Livro: A Vida e os Tempos de Charles Manson

A Carnificina Era o dia pelo qual todos esperam ansiosamente: sexta-feira. A temperatura na Califórnia beirava os 33ºC naquele ensolarado 8 de Agosto de 1969. A onda de calor...

Livro - A vida e os tempos de Charles Manson

A Carnificina

Era o dia pelo qual todos esperam ansiosamente: sexta-feira. A temperatura na Califórnia beirava os 33ºC naquele ensolarado 8 de Agosto de 1969. A onda de calor vinha desde a quarta-feira e os moradores de Los Angeles sentiam na pele o efeito do vapor que queimava o asfalto.

Longe do barulho de Hollywood, privacidade e espaço era tudo o que uma jovem estrela do cinema queria. Subindo as colinas acima de Beverly Hills, ficava um lugar chamado Cielo Drive, e era ali que, isolada e quieta, a atriz Sharon Tate morava com o homem dos seus sonhos, e pai do seu filho que crescia em sua barriga.

Linda por toda a vida, desde a infância Sharon Tate colecionava premiações em concursos de beleza. Mas sua ambição não era ser modelo, e sim uma atriz de cinema. Aos 22 anos, ela finalmente encontrou alguém que apostasse nela: o produtor Martin Ransohoff. Com sua ajuda, ela estreou nas telas com as séries Beverly Hillbillies e Petticoat Junction, e nos filmes The Americanization of Emily e The Sandpiper.

Em 1965, ela conseguiu um papel de destaque em Eye of the Devil, onde contracenou com David Niven e Deborah Kerr. No filme, Tate interpreta uma garota do interior com poderes mágicos. E foi durante as filmagens deste filme que ela conheceu o homem dos seus sonhos, Roman Polanski, premiado diretor de cinema que em 1968 filmaria o assustador O Bebê de Rosemary.

Tate estava grávida de oito meses e muito solitária naquele verão de 1969. Polanski estava na Europa trabalhando em seu novo filme, e por isso não era incomum que Tate convidasse amigos para passar as noites de fim de semana. E naquela sexta-feira, 8 de Agosto, Tate tinha a companhia de Voytek Frykowski, amigo de Polanski, Abigail Folger, namorada de Frykowski e herdeira de uma milionária rede de café, e Jay Sebring, o mais famoso cabeleireiro da América, conhecido por ter sido o responsável por colocar Bruce Lee em Hollywood.

A casa de Tate e Polanski era isolada, mas não completamente insegura. Há cerca de 100 metros da casa havia um portão trancado, e dentro da propriedade existia uma casa habitada por um zelador.

Por volta das 18h, Debbie Tate, de 16 anos, irmã de Tate, telefonou perguntando se podia ir visitá-la, mas Tate disse que não e também cancelou um jantar marcado naquela noite. Sharon Tate e seus amigos saíram e jantaram em um restaurante mexicano. Voltaram à casa e Folger foi para seu quarto, tomou o estimulante MDA e começou a ler. Seu namorado, Frykowski, também fez uso da droga, mas ficou na sala ouvindo música. Sharon Tate deitou-se em sua cama, vestida apenas com um biquíni, conversando com Sebring, que bebia cerveja e fumava maconha.

O que Tate e seus amigos não sabiam era que do lado de fora haviam quatro pessoas vestidas de preto. E elas estavam ali com um único propósito: matar todos que se encontravam dentro daquela casa.

Os quatro eram Susan Atkins, Charles “Tex” Watson, Patricia Krenwinkel e Linda Kasabian. Eles cortaram as linhas de telefone e Tex deu quatro tiros à queima-roupa em Steven Parent, de 18 anos, que naquele fatídico dia estava visitando seu conhecido William Garretson, o zelador da propriedade. Parent havia ido até Cielo com a intenção de vender um rádio AM/FM para Garretson, ele estava juntando dinheiro para a faculdade. Ao sair pelo portão ele topou com os quatro assassinos. Indo em direção à casa, Tex arrombou uma janela e invadiu o local, abrindo a porta da frente para os cúmplices. Frykowski não teve tempo de saber o que estava acontecendo. “Sou o diabo. Estou aqui para fazer o trabalho do diabo!”, gritou Tex para ele antes de chutar-lhe a cabeça.

Enquanto Watson espancava Frykowski, Susan Atkins percorria a enorme casa e viu Folger lendo seu livro na cama. Pensando ser uma amiga de Tate, Folger ergueu os olhos, sorriu e acenou. Atkins respondeu ao cumprimento e seguiu adiante até encontrar o quarto de Tate. Ela voltou e relatou suas descobertas a Watson. Ele entregou uma corda para Atkins que, em seguida amarrou, o desacordado Frykowski. Tex saiu e foi buscar Folger, Tate e Sebring.

Tex pegou outra corda, amarrou os pulsos de Sebring e depois passou a corda em torno do seu pescoço antes de jogá-la por cima de uma viga. Em seguida, amarrou a outra ponta da corda no pescoço de Tate. Os quatro amigos receberam ordens para se deitarem de bruços, e Tate começou a chorar. Começava o horror.

Sem saber direito o que estava acontecendo, Sebring começou a questionar aqueles invasores, principalmente a forma como eles estavam tratando Tate. “Você não está vendo que ela está grávida?”, gritou o cabeleireiro.

Tex apenas olhou para Sebring e sorriu, efetuando um tiro em sua barriga. Petrificados de medo, os amigos apenas observaram quando Watson amarrou as mãos de Folger com um pedaço da corda que estava no pescoço de Tate. Em seguida, ele passou a mesma corda pelo pescoço de Sebring, e quando a puxou, Tate e Folger tiveram de ficar em pé para não serem estranguladas. Sebring agonizava, e os seus gemidos incomodaram Watson, que começou a esfaqueá-lo até deixá-lo em total silêncio.

Desesperado, Frykowski tentou fugir, mas foi capturado no gramado. Ele levou 51 facadas e dois tiros. Folger foi esfaqueada 29 vezes. Ela ainda tentou fugir, mas também foi pega no gramado. “Eu desisto, você me pegou”, suplicou ela para Tex.

Enquanto os invasores esfaqueavam Folger e retalhavam seu rosto, Tate implorava pelas duas vidas que nela residiam: a dela e a de seu bebê.

“Escute aqui vadia, não me importo com você! Não me interessa se vai ter um bebê! É melhor você se preparar. Você vai morrer, e eu não sinto nada por isso”, gritou Atkins para Tate .

Enquanto Tex aterrorizava Sharon Tate usando uma faca em seu rosto, Atkins começou a esfaqueá-la. Tate morreu pedindo socorro e chamando por sua mãe. Após desferir vários golpes, Atkins segurou o corpo inerte de Tate, aninhando-o nos braços, pôs a mão sobre seu seio e lambeu o sangue nos dedos.

A terrível carnificina ocorrida no número 10050 da Cielo Drive em Los Angeles naquela madrugada terminaria com os assassinos escrevendo com o sangue das vítimas a palavra “Porco” na porta da frente da casa.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Cena do Crime

Os corpos de Sharon Tate e Jay Sebring. Créditos: Crime shot.

Foto: O corpo cravejado de facadas de Wojciech Frykowski. Créditos: Crime shot

O corpo cravejado de facadas de Voytek Frykowski. Créditos: Crime shot.

Foto O rosto retalhado de Abigail Folger. Créditos Crime shot

O rosto retalhado de Abigail Folger. Créditos Crime shot.


seta

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Mito do Crime

Psicopata, vigarista, racista e cafetão. Olhos em chamas, barba por fazer, cabelos despenteados e uma suástica tatuada na testa… a diabólica imagem de Charles Manson está gravada no inconsciente popular e é reconhecidamente assustadora.

