:

“Ao Cirurgião Geral das Clínicas de DST’s da região de Rostov, camarada Omegovu VK,

O Ministério Público da Federação Russa está investigando o caso de vários assassinatos de mulheres e homens por motivos sexuais na região de Rostov. O criminoso ainda não foi detido.

Devido à percepção da necessidade de investigação do presente caso, peço-lhe que forneça o mais rápido possível ao Departamento de Polícia de Rostov-on-Don, as listas de homens que frequentam as clínicas (nome completo, data de nascimento, local de residência, diagnóstico), bem como a lista de homens que procuram especialistas sobre distúrbios da próstata e que fazem queixas sobre a falta de atração por mulheres, incapazes de ter uma relação sexual normal.

Investigador do Gabinete do Procurador da Rússia, promotor criminalista e Conselheiro de Justiça VI Kazakov.”

O pedido do Ministério Público foi atendido, mas as investigações de homens que frequentavam clínicas de DST’s não deram resultados expressivos.

Ação de serial killer divide opiniões


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Na maioria dos casos os investigadores encontravam o mesmo padrão de vida das vítimas. Tirando as crianças, a maioria das mulheres vítimas do assassino levavam uma vida promíscua, possuíam doenças sexualmente transmissíveis como gonorreia e sífilis e não tinham moradia fixa, vivendo em estações de trem, postos de gasolina…

Ao lidar com essa ideia, os investigadores suspeitaram que o número de vítimas poderia ser bem maior. Essas pessoas que vivem à margem da sociedade, normalmente não tem alguém para reclamar o seu sumiço. Era bem possível que o assassino pudesse ter feito várias outras vítimas e essas estivessem apodrecendo em algum lugar esperando para serem descobertas. E tirando Viktor Burakov, que acreditava que os assassinatos eram obra de apenas um homem, a maioria dos investigadores acreditavam que os assassinatos eram obras de vários assassinos. O fato das vítimas serem mulheres e crianças (estas de ambas os sexos), contribuía para esse pensamento. Como dito, serial killers costumam matar apenas um tipo de pessoa, talvez nesse caso, existam vários assassinos agindo ao mesmo tempo. De qualquer forma, os ferimentos semelhantes em todas as vítimas quebravam a cabeça dos investigadores. Neste impasse lógico, o que eles podiam fazer era aumentar o efetivo de policiais patrulhando as regiões onde vários dos corpos foram encontrados. E uma dessas regiões era o Parque dos Aviadores de Rostov onde quatro corpos mutilados foram encontrados. Não é preciso ser muito inteligente para imaginar que o assassino tinha familiaridade com aquele lugar. Talvez ele morasse por perto e vagasse por lá em busca de vítimas.

Em 26 de fevereiro de 1984, o aumento no efetivo de policiais para patrulhar o parque surtiu efeito. Nesse dia, um homem foi preso nas entranhas do Parque tentando estuprar uma criança. Ele era N. Beskorsy, um carregador que trabalhava no aeroporto de Rostov. Sob tortura ou não, o cara confessou os dois últimos assassinatos ocorridos naquele lugar. O interessante é ver as incoerências de dois dos seus depoimentos. Isso mostra que (provavelmente) ele foi coagido:

“No dia 21 de fevereiro estava indo trabalhar depois das 17 horas quando vi uma mulher de casaco em um ponto de ônibus perto do aeroporto. Fui até uma loja e comprei vinho, fomos até o bosque onde tivemos relações sexuais. Depois ela foi embora.”

[Depoimento dado por N. Beskorsy no dia em que foi preso]

“Comecei a trabalhar no aeroporto e perto de um ponto de ônibus conheci uma mulher com um casaco. Comprei um vinho e fomos até o bosque onde tivemos uma relação sexual. Ela pediu mais uma vez e eu recusei. Nós brigamos e ela me bateu com um pau. Eu tinha uma faca e comecei a esfaqueá-la.”

[Depoimento dado por N. Beskorsy um mês após ser preso]

Beskorsy foi levado ao Parque dos Aviadores para reconhecer os locais onde os corpos foram encontrados mas pareceu perdido. Diante do promotor, que acompanhava o caso dos assassinatos, ele abriu a boca e disse que foi espancado e coagido pelos policiais russos para confessar os crimes. Fim da história! Beskorsy foi condenado a três anos de prisão por tentativa de estupro.

O mais interessante é que, enquanto os detetives espancavam Beskorsy, o assassino continuava sua onda de horrores. Em 11 de março de 1984, um cadáver esquelético foi encontrado em uma área florestal da cidade de Shakhty. O cadáver continha os ferimentos padrões dos vários assassinatos anteriores e a julgar pelo estado dos restos, os investigadores concluíram que a vítima estava ali a pelo menos seis meses. Peritos concluíram ser uma mulher na faixa dos 20-30 anos. O crânio foi restaurado, o que deu uma vaga fisionomia da vítima. De acordo com essa reconstituição craniana, os legistas concluíram que ela poderia ser uma doente mental.

Com base nesse pressuposto, a equipe de investigação enviou detetives para áreas adjacentes de Rostov-on-Don para investigar mulheres com deficiência mental de 20 a 30 anos. A investigação trouxe como resultado centenas de documentos de instituições mentais de mulheres que se encaixavam no perfil. Aprofundando-se na documentação, os investigadores descobriram uma mulher chamada Lyudmila Kushuba, 24 anos, desaparecida da região de Volgogrado, antiga Stalingrado. Exames confirmaram a identificação: O cadáver encontrado em uma floresta de Shakhty era mesmo de Lyudmila.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Lyudmila Kushuba Nome: Lyudmila Kushuba

Idade: 24 anos

Moradia: Volvogrado, distante 400 quilômetros de Rostov

Desaparecimento: julho de 1983

Ferimentos: O legista concluiu que os globos oculares de Lyudmila foram removidos; assim como o seu útero,

Fatos: O corpo de Lyudmila foi encontrado em 11 março de 1984 nos arredores de uma estação de ônibus da cidade de Shakhty. A mulher, na verdade, não sofria de deficiência mental e morava a mais de 400 quilômetros de distância de onde foi encontrada, fato que intrigou a equipe de investigadores.

O dano no crânio de Lyudmila, que levou os peritos a suspeitarem de que ela sofria de alguma doença mental, foi causado por uma queda quando criança. Posteriormente ela passou por um hospital que guardou toda documentação do seu tratamento. Ela morava com duas crianças adotadas e em julho de 1983 desapareceu depois de fazer uma viagem para Mamayev Kurgan, um ponto turístico de Volvogrado, muito visitado devido a um monumento construído pelo governo russo para lembrar a famosa batalha de Stalingrado, durante a II Guerra Mundial.

O assassinato intrigou a equipe de investigadores pois Volvogrado ficava distante 400 quilômetros de Shakhty. Todos os assassinatos até aqui ocorreram na região de Rostov-on-Don, principalmente em Rostov e cidades adjacentes como Shakhty, Novocherkassk e Novoshakhtinsk. Estaria o assassino procurando novos ares? Para Burakov, isso confirmou ainda mais sua suspeita de que ele era um homem acima de qualquer suspeita. Levando-se em consideração que o assassino tenha pego a vítima em alguma estação de trem em Volvogrado, ele a ludibriou e ambos viajaram 400 quilômetros até Shakhty, um local onde ele se sentia a vontade e já havia matado.

Poucos dias depois da descoberta dos restos mortais de Lyudmila, a equipe de investigação recebeu uma chamada da polícia de Novoshakhtinsk. Uma criança de 10 anos desapareçera sem deixar rastros. Dmitriy Ptashnikov saiu para comprar selos num mercado perto de sua casa e não voltou. Investigações iniciais apontaram que o garoto pertencia a uma família completamente normal e feliz. Ia bem na escola e gostava de colecionar selos. Certamente não era o tipo de criança que poderia fugir de casa depois de apanhar do pai. Buscas foram organizadas pela polícia e por familiares. Os pais ficaram assombrados pois pouco mais de um ano antes, na mesma Novoshakhtinsk, Olga Stalmachenok, que também tinha 10 anos, havia sido morta selvagemente.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Dmitriy PtashnikovNome: Dmitriy Ptashnikov

Idade: 10 anos

Moradia: Novoshakhtinsk

Desaparecimento: 24 de março de 1984

Obs.: Dmitriy Ptashnikov vinha de uma família unida e carinhosa. Ele costumava ir até um mercado próximo onde podia comprar selos para sua coleção. No dia 24 de março, como de costume, ele foi até o mercado para comprar novos selos para o seu livro. Ele nunca mais voltou. A polícia de Novoshakhtinsk comunicou o seu desaparecimento para a Força Tarefa que investigava os assassinatos em série na região e na mesma hora Mikhail Fetisov enviou homens a cidade para ajudar nas buscas e ao mesmo tempo coletar informações.

E o destino do pequeno Dimitriy foi perturbador. O pior dos temores se concretizou no dia 27 de março de 1984, três dias após ele desaparecer. Em uma faixa florestal de Novoshakhtinsk, o cadáver de uma criança foi encontrado coberto com terra por homens que passavam pelo local. O cadáver tinha sinais de tortura e indicava que a vítima sofrera uma violenta morte. Ao lado havia uma grande pegada.

Era Dmitriy Ptashnikov. Seu corpo foi mutilado por 54 facadas. Seu pênis e testículos foram removidos e a ponta da língua cortada. De acordo com o médico legista, Dmitriy sofreu lesões severas no coração, pulmão, intestino e rins. Seu reto indicava que ele sofrera violência sexual, e uma pequena quantidade de esperma confirmou a suspeita. Pelo esperma, especialistas extraíram o antígeno sanguíneo do assassino: AB.

Investigando o assassinato de Dmitriy, os detetives conseguiram algo até então inédito em toda investigação. Testemunhas afirmaram que viram o garoto com um homem alto, de joelhos rígidos e pés grandes. O homem também usava óculos, chapéu e um casaco. Ele carregava uma pasta e andava de forma estranha, “meio duro”, segundo eles. O homem alto e de chapéu conversava animadamente com o garoto, o que levou os investigadores a concluírem que o assassino não arrastou ou bateu em Dmitriy, ao contrário, o menino foi de encontro à morte por livre e espontânea vontade. Ele confiou no homem. Talvez eles se conhecessem, pensaram os investigadores. Ou pior: o serial killer pode ter se aproximado do garoto e visto que ele gostava de selos e usado isso como uma arma para matá-lo.

“Olhe Dmitriy, sou um grande colecionador de selos, tenho muitíssimos em minha casa na floresta, gostaria de trocar alguns?”

Isso seria tudo o que uma criança como Dmitriy gostaria de ouvir. E realmente foi isso o que ele ouviu. O dono da revistaria disse que vendeu um livro de selos para Dmitriy e quando ele ia embora viu se aproximar um homem com um jornal nas mãos. Ele não viu mais nada pois começou a atender outros clientes, mas uma outra testemunha disse que ouviu os dois conversando e que o homem disse ser um colecionador de selos. O homem de chapéu prometeu trocar selos com Dmitriy e disse a ele que o traria de volta para o ponto de ônibus quando ambos terminassem.

Na Foto: Mercado em Novoshakhtinsk onde Dimitriy Ptashnikov foi comprar selos em 24 de março de 1984. Créditos: Hunting The Devil.

Mercado em Novoshakhtinsk onde Dimitriy Ptashnikov foi comprar selos em 24 de março de 1984. Créditos: Hunting The Devil.

O testemunho dos que viram Dimitriy com o homem de chapéu ajudou a polícia a fazer um retrato falado do assassino:

“Pouco antes do assassinato de Dmitriy Ptashnikov, em Novoshakhtinsk em 24 de março de 1984, o menino foi visto em companhia de um homem desconhecido: idade acima de 40 anos, estatura média pra alta, magro, ombros e face alongada, nariz grande. Vestia um chapéu, calça cinza e sapatos pretos grandes. Usava um óculos grande de cor escura e de fabricação nacional. Carregava uma pasta preta com uma alça ao meio.”

Na Foto: Seria essa a cara do maníaco que castrava meninos e arrancava o útero de mulheres? Na imagem acima o retrato falado feito pela polícia soviética em abril de 1984 após o assassinato de Dmitriy

Seria essa a cara do maníaco que castrava meninos e arrancava o útero de mulheres? Na imagem acima o retrato falado feito pela polícia soviética em abril de 1984 após o assassinato de Dmitriy Ptashnikov.

O horrendo assassinato de Dmitriy colocou uma enorme pressão sobre a polícia. Confusão e desespero para pegar o assassino misturavam-se. Era comum suspeitos serem presos e confessarem os crimes. Mas para Viktor Burakov, apenas uma olhada bastava. Ele liberava a maioria dos detidos, o que enfurecia alguns dos seus superiores. Foi repreendido várias vezes por seus superiores que queriam a qualquer custo a cabeça do maníaco. Mas Burakov sabia que não estava caçando um doente mental qualquer ou um Zé ninguém pertencente a uma gangue. Sua opinião de que o assassino não era o típico criminoso que a polícia estava acostumada a lidar dividia a Força Tarefa. Ele também foi repreendido por chamar um cientista forense de Moscou para analisar as amostras de sêmen. É bom lembrar que o sistema soviético não tolerava insubordinações e, além de lutar contra um sádico e letal serial killer, Burakov tinha ainda que lutar contra a burocracia e cegueira do alto escalão comunista. Sua luta e coragem, porém, trouxe resultados. O cientista forense que ele chamou, analisou as amostras e concluiu que o sangue do assassino era do tipo AB e isso fez com que toda uma lista de suspeitos fosse descartada.

A essa altura, a influência de Viktor Burakov nas investigações fez com que todos se concentrassem num inimigo comum, ou seja, as linhas de investigação foram orientadas para um único caminho, a de que todas essas mortes foram causadas por um único homem, ou seja, um serial killer. Duzentos homens e mulheres trabalhavam direta e indiretamente no caso. A operação de caça ao serial killer foi oficialmente batizada de:

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Lesopolosa: Os Assassinatos do Estripador da Floresta

Lesopolosa: Os Assassinatos do Estripador da Floresta

Corpos e mais corpos


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Em julho e agosto de 1984, corpos mutilados eram encontrados quase que semanalmente, principalmente nas florestas que circundavam Rostov. Jovens mulheres e crianças eram achados sem os olhos, encharcados de sangue e com membros amputados. Mas o horror maior começou quando, em 05 de julho de 1984, a polícia encontrou restos mortais de uma menina aparentando ter entre 10 e 12 anos nos arredores de Shakhty. Fazendo um pente fino ao redor da cena do crime, 20 dias depois, a polícia encontraria outro corpo a apenas algumas centenas de metros de distância. Os novos restos pertenciam a mulher com idade entre 30 e 35 anos.

Investigando as duas mortes, a polícia suspeitou que os corpos poderiam ser de mãe e filha. Isso deixou-os completamente horrorizados. Mãe e filha mortas brutalmente pelo Estripador da Floresta.

O perito legista concluiu que ambas foram mortas com dezenas de facadas. Mas exames mostraram diferenças significativas no tempo de morte entre as duas, um mês de diferença. Isso fez esfriar a teoria de que ambos os corpos poderiam ser de mãe e filha. A criança e a mulher permaneceram sem identidade.

Quase que ao mesmo tempo em que o corpo da mulher era encontrado, no dia 25 de julho de 1984, outro corpo mutilado apareceu ao lado dos trilhos de uma ferrovia em Shakhty. Dessa vez era uma adolescente com múltiplos ferimentos pelo corpo, os olhos removidos, coxas, peitos e a região pubiana estavam estraçalhados. Mamilos e úteros foram arrancados pelo assassino. Examinando as roupas da vítima, a polícia encontrou um bilhete, e nele estava escrito: Masalsky Shubnikov.

Quem poderia ser esse Masalsky Shubnikov?

Naquele momento, para a polícia, achar o tal Masalsky era mais importante do que determinar a identidade da vítima, e foi isso o que eles fizeram. No bilhete, além do nome, estava escrito um endereço. E foi para este endereço que uma equipe de policiais se deslocou.

Os policiais chegaram até o endereço e bateram na porta. Ninguém atendeu. Bateram novamente e nada. Parecia que não havia ninguém naquela casa. E quando eles se preparavam para ir embora… quem chega?

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“Nós temos algumas perguntas”, disseram os policiais.

Masalsky não parecia ser o terrível assassino que eles procuravam. Era um homem trabalhador e que estava tendo dificuldades em casa por causa da mulher doente. Por ela precisar de cuidados constantes, Masalsky publicou um anúncio no jornal contratando uma moça para cuidar de sua mulher doente enquanto ele passava o dia fora de casa no trabalho. Masalsky disse que ninguém havia aparecido ou ligado para ele com interesse no trabalho. Mas como explicar o seu nome e endereço num papel na calça de uma mulher assassinada?

Logo a jovem morta foi identificada como Anna Lemesheva, 19 anos, uma estudante de Shakhty. Será que Anna se interessou pelo trabalho, anotou o nome de Masalsky e seu endereço, e quando ia para o local foi morta pelo Estripador da Floresta? Ou teria Masalsky alguma coisa a ver com o crime? Por vias das dúvidas, a polícia o manteve preso durante uma semana.

Na Foto: Imagem tirada do local onde Anna Lemesheva, 19 anos, foi encontrada morta no dia de julho de 1984.

Imagem tirada do local onde Anna Lemesheva, 19 anos, foi encontrada morta no dia de julho de 1984.

Sua casa foi revistada, mas nada de comprometedor foi encontrado. Seus colegas de trabalho também disseram que ele era um homem muito bom, um ativista do comunismo, ativista social e que fazia trabalhos educacionais voluntários. Nenhuma evidência que o ligasse ao assassinato de Anna Lemesheva foi encontrado, e ele foi solto.

Com toda a vigilância, era inevitável que alguns homens fossem seguidos e presos, e este procedimento produzia vez ou outra suspeitos interessantes, mas que logo eram descartados. Alguns até se tornaram informantes. No final de julho de 1984, Viktor Burakov tentou uma cartada para pegar o assassino. Ele colocou policiais disfarçados em estações de ônibus e trem, bosques e parques. No Parque dos Aviadores em Rostov, onde várias vítimas foram mortas, policiais disfarçados de ciclistas, vendedores ambulantes e corredores foram colocados aos montes.

Mas as dezenas de policiais disfarçados não foram páreo para o assassino. Em 3 de agosto de 1984, o cadáver de uma adolescente foi encontrado no mesmo Parque dos Aviadores onde dezenas de policiais patrulhavam dia e noite. O local do crime não era escondido, ao contrário, o assassino poderia ter sido facilmente visto. Mas não foi! A poucos metros do local do crime existia um playground para crianças. Algumas escutaram um grito, mas não deram muita importância. Elas não poderiam saber, mas naquele momento, uma jovem estava sendo morta pelo Estripador da Floresta. É espantoso ver que o assassino tenha abordado uma jovem a poucos metros de testemunhas, isso mostrou para os policiais duas coisas: Ou ele era um assassino muito arrogante ou sua compulsão em matar era muito maior do que o perigo em ser visto.

O corpo tinha os ferimentos típicos indicando semelhanças óbvias com os assassinatos anteriores, mas com um diferencial: a maioria das lesões ocorreu post-mortem. A boca da vítima estava cheia de folhas e terra, o que levou os investigadores a concluírem que o assassino tentou abafar seus gritos.

Uma semana depois, restos mortais foram encontrados numa floresta ao lado de uma estação de ônibus em Rostov. O lugar, calmo e abandonado, permitiu ao assassino desferir 39 facadas na vítima. Os seios foram cortados, o abdômen aberto, o útero removido… O crânio foi levado para que peritos fizessem um molde de sua aparência. Quando o retrato foi feito, ela foi identificada como Lyudmila Alekseyeva Kulevatsky, 17 anos, uma adolescente que desapareceu misteriosamente no dia 7 de agosto de 1984. A polícia descobriu que seu irmão, Vadim, 27 anos, reportou o seu desaparecimento 10 dias antes.

Lyudmila Alekseeva

Na Foto: Vadim Kulevatsky.

Lyudmila, irmã de Vadim, desapareceu misteriosamente no dia 7 de agosto de 1984. A estudante de Rostov saiu para ir a escola e nunca mais voltou. Vadim foi até a polícia e fez inúmeras buscas por sua irmã, tudo em vão.

O número de corpos crescia assustadoramente e apesar do retrato falado, nenhum bom suspeito foi preso. Os investigadores procuravam um homem entre 25 e 30 anos, bem apessoado e sangue tipo AB. Ele era cuidadoso e tinha, pelo menos, inteligência média, e muito provavelmente era uma pessoa persuasiva. Ele poderia viajar a trabalho, o que explicaria os corpos em florestas perto de estações de trem. Ele poderia ser casado ou, talvez, morasse com a mãe. A ideia de que ele poderia ser um ex-paciente de clínicas psiquiátricas agradava alguns investigadores. Ele também poderia ter sido um abusador no passado e ter algum tipo de conhecimento de anatomia e habilidades com facas. Qualquer pessoa que se encaixasse nessa descrição era interrogado e submetido a um exame de sangue.

A imprensa não foi autorizada a escrever histórias sobre os assassinatos. Nenhum aviso foi dado a população, consequentemente crianças e jovens saiam sem a companhia dos seus pais (o que certamente beneficiava a ação do serial killer).

Aleksandr Chepel, 11 anos


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Serial Killers - O Estripador da Floresta - Alexander ChepelNome: Aleksandr Chepel

Idade: 11 anos

Moradia: Rostov

Desaparecimento: 28 de agosto de 1984

Ferimentos: O corpo de Aleksandr Chepel possuía os típicos ferimentos das vítimas anteriores. Sofreu múltiplas facadas no tórax, teve o pênis, testículos e o globo ocular direito removidos. Seus lábios tinham ferimentos compatíveis com mordidas.

Obs.: Aleksandr Chepel desapareceu quando ia para um cinema junto com um amigo. Ele foi encontrado morto um dia após o seu desaparecimento. Seu corpo estava às margens do Rio Don, bem perto de onde dias antes o corpo de Lyudmila Alekseyeva foi encontrado. Numa cena macabra, o menino, castrado, foi deixado com as pernas abertas.

Um claro indício de crime motivado por razões sexuais.

Clique nos links abaixo e veja imagens do cadáver de Aleksandr Chepel

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Na semana seguinte, mais corpos foram encontrados. O serial killer parecia viver um frenesi assassino interminável. Nos dias 02, 06 e 09 de setembro, três corpos mutilados brilhavam em florestas de Rostov. Dois deles, novamente, no Parque dos Aviadores, o que deixou Burakov raivoso. Entretanto, uma das vítimas parecia ter sido morta meses antes. Mas a outra não.

Veja abaixo o cadáver de Irina Luchinskaya, 24 anos, morta pelo serial killer conhecido como “O Estripador da Floresta”, no Parque dos Aviadores, em Rostov, no dia 06 de setembro de 1984.

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Na Foto: O cadáver de Irina Luchinskaya, morta no dia 06 de setembro de 1984 no Parque dos Aviadores em Rostov.

O cadáver de Irina Luchinskaya, morta no dia 6 de setembro de 1984 no Parque dos Aviadores em Rostov.

Clique no Link Abaixo e Veja Outra Imagem do Cadáver de Irina Luchinskaya

Foto1

O número de corpos descobertos era tão assustador que os investigadores não tinham tempo em investigar a identidade das vítimas. Se resolver um assassinato é difícil, imaginem mais de uma dúzia? Com o incrível número de cadáveres descobertos dia após dia, uma nova equipe de investigadores criminais enviados pelo governo soviético chegou a Rostov-on-Don. E nesta nova equipe havia um especialista em medicina forense que, como diria minha tia, já chegou causando.

Voltando às descobertas feitas em julho de 1984, quando o corpo de uma criança e de uma mulher foram encontrados em Shakhty, o novo perito vindo de Moscou, após estudar laudos médicos, relatórios das cenas do crimes e outros materiais, sugeriu que a informação de que havia uma diferença significativa entre os assassinatos da criança e da mulher não tinham fundamento. Começou-se então uma verdadeira discussão entre vários peritos sobre esse fato e no final das contas eles concluíram que sim, a criança e a mulher poderiam ter sido mortas no mesmo dia. E se elas foram mortas no mesmo dia, elas poderiam ser mãe… e filha.

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Os peritos decidiram fazer uma comparação morfológica dos crânios para verificar se as vítimas poderiam ser realmente mãe e filha. Um estudo científico baseado em dados da antropologia, anatomia, medicina e técnicas de identificação forense foi realizado. Os crânios dos cadáveres foram comparados não só entre eles mas também com 12 outros crânios selecionados aleatoriamente de uma coleção da Universidade de Rostov. O trabalho dos peritos soviéticos mostrou resultados interessantes.

Segundo o laudo final, a semelhança dos crânios estudados era significativa, 65% das características estudadas se repetiam. Ou seja, as vítimas encontradas em uma floresta em Shakhty poderiam sim ser mãe e filha.

De posse dessa informação, os investigadores chegaram aos nomes de Tatyana Petrosyan, 32 anos, e Svetlana Petrosyan, 11 anos, mãe e filha, desaparecidas no dia 25 de maio de 1984. Certamente essa possibilidade foi um choque para os policiais, mas tudo o que eles não tinham naquele momento era tempo para ficarem em choque. Depois de tantos corpos mutilados nos últimos dois anos, o melhor que eles podiam fazer era caçar o assassino, mesmo que isso significasse colocar todas as emoções para debaixo do pano.

A mãe de Tatyana foi questionada e ela disse que a filha não era casada, mas que tinha muitos pretendentes. Ela não soube dizer sobre eles mas lembrou que no dia do seu desaparecimento, a filha disse que estava saindo para encontrar com um conhecido, um professor. O nome dele? A mãe de Tatyana também não soube dizer. Um “professor” era uma pista muito vaga para os investigadores, mas de qualquer forma era melhor do que nada.

Alguns dias depois a triste notícia confirmada por peritos: Aqueles dois corpos encontrados em julho de 1984 em uma área florestal de Shakhty eram sim de mãe e filha, Tatyana Petrosyan e Svetlana Petrosyan. Mãe e filha, mortas pelo Estripador da Floresta. Isso foi algo que realmente mexeu com toda a Força Tarefa. Perguntas ficaram: O que teria acontecido? Tatyana conhecia o assassino? Seria o tal professor o serial killer? Será que o assassino a convidou para sair com a intenção de matá-la e foi surpreendido quando Tatyana chegou com sua filha? E então decidiu matar as duas? Ou será que no caminho de encontro até o professor, o serial killer abordou mãe e filha em alguma estação de trem e as ludibriou levando-as de encontro a morte?

“Quando confrontado por vários pistoleiros, um pistoleiro experiente sempre dispara primeiro no melhor deles”, diz o personagem W.W. Beauchamp no oscarizado filme Os Imperdoáveis de 1992. E é exatamente isso o que a Força Tarefa dos crimes do Estripador da Floresta pensou com relação às mortes de Tatyana e Svetlana.

Para eles, o serial killer era um assassino que ludibriava suas vítimas e as surpreendiam quando elas menos esperavam. Neste caso, ele não poderia atacar primeiro a criança, pois certamente a mãe entraria em luta corporal com ele e até mesmo poderia salvar sua filha. Se a mãe corresse, também seria mais difícil de pegá-la. Acredita-se que o assassino atacou primeiramente a “presa” maior, a mãe. Crianças, ao ver os pais ser atacados, podem ter vários tipos de reações, desde ficarem paralisadas de medo até correr, mas se correrem, podem ser facilmente pegas por um adulto, ainda mais num ambiente fechado como uma floresta. E foi isso o que aconteceu. Neste caso, parece que Svetlana correu ao ver a mãe ser atacada, mas não conseguiu ir muito longe. Peritos concluíram que a menina foi morta com golpes na cabeça oriundos de um objeto bastante contundente, nas palavras deles, um martelo.

Na Foto: Tatyana Petrosyan e sua filha Svetlana Petrosyan. Desaparecidas em maio de 1984, os corpos de mãe e filha foram encontrados dois meses depois em uma área florestal de Shakhty.

Tatyana Petrosyan e sua filha Svetlana Petrosyan. Desaparecidas em maio de 1984, os corpos de mãe e filha foram encontrados dois meses depois em uma área florestal de Shakhty.

Um suspeito em potencial


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“Tivemos que lidar com assassinatos extraordinários e que nunca havíamos lidado antes. Não havia nenhum banco de dados de testemunhas ou evidências físicas. Os corpos sempre eram encontrados nos últimos estágios de preservação. Era muito preocupante. Nos estágios finais da investigação, houve uma pergunta sobre os motivos dos crimes. Que tipo de pessoa cometeria crimes tão violentos? Qual seu aspecto moral? Perfil psicológico? Grupo social? Vários funcionários de instituições psiquiátricas se envolveram e nos deram ideias e algumas recomendações.”

[Viktor Burakov]

A julgar pela natureza dos ferimentos, o assassino parecia estar bastante familiarizado com a anatomia humana, e isso implicava algum grau de educação médica. Era impossível ignorar o fato do assassino remover órgãos, genitais e, em alguns casos, os membros de suas vítimas. Talvez algum médico utilize os órgãos ou genitais para transplantes ou operações de mudança de sexo, pensaram os investigadores. Os genitais e órgãos não eram encontrados nas cenas dos crimes e isso levou os investigadores a pensar em todas as possibilidades.

O Rostov Medical Institute havia sido o primeiro lugar na Rússia a fazer uma operação de mudança de sexo em 1972. Posteriormente a cirurgia foi proibida, mas quem sabe algum médico não opere clandestinamente? Essa linha de investigação foi levada adiante, mas logo seria deixada de lado quando um forte suspeito para o caso foi preso.

Shakhty, 13 de setembro de 1984

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“No dia 13 de setembro de 1984, eu estava de plantão em uma estação de ônibus em Shakhty com meu parceiro Ahmed Ahmathanovym, quando notamos um homem alto, com cerca de 1,90m, magro, na casa dos 45 anos. Seu rosto tinha um semblante comum. Ele usava óculos, não tinha chapéu e carregava uma maleta. Ele se comportou de maneira suspeita e decididmos observá-lo”.

[Trecho do relatório do Policial A. Zanasovksy]

Zanasovksy e seu parceiro, Ahmathanovym, estavam a paisana quando notaram um homem mais velho em uma estação de ônibus na cidade de Rostov em atitude suspeita. O homem conversou com uma adolescente e quando essa entrou dentro de um ônibus, ele circulou pela área e sentou-se ao lado de um outro jovem. Aquele era um comportamento suspeito para os policiais e eles decidiram seguí-lo.

“Ele entrou dentro de um ônibus e o seguimos. Ele parecia muito à vontade e sempre ficava torcendo sua cabeça de um lado para o outro”, dizia o relatório de Zanasovksy.

Os policiais seguiram o homem e durante todo o tempo ele abordava mulheres. Em dado momento, aquele bizarro sujeito sentou ao lado de uma mulher e depois de algumas conversas ela agachou-se em seu colo e começou a fazer movimentos suspeitos. O homem tampou sua cabeça com seu casaco, mas os policiais sabiam muito bem o que estava acontecendo ali: sexo oral. Os policiais o abordaram. Ele identificou-se como Andrei Romanovich Chikatilo, um alto membro do Partido Comunista, casado e gerente de uma fábrica de locomotivas. Ele disse que estava andando a negócios, mas os policiais não caíram na sua conversa, eles o estavam seguindo e viram o seu estranho comportamento.

Zanasovksy pegou sua pasta e resolveu revistá-la. Encontrou vários papéis de um homem a negócios certo? Errado! A pasta continha um pote de vaselina, uma faca de cozinha, um pedaço de corda e uma toalha suja.

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O policial sentiu um frio na espinha, afinal, aquele homem parecia estar caçando vítimas, ele abordava várias mulheres e ainda carregava uma pasta contendo uma faca. Para Zanasovksy e seu parceiro, esse homem tinha que se explicar. Ele foi levado para uma delegacia em Rostov e logo os investigadores encontraram vestígios de sangue em sua faca e carteira. Zanasovksy escreveu um relatório recomendando ao Alto Comando uma investigação mais apurada sobre Andrei Romanovich Chikatilo.

Um procurador chegou e interrogou o homem, mas as esperanças de que ele fosse o terrível Estripador da Floresta foram por água abaixo quando exames sanguíneos mostraram que o seu tipo sanguíneo era A e não AB. Além disso, Andrei Chikatilo não se encaixava no perfil de criminoso que a Força Tarefa buscava. Ele era um conhecido e notório membro do Partido Comunista, com muito boas referências, casado, pai de dois filhos, um homem com várias universidades. Apesar da ducha de água fria, os investigadores o mantiveram preso por mais dois dias pressionando-o na esperança de uma confissão. Ele negou tudo, embora tenha admitido uma “fraqueza sexual”. Parecia que na busca pelo serial killer, os policiais se depararam com um pervertido que usava algumas horas do seu dia para procurar mulheres nas ruas. Mas quantos homens assim não existem? Quantos homens bem sucedidos e, aparentemente, acima de qualquer suspeita, não saem à noite caçando prostitutas para realizarem seus desejos sexuais? E mesmo que ele tenha uma mulher em casa?

O fato é que Andrei Chikatilo não tinha o tipo sanguíneo do assassino, e isso era uma prova científica que o excluía definitivamente como suspeito do caso. Ponto final!

E a investigação voltava para a estaca zero. Sem testemunhas e evidências físicas, a polícia sentiu que a investigação estava completamente fora de controle. Para piorar, promotores e autoridades do alto escalão soviético interferiam nas investigações e divergências entre os detetives eram comuns. Apesar de Igor Kalenik ainda estar preso (sim, ele continuava preso) e corpos continuarem à aparecer, muitos acreditavam na sua culpa. Alguns detetives chegaram à argumentar que amigos de Kalenik estariam cometendo os assassinatos como uma forma de inocentá-lo.

“…muitos assassinatos ocorreram após a prisão de um jovem com deficiência mental [Kalenik]. Entretanto, seus amigos estão soltos e eles podem estar cometendo esses crimes numa tentativa de desviar as suspeitas sobre o amigo preso,” escreveu um investigador, de nome não identificado, para o Procurador Geral de Rostov-on-Don, Vladimir Kakarov.

Era comum a queda de braço entre o grupo liderado pelo Procurador Geral de Rostov-on-Don, Vladimir Kakarov, promotores e detetives que cuidavam do caso. Cada um com linhas de pensamentos diferentes, e mesmo dentro de cada grupo, existiam divergências. Nessa salada de egos, cada um queria impor sua forma de investigação e até mesmo qual grupo de suspeitos deveriam ser investigados. Os doentes mentais continuavam a ser os preferidos.

O rastro de sangue de um serial killer


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O ano de 1984 terminava com um horror nunca antes visto na União Soviética. Em 1983, foram cinco corpos encontrados, e até o final do verão de 1984, as autoridades contariam incríveis 24 vítimas, assassinadas, provavelmente, pelo mesmo homem. Digo “provavelmente”, pois ainda existiam aqueles que não acreditavam que todas as mortes foram causadas pelo Estripador da Floresta. Mas sempre que o sêmen era deixado para trás, era provado ter o mesmo antígeno: AB. Havia também um único fio de cabelo grisalho retirado de uma vítima, cabelo que parecia ser de homem. O assassino claramente aumentou o seu ritmo de assassinatos de um ano para o outro. Do lado positivo, se é que podemos tirar um lado positivo disso, esse aumento frenético no número de vítimas poderia fazer o assassino cometer um erro. Mas esse parecia ser o tipo de homem que não cometia erros.

Ele também parecia ter mudado seu padrão. Antes ele removia os olhos das vítimas, mas as últimas encontradas estavam com seus olhos intactos. Mas se agora ele não removia os olhos, o mesmo não se podia dizer de outras partes do corpo. Se antes ele não removia algumas partes, agora sim. Lábios, narizes e dedos eram removidos e, as vezes, deixados dentro da cavidade abdominal aberta das vítimas. Úteros, pênis e testículos continuavam a ser removidos, e nenhum sinal deles era encontrado nas cenas dos crimes. O serial killer os levava para casa? Uma espécie de troféu de caça? Ou ele…

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Os Comia?

