Serial Killers: Anatomia do Mal

“Deus fez as mulheres para cozinhar, limpar a casa e fazer sexo. Quando não estão em uso, deviam ser trancafiadas”. A psicanálise se baseia na...
Serial Killers - Anatomia do Mal

Serial Killers - Anatomia do Mal

Serial Killers – Anatomia do Mal

“Deus fez as mulheres para cozinhar, limpar a casa e fazer sexo. Quando não estão em uso, deviam ser trancafiadas”.

[Leonard Lake, serial killer]

A psicanálise se baseia na crença de que é possível explicar os distúrbios comportamentais de um adulto identificando as causas em suas experiências na infância. Mas como o próprio Freud admitiu, é impossível fazer o inverso, ou seja, analisar as experiências de uma criança e prever exatamente como ela se comportará quando adulta.

Isso certamente se mostra válido no caso dos serial killers. Se analisarmos a vida de, digamos, Peter Kurten, que cresceu em um ambiente familiar em que o incesto era corriqueiro e que foi desde cedo introduzido nas alegrias da tortura animal e da bestialidade, parece inevitável que ele acabasse se tornando um sádico assassino sexual. Por outro lado, se tomarmos outra criança que tenha sido criada por pais perturbados, até mesmo degenerados, não podemos dizer com certeza se ela se tornará um psicopata homicida.

Mesmo assim, na tentativa de identificar as causas básicas do assassinato em série, os pesquisadores identificaram três importantes sinais de perigo comumente encontrados no passado desses criminosos. Essas três bandeiras vermelhas comportamentais (muitas vezes referidas como tríade psicopatológica) são:

    • a enurese (urinar na cama);
    • piromania (provocar incêndios), e;
    • sadismo precoce (geralmente sob a forma de crueldade com animais).

 

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 Urinar na Cama

Urinar na Cama

Não há nada de extraordinário ou alarmante em relação a tal fenômeno por si só, muito comum entre crianças pequenas. Quando o problema persiste durante a puberdade, no entanto, pode ser sinal de um distúrbio emocional significativo e até mesmo perigoso.

De acordo com as descobertas da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, um total de 60% dos assassinos sexuais ainda sofria desse distúrbio quando adolescentes, como o serial killer afro-americano Alton Coleman, que molhava as calças com tanta frequência que recebeu o depreciativo apelido de “Mijão”.

Atos Incendiarios

Atos Incendiários

Dado seu instinto destrutivo, não é surpresa que, entre outros prazeres distorcidos, muitos serial killers adorem provocar incêndios, uma prática que muitas vezes começa ainda na infância. Alguns dos mais notórios serial killers dos tempos modernos foram incendiários juvenis. Ottis Toole (o abominável cúmplice de Henry Lee Lucas), por exemplo, começou a incendiar casas abandonadas quando tinha seis anos. Carl Panzram (possivelmente o mais incorrigível assassino nos anais da criminologia norte-americana), orgulhava-se dos estragos que podia causar com um palito de fósforo, gabando-se de ter (em suas memórias na cadeia), com apenas 12 anos, causado um prejuízo de cem mil dólares ao incendiar um edifício no reformatório. Carlton Gary atacou uma mercearia com uma bomba incendiária ainda na adolescência. E David Berkowitz (que acabou por confessar mais de quatrocentos atos incendiários) era tão obcecado por incêndios quando garoto que um dos seus colegas de escola o apelidou de “Pyro”, abreviação do inglês pyromanic, piromaníaco.

Lançar bombas incendiárias em lojas e incinerar edifícios são, evidentemente, uma intensa expressão patológica de raiva e agressividade. Mas há mais do que mera perversidade por trás dos crimes incendiários dos serial killers. De acordo com especialistas na psicologia da perversão, há sempre um motivo erótico na raiz do comportamento piromaníaco.

“Não há senão um instinto responsável por gerar o impulso incendiário. E esse instinto é o sexual, tendo o ato incendiário claros pontos de ligação com o sexo”, escreve Wilhelm Stekel em sua clássica obra sobre comportamento aberrante.