Após quatro décadas dos seus terríveis atos, os assassinatos orquestrados por ele continuam a exercer um mórbido fascínio. Dezenas de livros já foram escritos sobre ele nesses 40 anos e, agora, uma meticulosa pesquisa feita pelo biógrafo Jeff Guinn surge como um guia definitivo sobre o homem que entrou para a história como sinônimo do mal.

Em agosto de 2013 foi lançado The Life and Times of Charles Manson. Poderia ser apenas mais um livro sobre o madman, não tivesse Guinn incluído imagens raríssimas do criminoso, além de contar histórias nunca antes citadas, histórias que mostram como Manson realmente era a encarnação maléfica de tudo que havia de mais insidioso em relação à contracultura dos anos 1960.

O livro de Jeff Guinn é realmente interessante. Pela primeira vez, a irmã de Manson, Nancy, e sua prima, Jo Ann, falam do violento comportamento do madman e sua arte em manipular, habilidade que já era visível desde os cinco anos de idade.

No livro, Guinn revela que a própria mãe de Manson temia, desde pequeno, o filho “de olhos loucos”. Aos cinco anos de idade ele tinha um sorriso tímido, cabelo penteado para trás e parecia ser a imagem da inocência imaculada. Mas segundo o biógrafo, a natureza maléfica que explodiu em violência nas noites de 8 e 9 de Agosto de 1969 se escondia dentro dele desde essa idade.

Manson era uma criança “desagradável” que, mesmo com pouquíssima idade, já mentia sobre tudo. Como muitos pequenos psicopatas, Charlie, como era chamado, culpava a primeira pessoa que via pela frente quando era pego em suas mentiras ou em alguma de suas malcriações. “A criança também era obcecada em ser o centro das atenções”, escreve Guinn.

De acordo com sua prima Jo Ann, cujos pais criaram Manson em sua casa na cidade de McMechen, em West Virginia, Manson sempre teve uma áurea envolta pela maldade. “Não havia nada de feliz sobre ele. Ele nunca fez nada de bom.”, diz ela.

JoA nn começou a temer o primo quando ele ficou obcecado com facas e armas de fogo. Além disso, quando Manson perdia o controle, seus olhos brilhavam com uma intensidade que mostrava à prima que ele realmente seria capaz de ferir ou, até mesmo, matar alguém.

Em uma ocasião, Charlie, aos 9 anos, entrou no quarto de Jo Ann enquanto ela arrumava sua cama. Empunhando uma foice que havia encontrado no quintal, o menino propositadamente parou em sua frente, e quando Jo Ann pediu para que ele se movesse, Charlie respondeu: “Me obrigue”. Jo Ann empurrou o primo e o trancou. Tal ato enfureceu o pequeno Manson, que cortou cortou toda a porta. “Ela estava certa de que ele pretendia usar a foice sobre ela”, escreve Guinn.

Guinn diz que todas as habilidades exibidas pelo menino Charlie na infância eram criminais. Ele não usava nada que aprendia para o bem; tudo era voltado para a prática de crimes e violência. Aos 12 anos já era um mentiroso patológico que roubava carros, caixas registradoras de lojas e frequentava reformatórios e prisões.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Charles Manson

Charles Manson fotografado no dia em que foi mandado para um reformatório de menores infratores. Ele havia acabado de manipular o Juiz dizendo ser católico, o que fez com que o Juiz o enviasse para uma casa com pouca segurança. Ele fugiu quatro dias depois. Data: 1947. 

Outro ponto interessante do livro é a relação de Manson com sua mãe. Ele sempre disse que ela era uma vagabunda e prostituta adolescente, e que por isso nunca conhecera seu pai. Guinn não isenta a mãe de Manson pelo ambiente sujo que criou o filho, mas também não a culpa pelo comportamento criminoso do filho, além disso, ele conta uma história diferente.

A mãe de Manson, Kathleen, tinha apenas 15 anos quando foi seduzida por um homem mais velho que lhe prometeu uma vida de glamour. O homem, claro, queria apenas manter relações sexuais com a adolescente ingênua; conseguiu. Ela engravidou de Charlie e o homem sumiu no mundo. Posteriormente, seu pai foi obrigado a visitar o filho devido a insistência de Kathleen, que lutava por seus direitos através dos tribunais.

Kathleen, de Kentucky, morava em Ashland, Ohio, quando Manson nasceu. Pouco depois de dar à luz, ela casou-se com William Manson, homem que deu nome ao seu filho. Mas o casamento durou apenas dois anos. O fracasso no amor e a difícil e pobre vida que levava numa cidade do interior fez com que Kathleen, aos 17 anos, cruzasse o caminho errado. Quando ela foi presa por roubo, em 1939, Charlie foi morar com os tios e a prima Jo Ann em McMechen.

A irmã de Manson disse a Guinn que seu irmão sempre mentiu sobre sua infância. Ele nunca foi um filho ilegítimo e sua mãe nunca foi uma prostituta. De qualquer forma, não há como negar que o início da vida de Manson foi difícil e complicado. Entretanto, quando ele tinha escolhas, sempre optava pelo caminho errado.

Guinn revela no livro que sua longa vida de predador das ruas aperfeiçoou seu jogo louco, que ele usava para manipular os que estavam a sua volta, principalmente autoridades. Vítima e perpetrador de abusos sexuais e espancamentos pelos reformatórios que passava, Manson encontrou como melhor defesa convencer juízes de que era louco. Seus tiques faciais, gritos, braços movendo-se em contrações musculares… tudo era cuidadosamente planejado pelo madman.

Mas apesar do comportamento voltado para o crime e violência, por um breve instante de sua vida, Manson se esforçou para se endireitar. Aos 20 anos ele casou-se com Rosalie Willis, de apenas 15 anos. Pouco depois, Rosalie deu à luz ao único filho do casal. Mas nem o bebê serviu de motivação para Manson; logo ele estava de volta para as ruas e para detrás das grades.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Casamento

Em uma foto nunca antes vista, Guinn mostra Manson e Rosalie Willis, durante o casamento de ambos. Ele tinha 20 e ela 15 anos. 

Baixinho, com 1,62m, e de fala mansa, Manson aperfeiçoou na prisão a arte de manipular pessoas: escutando detentos mais velhos, lendo livros e participando de um curso de Dale Carnegie (Como Ganhar Amigos e Influenciar Pessoas). E foi esta habilidade adquirida aliada com seu incrível dom em farejar pessoas vulneráveis que o fez ser tão bem sucedido em seus demoníacos propósitos.

Em 1967, com 32 anos, Manson, que aprendera a tocar violão sozinho e se interessara por cientologia e budismo enquanto esteve na cadeia, foi solto no mundo. Partindo para São Francisco em pleno “verão do amor”, o carismático Manson rapidamente dominou o jargão psicodélico da contracultura. Com sua lábia afiada, atraiu um bando de desertores e viciados em drogas, muitos deles mulheres ingênuas e emocionalmente instáveis que logo passaram a reverenciá-lo como um guru.

Charlie e seus seguidores se instalaram no Rancho Spahn – um local inóspito e sujo nas proximidades de Los Angeles, conhecido por ter servido como set de filmagem de filmes de faroeste – desfrutando de uma existência miserável e orgástica supervisionada por seu messias, cada vez mais enlouquecido. Reviravam lixo e usavam e revendiam drogas.

No seu auge, o grupo que ficou conhecido como “Família Manson” teve cerca de 30 pessoas. Uma delas era Susan Atkins, filha de pais alcóolatras, andarilha e uma pessoa “viciada em atenção”. Segundo diz Guinn no livro, antes de conhecer Manson, Susan havia sido dançarina no Satanist Anton LaVey’s Witches’ Sabbath Club (que nome!), seu “emprego dos sonhos”. Mas a moça durou pouco por lá. O uso excessivo de drogas e a saúde debilitada pela gonorreia selaram sua “carreira”.