Canibalismo

Um levantamento no fim de 1984 traçou um raio-x dos assassinatos:

Estatísticas

Estatísticas

As análises dessas estatísticas e de várias outras levantadas pelos investigadores possibilitou que as autoridades chegassem à algumas conclusões:

  • a) os crimes foram cometidos por pessoa (ou pessoas) já condenado anteriormente por crimes semelhantes;
  • b) cometido por um homossexual (pelos sinais de estupro de meninos);
  • c) possui veículo pessoal ou de trabalho;
  • d) tem transtornos mentais (devido à natureza do dano, manifestação de sadismo, mutilação, etc);
  • e) pode ser um ex-funcionário do governo (usa da autoridade para levar as vítimas até locais ermos);
  • f) relevante domínio de medicina: enfermeiro, ginecologista, médicos legistas, …;

Mas não eram só os médicos que estavam na lista negra das autoridades soviéticas. Trabalhadores ferroviários, açougueiros, ex-combatentes que serviram no Afeganistão, professores de escolas e universidades também estavam na mira.

É bom dizer-lhes que essas conclusões, na verdade, foram quase que impostas por “engomadinhos” que ficavam sentados em salas com ar-condicionados, leia-se: os promotores do caso e homens do escritório do Procurador Geral. É claro que muitos dos investigadores, aqueles que realmente estavam lidando com o caso dia a dia, concordavam com as conclusões, mas muitos outros não, e Viktor Burakov era um dos que não concordavam.

A maioria das vítimas eram encontradas em florestas ao redor de estações de trem, mas isso não pareceu ser um forte indício para os engomados. Para eles, o assassino não usava o sistema de transporte soviético, ele provavelmente usava um carro. Outro fato que fez Burakov ficar irritado foi a suposição de que o assassino fosse um ex-funcionário do governo. Para o Procurador Geral, o assassino poderia até mesmo ter trabalhado num Ministério soviético e só não foi pego porque teria acesso às informações da investigação, portanto, estando sempre um passo à frente deles. Essa conclusão do Procurador Geral fez com que o subordinado Burakov e dezenas de outros investigadores passassem meses investigando quase quatro mil funcionários e ex-funcionários de Ministérios soviéticos.

E o alto escalão do Partido Comunista russo não gostou nenhum pouco das suspeitas do Procurador Geral de Rostov-on-Don e chegou a mandar um homem para se juntar à investigação e dar o seu parecer. Depois de várias discussões na cidade, o representante do Partido escreveu um extenso relatório de 42 páginas onde dizia, entre outras coisas: “…a versão apresentada, como um todo, é correta…”

A verdade era que o caso, apesar de ser investigado por policiais e experts em criminologia, como Viktor Burakov, estava nas mãos de pessoas que não tinham nenhum tipo de conhecimento na área. Um procurador traçar o perfil de um sádico assassino? E dizer que ele é homossexual só porque castra meninos? O problema para Burakov se tornou ainda maior com o relatório do representante do governo soviético apoiando o escritório da procuradoria. Burakov não tinha o que fazer senão obedecer. E estamos em plena era soviética, é claro que ele não desobedeceria uma ordem vinda de cima. “Vocês querem que eu investigue homossexuais? Então vamos investigar! Vocês querem que eu investigue quem tem carro? Então vamos investigar!”, deve ter pensado Burakov.

Proprietários e motoristas de 163.939 veículos, seja carro, micro-ônibus ou qualquer outro veículo, foram investigados. Mais de dez mil doentes mentais também caíram nas mãos dos detetives, 440 deles tinham o mesmo tipo sanguíneo do assassino. Outros 440 desses doentes mentais eram homossexuais com propensões a cometerem abusos sexuais. Mil quatrocentos e vinte e sete professores, 7236 trabalhadores ferroviários e 342 ex-funcionários de necrotério também foram investigados. Vários crimes foram descobertos durante essa investigação, mas nenhuma pista que desse, pelo menos, um vislumbre do serial killer.

Posso afirmar com convicção que a investigação dos milhares de doentes mentais foi uma grande perda de tempo para a Polícia. O escritório do Procurador Geral de Rostov tinha certeza que o assassino era um deles, e a ordem para que os investigassem fez com que muito tempo fosse desperdiçado.

O trabalho com doentes mentais era difícil e estressante. A maioria eram incoerentes, confusos e inconsistentes. Muitos nem entravam na sala e já confessavam os crimes. E com 24 corpos nas costas, os investigadores não podiam deixar de apurar o testemunho, mesmo que aquele cara que estava ali fosse um louco varrido ou um delirante paranoico achando ser Napoleão Bonaparte.

Estressado e frustrado por achar que as investigações estavam sendo levadas pelo caminho errado, Viktor Burakov decidiu quebrar o protocolo e consultar (na surdina) especialistas psiquiátricos em Moscou. Ele queria saber o que eles achavam da ideia de uma única pessoa matar mulheres e crianças, e essas, de ambos os sexos. A maioria dos especialistas consultados se mostraram desinteressados pelo caso e não disseram muita coisa. Entretanto, um psiquiatra chamado Alexander Bukhanovsky concordou em estudar os poucos detalhes conhecidos do caso, bem como os padrões das cenas dos crimes, para tentar traçar um perfil do serial killer. Bukhanovsky era um especialista em patologias sexuais e esquizofrenia e estava disposto a assumir os riscos de traçar um perfil as escondidas e com uma meia dúzia de dados fornecidos por Burakov. Este incomum caso o interessou. Na verdade, mentes perturbadas fascinavam o psiquiatra. Depois de algum tempo, ele enviou a Viktor Burakov um relatório de 7 páginas.

O assassino segundo Alexander Bukhanovsky


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O assassino, segundo ele, tinha desvio sexual; tinha entre 25 e 50 anos e cerca de 1,80 metros. Para o psiquiatra, o homem sofria de algum tipo de inadequação sexual e cegou suas vítimas para impedi-las de olhar para ele. Ele também brutalizou seus corpos, em parte, por causa de sua frustração e, em parte, para aumentar sua própria satisfação. Ele era um sadista que tinha dificuldade em obter alívio sem cometer crueldade. Muitas vezes sadistas gostam de infligir ferimentos superficiais em suas vítimas, fato evidente em muitos dos corpos encontrados. Ele também era compulsivo, buscava a todo custo saciar sua necessidade de matar. Ele poderia sofrer de dores de cabeça e não era retardado ou esquizofrênico. Ele tinha o controle da situação e poderia elaborar um plano e segui-lo. Era uma pessoa solitária e as mortes foram causadas unicamente por ele.

Trabalhar com a ideia de que o assassino tinha uma disfunção sexual fez o obstinado Viktor Burakov procurar por registros de homens condenados por crimes sexuais. E nessa sua pesquisa ele se deparou com um homem chamado Valery Ivanenko, um homem que havia cometido vários atos de “perversão” e era considerado psicótico. Olhando em sua ficha, Burakov percebeu que ele havia encontrado o melhor dos suspeitos até agora.

Valery Ivanenko era um carismático ex-professor de 46 anos. Hmmmm… professor? Era alto e usava óculos. Estava internado em um hospital psiquiátrico de Rostov quando escapou. Valery estava livre e certamente poderia ser o assassino. Seu perfil caía como uma luva para o que eles tinham até agora. Testemunhas do caso Dmitriy Ptashnikov, o viram conversando com um homem alto, de meia-idade e que usava óculos. A mãe de Tatyana Petrosyan, morta em maio de 1984, disse que ela saíra para encontrar um professor. Além disso, Valery passara um tempo num hospital psiquiátrico. Sim ou não, ele era muito interessante. Burakov montou uma armadilha para pegá-lo. Colocou homens vigiando o apartamento da mãe do ex-professor e a arapuca pegou o gato. Seria o pervertido Valery o terrível Estripador da Floresta?

E mais uma vez um bom suspeito seria inocentado pelo seu tipo sanguíneo. O sangue de Valery Ivanenko era do tipo A e isso o eliminou da suspeita. Não era ele! Mas Burakov propôs um acordo: Ele ajudaria a polícia a investigar a população gay da região (ele era homossexual) e em troca seria libertado. E Valery provou ser um informante muito bom. Suas informações levavam a outras pessoas que por sua vez levavam a outras. Com essas pessoas sob pressão, Viktor Burakov tornou-se um “especialista” no submundo de perversidades e violência de Rostov.

Mas apesar do trabalho, Burakov sentia que a investigação não produzia nada de concreto. Os homossexuais investigados com a ajuda de Valery não se encaixavam no perfil do terrível serial killer estripador e, para Burakov, isso era uma prova de que as suspeitas do Procurador de Rostov eram erradas. Burakov (após perder um bom tempo) mudou a linha de investigação para os heterossexuais. Talvez o serial killer seja um heterossexual incapaz de manter relações sexuais normais. Burakov precisava de mais detalhes da mente doentia do assassino. Mas como? Se ele não podia convocar especialistas de fora?

1985 – Um ano de descanso?


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A pressão para resolver os crimes ocorridos era forte. Ao longo dos 10 meses seguintes, apenas dois corpos foram encontrados. Uma delas era o de uma jovem mulher (em 03 de agosto de 1985) encontrada nos arredores do aeroporto de Moscou. Mas esperem, Moscou? A capital russa era muito longe de Rostov, distante mais de mil quilômetros. Teria o assassino mudado para lá? Viajado para lá? Burakov foi até Moscou verificar o assassinato. E o assassinato da garota em Moscou era tão semelhante aos crimes ocorridos na área de Rostov que ele chegou a conclusão de que o assassino, por algum motivo, havia estado lá. A vítima tinha os ferimentos típicos: mamilos arrancados à mordidas, âbdomen cortado, o útero removido…

Burakov verificou as listas de vôos para Moscou, olhando cuidadosamente pelos bilhetes que, na época, eram escritos à mão. Hotéis na cidade foram incumbidos de fornecer qualquer informação de hóspedes vindos de Rostov, Shakhty, Novocherkassk ou Novoshakhtinsk. Alguns homens vindos de Shakhty foram interrogados mas logo liberados. A investigação não deu resultdos e eles voltaram à estaca zero.

Ainda em Moscou, detetives da cidade informaram a Burakov que três jovens garotos haviam sido mortos nos últimos meses. Os três foram estuprados e um deles decapitado. Ao analisar a data das mortes, Burakov percebeu que os crimes coincidiam com o interrompimento de assassinatos ocorridos na região de Rostov. Entretanto, Burakov não pode investigar a fundo o assassinato em Moscou, isso porque algumas semanas depois, um outro corpo seria encontrado em uma floresta nos arredores da cidade de Shakhty.

No pé de uma árvore de uma área florestal de Shakthy, o corpo de uma adolescente de 18 anos era encontrado. Sua boca estava cheia de folhas, assim como a adolescente encontrada semanas antes em Moscou. Ela tinha dois fios, azul e vermelho, debaixo de suas unhas. Entre os seus dedos, os peritos retiraram um fio de cabelo grisalho, semelhante a um encontrado na cena de um assassinato anterior. Mais uma vez, o perito legista conseguiu extrair o tipo sanguíneo do assassino: AB.

Alguns meses depois, em novembro de 1985, por iniciativa no Ministério do Interior russo, o Procurador Geral da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas convocou uma reunião extraordinária para discutir os trabalhos do caso do Estripador da Floresta. Pela primeira vez, o caso era pauta no mais alto nível do governo soviético. Estavam presentes o Ministro do Interior russo, o Procurador Geral do governo, o Procurador Geral de Rostov-on-Don, e promotores de Rostov. Ficou decidido na reunião que as investigações deveriam ser realizadas em dois locais: Rostov e Shakhty, cidades palcos da maioria dos assassinatos. A investigação geral do caso passou para as mãos de Issa Kostoyev, um procurador especial que já havia trabalhado em casos de crimes violentos.

Na Foto: Issa Kostoyev

Issa Kostoyev. Em meados de 1985, uma reunião do alto escalão do governo soviético decidiu que as investigações do caso “O Estripador da Floresta” fossem passadas para as mãos de Issa Kostoyev, um experiente investigador. Na foto acima, Kostoyev é fotografado em 2010.

Enquanto homens de terno decidiam os futuros das investigações, vários detetives trabalhavam disfarçados em estações de trem e ônibus de Rostov e Shakhty. Policiais femininas também foram usadas na tentativa de atrair o assassino.

Issa Kostoyev chegou em Rostov mostrando a sua já conhecida arrogância. Ele estudou o caso e concluiu que a investigação não havia sido bem conduzida, em outras palavras, chamou a todos de incompetentes.

“Era um arrogante e egoísta, sem meio termo.”

[Amurhan Yandiev, investigador do caso Estripador da Floresa, sobre Issa Kostoyev]

Enquanto isso, Yuri Kalenik continuava preso aguardando a conclusão do seu inquérito que havia sido adiado devido às investigações relacionadas aos novos corpos encontrados. Coitado, não? Isso irritou Issa Kostoyev.

“Eu aceitei o caso por ordem do Procurador Geral da União Soviética. Não tenho tempo para culpar alguém por deixar um doente mental dois anos preso.” 

[Issa Kostoyev]

Mas apesar de inocentar Kalenik, Issa Kostoyev voltou à velha linha de que o assassino era um doente mental. Investigadores como Mikhail Fetisov e Viktor Burakov, que já trabalhavam no caso a mais de dois anos, ficaram irritados com isso. Era como se um novato estivesse chegando com uma ideia que fora levada em consideração por toda investigação e que provara ser um erro. Dessa maneira as investigações voltariam à estaca zero (até porque, até aqui, tudo quanto é doente mental de Rostov, Shakhty e etc já havia sido investigado)

1986 – Dois serial killers


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Em abril de 1986, Issa Kostoyev iniciou uma grande operação de patrulha em todas as linhas de trens que cortavam Rostov-on-Don. Grupos de policiais praticamente escoltavam mulheres e crianças pelas linhas de toda região. Estações de ônibus também eram patrulhadas dia e noite. Mas apesar do grande contingente de policiais nas estações, em 26 de junho de 1986, um corpo foi encontrado em uma faixa florestal na região de Bataysk, uma cidade vizinha a Rostov. O corpo de uma jovem mulher continha lesões semelhantes aos crimes cometidos pelo Estripador da Floresta. Cerca de dois meses depois, um outro corpo foi encontrado na mesma região. Essas duas últimas descobertas causaram divergências sobre à autoria dos assassinatos.

“O cadáver da mulher tinha ferimentos parecidos com os anteriores. Em agosto, outro cadáver foi descoberto ao lado de uma unidade militar. Surgiu a suspeita de que o maníaco pudesse ser do exército, mas depois de dois meses de trabalho nada pôde ser comprovado. As lesões eram semelhantes mas nem todos concordavam que eram obra do mesmo assassino.”

[Amurhan Yandiev, investigador]

Issa Kostoyev era um deles. Para ele, esses corpos encontrados em Bataysk não eram obra do Estripador da Floresta e sim de… um outro serial killer.

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Isso mesmo, se não bastasse o horror de investigar um sanguinário e sádico serial killer de mulheres e crianças, a polícia agora concluía que havia outro serial killer agindo na região. As duas vítimas encontradas em Bataysk foram oficialmente incluídas na contagem de um outro não identificado serial killer.

Numa tentativa de dar mais agilidade nas investigações, Issa Kostoyev subdividiu os dois grupos principais de investigação (o de Rostov e Shakhty) em sete sub-grupos, cada um responsável por uma linha investigativa. Os sete sub-grupos interagiam entre si e as informações mais valiosas eram passadas para Kostoyev. No final das contas, a mando de Kostoyev, os detetives acabavam investigando pacientes psiquiátricos e homossexuais. Nesse vai e vem, Issa Kostoyev conheceu Irina Stadnichenko, uma assessora do governo que atuava numa clínica psiquiátrica de Rostov. Na antiga União Soviética, ser homossexual era um crime punível com até 5 anos de detenção. O trabalho de Irina era ajudar os médicos da clínica a evitar o surto da AIDS, ou seja, se eles descobrissem qualquer homossexual nas ruas, ele tinha uma grande chance de ser internado para “tratamento”.

Kostoyev gostou de Irina e a convidou para trabalhar no caso do Estripador da Floresta. Ela não aceitou, mas deu umas dicas a Kostoyev, uma delas era que se ele quisesse pegar o assassino, primeiro ele deveria entender a sua mente. Para isso ela lhe indicou a leitura da clássica obra sobre maníacos sexuais Psychopathia sexualis do alemão Richard von Krafft-Ebing (baixe essa obra clicando aqui). “O livro está desatualizado, mas a polícia russa têm usado com sucesso. Sugiro que você leia”, disse ela.

Para Irina, Kostoyev deveria abrir sua mente e não considerar apenas como suspeitos doentes mentais e homossexuais. Kostoyev mergulhou de cabeça na obra do psiquiatra alemão e também descobriu uma edição rara do livro Crimes and Criminals in Western Culture, de B. Utevsky, que incluia um capítulo inteiro detalhando casos onde assassinos esquartejavam ou desfiguravam suas vítimas.

Enquanto isso, o sempre à frente Viktor Burakov mais uma vez pedia ajuda ao psiquiatra Alexander Bukhanovsky. Mas agora, Burakov forneceria todos os arquivos do caso ao médico psiquiatra. Agora o médico poderia escrever um perfil muito mais completo do serial killer. E o médico não decepcionou. Ele passou meses debruçado sobre as centenas de páginas do caso e escreveu 65 folhas, rascunhando tudo o que poderia fazer sentido para ele: homossexuais, disfunção sexual, necrofilia, necrosadismo, etc.

“Se a primeira conclusão de Bukhanovksy em 1985 foi um esboço, agora já era algo sério, íntegro e muito promissor.”

[Viktor Burakov]

Bukhanovsky chamou o serial killer de:

seta

X

X não é psicótico, pois ele está no controle daquilo que ele faz e ele está claramente interessado em fazer isso. Ele é narcisista e arrogante, o considero talentoso, embora indevidamente inteligente. Ele faz planos mas não é criativo. Ele é heterossexual e o (assassinato) de meninos é um substituto vicário. Ele é um necrosadista, ele necessita assistir as pessoas morrendo para atingir satisfação sexual.

Para tornas as vítimas impotentes, ele os bate na cabeça. Após isso, o múltiplo esfaqueamento é uma forma de entrar sexualmente dentro delas. Ele pode usar a lâmina de sua faca como um substituto do seu pênis, usando-a como se estivesse penetrando sexualmente as vítimas. Ele pode tanto montar como agachar ao lado delas, ficando o mais próximo possível. Os cortes mais profundos representam o auge do seu prazer e ele pode ejacular espontaneamente ou masturbar com a mão.

Existem muitas razões pelas quais ele poderia remover os olhos e nada nas cenas dos crimes mostrou o que realmente motivou X. Ele pode ficar excitado com os olhos ou temê-los. Ele pode acreditar que sua imagem possa ficar gravada nos olhos das vítimas, uma superstição tida por alguns. Cortar os órgãos sexuais é uma manifestação de poder sobre as mulheres. Ele pode mantê-los consigo ou pode também comê-los. A remoção dos órgãos sexuais dos meninos pode ser uma forma de neutralizá-los e assim fazer com que eles se pareçam mais com uma mulher.

Um interessante ponto é a hipótese de que X age de acordo com as mudanças climáticas. Antes da maioria dos assassinatos, a temperatura estava baixa. Isso pode ser um gatilho, especialmente se coincidir com outros fatores estressantes em casa ou no trabalho.

[Trecho do perfil traçado pelo psiquiatra Alexsandr Bukhanovsky] 

O médico psiquiatra não precisou uma certeza sobre sua altura e ocupação, mas disse que X deveria ter entre 1,70m e 1,82m, entre 45 e 50 anos, idade em que perversões sexuais, muitas das vezes, são mais desenvolvidas. Tinha uma aparência discreta e força física média. Pode ter trabalhado algum tempo como professor ou tutor e ser formado em filosofia, história ou psicologia. Para o médico, era bastante provável que X tivera uma infância difícil e que guardava um conflito dentro de si. X tinha uma rica fantasia de vida mas uma anormal resposta à sua sexualidade. O psiquiatra também ficou em dúvidas se X poderia ou não ser casado, ou se tinha filhos. Mas se ele fosse casado, certamente sua esposa não o confrontava com perguntas sobre suas viagens ou andanças. Era uma esposa submissa.

Ainda para o psiquiatra, X era compulsivo, mas poderia parar de matar (por algum tempo) se sentisse em perigo ou que poderia ser pego, entretanto, ele nunca pararia de matar. Para o psiquiatra, X apenas pararia de matar se fosse pego ou morresse.

“Psiquiatras do Instituto Médico de Rostov disseram que os assassinatos tinham motivação sexual. Sim, mas o que o motiva? Sua sexualidade expandida? Como explicar a natureza do dano? Os múltiplos ferimentos? A remoção dos genitais e globos oculares? Se entendessemos isso ficaria mais claro. Havia um monte de opiniões diferentes mas a mais interessante veio de Alexander Bukhanovsky. Ele tentou dar um retrato do homem, suas características psicológicas e explicar o seu comportamento.”

[Viktor Burakov]

Três das 65 páginas com as conclusões finais do psiquiatra Alexander Bukhanovsky sobre o Estripador da Floresta podem ser vistas neste link (Obs.: conteúdo em língua russa).

Enquanto isso, os peritos em caligrafia finalmente traçaram uma assinatura do assassino com base no estranho cartão postal “O Sádico Gato Preto”. Catorze suspeitos foram eliminados, suspeitos os quais Burakov não acreditava estarem envolvidos nos assassinatos em série. Apesar do bom trabalho do psiquiatra Alexandr Bukhanovsky, a cada dia que passava, Burakov e toda a Força Tarefa dos assassinatos do Estripador da Floresta eram assombrados com a possibilidade de que o assassino nunca fosse pego.

No final de 1986, após 4 anos de intensos trabalhos, Viktor Burakov teve um colapso nervoso. Fraco e exausto, ele não conseguia dormir e foi parar em um hospital onde ficou internado durante um mês. Ao sair, o major Mikhail Fetisov obrigou-o a passar mais um mês longe do caso, descansando. Ele podia estar descansando, mas sua mente não, o macabro serial killer matador de mulheres e crianças não saia da sua cabeça e ele não iria desistir de pegá-lo.

O tempo de descanso para Burakov foi proveitoso. Ele pôde pensar com mais calma e refazer suas estratégias. Analisando o caso friamente ele chegou a uma conclusão que detetive nenhum gostaria de chegar. O serial killer já matava há quatro anos, mais de 20 corpos jaziam mutilados em florestas nos arredores de cidades como Rostov e Shakhty. O assasino também era métodico, não deixava pistas… Mas uma hora ele cometeria um erro. Mas ele só poderia cometer um erro se assassinasse novamente. Por mais triste que pudesse ser, essa era a única esperança que Burakov tinha naquele momento. Esperar que o serial killer atacasse novamente e rezar para que ele cometesse um erro.

1987


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O ano de 1986 terminava como começou: com a polícia caçando o Estripador da Floresta. Diferentemente dos anos anteriores, o assassino pareceu bastante calmo. Dois corpos apenas foram encontrados em junho e agosto de 1986, e mesmo assim a polícia concluiu que ambas as mortes foram cometidas por um outro serial killer, portanto, o Estripador da Floresta, estranhamente, não matara durante aquele ano. O que teria acontecido com ele? Morreu? Certamente a polícia tinha mais perguntas do que respostas. E o ano de 1987 pareceu ser um espelho do ano anterior. Os meses passavam e nada de corpos.

Diferentemente do ano de 1986, os parques infantis e praias artificiais do rio Don em Rostov estavam cheios de crianças durante o verão. À essa altura, todos sabiam dos rumores na região de que havia um maníaco que comia criancinhas. Os pais não desgrudavam dos seus filhos. Os amantes da natureza só eram assombrados pelo contínuo movimento de helicópteros da Força Aérea Soviética nos céus de Rostov. Os militares contribuíram com a operação fornecendo equipes para monitorar a região. Qualquer casal apaixonado que namorava no meio de árvores nas florestas era prontamente abordado por equipes de policiais a paisana.

O ano transcorria sem maiores problemas, bom, sem maiores problemas mas com a mesma sobrecarga de tarefas. Não é porque corpos não estavam aparecendo que eles estavam mais tranquilos, Kostoyev queria a todo custo capturar o maníaco, e em agosto de 1987 algo aconteceu.

Um homem andava à noite nas margens do rio Don em Rostov quando os faróis do seu carro iluminaram algo saindo da mata. O que era aquilo??? O homem parou e viu uma mulher rastejando pedindo por ajuda. Seu rosto estava ensanguentado e ela não conseguia falar coisa com coisa. O homem a levou para o hospital e os médicos fizeram tudo que estavam ao seu alcançe para salvá-la. E eles conseguiram. A mulher parecia ter sido vítima de um brutal estupro e tentativa de homicídio. Ela havia sido esfaqueada 21 vezes, 17 golpes atingiram à área do pulmão. Logo a notícia da sobrevivente chegaria aos ouvidos de Issa Kostoyev que ficou em estado de excitação pura ao saber do caso. Seria ela uma sobrevivente do Estripador da Floresta?

Quando a mulher recobrou a consciência, lá estava o investigador e desenhista Amurhan Yandiev sentado ao seu lado com um bloquinho de notas, caneta e um gravador. Ele começou a fazer perguntas, mas a vítima apenas gemia, sussurrando palavras. Com suas poucas informações, Yandiev conseguiu fazer um esboço do agressor. Um homem com mais de 30 anos e de bigode. Poucos minutos depois a vítima entraria em coma. Entretanto, Yandiev fez um retrato falado do suspeito e no outro dia a descrição estava espalhada em todas delegacias da região. Não demorou para que um policial reconhecesse o homem do retrato falado, um tal de Misha Chumachenko, um ex-policial e viciado em drogas que fora demitido da polícia por roubar drogas apreendidas.

Quando policiais o encontraram, ele estava sem o bigode, mas estava claro pela superfície esbranquiçada de sua pele que ele raspara os pelos a poucas horas. Outros dois suspeitos também foram presos através da descrição feita pela mulher, eles tinham o mesmo peso, idade, cor, cabelo e bigode. Os três suspeitos foram enfileirados e em cada um deles foi colocado uma placa numerada: 1, 2, e 3. De posse de um gravador e câmera de vídeo, Amurhan Yandiev pediu para que cada um lesse uma frase. De posse da gravação e do vídeo gravado, Yandiev voltou ao hospital para conversar com a vítima, que nesse ponto já tinha saído do coma.

“Você só precisa falar qual o número”, disse Yandiev.

“Dois”, respondeu a mulher.

E o número dois era Misha Chumachenko. O ex-policial foi preso e pelos próximos seis meses ficou nas mãos de Kostoyev e outros investigadores, mas o ex-drogado, estava longe de ser o temível Estripador da Floresta. Certamente o serial killer não usava drogas e o seu vício era outro, o seu vício era matar. Com o tempo, as tentativas de ligar Misha aos assassinatos foram diminuindo até desaparecer por completo. Posterioremente Misha Chumachenko foi condenado por estupro e tentativa de assassinato.

1988


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Com o passar do tempo, era cada vez mais óbvio a queda no número de assassinatos cometidos pelo serial killer. O número atingiu o seu pico em 1984 e nos três anos seguintes foi caindo até desaparecer por completo em 1986 e 1987. Nenhum corpo foi encontrado nesses anos tirando os dois corpos descobertos em Bataysk que a polícia concluiu como sendo obra de um segundo serial killer. Crimes semelhantes aconteceram em outras partes da União Soviética, mas ninguém podia garantir se eles eram obra do Estripador da Floresta. No fundo, a equipe de investigação estava com um amargo gosto de derrota e decepção. Muitos começaram a perder o interesse no caso. Brigas e ciúmes eram comuns. A maioria não gostava do estilo autoritário de Issa Kostoyev, um comportamento reminiscente da era Stálin.

O ano de 1988 chegava e com ele o rigoroso inverno russo. Se havia mais um corpo deixado para trás pelo assassino, Burakov e companhia teriam que esperar a neve derreter. E foi isso o que aconteceu. Em 06 de abril de 1988, o corpo nu de uma mulher brilhou perto dos trilhos da ferrovia de Krasny Sulin, uma pequena cidade ao norte de Novoshakhtinsk. Suas mãos estavam amarradas para trás, seu crânio estava esmagado, a ponta do nariz decepada, cabeça, peito e mãos salpicadas de sangue. Aparentemente não havia sinais de agressão sexual e os seus olhos estavam intactos. Uma pegada grande tamanho 43-44 foi encontrada nas proximidades. Testemunhas ouvidas disseram ter visto a mulher no local, mas sem nenhum acompanhante.

Na Foto: Localização da cidade de Krasny Sulin, ao norte de Novoshakhtinsk e Shakhty.

Localização da cidade de Krasny Sulin, ao norte de Novoshakhtinsk e Shakhty.

O assassinato acontecera perto da linha de trem que liga Krasny Sulin a Shakhty. Isso deu aos investigadores a certeza absoluta que o assassino usava as linhas ferroviárias para matar e, provavelmente, o fazia quando estava fora do trabalho, por exemplo, durante uma viagem. A natureza dos ferimentos na vítima, porém, era diferente da maioria dos assassinatos anteriores. Não havia danos nos olhos, os seios não haviam sido cortados ou picados, seu abdômen estava intacto, assim como sua genitalia. Ela parecia ter sido morta com uma pancada na cabeça. Olhando para trás, apenas a menina Svetlana Petrosyan, 11 anos, que fora assassinada juntamente com a mãe em 1984, foi morta de forma semelhante. No caso de Svetlana, ela foi morta a golpes de martelo.

No final das contas, essa vítima permaneceu sem identificação, e não foi inserida na contagem do Estripador da Floresta. Os investigadores concluiram que ela foi assassinada por outra pessoa e não pelo serial killer mutilador.

Um mês depois o corpo de uma criança de 9 anos foi encontrado em uma floresta na Ucrânia. Ele havia sido estuprado e estripado. Seu abdômen, aberto, fora preenchido com lama. Ele também tinha vários ferimentos a faca pelo corpo e o perito concluiu que ele foi morto com um golpe no crânio. Ele também foi castrado. Esse assassinato chamou à atenção dos investigadores pois era o primeiro não ocorrido na região de Rostov. O corpo do menino foi encontrado perto da estação de Ilovaisk, uma das estações intermediárias que liga Rostov a Kiev, Ucrânia. Poderia o menino ter sido vítima do Estripador da Floresta? Se sim, o que ele estaria fazendo na Ucrânia? Parecia que o serial killer estava buscando novos ares, pegando um trem e matando a ermo pela União Soviética.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Aleksey VoronkoNome: Aleksey Voronko

Idade: 09 anos

Moradia: Ilovaisk, Ucrânia

Desaparecimento: 15 de maio de 1988

Ferimentos: Pênis, testículos e órgãos internos removidos. Ferimento no crânio que, segundo o legista, foi o responsável pela causa mortis. Várias facadas pelo corpo.

Obs.: Aleksey morava em Ilovaisk, uma cidade do interior ucraniano cuja linha Rostov-Kiev passa pela cidade. Seu corpo foi encontrado no dia 17 de maio de 1988 e os ferimentos no seu corpo eram bastante similares com os assassinatos em série ocorridos em Rostov e cidades adjacentes.

Ao contrário da mulher assassinada em Krasny Sulin, o menino foi rapidamente identificado como Aleksei Voronko, desaparecido à apenas dois dias. Uma testemunha, uma criança, amiga da vítima, disse aos investigadores que viu Aleksei com um homem de meia-idade com dentes de ouro, bigode e uma mochila de esportes. Eles teriam ido juntos até a floresta.

Essa certamente foi uma grande pista recebida pela polícia. Se a criança estaria inventando ou não, se estivesse enganada ou não, isso não importava. O que importava era que os investigadores tinham uma descrição importante do suposto assassino de Aleksei. Certamente naquela região, poucos adultos poderiam pagar por dentes de ouro. Talvez um rápido questionamento com dentistas da região poderia dar a identidade do tal homem de meia idade. Só que mais uma vez, a Força Tarefa voltaria de mãos vazias. O interrogatório com dentistas da região não revelou nenhum suspeito que pudesse ter dentes de ouro. Mas isso era até meio que esperado pelos detetives, afinal, se Aleksey realmente fora uma vítima do Maníaco de Rostov, certamente o assassino não frequentava os dentistas dali.

Dois meses depois, em 14 de julho de 1988, Yevgeniy Muratov, um adolescente de 15 anos, desapareceu misteriosamente de Rostov. Ele havia ido até a cidade para participar de um processo de seleção de emprego e desapareceu. Nenhum das dezenas de policiais que patrulhavam as estações de Rostov disse ter visto o garoto ou notado nada de suspeito. Não havia nenhuma testemunha. Muratov simplestemente evaporou! O adolescente foi mais um que integrou uma lista de desaparecidos da região que a polícia mantinha. E todos esses desaparecidos, principalmente os que usavam trens como transporte, foram colocados na lista de possíveis vítimas do estripador.

Não bastasse isso, os detetives tiveram uma notícia alarmante. Segundo especialistas do Ministério da Saúde russo, os investigadores cometeram um erro gravíssimo ao supor que o tipo sanguíneo retirado de secreções (nesse caso retirado do sêmen do assassino) tinha a mesma validade do retirado de amostras de sangue. Em outras palavras, os resultados de todos os testes feitos anteriormente nos vários suspeitos do caso não eram precisos. Segundo o Ministério da Saúde, existiam casos em que o tipo sanguíneo extraído de secreções e o tipo sanguíneo extraído de amostras de sangue da mesma pessoa não correspondiam. Conclusão: Todos os suspeitos liberados anteriormente por terem seu tipo sanguíneo diferente de AB poderiam ser o assassino.

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Ao mesmo tempo que isso foi uma frustrante notícia, também dava esperanças aos investigadores sobre alguns dos suspeitos que já haviam sido investigados. Dava esperanças mas ao mesmo tempo frustração. Para refazer os exames, os investigadores teriam que recolher amostras de sêmen das dezenas de suspeitos do caso e essas doações teriam que ser por livre e espontânea vontade, e isso, certamente, não aconteceria. Parecia que o único método viável de investigação naquele momento era colocar mais homens para vigiar as estações do transporte público soviético.

O ano de 1988 terminaria com essa frustrante notícia e com a descoberta de dois corpos, o de Aleksey Voronko, morto na Ucrânia, e o de uma mulher desconhecida morta em Krasny Sulin. Os dois assassinatos levantaram dúvidas, e enquanto o da mulher foi estabelecido como não sendo obra do estripador, o de Aleksey dividiu a força-tarefa, uns achando que ele foi morto pelo mutilador de Rostov e outros não.

1989 – A volta do Estripador da Floresta


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Em 9 de março de 1989, um tronco foi encontrado em um esgoto ao redor de uma estação ferroviária de Shakhty. O tronco estava envolto em panos, que por sua vez estavam amarrados com fios. A cabeça e os membros inferiores da vítima foram encontrados no mesmo local. Logo os investigadores descobririam a sua identidade.

“Tatyana Ryzhova nasceu em 26 de fevereiro de 1973 em uma aldeia na região de Rostov-on-Don. Ao entrar na adolescência tornou-se uma mulher da vida, bebendo e sendo promíscua. Descobrimos que no final de janeiro de 1989, ela conheceu em um trem dois homens e passou a viver com eles. Viveu durante uma semana no porão de uma casa onde abusava do álcool e mantinha relações sexuais com esses homens e seus amigos. Este grupo cometeu uma série de crimes na região de Kamensky. 

[Trecho do Relatório oficial do caso]

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Tatyana RyzhovaNome: Tatyana Ryzhova

Idade: 16 anos

Moradia: Kamensky, região oeste de Rostov-on-Don.

Desaparecimento: 8 de março de 1989

Ferimentos: Corpo esquartejado. Cabeça e membros separados do tronco.

Obs.: Os restos mortais de Tatyana Ryzhova foram encontrados um dia após o seu desaparecimento em uma rede de esgoto perto de uma estação ferroviária da cidade de Shakhty. A polícia descobriu que Tatyana levava uma vida de alto risco, praticando, inclusive, pequenos furtos. Sua vida de alto risco, entretanto, não à ajudou a perceber quais as reais intenções do seu assassino, possivelmente, o Estripador da Floresta.

A descoberta do cadáver desmembrado de Tatyana deu um nó na cabeça dos investigadores. Poderia Tatyana ter sido vítima do estripador? Se sim, por que ele a desmembrou? Essa era uma diferença muito importante com relação aos assassinatos anteriores. Nenhuma vítima havia sido esquartejada e Tatyana, além de ter sido feita em pedaços, foi embalada e descartada em um esgoto.