Joseph Kallinger

Joseph Kallinger

Claro, muitas vezes há “motivações secundárias” por trás dos atos de um piromaníaco (vingança, por exemplo, como o desejo de Panzram de dar o troco a seus algozes). Mas, sobretudo (como escreve Stekel):

“O incendiário sente-se sexualmente excitado pelas chamas; ele gosta de vê-las queimar”.

Caso alguém duvide disso, basta ler os escritos de Flora Schreiber sobre Joseph Kallinger, serial killer de Nova Jersey que se via entregue a êxtases orgásticos só de pensar nos incêndios que havia causado.

Em suma, serial killers que sentem prazer em provocar incêndios fazem isso pelo mesmo motivo que adoram torturar e matar. Isso os excita (Veja o caso Anatoly Slivko).

Tortura de Animais

Tortura de Animais

O sadismo infantil dirigido às formas de vida inferiores não é nenhuma novidade. Sempre existiram crianças e adolescentes (geralmente do sexo masculino) que gostam de ferir criaturas indefesas. Shakespeare (1564-1616) certamente sabia sobre tais coisas. Em Rei Lear (1605), o dramaturgo escreve sobre “meninos travessos que arrancam as asas das moscas por “esporte”. E em As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), de Mark Twain (1835-1910), o herói se vê em uma cidadezinha na qual um bando de jovens vagabundos se entretém amarrando uma frigideira no rabo de um vira-lata para vê-lo “se matar de tanto correr”.

Mas, por mais perturbador que seja tal comportamento, não é nada comparado às crueldades perpetradas por serial killers em desenvolvimento. Quando adolescente, Peter Kurten obtinha prazer em manter relações sexuais com vários animais enquanto os esfaqueava ou cortava-lhes a garganta. Aos dez anos, Edmund Kemper enterrou vivo o gato de sua família no quintal dos fundos. Depois, desenterrou a carcaça, levou-a para seu quarto, cortou fora a cabeça do animal e a prendeu em um carretel. Três anos depois, quando sua mãe trouxe um novo gato para casa, Kemper cortou fora a parte de cima de seu crânio com um facão, depois segurou a perna dianteira do bicho conforme ele jorrava sangue.

Jeffrey Dahmer

Jeffrey Dahmer

Além de colecionar animais mortos que encontrava nas estradas, o pequeno Jeffrey Dahmer gostava de pregar sapos vivos em árvores, abrir à faca peixinhos dourados para ver como funcionavam por dentro e fazer cirurgias improvisadas em cães e gatos de rua. Dennis Nilsen (conhecido como o Jeffrey Dahmer britânico) certa vez enforcou um gato só para ver quanto tempo levaria para morrer. Albert DeSalvo gostava de aprisionar animais domésticos em caixotes de madeira e atirar neles com arco e flecha, enquanto Carrol Cole (conhecido como Estrangulador Beberrão) se divertia sufocando o cão da família até deixá-lo inconsciente.

Outros psicopatas violentos já estriparam seus bichos de estimação, queimaram-nos vivos, deram-lhes vidro moído para comer e cortaram fora suas patas.

De acordo com a dra. Stephanie LaFarge, terapeuta da Sociedade Protetora dos Animais (ASPCA) “quem machuca animais tem o potencial de fazer o mesmo com pessoas”. Naturalmente, muitos garotos que cometem atos menores de sadismo na infância abandonam tal comportamento e se lembram com vergonha de quando explodiram um formigueiro com uma bombinha ou desmembraram uma aranha. Em contrapartida, as crueldades perpetradas por serial killers incipientes tornam-se mais extremas com o passar do tempo, até que passam a visar não animais de rua ou bichos domésticos, mas outros seres humanos.

Para eles, torturar animais não é uma fase. É um ensaio.