Manson chamava seus seguidores de “slippies” (escorregadios) e alimentava seus egos com doses rituais de LSD e orgias sexuais. Para manter o controle sobre eles, arranjava trabalhos físicos para mantê-los desgastados ao mesmo tempo em que lavava suas mentes com sua pseudofilosofia de amor, paz e morte, esta última, sendo “a mesma da vida”. As mulheres deveriam ser subordinadas aos homens, e todos eram subordinados a Manson. O madman dizia ser Jesus e eles os escolhidos. Mas na verdade, o que Manson realmente queria era ser maior do que os Beatles.

Usando como isca os favores sexuais de suas seguidoras do sexo feminino, Manson entrou no círculo musical de ninguém menos que Dennis Wilson, baterista de uma das maiores bandas de rock da história, os Beach Boys. Wilson chegou até a convencer os Beach Boys a gravarem uma composição de Manson, a profética Cease to Exist, embora sob um título diferente (o que fez Manson acusá-los de plágio). O famosíssimo produtor musical Terry Melcher também se viu nas garras do madman. Filho de Doris Day e produtor de bandas como The Byrds, Melcher chegou a discutir a possibilidade de produzir um disco de Manson. De fato, Manson possuía um certo dom musical, mas nada além disso. Em dado momento, seu comportamento começou a incomodar Dennis Wilson que, claro, deu um jeito de sair fora daquele lunático. Era a faísca que faltava para a mente doentia de Manson.

Manson pode ter se sentido rejeitado e iludido pelos seus colegas famosos. Entretanto, a pólvora para o banho de sangue que se seguiu veio dos Beatles.

Após ter sido excluído do círculo social de Wilson-Melcher, Manson voltou-se para os seus seguidores com uma profecia. Segundo ele, o disco The White Album, dos Beatles, era na verdade uma mensagem codificada do fim dos tempos. Uma guerra apocalíptica chamada Helter Skelter (nome de uma das músicas do disco) seria travada entre negros e brancos. Manson disse que os negros oprimidos se rebelariam contra os “porcos” privilegiados (brancos ricos). Mas sem inteligência e organização para se governarem, esses mesmos negros se voltariam para ele como seu salvador, e Manson levaria sua família em carros buggies até o Vale da Morte (deserto californiano), e partindo de lá eles dominariam o mundo. Se Manson acreditava ou não em seu absurdo, isto ainda é uma questão em aberto. Mas o grande absurdo da história é que seus seguidores engoliram a “profecia”, muitos acreditando que encontrariam um poço sem fundo no deserto onde passariam 100, 200, 300 anos sem envelhecer e se transformariam em “elfos alados”. Uma das seguidoras de Manson, Leslie Van Houten, chegou a passar mal na cadeia por achar que “asas de elfos haviam prematuramente brotado de suas costas.”

Manson, então, ordenou que seus seguidores cometessem uma série de assassinatos. O objetivo desses assassinatos era apressar essa guerra racial e, principalmente, chocar o mundo. A primeira pessoa a morrer foi Gary Hinman, um traficante que Manson acreditava ter passado-o para trás num negócio de drogas.

Após o assassinato de Hinman, Manson decidiu vingar-se do produtor Terry Melcher. Melcher morava em uma casa na Cielo Drive, local que Manson já havia visitado com Dennis Wilson e o próprio Melcher. Quando Melcher se mudou, a casa foi ocupada pela atriz Sharon Tate e seu marido, o cineasta Roman Polanski. Manson ordenou que seus seguidores invadissem a casa e assassinassem quem estivesse lá. Sharon Tate e seus amigos morreram no lugar do verdadeiro alvo: Terry Melcher.

Na noite seguinte, seis membros da família Manson foram até uma casa num subúrbio de classe média de Los Angeles. O local foi escolhido por Manson aparentemente porque ele havia estado lá uma vez participando de uma festa naquela rua. O casal Leno LaBianca e Rosemary LaBianca foi brutalmente assassinado. As palavras “Morte aos Porcos”, “Ascensão” e “Healter Skelter” (sic), foram escritas com o sangue das vítimas na geladeira e parede da casa.

O massacre de Sharon Tate e seus amigos provocou pânico em Los Angeles e repercutiu em todo país. No final, Manson e sua “Família” foram presos por conta da desmiolada Susan Atkins, que confessou os crimes para duas colegas de cadeia (ela e a família foram presos pouco tempo depois dos assassinatos por roubo). Ela ainda disse que o grupo planejava assassinar pessoas famosas. Richard Burton, Elizabeth Taylor, Frank Sinatra, Steve McQueen e Tom Jones estavam na lista negra da família. Segundo Atkins, era importante selecionar vítimas importantes para “chocar o mundo”. Elizabeth Taylor teria as palavras “helter skelter” talhadas no rosto e os olhos arrancadas. O ator Richard Burton seria castrado e seu pênis colocado junto com os olhos de Taylor dentro de uma garrafa e enviados para o cantor Eddie Fisher. Já Frank Sinatra seria esfolado vivo enquanto ouvia sua própria música. A família faria bolsas da pele do cantor e venderia em lojas hippies. Tom Jones seria degolado, mas antes seria forçado a manter relações sexuais com Atkins.

Manson e seus lunáticos, felizmente, não tiveram tempo de colocar em prática seu diabólico plano, entretanto, após o assassinato na casa de Tate e do casal LaBianca, eles ainda assassinaram o funcionário do Rancho Spahn Shorty Shea, que na mente de Charlie o havia delatado para a polícia num episódio envolvendo roubo de carros. “Charlie não gostava de delatores. Eles o destroçaram como fazemos com um peru de Natal. Eles o decapitaram e em seguida cortaram fora seus braços, de maneira que ele não pudesse ser identificado. Eles estavam rindo sobre isso”, disse Danny DeCarlo, membro de uma gangue de motoqueiros e que por algum tempo foi um membro da Família Manson. Posteriormente a polícia desenterrou o corpo de Shea e descobriu que ele não havia sido desmembrado.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Prisao

Charles Manson (centro) é preso no Rancho Spahn. Utilizado como set de filmagens de alguns filmes de Hollywood, o rancho tornou-se famoso por ter sido o lar de Charles Manson e sua trupe de comandados. Créditos: museumsyndicate.com.

O sagaz Manson sabia como se safar e tentou defender-se a si mesmo durante o seu julgamento. Ele, claro, faria mais um de seus teatros, tentando provar ao júri que era louco. Mas sua solicitação foi negada. Durante o julgamento, que a propósito foi um verdadeiro show de horrores, ele disse nunca ter matado ninguém, o que é uma irônica verdade, e que nunca ordenou nenhum assassinato. “Essas crianças foram encontrando a si mesmos. O que eles fizeram, se eles fizeram, é com eles”, disse ele. A tática era uma velha técnica de Dale Carnegie: “Faça as pessoas acreditarem que sua ideia é a deles.” Quando Manson ordenou os assassinatos, ele fez de uma maneira que os seus seguidores pensassem que a ideia de matar era deles, assim, caso ele fosse preso, poderia dizer que, além de não ter matado ninguém, a ideia dos assassinatos saíra da cabeça dos seus seguidores, não da dele.

Jeff Guinn evita cuidadosamente qualquer mitificação em torno de Manson, é imparcial, e isso é um ponto positivo tendo em vista a heroicização que as pessoas costumam atribuir a pessoas como Manson.

Mas se Guinn é imparcial, o mesmo não podemos dizer do mundo ao nosso redor. É interessante notar que, décadas após os assassinatos, Charles Manson cada vez mais torna-se um ícone, uma espécie de lenda viva da maldade, um homem que, mesmo trancafiado, conseguiu atravessar a barreira do tempo e chegar ao novo século mais vivo e influente do que nunca. E porque não ainda perigoso? Enquanto ele não tem acesso a um computador na prisão, sua página “oficial” no Facebook tem 90 mil “seguidores”. Pra um homem que conseguiu assustar o mundo com pouco mais de meia dúzia de comandados, imagine agora o que ele não poderia fazer com um exército de 90 mil fãs?