Perguntas ficaram no ar. Teria o Estripador da Floresta assassinado Tatyana em sua própria casa? E para descartar o corpo ele teve que esquartejá-la? Se sim, ele correu um grande risco assassinando uma mulher dentro do perímetro urbano, tendo em vista que ela poderia gritar e ser ouvida. Mas será que ele era tão eficaz que ela nem teve tempo de gritar?

Haviam muitos indícios no cadáver de Tatyana que indicavam que ela poderia sim ter sido morta pelo terrível serial killer que a anos assolava a região de Rostov. Entretanto, devido ao estado de deterioração dos restos, ficou impossível ao legista determinar qualquer coisa. No final das contas, devido aos laudos inconclusivos, Issa Kostoyev não listou Tatyana como vítima do estripador.

Abaixo uma imagem do cadáver desmembrado de Tatyana Ryzhova

Foto1

Um mês depois da descoberta do corpo de Tatyana, um esqueleto foi encontrado por quatro adolescentes que andavam pelos arredores de uma estação de trem perto de Rostov. Pelo estado dos restos mortais, aquela pessoa estava ali a, pelo menos, um ano. Diferentemente de vítimas anteriores, a identificação do morto foi feita de forma rápida. Policiais encontraram um documento de identificação perto do esqueleto. Ele era Yevgeniv Muratov, o adolescente de 15 anos de idade, desaparecido em julho de 1988. Apesar do corpo de Muratov estar resumido a ossos, o médico legista concluiu que ele fora morto selvagemente com mais de 30 facadas e teve seus órgãos genitais removidos. Mais uma vez Kostoyev não listou esse assassinato como obra do Estripador da Floresta. Para ele, não havia motivos suficientes para tal conclusão. Viktor Burakov pensava o contrário e insistia que Yevgeniv, Tatyana, Aleksey Voronko e a mulher não identificada, encontrada em Krasny Sulin, eram sim vítimas do serial killer de Rostov.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Yevgeniy MuratovNome: Yevgeniy Muratov

Idade: 15 anos

Moradia: Rostov

Desaparecimento: 14 de julho de 1988

Ferimentos: O médico legista conseguiu identificar os típicos ferimentos infligidos em vítimas masculinas do Estripador da Floresta em Yevgeniy Muratov. O adolescente foi mutilado com várias facadas e teve seus órgãos genitais removidos.

Obs.: O adolescente desapareceu em 14 de julho de 1988 e seus restos mortais foram encontrados em 10 de abril de 1989. Yevgeniy Muratov desapareceu depois de sair para ir a escola. Foi o primeiro corpo encontrado na região de Rostov desde 1985 e apesar das evidências, Issa Kostoyev não o listou como vítima do Estripador da Floresta.

Neste momento, finalmente, Yuri Kalenik já havia sido libertado da prisão após ficar cindo anos preso. E o interessante para a polícia é que agora ele morava perto de onde o corpo de Yevgeniy fora encontrado. Precipitamos ao libertá-lo? Indagaram alguns investigadores. Mais uma vez Yuri foi levado sob custódia e interrogado. Ele negou qualquer participação no assassinato.

Em seguinda, no dia 11 de maio de 1989, Aleksandr Dyakonov, desapareceu como por encanto do centro da cidade de Rostov, um dia após completar 8 anos. Seu corpo foi encontrado 55 dias depois em uma pequena ilha de vegetação no cruzamento das movimentadas avenidas de Nansena e Sheboldaeva, na mesma Rostov.

Costumeiramente, ele foi esfaqueado e teve os genitais removidos. Teria Aleksandr sido vítima do estripador? Se sim, parece que o assassino havia mudado seus hábitos. Ao invés de caçar pessoas em estações de trem, ele agora estava nas ruas de Rostov. Talvez ele tenha percebido a movimentação de policiais em estações de trens e ônibus e ido em outra direção.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Alexander DyakonovNome: Aleksandr Dyakonov

Idade: 8 anos

Moradia: Rostov

Desaparecimento: 11 de maio de 1989

Ferimentos: Mesmo padrão de ferimentos em vítimas masculinas anteriores. Várias facadas no corpo, órgãos genitais removidos, mutilação do abdômen.

Obs.: Aleksandr Dyankonov desapareceu misteriosamente do centro de Rostov no dia 11 de maio de 1989, um dia após completar apenas 08 anos de idade. Seu corpo foi encontrado no dia 14 de julho em uma ilha no cruzamento de duas grandes avenidas de Rostov. Mais uma vez, ninguém viu nada.

“Tendo sido em Rostov-on-Don, eu especificadamente olhava para este lugar. Perto de um gramado, onde nasce raquíticos arbustos e correm carros, ônibus e pedestres. Perto há prédios de apartamentos residenciais, lojas. Como poderia uma tragédia acontecer ali? Por que novamente nenhuma testemunha?”

[Modestov H.C., autor de Maniácos. A Morte Cega]

Realmente a morte é uma tragédia. Quando envolve uma criança então… Mas no caso de Aleksandr Dyankov, isso extrapolou os limites do desespero. Os pais do pequeno Aleksandr ficaram transtornados com a morte do filho. Seu pai chegou a ser preso e torturado pela polícia para confessar o assassinato do próprio filho. Quando voltou para sua casa, em uma pequena vila ao redor de Rostov, vizinhos fofocavam sobre a possibilidade dele ser o assassino. No fim, o pai de Aleksandr pegou uma corda, enrolou no pescoço, e cometeu suicídio. Uma mulher que perdia o filho, agora também perdia o marido.

Em 2 de setembro de 1989, nos arredores de uma estação de trem em Rostov, o quarto corpo no ano era encontrado. A vítima era uma bonita estudante universitária húngara de 19 anos de idade, Helena Varga. Dessa vez, os investigadores não teriam dúvidas: mamilos arrancados, seios e genitais cortados, útero removido, fios de cabelos grisalhos no corpo… O crime assustou os investigadores pois Helena não era uma prostituta e não tinha um estilo de vida desregrado. Em outras palavras, não era o tipo de mulher que saia sozinha com qualquer homem. Como, então, o serial killer a convenceu a ir até um local esmo? Uma floresta?

Na Foto: A bela estudante húngara Helena Varga.

A bela estudante húngara Helena Varga. Créditos: HTB

Dois cortes profundos foram encontrados em uma árvore a 30 metros de distância do corpo. Os cortes foram feitos pelo assassino? Por quê? Acesso de raiva ou remorso por ter cometido um crime tão bestial?

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Anatoly Slivko

A investigação estava às cegas. Em sete anos, os investigadores soviéticos só colecionavam corpos e mais corpos. Eles não tinham um suspeito, uma pista, nada. E após o assassinato de Helena Varga, uma tensão enorme se abateu sobre a Força Tarefa. Eles ficaram assustados com o fato de que o assassino conseguiu ludibriar Helena, uma esperta e inteligente estudante, e levá-la para a morte, sem que ela pudesse suspeitar de nada. Quem poderia ser este homem? Parecia que eles estavam caçando o próprio demônio, e este poderia aparecer de várias formas para suas vítimas, da forma como cada uma tinha interesse. Nesse impasse, Viktor Burakov teve uma ideia. Para entender melhor esse demônio, talvez eles devessem conversar com um. Ver de perto, saber qual o seu cheiro, como ele olha, como conversa…

Já de posse dos arquivos secretos de crimes hediondos do Partido Comunista, Burakov descobriu sobre um serial killer que havia sido preso em 1986. Assim como o Estripador da Floresta, este serial killer matava jovens meninos e os seus crimes tinham conotação sexual. A verdade é que Burakov sempre pensou em estar cara a cara com um desses, mas talvez, ele tenha esperado o momento certo para propor sua ideia a Issa Kostoyev. E foi isso o que ele fez.

Eles não precisaram andar muito, pois o homem que Burakov queria ver, estava ali perto, no corredor da morte da prisão de Novocherkassk. Ele era Anatoly Yemelianovich Slivko, um bizarro serial killer necrófilo e fetichista. Parece que já vimos esse filme antes, não? Investigadores vão até a prisão pedir ajuda a um serial killer preso na tentativa de pegar outro. Qualquer semelhança com O Silêncio dos Inocentes não é mera coincidência.

Assim como parecia ser X, Anatoly Slivko era um homem acima de qualquer suspeita. Um homem de família, casado, com filhos e um respeitado PROFESSOR de crianças. Mas isso era o que a sociedade via, por dentro, Anatoly Slivko era um sinistríssimo serial killer. O quão sinistro ele era?

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Posso dizer que a faísca para a vida de Slivko começou em 1961, quando, aos 23 anos, ele presenciou um violento acidente automobilístico em que um adolescente vestindo uniforme de escoteiro morreu. A cena do corpo esbagaçado, sendo queimado pelo fogo, o excitou sexualmente. Sim, ele teve uma ereção ao ver o adolescente escoteiro sendo queimado pelo fogo. A partir daquele dia, toda vez que Slivko sentia o cheiro de gasolina e via fogo, ficava excitado.

Tempos depois, ele fundou um grupo de escoteiros mirins com um só objetivo: reviver a “sexy” cena do acidente. Uma ou duas vezes ao ano, ele convencia um dos escoteiros, sempre um adolescente entre 13 e 17 anos, a ir com ele até um local deserto com a desculpa de um experimento. Ele convencia o garoto a vestir um uniforme de escoteiro (o mesmo do adolescente morto no acidente de carro), camiseta clara, gravata vermelha… e dizia que poderia fazé-lo crescer através de um processo de alongamento da espinha. Para isso, o adolescente teria que deixar Slivko enforcá-lo até ele ficar inconsciente. Slivko executaria o “processo” e depois reviveria o garoto. Durante 21 anos, Slivko convenceu 43 garotos a participarem deste “experimento.”

Quando os garotos ficavam inconscientes, Slivko acariciava-os, organizava-os em posições sexuais, tirava fotos e fazia filmagens. Ele masturbava olhando para os meninos inconscientes. Em 36 casos, Slivko ressucitou os garotos, mas 7 outros não tiveram a mesma sorte.

Sete garotos foram esquartejados e tiveram os pedaços incendiados com gasolina. Com o cheiro do combustível e o fogo queimando os corpos, Slivko poderia se lembrar do acidente que anos antes o deixou excitado, e masturbar compulsivamente. Como troféu, ele ficava com os sapatos das vítimas.

Na Foto: Anatoly Slivko e sua turma de escoteiros. A imagem em preto e branco, não mostra, mas adivinhe qual a cor dessas gravatas?

Anatoly Slivko e sua turma de escoteiros. A imagem em preto e branco, não mostra, mas adivinhe qual a cor dessas gravatas?

Na Foto: Uma das vítimas de Anatoly Slivko. Note a gravata vermelha. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Uma das vítimas de Anatoly Slivko. Note a gravata vermelha. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Na Foto: Anatoly Slivko (à direita) durante o "processo de crescimento" com uma de suas vítimas. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Anatoly Slivko (à direita) durante o “processo de crescimento” com uma de suas vítimas. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Na Foto: Anatoly Slivko e uma de suas vítimas. Imagem retirada de uma de suas filmagens.

Anatoly Slivko e uma de suas vítimas. Imagem retirada de uma de suas filmagens.

Na Foto: Vítimas de Anatoly Slivko. Imagens retiradas de suas filmagens.

Vítimas de Anatoly Slivko. Imagens retiradas de suas filmagens.

Na Foto: Vítima de Anatoly Slivko. Após desacordar as vítimas, Anatoly dava início a um bizarro ritual onde amarrava as vítimas com cordas e as colocavam em posições sugestivas. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Vítima de Anatoly Slivko. Após desacordar as vítimas, Anatoly dava início a um bizarro ritual onde amarrava as vítimas com cordas e as colocavam em posições sugestivas. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Na Foto: Vítima de Anatoly Slivko. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Vítima de Anatoly Slivko. Imagem tirada de uma das filmagens de Anatoly Slivko.

Na Foto: Anatoly Slivko pratica o seu macabro ritual com uma vítima desacordada. Créditos: HTB.

Anatoly Slivko pratica o seu macabro ritual com uma vítima desacordada. Créditos: HTB.

Na Foto: Anatoly Slivko com dois dos seus escoteiros. Créditos: HTB.

Anatoly Slivko com dois dos seus escoteiros. Créditos: HTB.

Na imagem abaixo, retirada de uma de suas filmagens, Slivko esquarteja uma de suas vítimas

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As terríveis filmagens que Slivko fez de suas vítimas, podem ser vistas em nosso canal no Youtube. Veja abaixo (não recomendado para pessoas sensíveis). Essas filmagens foram montadas pelo Blog O Aprendiz e tiradas de documentários russos. As filmagens começam a partir dos 5 minutos de vídeo:

Macabro, não? E foi esse sinistro homem que Viktor Burakov e Issa Kostoyev foram ver. Burakov queria entender como funcionava a mente doentia de um serial killer. Durante a entrevista, Slivko atribuiu suas ações à sua incapacidade de se envolver em uma relação sexual normal. Assassinos sexuais tem fantasias infinitas, através das quais estabelecem as regras de comportamento, e sentem uma irresistível demanda por ação. Para Slivko, o simples ato de planejar um assassinato já era motivo de satisfação sexual.

Burakov e outros interrogadores ficaram chocados ao interrogar o serial killer. Eles viram algo aterrador. Slivko mostrou-lhes uma mente compartimentalizada que poderia matar meninos e ao mesmo tempo se sentir moralmente indignado com o ato de uma criança beber álcool. Isso significava que esse tipo de assassino escondia suas verdadeiras intenções do resto da sociedade. É como se eles tivessem duas mentes, uma para o bem e outra para o mal e conseguiam separá-las completamente.

“Ele não bebia, não fumava, não xingava, gostava muito da natureza… Slivko nos leva a decepcionante conclusão que mesmo uma pessoa respeitável pode se tornar um repositório do mal”.

[Issa Kostoyev, em um relatório em 1989]

Kostoyev e Burakov chegaram a conclusão que X era muito parecido com Slivko e isso significava que a sua captura seria muito, mas muito difícil. O serial killer poderia ser um homem acima de qualquer suspeita. Talvez um pai de família, alguém respeitado em seu círculo de amizades…

“Após a reunião com Slivko, percebi que com toda a perversidade da pessoa a qual estamos procurando, na realidade, ele é uma pessoa comum. É possível que ele tenha uma família, filhos. Mas diferentemente de Slivko, o Canibal de Rostov mata indiscriminadamente, meninos, meninas, mulheres….” 

[Issa Kostoyev]

Apenas algumas horas após a entrevista, Anatoly Slivko, um dos mais sinistros serial killers do século 20, foi executado com um tiro na parte de trás da cabeça.

O ano de 1989 continuava movimentado para a Força Tarefa que investigava os assassinatos do Estripador da Floresta. Após anos de aparente tranquilidade, o serial killer parecia ter voltado a todo vapor. E pra botar mais lenha ainda na fogueira, em meados de 1989, a Força Tarefa recebeu um telefonema da Polícia de Bataysk. Lembram do suposto segundo serial killer que estaria agindo ao mesmo tempo que o maníaco de Rostov? Pois é, parece que os investigadores de Bataysk tinham pego o cara.

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Constantine Cheremukhin

Nascido no final dos anos 30, Constantino Cheremukhin pertenceu a geração das “crianças da guerra” e passou por todas as dificuldades que uma guerra pode trazer. Fascinado por tecnologia, seu sonho na adolescência era ter uma moto, desejo que logo se estendeu a um carro. Ter um carro na pobre sociedade soviética da década de 1960 era sinônimo de status e riqueza. Não podendo ter um, Cheremukhin decidiu entrar para o mundo do crime. Sua primeira prisão aconteceu devido ao roubo de um carro. E foi numa de suas estadias na prisão que ele conheceu sua mulher. Decidido a se ajustar na vida, ele começou a trabalhar e mudou-se com sua esposa para a cidade de Bataysk. Vendo o empenho do filho na vida, a família de Cheremukhin decide comprar-lhe um carro, um belo Lada. E é com este mesmo Lada que Cheremukhin anda pelas ruas de Bataysk em busca de suas vítimas. Uma foi afogada, outra estrangulada, outra morta com uma chave de fenda… quatro mortes no total.

Constantino Cheremukhin confessou quatro assassinatos, incluindo as duas vítimas encontradas em 1986 e que Issa Kostoyev, na época, não listou como sendo do Estripador da Floresta. Constantino negou ser o autor dos crimes cometidos em florestas de Rostov e cidades adjacentes. Seu modus operandi confirmava sua versão e, além do mais, mesmo preso, assassinatos continuavam à acontecer. Constantino não era o Estripador da Floresta, mas outro demônio que resolveu atacar e ser um conterrâneo do Maníaco de Rostov. Pelo menos uma boa notícia, um serial killer a menos nas ruas!

1990 – O ano da caça ou do caçador?


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No final de 1989, vários casos de assassinatos não resolvidos foram repassados para o controle do Ministério do Interior russo, dentre eles, o caso do Estripador da Floresta, que recebeu o codinome A Floresta. O recém-empossado ministro, Yuri Trushin, colocou o caso sob a chefia de NP Vodko, Chefe do Departamento de Investigação Criminal do Ministério do Interior.

“A análise do caso mostrou que na região de Rostov, nos últimos 12 anos, foram registrados 45 assassinatos de mulheres e crianças. O assassino age num raio de 60 quilômetros do centro de Rostov. Os cadáveres são encontrados principalmente em florestas. Mesmo eu, que já havia visto de tudo em 40 anos de polícia, isso é algo impressionante e aterrorizante. Certamente um assassino cruel e desumano. As vítimas são torturadas, muitas mortas com dezenas de facadas, os órgãos sexuais removidos. A natureza cruel das lesões não deixa dúvidas que se trata do trabalho de um psicopata sexual. Devido a gravidade do caso, vou para Rostov no momento em que mais um cadáver é encontrado, o de Andrei Kravchenko.”

[NP Vokpo, fevereiro de 1990, em relatório para o Ministério do Interior]

A vítima a qual NP Vokpo se refere, Andrei Kravchenko, era um adolescente de apenas 11 anos de idade, desaparecido da cidade de Shakhty. O habitual esvisceramento, a remoção dos genitais, dezenas de facadas. Ele fora mais uma vítima do Estripador da Floresta.

Na Foto: Andrei Kravchenko, desapareceu sem deixar rastros do centro de Shakhty no dia 14 de janeiro de 1990. A imagem acima é um cartaz feito pelos pais do garoto na tentativa de encontrá-lo.

Andrei Kravchenko, desapareceu sem deixar rastros do centro de Shakhty no dia 14 de janeiro de 1990. A imagem acima é um cartaz feito pelos pais do garoto na tentativa de encontrá-lo.

O corpo de Andrei foi localizado a uma distância considerável do centro da cidade. Um local onde assassino e vítima só poderiam chegar de trem. E apesar de ambos terem usado o sistema de transporte ferroviário, nenhum das dezenas de policiais que patrulhavam as estações notou nada de errado. Após este crime, Kostoyev, Burakov e companhia deram ordens para que policiais a paisana parassem qualquer homem de meia idade que fosse visto junto a uma criança. A essa altura, policiais patrulhavam quase que toda Rostov, clubes, eventos noturnos, estações de onibus e trens, centros comunitários, restaurantes, cinemas, parques etc.

Duas crianças, conhecidas de Andrei, disseram que no dia do seu desaparecimento, ele disse que conhecera um “tio divertido” e que o encontraria naquele dia. A última vez que os meninos o viram foi por volta das 14 horas próximo a um mercado de Shakhty. Detetives começaram a interrogar dezenas de conhecidos de Andrei, não só conhecidos, mas também crianças e adolescentes de várias escolas de Shakhty. E foi de um desses estudantes que a polícia recebeu um importante depoimento.

Em meados de agosto de 1989, às 8h da manhã, eu estava de pé em frente a um ponto de ônibus quando fui abordado por um homem. Ele tinha cerca de 50 anos de idade. Vestia terno e sapatos marrons. O homem disse: “Oi, tudo bem?” Eu balancei a cabeça. Ele começou a perguntar sobre a minha escola, qual ano eu estava fazendo…

Ele disse que iria trabalhar na minha escola como professor de inglês, eu disse uma palavra em inglês e ele me disse que eu tinha pronunciado corretamente. Ele me perguntou se eu não queria dar um passeio no parque, caminhamos até um local onde não havia pessoas. Ele começou a dizer que correspondia com cidadãos dos Estados Unidos, Japão, Romênia, que tinha muitos amigos. Ele disse que tinha trazido do Japão um equipamento de mergulho, adequado pra qualquer idade e prometeu me mostrar.

Prometeu também me levar até um acampamento de verão, onde ele era o chefe, para me deixar usar o equipamento de mergulho. Ele disse que morava em Rostov e que em sua casa tinha muitos chicletes. Quando eu falei sobre minha coleção de moedas ele disse que tinha muitas e que me daria algumas exóticas. Estava ficando escuro e eu disse que tinha que ir pra casa, ele me levou até minha casa, perguntou sobre meus pais e olhou para a casa onde eu morava. Na despedida, me perguntou se eu poderia encontrá-lo no parque no dia seguinte. Quando contei aos meus pais sobre o homem, eles quase me bateram. Queria encontrá-lo no dia seguinte mas não fui. Nunca mais o vi.

[Depoimento de Denis Volkov, 12 anos, estudante de uma escola em Shakhty]

Poderia este homem de meia-idade descrito por Volkov ser o terrível serial killer mutilador de crianças e mulheres? Se sim, Volkov deveria dar graças a Deus por ter escapado. Voltando atrás, os investigadores lembraram do desaparecimento de Aleksey Khobotov, 10 anos, desaparecido da mesma cidade de Shakhty. Se Denis Volkov deu sorte, Aleksey, provavelmente, não. De posse das informações de Denis, a polícia vasculhou o parque em Shakhty onde o menino disse ter andado com o tal homem. Se o homem fosse mesmo o serial killer, talvez ele poderia ter feito uma vítima naquele mesmo parque, talvez até mesmo o corpo de Aleksey ou de uma outra vítima pudesse ser encontrada ali. Mas nada foi encontrado.

Comparando as circunstâncias do assassinato de Andrei Kravchenko, do desaparecimento de Aleksey Khobotov e do testemunho de Denis Volkov, a polícia fez um retrato social e psicológico do assassino. Apesar de Burakov seguir a risca o pefil traçado por Alexander Bukhanovsky em 1986, Kostoyev e outros investigadores eram reticentes ao trabalho do psiquiatra. Mas agora, com evidências e um importante depoimento, Kostoyev traçou algumas linhas sobre o assassino (o que não fugiu do perfil traçado por Bukhanovsky quatro anos antes)

“O agressor tem cerca de 50 anos, estatura mediana, atlético, é provavelmente um pai de família com vínculo conjugal frágil. Tem contatos sociais limitados e habilidades de trabalho educacional com experiência para construir relações de confiança com crianças. Já trabalhou como professor ou tutor e sofre de desvios sexuais.”

Eles também concluiram que o assassino deveria frequentar lugares onde a concentração de crianças e adolescentes fosse grande, como parques, clubes, salas de cinema, estações ferroviárias… Ele apresentava-se às suas vítimas como um professor, sempre tentando dar credibilidade e confiança. Através da conversa, ele identificava o interesse da criança e usava isso para manipulá-la. Como, por exemplo, o fato de oferecer moedas exóticas a Denis ou selos a Dmitriy Ptashnikov (morto em março de 1984). Tendo estabelecido contato e com a vítima confortável em sua presença, o assassino a levava até um local esmo onde a matava. Ele poderia também marcar encontros nos dias seguintes em locais afastados com a promessa de levar as vítimas a passeios, acampamentos, ou mostrar-lhes suas “coleções”.

Poucas semanas depois do depoimento de Denis Volkov, uma nova criança mutilada seria encontrada. Em 8 de março de 1990, um homem passeava com seu cachorro pelo Jardim Botânico de Rostov quando descobriu um cadáver em meios às folhas. O homem ficou chocado com o que viu. Assim como ficarão vocês… se clicarem nas imagens abaixo:

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“O exame post-mortem revelou as seguintes lesões: múltiplo esfaqueamento, hematomas no rosto, genitália removida, nove facadas no abdômen com danos no intestino delgado e grosso, veia cava inferior com uma amputação completa, parte do intestino removido da cavidade abdominal… lesões são o resultado de múltiplos (pelo menos 20) golpes de lâmina com rotação em torno de um eixo com diferentes ângulos… uma facada na órbita ocular direita, duas facadas na orelha direita. Corte da língua, ferida incisa da genitália externa com amputação completa do pênis e escroto. 23 facadas no tórax e abdômen. Múltiplas lesões causadas por objetos contundentes. Hematomas na face, na mandíbula inferior (direita), um hematoma no lábio inferior à esquerda. Fratura do terceiro dente do maxilar inferior podendo ser devido a pressão de objeto contundente ou pelas mãos humanas, com o violento fechamento da boca da vítima.”

[Parte do relatório da autópsia da vítima encontrada em 8 de março de 1990 no Jardim Botânico de Rostov]

A criança foi identificada rapidamente: Yaroslav Makarov, 10 anos, um menino problemático que costumava matar aulas e ir para estações de trem onde pedia dinheiro e cigarros para as pessoas do local, certamente uma vítima fácil para o Estripador da Floresta. Testemunhas interrogadas pela polícia disseram ter visto o menino na estação ferroviária central de Rostov com um homem barbudo, com seus 30 anos, vestindo uma jaqueta preta e amarela listrada. Poderia ser ele o assassino?

Frustração era pouco para descrever o trabalho policial. Imaginem: Depois de anos e anos eles concluem que o assassino tem em torno de 50 anos e na investigação de um assassinato testemunhas dizem que a vítima estava acompanhada de um homem de 30 anos??? Se era ou não, eles não podiam descartar esta pista. Dezenas de homens barbudos foram presos. Se você fosse homem e barbudo naquela época e resolvesse andar por Rostov… certamente você seria convidado por policiais a paisana a comparecer à delegacia mais próxima. E numa dessas a polícia conseguiu identificar o tal barbudo de jaqueta preta e amarela listrada. Mas não era o assassino, era um homem comum o qual Yaroslav abordou para pedir um cigarro. O “barbudo” deu um cigarro para Yaroslav e foi embora.

Outras testemunhas deram depoimentos importantes sobre o assassinato. Uma mulher de 75 anos que trabalhava no Jardim Botânico, disse ter visto um homem alto, de óculos, ombros inclinados, junto com um menino. Ela disse que o homem a encarou como se perguntasse o que ela estava olhando. Após esse “encontro”, ela caminhou até um outro local do Parque onde continuou o seu trabalho (nessa época a Prefeitura de Rostov começou a marcar as árvores do Parque com plaquinhas indicando seu nome, espécie…). Uma outra testemunha disse ter visto um homem que aparentava estar desconfiado andando às pressas pelo lugar. Ele chegou a deixar suas chaves cair no chão e em determinada hora parou em um local com água corrente para limpar as mãos. A testemunha fez uma descrição do homem e dias depois um sapateiro foi preso como suspeito. Ele tinha uma coleção de facas mas seu tipo sanguíneo era diferente do assassino (agora o exame era o correto!). Além disso, ele tinha um álibi para todas as mortes mais recentes. Após sua libertação, o sapateiro, que tinha um distúrbio mental, começou a telefonar insistentemente para Issa Kostoyev, sempre querendo compartilhar suas mirabolantes teorias de quem poderia ser o assassino. Melhor seria se Kostoyev não o tivesse prendido…

No final de julho de 1990, operários encontraram o corpo mutilado de Viktor Petrov, 13 anos, no mesmo Jardim Botânico de Rostov onde Yaroslav Makarov fora morto meses antes. Petrov desapareceu de uma estação ferroviária da cidade. Um desaparecimento estranho já que ele estava junto com sua mãe. Segundo ela, em dado momento, ele foi até um bebedouro e nunca mais voltou.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Viktor PetrovNome: Viktor Petrov

Idade: 13 anos

Moradia: Rostov

Desaparecimento: 27 de julho de 1990

Ferimentos: Viktor Petrov possuía os ferimentos típicos das vítimas masculinas do Estripador da Floresta. Órgãos sexuais removidos, mutilação dos órgãos internos, facadas e hematomas pelo corpo.

Obs.: Viktor Petrov desapareceu de uma estação ferroviária da cidade de Rostov no dia 27 de julho de 1990. Um dia depois seu corpo foi encontrado no Jardim Botânico da cidade, a poucos metros de onde, quatro meses antes, Yaroslav Marakov foi encontrado.

Duas semanas depois de encontrarem o corpo de Viktor Petrov, a polícia recebeu um alerta de desaparecimento da cidade de Novocherkassk. Em 14 de agosto de 1990, Ivan Fomin, 11 anos, saiu para nadar não muito longe da casa de sua avó na cidade de Novocherkassk. Ivan, uma criança que vivia apenas mais um dia de vida e que saira para nadar como sempre fazia, não sabia, mas ele toparia em seu caminho com o Estripador da Floresta. Foram 45 facadas no peito e abdômen. Como outras vítimas masculinas anteriores, o menino também foi castrado.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Ivan FominNome: Ivan Fomin

Idade: 11 anos

Moradia: Novocherkassk

Desaparecimento: 14 de agosto de 1990

Ferimentos: Ivan Fomin possuía os ferimentos típicos das vítimas masculinas do Estripador da Floresta. Órgãos sexuais removidos, mutilação dos órgãos internos, facadas e hematomas pelo corpo.

Obs.: O corpo de Ivan Fomin foi encontrado 3 dias depois do seu desaparecimento em uma praia artificial de Novocherkassk. Em oito anos de matança, Ivan foi a primeira vítima dos assassinatos em série a ter destaque na mídia.

Na Foto: Imagem do corpo de Ivan Fomin, encontrado no dia 17 de agosto de 1990 em Novocherkassk.

Imagem do corpo de Ivan Fomin, encontrado no dia 17 de agosto de 1990 em Novocherkassk.

Nesse momento, a União Soviética vivia o auge de sua ruptura, um processo gradual que durou de janeiro de 1990 a dezembro de 1991. Países que compunham o bloco comunista, como Letônia, Estônia e Lituânia, declaravam independência. Não preciso entrar em detalhes de como estava a situação política naquele momento. O fato é que com a perda de poder e ruptura do sistema, o centralizador governo soviético perdia o controle sobre tudo, principalmente sobre a mídia. Quando a notícia da horrenda morte de Ivan Fomin chegou até os jornais, começou o pandemônio.

Eram mais de 30 vítimas nos últimos 8 anos e os jornais agora estavam livres para relatar os horrores após o colapso do bloco soviético. Os investigadores ficaram ainda mais sob pressão, todos ameaçados, dos chefes aos subordinados, ninguém estava a salvo. Através dos jornais, as pessoas começavam a tomar conhecimento da terrível onda de assassinatos em série que assolavam Rostov e cidades vizinhas.

Mas pior do que a pressão, era a falta de provas ou de suspeitos. Passados 8 anos, a Força Tarefa não tinha, praticamente, NADA. Não tinham nenhuma evidência concreta, sem testemunhas, sem um rosto… eles não tinham nada. Os investigadores chegaram a se perguntar: Como isso seria possível? Como seria possível um homem enganar tantas pessoas, não ter o seu rosto visto por ninguém, não levantar a mínima suspeita??? O ano de 1990 viu crescer assustadoramente o número de vítimas do assassino e neste ponto os investigadores puderam notar uma clara divisão na onda de assassinatos:

a) 1982 – 1984

Foram 23 vítimas no biênio 1982/1984. 18 delas (78%) eram do sexo feminino e os assassinatos foram cometidos em sua grande maioria em Shakhty no trecho Brick-Gardens e em Rostov (principalmente no Parque dos Aviadores).

b) 1988 – 1990

No biênio 1988 – Agosto de 1990, foram encontradas 10 vítimas (outras vítimas com ferimentos similares não foram inseridas como vítimas do Estripador da Floresta). A proporção se invertera agora, 70% das vítimas eram do sexo masculino e os assassinatos ocorreram em locais aleatórios, mas principalmente em Rostov. Veja abaixo imagens de seis vítimas do Estripador da Floresta.

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Burakov elaborou, então, um novo plano. Ele selecionou as estações de trem mais prováveis de o assassino atacar e as descartou para vigilância. Com a crescente atenção dos jornais para o caso, o assassino poderia se sentir acuado e certamente ele não atacaria em estações muito movimentadas. Burakov decidiu colocar dezenas de policiais disfarçados em estações menores e menos usadas, pensando que o assassino se sentiria mais seguro em andar por elas em busca de vítimas. Em outras palavras, eles o estavam forçando a atacar em determinado lugar e nesses lugares, os policiais e funcionários tinham ordens para registrar os nomes de todos, mas todos os passageiros que iam e vinham. Burakov também colocou policiais disfarçados de agricultores em florestas próximas. Eram mais de 350 pessoas envolvidas, entre policiais e funcionários de estações de trem. A armadilha estava montada!

Três estações de trem foram selecionadas como alvos principais. Uma delas era a estação de Donleskhoz, onde duas vítimas foram encontradas nos arredores. Era uma estação pequena com cara de abandonada, o local ideal para a ação do serial killer.

Na Foto: Mapa da estação de Donleskhoz. Créditos: Google maps.

Mapa da estação de Donleskhoz. Créditos: Google maps.

Mas no momento em que Burakov colocaria o plano em ação, ele teve uma supresa. O serial killer havia feito uma nova vítima. E onde? Na estação de trem de Donleskhoz.

Vadim Gromov, 16 anos, um adolescente com retardo mental, foi esfaqueado 27 vezes. Um pedaço da sua língua estava faltando, assim como seus testículos e pênis. Um dos seus olhos também foi esfaqueado. A morte de Vadim deu a polícia boas pistas, como por exemplo, eles perceberam que o assassino andara a maior parte do tempo, provavelmente, no theelectrichka, um trem lento usado entre estações de lugares ermos.

Burakov ficou desesperado com a morte de Vadim, pois ele percebeu que o seu plano estava certo. Se o plano tivesse sido posto em ação um dia antes, ele poderia ter pego o estripador.

Investigando os passos da vítima, os investigadores descobriram que ele constumava andar pela estação de Krasny Sulin. Entretanto, ninguém disse ter visto Vadim acompanhado.

Na Foto: O corpo de Vadim Gomov, 16 anos.

O corpo de Vadim Gomov, 16 anos, encontrado na Floresta ao lado da estação de trem de Donleskhoz.

Nesse ponto da história, podemos voltar ao começo do texto.

Rostov-on-Don, Rússia


Outubro de 1990

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As grandes estações de trens e ônibus da cidade de Rostov-on-Don estão infestadas de policiais uniformizados. As pessoas se assustam ao ver aqueles policiais vestidos como se fossem para a guerra, alguns deles usavam óculos especiais para enxergar no escuro. Mais de 300 deles podiam ser vistos nas estações. Qualquer homem poderia ser parado por eles, ser revistado, e ter seu nome anotado numa agenda, e não importava se ele fosse um pai de família ou um mendigo.

Em estações menores, policiais femininas disfarçadas usavam roupas provocativas e maquiagem pesada. Muitos outros policiais disfarçados enchiam trens e ônibus da cidade e patrulhavam as estações e os seus arredores dia e noite.

Há quase uma década, um sádico serial killer deixava um rastro de corpos mutilados de mulheres e crianças pelos arredores da cidade de Rostov. A grande maioria das vítimas eram encontradas ao longo de florestas que cercavam as estações de trens, o que indicava que o assassino usava extensivamente o sistema de transporte soviético. O serial killer estava completamente fora de controle. Até outubro de 1990, a polícia já havia encontrado nove corpos que somados com os assassinatos dos últimos oito anos, perfazia um total de 36 vítimas. A grande maioria eram mortas selvagemente. Olhos, línguas e seios arrancados, homens castrados, mulheres sem os úteros…

Assustados e pressionados pela morte de um adolescente, Viktor Tishchenko, a polícia decide aumentar o seu efetivo e tentar de uma vez por todas capturar um serial killer que não deixava rastros e nem testemunhas, mas apenas corpos mutilados.