Inteligencia Alta

Inteligencia Alta

Há uma explicação simples para o fato de tantos serial killers terem QI acima da média. De forma geral, é preciso de certo grau de inteligência para escapar impune de repetidos atos de homicídio. Existe um monte de criminosos sexuais que cometeram atrocidades envolvendo mutilação e assassinato. Felizmente, muitos deles são tão desleixados ou estúpidos que são apanhados logo de cara, e assim nunca têm a chance de se tornar criminosos em série.

“Já vi muitos assassinos que poderiam ter se tornado serial killers caso tivessem sido espertos o bastante para não ser presos”, afirma a psiquiatra forense Dorothy Otnow Lewis.

Mesmo assim, há uma tendência a exagerar as faculdades mentais dos serial killers, especialmente quando são tão frequentemente retratados pela mídia como prodígios intelectuais à la Hannibal Lecter (um psicopata tão assombrosamente erudito que comete assassinato ao som de Mozart e que sabe Dante de cor no original em italiano). Lecter, entretanto, é uma criação puramente mítica. Ele é um reflexo não da forma como os serial killers realmente são, mas de como eles gostam de imaginar a si mesmos. Em seu narcisismo patológico, serial killers gostam de imaginar que são gênios do crime que podem passar a perna em todo mundo. Serial killers com QI de gênio, no entanto, são praticamente inexistentes. Alguns, na verdade, são bastante estúpidos e se valem de truques baratos em vez da inteligência para enganar a polícia. Ottis Toole, por exemplo, tinha um QI de 75 pontos. Outros são profundamente psicóticos, perdidos em seus próprios mundos bizarros de delírio paranoide.

Mesmo os serial killers mais brilhantes são muito menos inteligentes do que eles pensam. John George Haigh, o infame “Assassino da Banheira de Ácido”, que atuava na Inglaterra na década de 1940, era um homem bastante inteligente e culto. Mesmo com toda sua sofisticação, entretanto, ele acreditava erroneamente que a frase em latim corpus delecti (termo legal para o conjunto de provas que indicam a ocorrência de um crime) se referia ao cadáver em si da vítima de homicídio. Essa falsa noção de que uma pessoa não poderia ser indiciada por homicídio se nenhum corpo fosse encontrado acabou por levá-lo à ruína.

Ted Bundy era estudante de direito e uma jovem figura em ascensão no Partido Republicano de Washington. Insistindo em servir como seu próprio advogado de defesa durante seu julgamento por homicídio, transformou o processo em um circo e confirmou o ditado de que um advogado que defende a si mesmo tem um tolo como cliente.

O serial killer gay Randy Kraft tinha um QI de 129 e fez um bom dinheiro como consultor de informática. Ainda assim, acabou sendo preso enquanto dirigia bêbado com um corpo estrangulado no banco do carona.

E quando Gary Heidnik (um gênio das finanças que fez uma fortuna no mercado de ações) foi preso por manter acorrentadas e torturar “escravas sexuais” no porão de sua casa, na Filadélfia, o melhor argumento de defesa que ele conseguiu propor ao ser levado a juízo foi que as mulheres já estavam lá quando ele se mudou para a casa.

Homens e Mulheres

Homens e Mulheres

Em outubro de 2002, Aileen Wuornos (a prostituta da Flórida que atirou em sete motoristas homens ao longo de um ano) foi executada por seus crimes. Na época da sua prisão ela foi amplamente anunciada pela mídia como a “primeira serial killer mulher da América”. Por mais chamativo que fosse, tal título era totalmente impreciso. Já existiram dezenas de serial killers mulheres na história dos Estados Unidos.

A frase “serial killer mulher” evoca a imagem de uma versão feminina de Jack, O Estripador: uma psicopata solitária que persegue e ludibria suas vítimas, assassinando-as e mutilando-as em seguida em um insano furor sexual. Na verdade, não existem mulheres que se encaixem nesse perfil particular (pelo menos não fora das picantes fantasias hollywoodianas como Instinto Selvagem de 1992). Quando a polícia descobre um corpo com a garganta cortada, o tronco aberto, as vísceras removidas e os genitais extirpados, tem razão em fazer uma suposição básica: o criminoso era um homem.