Curiosidades:

Charles Manson chegou a gravar audições no estúdio da casa do gênio Brian Wilson, mas as inexpressivas gravações não chamaram a atenção da cúpula dos Beach Boys. “Brian Wilson sequer deixou o quarto para cumprimentar Charlie. A esposa de Brian, Marilyn, horrorizada com seus visitantes desleixados, em particular Susan Atkins, limpou todos os banheiros da casa com desinfetante depois que eles partiram.”, escreve Guinn.

O roqueiro Neil Young chegou a recomendar Manson para Mo Ostin, da Warner Records, mas o manager não ficou impressionado. Após a negativa do homem da Warner, Manson voltou suas fichas para o produtor Terry Melcher. “O roqueiro Neil Young visitou Dennis um dia, improvisou alguns acordes para acompanhar as letras bobas que Charlie estava cantando, e gostou do resultado o bastante para sugerir a Mo Ostin da Warner Brothers Records que valia a pena dar uma ouvida em Charlie.”, escreve Guinn.

A sexy adolescente Ruth Ann Moorehouse era a seguidora de Manson preferida de Terry Melcher. Ele tentou levá-la para sua casa como empregada doméstica, mas sua mulher, a modelo e atriz Candice Bergen, enquadrou o maridão dizendo que quem mandava na casa era ela.

Apesar de fazer orgias com as seguidoras de Manson, Melcher nunca permitiu que o madman entrasse em sua casa na Cielo Drive. Já Dennis Wilson era diferente.

Manson assumiu que tudo na casa de Wilson, dos seus carros às suas roupas, poderiam ser usados e levados pela família. Wilson só conseguiu se livrar da família quando mudou de residência sem dizer para Manson onde seria seu novo lar. “Wilson vinha pensando insistentemente em todo o dinheiro que ele gastou com Charlie e a Família, além disso, em uma viagem recente até o Rancho Spahn, Clem tomou a Ferrari de Wilson seguindo o conselho de Charlie e a destruiu.”, escreve Guinn.

Em 1970, o ex-colega de prisão de Charlie Phil Kaufman lançou o álbum Lie. O álbum possui 13 músicas, todas compostas e cantadas por Charles Manson. O disco inclui Cease to Exist, música que os Beach Boys gravaram sob o nome de Never Learn Not to Love. Na época, pouco mais de 300 cópias do álbum foram vendidas. “Uma coisa era os proprietários de head shops acharem Charlie fascinante, mas outra coisa era aparentemente apoiar assassinos colocando seu disco à venda. Kaufman deu o melhor de si, mas logo percebeu que não havia mercado, underground ou de outra forma, para um álbum de Charlie Manson.”, escreve Guinn.

A música mais conhecida de Manson, Look at Your Game, Girl, causou alvoroço quando foi incluída como faixa bônus no álbum do Guns N Roses The Spaghetti Incident?, de 1993. A versão original, cantada pelo próprio Charles Manson, aparece no mais conhecido de seus vários álbuns, LIE, gravado em Agosto de 1968 e lançado em 1970.

Enquanto esteve na prisão, Manson participou de um curso de Dale Carnegie, conhecido palestrante que desenvolveu um dos mais famosos cursos de habilidades interpessoais e oratória em público. Posteriormente Manson utilizou as técnicas aprendidas com Carnegie para recrutar e controlar sua família de desajustados. “Era como se Dale Carnegie não apenas lesse sua mente, mas recrutasse Charlie como um discípulo ao elaborar seus próprios pensamentos.”, escreve Guinn.

A suposta capacidade mística de Manson em ler mentes e fazer com que seus seguidores acreditassem nisso foi descaradamente copiada do livro How to Win Friends and Influence People (Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas). Ele também copiou ideias da cientologia e Bíblia. “Mais tarde, quando a polícia, juiz e júri lutavam para entender como Charlie Manson conseguiu convencer os outros a carregar seus direcionamentos criminosos, eles puderam encontrar a resposta lá em How to Win Friends and Influence People.”, escreve Guinn.

Manson negociava favores sexuais de suas seguidoras em troca de comida. Era assim que ele conseguia com balconistas de supermercados um de seus alimentos favoritos: barras de chocolates.

Antes de sua prisão, Manson dizia a seus seguidores que caso fosse preso iria interpretar no tribunal o “Charlie Louco”, uma espécie de personagem criado por ele com o propósito de convencer o júri de que era insano. Mais de 40 anos depois, alguns de seus seguidores ainda dizem que suas aparições tresloucadas nada mais são do que teatro. “Mas Leslie se lembrou da promessa de Charlie para a Família que, se um dia fosse preso, interpretaria o “Charlie Louco”. O que o mundo havia visto em todos os anos desde sua prisão e condenação pelos assassinatos Tate e LaBianca era um ato.”, escreve Guinn.

Em 2012, um músico de Los Angeles chamado Matthew Roberts veio a público pedir ajuda para descobrir quem era seu pai. Sua mãe era uma das seguidoras de Manson e participara de uma orgia sexual com o madman em 1967. Em uma carta escrita para Roberts, Manson comprovou a história de sua mãe e disse lembrar muito bem da mulher. Mas apesar das suspeitas, testes de DNA excluiram a possibilidade de Manson ser o pai biológico de Roberts.

Já Charles Milles Manson Jr., o filho que Charles Manson teve com Rosalie Willis, mudou de identidade e passou a se chamar Jay White. Ele cometeu suicídio em 29 de junho de 1993. Seu corpo foi encontrado com um tiro na cabeça numa desolada rodovia da cidade de Burlington, Colorado, a oeste da divisa com o Kansas.

Jason Freeman, filho de Jay White e neto de Charles Manson, atualmente vive em Ohio. Diferentemente do seu avô, ele mede 1,87 metros e é lutador profissional de MMA. Sua última luta ocorreu no Strikeforce, um dos maiores eventos do mundo e que recentemente foi comprado pelo UFC. Seu cartel é de 6 vitórias e 4 derrotas.

  • Perfil de Jason Freeman no Sherdog.
  • Arquivos do FBI sobre Charles Manson. Baixe aqui.

Abaixo, traduzimos para os leitores do blog o prólogo e os capítulos 1 e 2 deste ótimo livro sobre um dos mais famosos psicopatas do século 20. E fiquem ligados, The Life and Times of Charles Manson será lançado no segundo semestre de 2014 pela editora DarkSide Books sob o nome Charles Manson, a Biografia.

Informações

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Livro

Título: The Life and Times of Charles Manson

Título em português: A Vida e os Tempos de Charles Manson

Autor: Jeff Guinn

Língua: inglês

Editora: Simon & Schuster

Número de páginas: 512

Lançamento: 6 de agosto de 2013

Preço: U$ 19.29 (Amazon)

Resumo: Mais de quarenta anos atrás, Charles Manson e sua comunidade de maioria feminina assassinaram nove pessoas, entre elas Sharon Tate, atriz de cinema e grávida de oito meses. É o culminar de uma carreira criminosa que o autor Jeff Guinn traça desde a infância. Guinn entrevista a irmã e uma prima de Manson, além de amigos de infância, companheiros de cela e até mesmo alguns membros da Família Manson. Guinn faz descobertas sobre a noite dos assassinatos, respondendo questões não resolvidas.

