Serial Killers: Israel Keyes

“Minha impressão era que ele sempre sabia o que estava nos dando”. Essex, Vermont. Estados Unidos. Em agosto de 2012, os moradores de Essex,...
Serial Killers - Israel Keyes
Israel Keyes

Israel Keyes

“Minha impressão era que ele sempre sabia o que estava nos dando”.

[Jolene Goeden, agente do FBI]

Essex, Vermont. Estados Unidos.

Em agosto de 2012, os moradores de Essex, Vermont, uma pequena cidade de apenas 19 mil habitantes, tiveram que aceitar o fato de que seus estimados vizinhos, Bill e Lorraine Currier, jamais voltariam.

Ninguém os via desde junho de 2011, quando foram vistos pela última vez, deixando o trabalho às 17h do dia 8 de junho de 2011. Bill, 49 anos, e Lorraine, 55 anos, trabalhavam ambos na área de saúde: Bill em um centro veterinário na Universidade de Vermont, e Lorraine no departamento financeiro de um consultório em Burlington, cidade vizinha a Essex.

Eles eram casados desde 1985. Não tinham filhos, mas adoravam animais e frequentemente deixavam seus pássaros voarem pela modesta casa que possuíam, uma construção térrea com paredes brancas e uma porta de cor verde escura. Os Curriers eram os típicos habitantes de Vermont: Lorraine com seus longos cabelos ruivos, repartidos ao meio e sem maquiagem; Bill com sua paixão pela guitarra e pela dupla Simon e Garfunkel, de sucessos como Mrs. Robinson e The Sounds of Silence (esta regravada(?) por uma famosa dupla sertaneja do Brasil).

Bill e Lorraine também eram conhecidos por serem pontuais e raramente tiravam férias. Então, quando nenhum deles apareceu nos seus respectivos empregos em 9 de junho de 2011, uma quinta-feira, seus colegas de trabalho ficaram preocupados. Os colegas de Lorraine ligaram para o escritório de Bill, e por volta do meio-dia a notícia chegou à irmã dele, Diana, que chamou a polícia de Essex.

Às 22h daquela noite, os policiais rodeavam a casa dos Curriers.

No local, eles admitiram estar confusos: “É um verdadeiro quebra-cabeça”, disse o tenente George Murtie.

O carro dos Curriers, um Saturn sedã, verde-escuro, havia desaparecido da garagem.

Bill era um cara grande, com um metro e oitenta, ele pesava quase cem quilos e possuía problemas crônicos de saúde que requeriam medicação diária, assim como Lorraine. Os remédios deles estavam intactos.

Os policiais não tentaram minimizar a urgência de uma busca ou a possibilidade de que algo horrível tivesse acontecido a Bill e Lorraine.

“Estamos tratando a casa como uma cena de crime”, disse o tenente Murtie.

Na foto: O Casal Bill e Lorraine. Créditos: The New York Times

Na foto: O Casal Bill e Lorraine. Créditos: Daily Mail

Na foto: Cartaz pregado em porta de uma loja informa o desaparecimento do casal Currier. Créditos: Fox News.

Na foto: Cartaz pregado em porta de uma loja informa o desaparecimento do casal Currier. Créditos: Associated Press.

O misterioso desaparecimento do casal Bill e Lorraine só teria uma resposta no ano seguinte. Exatamente 1 ano depois, em junho de 2012, o tenente George Murtie recebeu uma ligação inesperada da polícia de Anchorage, Alasca. Estranhamente, a polícia de uma cidade distante mais de 4 mil quilômetros de Essex havia descoberto o que havia acontecido a Bill e Lorraine, e eles nunca haviam visto algo como aquilo.

Uma noite escura no Alasca

Quatro meses antes do telefonema, numa fria noite de primeiro de fevereiro de 2012, alguém esperava do lado de fora do Common Grounds Espresso Stand, na East Tudor Road, em Anchorage. A Commong Grounds era uma pequena loja numa barraca, com tapume azul, que ficava no estacionamento de um ginásio local.

Já estava bastante escuro, o sol havia se posto às 17h06, e nevava fortemente. Mas alguém estava esperando a loja fechar às 20h, e esse alguém também esperava por um caminhão que ele sabia estar a caminho.

Mas, então, ele mudou de ideia.

Naquela noite de fevereiro, um homem caminhou até o Common Grounds e pediu um salgado à única atendente de serviço, Samantha Koenig, 18 anos. Ele usava uma máscara e uma jaqueta com capuz e estava armado, e há poucas chances de Samantha ter percebido o que se passava. O homem agiu em segundos, e antes que pudesse se dar conta, Samantha foi dominada e amarrada no chão da barraca.

Eles ficaram lá, daquela forma, por uns oito minutos. O namorado de Samantha, Duane Tortolani, devia buscá-la na hora do fechamento. Nem Samantha e nem seu namorado sabiam, mas o homem os espreitava há dias. Ele queria pegar os dois, mas algo naquela noite fez com que ele mudasse de ideia. Ele agarrou Samantha e a levou, e apesar de a barraca ficar próxima de uma rodovia de seis pistas e de haver pouca vegetação, construções ou qualquer outra coisa no caminho que pudesse dificultar a visão do sequestro, apenas as câmeras de segurança do estabelecimento flagraram o homem mascarado levando a garota.

Veja abaixo o vídeo original das câmeras de segurança do Common Grounds Espresso Stand mostrando o sequestro de Samantha Koenig.

Obs.: A partir dos 22 segundos do vídeo, é possível ver o homem (câmera 3) indo em direção ao café. Ele espreita Samantha durante quase dois minutos. Aos 2 minutos e 4 segundos, ele entra dentro do café e aborda Samantha, é possível ver o susto da moça. Ela apaga as luzes do café e os dois ficam durante 8 minutos dentro do local. Aos 10 minutos e 13 segundos, os dois saem caminhando (câmera 3).

Samantha nunca mais foi vista. Cinco dias depois, seu pai emocionado veio a público oferecer uma recompensa para qualquer informação que levasse à sua filha.

“Eu quero dizer aos sequestradores da minha filha que, por favor, enviem-na para casa. Eu lhe darei tudo o que quiser neste mundo. Eu encontro você e te dou o que quiser. Apenas me dê minha filha de volta”, disse James Koenig cercado por familiares e amigos de Samantha.