Viktor Tishchenko? Sim, após Vadim Gromov, o Estripador da Floresta fez uma nova vítima no mês de outubro. Tishchenko, um adolescente de 16 anos, desapareceu da cidade de Shakhty em 30 de outubro de 1990. Ele saiu até a estação ferroviária da cidade para comprar bilhetes de viagem para os pais e nunca mais voltou. Seu corpo foi encontrado a cerca de quatro quilômetros da estação nas florestas que circundam a região. O mesmo local onde, anos antes, mãe e filha foram encontradas mortas. Esse assassinato, em especial, assustou bastante Burakov.

Na Foto: Viktor Tishchenko. Viktor foi encontrado morto no dia 30 de outubro de 1990, na mesma Floresta onde Tatyana e Svetlana Petrosyan, mãe e filha, foram encontradas mortas em 1984.

Viktor Tishchenko. Viktor foi encontrado morto no dia 30 de outubro de 1990, na mesma Floresta onde Tatyana e Svetlana Petrosyan, mãe e filha, foram encontradas mortas em 1984.

Viktor Tishchenko era um rapaz bonito e atlético. Um rapaz forte. No local onde o corpo foi encontrado, havia evidências de uma violenta e prolongada luta. E isso assustou os investigadores porque, se o perfil do médico psiquiatra Alexandr Bukhanovsky estivesse certo e o assassino estivesse em torno dos seus 50 anos, será que em uma luta corpo a corpo ele seria páreo para um jovem alto, no auge dos seus 16 anos? Todos nós sabemos que o vigor físico de um homem jovem não se compara com a de um homem de meia-idade, com o passar dos anos, homens perdem massa muscular, consequentemente sua força bruta diminui consideravelmente.

Isso deixou os investigadores assustados e eles começaram a se perguntar: Quem realmente era esse homem? Será que… realmente era um homem?

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Talvez fosse o próprio demônio andando pela terra e se apossando das almas daqueles que ele cruzava o caminho. Isso explicaria a selvageria dos crimes e o fato dele parecer invisível. Talvez ele saísse das profundezas do inferno para matar e quando terminava de possuir o corpo daqueles pecadores e roubar-lhes as almas, voltava para o seu trono. Mas Burakov era um policial e como policial ele tinha que tratar de coisas concretas. Ele não poderia descer até o inferno para algemar o próprio Satã. Esse assassino era um homem, um ser humano, e como todo ser humano, ele não era perfeito. Mais cedo ou mais tarde ele cometeria um erro.

O legista concluiu que Tishchenko levou 35 facadas na região do pescoço. Seu rosto do lado esquerdo continha hematomas, sua língua fora cortada e os testículos removidos. Seu abdomen também continha uma abertura.

Veja abaixo imagens do cadáver de Viktor Tishchenko

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“Em 3 de novembro, dia em que Tishchenko foi encontrado morto, fui até a estação para conversar com o vendedor de bilhetes. Um caixa reconheceu Tishchenko através de uma foto e disse que ele comprara um bilhete ali no dia 30 de outubro. O caixa também disse sobre um homem estranho que vagava por ali.”

[Amurhan Yandiev, investigador]

Fim de Jogo


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Segundo Moira Martingale, no livro Cannibal Killers, ao final do ano de 1990, mais de 500 mil pessoas já haviam sido interrogadas sobre o caso. Vários relatos de homens em atitude suspeita nas estações de trem foram reportados. Assustados e pressionados com a morte de Viktor Tishchenko, a polícia decide aumentar o seu efetivo e tentar de uma vez por todas capturar um serial killer que mais parecia um fantasma.

A rede ferroviária local fornecia um mapa da área de atividade do assassino, mas ao contrário da maioria dos mapas de crimes semelhantes, era longo e estreito, sem um centro óbvio. Os investigadores decidiram então atrair o serial killer para uma armadilha chamada “Operação Faixa da Floresta“.

A ideia era colocar centenas de policiais de uniformes patrulhando as grandes estações. Com policiais aos montes, o assassino provavelmente iria até estações de trens afastadas, sem movimento, e lá, policiais disfarçados de pessoas comuns, mendigos, prostitutas, etc, ficariam de olho em qualquer atividade suspeita.

Mais de 300 policiais fardados foram colocados em serviço em uma forma muito evidente em todas as grandes estações ao longo das linhas de Rostov, Shakhty e Novocherkassk. Nesses locais, policiais foram equipados com óculos especiais para enxergar no escuro. Nas estações pequenas, policiais femininas vestiam-se de maneira provocativa em uma tentativa de servir como isca para o assassino, outros detetives agiam disfarçados em trens e ônibus e outros disfarçados nos arredores patrulhavam dia e noite as estações do distrito de Rostov. A armadilha estava montada. Era agora ou nunca.

E qual o resultado?

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Na Foto: O corpo de Svetlana Korostik, 22 anos.

O corpo de Svetlana Korostik, 22 anos.

Svetlana Korostik, 22 anos, foi encontrada morta no dia 13 de novembro de 1990 em uma floresta que cerca a isolada estação de Donleskhoz, a mesma isolada estação onde dias antes, Vadim Gromov foi morto. O serial killer, novamente, matara bem debaixo do nariz da polícia. Realmente a Operação Faixa da Floresta surtiu efeito, entretanto, quem apareceu não foi o assassino e sim uma nova vítima. Certamente vendo o grande movimento de policiais nas grandes estações de Rostov, o Estripador da Floresta vagou por estações afastadas até encontrar uma vítima em Donleskhoz. Mas e os policiais que estavam disfarçados na estação? Não viram nada?

“Eu me perguntei: ‘Como isso pôde acontecer?’ Donleskhoz foi um dos locais no qual colocamos policiais disfarçados. Ele vem e mata bem debaixo do nosso nariz? Depois de analisar alguns relatórios, descobrimos que em 06 de novembro de 1990, Igor Rybakov, um policial a paisana, avistou um homem emergindo da floresta. Ele parou em uma bomba d’água ao lado da casa da estação e limpou os sapatos. Atravessou os trilhos e foi até a plataforma. Segundo a descrição de Ribakov, era um homem alto, cabelos grisalhos e carregava uma maleta escura. O homem estava com um dos dedos das mãos enfaixados e o policial notou o que parecia ser uma mancha de sangue em sua orelha direita. Cordialmente Rybakov pediu que o suspeito mostrasse os seus documentos. Ele se identificou como Andrei Romanovich Chikatilo. Rybakov relatou que queria seguí-lo mas não pôde pois seu parceiro havia saído.”

[Issa Kostoyev]

Andrei Romanovich Chikatilo… já ouvimos esse nome antes, não?

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Claro que sim! Chikatilo era um sobrenome bastante raro e Viktor Burakov e Mikhail Fetisov ficaram intrigados com ele. Parece que eles já tinham ouvido esse sobrenome em algum lugar… Ao revirar os arquivos do caso eles se depararam com Andrei Romanovich Chikatilo, preso em 13 de setembro de 1984, em atitude suspeita na cidade de Shakhty. Chikatilo se encaixava perfeitamente no perfil do serial killer feito por Bukhanovsky e por testemunhas: Homem de meia idade, aparência inofensiva, alto, magro, usava óculos… Entretanto, Chikatilo havia sido descartado como suspeito dos assassinatos em 1984 por não possuir o tipo sanguíneo do assassino, AB. Mas agora os policiais sabiam que aqueles exames não podiam ser levados em consideração. Poderia o homem que eles prenderam seis anos antes, ser o terrível e sádico Estripador da Floresta?

Se sim, a ciência russa teria cometido, talvez, o maior erro de toda sua história.

O corpo de Svetlana Korostik foi encontrado no dia 13 de novembro de 1990, mas o relatório do policial Rybakov datava do dia 06 de novembro. Problema que logo foi resolvido pelo médico legista. Segundo ele, Svetlana foi morta uma semana antes, exatamente no dia 06 de novembro, o dia que Rybakov viu Andrei Chikatilo saindo das entranhas da floresta. 

Na Foto: Igor Rybakov. No dia 06 de novembro de 1990. Rybakov, que estava disfarçado, abordou um homem em atitude suspeita na plataforma da estação de Donleskhoz. Sem ter motivos para prendé-lo, Rybakov o liberou mas escreveu um relatório sobre o ocorrido.

Igor Rybakov. No dia 06 de novembro de 1990, Rybakov, que estava disfarçado, abordou um homem em atitude suspeita na plataforma da estação de Donleskhoz. Sem ter motivos para prendé-lo, Rybakov o liberou mas escreveu um relatório sobre o ocorrido. Créditos: Le Monstre de Rostov.

O homem sob vigilância, 24 horas por dia


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Andrei Romanovich Chikatilo, 54 anos, se tornava o principal suspeito de ser o Estripador da Floresta. Tão logo seu nome foi descoberto no relatório de Rybakov, a Força Tarefa dos assassinatos em série começou a investigar o seu passado.

Eles logo descobriram que ele havia sido professor… hmmm professor? Mas o pior: Fora demitido do cargo devido a relatos de que ele havia molestado alunos. Ele também trabalhou para uma empresa de Locomotivas de Shakhty, mas foi demitido quando não conseguiu retornar de viagens de negócios com suprimentos que ele havia ido negociar. Hmmm… viagens? Durante o tempo em que foi interrogado em 1984, os crimes cessaram e seus registros de viagens coincidiam com outros assassinatos, inclusive o de Moscou. Morou na maioria das cidades onde vários corpos foram encontrados, como Rostov, Shakhty e Novochersskask. E além de tudo isso, Chikatilo fora visto saindo da floresta no mesmo dia em que Svetlana Korostik foi morta. Muito interessante, não?

Quando os investigadores chegaram à conclusão que Andrei Chikatilo poderia estar em qualquer um dos lugares dos crimes, devido as inúmeras viagens que fazia à trabalho, Issa Kostoyev ordenou, em 17 de novembro de 1990, que ele fosse vigiado 24 horas por dia. Para todos ali não parecia haver dúvidas: Andrei Romanovich Chikatilo era o terrível serial killer conhecido como O Estripador da Floresta.

“Colocamos Chikatilo sob observação sistemática. Nos dois primeiros dias vimos um homem comum, comportado, calmo. Mas depois, ele começou a agir de forma diferente, entrava em contato com crianças e mulheres. Parece que ele procurava por sua próxima vítima.”

[Mikhail Fetisov]

Seguindo Chikatilo, os investigadores viram algo aterrador. Aquele senhor, de aparência inofensiva, parecia uma alma enlouquecida que vagava por dezenas de trens em busca de mulheres para manter relações sexuais. O simples fato de Chikatilo se aproximar de mulheres ou crianças o parecia excitar sexualmente. Prova disso, e segundo o relatório policial, é que Chikatilo se desligava completamente do mundo ao seu redor ao se aproximar de crianças ou mulheres. Os policiais testemunharam um momento em que ele seguia uma criança e quase foi atropelado por um carro. Era como se ele não enxergasse mais nada, como aqueles predadores que espreitam suas vítimas e que vemos nos documentários do Discovery Channel.

Enquanto ele era vigiado de perto por vários detetives, um plano foi elaborado não só para prendê-lo, mas também para tentar provar sua culpa. Bom, até agora tudo o que os investigadores tinham era circunstancial. Um ex-professor molestador de alunos estava longe do terrível homem que arrancava os úteros de suas vítimas. Ser um homem que sempre viajou a trabalho também não provava nada. Correr atrás de mulheres em estações de trens para fazer sexo também não é lá grande coisa.

Por isso o plano de ação elaborado por Kostoyev e companhia era importante. Dentre essas ações estavam uma busca no apartamento de Chikatilo e buscas em seu local de trabalho. Talvez ele tenha escondido em sua gaveta a faca com que mata pessoas, pensou Kostoyev.

Chikatilo continuava a ser observado e quanto mais era observado mais os detetives confirmavam o seu mórbido interesse em crianças e adolescentes. Entretanto, essas obsevações não eram evidências que pudessem ligá-lo aos assassinatos em série. Tudo parecia ser uma série de coincidências. Vamos prendê-lo por abordar adolescentes nas ruas? Pode ter pensado alguns. Se ele fosse o Estripador da Floresta, a polícia russa queria pegá-lo no ato. Mas claro, isso seria bastante perigoso.

“A ideia era deixá-lo levar sua próxima vítima para a floresta. E quando isso acontecesse, estaríamos lá. Claro, isso é um risco, e o trabalho teria que ser bastante cuidadoso.”

[Amurhan Yandev, investigador do caso]

“Claro, é tentador segui-lo até o seu próximo crime, mas quem pode garantir que ele não note que está sendo seguido? Quem pode garantir que ele não vá cometer suicídio? É uma análise agonizante e a coisa mais importante é que não há evidências de que ele seja o autor desses crimes.” 

[Issa Kostoyev, em um relatório na época]

Se Andrei Chikatilo fosse o serial killer, alguma evidência física poderia ser encontrada em sua casa ou local de trabalho, assim pensou Kostoyev. Entretanto, após dias sendo seguido, ele não foi pego no “flagra”, e a sua prisão seria bastante questionável. Prendê-lo pelo quê? Apesar dele ser o melhor suspeito que eles tinham em oito anos de investigações, nada até agora era um indício forte para que eles o prendessem. Pela lei russa, se eles o levassem “em cana”, eles teriam apenas 10 dias para ligá-lo aos assassinatos. Com certeza um risco muito grande. Se não conseguissem provar a culpa de Chikatilo, ele deveria ser libertado e, de acordo com as leis russas, não poderia ser preso novamente pela simples “suspeita” de ser o autor dos crimes.

Novocherkassk


20 de Novembro de 1990

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Às 13h da tarde, Andrei Chikatilo se aproximou de uma criança em um parque afastado da cidade de Novocherkassk. Eles andaram e conversaram durante uma hora e Chikatilo chegou a levá-la a locais afastados do parque. Em seguida deixou-a e foi embora para o seu apartamento. Alguns investigadores continuaram seguindo-o enquanto outros se aproximaram da criança. Seu nome era Nikita e ela tinha 12 anos. Para os policiais, ela disse que o “tio” lhe prometera uma fita de vídeo de moda. Disse para esperá-lo no parque que ele voltaria com seu “presente.”

Às 15h da tarde, Chikatilo deixou seu apartamento com um pequeno saco de pano na mão, voltou para o parque, mas não se encontrou com Nikita. Ao invés, ele começou a abordar outras crianças que estavam no local. Quando outras pessoas apareciam por perto, ele logo se afastava. Em seguida ele se dirigiu até uma área mais isolada do parque. Agora a situação se complicara para os detetives que o seguiam. Se ele fosse realmente o serial killer, poderia nesse momento, engrunhado na mata, cometer um crime e escapar. Temerosos pela evidente ameaça, os detetives tomaram uma decisão… a decisão de prendê-lo. Toda a ação foi gravada pela Polícia russa.

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Na Foto: Policiais disfarçados articulam a prisão de Andrei Chikatilo nos arredores de um Parque em Novocherkassk. Créditos: Biography Channel.

Policiais disfarçados articulam a prisão de Andrei Chikatilo nos arredores de um Parque em Novocherkassk. Créditos: Biography Channel.

Na Foto: Andrei Chikatilo, ao centro, é preso em conexão com os assassinatos em série do Estripador da Floresta. Créditos: Biography Channel.

Andrei Chikatilo, ao centro, é preso em conexão com os assassinatos em série do Estripador da Floresta. Créditos: Biography Channel.

Na Foto: As 15:45 do dia 20 de Novembro de 1990, Andrei Romanovich Chikatilo, principal suspeito dos assassinatos do "Estripador da Floresta" é preso pela polícia soviética.

Às 15:45 do dia 20 de Novembro de 1990, Andrei Romanovich Chikatilo, principal suspeito dos assassinatos do “Estripador da Floresta” é preso pela polícia soviética em um Parque de Novocherkassk. Créditos: Biography Channel.

“Chikatilo foi preso no dia 20 de novembro de 1990, às 15 horas e 40 minutos. Estavam presentes o Chefe de Polícia de Rostov, Vladimir Ilyich Kolesnikov, o oficial Vladimir S. Pershikov e eu. A detenção em si foi bastante pacífica, ele foi retirado de uma rua em Novocherkassk. Chikatilo estava vindo de um beco, aparentemente indo embora para sua casa. Nós o seguimos. Ele carregava um saco de tecido azul contendo uma garrafa. Estava sem chapéu, jaqueta marrom. Tinha uma bandagem no dedo. Preso, ele não fez nenhuma tentativa em resistir e não disse uma palavra, não estava surpreso com o que estava acontecendo. Durante todo o tempo ele ficou em silêncio dentro do carro, a não ser por uma estranha frase dita quando já havíamos percorrido mais da metade do caminho. Ele disse: ‘Sim, isso mostra mais uma vez que não se deve discutir com as autoridades.’ Mandamos que ele ficasse quieto, e ele respondeu: ‘Depois de tudo, você não pode discutir com autoridades’. Depois disso fomos em silêncio até Rostov.”

[Trecho do relatório do oficial Anatoly Yevseyev]

Ao chegar em Rostov, Chikatilo encararia homens com sangue nos olhos, Issa Kostoyev, Mikhail Fetisov e Viktor Burakov o esperavam com ansiedade. Kostoyev pediu para que Chikatilo respondesse algumas perguntas como nome, sobrenome, local de moradia, endereços anteriores, etc. Chikatilo tinha um comportamento estranho, ele começava a responder e do nada parava. Também do nada começava a falar frases sem sentido e fora de contexto, como as proferidas por ele dentro do carro.

Enquanto Kostoyev tentava tirar alguns dados dele, uma enfermeira tirava o seu sangue para análise enquanto um outro perito tirava uma amostra da sua saliva e um fio de cabelo para testes de DNA. A garrafa que Chikatilo carregava continha cerveja e em sua jaqueta foram encontrados um canivete, fitas e fios. 

Na Foto: As evidências encontradas com Andrei Chikatilo no dia de sua prisão.

As evidências encontradas com Andrei Chikatilo no dia de sua prisão.

Na Foto: Dedo ferido de Andrei Chikatilo.

Dedo ferido de Andrei Chikatilo.

Na Foto: Andrei Chikatilo. Foto tirada no dia de sua prisão, no dia 20 de novembro de 1990.

Andrei Chikatilo. Foto tirada no dia de sua prisão, no dia 20 de novembro de 1990.

Chikatilo estava com um terrível ferimento em um dos seus dedos. Segundo ele, seu dedo quebrou depois dele acidentalmente fechar a porta do carro nele. Mas segundo um médico que o examinou, o ferimento era inconsistente com uma “fechada de porta”. Para o médico, o ferimento poderia ter sido causado por uma mordida humana. Teria o ferimento sido causado pela mordida de uma vítima?

Às 20h horas do dia 20 de novembro, Chikatilo foi levado até uma prisão da KGB, o Serviço Secreto russo. Lá ele foi colocado em uma cela com um informante da polícia que se passava por um criminoso. A ideia era:

  1. Primeiro: tentar fazer com que Chikatilo falasse alguma coisa para o seu “amigo detento”;
  2. Segundo: ter alguém 24 horas por dia para vigiá-lo e assim intervir em uma possível tentativa de suicídio;

Chikatilo conversou várias vezes com seu “amigo” mas não disse nada que pudesse incriminá-lo. No dia seguinte, 21 de Novembro, policiais foram até a sua casa fazer uma busca. A presença da polícia assustou sua mulher e seus dois filhos. Nada de incriminador foi encontrado, entretanto, a polícia apreendeu 23 facas de cozinha, sapatos e algumas roupas. 

Na Foto: Facas apreendidas durante a busca do apartamento A. Chikatilo no dia 21 de novembro de 1990.

Facas apreendidas durante a busca no apartamento A. Chikatilo, no dia 21 de novembro de 1990.

Claramente as buscas não ofereceram nada que pudesse ligar Chikatilo aos assassinatos em série. Foi um duro golpe para Issa Kostoyev. O que fazer agora? Sem uma evidência física, como ligar aquele forte suspeito aos crimes do estripador? Kostoyev e companhia, então, desenvolveram uma estratégia de questionamento para tentar fazer com que Chikatilo confessasse os crimes (isso se ele realmente fosse o cara). O primeiro forte interrogatório de Chikatilo aconteceu as 16:00 horas do dia 21 de Novembro no escritório da prisão da KGB. Issa Kostoyev era o interrogador.

Quando Chikatilo foi trazido, Kostoyev pôde ver que ele era um homem alto, de meia-idade, com um longo pescoço, ombros inclinados, grandes óculos e cabelos grisalhos. Ele falava de forma arrastada, como uma pessoa idosa. Mas a aparência frágil não enganou Kostoyev, para ele, aquele senhor acima de qualquer suspeita era o terrível Estripador da Floresta. Olhando para Chikatilo, Kostoyev teve a certeza que seria fácil tirar dele as confissões dos assassinatos.

Kostoyev era um experiente detetive que já havia ficado frente a frente centenas de vezes com diversos tipos de assassinos. Ele só precisava entrar na cabeça de Chikatilo e descobrir sua lógica, assim ele começaria a falar. Normalmente, esse é o tipo de interrogatório padrão da polícia e a maioria dos criminosos uma hora ou outra acabam confessando. Mas não foi bem assim.

Inicialmente, Chikatilo disse que eles estavam cometendo um grave erro, da mesma forma quando ele foi interrogado em 1984. Apesar da gravidade da acusação, Chikatilo manteve-se durante todo o interrogatório frio e indiferente ao que acontecia ali.

Após o interrogatório inicial, ele escreveu uma queixa ao Ministério Público:

“As suspeitas que se levantaram contra mim são completamente errôneas. As autoridades cometem ações ilegais contra mim.”

O primeiro dia de interrogatório terminaria sem nenhum avanço.

No dia seguinte, Chikatilo escreveu uma estranha carta ao Procurador Geral da Rússia:

“Tenho perversas manifestações sexuais, sinto algum tipo de revolta, raiva, não consigo controlar minhas ações, pois desde a infância não pude ser como um homem, um homem completo. Não podia ter controle sexual, mental ou emocional, especialmente depois de assistir vídeos que mostram sexo pervertido…”

No dia 23 de novembro ele adicionou que:

“Eu tinha que ir muitas vezes… nas estações ferroviárias, trens, ônibus … Existem todos os tipos de pessoas, crianças, jovens, idosos. Eles pedem e exigem. Eu via bêbados chupando vagabundos e menores de idade. Andando pelos trens, eu podia observar cenas de vagabundos fazendo sexo nas estações e nos próprios trens. Lembro da minha humilhação, eu nunca poderia me revelar como um verdadeiro homem. Surge então a pergunta: Esses elementos tem o direito de existir? Com eles é fácil, eles não hesitam, pedem dinheiro, comida, vodka, em troca da vida sexual. Eu via quando eles iam até locais isolados…”

Que declarações estranhas, não? O que será que ele queria dizer quando disse se sentir humilhado? Em ter perversas manifestações sexuais? Não ser como um homem? Os investigadores realmente estavam frente a frente com o macabro Estripador da Floresta?

No entanto, essas informações eram picadas, mas de qualquer forma, pareciam confissões indiretas de um homem com algum tipo de distúrbio relacionado a sua sexualidade. Ele parecia ser o homem e parecia querer falar algo mais. Mas antes de continuar, ele pediu uma pequena pausa. Os próximos dois dias, que coincidiram com o fim de semana, Chikatilo pediu para não ser interrogado. Segundo ele, queria um tempo para pensar. Para Kostoyev, Chikatilo disse que confessaria seus crimes, mas não agora.

Depois de dois dias de descanso, em 26 de novembro, Chikatilo escreveu novamente,

“De fato, em 23 de novembro, eu disse que confessaria os crimes hoje, dia 26. Não fui obrigado a isso, mas, no entanto, anuncio hoje que eu não tenho nada para confessar. Não cometi crime algum.”

Será que Issa Kostoyev ficou irritado? Eles perderam dois dias de interrogatório e agora eles só tinham mais quatro dias para tirar uma confissão de Chikatilo. Chikatilo parecia conhecer a lei. Ele sabia que depois de 10 dias, era liberdade. Kostoyev continuou acusando-o e ele negava veemente qualquer participação na onda de assassinatos. O fato era que Kostoyev não tinha nada que pudesse fazer Chikatilo confessar. Não havia testemunhas e nem uma prova incriminadora. Como já dito antes, tudo contra aquele senhor de 54 anos era circunstancial.

“Toda noite Issa Kostoyev deixava a sala de interrogatório como um limão espremido. Chikatilo permanecia silencioso, calmo. Acho que ele estava com medo de começar a falar. Estava deprimido. Ele chegava a dizer: ‘Espere um pouco, me dê um tempo, eu tenho medo de dizer’.” 

[Amurhan Yandiev, investigador do caso]

Na Foto: O suspeito Andrei Chikatilo durante interrogatório no dia 26 de novembro de 1990.

Issa Kostoyev, ao fundo, e Andrei Chikatilo, durante interrogatório.

Na Foto: O suspeito Andrei Chikatilo durante interrogatório no dia 26 de novembro de 1990.

O suspeito Andrei Chikatilo durante interrogatório no dia 26 de novembro de 1990.

As horas iam passando e nada de Chikatilo confessar (se é mesmo que ele era o asassino). Kostoyev começava a ficar nervoso e sempre interrogava-o jogando aberto. Ele tentou um artifício para fazê-lo falar,

“Eu sei que você tem problemas mentais. Confesse tudo, todos seus crimes, a forma como os matava. Um exame pode confirmar que você tem problemas mentais e então você pode ser tratado. Se não confessar, as provas que eu tenho contra você certamente o condenarão a morte.”

Kostoyev não tinha prova nenhuma que ligasse Chikatilo aos crimes, mas aquele foi um velho artifício usado por policiais no mundo inteiro e que, na maioria das vezes, dá certo. Chikatilo demorou a responder e quando respondeu, pediu alguns dias de descanso antes de falar novamente.

Mais dois dias e Chikatilo dizia que… Não! Ele não era culpado de crime algum. Chikatilo negou qualquer crime e disse passar o seu tempo livre com sua esposa e filhos em casa. Isso deixou Kostoyev bastante nervoso. Se Chikatilo fosse mesmo o assassino, ele era esperto. Era evidente que ele usara os dois dias para benefício próprio.

No dia seguinte, ele revisou algumas de suas declarações anteriores. Confrontado sobre suas “fraquezas sexuais” e ações “fora do controle“, Chikatilo disse que estivera envolvido em ações criminosas, mas não assassinatos. Segundo ele, em 1977, quando era professor, acariciou algumas crianças no colégio que lecionava. Segundo ele, tinha dificuldades em se controlar na frente delas. Em outras palavras, sua fraqueza sexual era a atração por crianças e suas ações fora do controle teriam sido o acariciamento de duas meninas nesta época.

Ele escreveu de novo e de novo, mas não revelou nada de anormal. Passaram-se nove dias desde a sua prisão e Kostoyev a cada minuto ficava mais longe do seu objetivo. Ele não tinha a mínima ideia do que fazer ou de que método utilizar para fazer aquele homem se abrir. Um exame médico mais apurado concluiu que o sangue de Chikatilo era do tipo A, mas o seu sêmen supostamente tinha um fraco anticorpo B, fazendo parecer que seu tipo sanguíneo era AB, embora não fosse. Ele parecia ser um raro caso onde o tipo sanguíneo retirado de secreções (como esperma) era diferente do extraído do sangue.

O informante que estava na cela de Chikatilo disse a Burakov que as técnicas de interrogatório não foram de acordo com o protocolo e isso fez Chikatilo ficar na defensiva. Era improvável que ele falasse. Numa tentativa desesperada, Kostoyev levou fotógrafos até Chikatilo e o humilhou dizendo que eles haviam testemunhado as suas barbáries e que divulgariam as fotos. Chikatilo não esboçou nenhuma reação.

Nove dias se passaram, faltava apenas mais um. Eles não podiam deixar Chikatilo preso por mais tempo sem ter uma acusação. Parecia que eles teriam que deixar o homem ir embora. E foi ai que Viktor Burakov teve uma ideia. Talvez eles devessem tentar um outro interrogador que não seja Kostoyev. Talvez Andrei Chikatilo tenha se sentido intimidado com o modo de interrogar de Kostoyev. Kostoyev se sentiu ofendido com a ideia de Burakov e resistiu à ideia. Eles discutiram e Kostoyev admitiu que ele não conseguira chegar a lugar nenhum. Mas quem poderia interrogar Chikatilo? 

Alexandr Bukhanovsky

Certamente, desde o início, Viktor Burakov pensou sobre a possibilidade do psiquiatra Alexandr Bukhanovsky interrogar Andrei Chikatilo. E ele esperou o momento certo para propor essa ideia ao ranzinza e autoritário Issa Kostoyev. É claro que Kostoyev queria arrancar a confissão de Chikatilo e é mais claro ainda que ele se sentiu totalmente ofendido em sua dignidade quando Burakov o confrontou propondo um outro interrogador que não fosse ele. No final, o bom senso falou mais alto e, faltando apenas mais um dia para manter Chikatilo preso, Kostoyev recuou e aceitou que outra pessoa o interrogasse.

“Fui chamado na manhã do dia 29 de novembro. Na sede da KGB, me explicaram que o homem detido era o suspeito de ser o Estripador da Floresta. Kostoyev colocou um número relevantes de respostas que eles procuravam: se foi este o homem que cometeu os assassinatos; onde ele cometeu; de que forma ele levava as vítimas; por que elas iam com ele; quando e como ele iniciava as agressões; etc. Entretanto, eu defini algumas restrições morais e éticas. Sou um médico, não um investigador, portanto, obter uma confissão do homem não funcionaria. Além disso, aceitei interrogá-lo como um médico e não como um detetive. Nada do que ele dissesse a mim poderia ser usado contra ele. Essas condições foram aceitas e em 29 de novembro eu passei todo o dia com Andrei Romanovich, das 09h30 da manhã até atarde da noite, com uma pausa obrigatória para o almoço. No início da conversa, de acordo com a lei, me apresentei como um médico, dei o meu cartão, e disse sobre o meu trabalho no caso.”

As técnicas utilizadas pelo psiquiatra Alexandr Bukhanovsky eram totalmente diferentes das utilizadas por Kostoyev. Claro, são dois mundos diferentes, enquanto um era puro ódio, o outro era um arquiteto da mente, alguém que sabia construir muito bem o caminho por onde andar e percorrer.

Imediatamente, Bukanovksy percebeu que Chikatilo era o tipo de homem que ele havia descrito em seu perfil em 1986. Um homem comum, solitário, de aparência não ameaçadora. O psiquiatra se mostrou humilde perante Chikatilo e então mostrou o seu perfil. Bukhanovsky sentiu que Chikatilo queria falar sobre sua raiva e humilhação, por isso ele se mostrou simpático e ouvinte. Ele passou duas horas fazendo isso e então começaram a discutir os crimes.

Algumas fontes dizem que Bukhanovsky pediu ajuda para Chikatilo em alguns aspectos do perfil, no qual o psiquiatra tinha dúvidas. Ele lê algumas páginas relevantes enquanto Chikatilo ouve atentamente. Bukhanovsky foca as suas palavras na natureza de sua doença mental e nas origens que poderiam ocasionar aquilo. Escutando sua vida descrita de forma tão precisa, Chikatilo começa a tremer. Aquele homem parecia a única pessoa na face da terra que o entendia. E é ai que, finalmente, Andrei Romanovich Chikatilo, 54 anos, confessa a verdade. Ele era o Estripador da Floresta. Um dos mais sádicos assassinos do século 20, finalmente, confessava os seus crimes.

Na Foto: Apenas alguns das dezenas de vítimas de Andrei Romanovich Chikatilo

Apenas algumas das dezenas de vítimas de Andrei Romanovich Chikatilo.

Na foto acima (da esquerda para à direita):

  1. Svetlana Korostik, 22 anos, última vítima de Andrei Chikatilo, morta na estação de Donleskhoz;
  2. Vadim Gromov, 16 anos, estudante de Shakhty, desaparecido depois de pegar um trem para Taganrog;
  3. Alexey Moiseyev, 10 anos, morto em 1989 nos arredores de Moscou. Chikatilo confessou sua morte após sua prisão;
  4. Lyudmila Alekseyeva, 17 anos, estudante de Rostov;
  5. Natalya Golosovskaya, 16 anos, despareceu após sair para visitar a irmã em Novoshakhtinsk;
  6. Yelena Bakulina, 22 anos, seus restos mortais foram encontrados em agosto de 1984 em Rostov;
  7. Valentina Chuchulina, 22 anos, morta em 1983 perto da estação de Kirpichnaya, Rostov;
  8. Vera Shevkun, 19 anos, morta em Shakhty, em outubro de 1983;
  9. Sergey Kuzmin, 15 anos, morto perto de uma estação de trem em Shakhty, janeiro de 1983;
  10. Irina Karabelnikova, 19 anos, morta em setembro de 1982 em Shakhty;
  11. Irina Gulyayeva, 18 anos, morta em Shakhty, 1985;
  12. Natalya Pokhlistova, 18 anos, morta perto do aeroporto de Moscou, em agosto de 1985;
  13. Alexey Khobotov, 10 anos, morto no cemitério de Shakhty. Chikatilo confessou sua morte após sua prisão;
  14. Natalya Shalapinina, 17 anos, amiga de Olga Kuprina, assassinada em 1982.

Modus Operandi


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Como um verdadeiro “Lobo Enlouquecido”, Andrei Romanovich Chikatilo caçava suas vítimas em estações de trens e ônibus de Rostov e cidades adjacentes. As vezes, passava o dia inteiro percorrendo as estações em busca de vítimas. Conversava com qualquer mulher que topasse o seu caminho. Seu trabalho como negociador de suprimentos de uma empresa de Shakhty, o permitia passar longos dias em viagens. Ele aproveitava para fazer vítimas pela União Soviética.

Ao se aproximar das mulheres, Chikatilo era direto: primeiramente as “parabenizavam” por suas belezas, dizia-se ser um homem sozinho e que estava a procura de uma mulher para SEXO, sua vida era facilitada pelas mulheres a que propunha o ato, normalmente prostitutas e jovens que não tinham o que comer. Das crianças, Chikatilo se aproximava e oferecia doces para que eles o acompanhassem até determinado local (normalmente bosques ou florestas ao lado das estações de trem e ônibus). Usava sua experiência anterior como professor para ganhar a confiança delas. Em poucos minutos de conversa, arrancava da criança os seus gostos e usava para manipulá-las.

O Ritual


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Os crimes de Chikatilo chocam por sua brutalidade.

No silêncio de uma floresta, bosque ou matagal, Chikatilo estuprava, mutilava e matava suas vítimas com requintes de crueldade. Ao chegar ao local, O Estripador da Floresta golpeava algumas vítimas na cabeça. Muitas delas não eram golpeadas e Chikatilo as atacavam e sentia prazer em travar uma luta corporal. Antes de mutilá-las, em muitos casos, Chikatilo arrancava a língua das vítimas com os dentes para que elas não pudessem gritar. Os olhos eram removidos com uma faca para que elas não pudessem ver a sua “perfomance sexual”. Muitas vezes, depois do estupro, com a vítima ainda viva, Chikatilo arrancavam seus narizes, dedos, mamilos e órgãos sexuais com a boca, dando mordidas. Depois de todas essas mutilações, Chikatilo ainda esfaqueava suas vítimas dezenas de vezes. Como disse posteriormente,

“Cortar elas e ver seus corpos abertos me fazia ter ejaculação… Eu tinha de ver sangue e tinha que cortá-las”.

Os mamilos, úteros e testículos podiam ser mastigados ou comidos por Chikatilo. Quando não os engolia ou mastigava, ele os jogava fora no caminho de volta para casa.

Os corpos eram tão severamente mutilados que, muitas das vezes, quando encontrados pela polícia, a mesma não sabia identificar de imediato se era homem ou mulher. Houve um caso (no Uzbequistão) em que as autoridades pensaram que a vítima havia sido colhida por uma colheitadeira.

E para desespero de Viktor Burakov e companhia, Chikatilo havia matado mais, muito mais do que as 36 vítimas conhecidas por eles.

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Serial Killers - O Estripador da Floresta - Vida e Morte

Quem foi Andrei Chikatilo?


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Quem foi Andrei Romanovich Chikatilo? O que poderia ter criado esse homem? Como um homem casado, pais de dois filhos, com diplomas universitários, poderia ter se transformado num sádico assassino comedor de úteros e testículos? Eu antecipo a vocês. Até hoje, o caso Andrei Chikatilo tem mais perguntas do que respostas.