Livro: A Vida e os Tempos de Charles Manson

Prólogo, Capítulos 1 e 2

  • Tradução por: Victória, Thaís, Higor, Maria Eduarda e Jackson
  • Revisão por Ester Farias

PRÓLOGO – Charlie no Whisky


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Em uma noite do verão de 1968, três carros transitavam pela avenida Sunset, em Los Angeles. Eles pararam na longa fila de engarrafamento num trecho da longa e sinuosa estrada conhecida como Strip, um trecho de 2.4 quilômetros de extensão com boates, lojas e restaurantes, e que foi um dos epicentros de vanguarda da contracultura na América.

Trezentos e oitenta milhas para o norte, a vizinhança de Haight-Ashbury, em São Francisco, ainda estava agarrada à sua reputação de capital da ideologia Flower Power (Poder das Flores) e grupos hippies. Mas suas pretensões de conduzir o mundo a uma nova era de esclarecimento através da grande música, amor livre, substâncias químicas “expansoras da mente” e desdém pelas convicções da classe média, foram dissolvidas em violência, estimulada pelas drogas.

Sunset Strip era música, sexo e drogas. Mas poucos entre as multidões de energéticos que enchiam as calçadas fingiam que as motivações eram qualquer coisa que não autoindulgentes. Como a desordem civil varreu o resto da América em resposta ao Vietnã e à inquietação racial, a única rebelião principal na Strip envolvia o fechamento de um clube popular e a criação de um toque de recolher para menores de 18 anos às 22 horas da noite.

Os jovens se reuniam no Haight, na esperança de encontrar Utopia; jovens peregrinos vinham a L.A. (Los Angeles) com o sonho de fazer amizade com celebridades e enriquecer e ganhar fama com isso. Tais sonhos foram encorajados pelo igualitarismo tradicional da Strip. Várias estrelas fazendo shows ou frequentando os famosos clubes alimentavam a expectativa de entrosamento com o povo, conversando amavelmente como se fossem iguais, e no caso de quem havia conseguido subir na indústria fonográfica, oferecendo conselhos ao fluxo infinito de pessoas que queriam ser como as celebridades e que sentiam, de certa maneira, que suas músicas sobre amor, espiritualidade e revolução, os tornariam tão grandes quanto os Beatles – ou maiores.

Os jovens homens atrás das rodas dos carros que avançavam lentamente pela Sunset – às vezes levavam-se horas para manobrar devido ao tráfego e multidão da Strip – iam para uma noite de diversão desfrutando da fama que tão duramente eles alcançaram. Terry Melcher, Gregg Jakobson e Dennis Wilson eram amigos próximos há anos. Individualmente, eles tinham alcançado o ápice no negócio da música: Melcher como um produtor, Jakobson como um talentoso olheiro/organizador de gravações, e Wilson como o baterista dos Beach Boys, o mais famoso do trio.

Junto eles eram parte de uma sociedade informal conhecida como os Penetradores Dourados. A sociedade era limitada a qualquer um que tivesse relações sexuais com alguma mulher pertencente a uma das famílias mais influentes do show business. Não era a mais exclusiva das organizações; algumas destas mulheres eram tão promíscuas quanto os homens que as persuadiam. O triunvirato de Melcher-Jakobson-Wilson se revelou no hedonismo; em uma cidade onde há muito tempo os limites morais ou legais haviam sido renunciados pela fama, a filosofia deles era “Nós somos nós, não há nenhuma regra, nós conseguimos fazer isto”.

Quando as celebridades de L.A. queriam manter discreta a sua noite na cidade, elas frequentavam clubes onde somente era permitida a entrada de grandes estrelas. Mas nesta noite, Melcher, Jakobson e Wilson estavam com um humor sociável. Parte da diversão em ser famoso era ser bajulado pelos fãs. Mas havia uma considerável diferença em ser aceito de cara por uma estrela, ou seja, havia uma diferença em ser bajulado por pessoas bonitas e por um bando de adolescentes sujos. Os clubes populares na Strip faziam arranjos especiais para as estrelas que apareciam, normalmente com assentos restritos de forma que outros visitantes somente pudessem ver de longe as celebridades dançando.

Para estrelas e público em geral, a dança era uma grande parte de uma noite na Strip. Enquanto atos ao vivo eram tocados, uma atenção respeitosa era requerida. DJs tocavam entre os sets, e era essa a hora para que todos pudessem se mostrar, dançando no ritmo e tentando superar uns aos outros nos mais modernos passos. Como gigantes do cenário musical de L.A., Melcher, Jakobson e Wilson iam a um lugar apropriado na Strip. The Whisky a Go Go, localizado na Sunset, atrás de Beverly Hills, era o clube mais famoso na cidade e provavelmente em toda a América.

Revistas como Time e Playboy falavam do clube como o melhor lugar para visitar e ser visto. A cada noite, longas filas se estendiam por quarteirões duas horas ou mais antes do The Whisky abrir, às 20:30. O couvert do lugar mantinha de fora os mendigos e a ralé. Habitualmente sempre se antecipavam emoções acerca de encontrar famosos em qualquer outro clube da Strip.

Artistas no topo da parada gravavam seus discos ao vivo no Whisky. As flores da grande cena musical normalmente estavam lá; recentes visitas incluíam Jimi Hendrix, Neil Young e Eric Clapton. Hendrix e Young até mesmo saltaram para a pista de dança.

The Whisky normalmente alternava bandas menos conhecidas com grandes nomes como The Turtles e Eric Burdon e The Animals. O clube foi um dos primeiros locais dos tempos modernos da Strip a colocar músicos negros.

Entre outros, Buddy Guy e Sly and the Family Stone enfeitou sua fase, e quando Little Richard realizou um show, deuses do rock como Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, estavam lá para ouvi-lo.

Toda visita ao Whisky era, de certa forma, especial. Qualquer um em Los Angeles que tinha pretensões em aparecer tinha que fazer uma cena. Até mesmo Elizabeth Taylor e Richard Burton festejaram por lá.

As multidões noturnas significavam que os locais de estacionamento estavam todos escassos, mas isso não era nenhum problema para Melcher, Jakobson e Wilson.

Os manobristas dos estacionamentos da Strip sempre achavam lugares para colocar os veículos das estrelas. Melcher entregava as chaves de um Mercedes preto conversível de quatro portas. Jakobson chegava em um preto, novo, 1939 Pontiac; ele tinha trocado há pouco um Porsche para um vintage ride. Wilson pulava de um burgundy Rolls-Royce recentemente dado a ele pelo irmão mais velho, Brian, líder dos Beach Boys.

Quando o trio entrou no Whisky – não havia necessidade de ficar na fila ou pagar o couvert da noite -, todos estavam de olho neles. Wilson, um homem alto e bonito, seria virtualmente reconhecido por qualquer fã de música no país. Melcher e Jakobson não eram nomes tão conhecidos na América Mediana, mas na multidão do Whisky, de maioria mais experiente no aspecto da cena musical de Los Angeles, todos sabiam quem eles eram e o por quê de serem importantes.

Essa não era a realidade do quarto membro da festa, que chegou no Rolls Royce de Wilson. Para os curiosos do lado de fora do Whisky, não havia nada de especial no homem de 33 anos de idade chamado Charles Manson, apenas um entre milhares de cantores e compositores ambiciosos que fizera seu caminho para L.A. com o objetivo de conseguir contratos com gravadoras e se tornarem superstars. Manson era baixo, cerca de 1,60m de altura, e magricela.

Durante grande parte do verão, ele tinha tido a sorte de se encontrar com o baterista dos Beach Boys, que era famoso por dar vagas de prazo temporário em sua luxuosa mansão, praia abaixo na Sunset Boulevard. A maioria deles saía depois de um ou dois dias; Manson não mostrou nenhum sinal de querer partir. Durante um tempo, estava tudo bem para seu anfitrião.