Ele ofereceu uma recompensa de doze mil e quinhentos dólares por qualquer informação que levasse à filha.

Seu namorado disse: “Ela é uma boa pessoa e isso não deveria ter acontecido com ela. Ela não merece isso!”

Veja abaixo o apelo de James Koenig em vídeo gravado pelo jornalista Kyle Hopkins do Alaskadispatch News.

Na foto: Cartaz informando o desaparecimento da jovem Samantha Koenig. Uma recompensa de 41 mil dólares foi oferecida pela família. Créditos da imagem: Alaskadispatch News.

Na foto: Cartaz informando o desaparecimento da jovem Samantha Koenig. Uma recompensa de 41 mil dólares foi oferecida pela família. Créditos da imagem: Alaskadispatch News.

Na foto: O Common Grounds Espresso Stand, local onde Samantha Koenig foi sequestrada. Créditos da imagem: Alaskadispatch News.

Na foto: O Common Grounds Espresso Stand, local onde Samantha Koenig foi sequestrada. Créditos da imagem: Alaskadispatch News.

Na foto: O Common Grouns Expresso Stand, local de trabalho de Samantha. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: O Common Grouns Expresso Stand, local de trabalho de Samantha. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: Cinco dias após o desapareciment da filha, James Koenig faz um apelo emocionado por informações da filha. Créditos da imagem: Alaskadispatch News.

Na foto: Cinco dias após o desapareciment da filha, James Koenig faz um apelo emocionado por informações da filha. Créditos da imagem: Alaskadispatch News.

Na foto: Página criada na rede social Facebook pede por informações sobre Samantha. Créditos: Facebook.

Na foto: Página criada na rede social Facebook pede por informações sobre Samantha. Créditos: Facebook.

Duas semanas depois, a família de Samantha teve uma esperança: Seu namorado recebeu um SMS com a localização de um ponto específico em um parque local para cachorros, onde ele deveria encontrar um pedido de resgate. Ele foi até lá. De um lado havia uma foto que o sequestrador tirara de Samantha amarrada, com uma cópia do jornal Anchorage Daily News datada de 13 de fevereiro de 2012, prova de que ela estava viva. Do outro, um bilhete digitado pedindo 30 mil dólares a serem depositados diretamente na conta de Samantha.

Os Koenings obedeceram e fizeram o depósito.

Àquela altura, todos os 380 policiais de Anchorage estavam no caso, assim como o FBI. O pedido de resgate continha boas notícias: o pedido de que o dinheiro fosse entregue numa transação eletrônica significava que o sequestrador logo começaria a deixar rastros digitais, e pouco antes da meia-noite de 8 de março de 2012, o cartão de crédito de Samantha foi rastreado pela primeira vez na Lower 48, de um banco em Wilcox, Arizona, cidade a 4 mil quilômetros de Anchorage.

E em algum lugar em Wilcox um agente do FBI recebeu a ligação, saltou da cama e correu para o local, onde não encontrou nada, porque, logo após a meia-noite de 9 de março de 2012, o cartão de Samantha foi rastreado novamente, desta vez em um banco em Lordsberg, Novo México, a uma hora de distância de carro.

Os vídeos de segurança de ambos os bancos revelaram muito pouco. O sequestrador aparentava ser um homem, mas vestia várias peças de roupa, provavelmente para fazê-lo parecer mais gordo, assim como uma máscara e óculos. O mesmo veículo, no entanto, foi capturado pelas fitas de ambos os bancos nesse espaço de tempo e, assim, o FBI soube que deviam procurar por um homem de estatura mediana, dirigindo um Ford Focus 2012 branco, que provavelmente havia rumado para leste na rodovia I-10.

Em 13 de março, em Anchorage, Alasca, o oficial Jeff Bell recebeu um telefonema. Alertas eletrônicos chegaram aos policiais do sul e do sudeste, e um policial havia avistado um Ford Focus 2012, branco, no estacionamento de uma Quality Inn em Lufkin, Texas. Desde então, um policial à paisana havia vigiado o carro por várias horas. O motorista era um homem branco, na faixa dos 30 anos, altura e físico medianos.

Os policiais receberam a ordem de seguir o carro e pará-lo na primeira oportunidade, e quando o fizeram, por excesso de velocidade, eles encontraram um homem que foi solicitado a apresentar sua carteira de motorista. E lá estava escrito: Alasca. Os policiais também encontraram o cartão e o celular de Samantha, além da máscara, e uma arma e um dye pack (dispositivo usado por bancos para manchar de tinta notas de dinheiro roubado). O homem havia roubado um banco no Texas algumas semanas antes.

“Ele já havia feito isso antes”.

Bell e sua parceira, a detetive Monique Doll, agendaram imediatamente um voo naquela madrugada. Até a hora em que chegaram ao destino, eles haviam permanecido por quase 50 horas sem dormir. Bell e Doll foram até a sala de interrogatório onde o homem se encontrava algemado, esperando.

“Ele definitivamente te daria arrepios”, disse Bell, um veterano com 17 anos de experiência que também era membro da força-tarefa Safe Streets do FBI e da equipe da SWAT em Anchorage. “A detetive Doll e eu tivemos aquela sensação, um arrepio na espinha. Nós sabíamos que Samantha provavelmente não havia tido um destino bom”.

Quem dera se tivesse sido apenas Samantha…

O nome dele era Israel Keyes, 34 anos, ex-soldado, empresário da construção civil, pai de uma menina pequena.

Doll, que era a detetive chefe no caso, falou primeiro. Ela apresentou a Israel Keyes informações que deixavam claro que eles sabiam que ele havia sequestrado Samantha. Doll tinha certeza que ele perceberia que não havia saída. Ela fez perguntas atrás de perguntas.

“Não há nada que eu possa fazer para ajudá-los”, respondeu ele.

A detetive estava enganada. O homem era calmo, frio e parecia não se incomodar com as evidências apresentadas contra ele. Os detetives ficaram frustrados, mas logo aquele homem com ar de superioridade seria vencido pelo intenso trabalho policial.

Israel Keyes não confessou o sequestro de Samantha Koening até meados de 30 de março, quando já havia voltado para o Alasca, sob custódia. Os promotores apresentaram a ele evidências inquestionáveis: eles haviam vasculhado a casa dele e periciado o seu computador, que continha informações sobre o desaparecimento de Samantha e a busca em andamento.