Andrei Romanovich Chikatilo nasceu no dia 16 de outubro de 1936 em uma pequena aldeia ucraniana chamada Yablochnoye, que quase faz divisa com a Rússia. Ele nasceu com uma deformação na cabeça devido ao acúmulo de água no cérebro. Genética? Um bebê prematuro? Não se sabe. Sabemos que a hidrocefalia pode causar problemas físicos como psicológicos, de probelmas na visão a problemas de motivação pessoal. Quem já conhece a história de Chikatilo sabe que esses dois fatores foram durante muito tempo tormentos para Andrei.

Chikatilo tinha uma irmã sete anos mais nova e cresceu praticamente sem a presença do pai, um soldado russo que foi prisioneiro dos nazistas durante a II Guerra e posteriormente, com o fim da Guerra, foi enviado a um campo de concentração no seu próprio país.

Andrei descreve o pai como um homem quieto e modesto. Muitas vezes ele contava histórias para o filho sobre a guerra e como era sua vida no campo de concentração. Sobre a mãe, Chikatilo lembra dela como uma mulher que não tinha tempo suficiente para os seus filhos. Seu esforço era dirigido de forma a garantir a sobrevivência da família. Sem o marido em casa, sua mãe passava o dia fora, trabalhando, garantido o sustento dos filhos. Aqueles eram tempos difíceis que coincidiram com as grandes fomes na União Soviética e com a ocupação nazista na Ucrânia.

No livro de Moira Martingale, Cannibal Killers, a autora vê conexões diretas entre o aberrante comportamento de Chikatilo e seus tempos de infância.

Como dito no começo do texto, durante a primeira parte do século 20, a antiga União Soviética passou por escassez de alimentos. Especialmente na Ucrânia, após Stálin proibir a agricultura e enviar centenas de cidadãos até os gulags siberianos. Cerca de 10 milhões de pessoas morreram de fome, e pessoas desesperadas passaram a recorrer ao canibalismo para sobreviver. Pessoas esfomeadas iam aos cemitérios onde os corpos eram empilhados e, às vezes, pessoas vivas eram mortas para serem devoradas. Carne humana era comprada e vendida.

Crianças viam cadáveres desfigurados e ouviam terríveis contos dos mais velhos. Chikatilo cresceu escutando os horrores de uma dessas grandes fomes, o Holodomor. Ele era assombrado por uma terrível história contada por sua mãe. Segundo ela, o irmão mais velho de Chikatilo, Stepan, fora devorado por canibais.

Na prisão, ele chegou a dizer que:

“Muitas pessoas foram a loucura, atacavam e comiam pessoas. Então eles pegaram o meu irmão que tinha 10 anos, e o comeram.”

O pequeno Chikatilo era constantemente assombrado por sua mãe para não brincar no quintal, ou então, ele poderia ser comido! Era uma assustadora infância. Imaginem o impacto que histórias como essa podem ter na mente de uma criança. E principalmente se essa criança tiver uma pré-disposição pra algum tipo de transtorno mental, como a psicopatia, por exemplo. Quando somos crianças, ficamos assustados e impressionados apenas de escutar histórias do lobo mau! Imaginem uma história sinistra na qual seu irmãozinho mais velho foi comido.

Para piorar, o pequeno Chikatilo também testemunhou os horrores da ocupação nazista. Os bombardeios alemães explodiam corpos nas ruas. Ele disse a psiquiatras que os alemães o assustavam, mas ao mesmo tempo o excitavam.

“De 1941 a 1943 minha família viveu sob a ocupação nazista. Após as batalhas nós carregávamos os corpos, haviam partes de corpos por todas as partes… nas ruas eu via corpos de crianças despedaçados.”

[Andrei Chikatilo]

A maior parte de sua infância foi vivida sozinho, vivendo em suas fantasias. Outras crianças zombavam dele pelo seu jeito estranho. Ele começou a desenvolver uma certa raiva nessa época e constantemente criava fantasias na sua cabeça sobre tortura.

Apesar do impacto negativo que essas experiências possam ter tido em sua mente, para muitos psiquiatras, o episódio mais significativo sobre sua infância (e que poderia tê-lo afetado) foi um suposto estupro de sua mãe. É bem possível que Chikatilo, aos 6, 7 anos, tenha presenciado o estupro de sua própria mãe por soldados alemães. A história nunca pôde ser comprovada, mas um indício forte de que realmente isso aconteceu é que sua outra irmã, Tatiana, nasceu em 1943, quando seu pai ainda estava na Guerra. E se ele estava na Guerra, Tatiana não poderia ser filha dele.

“Eu estava com 5 anos quando meu pai foi para a batalha. Lembro que era um dia muito bom, verão, quente. Todos em idade militar foram para a guerra. Os campos agrícolas ficaram vazios. Me lembro dos horrores da infância, quando escondíamos dos bombardeios e tiros. Ficávamos em poços, valas, sentados com fome e frio. Escutava o assobio das balas. Lembro das atrocidades nazistas e deles queimando minha própria cabana.”

[Andrei Chikatilo]

Como a maioria dos ucranianos, o pai de Andrei Chikatilo escapou de ser morto, ele foi capturado pelos nazistas e obrigado a trabalhar em minas alemãs. Foi libertado pelos americanos em 1945, mas não voltou para casa. Na época, a paranoia do ditador Joseph Stálin era tamanha que ele tachou de traidores todos aqueles soldados que foram feitos prisioneiros pelos nazistas. Para o ditador, ou você morria em batalha ou matava mil, não havia meio termo. Os capturados, em sua visão, eram fracos e traidores. Portanto, o pai de Chikatilo, após escapar das mãos dos nazistas, caiu nas mãos de Stálin, e foi mandado para campos de concentração soviéticos de onde só sairia em 1949.

Assim, a família ficou sem um chefe de família em um novo período de fome: 1946-1947, época que Andrei Chikatilo tinha 10, 11 anos.

Percebendo que o canibalismo era uma realidade em tempos de fome em massa, a mãe de Chikatilo advertia ele e sua irmã, sempre lembrando do seu irmão Stepan, comido durante o Holodomor. Chikatilo, como toda criança, morria de medo e não saia de casa, com medo de ser comido por canibais.

Essa época da sua infância pode ser extremamente valiosa para tentar entender o seu comportamento doentio. A morte para ele era algo familiar e compreensível.

“Me lembro da fome do pós-guerra, me lembro dos mortos. Lembro do horror das pessoas morrendo de fome nas ruas, sem caixões, envolto em trapos.”

[Andrei Chikatilo]

Naturalmente, Chikatilo formou-se através do medo de ser destruído, comido, o medo da morte. Esses temores estão presentes na maioria das pessoas, mas de uma forma inconsciente. Porém, para o pequeno Chikatilo, isso cresceu-se em uma disposição pessoal, uma visão de mundo. Tudo começa a surgir a partir de sua infância, na ausência de um sentimento de segurança, proteção. Em todas entrevistas a qual foi submetido após ser pego, ele sempre voltava a estas trágicas lembranças do passado.

“Fui para uma aula em setembro de 1944, estava fraco e com fome. Desmaiei e cai em baixo da mesa. Fui objeto de piadas e não podia me defender. Era muito, muito tímido. As vezes os alunos perguntavam ao professor: ‘Andrei não tem língua?’ Eu não podia enxergar por causa da miopia congênita. Eu tinha medo de perguntar o que estava escrito no quadro, ficava nervoso, chorava. Só comecei a usar óculos com 30 anos, quando me casei, foi ai que veio o horrível apelido de quatro olhos. Eu não enxergava, mas ouvia atentamente as palavras do professor, chegava em casa e me debruçava nos livros didáticos. Era o meu sigilo, minha privacidade, alienação… Toda minha vida fui humilhado, me batiam por causa do meu jeito. Me chamavam de trapalhão, fraco. Lágrimas me machucaram e sufocaram durante toda minha vida.

Minhas relações com minha mãe eram boas. Nunca nos puniu, mas não tinha nenhum tipo de afeto. Seu trabalho era de sol a sol. Eu orei a Deus para que meu pai rapidamente voltasse do exílio. Lembro-me naquela época, no frio, cada hora que eu ficasse sozinho, eu ajoelhava e rezava para que o Senhor trouxesse meu pai. Em 1949 ele voltou da guerra, mas voltou um homem tuberculoso, cuspindo sangue, deitado e gemendo. Minha mãe também tinha dores de cabeças frequentes.”

[Andrei Chikatilo]

Chikatilo era uma criança tímida, reservada, sensível e propenso a viver de fantasias. Seus defeitos físicos, como a miopia, o faziam sofrer profundamente. Além disso, ele sofria de enurese noturna. Como ele diria mais tarde, todos esses problemas, e o bullying sofrido, o faziam parecer que ele era um aborto da natureza. Ele não conseguia se defender dos seus colegas e não encontrava apoio psicológico dentro de casa.

Seu pai, um homem calmo e humilde, contrastava com sua mãe, que parecia ter uma posição neutra dentro de casa. Não punia seus filhos, mas também não demonstrava afeto, e isso sugere uma certa indiferença para com os filhos que, claro, é bastante prejudicial para uma criança, ainda mais para uma criança como Chikatilo. Mas isso, é totalmente compreensível, ainda mais numa época como aquela. Como bem lembrado pelo autor JM Antonian:

“Pode-se argumentar que, naqueles difíceis anos, um pedaço de pão era mais importante do que o afeto materno.”

Mas não podemos negar que o amor dos pais e o afeto materno, é vital para os filhos, principalmente em tempos difíceis. A criança sempre deve se sentir protegida, mesmo que os pais precisem mentir.

“Mãe Chikatilo”


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Ao estudar a infância do serial killer, o psiquiatra Bukhanovksy introduziu o termo “mãe Chikatilo”, o qual ele descreve como uma mulher cruel, um personagem poderoso e com um papel distinto do líder da família. Por viver longe dos seus maridos, elas são deslocadas do seu papel de mãe e na educação dos filhos. A trágica falta de comunicação com os filhos, a falta de amor e carinho, e as constantes faltas de demonstração de afeto, podem promover irreversíveis mudanças na personalidade dos filhos. Eles podem crescer sem simpatia, sem a habilidade de se comunicar com os outros, incapazes de manter uma relação verdadeira, de amar, de sentir empatia.

Para o psiquiatra, filhos dessas mães não sabem como se defender de abusos morais ou físicos, e com suas fantasias crescentes, ao invés de procurar ajuda, de desabafar com alguém, eles acabam escondendo-se dentro de si mesmos. Para JM Antonian, a falta de relação emocional de Chikatilo com sua mãe, foi um dos principais fatores para sua alienação psicológica.

Quando não há contato emocional com os pais, as crianças não conseguem absorver seus valores morais ou mesmo seus comportamentos. Se a mãe ou o pai não cumpre com suas funções, a criança começa a sentir insegurança, incerteza e ansiedade. Se a situação não melhorar, esses sentimentos podem progredir, fazendo da criança um adulto inseguro e até mesmo medroso. Alguns estudiosos acreditam que a violação das restrições primárias de socialização e dos contatos emocionais não só podem contribuir para a alienação como para comportamentos desviantes como o alcoolismo, prática de bullying e violência. Em resumo, a significativa falta de contato emocional da criança com sua mãe e pai, pode levá-lo a alienar-se da sociedade e a um comportamento desviante.

A ausência do contato emocional desde cedo, fez de Chikatilo um homem não só inseguro como hostil ao mundo. E a tendência disso era só piorar com a chegada da adolescência. Ele se sentia um rapaz cego, e não se relacionava por medo de, alguma forma, ser humilhado. Ele se encontrava completamente sozinho contra o mundo exterior, guardando para si seus fracassos e humilhações sofridas …

“Um dia, como de costume, estava de pé num canto, durante o intervalo, quando uns meninos empurraram uma menina em mim. Ela tentou não cair e segurou em mim. Eu a empurrei para longe de mim. Eu não fiz intencionalmente, foi meio que um reflexo. Depois disso, eles me puseram mais um apelido: ‘Andrei, o forte’.

[Andrei Chikatilo]

Essas experiências, que posso dizer bobas, e pelas quais a maioria das crianças passam durante a infância, fez gerar um ódio imenso em Chikatilo, que só aumentou com a idade. Ele crescia impotente perante o mundo, que em sua cabeça, o humilhava. Era um homem ressentido, sentia-se inútil. Ao entrar na adolescência, o sentimento de inferioridade foi compensando com o interesse nos estudos. Era um entusiasta da filosofia marxista, ora bolas, era a filosofia que mostrava como se livrar da injustiça e hostilidade do mundo.

“Eu tentava ficar à frente dos meus colegas de escola. Era o editor do jornal de parede em todos os anos do ensino fundamental. Eu tinha duas coisas favoritas. No ensino médio, decidi representar uma série infinita de números ordinais e escrevi até quase um milhão. Na oitava série, decidi fazer um atlas detalhado. No livro de geografia, escrevi em todas as páginas os nomes dos Secretários Gerais da União Soviética, tinha certeza que o comunismo estava chegando. Eu acreditava firmemente: Não serei o último, tenho um lugar no Kremlin.”

“Tinha dores de cabeça frequentes, tontura. Mas eu persisti. Li um monte de livros. Admirava a literatura militar, particularmente a literatura de guerrilha. Gostava porque meu pai tinha sido o comandante do grupo guerrilheiro.”

[Andrei Chikatilo]

Mais tarde, Chikatilo confessou a psiquiatras que as vezes fantasiava ser um cumpridor de ordens de militares superiores ao caçar as vítimas nas florestas.

“…sua infância revelou-se especialmente desarmoniosa, combinando características esquizoides com epilepsia e psicopatia… Chama-se atenção para suas fantasias infantis, seu imaginário, a sensualidade, a fixação sobre as experiências emocionais negativas. Com a mesma idade, foi observado os transtornos neuróticos na forma de medos… Na idade pré-púbere nasceu passatempos sobrevalorizados e convicção de deficiência física. No entanto, o aumento do interesse no estudo, o desejo de ter educação para ser o melhor entre o seu grupo, indica a presença de reações de sobrecompensação. Isso também pode indicar uma tentativa de superar a sua eterna ansiedade, estabelecendo a ele um papel. Na mesma época, surgiu seu interesse em questões sócio-políticas e filosóficas, que são exageradas e de caráter inflexível…”

[Trecho do parecer de peritos do Instituo de Comissão Geral e Psiquiatria. Sérvia 1991]

Nossa rua na aldeia tinha muitos meninos e meninas. Eu, embora raramente, ficava com eles. Eu era considerado um rapaz competente, respeitador. Eu via como eles faziam, namoravam escondido, mas eu sonhava com um amor maior, como nos filmes, nos livros.

Se uma garota sentava ao meu lado, eu ficava com vergonha, medo, não sabia como me comportar, tímido, trêmulo, tentava me levantar do banco. Os pais das outras crianças me colocavam como exemplo: Vejam Andrei, tranquilo, modesto, estudioso… Mas eu odiava. Eu era um solitário, alienado…

No décimo ano gostei de uma menina, Lily Baryshev. Ela morava em uma cabana na estação de trem. Eu gostei do jeito dela, sua modéstia, feminilidade. Fomos ensinados na escola a amar e eu gostava das sardas do seu rosto. Os seus olhos eu não sei, meus olhos míopes, não podia olhar para eles.

Um dia fomos num cinema em um clube no campo, e eu sentei ao seu lado. Ela era uma menina bonita e dava atenção a todos os meninos da classe, mas não sei se ela prestava atenção em mim. Por causa das minhas roupas pobres e meu isolamento, provavelmente, ninguém gostava (de mim) …

Na sessão de cinema eu não estava só com medo de tocar sua mão mas também de olhar para ela. Ela ficou fascinada pelo filme. Eu fiquei com medo de se mexer, o filme todo passou e eu nem sabia do que se tratava. À noite, antes de dormir, eu sonhava, imaginava que ia abraçá-la, até mesmo beijá-la.

Foi um sonho, eu sempre quis falar com Lily ou ir para sua casa ao longo do caminho, mas nunca me atrevi…

Não muito longe de nossa casa morava uma colega da minha irmã, Tanya Bala. Ela tinha 13 anos e era uma menina muito grande. Pernas grandes, coxas bem definidas. Minha irmã e meus pais estavam visitando parentes em uma vila próxima e eu estava sozinho em casa. Tanya entrou em nosso quintal e conversou comigo. Eu não lembro o que respondi, mas olhando em volta e tendo a certeza de que ninguém poderia ver, eu a ataquei e ela caiu no chão, debaixo de uma árvore. Eu não pensei em expor a parte inferior do seu corpo, mas tentei simular relações sexuais. Quando ela acordou, tentou me empurrar para se libertar e ficamos lutando. Nessa luta eu experimentei um orgasmo… meus olhos nublaram… Fiquei preocupado, temendo que ela contasse a todos sobre o ocorrido. Após esse desastre eu decidi domar meu desejo pela carne. Fiz um juramento de que não tocaria em ninguém exceto minha esposa.

[Andrei Chikatilo]

O medo de que Tanya contasse o ocorrido para alguém era tão grande que sua mãe o perguntou se ele estava doente. Três dias depois, Tanya chegou para visitar a irmã de Chikatilo e agiu como se nada tivesse acontecido. Chikatilo chamou esse dia como o dia de sua queda…

Essa primeira “experiência” sexual, aos 18 anos, o deixou impressionado, principalmente devido ao fato dele ter conseguido uma ereção. Isso fixou-se ainda mais em sua mente… dominar outro ser humano, torturá-lo, e obter prazer sexual.

Na Foto: O jovem Andrei Chikatilo em foto do livro do colégio.

O jovem Andrei Chikatilo em foto do livro do colégio.

Em 1954, Chikatilo terminou os estudos na escola de sua aldeia com boas notas. Convencido de sua excepcional capacidade, ele foi até Moscou tentar entrar na Universidade no curso de Direito. Ele queria se tornar um importante político (o que quase conseguiu). Mas ele não conseguiu passar no vestibular. Ele então passou um ano estudando na escola de Akhtyrsky onde concluiu com êxito o curso técnico em linhas telegráficas. Em 1955, trabalhou nas linhas de comunicação dos Montes Urais e entrou para o exército, onde serviu em Berlim, Alemanha. Desajeitado, magro e com 18 anos, foi lá que ele teve contato com o lado errado da vida soviética. A vida no quartel, lugares sujos, homens analfabetos, os quais metade eram fugitivos da justiça. E foi nesse ambiente de caos que ele teve a sua primeira relação sexual propriamente dita com uma mulher, uma moradora do local, divorciada, de 35 anos.

“Maria foi para a cama comigo e eu fiquei muito preocupado. Ela tirou minha cueca e começou a me abraçar, acariciar meu corpo com as mãos. Mas todos os esforços foram em vão. Então, ela me atormentou a noite toda… De manhã, sonolento, cheguei no trabalho e os caras notaram e fizeram piadinhas. Me deram conselhos diferentes: o que fazer, como e onde acariciá-la. Fiquei envergonhado e fui embora. À noite eu queria voltar para o quartel mas os meninos me empurraram até ela e novamente deitei com ela. Mas novamente não aconteceu nada… Eu fiquei paralisado pelas lembranças das piadinhas feitas pelos meus companheiros. No dia seguinte, tentei chamar menos atenção e apenas alguns homens mais velhos vieram me dar uns conselhos. Após cerca de uma semana de palestras sobre o assunto, eu comecei a me acalmar. E no nono dia, eu decidi e, como de costume, fomos para a cama. Eu comecei a tocar em diferentes partes do seu corpo. Maria começou a me ajudar e ai veio… Queria me casar com ela mas os camaradas me dissuadiram dizendo que ela era 16 anos mais velha do que eu.”

[Andrei Chikatilo]

Chikatilo tinha a sua primeira relação sexual. E isso fez melhorar um pouco a sua baixa auto-estima. Ficou alegre e animado, mas logo essa alegria deu lugar, novamente, a sua fixação pela inferioridade. As vezes tinha pensamentos suicidas. Ele continuou estudando como um louco e entrou para o Instituto de Eletromecânica de Moscou. Apesar das suas constantes mudanças de humor e sentimento de inferioridade, seu outro eu o instigava a dedicar sua vida à construção do comunismo, ele gostava de escrever contra injustiças e fazia denúncias.

“Na adolescência, AR Chikatilo revelou distúrbios do seu desenvolvimento psicossexual com um atraso na fase romântica da formação da sexualidade .. após tentativas frustradas de contato sexual com mulheres, formou-se um transtorno afetivo com prevalência a um recorrente fundo depressivo e suicida, aprofundando o seu isolamento, ansiedade e vulnerabilidade … neste período inicia-se suas fantasias sado-masoquistas… Apesar da presença de tais desordens, não há sinais de desajustamento social, mas salienta-se um baixo nível de ajustamento heterossexual, o que resulta na diminuição do desejo sexual, insuficiência erétil e experiências orgásmicas fantasiosas. Suas fantasias sado-masoquistas tornam-se um substituto de sua atividade sexual.”

[Trecho do parecer de peritos do Instituo de Comissão Geral e Psiquiatria. Sérvia 1991]

Chikatilo serviu o exército de 1958 a 1961. Serviu na Ásia Central, nas tropas que vigiavam fronteiras, e em seguida trabalhou nas linhas de comunicação da KGB em Berlim.

No exército, Chikatilo obteve sucesso tanto em atividades militares como de escritório. Foi editor de um jornal e propagandista, o que acabou se tornando sua porta de entrada para o Partido Comunista. Ao mesmo tempo, ele era arredio e não se relacionava. Quando colegas se ofereciam para apresentar-lhe uma mulher, ele se recusava, preferindo os seus livros ou ficar escutando Stálin no rádio.

Uma pessoa normal, consegue se comunicar em dois sistemas: verbal e não verbal. E, muitas vezes, o sistema não verbal é fundamental. Por exemplo: As vezes uma mulher diz “sim”, mas olhando o seu comportamento e seu tom de voz, você percebe que ela quis dizer “não”. Para os sádicos, tais sistemas não estão disponíveis, eles só são capazes de se comunicarem em um sistema formal. Nessa situação, eles não são diferentes de nós. E aqui está Chikatilo. No exército, ele foi um dos melhores, mas em situações informais, onde a comunicação é não verbal e você precisa de intuição, essas pessoas não entendem o que acontece, elas se tornam uma espécie de idiotas e, dolorosamente, se sentem inferiores. E por causa de tais situações informais, essas pessoas acabam evitando o convívio com outras. No exército, enquanto todos estavam de folga, em bares, danceterias, paquerando as meninas, Chikatilo preferia se excluir em seu quarto, lendo Lênin e engajado em sua “formação política”. Para ele era uma compensação, mas na verdade, era uma falsa compensação, pois a dolorosa condição de inferioridade se intensificava ainda mais.

Essas pessoas não tem habilidades de auto-defesa. Na infância e adolescência, são alvos fáceis de ridicularização de seus colegas mesmo sendo fisicamente mais fortes do que aqueles que os ofendem. Essa acaba sendo a raiz do seu complexo de inferioridade e baixa auto-estima que só aumenta ao longo dos anos. A dificuldade em lidar com mulheres reforça ainda mais esse complexo.

[Alexander Bukhanovsky]

Após sair do exército, Chikatilo voltou a morar com os pais em sua pequena aldeia na Ucrânia. Como todo mundo que enfrenta a rigidez do exército, externamente, Chikatilo estava diferente. Lá ele conheceu Tanya Narizhnaya, uma nova vizinha da família.

“…depois de cerca de uma semana, eu comecei a tocá-la, pegar suas mãos e até a beijei. Ao beijá-la, meu coração acelerou, fiquei tonto… mas ela respondeu aos meus beijos. Ao mesmo tempo, eu não podia ter uma relação com ela, por medo de me desgraçar em sua frente…”

[Andrei Chikatilo]

Em outras palavras, Chikatilo tinha medo do fracasso, medo de não realizar seu papel de homem, medo de não conseguir uma ereção, medo de não penetrar Tanya.

“Na aldeia, não muito longe de nós, vivia a família Chikatilo. Fiz amizade com sua irmã Tanya que era da minha mesma idade. Seu irmão Andrei estava em Moscou. Quando ele chegou, nos conhecemos e começamos a namorar, durou seis semanas. Andrei era um tipo gentil. Uma vez em casa, tentamos uma relação, mas Andrei falhou. Outra vez, no caminho até sua casa, paramos no bosque e Andrei fez outra tentativa… mas novamente não funcionou”.

[Tanya Narizhnaya]

“…senti vergonha, especialmente quando eu vi o seu desagrado…” 

[Andrei Chikatilo]

Chikatilo tentou fazer sexo duas vezes com Tanya, mas falhou nas duas, e isso o deixou furioso. Tão irritado que queria destruir tudo a sua volta. Seu mundo desabou e ele confirmou que sua realidade de vida era um completo fracasso. Talvez a morte seja a solução para um homem como eu, um homem inútil e que na flor da idade não consegue nem mesmo ter o seu órgão em pé, pensou ele. E era realmente assim que Chikatilo se sentia. Posso garantir que a semente para sua fúria foi a sua impotência, a incapacidade de exercer o seu papel masculino, de macho, isso o perseguiria por toda sua vida.

Na Foto: Andrei Chikatilo, à esquerda, sua irmã Tanya, ao meio, e amigos. Data desconhecida.

Andrei Chikatilo, à esquerda, sua irmã Tanya, ao meio, e amigos. Data desconhecida.

Ele deixou sua vila com um sentimento de total desonra. Foi embora para tentar começar uma vida diferente.

Em 1961, após deixar sua cidade natal, Andrei conseguiu um emprego em Novocherkassk, região de Rostov. Tornou-se assistente chefe de obras de pavimentações entre aldeias remotas. Em uma das obras, na aldeia de Hotunok, depois de um almoço, Chikatilo decidiu descansar um pouco. Encontrou um lugar na sombra de uma floresta onde estavam outros homens. Conversa vai e conversa vem, um dos homens começou a contar detalhes de sua transa com uma mulher na noite anterior. Certamente, em tais conversas, Chikatilo ficava bastante constrangido e desconfortável. Mas uma vez escutando a conversa, Chikatilo começou a fantasiar em sua cabeça imagens de sexo com mulheres. Não aguentando, ele se levantou e desapareceu entre as árvores. Um dos homens resolveu segui-lo.

“…quando eu voltei do mato todos estavam rindo. Um deles falou: ‘Andrei foi lá para se masturbar!'”

[Andrei Chikatilo]

Devido a sua miopia, Chikatilo não percebeu que um dos colegas o observara se masturbando. Não preciso dizer o que aquilo causou em sua mente. Qualquer situação em que ele se sentisse inferior, constrangido, era como se o mundo o estivesse torturando e apunhalando-o. Como bem explicado por Bukhanovksy, homens como Chikatilo não conseguem entender determinadas situações de convívio social. Para muitos, o que é apenas uma brincadeira, para outros, como Chikatilo, pode se tornar um insulto imperdoável, algo pra ficar guardado eternamente, e de forma negativa, na mente.

Devido a esse episódio, (e mais uma vez desgraçado perante todos) Chikatilo pediu demissão e se mudou de Novocherskassk. Foi parar em Rodionovo-Nesvetayskuyu, uma pequena cidade adjacente a Novocherskassk. Sua vida lá foi calma e tranquila. Morava em um pequeno apartamento e tornou-se um repórter freelancer do jornal local The Banner. Publicou dezenas de artigos e notas de assuntos variados, de esportes às lutas trabalhistas, de pessoas comuns aos intelectuais… 

Na Foto: Andrei Romanovich Chikatilo, em 1959, aos 23 anos.

Andrei Romanovich Chikatilo, em 1959, aos 23 anos.

Nesse meio tempo, se correspondia com mulheres solteiras pelo jornal, mas sua “fraqueza sexual” (impotência) o impedia de estreitar as relações. Mas em 1963, Andrei Chikatilo deu adeus à sua vida de solteiro. Graças aos esforços de sua irmã Tanya, Chikatilo conheceu Feodosiya, carinhosamente chamada de Fenya, amiga de Tanya e um pouco mais nova que ele.

Tanya a apresentou para o seu irmão e fez tudo que estava ao seu alcance para que os dois ficassem juntos. Os dois começaram a namorar e costumavam assistir filmes juntos. Eles não mantiveram relações sexuais e a imaginação ardente de Chikatilo o fazia masturbar até a exaustão quando ficava sozinho. Ele também era assombrado pela perturbadora ideia de falhar no leito conjugal. A masturbação para ele era, também, uma forma de “treinar” o seu órgão para não deixá-lo envergonhado na noite de núpcias.

Logo eles se casaram em uma modesta celebração. Receberam um pouco de dinheiro e algumas cadeiras dos familiares.

“…depois que os convidados do casamento foram embora, à noite, eu decidi não ter intimidade, fiquei muito preocupado, com medo de me envergonhar na frente dela. Na segunda noite, eu tentei ter relações sexuais, mas nada aconteceu. Por volta do nono dia durante a intimidade, Fenya me ajudou. Percebi que não havia sangue, como normalmente acontece com o rompimento do hímen. Fenya respondeu às minhas perguntas e disse que eu tinha sido o primeiro. Isso não me convenceu. Ela então me levou até o seu primo que trabalhava como enfermeiro no departamento de ginecologia de um hospital. Ele me deu alguns livros de medicina. Lá eu li que isso pode acontecer.”

[Andrei Chikatilo]

“Antes do casamento não tivemos nenhuma intimidade… Desde a noite do casamento senti sua fraqueza sexual. Ele não poderia ter relações sem a minha ajuda. Isso perdurou durante os 15, 20 anos de nossas vidas juntos… tínhamos relações sexuais a cada dois, três meses…” 

[Feodosiya Chikatilo] 

Na Foto: Andrei Chikatilo e sua eposa Feodosiya.

Andrei Chikatilo e sua eposa Feodosiya.

Vale lembrar que aquela era uma época de repressão. Uma época de preconceitos exacerbados e de tabus inquebráveis. O casal Chikatilo praticamente não tinham relações sexuais. Eles pensaram em procurar atendimento médico mas não sabiam nem onde procurar. A completa ignorância sexual do povo soviético daquela época (não só do povo soviético) e a ausência de qualquer informação relacionada ao sexo se mostra no espanto de Andrei Chikatilo com uma descoberta trivial hoje para nós: Ele ficou surpreso ao saber que mulheres menstruavam. Mas além da surpresa, isso se tornou uma excitação para ele.

“Eu queria saber o que significava aquilo… quando o fluxo menstrual vinha, me dava um desejo enorme de ter o ato sexual. Feodósyia não queria, mas eu ficava animado, e quase a forçava a fazer. A visão de sangue me deixava animado. Eu contei para ela sobre esse desejo, mas ela não gostava…”

[Andrei Chikatilo]

Em 1965, nasceu o primeiro filho do casal: Lyudimila. Em 1969 nasceu Yuri. Engana-se quem acha que os filhos do casal foram concebidos da maneira… digamos, convencional. Chikatilo era impotente e custava ter uma ereção. Seus dois filhos nasceram de “técnicas” de inseminação criadas por Chikatilo. Ele masturbava-se e introduzia o sêmem com os dedos na vagina de sua mulher.

“Eu amo minha esposa. Sou grato a ela porque ela suportou a minha impotência. Nós não tínhamos nenhuma relação real, apenas imitação”, diria Chikatilo a psiquiatras após ser preso. 

Na Foto: Andrei Chikatilo, sua filha Lyudmila e sua esposa Feodosiya.

Andrei Chikatilo, sua filha Lyudmila e sua esposa Feodosiya.

Pouco antes do nascimento da filha, Chikatilo entrou para a Universidade de Rostov. Estava no auge dos seus 30 anos. Trabalhava durante o dia e estudava a noite. Logo ganhou a reputação de fechado e silencioso entre os colegas. Seu tempo era dedicado a atividades sociais e políticas, leitura de jornais, revistas e repórter de um jornal local. Ele também tornou-se Presidente da Comissão Distrital de Cultura Física e Esportes da cidade de Rostov. Formou-se com honras em Filologia, dedicando sua monografia à Alexander Nikolayevich Radishchev. Formado, Chikatilo decidiu buscar por uma nova profissão. 

Na Foto: Turma de formandos (1970) do curso de Filologia da Universidade de Rostov. Um pirulito pra quem adivinhar quem é o futuro serial killer dessa turma.

Turma de formandos (1970) do curso de Filologia da Universidade de Rostov. Um pirulito pra quem adivinhar quem é o futuro serial killer dessa turma.

Na Foto: O formando Andrei Romanovich Chikatilo.

O formando Andrei Romanovich Chikatilo.

Em Novoshakhtinsk, cidade que fica ao norte de Rostov, ele conseguiu um emprego como professor de língua e literatura russa, num colégio local. Chikatilo estava animado com seu novo papel na sociedade, um professor, nada mal dada sua humilde origem. Um homem formado naquela época era algo bastante respeitado. Ele começou o seu trabalho com grande dedicação e interesse, cuidadosamente preparando suas aulas. Essa era uma oportunidade única para Chikatilo vencer as suas próprias dificuldades internas, aquele trabalho, talvez, fizesse aumentar a sua auto-estima. Mas não foi bem assim, a vida parecia querer pregar-lhe uma peça. Como professor, ele não conseguia manter a ordem dentro da sala de aula. Era zombado pelos alunos que o apelidavam e fumavam em sua frente.

As línguas afiadas dos alunos o renderam os apelidos de “antena” e “ganso”. As crianças não o levavam a sério e isso foi mais um ingrediente jogado em sua volátil mente. Ele ficou extremamente preocupado em não conseguir lidar com seus alunos, não dormia a noite e segundo ele, “…sentia uma tensão interna e desconforto.”

Mas ao mesmo tempo em que era ridicularizado pelos alunos, o trabalho com eles fazia crescer dentro dele a vontade de molestá-los.

“…eu realmente quis ter um caso com os alunos que, apesar de suas idades, já estavam vivendo uma vida sexual…”

[Andrei Chikatilo]

Chikatilo começou a fantasiar relações sexuais com as meninas da escola. Não tardou para que ele começasse a molestá-las. Meninas sentavam nas mesas e sem hesitação ele oferecia para ajudar com a lição de casa. Aproveitava para esfregar seus braços e mãos nos peitos e joelhos das alunas. Mais alguns dias e Chikatilo começou a aparecer no quarto delas durante a noite. Espiava-as se despindo. Certa vez, uma das garotas o viu e gritou. Ele estava agachado, dentro do quarto, mas rapidamente se levantou e ficou de pé, em silêncio, imóvel… ele a encarou e a garota viu o seu reflexo em seus grossos óculos. Em seguida ele abruptamente se virou e foi embora.

O comportamento de Chikatilo ficava cada vez pior e todos comentavam sobre o professor de língua russa que caminhava com as mãos nos bolsos em constante movimento… tocando seu pênis. Os alunos, mais uma vez, não perdoaram. “Jogador de bilhar de bolso” era o seu novo apelido.

Era o início de uma nova forma de obter orgasmos para Chikatilo, o autoerotismo, combinado com o prazer de olhar, espiar. O sexo comum, com adultos, não o satisfazia, ele não conseguia ter uma relação normal com um adulto, tinha uma ereção fraca e a ejaculação era rápida.

Em 1973, ocorreu um grande conflito entre o casal Chikatilo. Sua esposa engravidou e queria abortar. Chikatilo foi radicalmente contra o aborto dizendo que ninguém poderia interferir em seu corpo. Sua esposa não aceitou seus argumentos e realizou o aborto, o que deixou Chikatilo bastante deprimido.

“Meu marido queria ter muitos filhos. Após o nascimento de uma filha e um filho, ele exigiu que continuássemos a termos filhos. Por que precisamos de mais bocas? Ele me acusou e por muito tempo culpou os médicos por terem rasgado o seu filho.”

[Feodósyia Chikatilo]

Este acontecimento fez com que o casal se distanciasse um do outro. E essa crise familiar piorou ainda mais quando Chikatilo começou a ter sérios problemas no trabalho.

Em maio de 1973, Chikatilo levou seus dois filhos para nadar no lago de Koshkinsky. Logo, sua urgência sexual o fez fantasiar relações com as meninas que estavam no local. Uma de suas alunas estava nadando no lago. Ele nadou até ela e usando a “máscara” de professor preocupado, pediu para que ela não nadasse tão longe, pois não queria ser responsabilizado caso ela se afogasse. Chikatilo estava na verdade fingindo uma preocupação, o que ele queria mesmo era molestar a garota. Debaixo d’água, ele a pegou e começou a acariciá-la. A menina tentou sair de suas mãos e os dois começaram a se atracar. O fato da vítima resistir, e ele durante aquele frenesi ficar esfregando suas mãos e seu pênis em seu corpo, dava a Chikatilo o prazer que ele não tinha com o sexo normal. A menina saiu da água, mas ele ainda ficou lá durante 10 minutos, provavelmente se masturbando. Nesse mesmo mês ele foi demitido do internato após tentar molestar uma das alunas.