Além de escrever algumas canções interessantes e jorrar uma viciante forma de filosofia sobre se render à individualidade, Manson tinha com ele um acompanhamento de garotas que o adoravam e ficavam felizes em se envolver em qualquer forma de sexo, conforme sua estrela do rock desejasse. Assim, o verão de Wilson era um espetáculo carnal, embora ele tivesse de fazer viagens frequentes ao médico, já que as garotas de Manson mantinham-no constantemente infectado com gonorreia. Entre folias de sexo, Wilson, bem-humorado, apresentou a música de Manson aos outros integrantes dos Beach Boys e para seus amigos da cena musical de Los Angeles. Até o momento, ninguém ficou impressionado o suficiente pelas músicas de Manson, afim de oferecer ao andarilho desalinhado uma gravadora com o contrato que ele desejava.

Mas Charlie tinha fé no seu próprio talento e na habilidade de Wilson, quase uma obrigação, de fazer isso acontecer.

Manson assumiu que era sempre bem-vindo quando Wilson saía para alguma festa ou para um clube. Ele compartilhava o que possuía – sua música, conversa peculiar, e mulheres sexualmente compatíveis à sua vontade – e esperava que Wilson fizesse o mesmo. Era um acordo desigual, e Wilson ficou cansado. Já era suficientemente ruim ter Charlie sempre perturbando o baterista dos Beach Boys quando a banda ensaiava suas canções, mas o líder e suas seguidoras vinham fazendo um furo considerável na fortuna pessoal de Wilson, justamente na época em que a venda de discos e o público nos shows começava a cair de forma alarmante. Eles destruíram a Mercedes de Wilson, que não possuía seguro, e criaram inúmeras contas com médicos e dentistas. Eles invadiram os guarda-roupas de Wilson e cortaram suas roupas para fazer robes de retalhos. Ao mesmo tempo que vasculhavam lixeiras de supermercados à procura de comida, eles também esvaziavam as despensas e geladeiras de Wilson. Eles até achavam que as contas de couvert de Wilson estavam à sua disposição; – enquanto ele havia estado longe de casa numa curta turnê com os Beach Boys, os convidados de Wilson abriram uma conta de 800 dólares numa panificadora local, se deliciando com os mais caros queijos, iogurtes e sucos de frutas. Por mais que Wilson apoiasse o conceito de compartilhamento e generosidade, ele estava mais do que pronto para deixar aqueles aproveitadores irem embora.

Recentemente Wilson também começou a ter medo de Manson. Preocupado com o envolvimento dos seus clientes com uma pessoa de caráter duvidoso, a administração dos Beach Boys fez uma verificação dos antecedentes de Charlie, e informou a Dennis que seu hóspede tinha em sua ficha assalto à mão armada e estava em liberdade condicional. De início, pelo menos, isso não incomodou Wilson. Em todo esse tempo, ele sabia que seu parceiro tinha um passado criminoso.

Manson gostava de dizer que a prisão era o seu pai, e as ruas, sua mãe. Ter fichas criminais era uma coisa atrativa para os jovens, numa época em que estava na moda acreditar que o governo era o inimigo. Mas quanto mais Manson e seu grupo heterogêneo continuavam vivendo com Wilson, mais seus entretenimentos filosóficos e divertidos começavam a ficar obscuros. Ele parecia acreditar que possuía poder sobre a vida dos seus seguidores e amigos, incluindo seu famoso protetor. Uma vez, ele colocou uma faca na garganta de Wilson e perguntou como o famoso baterista se sentiria se ele o matasse. Wilson murmurou “faça isso”, e Manson se afastou. O fato de Wilson permitir que Charlie continuasse andando com ele dizia muito sobre as tendências auto-destrutivas do baterista.

Embora Wilson e seus companheiros Golden Penetrators não falassem muito, levar Manson ao Whisky naquela noite de verão fez ele lembrar-se de onde vinha. Ao contrário do que Charlie claramente acreditava, desfrutar da generosidade de uma estrela não fazia dele uma. O Whisky era o ápice do legal, lar dos populares, mas intimidante pra todos os outros. O clube não era grande, com uma capacidade pra 350 pessoas, mas a decoração com certeza impressionava. Decorado em tons dramáticos de vermelho e preto, o local contava com um palco no meio de uma pista de dança elevada. Haviam algumas mesas para o público e uma pequena área separada para as personalidades empresariais. Penduradas acima do chão, estavam “gaiolas” de vidro ocupadas por dançarinas seminuas que se empinavam provocativamente quando as bandas davam uma pausa, entre as 9:30 e 11:30. Essas mulheres eram chamadas de GoGo Dancers, e esse nome até hoje é usado em clubes de todo o mundo.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - The Whisky a Go Go

Fachada da casa de shows The Whisky a Go go, em Los Angeles. Nesta foto tirada em 1966 podemos ver quais as bandas que tocariam naquela noite. Fraco o lugar, né? Créditos: thedoors.com.

Para os clientes não-celebridades do Whisky, estar fora da pista de dança era o verdadeiro ponto alto da noite. A etiqueta não-escrita do clube proibia você de prestar muita atenção nos outros dançarinos; o conceito era de que você era espetacular e as pessoas é que deviam vir atrás de você.

Como resultado, ninguém olhava pra ninguém, e estar sozinho dava a impressão de estar “causando”. Era difícil, em qualquer momento, encontrar espaço na pista de dança. Os que queriam dançar tinham que esperar os que estavam dançando dar uma pausa pra ir no banheiro ou tomar um ar, e aí disputavam com outros esperançosos o espaço. Olhos penetrantes e cotovelos também penetrantes podiam ajudar.

Desde que Melcher, Jakobson e Wilson se tornaram clientes, uma das cabines de celebridades estava sempre disponível pra eles. Quando eles foram até ela, Manson se separou, dizendo que queria dançar. Charlie não poderia ter escolhido melhor momento para receber seu castigo. Pessoas com roupas cafonas, marias-celebridade que não dançariam com um zé-ninguém. E mesmo se isso acontecesse, Manson seria apenas mais um corpo sendo esmagado na multidão da pista de dança. Wilson, Melcher ou Jakobson poderiam ter sido generosos e avisado Manson que o espaço de dança era feito pras estrelas e seus auxiliares, mas deixaram Manson se chafurdar sozinho. Mais cedo ou mais tarde ele voltaria à cabine, lembrando-se do aviso inconfundível de que não importava o quão grandes eram seus sonhos filosóficos, ele era apenas mais um cisco insignificante na galáxia de L.A.

Manson desapareceu na multidão, e os três amigos beberam uns drinks e conversaram até a comoção começar. Olhando ao redor, eles presenciaram algo único na história do Whisky a Go Go: no lugar de competir pra ver quem era o mais-mais, todos estavam lutando para esvaziar a venerada pista de dança, onde eles estavam tão apertados. Melcher, Jakobson e Wilson trocaram olhares confusos. Eles se levantaram para ver melhor, e foi quando eles viram que uma figura conhecida estava no meio da pista de dança: Charlie Manson, girando ao som da música. A sua dança se desenvolvia de um modo maníaco; ele tombava sua cabeça e jogava os braços. Os amigos concordaram que espasmos elétricos pareciam sair dos cabelos e dedos de Charlie.

A multidão havia saído da pista de dança como se estivessem sido guiados por um campo de força irresistível. Agora eles rodeavam a pista, hipnotizados pela visão de um dervixe rodopiante. Nas semanas passadas, Wilson, Jakobson e Melcher tinham visto Manson encantar, sem esforço nenhum, pequenas platéias em jantares ou festas. Até aquele momento, eles não tinham ideia de que ele poderia estender esse magnetismo e dominar uma plateia muito maior, muito menos a do Whisky. Foi rápido pra Charlie convencer algumas mulheres carentes do clube que ele era um guru onisciente que deveria ser adorado e obedecido. Mas elas eram mulheres cuja imagem própria era construída na base de não serem impressionadas por pessoas que não fossem grandes astros. E agora elas estavam dando atenção ao que, momentos antes, seria o candidato mais improvável de recebê-la. Essa foi uma reação muito além do respeito, Jakobson pensou. E um temor se aproximou dele.