Isso não significa que não há serial killers mulheres. Simplesmente significa que homens e mulheres cometem assassinatos em série de diferentes formas.

O tipo de atrocidades perpetradas por serial killers homens (envolvendo estupro, mutilações, esquartejamento) parece conter traços tipicamente masculinos. Mais especificamente, há indiscutíveis paralelos entre esse tipo de violência (fálico-agressiva, penetrativa, predadora e indiscriminadora) e o padrão típico do comportamento sexual masculino. Por essa razão, é possível ver o assassinato envolvendo sadismo e mutilação como uma distorção grotesca da sexualidade masculina normal.

Mas se esse tipo intensamente selvagem de assassinato em série é exclusivo dos homens (uma expressão monstruosa da sexualidade masculina) qual seria, então, a forma feminina equivalente? Evidentemente ela deve refletir a sexualidade feminina. Em termos gerais, serial killers mulheres diferem de suas contrapartes masculinas mais ou menos da mesma forma que as relações sexuais e o comportamento das mulheres tipicamente diferem daqueles dos homens.

Uma analogia útil nesse contexto é a pornografia. É uma verdade universalmente aceita que, enquanto homens ficam excitados por representações cruas de sexo abrupto, anônimo e anatomicamente explícito, as mulheres em geral dão preferência a uma pornografia que envolva pelo menos uma sugestão de intimidade emocional e romance sem pressa. Se tais diferenças de gosto são de ordem biológica ou cultural, esta é uma questão em aberto. Mas é fato incontestável que as diferenças existem.

Uma distinção análoga é válida no caso dos serial killers. Psicopatas mulheres não são menos depravadas do que suas contrapartes masculinas. Via de regra, entretanto, a penetração brutal não é o que as excita. A excitação delas vem não de violar os corpos de estranhos com objetos fálicos, mas de uma grotesca e sádica paródia de intimidade e amor, como administrar remédio envenenado a um paciente sob seus cuidados, por exemplo, ou sufocar uma criança adormecida. (O que tornava Aileen Wuornos diferente era que ela era um raro exemplo, embora de forma alguma isolado, de uma mulher que perseguia e matava suas vítimas no mesmo estilo fálico e agressivo de serial killers homens como David Berkowitz, o “Filho de Sam”).

A maioria das serial killers ao longo da história recorreu a veneno para despachar suas vítimas. Na clássica comédia Esse Mundo é um Hospício (dirigida por Frank Capra em 1944), as amáveis e idosas tias do protagonista têm por hábito envenenar velhos solitários para livrá-los de seu suposto sofrimento. Na esteira da ficção, muitas pessoas realmente veem certa aura pitoresca em crimes do gênero, como se matar algumas pessoas envenenando-lhes o mingau com arsênico fosse uma forma particularmente refinada de assassinato. Mas a verdade é que, comparadas às lentas agonias sofridas pela típica vítima de envenenamento, as mortes infligidas por serial killers homens como Jack, o Estripador, o “Filho de Sam” ou o Estrangulador de Boston (execuções rápidas por esfaqueamente, tiro ou estrangulamento) parecem até bem humanas. Em outras palavras, as mulheres envenenadoras da vida real diferem do popular esterótipo da solteirona amalucada que se livra de um hóspede indesejado com um gole letal de chocolate quente. Muitas são sádicas aterrorizantes que extraem um prazer intenso e doentio do sofrimento de suas vítimas.

Não há dúvida de que o assassinato sexual em série perpetrado por homens tende a ser mais escabroso (mais explicitamente violento) do que a variedade feminina. Agora, se é mais perverso é outro assunto. Afinal, o que é pior: desmembrar uma prostituta depois de cortar sua garganta ou aconchegar-se na cama com um amigo íntimo que você acabou de envenenar e chegar repetidamente ao clímax enquanto sente o corpo ao seu lado minguar até a morte?