“Entrei no quarto e aquela imagem de mim se abriu, havia um desejo apaixonado de tocar seus seios, braços, pernas, coxas, genitais… Ela resistiu e começou a gritar. O diretor do internato tomou conhecimento do ocorrido e eu tive que deixar esse trabalho.”

[Andrei Chikatilo]

Psiquiatras que o examinaram posteriormente disseram que este é um momento-chave da vida de Chikatilo. Seus seguidos abusos no colégio, e na menina no lago, o fizeram ter ejaculação, o que reforçou em sua mente a necessidade de contato sexual com crianças. E nessa época, ele tentou suprimir essa necessidade e inquietação através do trabalho físico, fazendo reformas em sua casa e construindo uma adega.

Após ser demitido, Chikatilo conseguiu emprego em outra escola e dividia o seu tempo dando aulas, escrevendo artigos e resenhas para jornais e fazendo mais uma faculdade, dessa vez de marxismo-leninismo. Ao mesmo tempo, ele conseguiu um importante trabalho de freelancer no Ministério do Trabalho, mas sua inquietação sexual o deixava irritado. Para piorar, sua excitação sexual aumentava quando ele via meninas com saias ou vestidos curtos andando pelas ruas. Sem ajuda, um homem como ele não poderia segurar muito tempo suas impróprias necessidades.

No outono de 1973, no pátio de sua casa, ele resolveu molestar sua sobrinha de 6 anos de idade, filha da irmã de sua esposa. A menina, inocente, olhou para o tio e caminhou até ele. Ele a acariciou e ficou murmurando alguma coisa em seu ouvido. Quando ele colocou a mão em baixo do seu vestidinho, alguém abruptamente apareceu, o que interrompeu a sua ação.

Em 1976, Marina Odnacheva, essa mesma sobrinha, passou uma noite na casa dos tios. Tarde da noite ela acordou e viu alguém segurando uma luz entrando pela porta. Era o seu tio Andrei Chikatilo, completamente nu. Ele sussurrou algo a ela, mas ela não conseguiu entender o que ele estava dizendo. Assustada, ela acordou seus primos Lyudimila e Yuri que dormiam no mesmo quarto. Às pressas Chikatilo fechou a porta do quarto. Ao ficar adulta, Marina lembraria dos estranhos carinhos do tio…

Mas nem a idade adulta fez Chikatilo perder o interesse na sobrinha. Certa vez, dentro do carro, Chikatilo dirigiu até uma floresta e tentou ter uma relação íntima com ela. Ela negou. Ele ofereceu dinheiro e ela negou novamente. Não tardou para que Marina contasse aos pais sobre o tio “tarado”. Feodósiya soube das “travessuras” do marido e ficou chocada. Simplesmente não acreditou que o seu marido, calmo e gentil, pudesse ter feito algo do tipo, ainda mais com sua sobrinha. Feodósiya não brigou com o ele, até porque, Chikatilo era o homem que trazia o sustento para casa, em outras palavras, era o homem que garantia a sua sobrevivência, algo bastante comum ao longo das gerações e que as mulheres tinham que lidar.

Estamos em 1975, 1976, e nessa época, Chikatilo começou a chegar tarde em casa, algumas fontes dizem que ele arrumou uma amante de nome Valentina. Segundo alguns autores, Chikatilo e Valentina encontravam-se nos dormitórios da universidade. Em casa, o relacionamento com Feodósiya era distante. Ela não perguntava onde ele passava as noites e os dois pouco conversavam.

Em agosto de 1978, ele conseguiu um emprego na cidade de Shakhty. Ele mudou-se para lá e deixou a família em Novoshakhtinsk enquanto se estabelecia na cidade. E uma das primeiras coisas que Chikatilo fez ao chegar no local foi procurar por uma casa na periferia da cidade. Ele já havia alugado um apartamento para morar em Shakhty mas passava seu tempo livre percorrendo a periferia suja e violenta da cidade. E foi lá que ele encontrou um barracão afastado e sujo. Mas, pra que ele queria esse barracão afastado da cidade?

Logo vizinhos começaram a ver um homem que começou a frequentar o lugar com garotas. À noite, era possível ver apenas uma lâmpada acesa em meio à escuridão total do lugar. Parece que Chikatilo alugara o local para manter relações sexuais com prostitutas. Logo ele ficou conhecido entre os vizinhos como “professor”.

Vizinhos viam o “professor” de vez em quando entrando no barracão, mas o que ele fazia lá ninguém sabia. 

Na Foto: O barracão na periferia de Shakhty adquirido por Andrei Chikatilo em 1978.

O barracão na periferia de Shakhty adquirido por Andrei Chikatilo em 1978.

Yelena Zakotnova


A primeira vítima

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Pouco antes do fim de 1979, o corpo de uma criança foi encontrado em um rio próximo da região onde Chikatilo comprara um barracão.

“No final de 1978, à noite, eu encontrei com uma menina. Fui tomado por um desejo incontrolável de ter relações sexuais. Não sei o que aconteceu comigo, mas eu, literalmente, comecei a tremer. O que aconteceu naquela noite teve uma forte influência sobre mim. Posso até dizer que não me lembro muito bem do momento da ejaculação. Foi um frenesi assassino, alguma paixão bestial me possuiu no momento.” 

[Andrei Chikatilo]

No dia 22 de dezembro de 1978, aos 42 anos de idade, Andrei Romanovich Chikatilo cometia o seu primeiro assassinato. A menina a qual ele se refere é Yelena Zakotnova, 9 anos. Chikatilo a viu andando por uma escura rua nos arredores do seu barracão e a convidou para entrar oferecendo chicletes. Ele começou acariciando-a e logo começou a tirar suas roupas para tentar uma relação sexual. Yelena resistiu e naquela luta ele começou a esganá-la. Chikatilo não conseguia penetrá-la devido a sua impotência. Então, ele pegou uma faca e começou a esfaquear a vagina da menina, como se fosse o seu pênis penetrando-a.

“…o múltiplo esfaqueamento é uma forma dele entrar sexualmente dentro delas”, diria o psiquiatra Alexandr Bukhanovsky em seu perfil criado em 1986. 

Na Foto: O corpo de Yelena Zakotnova, encontrado no fim de 1978. Uma tira de pano estava amarrado em torno dos seus olhos.

O corpo de Yelena Zakotnova, encontrado no fim de 1978. Uma tira de pano estava amarrado em torno dos seus olhos.

Moradores locais foram interrogados pela polícia e eles disseram sobre o estranho professor. Chikatilo foi interrogado e disse ter passado a noite do crime em casa. Sua esposa Feodosiya confirmou o fato e Chikatilo foi liberado. Chikatilo não se encaixava no tipo de assassino que a Polícia sempre procura. Era um homem estudado, um professor, casado, pai de dois filhos, um membro respeitado e conhecido do Partido Comunista. Em outras palavras, um homem acima de qualquer suspeita. Além do mais, a polícia já tinha um suspeito bem mais interessante para o crime. O típico suspeito que eles procuram: um estuprador.

Aleksandr Kravchenko era um ex-condenado por estupro e que morava naquela mesma região de Shakhty. Um suspeito perfeito, não? Ele foi preso mas logo liberado devido a falta de provas. No final de janeiro de 1979, Kravchenko foi preso por roubo e a polícia voltou a ligá-lo ao assassinato de Yelena. Durante todo o inverno e primavera a polícia investigou e colheu evidências para provar a culpa de Kravchenko.

A esposa de Kravchenko confirmou o álibi do marido na noite em que Yelena foi morta. A polícia soviética não ficou satisfeita com o depoimento da mulher daquele “estuprador nojento” e à ameaçou dizendo que ela poderia ser processada como cúmplice de assassinato. Ela ficou assustada e mudou sua versão e disse o que a polícia queria ouvir. Com medo, a mulher de Kravchenko disse que ele não dormira em casa naquela noite. Kravchenko, claro, negou qualquer envolvimento na morte de Yelena. Mas pouco tempo depois, ele mudou sua declaração e confessou o assassinato da garota. Sim, é isso o que vocês devem estar pensando. Certamente Alexander Kravchenko foi torturado. 

Na Foto: Alexander Kravchenko. Alexander foi acusado, injustamente, da morte de Yelena Zakotnova em dezembro de 1978.

Alesandr Kravchenko. Alexander foi acusado, injustamente, da morte de Yelena Zakotnova em dezembro de 1978.

O que se seguiu a partir daí foi uma batalha nos tribunais. Kravchenko foi condenado à morte 3 vezes pelo assassinato de Yelena. Era condenado e recorria. Era condenado e recorria. E no dia 05 de Julho de 1983, Aleksandr Kravchenko foi fuzilado por um crime que não cometeu. Naquele mesmo mês de julho de 1983, Chikatilo mutilaria duas mulheres em Rostov e Shakhty. Esse erro imperdoável da Justiça soviética custou a vída de dezenas de dezenas de pessoas.

Voltando aos dias após o assassinato de Yelena, Chikatilo deve ter se sentido aliviado. Aliviado e assustado ao mesmo tempo. Assustado por ter sido levado para interrogatório e aliviado por ter sido liberado. A experiência de quase ter sido pego o levou a ser mais cuidadoso. Ele continuou a levar mulheres para o seu sombrio barracão em Shakhty. Naquele mesmo ano, 1979, acontecimentos ocorridos no barracão de número 26 do beco Mezhevoy Lane fizeram com que os vizinhos tivessem ainda mais dúvidas sobre o estranho professor.

“Eu estava sentado com meus vizinhos em frente ao portão da minha casa. Ainda era de dia quando vimos uma menina sair correndo da casa do professor com os pés descalços. Ela estava a uns cinco metros na frente dele e segurava sua calça nas mãos. Aparentemente ela não teve tempo de prendê-la. Nós gritamos para ela mas ela passou por nós direto em direção a um bonde. Ela deu sorte pois naquele momento passava um bonde e ela pulou para dentro. O professor não teve tempo de pegá-la. O que ele estava fazendo com uma menina eu não sei, mas vi o medo em seus olhos. Nunca mais vimos o professor e ficamos nos perguntando por que ele a perseguiu.”

[Y. Larionov, morador do beco, trecho retirado do livro Hunting the Devil]

Certa vez, uma vizinha viu o professor levando uma menina para o barracão. A vizinha, uma senhora de idade que morava na casa ao lado, disse que o viu com uma menina deficiente, com uma perna de pau, e o professor disse ser sua sobrinha.

Chikatilo era um homem culto, com várias faculdades e que passara vários anos de sua vida lendo dezenas de livros. Ele sabia que os jovens daquele lugar eram desprivilegiados, jovens que eram precoces em sua iniciação sexual, promíscuos, propensos a bebida. Portanto, ele sabia o quanto seria fácil ele conseguir parceiras sexuais naquele lugar, seja oferecendo dinheiro, seja oferecendo bebida, ou até mesmo um abrigo temporário no seu barracão.

Alem dos jovens, Chikatilo também se envolveu com mulheres mais velhas, tocava seus órgãos sexuais e dava tapas em suas nádegas. Isso o excitava, mas não o dava satisfação sexual plena. Mulheres velhas não eram sua preferência, mas se ele tivesse uma oportunidade, por que não brincar com elas? Ele era consciente da sua fraqueza sexual e sempre estava a procura de sexo casual.

Aquele lugar, e o relacionamento com aquelas pessoas da baixa sociedade, deu uma certa confiança a Chikatilo. Ali ele não era conhecido, portanto, não existia o perigo dele ter sua dignidade perante a sociedade abalada. Ninguém da alta sociedade frequentava aqueles becos, por isso, ele poderia fazer a festa ali sem ser reconhecido. Era uma vida dúbia.

Fixado em sua busca louca por parceiras sexuais, Chikatilo esqueceu de sua vida em sociedade. Sua reputação na escola em Shakhty era a de um homem “estranho”. Não se relacionava com adultos e praticamente não conversava com ninguém.

“Uma manhã, estávamos perto da escola. Chovia muito. Chikatilo aproximou-se de nós e notamos que suas mãos estavam muito sujas. Perguntamos o que havia acontecido e ele apenas olhou para os lados e caminhou até um esgoto perto. Lavou as mãos no tubo de esgoto e foi embora sem dizer uma palavra.”

[I. Babanskaya, ex-aluno, trecho retirado do livro Hunting the Devil]

“Em termos profissionais, Chikatilo tornou-se inutilizável. Não tinha relação com seus colegas ou alunos. Os alunos também não o respeitávam. Haviam rumores de que ele os tocava, mas não demos importância a esses rumores. O Diretor do colégio muitas vezes o repreendia, mas ele ficava quieto o tempo todo.”

[Professor de nome não identificado, trecho retirado do livro Hunting the Devil]

A noite, Chikatilo calmamente deixava o seu quarto, e na ponta dos pés, vagava pelo corredor abrindo as portas dos quartos dos estudantes. Vladimir Shcherbakov lembra claramente dessas intervenções noturnas.

“Foi em setembro ou outubro de 1978. Ele trazia presentes e era gentil com as crianças. Uma vez senti algo encostando no meu estômago, acordei e vi ele. Assustei e ele saiu do quarto. Não disse nada a ninguém. Poucos dias depois aconteceu de novo.”

[Vladimir Shcherbakov, ex-aluno, trecho retirado do livro Hunting the Devil]

“Fui a um dos quartos do dormitório e vi um menino dormindo sem cobertor. Tinha o desejo. Levei meu pênis em sua boca e ele acordou. Parei tudo e sai do quarto.”

[Andrei Chikatilo]

O comportamento de Chikatilo não era nenhuma novidade para os alunos e ele começou a ouvir indiretas de alunos mais velhos. Foi ai que ele comprou uma faca e começou a carregá-la no bolso, para sua proteção é claro. A faca também teria muita utilidade se alguém quisesse espancá-lo dentro de um ônibus. Chikatilo gostava de pegar ônibus e trens cheios para poder esfregar em mulheres. Foi expulso de alguns deles. A partir daqui, Chikatilo e sua faca nunca mais se separariam.

Aos poucos sua busca por sexo casual tornou-se uma espécie de segunda profissão. Muitas vezes colegas de trabalho o viam nas estações de trem, mas Chikatilo fingia não conhecê-los. Começou a vagar diariamente pelas estações de trens buscando mulheres para levá-las até o seu barracão.

Em março de 1981, Andrei Chikatilo pediu demissão da escola onde lecionava em Shakhty pouco antes de começarem as provas finais, o que deixou o Diretor da escola bastante aborrecido. No mesmo mês, ele conseguiu um emprego no Departamento de Logística e Marketing de uma empresa de maquinários onde atuaria com compra e venda de equipamentos, tendo para isso, que viajar algumas vezes. Apesar do salário na empresa ser maior, a escolha por sair da escola pode ter sido influenciada pelos horários flexíveis de trabalho e possibilidades de viagens. Além do mais, ele não teria patrões ou subordinados. Em outras palavras, seria mais fácil para Chikatilo sair e conseguir mulheres para manter relações sexuais.

Na Foto: Local de trabalho de Chikatilo em Shakhty. Créditos: HTB.

Local de trabalho de Chikatilo em Shakhty. Créditos: HTB.

Na Foto: Entrada do prédio onde Chikatilo começou a trabalhar em Shakhty. Créditos: HTB.

Entrada do prédio onde Chikatilo começou a trabalhar em março de 1981. Créditos: HTB.

Na Foto: A sala do açougueiro. Na imagem a sala e a mesa de trabalho de Andrei Chikatilo. Ele não passava muito tempo nessa mesa ... Créditos: HTB.

A sala do açougueiro. Na imagem a sala e a mesa de trabalho de Andrei Chikatilo. Ele não passava muito tempo nessa mesa … Créditos: HTB.

No novo trabalho, Chikatilo não se envolvia com os outros funcionários. Em reuniões, os colegas lembram do homem que ficava olhando para o nada e que as vezes era visto incessantemente abrindo a boca, como se estivesse com falta de ar. Com seus subordinados era educado, calmo e firme, apesar de as vezes passar tarefas que os prejudicavam.

Desaparecia do trabalho na primeira oportunidade que surgia. Bataysk, Novocherkassk, Novoshakhtinsk e Krasny Sulin eram seus destinos mais comuns. Muitas vezes, durante essas “viagens”, Chikatilo era visto por colegas de trabalho perambulando em estações de ônibus. Há a suspeita que Chikatilo inventou muitas delas, e quando era visto pelos seus colegas, desaparecia como um raio.

Na maioria das vezes ele chegava em casa bem depois do jantar e ia direto para a cama onde só acordava no outro dia. Em reuniões matinais, era comum ele cochilar e ser pego desenhando cruzes em seu caderno. As repreensões a ele tornaram-se constantes, mas ele era indiferente. Pouco a pouco ele começou a ficar ofendido e retrucava algumas vezes. Chikatilo nunca assumia a culpa ou via que ele não estava sendo eficiente no trabalho, a culpa para ele era sempre da sociedade. “Eu fui abusado em todos o meus trabalhos”, disse ele várias e várias vezes.

Ele começou a ser perseguido no trabalho devido a sua ineficiência. Rancor, mágoa e agressividade eram catalisados para o seu interior numa perigosa mistura vólatil para sua mente perturbada. Ele não respondia às acusações e sempre via-se como o coitado da situação. E Chikatilo começou a descontar sua fúria interna nas pessoas.

Em suas viagens, ele raramente comia ou dormia. Isso, para ele, era perda de tempo. O que ele fazia durante o almoço ou à noite era vagar pelas estações de trem a procura mulheres. Muitas vezes ele dormia nas próprias estações.

“Andei muito em estações de trens, ônibus… Existe um monte de vagabundos, jovens, velhos… Os velhos chupam os vagabundos menores. Eu via vagabundos tendo relações sexuais nas estações e nos trens. E eu me lembro da minha humilhação, eu nunca poderia ser como um verdadeiro homem… Eu via como aquelas pessoas não hesitavam em pedir dinheiro, comida ou vodka em troca de manter uma relação sexual. Eu via quando eles iam com seus parceiros para as florestas.”

[Andrei Chikatilo]

Aos poucos a inveja que Chikatilo tinha daqueles “vagabundos” que faziam sexo nas estações de trem ou adjacências se transformou em ódio, um ódio que sempre ficaria enraizado em sua mente. O entendimento é simples. Ele se achava um ser superior, um homem com diplomas, um ex-professor, membro do Partido Comunista, conhecedor de Karl Marx a Alexander Radishchev, entretanto, esse mesmo ser superior, não podia fazer algo simples, algo que qualquer vagabundo probretão podia fazer: Ter ereção, fazer SEXO, “ser homem”! Daí o seu ódio por essas pessoas, pessoas as quais ele considerava o lixo da sociedade, lixos humanos que podiam ter ereção, mas ele, o gênio, não.

Valya Dunenkova – A amante


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Viajando direto, Chikatilo começou a fantasiar sobre conseguir uma nova mulher, uma amante que fosse submissa a ele e que não o “humilhasse” por ser impotente. E em setembro de 1981, ele conseguiu o que desejava. Em um trem ele conheceu Valya Dunenkova. Sentou ao seu lado e começou a conversar.

Logo eles começaram a se encontrar no velho barracão de Chikatilo na periferia de Shakhty. Como outras mulheres que Chikatilo se relacionou, Dunenkova gostava de uma bebida, mas de alguma forma, isso não lhe importunou, Chikatilo a via como uma mulher extremamente delicada. Logo, ele parou de levá-la até o barracão por achar o lugar muito pobre para os dois. Como ambos não possuíam um local “decente”, a maioria dos encontros ocorria em bosques e áreas florestais, e Chikatilo sempre levava doces e garrafas de vinho.

Chikatilo exigia que Dunenkova não contasse nada a ninguém, pois ele era um homem com uma reputação a zelar, um homem diplomado, de família e com uma grande influência no Partido Comunista. Durante os quatro meses que durou o romance, Dunenkova nunca queixou-se ou fez piadas sobre a impotência do amante, ao contrário, ela parecia entender a disfunção de Chikatilo e o casal sempre acabava os encontros com Dunenkova tentando estimular Chikatilo fazendo sexo oral, o que não funcionava. Em contrapartida, grato pelo “empenho” da parceira, Chikatilo retribuía o sexo oral. Em entrevistas posteriores, Chikatilo nunca soube explicar por que eles pararam de se encontrar (será que ele a matou? não se sabe, a mulher nunca foi encontrada), o fato é que ele sempre lembrava dela com prazer e alegria.

Dunenkova parecia ser o oposto do que ele tinha em casa, e isso o deixou feliz por um certo tempo.

Ao mesmo tempo em que tinha uma amante, em casa, Chikatilo sentia um certo desconforto por estar enganando sua mulher. Sabendo da sua impotência, ele chegou a propor sexo oral para sua esposa, assim como ele fazia com Dunenkova.

“Eu tentei animar, mas não importa o quanto eu tenha tentado, minha ejaculação não ocorria. Quanto a satisfação da minha esposa, eu não sei, provavelmente não…”

[Andrei Chikatilo]

Em 1981, 1982, nossa relação íntima se tornou ainda mais fraca. Eu era uma mulher saudável e queria estar com ele na intimidade. Na verdade, ele tentava fazer algo mas não era excitante. Nos últimos 6, 7 anos quase não tivemos relações sexuais. Se ele traiu… eu não sei, mas meu irmão disse que Andrei teve um relacionamento sexual com sua esposa. Mas eu não acreditei. Mais tarde, a ex-esposa do meu irmão disse que teve uma relação sexual com ele após o seu divórcio e que a relação ocorreu de forma rápida e sem quaisquer desvios…

Me disseram que Andrei cometia abuso sexual contra crianças, mas eu não acreditei nisso e apenas ri, pois sabia sobre sua impotência. Em 1979 ele foi convocado pela polícia em conexão com o assassassinato de uma menina. Foi ai que descobri que ele secretamente comprou uma casa pequena. Em suas roupas, muitas vezes eu notava sangue, mas ele dizia que aquilo era o resultado de arranhões e cortes ao carregar equipamentos. Ele explicava suas faltas à noite por causa das suas viagens e o fato de que muitas vezes o recebimento de mercadorias eram adiadas. Eu acreditava nele, não tinha nenhuma razão para não acreditar, ele sempre trazia dinheiro para casa, trazia comida, roupas. Era um marido comum.

Ele não bebia, não fumava e era educado. Nunca poderia ter imaginado que o meu marido pudesse cometer tal crime, ele era muito tranquilo e não ofendia ninguém. Muitas vezes eu batia nele com um rolo de macarrão e ele nunca levantou a mão para mim.

[Feodosyia Chikatilo]

Chikatilo tinha medo da sua mulher. Muitas vezes, quando ele voltava de suas viagens assassinas, sem nada nas mãos, ela dizia:

“Você não trouxe nada?”

Ele, cabisbaixo, nem entrava dentro de casa e voltava para as estações de trem.

Chikatilo volta a matar


Setembro de 1981

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Em 3 de setembro de 1981, Chikatilo voltaria a matar após três anos. A vítima foi Larisa Tkachenko, 17 anos. Larisa esperava um ônibus sozinha para ir para casa quando Chikatilo a avistou. É notório pensar como Chikatilo conseguiu com que tantas vítimas simplesmente o acompanhassem para o meio do mato. Isso nunca ficou totalmente claro. Tá, tudo bem, ele inventava uma lorota: “Você é muito bonita…” “Estou muito sozinho…”, mas lorotas por lorotas poderiam funcionar com algumas, e não com 20, 30. E além do mais, os encontros quase sempre acabavam em sexo consensual. Como um homem de idade levava uma mulher (que acabou de conhecer) pro mato pra fazer sexo trocando meia dúzia de palavras? Uma colega de trabalho de Chikatilo chegou a propor que ele, talvez, tivesse desenvolvido algum tipo de poder hipnótico que faria com que as pessoas o seguissem, ideia que foi compartilhada por David Grieco no filme Evilenko. Poderes sobrenaturais ou não, o fato é que ele se tornou um mestre na arte da manipulação.

Chegando ao local, uma floresta ao redor do Rio Don, Chikatilo mais uma vez falhou em manter uma relação sexual. Mas ele lembrava muito bem o que o satisfez três anos antes. Tomado pela fúria de mais uma vez ser “humilhado”, ele atacou Larisa estrangulando-a. Nesse dia, em especial, ele não carregava uma faca, o que ele fez? Mutilou Larisa com os próprios dentes, mordendo até rancar pedaços da região da vagina e abdômen. Ele também usou um pedaço de pau que estava por perto para simular seu pênis e assim foi empalando-a fazendo movimentos de penetração até conseguir ejacular.

Veja abaixo uma imagem do corpo de Larisa Tkachenko

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Chikatilo perdia o controle sobre si mesmo. Saia de cena o homem com problemas mentais e sexuais que levava prostitutas para o seu barracão e entrava um terrível serial killer sexual. A partir do assassinato de Larisa, Chikatilo começaria a viver incessantemente sua luxúria assassina que levaria à morte mais de 50 pessoas.

Em, 1982/1983, Chikatilo e seu frenesi assassino levaram à morte 15 pessoas. Uma de suas vítimas foi Irina Dunenkova, morta em julho de 1983. Irina, que sofria de Síndrome de Down, era uma velha conhecida do serial killer.

“Ao investigar o assassinato de Irina Dunenkova, enfrentamos a ignorância e formalismos de procuradores e agentes envolvidos no caso. É uma falha imperdoável do Departamento de Investigação Criminal que liderou as investigações. Primeiro, todo o pessoal operacional e os investigadores não realizaram investigações forenses básicas como um estudo completo do perfil da vítima e suas conexões. Valentina Dunenkova, irmã de Irina, disse durante o julgamento em 1992, que mantivera um relacionamento sexual com Andrei Chikatilo em 1981, 1982, e que muitas vezes levou sua irmã Irina com ela até o barracão de Chikatilo em Shakhty. Chikatilo conhecia Irina e demonstrou simpatia pela menina, mesmo ela tendo um retardo mental. A simples menção do nome Chikatilo teria atraído à atenção dos investigadores. Oportunidades perdidas e falhas na solução de crimes é sempre o resultado de formalismos e irresponsabilidades.

[Trecho de um relatório sobre o caso Estripador da Floresta feito pelo Alto Comando do Departamento Criminal do Ministério do Interior]

O depoimento acima não deixa de ser engraçado. Dez anos depois, uma “autoridade” vir falar de falhas e irresponsabilidades? Foram essas mesmas autoridades que em 1983 mataram um homem inocente, Aleksandr Kravchenko. Foram essas mesmas autoridades que não deixavam Burakov consultar especialistas de fora da patota. Foram essas mesmas autoridades que passaram anos dizendo que o culpado deveria ser um doente mental…

Seguindo seus passos, em maio de 1984, Andrei Chikatilo cometeu um duplo assassinato que chocou os policiais. O assassinato de mãe e filha, Tatyana Petrosyan, 32 anos, e Svetlana Petrosyan, 11 anos. Não há muitos detalhes disponíveis sobre esse duplo assassinato (pelo menos não encontrei). Algumas fontes apenas dizem que Tatyana era uma amante de Chikatilo e que ambos se conheciam desde 1978. Pelo depoimento da mãe de Tatyana, que disse que ela havia saído para encontrar um “professor”, podemos tentar traçar uma linha entre os dois (vejam, isso é por minha conta, não está escrito em lugar nenhum).

Se Tatyana referia-se a ele como professor e o conhecia desde 1978, é bem possível que ambos se conheceram quando ele lecionava em Shakhty. E mais possível ainda é o fato da filha de Tatyana ter sido aluna de Chikatilo, por isso a “união” do destino. Eles provavelmente ficaram íntimos e tornaram-se amantes. Tatyana poderia ser uma das mulheres que ele levava para o seu barracão em Shakhty. Eles até mesmo podiam se encontrar em bosques e florestas, o que, até certo ponto, era algo comum aos soviéticos. Se Tatyana sempre levava sua filha Svetlana a esses encontros isso eu já não sei. Pra quem entende de parafilias e conhece o número infinito de perversões sexuais que existem, podemos viajar bastante nesse ponto. Talvez Tatyana levasse sua filha e essa participasse do sexo, ou talvez ela ficasse só olhando, ou talvez ela ficasse afastada brincando, ou talvez, a única vez em que Tatyana levou sua filha consigo foi no fatídico dia em que ambas foram mortas. Tudo suposições.

O que sabemos é que no dia 25 de maio de 1984, Tatyana saiu para encontrar Andrei Chikatilo e levou consigo sua filha de 11 anos de idade. Os três foram até uma floresta nos arredores de uma estação de Trem de Shakhty e Chikatilo assassinou as duas. Svetlana foi encontrada a uma considerável distância de sua mãe. Ela correu ao ver a mãe ser morta? Ou apenas brincava num local distante enquanto os dois faziam sexo ? Não sei. E por que Chikatilo matou Tatyana? Se a conhecia havia vários anos? Vejo duas respostas:

  1. Chikatilo premeditou sua morte e quando ela chegou com sua filha matou as duas;
  2. Chikatilo não premeditou a morte de Tatyana, mas tomado pela fúria de não conseguir ter ereção durante o ato sexual, a matou. A criança teria sido morta por ver o assassinato da mãe ou por poder identificá-lo.

Chikatilo é preso em atitude suspeita


13 de Setembro de 1984

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Em agosto de 1984, Chikatilo foi demitido da empresa em Shakhty depois de ser acusado de roubar uma bateria. Na verdade, o que os diretores da empresa queriam mesmo era se livrar do medíocre funcionário e o acusaram de roubo. Com medo, Chikatilo simplesmente fugiu para Rostov e largou a empresa.

“Tenho testemunhas. Eles fabricaram uma mentira na qual roubei uma bateria… eu não tinha para onde ir e ficava nas estações de trens.”

[Andrei Chikatilo]

Em Rostov, ele encontrou seu emprego dos sonhos em uma empresa que o permitia fazer inúmeras viagens, não só naquela região, mas viagens distantes. O local do trabalho era surpreendentemente confortável para ele: nas imediações do aeroporto e estações de trens. Para ele, seria fácil chegar em qualquer lugar da União Soviética. Ele praticamente não dormia mais em casa. Sua esposa e filhos ainda moravam em Shakhty, então Chikatilo viajou o máximo que pode para ficar longe dela e das acusações que estava sofrendo em Shakhty. Ele praticamente deixou a esposa e filhos para matar. Nessa época sua filha Lyudmila saiu de casa para morar com seu futuro marido e as suas idas até Shakhty eram raras.

Um mês depois, em setembro de 1984, ele foi preso por atentado ao pudor. Nesse momento, Andrei Chikatilo já havia assassinado 32 pessoas.

“Ele veio correndo da estação de trem para o aeroporto. O suspeito entrou no ônibus fazendo o seu caminho através da multidão de passageiros. Fui atrás dele e fiquei surpreso com seu comportamento estranho: Parecia que ele não estava sozinho e todo o tempo ele virava a cabeça de um lado para o outro. Minha impressão era que ele estava tentando se certificar que não estava sendo seguido. Não percebendo nada de alarmante, o suspeito tentou fazer contato com uma menina que estava de pé ao lado dele. Ela usava um vestido decotado e ele não conseguia tirar os olhos dos seus peitos. Pouco depois esse cidadão tocou os pés da menina o que levou a uma briga. Depois de três paradas ele saiu do ônibus, atravessou a rua e parou ao lado dos passageiros que estavam esperando um ônibus que ia para a direção oposta. Quando o ônibus chegou, ele entrou com os demais passageiros.”

[Trecho do relatório do policial Ahmed Ahmathanov]

Ahmathanov e seu parceiro, o policial Zanasovsky, entraram no mesmo ônibus e continuaram seguindo Chikatilo. Dentro do ônibus, Chikatilo sentou-se ao lado de uma mulher e depois de uma breve conversa ela colocou a cabeça em seu colo e praticou sexo oral. Chikatilo a cobriu com seu casaco enquanto acariciava seus seios. Após a prática, ele se levantou e foi para o mercado central de Rostov, onde, certamente depois de uma longa noite em busca de vítimas, fez um almoço. Depois do quilo, ele mais uma vez continuou a abordar mulheres. Mais uma concordou em praticar sexo oral debaixo do seu casaco, e foi ai que ele foi preso pelos policiais disfarçados.

Os investigadores estavam convencidos que tinham prendido o Estripador da Floresta. Sua aparência e ações coincidiam com a descrição do assassino. Em sua bolsa também havia uma faca afiada e dois rolos de corda, além de um pote de vaselina. Chikatilo foi interrogado nos dias 16 e 17 de setembro e admitiu que tinha uma “fraqueza sexual”.

“O fato deu sofrer incapacidade sexual não é tão estranho para um homem na minha idade, com quase 50”, disse Chikatilo para Viktor Burakov.

Chikatilo parecia ser um homem acima de qualquer suspeita. Um membro leal do Partido Comunista, casado, pai de dois filhos, empregado. A única coisa errante fora a acusação não provada de roubo de uma bateria no seu antigo trabalho.

Todos sabemos o desfecho do caso. Chikatilo foi solto devido a análises errôneas do tipo sanguíneo encontrado em seu sêmen. Os investigadores ficaram irritados com o resultado do exame, mas não puderam fazer nada. Eles não podiam argumentar contra uma prova científica.

Um relatório posterior do Departamento de Investigação Criminal do Ministério do Interior russo diria que:

“…o desenvolvimento da investigação na época revelou pouco. Ninguém pode dizer que os investigadores não queriam incriminá-lo, mas o trabalho de investigação foi extremamente incompetente e formal. Na detenção, Chikatilo estava muito nervoso, perdido, agitado e suando muito. No entanto, sua reação não foi levada em consideração…”

Como disse anteriormente…

De qualquer forma, uma investigação mais detalhada sobre Chikatilo naquele momento levaria à descoberta de que ele conhecia Irina Dunenkova, morta por ele em julho de 1983. Durante anos, Chikatilo levou a irmã de Irina até o seu barracão secreto em Shakhty para manter relações sexuais. Mas não podemos dar facadas, a Força Tarefa não tinha apenas o assassinato de Irina para investigar, eles tinham mais de uma dezena de corpos, e o número reduzido de agentes, muitos deles apenas pensando no pequenino salário do final do mês, e burocracias soviéticas, permitiram com que Chikatilo continuasse sua onda de matança.

Pesa também o fato de que nenhum exame mais detalhado nos objetos encontrados com ele foi feito. Um exame forense em sua faca certamente revelaria vestígios de sangue de uma das vítimas. A propósito, seus itens confiscados no dia 13 de setembro, as cordas, a vaselina e a faca foram “perdidos” e seus destinos são desconhecidos até os dias de hoje. 

Na Foto: Andrei Romanovich Chikatilo, por volta dos 47, 48 anos.

Andrei Romanovich Chikatilo, por volta dos 45, 46 anos.

Depois de preso, Chikatilo só voltaria a matar em julho de 1985


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Em 23 de novembro de 1984, Chikatilo sofreu um duro golpe: ele foi expulso do Partido Comunista da União Soviética devido a sua prisão em conexão com os assassinatos do Estripador da Floresta. Chikatilo, que passara a vida inteira defendendo os ideais comunistas e até chegou a ter grande influência dentro do partido, era expulso por seus colegas. Mais uma vez, Chikatilo se sentiu humilhado e traído pela sociedade. E mais uma vez ele descontaria toda sua raiva e ira em suas vítimas.

Um mês depois ele foi julgado devido à acusação de roubo de uma bateria no seu antigo trabalho em Shakhty. Ele foi condenado a um ano de trabalho forçado, mas sua pena foi comutada e ele liberado. Perdeu o emprego que tinha em Rostov e passou a morar em Novocherkassk, onde conseguiu um emprego em janeiro de 1985 como engenheiro na fábrica de locomotivas da cidade, a NEVZ. Como de costume, sempre ficava em silêncio nas reuniões e não tinha conhecimento sobre a vida da empresa. Logo ele passou a ser repreendido por seus superiores diariamente. Sua filha, Lyudmila, também trabalhava na empresa e, até mesmo em sua frente, Chikatilo era repreendido. Muitos lembram da imensa calma daquele senhor que não dizia uma palavra mesmo quando era humilhado por seus superiores na frente de todos, inclusive de sua filha. É claro que Chikatilo não era um homem medíocre ou incompetente. O fato é que aquela não era sua vida. A vida para ele naquele momento era matar, era disso que ele gostava e era isso o que dava prazer. Ele só estava ali para receber o dinheiro no final do mês.

