A Última Entrevista de Ted Bundy

“Eu pensava que ele se tornaria o governador de Washington.” “Era sempre um prazer falar com ele. Pensávamos que tinha...
A Ultima Entrevista de Ted Bundy
Theodore Robert CowellTheodore Robert Cowell

“Eu pensava que ele se tornaria o governador de Washington.”

[Ann Rule, autora do livro “The Stranger Beside Me”]

“Era sempre um prazer falar com ele. Pensávamos que tinha um futuro brilhante.”

[Ralph Munro, cinco vezes Secretário do Estado de Washington]

Ao ver a imagem acima, vocês facilmente poderiam estar contemplando um homem que poderia ter se tornado o mais poderoso do mundo. O homem acima, sem sombra de dúvidas, poderia hoje ser o Presidente dos Estados Unidos da América. Carismático, inteligente, bonito e bem relacionado, ele só tinha um defeito: era um psicopata. E como a maioria das pessoas que sofrem desse transtorno, ele poderia muito bem ter passado sua vida camuflado na sociedade e nós nunca ouviríamos falar dele (a não ser se tornasse um famoso “psicopata de terno” – um grande executivo, governador ou, quem sabe, presidente), mas não, ele cruzou a linha que separa os psicopatas bem sucedidos dos psicopatas “malvados”.

Seu nome: Theodore Robert Cowell ou, simplesmente, Ted Bundy.

Ted Bundy é possivelmente o mais famoso psicopata serial killer do século 20. E, talvez, só perde em popularidade e reconhecimento para Jack, O Estripador. Vocês acham legal ver essas séries como Dexter, The Following ou Hannibal? Então agradeçam a ele. Ted Bundy foi o responsável pelo início mórbido do fascínio que as pessoas exercem pelos serial killers, e isso tem uma explicação.

A sociedade atual parece super extasiada e fãs incondicionais de serial killers. Prova disso é que gastam-se bilhões, isso mesmo, bilhões de dólares ao ano para que eles apareçam nas telas. Filmes como O Silêncio dos Inocentes e Seven são considerados clássicos absolutos do cinema. Atualmente, a série Dexter é uma das mais populares mundo afora. Sobre o que é Dexter? Sobre um homem, um cara “normal”, que utiliza do seu charme para esconder um serial killer que sai à noite em busca de vítimas.

Coletivamente, o senso comum considera serial killers como anormais, o mal personificado, pessoas sem alma, animais escrotos, sub-humanos. Sempre nos perguntamos por quê? Como pode existir pessoas em nosso mundo agindo com tal perversidade? A primeira coisa a se pensar é: são um bando de pobretões que nasceram na miséria, provavelmente um bando de traficantezinhos ou, então, terem sido molestados sexualmente pelo vizinho tarado, alguém foragido da cadeia. As pessoas tendem a ver pessoas que cometem crimes hediondos como a escória da sociedade. Ele só teria cometido este crime porque veio do lixo. Por quê então preocuparmos com ele? Ou com suas vítimas? São lixos que moram na periferia suja ou numa cidade que nunca ouvi falar. Bingo! Aqui aparece o ponto de virada para o surgimento do fascínio pelos serial killers. Eles não são produtos do crime ou da miséria. Muitos deles são como o próprio Dexter, pessoas bem sucedidas, com um sorriso no rosto. Eles acordam todos os dias, às 7h, fazem o café da manhã, dão um beijo na esposa e vão para o trabalho. Passam no posto de gasolina, dão bom dia ao frentista, vão ao supermercado, empurram seus carrinhos de compra e até ajudam a um ceguinho à atravessar a movimentada avenida. Se uma criança estiver chorando perdida num shopping, ele gentilmente a acalma e a leva até um guarda. Se uma outra estiver afogando em um clube, ele pode ser o primeiro a pular na água para salvá-la. Serial killers não tem cara de bandido, não cospem fogo pela boca e não andam com um facão na mão. Eles são como nós, muitos bem sucedidos em suas vidas, pessoas tranquilas, que nunca incomodaram ninguém, homens bonitos, carismáticos, tão encantadores que se tornam companhias viciantes. Nós não gostamos de sermos enganados, muito menos entendemos como um homem aparentemente normal e de boa família pode matar e matar, repetidamente. E é por isso, que serial killers fascinam tanto as pessoas.

E como eu disse anteriormente, o ponto zero desse fascínio chama-se Ted Bundy.