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Serial Killers - Anatomia do Mal. De Harold Schechter. Fonte: Darksidebooks.com

Serial Killers – Anatomia do Mal. De Harold Schechter. Fonte: Darksidebooks.com

Gostaram do texto acima? Ele foi extraído de Serial Killers – Anatomia do Mal, livro recém-lançado no Brasil pela editora Darkside Books.

Escrito pelo professor e escritor norte-americano Harold Schechter, Serial Killers – Anatomia do Mal vem com uma proposta ousada: ser o dossiê definitivo sobre assassinos em série. Parece algo um tanto quanto exagerado, e era isso o que eu pensava até começar a folhear o livro. De início, minha intenção ao tirar o livro do plástico era apenas folheá-lo, e apenas começar a lê-lo no fim de semana. Mas como eu disse, era apenas uma “intenção”.

“…a textura e o odor dos intestinos de suas vítimas eram outra fonte de prazer. Depois de estripar as mulheres, levara consigo pedaços de suas entranhas para que pudesse cheirá-los e tocá-los”.

Após ler o trecho acima, sobre um serial killer italiano do século 19, não consegui mais parar. E qual a minha conclusão ao terminar de ler a última linha da obra? Harold Schechter faz um espantoso mergulho no escabroso mundo dos serial killers.

A história desse livro começa em meados da década de 1970, quando o então estudante da Universidade de Buffalo, Nova York, Harold Schechter, conhece Leslie Fiedler. Fiedler, que se tornaria um dos maiores críticos de literatura da História americana, apresentou Schechter a assuntos que se tornariam, daquele ponto em diante, suas obsessões: Drácula, freak shows (os famosos shows de horrores), ópera, quadrinhos e… serial killers.

Fascinado pelo mundo dos assassinos que matavam de forma serial, Harold Schechter mergulhou de cabeça no mundo de sangue e tripas do qual esses assassinos fazem parte. E como eu já citei no caso Bukhanovsky, estudar tais mentes fez com que o acadêmico fosse ignorado e até mesmo evitado por seus colegas de faculdade (não é só a sua mãe que te acha estranho por ler sobre serial killers). Mas, numa espécie de vingança silenciosa, o próprio Schechter sempre teve o orgulho de dizer que “fui o único membro do Queens College à aparecer no The Jerry Springer Show”.

Sorte a nossa, pois o “estranho” Schechter virou um doutor em história do crime e nos proporcionou, décadas depois, excelentes livros sobre o tema crime e, principalmente, sobre serial killers. Um deles é bem conhecido nosso, A Enciclopédia dos Serial Killers (com coautoria de David Everitt), um estudo bastante detalhado sobre o fenômeno serial killer e que virou best-seller mundial.

Após lançar livros contando a história de serial killers como Ed Gein e Carl Panzram, em 2003, ele lançou The Serial Killers Files. Claramente, o livro foi lançado com o propósito de ser um guia definitivo sobre o tema serial killer. Rigorosamente pesquisado, ele abrange todos os aspectos de múltiplos assassinatos: da diferença entre serial killers, mass murderers e spreee killers, ao impacto dos serial killers na cultura popular. Da primeiríssima vez que o termo “serial killer” foi publicado, às doenças mentais que afligem esses assassinos. Dos fãs-clubes de serial killers, aos colecionadores de objetos dos mesmos. E com relação a este último, uma frase presente no livro, do advogado americano Andy Kahan, mostra o quão sério é esse “mercado”:

“Possuir um Gein, para alguns, é como possuir um Rembrandt para outros colecionadores”.

Dizem que quem sabe um pouco de tudo não é especialista em nada. Mas em The Serial Killers Files, Harold Schechter aborda com maestria dezenas de temas que só alguém que passou uma vida inteira dedicada à pesquisa poderia fazer.

O livro é dividido em 9 capítulos, cada um contendo vários subtítulos como, por exemplo: Capítulo 4: O Sexo e os Serial Killers, com os subtítulos:

  • “Perversões”;
  • “Sadismo”;
  • “Dominação”;
  • “Fetichismo”;
  • “Travestimento”;
  • “Vampirismo”;
  • “Canibalismo”;
  • “Necrofilia”;
  • “Pedofilia”;
  • “Gerontofilia” e;
  • “O pior pervertido do mundo”.