“Eu só precisava sentar com ele em uma sala e dizer: ‘Nós sabemos que você fez isto, e vamos fazê-lo confessar’. Explicar a ele por que seria acusado por sequestro”, disse o promotor Kevin Feldis.

Em questão de horas, Israel confessou. Ele havia levado Samantha aquela noite e a pôs em seu caminhão, escondeu-a em um galpão perto de sua garagem, e então a estuprou e a estrangulou.

Israel manteve o corpo de Samantha por duas semanas, tempo que saiu numa viagem para New Orleans. Quando ele voltou, costurou as pálpebras com linha para parecer que ela estava olhando em direção a máquina fotográfica, e então tirou a foto de Samantha segurando um jornal datado de 13 de fevereiro. Então, ele desmembrou o corpo com uma moto-serra e jogou os pedaços num lago congelado.

“Você podia ver a adrenalina correndo pelo corpo dele enquanto ele descrevia o assassinato. Não parecia ser o caso de alguém que nunca tivesse feito isto antes”, disse Feldis.

Eles estavam certos.

Na foto: Agentes do FBI buscam pelo corpo de Samantha no Lago Matanuska em Anchorage, Alasca. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: Agentes do FBI buscam pelo corpo de Samantha no Lago Matanuska em Anchorage, Alasca. Créditos da imagem: FBI.

A vida dupla de um serial killer

Os investigadores também encontraram material de imprensa no computador de Keyes sobre o caso Bill e Lorraine Currier, desaparecidos em Vermont. E foi aí que eles ficaram petrificados. Eles não estavam lidando com um sequestrador, um bandido qualquer. Os investigadores perceberam que Israel Keyes, na verdade, era um serial killer. Mas não um serial killer qualquer, ele era um dos mais metódicos e organizados serial killers já pegos em toda história americana. E muitas das coisas que ele contou aos calejados investigadores, eles nunca haviam ouvido falar.

Levaria várias semanas para Keyes confessar a morte do casal Currier.

Ele demonstrou muita preocupação com a privacidade e o bem-estar de seus amigos e família, e apesar de parecer estranho, isto não surpreendeu os investigadores: a maioria dos serial killers não apenas têm amigos e família, mas uma espécie de amor, ainda que deformado e interesseiro, por eles.

“Em alguns aspectos, os serial killers não são tão diferentes do resto de nós”, afirma Jack Levin, professor de sociologia e criminologia na Northeastern University em Boston. “A maioria de nós cria uma divisão entre as pessoas que amamos e as que não respeitamos. Por que serial killers escolhem estranhos? Simples: para desumanizá-los. Um serial killer organizado pode viver com esposa e filhos, mas ele reserva sua raiva para aqueles que não conhece”, diz o professor.

Levin afirma que em 99% dos casos a família e os amigos ficam chocados ao descobrirem a verdade. Serial killers, no dia-a-dia, parecem completamente normais.

Israel Keyes, como a maioria dos serial killers, era obcecado por controle, e uma vez que expôs seu calcanhar de Aquiles (manter sua namorada e filha longe da mídia), os promotores usaram isso como arma. Ele expressou uma preocupação especial com o que a filha, pesquisando o nome dele num futuro próximo, pudesse descobrir.

“Nós o fizemos saber que se ele nos contasse aquelas coisas, nós poderíamos estar numa situação melhor para manter a imprensa sob controle. Nós tentamos estimular aquele controle”, disse o promotor Feldis.

E foi por isso que só após quase 10 meses após sua prisão é que o mundo ouviu falar em Israel Keyes.

Keyes era um homem paciente, cauteloso e metódico. Nascido em Utah, ele cresceu em Mormon, e em algum ponto de sua infância sua família se mudou para o estado de Washington, onde eles viveram confortavelmente. Em 1998, Keyes se alistou no exército e serviu por dois anos em Fort Hood e no Egito. Em 2007, ele mudou para o Alasca, onde abriu sua própria construtora, vivia com sua namorada e a filha em uma casa branca de dois andares em um beco sem saída de Turnagain, onde ele gostava de entreter os amigos e a família.

Uma vez que Keyes havia sido convencido de que sua família seria protegida, ele revelou ser um tipo de monstro completamente novo; apesar de tudo que tinha em comum com o perfil do típico serial killer, Keyes era uma aberração, o tipo de pesadelo que gostamos de pensar que existe apenas nos filmes de terror ou nos livros de Stephen King.

Frank Russo, o procurador assistente que trabalhou no caso, contou que um expert em serial killers disse a ele que Keyes estava entre as três mentes mais organizadas com que já havia cruzado.

“Eu não quero provocar medo nas pessoas, mas quando você vê Israel Keyes e conversa com ele sobre qualquer coisa que não esteja relacionada à sua atividade criminal, você não percebe que ele é um assassino”, diz Feldis.

Keyes não era apenas um assassino: ele era excepcionalmente ambicioso, chegando ao ponto de criar obstáculos para si mesmo ao cometer assassinatos. A maior parte dos serial killers permanece próximo de casa; a familiaridade deles com a própria região significa menor chance de serem pegos. Keyes, entretanto, possuía pequenas sacolas cheias de armas, silenciadores, cordas e outros armamentos enterrados por todo os Estados Unidos. Sempre que sentia desejo de matar, ele primeiro adiava isto o quanto podia, controlando a gratificação que era uma parte substancial da recompensa. Então, ele voava ou dirigia até uma das áreas que havia escolhido, desenterrava seu kit e escolhia suas vítimas.

Como o personagem da popular série Dexter, ele tinha seu próprio código, com quatro itens principais:

  • Nada de crianças; (ele era pai)
  • Usar apenas dinheiro;
  • Remover a bateria do celular sempre que estivesse caçando;
  • Caçar humanos longe de casa;

E ele só foi preso porque quebrou essas regras. No caso de Samantha Koening, Keyes quebrou quase todas as regras que o mantinham invisível: ele a sequestrou mesmo sentindo que era arriscado. Ele não pôde controlar a urgência e pegou uma presa perto de sua casa, e a matou, quase no seu próprio quintal. Quarta regra quebrada.

Ele também pediu que o resgate fosse depositado na conta de Samantha e, então, começou a usar o cartão de crédito da vítima. Segunda regra quebrada.