“Foi naquele momento que nós percebemos que ele realmente era alguém diferente, lá no Whisky. A qualquer hora, em qualquer momento, se Charlie quisesse ser o centro da atenção, ele conseguia. No Whisky, todo mundo achava que já tinha visto de tudo. Até aquela noite, quando eles viram o Charlie”, disse Jakobson, quase 45 anos depois.

Capítulo 1 – Nancy e Kathleen


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Nancy Maddox amava a Bíblia e sua filha adolescente Kathleen adorava dançar. Ambas tinham um temperamento forte e foi por isso que os conflitos começaram. Nancy Ingraham nasceu e foi criada no interior de Kentucky, e sua fé era inabalável e fundamentalista. Ela literalmente interpretava a Bíblia. Cada palavra era verdade e toda criatura maléfica descrita em suas páginas, desde a serpente do Gênesis no Jardim do Éden até a besta de sete cabeças e dez chifres do Apocalipse, realmente existia ou já existiria na Terra, fazendo o trabalho profano de Satanás.

Nancy amava a Deus e também temia sua ira como a Bíblia ensinava. As pessoas não a consideravam fanática, já que ela era simpática às crenças das outras pessoas e se esforçava para não julgar o próximo, porque essa era a ordem de Deus. Entretanto, ela não duvidava que Ele responsabilizasse a todos. Penas horríveis estavam reservadas aos pecadores arrependidos, mas as coisas boas da vida e a bem-aventurança eterna após a morte são garantidas para aqueles que sempre ouviram a palavra do Senhor e o obedeceram.

Durante os primeiros 46 anos de sua vida, Nancy, conhecida por Nannie por amigos próximos e família, teve ampla evidência de que Deus estava recompensando sua piedade como o bom livro prometia. Ela se casou com Charlie Milles Maddox, também de Kentucky, que voltou da Primeira Guerra Mundial e encontrou trabalho como um condutor para a Chesapeake & Ohio Railroad. Eles não eram ricos, mas viviam como um casal de classe média, pelo menos para os padrões rurais de Kentucky.

Além de ser um bom provedor, Charlie era o tipo de cidadão íntegro a quem Nancy poderia respeitar e amar. Ele era um membro da Irmandade Ferroviária Trainmen e da loja maçônica. Eles viveram felizes no Condado de Rowan, no nordeste de Kentucky, e a partir de 1911 o casamento foi abençoado regularmente com filhos.

Deus enviou Glenna em 1911; Aline, em 1913; Luther em 1915, e, finalmente, Ada Kathleen em 1918. Quando sua caçula tinha dez anos, os Maddox mudaram sua ninhada para a reluzente cidade de Ashland, localizada às margens do rio Ohio. Kentucky, Ohio e West Virginia localizam–se ao redor do rio, que fornece convenientes limites estaduais.

Ashland era um porto comercial e lar de várias empresas importantes, incluindo a Ashland Oil, décima terceira maior empresa de refinamento de petróleo nos Estados Unidos, e as siderúrgicas que, finalmente, foram compradas e incorporadas pela American Rolling Mill Company, também conhecida como Armco. Barcas carregavam madeira e carvão ao longo do rio para grandes metrópoles da área, como Cincinnati e Pittsburgh.

A C&O Railroad prosperou ao transportar os empresários de todos os níveis, dentro e fora da cidade. Tendo vivido nas redondezas do Condado de Rowan de forma sensata e dentro de suas possibilidades, Charlie e Nancy foram capazes de comprar uma casa na Avenida Hilton, em Ashland, por US$ 5 mil, uma soma considerável em 1928. Quando a depressão desmoronou a economia dos EUA, um ano depois, os Maddox foram poupados de qualquer desconforto real. Ao contrário de muitos de seus amigos, Charlie não precisou se preocupar em perder o emprego e terminar na miséria.

Glenna conheceu um garoto local chamado Cecil Racer e se casou com ele em janeiro de 1930, em uma cerimônia na casa de seus pais. O jornal Ashland publicou um lindo artigo sobre o casamento. Quase um ano depois, Glenna deu à luz a uma filha chamada JoAnn. Bênçãos sobre bênçãos. Nancy abaixava a cabeça e agradecia diariamente.

Então, de repente, tudo começou a desmoronar. Em outubro de 1931 Charlie queixou-se de sentir dores no peito. Ele morreu uma semana depois, de pneumonia. Sua perda afetou Nancy, que sentia como se tivesse morrido também. Mas ela logo se consolou com a sua fé. A vontade de Deus pode ser misteriosa, mas não devia ser questionada. Pelo menos não havia preocupações financeiras imediatas. Charlie deixou para sua viúva uma pensão de cerca de US$ 60 por mês.

Era o suficiente, se ela fosse cuidadosa, para continuar criando as três crianças que ainda estavam em casa, sem precisar trabalhar fora. As mães daquela época e lugar apenas trabalhavam se fosse realmente necessário. Luther, que a esta altura estava com quinze anos, e Ada Kathleen, com treze anos, e que agora era chamada pelo seu nome do meio, ainda estavam em idade escolar, e Aline, com dezoito anos, estava matriculada na Ashland Booth Business College, com o objetivo de se tornar uma secretária ou talvez uma contabilista.

Depois veio outro golpe. Glenna e seu marido, Cecil, brigavam constantemente, e Nancy frequentemente ficava por dias com a neta JoAnn ou a levava em viagens curtas para protegê-la dos conflitos de seus pais. Nancy orou para que Deus reunisse e tocasse o coração dos cônjuges, mas isso não aconteceu.

Glenna, divorciada de Cecil, voltou a viver, junto com JoAnn, na casa de sua família. Nancy não acreditava em divórcio. A Bíblia insiste que o marido e a mulher devem unir ao outro para sempre. Mas Glenna sempre foi uma filha obediente e agora era necessário, mais do que nunca, o exemplo de uma família cristã adequada para JoAnn. Então, como Deus esperava dela, Nancy aceitou este sofrimento adicional e seguiu em frente.

Aline se formou na faculdade de negócios no início de 1933 e comemorou com uma curta viagem através do rio Ohio. Mas durante a viagem, ela desenvolveu o mesmo tipo de congestão no peito que tinha derrubado seu pai. Foi hospitalizada e, como Charlie Maddox, 17 meses antes, morreu dentro de uma semana.

Mais uma vez, Nancy ficou devastada. Em todos os sentidos ela tinha seguido os mandamentos de Deus e agora Ele parecia determinado a tirar toda a felicidade que havia lhe concedido. Uma mulher de menor convicção poderia ter abandonado a religião completamente, mas Nancy nunca considerou essa opção. Ao invés disso, ela se debruçou sobre passagens bíblicas e foi lembrando de como Deus usou maneiras terríveis para testar os fiéis. Suportou todos os tipos de sofrimentos, recusou-se a trair sua reverência para com o Senhor e acabou por ser exaltada por Ele. Na verdade, a Bíblia afirma que Deus recompensou Jó com o dobro das coisas boas que ele tinha antes. Então, também, Nancy iria suportar. Charlie e Aline não poderiam ser devolvidos à vida terrena, mas a aguardavam no céu.

As crenças de Nancy ganharam força. Ela continuaria a viver uma vida de retidão e se tornou ainda mais determinada de que seus filhos iriam sobreviver também. Apesar de Nancy ter sido tolerante com outros tipos e graus de fé em outras pessoas, com seus filhos era diferente.

A Bíblia era explícita sobre a responsabilidade de um pai de edificar filhos e filhas da forma que o Senhor gostaria e, para Nancy, isso significava que eles deveriam acreditar em cada palavra do livro sagrado e observar cada uma das regras e admoestações. Qualquer desvio deste comportamento divinamente estabelecido, aos olhos de Deus, contaria contra eles e Nancy não podia deixar isso acontecer. Se o fizesse, ela mesma teria falhado ao Senhor.