Todos os nove capítulos trazem assuntos interessantíssimos e é até difícil destacar um, mas eu, particularmente, gostei bastante das linhas de Schechter sobre os serial killers na antiguidade. No Capítulo 3: Uma história do assassinato em série, ele traça uma linha do tempo e cita alguns casos de serial killers: da Roma antiga à era moderna. O seu primeiro exemplo é Nero, o sádico imperador romano que, segundo Schechter:

“Quando adolescente, gostava de sair disfarçado à noite e perambular pelas ruas em busca de praticar travessuras. Um de seus jogos favoritos era atacar homens a caminho de casa, esfaqueá-los caso oferecessem resitência e jogar seus corpos no esgoto”.

Como bem diz Schechter no capítulo, a crença geral é a de que serial killers são um fenômeno moderno, o que não é verdade. Segundo ele, a taxa de alfabetização entre os camponeses da Europa pré-moderna era basicamente zero, portanto, os registros de serial killers eram quase nulos. Alia-se a isso o fato de a imprensa de massa ter surgido apenas no século 19, então se tem a falsa impressão de que serial killers só apareceram no século passado. E para desmistificar isso e provar que serial killers são tão antigos quanto a própria humanidade, além de citar exemplos ao longo da história, ele também recorre aos famigerados contos de fadas.

Hoje em dia, pensamos em contos de fadas como uma variante graciosa de literatura infantil, mas, em sua origem, eram histórias orais destinadas a adultos. E embora sejam cheios de magia e encantamento, são também, como muitos estudiosos têm apontado, documentos históricos, refletindo a realidade social da época. O conteúdo extremamente macabro de muitos desses contos deixa claro que seus ouvintes estavam bastante familiarizados com o tipo de maníacos homicidas que hoje chamamos de serial killers.

Schechter cita como exemplo os contos A Noiva do Bandido e O Pássaro Emplumado, neste último, uma jovem descobre que seu novo marido é um serial killer ao encontrar uma grande bacia cheia de seres humanos, mortos e cortados em pedaços, num quarto proibido que o marido usava. Quando o marido retorna para casa e percebe que a mulher descobriu a terrível verdade sobre ele, não perde tempo em livrar-se dela:

“Ele a jogou no chão, arrastou-a pelo cabelo, cortou fora sua cabeça e a retalhou, fazendo com que o sangue corresse pelo chão. Depois jogou-a na bacia com o resto”, diz o conto compilado pelos irmãos Grimm no século 19.

Para Schechter, até mesmo o conto Chapeuzinho Vermelho refletiria o “primitivo medo de serial killers“. E a prova final de que serial killers sempre existiram seriam as histórias de vampiros e lobisomens. Schechter cita uma frase do especialista do FBI John Douglas, na qual ele diz que histórias e lendas difundidas sobre lobisomens e vampiros podem ter sido uma maneira de explicar atrocidades tão abomináveis que ninguém nas pequenas e coesas cidades da Europa e da América colonial podiam compreender. Tais perversidades cometidas pelos serial killers da época só poderiam ser explicadas como sendo cometidas por monstros ou criaturas sobrenaturais. Daí o surgimento das lendas sobre lobisomens e vampiros.

“Garnier estrangulava suas jovens vítimas, depois as despedaçava e se alimentava da carne de suas pernas, braços e ventre. Em um caso, ele arrancou a perna de um menino. Em outro, arrancou um pedaço da carne de uma menina e levou para sua esposa cozinhar no jantar”, diz Schechter sobre o serial killer Gilles Garnier, o mais famoso “lobisomem” francês, e que viveu no século 16.

No capítulo 9, O Serial Killer na Cultura Pop o destaque vai para a história do serial killer Carl Panzram, contada em forma de pinturas pelo mais sombrio pintor americano: Joe Coleman. Como diz Shechter no capítulo, se Ted Bundy, John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer fossem trancados dentro de uma cela com Panzram, eles teriam virado “mulherzinhas”.