“Não há ninguém que me conheça, ou que já tenha me conhecido, que realmente saiba algo a meu respeito. Basicamente, sou duas pessoas diferentes”, disse Keyes aos investigadores.

Ao ser perguntado há quanto tempo ele era assim, ele riu e disse: “Muito tempo. Catorze anos”.

Um assassino metódico

Em junho de 2011, Israel Keyes comprou uma passagem de avião e voou até Chicago, alugou um carro e dirigiu por 14 horas até Vermont, onde pescou um pouco enquanto procurava pela casa certa: “Longe das ruas manjadas”, nas palavras dele.

A casa certa para ele seria uma com garagem anexa para que pudesse sair sem ser notado e sem nenhum sinal de crianças ou cães.

Não levou muito tempo até que Keyes encontrasse a casa dos Curriers, e foi por isso que eles foram escolhidos: não por quem eram, mas por onde viviam. A casa tinha um estilo convidativo para arrombamento e sequestro, e naquela manhã de 9 de junho de 2011, Keyes executou o que chamou de “ataque surpresa”: tendo cortado a linha de telefone mais cedo, ele entrou pela garagem, arrombou uma janela e foi direto para o quarto, guiado apenas pela pequena lâmpada de cabeça que carregava. Bill e Lorraine estavam amarrados em menos de seis segundos e ele não deixou vestígios de DNA.

Keyes pôs os Curriers no carro deles e os levou até um celeiro abandonado. Ele retirou Bill primeiro, que lutou o quanto pôde. Dentro do celeiro, esmagou a cabeça dele com uma pá, e então o matou a tiros. Ele voltou até Lorraine, que já havia conseguido se livrar das amarras e agora corria freneticamente pela Rota 15.

Como num filme de terror, a mulher corria e, cada vez que olhava para trás, o maníaco estava mais perto. Keyes a derrubou e a arrastou de volta para o celeiro, onde a estuprou e, então, estrangulou-a. Ele preferia aquele método de assassinato a armas: gostava de ver as vítimas sofrerem. Keyes, então, pôs os corpos em sacos individuais de lixo e os deixou em uma construção abandonada, que já havia sido demolida. Os restos mortais de ambos jamais foram encontrados, mas Keyes disse aos investigadores que havia jogado a arma em um lago ao norte de Parishville, Nova York, onde os policiais a encontraram. De fato, tudo que ele contou aos investigadores foi confirmado.

O Mistério Final

Samantha e os Curriers foram as únicas três vítimas identificadas, nennhuma a mais. “Estamos tentando descobrir quando ele matou pela primeira vez, e nós acreditamos que tenha sido em 2001, após ser dispensado das forças armadas”, disse o promotor do caso.

Keyes ainda confessou ter matado outras pessoas em Washington e em Nova York, mas ele não confirmou os nomes, nem disse quando as havia matado ou onde as havia enterrado.

A única coisa de que os investigadores têm certeza, no entanto, é que Israel Keyes não era louco. Ele era por demais metódico e organizado. Feldis disse que Reyes era “esperto, hábil e organizado, com senso de humor”, um tipo de autoconsciência irônica que não poderia estar presente em um indivíduo desajustado.

“Israel Keyes não sequestrou ou matou pessoas porque era louco. Ele não sequestrou ou matou pessoas porque algum Deus disse a ele que fizesse isso ou por ter tido uma infância ruim. Israel Keyes fazia porque ele obtinha uma imensa satisfação nisso, bem como um viciado obtém um prazer intenso nas drogas”, disse a detetive Doll numa coletiva de imprensa.

Investigadores em todo o país estão revendo casos antigos. Russo contou que em muitos casos, tanto a polícia quanto os familiares têm “recorrido ao Google”.

Para eles, há uma página assustadora no Facebook, criada pelo pai de Samantha: “Você já se encontrou com Israel Keyes?”.

A última vez que Feldis falou com Keyes foi numa quinta-feira, 29 de novembro de 2012. No domingo, 2 de dezembro, Keyes foi encontrado morto em sua cela. Ele havia cortado os pulsos com uma lâmina. Como um prisioneiro na solitária conseguiu uma? O Departamento de Administração Penitenciária do Alasca não informou. Após cortar os pulsos ele enforcou-se com um lençol.

Antes de se matar, Keyes torturou mais uma pessoa, o promotor Kevin Feldis, e manteve um último segredo: ele nunca planejou ser capturado vivo, e pretendia controlar o final da própria história, deixando um número incontável de corpos no seu rastro.

“O máximo que conseguimos dele foi [que ele matou] menos de 12 pessoas. Onze é o que nós supomos. Mas o número exato? Jamais saberemos”, afirma Feldis.

Nem uma pista

O operário/empresário de construção Israel Keyes foi um assassino terrível, escolhia suas vítimas por capricho, e frequentemente a quilômetros de distância de onde vivia. Através de sua confissão, os investigadores criaram uma linha do tempo para duas das pessoas que ele matou:

Abril de 2009: Keyes viajou para Essex, Vermont, um lugar que aparentemente ele conhecia, onde enterrou um dos seus “kits de assassinatos”: uma sacola grande contendo armas, cordas e outras armas, próximo ao rio Winooski. Ele diria mais tarde aos policiais que havia enterrado kits similares no Texas, nos estados de Washington, Nova York e Wyoming.

2 de junho de 2011: Dois anos mais tarde, Keyes pegou um voo do Aeroporto Internacional de Anchorage para Chicago. Após aterrissar, ele alugou um carro e dirigiu em vez de voar diretamente para Vermont.

7 de junho de 2011: Cinco dias depois, Keyes chega em Essex, Vermont, e se hospeda em um hotel barato chamado Handy Suites. Ele diria mais tarde aos investigadores que escolheu suas vítimas, um casal de meia-idade chamados Bill e Lorraine Currier, por causa da localização da casa deles, isolada e próxima da mata.

8 de junho de 2011: Bill e Lorraine são vistos deixando o trabalho por volta das 17h. Eles chegam em casa pouco antes das 19h.

9 de junho de 2011: Em algum momento depois da meia-noite, Keyes arromba a casa dos Currier e executa o que chama de “ataque surpresa”, amarrando Bill e Lorraine separadamente dentro de 6 segundos. Ele os leva para um celeiro abandonado e mata ambos, e então dirige rumo a Maine. Na volta, ele intencionalmente passa pelos detetives do lado de fora da casa dos Curriers. Ele não havia deixado vestígios de DNA.