Suas palavras para com os colegas de trabalho se resumiam a “oi”, “obrigado” e “me desculpe”. Era elegante, sempre andando de terno e gravata.

“Estávamos voltando de carro de uma viagem e entre Rostov e Askai, ele, de repente, disse ao motorista para parar. Disse que tinha negócios urgentes e saiu do carro. Disse adeus e não olhou para trás. O lugar estava deserto.” 

[E. Kazakevich, colega de trabalho de Chikatilo na NEVZ]

Em 1985, Andrei Chikatilo assassinou apenas duas pessoas, Natalya Pokhlistova, 18 anos, morta durante uma viagem a Moscou e Irina Gulyayeva, morta em Shakhty. Em 1986, ele simplesmente não matou. Por quê? Veja a imagem abaixo:

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Na Foto: A família Chikatilo.

A família Chikatilo.

Na Foto: Andrei Chikatilo, à esquerda, com sua filha Lyudmila e seu netinho.

Andrei Chikatilo, à esquerda, com sua filha Lyudmila e seu netinho.

O ano de 1986 foi especial para Andrei Chikatilo, afinal, não é todo dia em que você completa 50 anos! Sim, durante o seu ano cinquentenário, Andrei Chikatilo simplesmente não matou. Talvez isso tenha sido uma penitência que ele propôs a si mesmo, ou talvez, ele achasse essa ocasião tão especial que não poderia manchá-la com sangue. Isso é uma prova que Chikatilo não era louco, ou seja, ele sabia o mal que causava. Uma coisa é não poder controlar os seus impulsos, outra coisa é saber a diferença do certo e errado.

Em 26 de setembro de 1986, ele compra um apartamento em Novocherkassk e em dezembro de 1987 sua mulher muda de Shakhty para o novo apartamento. Em 1989, seu filho Yuri volta do exército e ele e sua mãe decidem morar no apartamento da família em Shakhty. Lyudmila tinha o seu próprio apartamento na cidade e Chikatilo ficou sozinho no apartamento em Novocherkassk. No triênio 1987/1988/1989, Andrei Chikatilo assassinou 11 pessoas, dentre elas à adolescente Tatyana Ryzhova, lembram dela? O assassinato de Tatyana não foi contabilizado por Kostoyev como obra do Estripador da Floresta, mas ele estava errado. Seu corpo esquartejado, encontrado numa rede de esgoto em Shakhty, em 09 de março de 1989, foi obra de Chikatilo. Mas por que ele a esquartejou?

Chikatilo estava em Shakhty visitando sua filha Lyudmila que recentemente havia se separado do marido. Andando pelo centro da cidade, ele topou com a adolescente Tatyana Ryzhova e a levou para o apartamento de Lyudmila, que estava vazio. Mais uma vez ele falhou no ato sexual e praticou o seu habitual ritual de satisfação sexual: mutilar a vítima para conseguir ejacular. Para tirar o corpo de Tatyana dali, ele a esquartejou com uma faca de cozinha. Cortou a cabeça e membros e enrolou em panos. Alguns livros dizem que ele pediu um carrinho de mão emprestado de um vizinho para carregar os pedaços do corpo de Tatyana. Algumas fontes dizem também que durante o seu trajeto pelos trilhos de uma ferrovia, um homem ofereceu ajuda para levar o carrinho. Chikatilo teria se assustado e ficado confuso, mas no final aceitou à ajuda do homem.

Em 1989, ao mesmo tempo que matava crianças e mulheres, Chikatilo tomava as dores da sociedade de Rostov contra a construção de banheiros públicos em frente a “casas de família” e garagens públicas. Irritado em não ter os desejos atendidos, ele chegou a ir pessoalmente ao comitê regional e central do Partido Comunista. Sem sucesso, ele foi até Moscou tentar falar com o presidente russo Mikhail Gorbachev. Aproveitou e matou Aleksey Moiseyev, de apenas 10 anos, nos arredores do aeroporto.

Fim dos trilhos para a besta louca


Novembro de 1990

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Em outubro de 1990, um mês antes de ser definitivamente preso pelos assassinatos do Estripador da Floresta, Andrei Chikatilo foi até a Praça Vermelha em Moscou protestar contra construções em Rostov que ele considerava ilegais. Na época, a Praça foi invadida por centenas de pessoas e protestantes que viviam o auge da queda do comunismo. 

Na Foto: Homem protesta contra o governo durante manifestação na Praça Vermelha em Moscou em outubro de 1990. Créditos: Corbis.

Homem protesta contra o governo durante manifestação na Praça Vermelha em Moscou em outubro de 1990. Créditos: Corbis.

Na Foto: Um dos inúmeros protestos ocorridos na Praça Vermelha em Moscou durante o ano de 1990. Créditos: Corbis.

Um dos inúmeros protestos ocorridos na Praça Vermelha em Moscou durante o ano de 1990. Créditos: Corbis.

Na Foto: Mulher segura o retrato do então presidente russo Mikhail Gorbatchev durante protestos ocorridos na Praça Vermelha em outubro de 1990. Créditos: Corbis.

Mulher segura o retrato do então presidente russo Mikhail Gorbatchev durante protestos ocorridos na Praça Vermelha em outubro de 1990. Créditos: Corbis.

Documentaristas estrangeiros que faziam documentários sobre a perestroica e as mudanças do governo de Gorbachev, notaram entre a multidão um pequeno estande decorado com a bandeira imperial russa. Atrás do estande estava um homem alto, magro, cabelos grisalhos e com grossos óculos de grau. Era ele, o Estripador da Floresta. Chikatilo falou calmamente sobre os seus ideais e as ilegais construções de garagens em Rostov e até arriscou algumas frases em inglês. Disse também que não era como o resto que estava ali, ele tinha diplomas universitários e era um homem respeitável (seu habitual sentimento de superioridade). Os documentaristas não gostaram muito de sua história: Queixas de um velho sobre construções ilegais de garagens era um assunto muito fraco e bobo em comparação com o que estava acontecendo ali, ou seja, eles estavam presenciando a Queda do Comunismo! Bom, creio eu que esses documentaristas deixaram de entrar para a história, pois eles deixaram Chikatilo de lado e decidiram não realizar uma entrevista filmada com ele. Imaginem se eles tivessem feito? Claro que eles não sabiam que aquele “velho com ar de superior” era um dos maiores serial killers de todos os tempos, mas se aquele momento tivesse sido eternizado em uma filmagem, certamente eles, hoje, teriam o seu lugar ao sol!

O último assassinato


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Chikatilo voltou de Moscou e, como de costume, assassinou mais duas pessoas naquele mês. Um deles, ele travou uma feroz luta: O adolescente Viktor Tishchenko. Foi Viktor quem deu a violenta mordida que deixou seu dedo todo arrebentado. Mas no final, seria o “velho” de 54 anos quem levaria a melhor sobre o jovem de 16.

Na manhã do dia 6 de novembro de 1990, Chikatilo cometeria seu último assassinato. Ele ia para o apartamento do seu filho Yuri quando topou com a jovem Svetlana Korostik, de 22 anos.

“Eu sentei com ela em um banco e comecei a conversar. Percebi que ela era uma prostituta e que eu poderia ter relações sexuais. Quando eu conversava com ela, do outro lado, um homem nos observava. Pensei que era um policial, mas estava tão excitado que a levei até Donleskhoz [estação] e fomos para a floresta.

Ela resistiu muito e me arranhou em vários lugares. Depois de cometer o assassinato, naturalmente, eu estava sujo de lama e sangue. Sai da floresta e cheguei a uma área onde eu podia ver a estação de Donleshkhoz. Podia ver várias mulheres esperando na estação. Vi também um homem jovem que mais tarde descobri ser um policial a paisana.

O policial naturalmente me viu saindo da floresta e começou a olhar para mim de cima pra baixo. Ele então se afastou das mulheres e me chamou. Me mostrou sua identificação de policial e me pediu que mostrasse documentos. Mostrei o meu passaporte e ele perguntou o que eu estava fazendo ali. Disse que estava a trabalho e ele me deixou ir. Entrei no trem e ele não me seguiu.”

[Andrei Chikatilo] 

Na Foto: O passaporte de Chikatilo. Pela anotação do Policial Rybakov, que anotou o nome de Chikatilo num relatório, um dos maiores serial killers do século 20 foi pego.

O passaporte de Chikatilo. Pela anotação do Policial Rybakov, que anotou o nome de Chikatilo num relatório, um dos maiores serial killers do século 20 finalmente pode ser pego. Créditos: Yectho.

Chikatilo foi preso e após nove dias de intensos interrogatórios confessou os crimes para o psiquiatra Alexsandr Bukhanovsksy.

“Não fiquei com medo dele. Ele era um assassino apenas em determinadas circunstâncias. Eu tinha consciência do seu caráter. Descrevi para ele alguns trechos do meu perfil, como infância, juventude, família, pais. Ele escutou e chorou. Durante nossa conversa, muitas vezes, ele chorou, como uma criança. De início suas falas eram confusas, mas depois tornou-se coerente e detalhista. Depois me contou o que havia acontecido com ele, como ele começou, como foi seu primeiro assassinato e como isso atormentava a sua vida.”

[Alexander Bukhanovsky]

Kostoyev preparou uma declaração formal acusando Chikatilo de 36 assassinatos. Chikatilo leu a declaração e admitiu que ele era o culpado dos crimes. Ele queria agora dizer a verdade sobre a sua vida e o que o levou a esses hediondos crimes.

Chikatilo tinha uma memória espetacular e lembrava de cada um dos seus 36 assassinatos. Quem matou. Qual o nome, roupas… As vezes ele agia como um predador em busca da sua caça. Seguia alguma vítima para aprender sobre suas rotas e hábitos. Seguia até ter a oportunidade de abordá-la sozinha. Outras vezes, o encontro com suas vítimas era pura obra da casualidade. As inúmeras facadas eram quase sempre o substituto da performance sexual que ele não podia ter, ou seja, quando ele esfaqueava suas vítimas, era o mesmo que estar penetrando-as com seu pênis. Ele aprendeu a se agachar ao lado das vítimas de tal forma que o sangue não jorrasse em sua roupa, fato que demonstrou utilizando um manequim.

Sua impotência sexual causava uma enorme raiva em sua mente e isso era potencializado quando as mulheres faziam exigências ou o ridiculariza. Logo Chikatilo percebeu que não poderia ficar excitado sem violência. “Eu tinha que ver sangue e ferir as vítimas”, disse ele.

Com os meninos era diferente, apesar deles sangrarem tanto quanto as meninas, e no final, era disso que Chikatilo necessitava. Segundo Chikatilo, ele fantasiava que esses meninos eram seus prisioneiros e que ele era um herói por torturá-los e violá-los. Ele, porém, não deu uma razão porque cortava suas línguas e seus genitais. Lourie diz em seu livro, baseado em relatórios psiquiátricos, que Chikatilo colocava seu sêmen dentro dos úteros que removia das mulheres. E enquanto caminhava para ir embora, ele mastigava e comia os úteros, como se fosse a “trufa de um assassino sexual”.

“Mas a coisa toda, os gritos, o sangue, a agonia, me relaxava, me dava um certo prazer”, disse Chikatilo.

Ele gostava do sabor do sangue e também tinha prazer no ato de rasgar a boca de suas vítimas com os dentes. Para ele, mastigar ou engolir mamilos e testículos lhe dava uma “satisfação animal”.

Para corroborar o que Chikatilo dizia, ele desenhou esboços de cenas de crimes. Em seguida, ele confirmou o que todos temiam. Haviam muito mais vítimas… muito mais.

Um deles era Aleksey Khobotov, 10 anos, que ele matara em um cemitério de Shakhty. Ele ludibriou o menino quando este andava pela cidade e o levou até o cemitério onde o matou e o enterrou numa cova rasa, num buraco. E segundo Chikatilo, ele cavara esse buraco dias antes para ele mesmo, pois estava pensando seriamente em cometer suicídio. Ele levou os investigadores até o local e eles confirmaram o assassinato. Veja abaixo uma imagem do corpo sujo de terra de Aleksey Khobotov e um vídeo com um depoimento de sua mãe.

Na Foto: O corpo sujo de terra de Aleksey Khobotov.

O corpo sujo de terra de Aleksey Khobotov. Chikatilo assassinou Aleksey em 28 de agosto de 1989. Após sua prisão, ele confessou seu assassinato e levou os policiais até a cena do crime.

E assim Chikatilo foi levando um a um os investigadores nos locais onde havia cometido assassinatos. E a contagem dos corpos foi só aumentando… aumentando… Um desses assassinatos foi a de uma mulher que, assim como Tatyana Rizhova, ele assassinou no apartamento de sua filha em Shakhty. Ele desmembrou o corpo dessa vítima e descartou os pedaços no esgoto. A polícia nunca encontrou os restos dessa mulher e esse assassinato não foi incluído na contagem final de vítimas de Chikatilo. No final, ele deu detalhes de 56 assassinatos dos quais 53 puderam ser confirmados com provas, 31 mulheres e 22 homens. Burakov, entretanto, acreditava que Chikatilo havia assassinado mais… muito mais. 

Na Foto: Andrei Romanovich Chikatilo cercado por fotos de suas vítimas.

Andrei Romanovich Chikatilo cercado por fotos de suas vítimas.

Na Foto: Durante reconstiuição, Chikatilo mostra como assassinou uma de suas vítimas.

Durante reconstiuição, Chikatilo mostra como assassinou uma de suas vítimas.

Na Foto: Durante reconstituição, Chikatilo mostra como assassinou uma de suas vítimas.

Durante reconstituição, Chikatilo mostra como assassinou uma de suas vítimas.

Na Foto: Reconstituição de um dos crimes de Andrei Chikatilo. Créditos: HTB.

Reconstituição de um dos crimes de Andrei Chikatilo. Créditos: HTB.

Na Foto: Chikatilo mostra aos investigadores onde matou uma de suas vítimas.

Chikatilo mostra aos investigadores onde matou uma de suas vítimas.

Na Foto: No quartel da KGB, Chikatilo mostra a investigadores como assassinava suas vítimas.

No quartel da KGB, Chikatilo mostra a investigadores como assassinava suas vítimas.

O Julgamento do Século


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O Julgamento de Andrei Romanovich Chikatilo começou no dia 14 de abril de 1992 e durou seis meses. O Fórum, projetado para acomodar 250 pessoas, ficou pequeno para a multidão que deseja testemunhar o que foi chamado pela mídia russa de “O Julgamento do Século”. A sala de audiência estava completamente lotada, inúmeros guardas, parentes das vítimas, repórteres, etc. Numa espécie de fascinação mórbida, todos queriam ver qual era a aparência do homem que era chamado pela mídia de “O Açougueiro de Rostov” e “O Estripador Vermelho”. A mídia, aliás, foi a grande responsável por espalhar o terror sobre a chegada do seu julgamento. Era comum capas e mais capas de jornais com reportagens sensacionalistas sobre o maníaco comedor de criancinhas. Quando Andrei Chikatilo finalmente entrou na sala, o julgamento se tornou, literalmente, um show de horrores.

Parentes das vítimas gritavam e choravam histericamente. Mulheres desmaiavam, homens eram contidos pelos guardas. Como num verdadeiro show de horrores, Chikatilo, para sua própria segurança, foi colocado dentro de uma jaula de ferro. O lobo enlouquecido, como ele próprio se auto-designou, era enjaulado. Sua aparência e comportamento eram completamente bizarros. Vestido com uma camiseta dos Jogos Olímpicos de Moscou (1980), estava com a cabeça raspada, um procedimento padrão em presos, e sem o seu inseparável óculos de grau. Seus olhos reviravam e ele fazia movimentos estranhos com a cabeça, ora puxando-a para um lado, ora para o outro. Chikatilo parecia se sentir como um animal acuado prestes a ser devorado por outros ao seu redor. Sem exageros, aquele assustador homem enjaulado parecia um louco varrido, uma besta.

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Na Foto: Uma multidão compareceu ao Tribunal de Rostov no dia 14 de abril de 1992 para o que foi chamado de "O Julgamento do Século". Créditos: Biography Channel.

Uma multidão compareceu ao Tribunal de Rostov no dia 14 de abril de 1992 para o que foi chamado de “O Julgamento do Século”. Créditos: Biography Channel.

Na Foto: Parentes das vítimas se desesperam ao ver o acusado, Andrei Chikatilo, entrando no tribunal. Créditos: Biography Channel.

Parentes das vítimas se desesperam ao ver o acusado, Andrei Chikatilo, entrando no tribunal. Créditos: Biography Channel.

Na Foto: Chikatilo é levado até a sala de Julgamento.

Chikatilo é levado até a sala de Julgamento.

Na Foto: Andrei Chikatilo entrando dentro de uma jaula na sala do Tribunal.

Andrei Chikatilo entrando dentro de uma jaula na sala do Tribunal.

Na Foto: Andrei Chikatilo dá um sorriso estranho ao caminhar por sua jaula.

Andrei Chikatilo dá um sorriso estranho ao caminhar por sua jaula.

Na Foto: Preso dentro de uma jaula, o comportamento de Andrei Chikatilo era completamente bizarro. Fazia movimentos com o pescoço enquanto seus olhos reviravam.

Preso dentro de uma jaula, o comportamento de Andrei Chikatilo era completamente bizarro. Fazia movimentos com o pescoço enquanto seus olhos reviravam.

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Chikatilo em sua Jaula

Serial Killers - O Estripador da Floresta - Chikatilo sorri na Jaula

Andrei Romanovich Chikatilo sorri ao escutar os gritos de desespero dos parentes das vítimas.

Na Foto: Chikatilo boceja durante o seu julgamento.

Chikatilo boceja durante o seu julgamento.

Nina Beletskaya mãe de uma das vítimas de Chikatilo disse em seu depoimento,

“Eu quero ver este homem que pôde rasgar o estômago do meu filho e então encher sua boca de lama para que ele não pudesse gritar. Eu queria saber como era sua aparência, para saber qual mãe pôde su­portar este tipo de animal!”

Lydia Khobotov, mãe de Aleksey Khobotov, disse,

“Eles deveriam cortá-los em pedaços como um cachorro!”

Toda aquela terrível atmosfera pareceu influenciar em seu comportamento. Ele gritava obscenidades para o público, cantava e até chegou a tirar suas calças. Para alguns especialistas, porém, todo aquele sinistro comportamento de Chikatilo nada mais era do que pura encenação. Isso mesmo. O bizarro comportamento seria uma tentativa de Chikatilo parecer louco. A justificativa é simples. Chikatilo entrou praticamente condenado naquele julgamento, e condenado na Rússia significa fuzilamento, uma bala na parte de trás da cabeça. Mas se ele fosse considerado insano pelo tribunal, ao invés de ser executado, Chikatilo poderia viver tranquilamente o resto dos seus dias em um hospital psiquiátrico.

Aquele comportamento pode ter sido um artifício encontrado por Chikatilo (com ou sem influência do seu advogado, não sei) para justificar suas atrocidades e parecer louco. Entretanto, para Viktor Burakov, aquele comportamento de Chikatilo não era encenação.

“Ele era doente, muito doente, e ele precisava matar. Ficar preso dentro de uma jaula, cercado por pessoas querendo trucidá-lo e a tempos sem matar, pôde ter feito com que ele agisse daquela forma, como um animal raivoso.”

[Viktor Burakov]

Creio eu, que no fundo de sua mente, naquele momento, ele se sentia completamente humilhado de estar ali. Mais uma vez a sociedade limpava seus pés nele. Ele, o grande Chikatilo, o homem de diplomas universitários, ser enjaulado e xingado por ter assassinado prostitutas, vagabundos, deficientes mentais e outros da escória? Aquela escória que o xingava naquele momento não entendia o seu grande valor.

Encenação ou não, o fato é que Chikatilo entrou naquele Tribunal virtualmente condenado, mas é claro que, teoricamente, existia uma chance dele ser considerado insano devido aos seus óbvios problemas mentais. Meu papel aqui não é defender ou culpar o serial killer, mas posso dizer que o mesmo não teve um julgamento justo. Seu advogado, Marat Khabibulin, não teve o direito de chamar especialistas psiquiátricos e apenas interrogou os da promotoria. Além disso, Marat teve pouco tempo para estudar o caso já que ele foi nomeado pouco antes do início do julgamento. Os soviéticos preparam direitinho o terreno para fuzilar Chikatilo.

Na Foto:

Marat Khabibulin. O advogado de Andrei Chikatilo entrou no Tribunal com as mãos atadas. Além do caso ter caído em suas mãos em cima da hora, ele não pôde convocar nenhuma testemunha de defesa.

Embora os promotores do caso fossem Anatoly Zadorozhny e N.F. Gerasimenko, foi o Juiz Leonid Akubzhanov quem tornou-se o principal inimigo de Chikatilo durante o julgamento. Ele fazia perguntas afiadas e direcionava comentários humilhantes ao réu, que muitas das vezes não respondia. Depois de vários meses de Julgamento, no entanto, Chikatilo desafiou o juiz:

“Este é o meu julgamento ou este é o meu funeral?”

Ninguém adequadamente respondeu a questão da discrepância entre o tipo de sangue encontrado no sêmen e o seu tipo sanguíneo. O analista forense levado pela promotoria explicou que Chikatilo era um fenômeno raro de um homem que tem um tipo de sangue, mas secreta outra, mas esta hipótese é até hoje ridicularizada no mundo inteiro. O advogado de Chikatilo também não pode contratar peritos forenses para ajudar a defesa. O Juiz, com seu claro viés contra o réu, aceitou a incomum análise do perito.

Ao mesmo tempo, Chikatilo negou a autoria de 6 assassinatos e acrescentou 4 novos. Ele alegou ter sido uma vítima do antigo sistema soviético e chamou a si mesmo de “besta louca”. Ele também afirmou que praticara 70 assassinatos e não 53. Perguntado sobre se ele mantinha pistas sobre suas vítimas ele disse:

“Eu considerava-os como aviões inimigos os quais eu devia abater!”

A corte aceitou o diagnóstico psiquiátrico de sanidade (claro). Um psiquiatra o examinou novamente e disse que ele ainda tinha a mesma opinião. Segundo o psiquiatra, o comportamento predatório de Chikatilo aliado à sua habilidade para matar em lugares seguros mostrava seu grau de controle. Pesou também o fato dele ter parado por mais de um ano, em 1986, quando comemorou seu aniversário de 50 anos. 

Na Foto: Alexandr Bukhanovsky. O psiquiatra acompanhou todo o julgamento de Andrei Chikatilo. Ele não foi utilizado como testemunha devido a negativa do Juiz, que proibiu que a defesa utilizasse testemunhas.

Alexandr Bukhanovsky. O psiquiatra acompanhou todo o julgamento de Andrei Chikatilo. Ele não foi utilizado como testemunha devido a negativa do Juiz, que proibiu que a defesa utilizasse testemunhas. Créditos: HTB.

"O que eu fiz não foi por prazer sexual. Ao invés disso, me trouxe paz de espírito." Disse Chikatilo durante o seu julgamento.

Andrei Romanovich Chikatilo.

Na Foto: Andrei Chikatilo abaixa suas calças durante o seu Julgamento.

Andrei Chikatilo abaixa suas calças durante o seu Julgamento.

Algumas frases ditas por Andrei Chikatilo durante o seu julgamento tornaram-se antológicas. Veja algumas abaixo e um trecho, em vídeo, legendado do seu julgamento.

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Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo

O julgamento entrou no mês de agosto. A defesa resumiu o seu lado dizendo que as análises das provas e laudos psiquiátricos eram falsos e que Chikatilo havia sido coagido para confessar. O advogado pediu um veredito de inocente.

No próximo dia, Chikatilo começou a cantar em sua jaula e a falar várias frases sem sentido. Ele foi levado para fora do tribunal antes do promotor começar seu argumento final. Ele reiterou o que significava sadismo, repetiu cada um dos crimes e pediu a pena de morte.

Chikatilo foi trazido de volta e foi dada uma última oportunidade para que ele falasse. Ele ficou mudo.

O juiz levou dois meses para chegar a um veredito e em 14 de outubro de 1992, seis meses após o início do julgamento, ele declarou Andrei Romanovich Chikatilo culpado de 5 acusações de abuso sexual e 52 acusações de assassinato. Ao ouvir a declaração, Chikatilo surtou dentro de sua jaula: “Vigaristas! Vigaristas! Eu lutei por uma Rússia e Ucrânia Livres! Vigaristas!”, gritou ele. Ele ainda gritou frases sem sentido, cuspiu, jogou seu banco no chão e pediu para ver os cadáveres. O Juiz o condenou a morte. 

Na Foto: Ao ouvir a decisão do Juiz, Andrei Chikatilo gritou frases sem sentido e teve de ser arrastado por um policial para fora de sua jaula.

Ao ouvir a decisão do Juiz, Andrei Chikatilo gritou frases sem sentido e teve de ser arrastado por um policial para fora de sua jaula.

Após o julgamento uma coletiva de imprensa com pessoas ligadas ao caso, dentre eles Mikhail Fetisov e Alexander Bukhanovsky foi realizada. De interessante foi a fala de Bukhanovsky que disse que sim, Chikatilo tinha uma doença mental, o que foi negado por um outro psiquiatra que também participava da coletiva.

O advogado apelou do veredito alegando que a avaliação psiquiátrica não tinha sido objetiva e que ele queria uma análise mais profunda. Em 30 de outubro de 1992, ele enviou à Suprema Corte Russa um pedido de cancelamento da sentença de morte do seu cliente.

“…a pressa com que o exame foi realizado foi benéfica para o Tribunal e o seu único objetivo: criar uma aparente e sólida conclusão científica. Os psiquiatras do Tribunal ignoraram questões importantes, tais como o estado mental de Chikatilo em sua relação com a sociedade. Isso é absolutamente inaceitável diante de um caso tão notável e socialmente significativo.”

[Trecho do pedido do advogado de Chikatilo]

No dia 28 de janeiro de 1993, a Suprema Corte concedeu a Chikatilo a oportunidade de se familiarizar com todos os registros do caso. Ele passava todo o seu tempo lendo o caso e escrevendo pedidos de clemência para o Presidente russo Boris Yeltsin. No corredor da morte da prisão em Novocherkassk, Chikatilo escrevia histórias da sua vida e mensagens para jornais russos e tinha a ingênua esperança de morrer de causas naturais.

…o Juiz não me deu uma corda e eu me alimento pela força. Tenho constantes dores de cabeça. A pressão no meu crânio e pescoço é tanta que um psiquiatra de um hospital foi chamado e me deu injeções. Ele me disse que eu deveria ser tratado em um hospital para doentes mentais. O oficial Yevseyev também disse a mesma coisa. O Juiz fez de tudo para frustrar e atrasar o processo no Tribunal. Não investigou certas evidências e não chamou psiquiatras de fora para analisar, apesar dos pedidos do meu advogado. A meu advogado também não foi permitido uma única testemunha.

…a história do cadáver no cemitério de Shakhty poderia revelar outras pessoas que violam túmulos. Tive que aceitar o destino dos pobres, dos impotentes, dos oprimidos cordeiros. Este é o meu fardo e o meu destino… Deveria ter sido mais diligente para orar e estudar o legado de Sergius de Radonezh e Marina Tsvetaeva, mas eu estava infectado estudando os 55 volumes de Lênin.

…Eu estava intimidado, com fome, frio, torturado, executado, humilhado, ridicularizado. Fui colocado ao ridículo e abusado. A escritora Agatha Christie fala sobre um vilão maníaco para se referir aos selvagens, em ilhas desabitadas. Peço para mim o exílio, assim como foi feito com Napoleão que matou milhares de vidas. Numa ilha desabitada e selvagem, eu poderia comer musgos e mofos, assim como aquela criança que comeu urtigas e ervas e sobreviveu à fome, a fome organizada pelos bolcheviques.

…comigo para essa ilha poderia ir minha esposa, Feodosyia, ela assumiria a responsabilidade legal por mim…

[Trecho de uma carta escrita por Chikatilo para um jornal russo. Disponibilizo aqui o texto original no formato pdf]

A fala acima de Chikatilo é interessante, ele refere-se a ele quando diz “a criança que comeu urtigas e ervas”, uma referência à sua infância pós-Holodomor e a grande fome de 1946/1947. Mais uma vez ele coloca a culpa sobre o seu destino no comunismo e os desastres causados por ele.

Em 28 de maio de 1993, Andrei Chikatilo enviou uma queixa ao Tibunal. Ele queria que seu caso fosse revisto. Chikatilo escreveu que era uma pessoa doente e pedia ao Tribunal para mandá-lo a um hospital psiquiátrico para tratamento.

“Chikatilo é um assassino sadista, frio e calculista, que a 12 anos matou brutalmente mulheres, meninos e meninas, e que agora está preocupado com seu próprio destino”, descreveu o Juiz Leonid Akubzhanov para o Tribunal.

Em 30 de junho de 1993, o Supremo Tribunal da Rússia negou o recurso de Andrei Chikatilo dizendo que durante o julgamento, Chikatilo disse que “era uma besta que merecia a pena de morte” e que agora era um homem doente que precisava ser tratado. O Tribunal manteve o veredito de execução.

Enquanto lutava para não morrer, Chikatilo passava seus dias num cubículo sujo praticando exercícios físicos e alongamentos. À beira da morte, Chikatilo deu entrevistas a jornalistas russos e de outros países e participou de filmagens que viraram históricos documentários. Numa dessas entrevistas, ele é perguntado se sua família o visitava:

“Ninguém nunca veio. Minha esposa e filhos sumiram, não sei onde estão. Não sei porque ninguém vem me visitar.”

[Andrei Chikatilo]

Se a família de Chikatilo o abandonou, o resto do mundo não. A prisão recebia dezenas de dezenas de pedidos de entrevistas de jornalistas do mundo inteiro. Todos queriam escutar o “maníaco”. Institutos de Pesquisa de Saúde Mental de países como Estados Unidos, Alemanha e Japão, desesperados, pediam para o governo russo não executá-lo, tais institutos chegaram a oferecer uma enorme quantia em dinheiro para que Chikatilo fosse mantido vivo para estudos. 

Na Foto: Andrei Chikatilo, de dentro de sua cela, conversa com repórteres poucos meses antes de sua execução.

Andrei Chikatilo, de dentro de sua cela, conversa com repórteres poucos meses antes de sua execução.

Na Foto: Andrei Chikatilo conversa com documentaristas de dentro de sua cela poucos meses antes de sua execução. Créditos:

Andrei Chikatilo conversa com documentaristas de dentro de sua cela poucos meses antes de sua execução. Créditos: YECTHO.

Na Foto: Andrei Chikatilo concede uma de suas últimas entrevistas.

Andrei Chikatilo concede uma de suas últimas entrevistas.

Na Foto: Andrei Chikatilo e seus grossos óculos de grau com as lentes quebradas.

Andrei Chikatilo e seus grossos óculos de grau com as lentes quebradas. Pouco antes de sua execução, Andrei Chikatilo atendeu repórteres do mundo inteiro que iam até a prisão de Novocherkassk, a mesma onde anos antes outro notório serial killer, Anatoly Slivko, foi executado. Créditos: YECTHO.

Na Foto: Andrei Romanovich Chikatilo é fotografado em sua cela.

Andrei Romanovich Chikatilo é fotografado em sua cela.

Na Foto: Andrei Romanovich Chikatilo é fotografado em sua cela durante uma entrevista.

Andrei Romanovich Chikatilo é fotografado em sua cela durante uma entrevista.

Na Foto: Andrei Romanovich Chikatilo

Andrei Romanovich Chikatilo.

Abaixo um pequeno trecho de uma dessas entrevistas, realizada pelo canal russo HTB, com Andrei Chikatilo.

– Como está?

– Muito bem.

– Se alimenta bem ?

– Não é um problema. Minha vida passei em viagens de negócios na Sibéria, Urais. Não comia direito. Gosto de ler.

– O que está lendo agora?

– Nikolai Ostrovksy.

– Precisa ser tratado?

– Sim, mas sou o único vilão.

– Está vendendo sua casa em Shakhty. O que fará com o dinheiro?

– Transferir pra cá. Comer coisas boas, biscoitos, bolos, coisas diferentes…

– Como avalia o que está acontecendo?

– Como poderia? O país inteiro está em ruínas (refere-se ao fim da União Soviética). Se eu tivesse me tornado um grande político faria diferente. Há guerras, o território está sendo dividido, não temos uma língua comum, a extremidade da borda não é visível… O país está descontrolado.

– Mas você matou?

– Eu lutei contra todos os tipos de bandidos e vagabundos. Limpei as ruas do pecado e dos aidéticos.

Circulou um rumor de que os japoneses queriam pagar 1 milhão de dólares pelo cérebro de Chikatilo. Muitos profissionais mundo afora acreditavam que um homem com um comportamento tão aberrante deveria ter sido mantido vivo para estudos.

Claro! Um homem com vários diplomas universitários, que chegou ao alto escalão do Partido Comunista, casado, dois filhos, sem ter tido nenhum indício de abuso sexual na infância… é lamentável que uma melhor análise biopsicológica nunca tenha sido realizada.

Legado


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Em 14 de fevereiro de 1994, Andrei Romanovich Chikatilo, 57 anos, um dos mais sádicos serial killers do século 20, foi executado com um tiro atrás de sua orelha direita. “Meu coração ainda bate”, foram, supostamente, suas últimas palavras. Sua morte, porém, não colocou um ponto final na terrível carnificina cometida por ele. Chikatilo virou mito, replicado em centenas, mas centenas de artigos, livros, documentários e filmes (muitos dos quais passam longe da verdade). Sua vida é constantemente debatida em Universidades de psicologia e criminologia mundo afora. Ele pode ter partido, mas seu terrível legado nunca deixará de existir. Chikatilo é importante para nos lembrar que, assim como ele, existem centenas de pessoas no mundo doentes e que podem estar matando neste exato momento. Chikatilo é importante para contrabalancear a nossa visão e consciência de mundo, ele mostra que atrocidades abomináveis contra crianças e pessoas comuns não acontecem apenas nos filmes. E acima de tudo, ele é importante para nos lembrar que devemos cuidar melhor de nossos filhos, pois as crianças sim, são presas fáceis para esses predadores que se camuflam na sociedade à espera do momento certo para matar.

Chikatilo tornou-se um dos maiores e mais conhecidos serial killers da história, citado em livros e artigos, como no livro de Louis Schlesinger, Serial Offenders, mostrado como um homem com gostos e hábitos perversos. Graças a ele, especialistas russos se abriram para um melhor entendimento sobre esses assassinos e estreitaram suas relações com os maiores especialistas na área: O FBI.

O psiquiatra Bukhanovsky tornou-se um dos maiores especialistas nessas mentes tendo inclusive aberto uma clínica que atende pessoas com distúrbios sexuais graves. E segundo ele, pode curar psicopatas violentos. Um estuprador de crianças que foi tratado por Bukhanovsky, disse que o psiquiatra tinha uma maneira especial de tirar das pessoas aquilo que normalmente elas manteriam em segredo. E esse parece ter sido o seu talento com Andrei Chikatilo. 

Na Foto: As facas apreendidas na casa de Andrei Romanovich Chikatilo em 1990. Objetos estão disponíveis no Museu do Crime em Rostov-on-Don.

As facas apreendidas na casa de Andrei Romanovich Chikatilo em 1990. Objetos estão disponíveis no Museu do Crime em Rostov-on-Don.

Na Foto: Objetos pertencentes a Andrei Chikatilo. Suas facas, as quais assassinou dezenas de vítimas. Seus grossos óculos de grau, seu chapéu e documento. Objetos disponíveis no Museu do Crime em Rostov-on-Don.

Objetos pertencentes a Andrei Chikatilo. Suas facas, as quais assassinou dezenas de vítimas. Seus grossos óculos de grau, seu chapéu e documento. Objetos disponíveis no Museu do Crime em Rostov-on-Don.