Na foto: A história de Carl Panzram. Fonte: Serial Killers - Anatomia do mal

Na foto: A história de Carl Panzram, por Joe Coleman. Fonte: Instagram chicodeassis

“Durante minha vida assassinei 21 seres humanos… sodomizei mais de mil seres humanos do sexo masculino. Ainda assim, não sinto um pingo de remorso. Eu não tenho consciência, então isso não me preocupa”.

[Carl Panzram]

O livro possui classificação 4.5 estrelas (num máximo de 5) na Amazon e 4 estrelas no Good Reads, uma rede social em que usuários podem comentar, dar notas e fazer recomendações de livros.

E após 10 anos, The Serial Killers Files, finalmente, chegou ao Brasil. O livro foi lançado em julho último pela Darkside Books, editora brasileira especializada em terror e fantasia, sob o título Serial Killers – Anatomia do Mal. A edição do livro é pra lá de caprichada, o que fez o jornalista Luiz Cesar Pimentel, do portal R7, chamá-lo de muito “legal”. Já o comentarista de cultura da globo news, João Paulo Cuenca, disse que: 

“Ele (Schechter) tem uma leitura dos crimes. Entra em detalhes do que cada um fez, é bem perturbador. Ele traz referências de literatura e traça um perfil psicológico e tenta juntar as explicações que a psicologia e a ciência dão a isso, mas tem um limite que não tem mais explicação. Você pode ter todas as condições que definiriam um psicopata, mas tem algo que vai além da estrutura moral”.

Por ser um lançamento, não há muitos reviews sobre o mesmo de leitores que o compraram. Mas se por um lado falta comentários sobre o livro, por outro, o que não falta, são pessoas querendo adquiri-lo:

Minha opinião? Serial Killers – Anatomia do Mal é um trabalho profundo e hipnotizante, indispensável para qualquer ser humano que goste do assunto, seja um simples leitor ou um especialista da área criminal ou mental. Harold Schechter escreve de maneira inteligente e fácil de entender, sem rebuscamentos, é uma obra extremamente detalhada e informativa, tão informativa que se torna impossível parar de ler. Recomendadíssimo.

  • 5 Trechos Retirados do Livro

“Em seus esforços para explicar o comportamento dos serial killers, a psiquiatria moderna tem aplicado diversos rótulos clínicos a esses assassinos: sociopatas, psicopatas, personalidades antissociais. Mas apenas um rótulo parece apropriado para Andrei Chikatilo: monstro”.

“Nossa tendência para mitificar serial killers – de vê-los não como criminosos predadores, mas como criaturas sobrenaturais e malignas – é reforçada pelo hábito da mídia de identificá-los com apelidos chamativos”.

“A TV por assinatura tem duas armas infalíveis para encantar espectadores: tubarões e serial killers”.

“Ele estrangula o animal diante dos olhos da prostituta; então se lança sobre ela e realiza o coito atingindo um intenso orgasmo. Sem a ave, ele é completamente impotente”.

“Em 1931, Cosel ficou tão obcecado por uma bela e jovem paciente chamada Maria Elena de Hoyos que quando a moça morreu de tuberculose ele roubou o corpo e levou-o para casa. Apesar de ser tratado com formaldeído, o cadáver da mulher morta foi gradual e inevitavelmente se decompondo. Conforme isso ocorria, Cosel tentou várias medidas desesperadas para preservá-lo, usando cordas de piano para manter os ossos unidos, pondo olhos de vidro nas órbitas, substituindo a pele putrefata por cera e seda. E o mais assustador de tudo: ele inseriu um tubo entre as pernas para servir como uma vagina improvisada, de modo que pudesse continuar fazendo sexo com os restos mortais.”

  • 5 Frases de Serial Killers Retiradas do Livro

“Talvez seja melhor para a comunidade que eu morra, já que seria impossível para mim parar de envenenar pessoas”.