Modus Operandi

Keyes planejava metodicamente seus crimes e realizava um trabalho imenso para não ser detectado. Ao contrário da maioria dos serial killers, ele não tinha um perfil de vítima específico, entretanto, em crianças ele não encostava suas mãos. Roubava casas e bancos para financiar suas viagens homicidas. Sempre assassinava longe de casa e nunca cometia dois assassinatos numa mesma área. Passou anos enterrando kits assassinos por vários estados dos Estados Unidos. O objetivo era voltar anos depois ao local, desenterrar os kits, e matar alguém na região.

Em suas viagens assassinas, ele mantinha seu telefone celular desligado e fazia compras em dinheiro, nunca cartão de crédito. Tudo para não ser rastreado. Não tinha conexão com nenhuma de suas vítimas e elas eram escolhidas de forma aleatória, mas sem antes Keyes passar algumas horas ou dias as observando.

No caso do casal Currier, ele foi de avião até Chicago, alugou um carro e dirigiu mais de dois mil e seiscentos quilômetros até Vermont. Chegando lá, desenterrou um kit que havia enterrado dois anos antes e cometeu os dois assassinatos. As mulheres eram estupradas e estranguladas. Os homens mortos a tiros. O descarte dos corpos era feito de forma limpa e precisa, tanto é que, tirando Samantha Koenig, nenhum outro corpo jamais foi encontrado.

Fotos

Na foto: Um dos kits assassinos de Israel Keyes escondidos na reserva Blake Falls, em Nova York. Créditos: FBI.

Na foto: Um dos kits assassinos de Israel Keyes escondidos na reserva Blake Falls, em Nova York. Créditos: FBI.

Na foto: Kit assassino de Israel Keyes contendo pistola, munição e silenciador. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: Kit assassino de Israel Keyes contendo pistola, munição e silenciador. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: Outro kit assassino de Israel Keyes descoberto no Alasca contendo produtos para decompor um corpo. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: Outro kit assassino de Israel Keyes descoberto no Alasca contendo produtos para decompor um corpo. Créditos da imagem: FBI.

Na foto: Marilynn Chates, mãe de Bill Currier, durante entrevista coletiva anunciando recompensa por informações que levassem ao filho desaparecido. Marilynn só saberia o que acontecera a seu filho 1 ano depois. Créditos da imagem: Associated Press.

Na foto: Marilynn Chates, mãe de Bill Currier, durante entrevista coletiva anunciando recompensa por informações que levassem ao filho desaparecido. Marilynn só saberia o que acontecera a seu filho 1 ano depois. Créditos da imagem: Associated Press.

Na foto: Foto do perfil do facebook de Samantha Koenig. Israel Keyes enviou a família de Samantha uma foto do seu corpo que os fez acreditar que ela estava viva. Créditos: Facebook.

Na foto: Foto do perfil do facebook de Samantha Koenig. Israel Keyes enviou a família de Samantha uma foto do seu corpo que os fez acreditar que ela estava viva. Créditos: Facebook.

Na foto: Israel Keyes. Créditos: FBI.

Na foto: Israel Keyes. Créditos: FBI.

Na foto: Israel Keyes.

Na foto: Israel Keyes.

Na foto: Israel Keyes na época em que serviu o exército. Créditos da imagem: Associated Press.

Na foto: Israel Keyes na época em que serviu o exército. Data: Julho de 2000. Créditos da imagem: Associated Press.

Na foto: Israel Keyes. Créditos da imagem: Murderpedia.

Na foto: Israel Keyes. Créditos da imagem: Murderpedia.

Na foto: Israel Keyes

Na foto: Israel Keyes.

Na foto: Israel Keyes. Créditos da imagem: Murderpedia.

Na foto: Israel Keyes. Créditos da imagem: Murderpedia.

Na foto: Israel Keyes em frente a uma de suas construções no Alasca. Créditos da imagem: Israelkeyes.blogspot.com

Na foto: Israel Keyes em frente a uma de suas construções no Alasca. Créditos da imagem: Israelkeyes.blogspot.com.

Análise

Keyes definitivamente é como um vilão de filme de terror, um assassino que caça vítimas em áreas remotas e mata sem motivo aparente, como Jason Voorhees, do filme Sexta-Feira 13. Um especialista em serial killers chegou a dizer que Keyes estava entre os três mais “organizados, pensantes e planejadores que eu já estudei”. Certamente, aspirantes a serial killers podem aprender e muito com Keyes. Ele matava longe de casa, em diferentes estados, não tinha nenhuma ligação pessoal com suas vítimas, e agia sem nenhum motivo aparente. Durante as viagens, desligava o celular e fazia compras apenas com dinheiro. Enfim, não deixava nenhum tipo de rastro. Escondeu kits de assassinatos por todo o país. Assassinava e logo deixava as cenas dos crimes.

Muitos serial killers como Jeffrey Dahmer, Dennis Rader, David Berkowitz, Francisco de Assis Pereira, atacam em uma região em particular, sempre perto de onde vivem ou trabalham. Serial killers gostam de caçar vítimas em lugares familiares, que eles conhecem. Eles se sentem mais confortáveis. Israel Keyes é uma exceção e se encaixa no tipo “nômade”, aquele que depende de modernos meios de transporte, de aviões e trens a automóveis, atravessam estados, países, para matar. Por estar sempre em movimento, esse tipo de serial killer consegue com frequência se manter vários passos à frente da polícia. Harold Schechter diz em seu livro, “Serial Killers – Anatomia do Mal”, que tais serial killers são muito difíceis de serem pegos. “Em muitos casos, as autoridades nem mesmo sabem que um desses assassinos está à solta, já que não conseguem perceber que, digamos, duas mulheres de meia-idade, uma encontrada estrangulada e violentada em São Francisco, outra em Seattle, foram na verdade vítimas do mesmo psicopata, um fenômeno que o criminologista Stephen Egger chama de ‘cegueira de ligação’ (quando não se consegue conectar casos claramente relacionados)”, diz Schechter.