A Família Chikatilo


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“Você teve muita sorte Fenya, seu marido não é um alcóolico como os nossos …”

Era assim que muitas amigas de Feodosyia Chikatilo, referiam-se a Andrei Chikatilo. Um homem que não fumava, não bebia, que não tinha os vícios da maioria dos homens da Rússia. Carinhoso com os filhos, que nunca levantou a voz dentro de casa. Por isso, todos ficaram abismados e assustados quando as notícias sobre o avô de 54 anos vieram a tona. E agora imaginem, como não deve viver a família, esposa, filhos, de um dos maiores serial killers de todos os tempos? Além da dor de descobrirem os terríveis atos do marido, pai, ainda terem que conviver com o falatório e ameaças da população?

Durante anos, a esposa e filhos de Andrei Chikatilo se esconderam, mudaram os nomes e pareceram viver escondidos com medo de serem descobertos. Mas em 2007, Yuri Chikatilo decidiu quebrar o silêncio, ele participou de um programa da TV russa HTB. De início, por um longo tempo, ele hesitou, o que é compreensível, nem todos seus amigos e conhecidos sabem quem ele é, quem é o seu pai. O programa de 22 minutos não mostra nada de relevante e, como em entrevistas posteriores, mostra Yuri defendendo o pai. O programa, na verdade, é bem sensacionalista e explora o lado “estranho” de Yuri (sim, ele herdou alguns genes ruins do pai!). O programa começa com Yuri dizendo que seu pai é inocente e que ele possui as provas, e termina com ele dizendo que lavará o sobrenome Chikatilo com o “sangue das 52 vítimas.”

A mãe de Yuri e esposa de Andrei Chikatilo, Feodosyia, aparece por poucos segundos na matéria, tempo suficiente para ela dar uma patada no repórter (bom, achei bem feito, vemos que o sensacionalismo não é algo restrito à mídia brasileira). Tendo a oportunidade de conversar com a esposa de um dos maiores serial killers da história, o repórter faz a brilhante pergunta: Você sabia?

Na Foto: Feodosyia Chikatilo

Na Foto: Yuri Chikatilo, durante programa do canal HTB em 2007.

Yuri Chikatilo, durante programa do canal HTB em 2007.

O que eu não entendi mesmo nessa matéria foi esse bigode e esse cabelo de Yuri Chikatilo. É um bigode postiço e uma peruca. Me parece que pediram para Yuri usá-los. Em determinado ponto da matéria, eles mostram Yuri tirando o bigode e a peruca. Não entendo russo, portanto isso é uma incógnita (espero que alguém me ajude). Ao final, os repórteres visitam a humilde casa de Yuri e entrevistam (ao que parece) sua esposa. Clique aqui e veja essa matéria com Yuri Chikatilo no youtube.

Um ano depois dessa matéria, Yuri Chikatilo concedeu uma entrevista exclusiva para o jornal russo Segodnya. Perguntado sobre como ele gostaria que a entrevista fosse conduzida, Yuri respondeu “Com a verdade!” 

Na Foto: Yuri Chikatilo. Filho de um dos mais notórios serial killers de todos os tempos, Yuri mudou de nome e tem hoje

Yuri Chikatilo. Filho de um dos mais notórios serial killers de todos os tempos, Yuri mudou de nome e na foto acima estava com 44 anos.

Na Foto: Yuri Chikatilo

Yuri Chikatilo

– Para você, como era o seu pai ?

Yuri: Meu pai, para mim, foi o melhor pai do mundo. Ele já tinha mais de 30 quando eu nasci em 1969. Nunca percebemos nada, ninguém em casa. Na verdade, eu acredito que ele não seja culpado. Quando ocorreu aquele assassinato em Leningrado, que foi atribuído a ele, ele estava em Rostov-on-Don. Colocaram 53 cadáveres em suas costas. Não sei se ele matou, talvez um ou dois, mas não muito. As pessoas por trás dessa fraude tem patentes de General, são autoridades importantes.

– Como era o comportamento do seu pai em família?

Yuri: Ele saia muitas vezes em viagens de negócios, ele era o provedor da casa. Vivemos todo o tempo na região de Rostov, Novoshakhtinks, Shakhty, Novocherkassk. Talvez ele fosse um bom artista, se de fato ele está por trás disso. Minha mãe era invejada pelos nossos parentes, ela tem onze irmãos e irmãs, todos diziam que ela tinha um marido maravilhoso, inteligente, gentil, com diplomas. Meus tios trabalhavam duro, mas bebiam e batiam nas esposas. Meu pai nunca bebia, não fumava e nunca levantou a mão para nós. Sempre tratava a mim e a minha irmã com amor. Quando voltava das viagens de negócios, trazia doces. Não via nada nele além de carinho e ternura.

– Ele trazia algum objeto estranho que poderia ser de alguma de suas vítimas?

Yuri: Eu nunca vi. Ele nunca trouxe brincos, anéis, ou coisas assim. Durante as buscas, a polícia não encontrou nada.

– Conte-nos sobre você.

Yuri: Eu terminei a escola em Rostov em 1986. Um ano depois, na primavera, fui convocado para o exército. Servi no Turcomenistão e em Kandahar, no Afeganistão. Já estava lá em dezembro de 1987 e fiquei até as tropas sairem, em 1989. Passei um breve tempo no hospital depois de ser ferido (a União Soviética invadiu o Afeganistão em 1987). Minha ferida não foi pesada e poucas semanas depois eu já estava de volta. Participei de tudo, acompanhei os blindados em operações defensivas e ofensivas, fiquei sob fogo cruzado, vi amigos serem mortos. Fiquei ferido por estilhaços e vi dois camaradas que estavam ao meu lado morrerem.

Voltei para casa em 1989 (Novocherkassk), embora tenha recebido propostas para ficar ou ir para a escola militar. Tinha 20 anos e comecei a ter uma vida de bebidas com amigos, festas e no final das contas, como de costume, estava sem dinheiro. Em uma semana com meus amigos, decidimos roubar um ônibus de vietnamitas. Eles comercializavam relógios japoneses falsificados, os Seiko. Roubamos cerca de 10 mil dólares, mas a polícia rapidamente pegou um de nós e então todo o grupo foi preso.

Meus pais venderam tudo que tinham, correntes de ouro, anéis, para pagar advogados. Me deram dois anos de liberdade condicional. Comecei a trabalhar numa fábrica de Novocherkassk e em novembro do ano seguinte meu pai foi preso. Para nossa família foi como um trovão em plena luz do dia! 

Na Foto: Yuri e sua mãe, Feodosyia Chiatilo, em foto tirada em 2004. Créditos:

Yuri e sua mãe, Feodosyia Chikatilo, em foto tirada em 2004. Créditos: Segodnya.

– Como foi a prisão do seu pai?

Yuri: Era umas 6h horas da tarde. Toda nossa família estava em casa. Decidimos beber, meu pai então disse que poderia sair para comprar cerveja. Ele levou um frasco de três litros e foi para um mercado encher. Veja, a cerveja era pra mim, não pra ele, ele não bebia. Mas ele nunca voltou. Esperamos até a manhã. As 09:00 horas a polícia ligou e convidou minha mãe para comparecer à Delegacia. Lá eles disseram que ele estava sendo acusado de assassinato.

Durante todo o tempo eu quis ver meu pai e olhar em seus olhos e perguntar: Isso é verdade ? Mas o investigador nos advertiu: Se durante a visita vocês perguntarem qualquer coisa relacionada a crimes não deixaremos mais ele sair! Fomos, na verdade, meio que proibidos de vê-lo. Aquela camisa que ele usou no julgamento foi uma que ele comprou em 1980, em Moscou, durante a Olimpíada.

A propósito, quando ele estava nos Jogos Olímpicos, ocorreram crimes em Novocherkassk que depois foram atribuídos a meu pai. Ele tinha um álibi, mas ninguém quis aparecer. Em casa fizemos uma série de pesquisas e nada apontou para um crime, não encontramos nada. Meu pai tinha uma pequena casa privada em Shakhty, não tinha nem mesmo fogão, e novamente, nada de errado lá foi encontrado. Ele visitava essa casa ocasionalmente, então na época, descobri onde supostamente ele levava as vítimas.

Poucos meses depois um investigador ofereceu a todos nós um passaporte e novos nomes para escolher. Minha mãe e eu escolhemos o nome Odnacheva e minha irmã, que casou em 1990, vive até hoje com o nome do cônjuge. O rumor na cidade cresceu muito e as pessoas sabiam sobre o meu pai, eles escreviam em nossa caixa de correios dizendo que nos matariam a todos. Minha mãe trabalhava como Coordenadora do Jardim de Infância de uma escola e teve que sair. Eu também pedi demissão da fábrica onde trabalhava.

Em suma, tivemos que ir embora de Novocherkassk. Ninguém nos ajudou. Minha mãe e eu trocamos um bom apartamento e uma casa em Novocherkassk e Shakhty por um apartamento em Kharkov (Ucrânia). Não tínhamos dinheiro para um advogado, o Tribunal nomeou um em cima da hora e, penso eu, que muitas das acusações contra meu pai foram falsas. Quando estudei o processo criminal, vi que faltavam algumas folhas. Eles tiraram o que poderia ser uma desvantagem. Por causa dessa injustiça eu quero reaver o nome do meu pai, Chikatilo. O nome do meio eu não mudei.

E assim terminou a entrevista com Yuri Romanovich Odnacheva ou, como ele prefere, Yuri Romanovich Chikatilo.

Como dito por Yuri, após a prisão do pai, sua mãe Feodosiya vendeu o apartamento em que eles moravam em Novocherkassk e mudou-se com os filhos (Lyudmila, que era casada, e Yuri) para a cidade de Kharkov. Os três tiraram o sobrenome Chikatilo de suas identidades e adotaram um novo sobrenome. Em 1996, Yuri foi condenado a dois anos de prisão por extorquir um empresário de Rostov. Saiu em 1998 e foi preso novamente por roubo. Passou mais seis anos na cadeia. Em 2004, aos 37 anos, data da foto acima, foi solto e abriu uma empresa de construção civil. Em um outra entrevista para um jornal russo em 2009, Yuri voltou a dizer que a família custou a acreditar que seu pai era o Estripador da Floresta. Segundo ele a imagem que o seu pai passava era de um homem fraco tanto fisicamente quanto moralmente. Ainda segundo Yuri, foi muito difícil para sua mãe aceitar que o marido matara crianças, já que ele sempre foi um pai presente, “Ele nos levava para pescar, jogava futebol, era muito carinhoso… nós ainda o respeitamos.”

Feodosyia atualmente mora em Kharkov. Lyudmila casou-se duas vezes e, assim como Yuri, foi diagnosticada com esquizofrenia.

“Certamente é ruim que os genes da esquizofrenia tenham atingido meus filhos em diferentes direções”, disse Feodosyia ao jornal russo MK em 2009.

A preocupação de Feodosyia é pertintente. Sabemos que a genética tem influência no comportamento das pessoas. Existem, por exemplo, gerações inteiras de assassinos e criminosos em determinadas famílias, e isso só poderia ser explicado por um componente genético, talvez um gene ligado a maldade. Os dois filhos de Chikatilo foram diagnosticados com esquizofrenia. Seu filho Yuri possui tendência a ter comportamento criminoso, quem sabe algum antepassado de Andrei Chikatilo também não tenha sido um assassino? Ou pior, um serial killer? O fato é que esse comportamento errante chegou até Yuri, e no meu ponto de vista, isso só poderia ser explicado por uma pré-disposição genética. Talvez, em Andrei Chikatilo, essa mistura de “genes ruins” tenha atingido o clímax da bestialidade. Em 2009, Yuri Odnacheva, então aos 39 anos, foi notícia no mundo oriental. O jornal ucraniano The Donbass noticiou que Yuri havia sido preso por tentativa de assassinato na cidade de Kharkov. Ele esfaqueou um homem várias vezes em um banheiro público da cidade.

Segundo Yuri, o homem tentara roubar seu carro, mas ele reagiu e o perseguiu até um banheiro da cidade onde, em uma luta corporal, o esfaqueou. Mas segundo a Polícia ucraniana, os dois homens estavam a negócios na cidade quando Yuri o levou até um banheiro onde tentou matá-lo. O homem sobreviveu ao ataque e Yuri foi preso por tentativa de assassinato. Não consegui encontrar mais informações sobre a prisão de Yuri, portanto, não posso dizer se ele continua preso ou está em liberdade.

Filmes


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Citizen X

“Uma história fascinante da caça ao mais prolífico serial killer dos tempos modernos. O filme é uma caçada humana ao serial killer e uma crítica ao sistema político soviético. O filme tem um ponto de vista amplo sobre o homem que decidiu o destino de 52 jovens vítimas,” escreveu o crítico Tim Kretschmann sobre Cidadão X.

Feito originalmente para a TV, Cidadão X é o melhor filme já feito que narra os bestiais crimes cometidos por Andrei Romanovich Chikatilo. O desempenho do ator Stephen Rea, que vive o detetive Burakov, e que por oito anos perseguiu o serial killer, é um dos destaques do filme. Ele consegue passar perfeitamente a frustração do personagem em relação à cegueira do alto escalão da polícia soviética. Para os seus superiores, serial killer era um “decadente fenômeno ocidental” e não era o tipo de coisa que acontecia por lá.

Cidadão X é um filme sólido e consegue desenhar bem a ligação entre a investigação dos assassinatos e a tragédia do comunismo. O diretor Chris Gerolmo não dá detalhes sobre os crimes e foca apenas nas suas consequências, que são suficientemente horríveis. O filme, como qualquer dramatização da vida real, inventa alguns diálogos e personagens, entretanto, tais invenções não fogem nenhum pouco aos acontecimentos reais e também não diminuem um dos pontos centrais do filme: A de que os crimes, certamente, poderiam ter sido resolvidos mais cedo não fosse a interferência de burocratas do governo e ideólogos do Partido Comunista. Ao final, somos apresentados à Viktor Burakov, um detetive que enfrentou todo um sistema para deter um bestial homem que matava bem debaixo dos narizes dos soviéticos.

O elenco conta ainda com os magníficos Donald Sutherland, Max Von Sydow e Jeffrey DeMunn, que faz uma boa performance como Andrei Chikatilo.

Melhor Momento: A conversa entre o psiquiatra Bukhanovksy e Andrei Chikatilo, fato que na vida real foi decisivo para a confissão do serial killer.

Veja o filme completo e legendado em nosso canal no youtube:

Evilenko

Assim como Cidadão X, Evilenko é um conto sobre os terríveis crimes cometidos por Andrei Romanovich Chikatilo. Mas ao contrário do primeiro, que é bastante fiel a história real, Evilenko opta por misturar realidade e ficção.

Escrito e dirigido pelo jornalista italiano David Grieco, o filme originou-se do romance O Comunista que Come Crianças, do mesmo David Grieco. Tanto o livro quanto o filme receberam inúmeras críticas, a maioria não concordando com a manipulação do diretor sobre a história real. Mas segundo Grieco, seu interesse maior com as obras era investigar o “paradoxo da monstruosidade de um homem tão bem intelectualizado.” Entretanto, nessa tentativa de mostrar esse paradoxo, o escritor e diretor acabou cometendo alguns deslizes.

O filme começa com o professor Evilenko (o nome Chikatilo foi alterado pelo escritor) molestando uma de suas alunas em sala de aula. Ele é posteriormente demitido da escola e coloca a culpa em um complô de professores e do Diretor por causa dos seus ideais comunistas. Nesse ponto, o filme é bastante interessante pois mostra uma faceta real do assassino não mostrada em Cidadão X, o seu amor pelo comunismo e o episódio no qual foi demitido da escola que lecionava por molestar alunos. Posteriormente, Evilenko consegue um emprego em uma fábrica de locomotivas que o permite viajar por toda União Soviética. Ele, claro, aproveita suas viagens para matar crianças e mulheres.

Alguns podem achar ridículo algumas cenas do filme como a do psiquiatra que é morto por Evilenko em uma floresta ou uma das cenas finais, onde o investigador-chefe masturba o vilão na tentativa de entender sua mente. Eu particularmente não gostei. Por um lado essas cenas (fictícias) são uma maneira de entender um pouco as origens da doença mental do serial killer, mas por outro fogem totalmente aos eventos que realmente aconteceram aqui, no nosso mundo. No geral, Evilenko é um filme bem construído (apesar de algumas incoerências) que não apenas demoniza o vilão, mas que tenta passar uma mensagem de que essas pessoas, os serial killers, precisam mais do que tudo, serem compreendidos.

Destaque para Malcolm McDowell, o eterno astro de Laranja Mecânica que aqui realiza uma das melhores perfomances de sua carreira interpretando o mal encarnado Evilenko.

Melhor Momento: “Vocês não o entendem, então, os matam.”

Child 44

Em 2008, o escritor britânico Tom Rob Smith publicou Child 44, o primeiro de uma trilogia de livros de ficção sobre crimes na era de Joseph Stálin. Child 44 está aqui no meu texto porque ele é baseado nos crimes de quem? Sim, dele, de Andrei Romanovich Chikatilo.

Como uma obra fictícia, Tom Rob Smith, reformula a verdadeira história de Chikatilo movendo-a de volta no tempo, para o ano de 1953, época em que um dos princípios fundamentais de Stálin era a de que não existia crimes violentos na União Soviética. Na sociedade perfeita de Stálin, cidadãos gratificados não matam uns aos outros. Entretanto, quando o corpo desmembrado de uma criança aparece em uma linha ferroviária de um subúrbio de Moscou, todos se perguntam: O que teria acontecido? O que se segue é a tortura de suspeitos e a descoberta de novos corpos. O livro ainda explora a paranoia do comunismo, assim como o mundo dos homossexuais e doentes mentais, um mundo que supostamente não existia por aqueles lados.

O livro recebeu várias críticas positivas no seu lançamento em 2008, e o mais interessante para nós é que ele virará filme. Inicialmente, Child 44 seria adaptado para o cinema pelo mago Ridley Scott. Posteriormente o projeto passou para as mãos de Daniel Espinosa. O filme deve ser lançado em 2014 e já conta com astros do calibre de Gary Oldman e Tom Hardy.

Bom, o que mais eu poderia dizer sobre Andrei Romanovich Chikatilo? Certamente muitas coisas. E se você acha que esse texto terminou por aqui está muito enganado! A partir da semana do dia 31 de março de 2013, estaremos publicando uma série de posts, tanto aqui no blog quanto em nossa fan page no Facebook, sobre um dos mais notórios serial killers de todos os tempos. Vem coisas muito interessantes por ai, eu garanto. Síga-nos no Twitter e curta nossa página no Facebook para ficar por dentro das novidades.

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Andrei Romanovich Chikatilo

Informações


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Serial Killers - O Estripador da Floresta - MugshotNome:Andrei Romanovich Chikatilo

Conhecido como: O Estripador da Floresta, O Açougueiro de Rostov, o Estripador Vermelho, O Estripador de Rostov

Nascimento: 16 de Outubro de 1936. Yablochnoye, Ucrânia

Morte: 14 de Fevereiro de 1994 (57 anos). Novocherkassk, Russia

Causa da morte: Tiro de fuzil

Captura: Novocherkassk, 20 de Novembro de 1990

Acusação: Assassinatos

Pena: Morte por fuzilamento

Vítimas: 52 confirmadas

Período: 22 de Dezembro de 1978 a 6 de Novembro de 1990

Local: Rússia (Rostov, Shakhty, Novoshaktinsk, Novocherkassk, Leningrado, Kazachi Lagerya ), Ucrânia (Zaporizhya, Sverdlovsk e Ilovaisk), Cazaquistão (Alma-Ata), Uzbequistão (Tashkent), República da Adiguéia (Divisão Federal da Federação Russa)

“Eu acredito na imortalidade da alma.”
(Andrei Romanovich Chikatilo)

Não deixe de ler!

Biography Channel: Andrei Chikatilo, o Açougueiro de Rostov.

Documentário: Meu Mundo Maravilhoso ou Contra Chikatilo.



Fontes consultadas: [1] Can Holodomor 1932-1933 in Ukraine, Yevhen Zakharov, Holodomor Famine in Ukraine: A Crime against Humanity, ukrainiangenocide.org, wikipedia.org, People Magazine, serial-killer.ru, Crime Library, Robert Culen, “The Killer Department: Detective Viktor Burakov’s Eight-Year Hunt for the Most Savage Serial Killer in Russian History”, Richard Lourie, “Hunting the Devil: The Pursuit, Capture and Confession of the Most Savage Serial Killer in History”, The New York Daily News (The Man in Iron Cage), The New York Daily News (The Art of Interrogation), Biography Channel (The Butcher or Rostov), Chikatilo, The Monstre de Rostov.

Colaborou com esta matéria


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Revisão por:

Marina

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“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” (Platão)

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  • Fizófolo de Apucarana

    Como neto de ucranianos, posso afirmar que o Holodomor foi um acontecimento previamente planejado por Stalin juntamente com a corja comunista. Os ucranianos sempre foram vistos com desconfiança pelos russos. Rivalidade que perdura até hoje. Revoltante é a Rússia, juntamente com a Comunidade Mundial, negarem os horrores e o Holodomor. Com o devido respeito, perto do Holodomor, o Holocausto foi um “passeio”. Me desculpem por fugir do assunto principal do artigo (ótimo por sinal), mas certas coisas revoltam. Parabéns por trazer à tona um assunto que, para a grande maioria dos brasileiros, é desconhecido. Antes de mais nada, Obrigado.

  • Vilton

    Artigo muito completo (como de costume) e surpreendente. Parabéns pelo post.

  • ja vi artigos dmais sobre chikatilo, mas esse é insuperável, gostaria de pedir pra vc uma matéria sobre Rodney Alcala, o dating game killer, que apareceu num programa de tv dos USA tipo um quer namorar comigo pouco tempo depois de começar sua série de assassinatos…detalhe, ele foi escolhido pela garota em questão.

    • Sim, já pensei em escrever sobre Alcala, ele daria um texto muito interessante. Não escrevi ainda porque o tempo é o meu maior inimigo. Há uma lista interminável de serial killers e outros assuntos que podem ser abordados, mas pouco tempo para pesquisar, pesquisar, pesquisar e escrever. De qualquer forma, sua dica já está mais do que anotada. Abraços!

      • aguardando desde já então…se precisar de ajuda na pesquisa estou a disposição…compartilhamos o mesmo fascínio pela mente humana e seus hemisférios escuros

        • Se interessar, pode ser um colaborador, e ir enviando material sobre ele. Se souber inglês e quiser traduzir alguns materiais sobre ele, melhor ainda.

          • Raquel

            Estou há duas semanas totalmente vidrada no seu blog, passo horas lendo e descobrindo sobre a história da nossa humanidade e suas atrocidades, confesso a você que já chorei muito aqui também, existe um sentimento de impotência tardia em tentar imaginar como seria impedir e/ou salvar pessoas que morreram de formas tão brutais e ainda tem o fato dos artigos nos remeterem a pesquisar sobre assuntos da nossa história até então desconhecidos. Sou mãe de um bebe e divido meu tempo entre estudos, trabalho em casa e os cuidados com ele, depois que descobri o blog passei meus momentos de folga lendo e descobrindo como o mundo é estranho, ou melhor, nós somos. Meu objetivo é fazer carreira na Psicologia forense e infantil, já que não posso impedir que atrocidades aconteçam faço minha parte estudando maneira de ajudar e prevenir. Parabéns Aprendiz, o seus textos, apesar de alguns errinhos de digitação, me prendem na cadeira como se fosse um filme de suspense, muito bem feito e com material informativo muito vasto, as vezes evito ver alguns vídeos inteiro como o do Samuel que me fez passar o dia todo chorando. Continue, seu blog é muito interessante e tem muita coisa pra ser mostrada. Uma sugestão: que tal alguma matéria sobre a Deep Web? Há alguns meses comecei a ler sobre o assunto e fiquei muito chocada com a prévia, nem sabia que uma coisa assim fosse possível, é como se todos os loucos que imitam Serials Killers se encontrassem num mesmo lugar…enfim, fica pra vc pesquisar. Abraços e parabéns.

          • Obrigado pelo comentário Raquel. Se encontrar erros de digitação nos informe para podermos corrigir. Quanto à sua dica podemos sim publicar um texto sobre a deep web. Abraços e volte sempre!

  • techson

    Mais um artigo sensacional do Aprendiz.! Muito detalhado, parabéns !

  • Jessica

    Artigo completíssimo e sensacional! “Ganhei” horas lendo…

  • Nathalia

    Que matéria foda!
    Amei.

    Parabéns Aprendiz Verde!

  • ana

    artigo demasiadamente extenso, o que chega a ser irritante, por nao conter tantas informacoes veridicas sobre o caso.

    • Não me importo com críticas negativas, o texto está extenso, está curto, está horrível, mal escrito … tudo bem, feedback é sempre bem vindo. Agora falar que o texto contem informações falsas é demais. Se isso fosse verdade, eu deveria ganhar um prêmio por ter uma mente tão fértil. Prove que uma linha apenas desse texto é falsa e eu retiro este site do ar. Estou ansioso por isso.

      • SYLVIU BRADEZPITIANI

        UMA NOTA ESCLARECEDORA BROTHER! HOJE NO NOME DO YURI É: Yuri Miroshnichenko. Sobrenome que ele pegou da esposa dele. Parabéns pela matéria e não dê idéia a tal de Ana. Ela é tão ESTÚPIDA que confessa ter tido PREGUIÇA, ao ser o artigo! Como então pode um ser como este refletir e analizar sem devidos estudos e pesquisa de um caso tão complexo quanto foi este? Ela que cresça!

    • SYLVIU BRADEZPITIANI

      ANA VC É DESCULPE MEDIOCRE E ABSURDAMENTE BEM DESENFORMADA..POR SINAL! ACHO QUE POR CAUSA DA SUA INCOMPETÊNCIA E PREGUIÇA…ESTA SUA CRITICA AQUI DEVE DE SER TOTALMENTE IGNORADA! VÊ SE CRESCE…IRRITANTE A PORRA DA SUA OPNIÃO SEM NEXO VINDO DE UMA PESSOA MEDIOCRE!

  • Maísa Tkl

    Primeiramente, Parabéns mais um vez pelo artigo simplesmente ESPETACULAR ! As informações atualizadas e o conteúdo formal da matéria me surpreendeu. A maneira como trata sempre esses assuntos e principalmente, o respeito para com os leitores do Blog só tem a acrescentar ao crédito profissional e ético.

    Quanto a história do “O Estripador da Floresta” já havia lido, porém não com tamanha ênfase como a li agora.

    Ao filme: Produção muito boa, com ótimas atuações, mas que ao meu ver, como tratam o caso, assim como o fazem em produções cinematográficas sobre assassinos em série: levam o psicopata para um nível de mero vilão de filmes.

    Enfim, postagem excelente !!

    Valeu a pena conferir este filme e ler mais sobre Andrei… (Até me arrepiei no final do filme quando deixam a dúvida sobre a veracidade da execução do Serial Killer. )

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  • Barbarah Knwles

    Como sempre Aprendiz verde sensacionalmente magnífico!

  • Jeferson

    Todos já disseram o que eu gostaria de dizer…Mais uma vez Fantástico. Como sempre! Parabéns pela ótima matéria.

  • ESSE SITE É MARAVILHOSO! Nunca vi coisa igual! Isso que leio muitos livros de seriais killers e outros sobre psicologia do comportamento…Parece um livro daqueles que você devora lendo. Fiquei dois dias lendo esse artigo, o achei MUITO BEM ESCRITO, muito bem elaborado, pesquisado… Fiquei curiosa quanto a sua atividade, fora deste site, porque você tem algo de escritor e investigador muito bom!!!!

    • O Aprendiz Verde

      Obrigado Milane. Realmente quanto mais pesquiso, mais fundo quero ir. Um texto bem feito passa antes por uma rigorosa pesquisa, em inúmeras fontes. É tudo muito trabalhoso, mas o resultado final sempre compensa o esforço e a dedicação. Quanto a minha atividade fora do blog, tem tudo a ver (ou será que não?) =D… engenharia de computação. Alguns anos atuando com pesquisas na área me ajudaram a ser bem detalhista com os posts e também trazer algo de novo e diferente do que existe por aí. Abraços!

  • Violeta

    Muito completo, adorei ler esta matéria! Seria incrível se ele tivesse sido estudado!

  • Louise

    Viciada nos artigos! Quanto maior e mais detalhado melhor. Fantástico esse post, não conseguia parar de ler. Parabéns!

  • nadia noronha

    interesso me bastante por serial killers e o seu comportamento , gostei do artigo mas há uma falha que me deixou na duvida . este homem nasceu a 14 de fevereiro ou a 16 de outubro de 1936?

    • Falha nossa Nadia. Houve uma troca de datas no texto. Ele nasceu no dia 16 de outubro de 1936 e morreu no dia 14 de fevereiro de 1994. Abraços!

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  • Helen Araújo

    O site é muito bom. As histórias muito bem detalhadas. Entretanto, as vezes é irritante o fato do narrador expressar o que ele imagina ser o sentimento de determinado sujeito. Me perdoe pela crítica. No mais, está tudo excelente. Parabéns!

    • O Aprendiz Verde

      Obrigado pelo comentário Helen. Sua crítica foi copiada e nos ajudará a melhorar nossa redação. Abraços!

  • Tsu

    Uma das matérias mais perfeitas, completas e bem elaboradas que já tive o prazer de ler. Meus parabéns! Por mais longo que o texto tenha sido, valeu exatamente por ter relatado com detalhes todos os fatos. Gostaria de saber se o autor do artigo (ou seria do livro? rs) estudou psiquiatria ou algo do tipo. E aproveitar para sugerir um artigo sobre psicopatas presentes em obras de animação japonesa. Sou admiradora dessas obras e noto em algumas excelentes personagens desse tipo.
    abs!

    http://www.empadinhafrita.blogspot.com

  • Bianca Rodrigues

    nunca li coisa igual, tem coisas que mudam nosso modo de pensar, esse texto realmente é ótimo, assisti o filme. você devia escrever livros, isso aumentaria o publico, e facilitaria a leitura, mesmo assim ADORO seus textos.

  • jeter

    artigo excelente. muito bem escrito e documentado. parabens.

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  • SYLVIU BRADEZPITIANI

    SIMPLESMENTE SOBERBO ESTE MATERIAL! VI E TOQUEI NAS ROUPAS DO ANDREY QUE ELE USOU NO SEU JULGAMENTO. BEM COMO VI RARISSIMOS VIDEOS DOS MESMOS NO MUSEU DO SERIAL KILLER NA EUROPA! ELE É PARA MIM DE TODOS JUNTO COM BUNDY O SERIAL KILLER MAIS FASCINANTE! E QUE ME FEZ QUERER ESTUDAR A SÉRIO SOBRE ESTE ASSUNTO! PARABÉNS…FABULOSO ESTA MATERIA AQUI..IMPRESSIONANTE! SIMPLESMENTE MIND BLOWING!!!! CONGRATS!

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  • Mirella

    Estou paralisada com este artigo! Me ocupou por horas. Adorei o suspense que o texto passa ao leitor, não me aguentava de ansiedade em saber quem era o assassino. Muito bom mesmo. Não me canso nunca deste site e quero parabenizar a todos, principalmente por este post, que foi um dos melhores textos que já li em minha vida!

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  • Marta Brito

    Adorei a matéria. Foi feira uma cronologia perfeita dos fatos. Estão todos de parabéns!!!

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  • Keli Paixão

    Nunca em minha vida li um artigo tão completo e minucioso, fiquei pelo menos umas duas horas lendo sem parar, acabei ñ conseguindo ler tudo e hj finalizei. Simplesmente fantástico!! Parabéns O Aprendiz Verde!

  • Lidson Mendes

    Parabéns pela matéria, foi realmente muito bem feito e com uma quantidade absurda de informações relevantes. Que trabalho magnífico.

  • Joana Martins

    Esse site é simplesmente perfeito *0*. A primeira vez que o visitei, não lembro ao exato como o encontrei de fato, mas lembro que encontrei uma matéria EXPETACULAR sobre Jeffrey Damehr e simplesmente fiquei apaixonada por esses relatos. Agora que terminei de ler sobre Chikatilo, estou lendo desde manhãzinha, não consigo passar muito tempo sem ler algo nesse site, simplesmente não consigo. Sou uma estudante do ensino médio e atualmente estou indecisa sobre a faculdade que irei cursar, afinal tenho uma grande tendência para psicologia/psiquiatria, porém o Aprendiz Verde me fez também botar em questão a faculdade de Direito. Gostaria de agradecer ao elaborador desse artigo e de tantos outros ( Ted Bundy, Jeffrey Damher e Jon Wayne Gacy *0*). Voce fez o meu interesse sobre o assunto entrar em um caminho mais profundo, e por isso eu gostaria de agradecer sinceramente.

  • danielcruz733

    Excelente.

  • flávia j

    Em relação à história do Serial Killer, o texto é detalhado e excelente, como sempre. Porém, quando falou do socialismo, pra variar, falou merd@. Se as duas faces do socialismo é a tirania e miséria, o que dizer do capitalismo? Afinal, não existe tirania e muito menos gente morrendo de fome no maravilhoso sistema do capitalismo, não é mesmo? Nova Iorque com seus milhares de mendigos se arrastando pelas ruas ao lado de uma politica conservadora que mantem tudo como está, representam muito bem a face degenerada do capitalismo. Isso sem citar os planos de saúde dos “States”, que conseguem a proeza de ser mais excludentes e desumanizados do que os do Brasil.

    • Jago Hara-Kiri

      e desde quando vc viu canibalismo no capitalismo ? vc consegue citar atrocidades como essas vistas somente em regimes comunistas ?
      só débil mental mesmo pra tentar defender socialismo ,comunismo.

      antes de falar do capitalismo vá compreender a diferença entre Corporativismo e capitalismo , vc é só mais um fruto da doutrinação , marxista,gramscista , esquerda fabiana …..Fracasso total.

      • F Palmeiras

        Nem vou discutir com vc. Hoje em dia virou moda ser hater do socialismo e esquerda. Vc é só mais outro entre a maioria… Pois bem, odeie o socialismo o quanto quiser e ganhe seus muitos likes e aplausos. Passar bem.

        • Jago Hara-Kiri

          que vc seja feliz na sua utopia amigo , quem sabe numa outra dimensão , outra vida , outra realidade vc não é o Ditador socialista q vc tanto almeja ?

          vc é só mais um rosto anônimo num rebanho que nem conheço a verdade por trás do circo chamado vida .

          E pra finalizar , capitalismo não é perfeito , socialismo é o primeiro passo para o comunismo q é tão lixo quanto nazismo , ambos fascistas , criadores de ódio entre tudo e todos , vc está nessa pra tentar ser diferente ? criou-se uma utopia em sua mente e vc não consegue sair dela ? qual sua história ? está aberto a uma conversa adulta ? se não , Leia novamente as primeiras linhas, adeus e boa utopia.

  • O post cita várias vezes assassinatos cometidos no Uzbequistão e etc., mas não diz as datas nem dá qqer outra informação à respeito.

    • 8-11 de Agosto de 1984: mulher não identificada (20 a 25 anos) morta em Tashkent, Uzbequistão, enquanto Chikatilo fazia uma viagem a negócios;

      Houve outros casos no país, entretanto, não foram ligados a Chikatilo por falta de provas (inclusive o da vítima que a polícia acreditou ter sido “colhida” por uma colheitadeira).

      Abraços!

  • Jessica Torres

    Como sempre o material é muito completo e imparcial… Parabéns! Li o texto com extrema facilidade, pois é uma leitura agradável e coerente. É muito difícil encontrar textos a respeito que não sejam tendenciosos e irritantes por conta disso, não somente em português, como em outras línguas. Gostaria de pedir que disponibilizassem no canal do YT de vocês os filmes sobre o Jeffrey Dahmer, tive muita dificuldade em encontrá-los. Mais uma vez parabéns pelo conteúdo!

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  • Camila Furtado

    Post incrível! Vocês estão de parabéns pelo detalhamento, organização do texto e riqueza de informações. Conheci há pouco tempo o site e estou adorando tudo que leio. Gosto muito da temática abordada no site, mas sempre encontrava informações rasas ou desconectadas por aí. Aqui temos uma compilação fantástica (e trabalhosa, suponho) dos crimes que continuam a assustar a sociedade em geral. Parabéns mesmo!

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  • Yan Liechocki

    Fantastica materia, talvez a melhor que já li em um site brazuca. O detetive Burakov é um verdadeiro heroi de seu país e como resaltado, teria resolvido o caso mais cedo se não fosse a interferencia dos burocratas. Vou ver o filme agora.

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