Bundy é um dos mais notórios “camaleões” assassinos que se tem notícia. Como ele desarmava alguém? Com um sorriso no rosto. Cativante, ele usava do seu charme para atrair mulheres para a morte. Ele foi descrito como “amável, solícito e compreensivo”, e usava dessas mesmas características para se aproximar de mulheres em locais públicos e conquistá-las. O que ele fazia depois? Estuprava, torturava e matava. Ted Bundy decapitou pelo menos 12 de suas vítimas e manteve algumas das cabeças em seu apartamento como verdadeiros troféus. Bundy não foi um pobretão criminoso, ele cresceu num lar feliz e carinhoso, estudou em prestigiadas universidades americanas e, como visto pelas frases acima, poderia ter se tornado um homem muito bem sucedido. Alguém leu o post de um cara chamado Andrei Chikatilo?

Esse antagonismo que chocou a opinião pública americana na época. Ted parecia ser o homem perfeito: alto, atraente, popular, com um futuro brilhante. Em 1970, recebeu elogios da polícia por salvar a vida de um menino de três anos de idade que se afogava no lago Green Lake, na cidade de Seattle. Na política, andava entre os grandes do partido republicano em Washington e até ajudou a polícia na confecção de cartazes que dava dicas a mulheres sobre como evitar estupros. Resumindo, Ted abriu as cortinas do teatro e disse para o mundo:

Ted BundyTed Bundy

Psicopatas serial killers que se escondem atrás de uma máscara de bom homem são tão antigos quanto a própria humanidade. Mas estamos no final dos anos de 1970, uma época em que a grande mídia já estava estabelecida. Ted foi o primeiro serial killer a ter grande destaque na imprensa. Era o pontapé inicial para o surgimento do fascínio por eles e, também, para que escritores e roteiristas de Hollywood se apossassem de suas histórias para escrever livros e realizar filmes. De onde você acha que o escritor Thomas Harris retirou o gesso do serial killer Buffalo Bill no livro The Silence of the Lambs?  O fantástico livro que originou o maior filme de todos os tempos sobre serial killers, O Silêncio dos Inocentes?

Ficou a pergunta: Por quê um homem que poderia ser muito bem o seu vizinho morador do sobrado ao lado se engajou em atos tão violentos? Não existe resposta, e esse mistério até hoje permeia a mente de todos que tentam decifrá-lo. Talvez se um dia entendermos o funcionamento da mente de um serial killer, o encanto será quebrado, e o mundo deixará de exercer esse fascínio por eles.

Na Foto: Vítimas de Ted BundyNa Foto: Vítimas de Ted Bundy
Na Foto: Ted Bundy e sua namorada, Meg Anders. Durante 5 anos, Bundy manteve um relacionamento com Meg. Na Foto: Ted Bundy e sua namorada, Meg Anders. Ao mesmo tempo em que esquartejava mulheres, Bundy manteve um relacionamento com Meg. O relacionamento durou cinco anos. Ela nunca suspeitou de nada. Psicoaptas são excelentes em fingir emoção, muitos formam famílias e relacionamentos de longos anos sem que haja suspeitas do conjugue.

Apesar da suspeita de dezenas de assassinatos, Ted Bundy foi acusado por apenas três mortes na Flórida. Arrogante ao extremo, nunca admitiu ter assassinado ninguém. Narcisista, comandou a própria defesa. Ria em entrevistas e chegou a apontar o dedo para o Juiz durante o seu julgamento. “Não aponte o seu dedo para mim homenzinho!”, bradou o juiz.

Manipulador e eloquente, continuou zombando das autoridades após ser condenado a sentar na cadeira elétrica. “Me sinto ofendido, muito ofendido e indignado. Não gosto de ficar trancado por algo que não fiz. Não gosto que me tratem como um animal. Fico irritado quando me olham como se eu fosse um bicho. Porque eu não sou”, disse ele em uma entrevista.

A páfia do psicopata serial killer foi mudando a medida que o dia da sua execução na “velha faiscante” se aproximava. Na tentativa de não morrer, tentou várias cartadas, a última, apenas 17 horas antes de sua execução. Ele deu uma entrevista exclusiva para o psicólogo norte-americano James Dobson, membro de uma comissão do governo federal de combate a pornografia e um dos mais famosos líderes religiosos evangélicos norte-americanos, bastante conhecido no país devido ao famoso programa de TV que apresentava, o Focus on Family. Quem assiste a esta entrevista e não conhece Ted Bundy fica até com dó. Com uma cara de cachorro que caiu da mudança, ele tenta explicar o que o levou a matar. E o que ele culpa? A pornografia.