Outro ponto que Keyes difere da maioria dos serial killers diz respeito ao perfil de suas vítimas. Serial Killers tendem a atacar vítimas específicas: jovens mulheres, prostitutas, loiras, negras… e isso no final ajuda investigadores a traçar um perfil psicológico. Mas Keyes era o tipo raro de serial killer que não se importava que tipo estava matando. Ele não tinha fixação por um tipo específico, apesar (acredita-se) de a maioria das vítimas terem sido mulheres, as quais eram estupradas e estranguladas.

Suas vítimas, portanto, são as chamadas “alvos de ocasião”, ou seja, pessoas que são assassinadas de forma aleatória simplesmente porque estão no lugar errado na hora errada.

Em muitos aspectos ele difere dos seus “companheiros” de crime, mas em outros, Keyes se encaixa perfeitamente.

Keyes compartilhava alguns traços com outros de sua “espécie”. Ele assassinava porque gostava e porque dava prazer, um sentimento compartilhado pela maioria. “Ele estrangulava-os porque ele gostava de vê-los sofrer”, disse o promotor do caso.

Nesse ponto, Keyes se encaixa na categoria de serial killers estranguladores como Gary Carlton, Kenneth Bianchi, Angel Buono, Earle Leonard Nelson e Harvey Glatman. Para esses homens, sua satisfação sádica advém do próprio ato de estrangular. E isso é um fator importante tendo em vista que assassinos comuns utilizam armas de fogo como meio de assassinato mais comum. Ao contrário, mais da metade dos serial killers conhecidos utilizam-se de meios manuais para dar fim às suas vítimas. Isso é explicado devido ao fato deles encontrarem um prazer mais profundo no contato íntimo e pessoal com as vítimas, sentir suas peles rasgando, o corpo se contorcendo, seus olhos em pânico enquanto agonizam…

Outro ponto em comum a outros serial killers é a questão de que Keyes também tinha problemas com álcool. Ele bebia para esquecer o que havia feito, mas também o álcool poderia ser uma porta de entrada para ele colocar em prática seus desejos homicidas. Posso citar inúmeros exemplos de serial killers beberrões que enchiam a cara antes, durante e depois de seus crimes. Alguns notórios são Ted Bundy, Jeffrey Dahmer e Carrol Cole.

“Eu bebo todos os dias para esquecer coisas. Você não entende pelo que eu tenho passado”, disse Keyes a uma irmã dias antes de ser preso.

Como todo notório psicopata, Keyes aprendia a imitar emoções e tirava lições do relacionamento com pessoas, lições que ele usava para parecer mais “humano”.

“Em algum momento ele percebeu que era diferente. Ele sempre achava que as pessoas fingiam ser boas umas com as outras, foi aí que ele decidiu fazer o mesmo. Ele descreveu um incidente quando era mais jovem, quando torturou um gato na frente dos seus amigos e eles correram para longe dele. Nesse momento ele percebeu que deveria esconder esses comportamentos e viu que ele era diferente”, disse Frank Russo, promotor do caso.

Isso prova que Keyes não era um homem insano. Ele sabia muito bem que era errado matar, prova disso eram os planejamentos dos seus assassinatos. Ele chegou a confessar ao promotor do caso que pensou em tirar proveito do caos provocado por furacões nos Estados Unidos para matar. “Ele pensou que isso proporcionaria uma excelente cobertura para matar pessoas”, disse Russo.

Houve vezes em que ele exercitava seu autocontrole ao cancelar ataques quando as condições climáticas do local não estavam boas.

Outro ponto que prova que Keyes era mais um predador assassino do que um louco é um item do seu código particular: crianças não. Esse seria um dos pontos que o fez assassinar o casal Currier, eles não tinham filhos. Parece que a moralidade de Keyes terminava quando ele não via uma criança.

Keyes se descreveu como um “covarde” e que não conseguia entender por que saía para matar. De acordo com o promotor Frank Russo, Keyes nutria um sentimento de admiração por outros serial killers, principalmente os que nunca haviam sido pegos. Um de seus preferidos era Ted Bundy e Dennis Rader. Assim como ambos, ele levava uma vida dupla, acima de qualquer suspeita. Ele gostava disso. Matar sem ser detectado. Tinha um grande sentimento de superioriedade quando discutia sobre assassinatos com amigos. Eles costumavam rir de assassinos que eram pegos facilmente. Ao escutar os amigos dizendo isso, sentia-se bastante superior e ao mesmo tempo obtinha prazer ao ver os amigos discutindo sobre as “imbecilidades” de homens como ele. Ele estava camuflado e ninguém sabia das suas atrocidades, então não era “imbecil”, portanto, dentro daquela categoria (assassinos), era altamente superior.

O descarte eficiente dos corpos de maneira que ninguém pudesse encontrar também pode ser visto como um ponto que prova que ele estava com suas faculdades mentais em dia. Muitos serial killers obtêm prazer em desmembrar um corpo e descartá-lo sem ser detectado. Poderia Israel Keyes obter prazer do fato de os corpos de suas vítimas nunca terem sido encontrados? Creio que sim.

O professor e escritor Harold Schechter diz que o descarte de corpos das vítimas de serial killers que matam longe de casa depende de vários fatores, alguns calculados, outros relacionados à mentalidade distorcida do assassino. No caso Keyes, podemos dizer que o descarte era parte do seu meticuloso plano, por isso, calculado. Schechter diz que, dependendo do quão “organizado” o serial killer seja, ele pode dedicar um bom tempo a conferir com antecedência potenciais locais de desova antes de escolher aquele que lhe parece mais conveniente. Isso parece ser claro neste caso. Israel Keyes passou anos viajando pelos Estados Unidos. Escondeu seus kits por vários locais, tão bem escondidos que, anos depois, ele voltava e lá estavam eles nos mesmos lugares. Certamente, além de procurar lugares para esconder seus brinquedos, Keyes também vagava por esses lugares remotos analisando possíveis locais para descartar suas vítimas. Anos depois, quando ele voltava ali, sabia exatamente aonde ir. Nesse sentido, Keyes se assemelha ao francês Henri Landru, que também descartou os corpos de suas vítimas de uma maneira tão eficiente que até hoje ninguém sabe ao certo como elas morreram.

Keyes admirava seus “colegas” Ted Bundy e Dennis Rader, principalmente Ted, mas não gostava de ser comparado a eles. Segundo a detetive Monique Doll, uma vez Keyes se irritou ao escutar de um investigador que ele seria uma espécie de “copião”. Keyes se considerava igual apenas no aspecto de ter uma vida dupla, mas diferente na ação: ele tinha seus próprios métodos e maneiras de fazer as coisas.