[Anna Zanzwiger, Alemanha, 3 vítimas conhecidas]

“Eu poderia ter matado quinhentos, isso não era um problema. Mas a promessa que fiz foi de matar cem crianças e não queria quebrá-la. Minha mãe tinha chorado por mim. Eu queria que cem mães chorassem por seus filhos”.

[Javed Iqbal, Paquistão, 100 vítimas]

“Se eu pudesse desenterrar minha mãe, gostaria de tirar os ossos dela do túmulo e matá-la de novo”.

[Joe Fischer, Estados Unidos, número total de vítimas desconhecido]

“Tenho lido muitos livros sobre serial killers. Acho que é a partir de quatro vítimas que o FBI classifica um assassino como serial killer, então vou parar agora que completei cinco”.

[Colin Ireland, Inglaterra, 5 vítimas, em uma ligação anônima para a polícia]

“Elas eram inúteis como baratas para mim. Depois de um tempo, eu não conseguia dormir à noite se não tivesse matado pelo menos uma naquele dia”.

[Saeed Hanaei, Irã, 16 vítimas]

Crime & Influência

Finalizando o post, gostaria de citar uma parte do livro que muito tem a ver com o nosso momento atual. O caso Marcelo Pesseghini tem agitado os noticiários nas últimas semanas. O garoto, de 13 anos, é suspeito de assassinar os pais, a avó, a tia-avó e depois se suicidar. Tão logo a mídia descobriu que o adolescente gostava de jogar Assassin’s Creed (um jogo eletrônico onde o personagem principal é um assassino), começou a publicar reportagens tendenciosas deixando no ar a ideia de que um jogo de videogame poderia ser o grande vilão da história, e que ele poderia ter influenciado o adolescente a cometer tal ato. Não somos o G1 e nem o R7. Nosso compromisso não é com patrocinadores, não publicamos qualquer coisa para ganhar cliques e não estamos interessados em promover a desinformação e o desconhecimento. A mídia de massa deveria (em tese) tomar cuidado com o que publica, mas não é isso o que vemos.

Harold Schechter toca nesse tema de forma impecável no subtítulo Livros do Mal, Filmes Malignos, Vídeos Infames, Capítulo 5. Ele cita alguns exemplos ao longo do tempo onde críticos culparam filmes, vídeos, livros e etc por influenciar comportamentos homicidas. Na página 267, ele diz que:

“Embora a violência na mídia seja um bode expiatório conveniente (particularmente para aqueles que preferem atribuir a culpa dos problemas comportamentais de seus filhos a filmes como Matrix e consoles da série PlayStation do que as suas próprias deficiências como pais), não há (apesar de inúmeros estudos científicos dedicados à questão) nenhuma prova definitiva de uma relação direta entre assistir a obras de ficção violentas e cometer assassinato na vida real”.

Shechter cita o caso do canibal David Harker, um indivíduo perverso, que estrangulou uma mulher de 32 anos durante o sexo, retalhou seu corpo e comeu pedaços de sua coxa com macarrão e queijo. Harker era um fã de carteirinha do filme O Silêncio dos Inocentes e, na época do ocorrido, ele foi questionado sobre a influência do filme em seu próprio ato canibalesco. O que o canibal respondeu?

“Pessoas como eu não vêm de filmes. Os filmes é que vêm de pessoas como eu.”

Informações

Serial Killers - Anatomia do Mal  - Ficha

Título: Serial Killers -Anatomia do Mal

Autor: Harold Schechter

Tradutor: Lucas Magdiel

Editora: Darkside Books

Edição: Primeira

Idioma: Português

Especificações: Capa dura | 480 páginas

ISBN: 978-8-56663-612-3

Dimensões: 16 cm x 23 cm

Preço sugerido: R$ 64,90

Lançamento: Julho de 2013

Facebook: Harold Schechter (página oficial)

Fontes consultadas: Serial Killers – Anatomia do Mal (Harold Schechter), haroldschechter.com, Harold Schechter’s Dangerous Pastime (The New York Sun)



Colaboração:

Revisão por:

hellen

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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