A escolha de Bundy por James Dobson não foi a toa, assim como não foi por caridade que James Dobson aceitou cruzar os Estados Unidos para entrevistar Ted Bundy. James Dobson ofereceu uma saída para o serial killer, em troca, ele disse o que o religioso queria ouvir. A entrevista então foi combinada? Não, mas uma mão lavou a outra.

Na sombra da cadeira elétrica

É claro que essa entrevista é poderosíssima. Suas palavras no corredor da morte são as últimas palavras de um homem prestes a morrer. É uma imagem extremamente significativa, que carrega um peso indiscutivelmente grande. Mas sua análise não deve ser feita baseada em imagens ou sentimentos, e sim usando a lógica. E a lógica nos diz que Ted Bundy, em toda sua vida, foi um mentiroso. Por isso somos obrigados a acreditar que, durante sua última entrevista, esse assassino mais uma vez mentiu. Por quê? Porque psicopatas mentem. Psicopatas nunca admitem que estão errados, psicopatas dizem o que as pessoas gostam de ouvir, e nesse caso, sua mensagem a James Dobson é clara: “Eu sou assim por causa da pornografia.”

Essa é a essência da entrevista. Ted Bundy usa a pornografia para justificar seu terrível comportamento. E a mentira fica mais óbvia ainda quando analisamos o currículo do psicólogo-religioso James Dobson.

Devido à sua notoriedade e influência na sociedade americana, ele foi membro da Comissão do Presidente Ronald Reagan de combate a pornografia. Entenderam o ponto? A mensagem que Bundy passa na entrevista é a mensagem que a elite conservadora americana – aqui representada por Dobson – ansiava por ouvir e repassar. A mensagem é totalmente explícita e ao final da entrevista “conclui-se” que a pornografia deve ser censurada, pois é um dos principais fatores da violência.

Para vocês entenderem melhor o contexto dessa entrevista, durante os anos 80, a pornografia foi um grande motivo de discussão nos Estados Unidos. A elite conservadora americana nunca aceitou que, por exemplo, revistas como a Playboy estivessem ao alcance de “pessoas do bem”, ou seja, seria um absurdo se um “respeitável” cidadão americano fosse com seu filho ao supermercado e topasse com uma Playboy na estante. A pornografia era considerada tão medonha pelos republicanos que o próprio presidente norte-americano, Ronald Reagan, ordenou pessoalmente que um grupo, o Meese Commission, fosse formado para estudar o impacto da pornografia na casa dos americanos. O relatório, claro, antes de começar, denotava que a pornografia seria demonizada. O grupo de estudo foi formado por nove americanos (só a nata é claro) – religiosos, psiquiatras e juristas. Inclusive, dois dos psiquiatras, são bem conhecidos por nós: Park Elliot Dietz e Judith Becker (leia o Canibal de Milwaukee). Além dos dois psiquiatras, lá estava também um influente evangélico conservador: James Dobson. Bruce Ritter, um outro influente religioso conservador americano, também fazia parte do grupo. Me digam vocês: existe alguma possibilidade de um grupo sob forte influência da igreja concluir que a pornografia é algo bom? Lógico que não. O relatório foi publicado em 1986 dizendo que a indústria pornográfica tinha ligações com o crime organizado e que deveria ser censurada, em outras palavras, a pornografia era uma das faces do demônio.

Seria então coincidência chegarmos ao final da entrevista de Ted Bundy com a ideia de que a pornografia deve ser banida do universo? Não, não é mera coincidência. Para se ter uma ideia, uma das principais estratégias da Comissão Meese foi a abordagem chamada pelos americanos de broad-brush, e que eu poderia muito bem exemplificar aqui como falácia de causa geral. A falácia de causa geral é um termo utilizado quando um caso particular é tomado como uma regra geral. Por exemplo: Brad Pitt traiu Angelina Jolie. Grilada, Angelina diz: “Homem não presta!”

Isso é uma falácia de causa geral porque ela pegou um caso isolado, a traição do seu marido, e usou para dizer que todo homem não presta. Todo político é corrupto, todo jogador de futebol é burro, são outras falácias.