Outra coisa que faz Keyes diferir de Bundy e isso realmente o torna um serial killer diferente é a sua frustração com o fato de ter sido pego e ter seu nome categorizado para sempre como um serial killer. Ele não gostava disso. Ele não queria ser visto como um serial killer. “Se você fala em Ted Bundy, ele se deliciava com a atenção, gostava da fama de ser um serial killer. Israel Keyes era o oposto. Ele realmente não queria ser chamado de serial killer, porque isso chamava muito atenção para ele e para sua família. Ele era bastante protetor dos seus amigos e familiares”, disse Monique Doll em uma reportagem do Los Angeles Times.

Israel Keyes é uma prova viva de que serial killers devem ser levados a sério. Muitos acreditam que homens como ele só existem em filmes. E isso contribui para que, infelizmente, eles sejam pegos tarde de mais (muitas vezes por desleixo dos próprios). Enquanto a sociedade e as autoridades os negligenciarem, eles continuarão fazendo a festa. No Brasil, apenas 8% dos assassinatos (conhecidos) são solucionados. Se assassinatos não são solucionados, imaginem desaparecimentos. Posso criar um blog apenas para falar sobre desaparecimentos não solucionados. Tenho certeza de que não faltará trabalho para mim. Mas um pensamento se faz pertintente: Quantas dessas pessoas não podem ter sido vítimas de um Israel Keyes?

“Estranhamente o assalto a banco que fiz em Nova york teve mais publicidade do que as pessoas que matei.”

[Israel Keyes]

Atualizações do Caso

Em 12 de agosto de 2013, o porta-voz do FBI Eric Gonzalez disse em uma coletiva de imprensa que eles acreditam que Keyes tenha assassinado 11 pessoas. “Nós já esgotamos todas as nossas pistas de investigação”, disse ele.

O porta-voz disse ainda que os assassinatos ocorreram por todo o país, mas não deu detalhes dos locais. Segundo ele, Keyes disse aos agentes que, de todas as suas vítimas anteriores, apenas 1 havia sido encontrada. Ainda segundo Gonzalez, acredita-se que o primeiro assassinato do serial killer foi em Washington em 2001. Ele também é suspeito de sequestrar uma adolescente que desapareceu em 1997, quando acampava com amigos no rio Deschutes, no estado do Oregon.

De fato, Keyes era tão bom em encobrir seus rastros que, quase 1 ano depois do seu suicídio, o FBI ainda não conseguiu identificar nenhuma outra vítima. Em um esforço para obter mais informações, a polícia federal americana divulgou uma detalhada linha do tempo das atividades criminais de Keys, documento que você pode ver clicando aqui.

O documento do FBI é abrangente, mas vago, e só mostra o quão pouco eles sabem. Uma parte diz:

“Julho de 2001 a 2005: Keyes disse que ele assassinou um casal não identificado em Washington. Keyes recusou-se a dizer se o casal era casado ou qual tipo de relacionamento tinha. É desconhecido se as vítimas eram residentes do estado, turistas, ou residentes de outro estado que ele havia sequestrado e transportado para Washington. Keyes afirma que essas vítimas foram enterradas perto de um vale”.

O FBI diz: “perto de um vale“. Bem, se vocês pegarem um mapa de Washington verá que o estado é cercado por montanhas e vales com milhares de quilômetros de extensão. Ted Bundy, um famoso serial killer dos anos 70, descartou várias de suas vítimas nas montanhas de Washington, vítimas que nunca foram encontradas. Provavelmente, as de Keyes também não.

Outra parte do documento diz: “9 de abril de 2009: Keyes admitiu sequestrar uma mulher de um estado da Costa Oeste e transportar a pessoa através de vários estados até Nova York. A vítima foi enterrada em Nova York. Os investigadores não acreditam que essa vítima foi enterrada na propriedade que Keyes possui em Constable, Nova York”.

Vago, não? Se ela não está nessa pequena propriedade de Keyes, então resta todo o imenso estado de Nova York para procurar. A sorte do FBI é que o estado de Nova York é bem “pequeno”, “somente” 141 mil e 300 quilômetros de extensão.

Mais uma parte: “Keyes forneceu detalhes adicionais sobre o sequestro e morte de uma mulher. A mulher foi descrita como tendo pele pálida, possivelmente tem uma avó rica, e dirigia um carro velho no momento do sequestro”.

Dirigindo um carro velho, uma possível avó rica… com essas informações, somente Sherlock Holmes para descobrir a identidade da moça.

Algumas conclusões sobre esse caso:

Em primeiro lugar, Israel Keyes mostra de uma vez por todas que é possível sim se safar de assassinatos. Existe sim o crime perfeito e serial killers são um ótimo exemplo. A maioria só é pega porque não consegue parar de matar. Imaginem se Andrei Chikatilo tivesse parado após matar sua vítima de número 10, 20 ou 55? Ele nunca teria sido pego. E Keyes só foi pego porque, como vários outros serial killers após matar tantas pessoas, ficou desleixado. Ele quebrou uma de suas regras: usar apenas dinheiro. Podemos dizer que Keyes cometeu 8 assassinatos perfeitos.

Em segundo lugar, apesar de os Estados Unidos serem um país altamente evoluído, tanto do ponto de vista de implementação de tecnologias no combate ao crime como da ciência forense, nota-se que os gigantescos bancos de dados criados para incluir pessoas desaparecidas e ajudar as autoridades precisam ser sistematicamente melhorados. Essas ferramentas precisam ser mais sensíveis e fornecer dados mais concretos e objetivos.

Em terceiro lugar, pega muito mal para um sistema carcerário considerado como um dos melhores do mundo deixar um assassino como Israel Keyes cometer suicídio. Um homem que todos sabiam ser um serial killer extremamente letal e que deixara um rastro de mortes atrás de si… Com a morte de Keyes foi-se tudo o que as autoridades poderiam saber. Muitas famílias nunca saberão que seus entes queridos desaparecidos estão mortos e foram assassinados por ele.

O casal Currier e a jovem Samantha Koenig continuam sendo as três únicas vítimas oficiais do mais metódico e organizado serial killer a ser pego nos últimos tempos. Perto dele, coloco o serial killer de Long Island, mas com uma diferença: o de Long Island até hoje não foi pego.

Atualização

  • 15 de Julho de 2014

Novos detalhes sobre o suicídio de Israel Keyes foram divulgados, incluindo erros que levaram à sua morte e à demissão de um agente penitenciário.

Nesta terça feira, 15 de Julho, um representante do sindicato penitenciário compartilhou em uma audiência pública as conclusões de uma investigação independente sobre o suicídio do serial killer.

Brad Wilson, da Alaska Correctional Officers Association, disse que o ex-agente penitenciário, Loren Jacobsen, 54, foi injustamente demitido semanas após Keyes ser encontrado morto em uma cela. Ele teria sido demitido por ser o responsável pelo turno da noite de primeiro de Dezembro de 2012, dia em que Keyes cortou o pulso com uma navalha – dada por engano a ele por um guarda – e estrangulou a si mesmo.

Wilson disse que Jacobsen estava no intervalo para refeição quando o serial killer cometeu suicídio e que o ex-agente, inclusive, impediu Keyes de se matar semanas antes.

“Primeiro, tenha os fatos antes de você despedir um homem e colocá-lo no inferno, ele nem mesmo estava lá”, disse Wilson. “A próxima coisa que você tem que fazer é responder a questão, uma corda foi encontrada em sua cela. Um cara de extrema periculosidade, do qual todos estão tentando tirar informações para que famílias saibam o que de fato aconteceu a seus entes queridos. E a questão aqui é que eles colocaram ele de volta naquela cela, uma cela ruim. Por que vocês fariam isso? A pergunta deveria ser por que ele foi transferido de volta?”

De acordo com essas informações, Keyes já havia tentado suicídio antes, fato que o fez ser transferido de cela. Mas por algum motivo ele voltou à mesma cela e, tendo obtido uma navalha e uma corda, conseguiu ter sucesso em sua segunda tentativa de suicídio. Eventualmente o erro foi reconhecido e Jacobsen teve a proposta de voltar ao emprego, mas ele recusou por achar que era um ambiente de trabalho inseguro. As informações são do canal KTVA Alaska, afiliada da rede CBS.

Áudio

Israel Keyes diz a um agente do FBI que é duas pessoas diferentes (áudio original)

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

– There is no one who knows me, or who has ever known me, who knows anything about me, really. They’re going to tell you something that does not line up with anything I tell you, because I’m two different people, basically. And the only person who knows about what I’m telling you, the kind of things I’m telling you, is me.

– How long have you been two different people?

– A long time. 14 years.

Tradução

– Não existe ninguém que me conhece, ou que já me conheceu, que sabe alguma coisa sobre mim, sério. Eles vão te dizer algo que não se alinha com qualquer coisa que eu digo, porque, basicamente, eu sou duas pessoas diferentes. E a única pessoa que sabe sobre o que eu estou te dizendo, o tipo de coisas que eu estou te dizendo, sou eu.

– Há quanto tempo você tem sido duas pessoas diferentes?

– Há muito tempo. 14 anos.

Vídeos

-> Reportagem da Fox News – Confissões de um Serial Killer – Legendado

-> Interrogatório do FBI com Israel Keyes (24 de maio de 2012) – Legendado
Tradução e legendas: Marcus Santana | Caroline Alcântara

Informações

Serial Killers - Israel Keyes - MugshotNome: Israel Keyes

Nascimento: 7 de janeiro de 1978, Richmond, Utah. Estados Unidos

Morte: 22 de dezembro de 2012. Anchorage, Alasca. Estados Unidos

Causa da morte: Suicídio

Acusação: Assassinatos

Captura: 13 de março de 2012

Número de vítimas: 3 confirmadas.

Local: Alasca, Nova York, Washington e Vermont.

País: Estados Unidos

Obs.: Em agosto de 2013, o FBI disse acreditar que Israel Keyes assassinou 11 pessoas.



Fontes Consultadas: The New York Post, Anchorage Daily News, Daily Mail, The Huffingpost, Alaskadispatch News, Fox News, Slate, Harold Schechter (Serial Killers – Anatomia do Mal), FBI.gov, Los Angeles Times; New details emerge on serial killer Israel Keyes’ suicide (KTVA Alaska).

Esta matéria teve colaboração de:

marcus

Revisão por:

hellen

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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  • Bianca Rodrigues

    realmente o cara era muito bom no que fazia… lamentável sua morte, teria q viver anos para ser estudado cuidadosamente, imagina quantos igual a ele existem por ai??, eficientes, inteligentes…
    ótima matéria, leitura fácil e instigante… parabéns!!

    • O Aprendiz Verde

      Obrigado Bianca, volte sempre!

  • Pingback: James Huberty: Massacre no McDonald's | Blog O Aprendiz Verde()

  • JUNIOR

    POLICIAIS SEM NOÇÃO.. ERA SÓ AMEAÇAR ELE COM O Q ELE MAIS TEMIA..TRAZER SUA FAMILIA E SEUS AMIGOS E HUMILHAR ELE O TEMPO TODO..TB DEIXAR ELE AMARRADO COM CAMISA DE FÕRÇA IGUAL A UM MALUCO.. QUERIA VER QUANTO TEMPO ELE AGUENTAVA SEM SURTAR.. AI SE EU PEGO UM DOIDO DESSES.. ELE IA SE ARREPENDER DE TER NASCIDO.

    • Marcus Santana

      Cara, você tá mesmo falando do Israel Keyes ou de uma criança de 6 anos?

    • Jago Hara-Kiri

      vai fica nas palavrinhas , pq vc não tem como reconhecer um israel keyes da vida não , e quando vc conhece vc “Ameaça” ele no anonimato da net

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      quem ve pensa q vcs são os Justiceiros slavadores da pátria kkkk
      mera ilusão .

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  • Leila Cristina da Conceição

    Doce engano achar que pode-se forçar um serial killer a fazer algo que realmente não quer fazer .. Se confessou foi porque quis não porque foi forçado Ele não tem sentimentos suficiente pra isso.

  • Regina Peruffo

    Junior, vc sabe mais do que os especialistas do FBI? Que bom se fosse tão simples assim! Existem pessoas que estudam os psicopatas por toda vida e, mesmo assim, não conseguem entender seus atos. Eles são seres enigmáticos, filhos do mal.

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