Utilizando dessa estratégia, a Comissão Meese “pincelou” (brush) os piores casos imagináveis de assassinos que foram influenciados pela pornografia, e mostrou-os como sendo uma verdade absoluta, a verdade na qual a pornografia influencia todos os macabros crimes cometidos no país. Entenderam agora porque o homem sentado na frente de Ted Bundy é James Dobson? Claro que Bundy mentiu, mas isso importa? Vocês acham que a tia no interiorzão americano tem a capacidade de ver a entrevista de Bundy e dizer: 

“Humm esse cabra tem um transtorno de personalidade antissocial associada a um transtorno de personalidade narcisista, é notório em suas micro expressões faciais que o que ele diz não condiz com o que realmente ele queria dizer, em outras palavras, eu acho que esse cabra é um mentiroso, mude esse canal!”

Eu, particularmente, vejo essa entrevista como um notório caso onde o governo conservador tentou utilizar da mídia para manipular o cidadão (a entrevista foi transmitida pela FOX, no melhor estilo TV-tabloide, durante o programa A Current Affair, apresentado na época por Maury Povich).

Certo Ted, eu quase acreditei em você.Ted Bundy chega a se contradizer na entrevista. Num momento diz que a pornografia foi a culpada de suas ações, em outro posterior diz que não a culpa.

Durante a entrevista, Bundy diz várias vezes que a “pornografia violenta” é um malefício, mas em nenhum momento explica o que é pornografia violenta. Uma vez ou outra a palavra “violência” é usada como um qualificador. Pornografia e violência são duas palavras que a Comissão Meese usou como sinônimos em seu relatório. A comissão quis a todo custo juntar as duas palavras, entretanto, alguns dados do relatório acabaram por queimar o que eles queriam provar. Uma análise estatística presente no relatório mostrou que imagens de “força, violência ou armas” representavam menos de 1% do conteúdo total das revistas masculinas mais vendidas nos Estados Unidos. Ou seja, se ninguém compra esse tipo de conteúdo, como ele poderia influenciar tantos crimes sexuais? Pra isso eles não tem resposta. Talvez imagens pornográficas violentas não sejam necessárias para que um estuprador entre num “frenesi sexual”, como diz Dobson durante a entrevista. Aliás, muitos crimes de Ted Bundy transcendem o que conhecemos como estupro.

Nos Estados Unidos, desde os anos de 1970, os conservadores tentam (sem sucesso) correlacionar o consumo de pornografia com abuso sexual e assassinatos. Muitos estudos atuais (Journal of Sex Research) provam o contrário, assistir material pornográfico reduziria a prática de crimes sexuais.

A conclusão da entrevista é que como Bundy consumiu pornografia e matou mulheres, então todos os usuários que compram esse tipo de material estão prontos para matar mulheres e crianças.

Centenas de jornalistas ansiavam por uma entrevista com Bundy antes de sua execução, mas ele escolheu James Dobson. O religioso era uma das mais famosas figuras dos Estados Unidos. Certamente Bundy o conhecia e sabia de sua cruzada contra a pornografia. Bundy quis usá-lo, usar sua notoriedade para não morrer. Bundy o chamou e disse o que ele e o Presidente americano queriam ouvir: A pornografia é um mal e eu ajoelho diante do Senhor Jesus Cristo. Isso, claro, não surtiu efeito. Do outro lado, James Dobson e a Comissão Meese “confirmavam” para os americanos algo que eles já diziam a muito tempo. Dobson foi manipulado por Bundy? Claro que não, o religioso é um psicólogo, sofisticado o suficiente para entender a falácia que estava promovendo. Ele, inclusive, nos momentos finais da entrevista diz:

“Ted, como você deve imaginar, existe um tremendo cinismo sobre você lá fora, e eu suponho por uma boa razão. Não tenho certeza se existe alguma coisa que você possa dizer na qual as pessoas acreditarão.”

A palavra “manipulação” fez parte de toda vida de Ted Bundy. Em sua última entrevista, ele tentou mais uma vez enganar a todos. Com uma cara de coitado, e um discurso coerente, ele tira de si a culpa de todas atrocidades que fez, e a joga na sociedade. “Foram vocês que me fizeram assim.”

Acredite nele, se quiser.

“A maioria dos psicopatas nunca admitem que eles são maus. Ted realmente sabia que ele era mau. Mau, mau, mau. E, acredite em mim, realmente mau.”

[John Henry Browne, promotor de justiça]

Ted Bundy: A última entrevista do serial killer

Tradução: com colaboração de Júlia Durães e Thiago Campos


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