Então, Nancy não só manteve a leitura da Bíblia e a visita obrigatória à igreja, mas também adquiriu livros volumosos escritos como guias para o estudo das escrituras. Sua cópia da Bíblia Auto-Interpretada – Volume III, dedicada aos ensinamentos dos profetas do antigo testamento e um dos livros favoritos de Nancy, permanecia intacta.

No caso de o resto da família não compreender plenamente o conceito de absoluta obediência ao Senhor, ela destacou os trechos mais críticos em Isaías, capítulo 1, versículos 18 e 19: “’Venham, vamos refletir juntos’, diz o Senhor. ‘Embora os seus pecados sejam vermelhos como escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; embora sejam rubros como púrpura, como a lã se tornarão. Se vocês estiverem dispostos a obedecer, comerão os melhores frutos desta terra’”.

De acordo com a instrução bíblica, punições e recompensas, no versículo 20, embora não sublinhado, sem rodeios enuncia a alternativa: “Mas, se recusardes e fores rebeldes, sereis devorados à espada, porque a boca do Senhor o disse”.

Em parte, as coisas funcionavam como Nancy desejava. Glenna conheceu Bill Thomas, um bombeiro que trabalhava na Baltimore & Ohio Railroad. Ele esperava se tornar engenheiro e conseguiu. Por causa de seu marido, Charlie, Nancy sempre teve atenção especial pelos homens da estrada de ferro, de modo que ela aprovou Bill, embora ele tivesse um temperamento forte. Glenna se casou com ele e mudou-se, com a filha, JoAnn, para North Charleston, em West Virginia, a cerca de 65 milhas da casa de sua mãe.

Bill Thomas provou ser amoroso e um rigoroso padrasto. Ele e JoAnn tornaram-se próximos rapidamente. O sucesso do segundo marido de Glenna permitiu que Nancy se concentrasse em seus dois filhos mais novos, que evidenciaram pouco interesse nos princípios de uma vida piedosa, apesar do bom exemplo de sua mãe e constante insistência da mesma.

Luther tinha dezoito anos agora e Kathleen quinze. Nancy sentiu que estava difícil educar os meninos por causa de sua indisciplina natural e Luther sofreu, adicionalmente, por não ter uma figura paterna. Nancy nunca considerou se casar novamente, porque Charlie Maddox fora sua alma gêmea. Sem o marido para manter seu filho na linha, ela se incomodava e orava, esperando que esta combinação influenciasse Luther para superar seu interesse imaturo em orgias não cristãs.

Kathleen causou ainda mais preocupação para sua mãe. Nancy acreditava que meninas deveriam obedecer alegremente a seus pais e à Bíblia, mas Kathleen nem sempre cumpria isso. Nancy foi criada como protestante, provavelmente como Batista, e se tornou uma orgulhosa membro ativa da Igreja Nazarena, que tinha regras conservadoras para seus jovens. Eles eram orientados a vestir-se modestamente com vestidos sem mangas ou tops, por exemplo, e nenhuma maquiagem.

As meninas eram desencorajadas a cortar o cabelo com base em admoestações bíblicas, que afirmavam que o cabelo de uma mulher era sua glória. Ir ao cinema, dançar, interagir de forma inadequada com o sexo oposto, praguejar e beber álcool faziam parte de uma lista informalmente conhecida como Big Five (Cinco Grandes) para adolescentes nazarenos. Tais atos corruptores deveriam ser evitados, pois eram claramente pecaminosos. Nancy ficou perplexa quando Kathleen reclamou que ela não lhe permitira ter alguma diversão. Certamente Ashland oferecia todos os prazeres saudáveis que qualquer adolescente decente poderia querer.

Além da igreja e da escola dominical, que concedia a incomparável alegria do culto, a cidade tinha encantadores parques para passear, lojas de refrigerante, e até mesmo o primeiro shopping center fechado do Sul, onde vestidos decentes eram vendidos. Kathleen poderia aproveitar essas diversões na companhia de outras meninas bonitas da igreja, e em algum momento ela certamente viria a amar e se casar com um bom rapaz da fé cristã. Mas a criança voluntariosa declarou que essas atividades piedosas eram chatas.

Ela estava disposta a renunciar a filmes e maquiagem, se ela realmente precisasse, mas Kathleen insistia em seu direito de se envolver em algo que Nancy classificava como blasfêmia e a falta de frequência na igreja era um pecado terrível, já que a menina queria sair para dançar. Nancy tentou fazer sua filha rebelde perceber o óbvio: a dança essencialmente move o corpo de forma sugestiva para rapazes (que teriam inevitavelmente seus desejos impuros inflamados pela experiência), leva as meninas para a beira do poço de fogo de Satanás. Nada de bom pode vir dessa atividade, e, portanto, a igreja proíbe, e assim o fez sua mãe.

Por pouco tempo, Kathleen deixou Nancy acreditar que ela tinha sido persuadida. Havia um espaço vazio entre o fogão e a bancada da cozinha na casa dos Maddox, e se Nancy estava em outro quarto, Kathleen se espremia lá e praticava “jitterbugging” (N.T: um tipo de dança energética) sem sua mãe ver.

Kathleen não queria necessariamente causar qualquer dor à sua mãe, pois a amava. Ela considerava Nancy uma pessoa difícil, provavelmente por causa da igreja e das perdas de Charlie e Aline, mas ainda assim bem intencionada. O que Kathleen não aguentava era a irritação constante de sua mãe. Tudo o que Kathleen queria era ter um pouco de diversão. Outras meninas que ela conhecia iam dançar, usavam maquiagem e tinham seu cabelo cortado curto no estilo melindrosa. Essas coisas não pareciam pecaminosas para ela.

Aos quinze anos, Kathleen não era particularmente bonita. Ela tinha uma personalidade forte, a mesma característica marcante de Nancy, e ficava satisfeita quando alguns meninos se mostravam atraídos por ela. Luther compreendeu a sua frustração com a sua mãe, mas ele passava a maior parte do seu tempo saindo com seus amigos e não queria sua irmãzinha junto dele.

Logo Kathleen decidiu que ela iria sair e dançar com ou sem permissão de Nancy. Ela se achava no direito de viver sua vida de uma forma mais prazerosa, desde que não fizesse nada de muito ruim. E se Nancy não soubesse o que sua caçula fazia, seria ainda melhor. O problema era que, em Ashland, todos se conheciam e uma adolescente não conseguia nem sorrir para um menino sem alguém relatá-la para sua mãe. Se Kathleen dançasse em sua cidade natal, Nancy ouviria imediatamente sobre ela, e Kathleen não queria ouvir sermão pela milionésima vez sobre como ela estava indo direto para o inferno se ela não respeitasse todas as regras estupidificantes da igreja.

Felizmente para Kathleen, havia uma alternativa conveniente em Ashland. A cidade foi ligada a Ohio por uma ponte sobre o rio, e do outro lado ficava Ironton, um lugar com uma reputação interessante para clubes de dança.

Cidadãos honrados em Ashland reclamavam que Ironton era um antro do pecado, um distrito da luz vermelha repleto de bebidas, jogos de azar e prostituição em cada esquina, mas isso não causava repulsa em Kathleen. Depois de ter sido avisada sobre o pecado durante toda a sua vida, ela queria a oportunidade de observar alguns deles em primeira mão. Suas primeiras intenções eram limitadas à dança, mas se durante o processo ela fizesse alguns novos amigos que não tentassem ensiná-la sobre Deus, bem, isso também seria bom. Kathleen tinha quinze anos e não era mais uma criança. Ela estava ansiosa para se tornar mais mundana.

Então, Kathleen começou se esgueirando e atravessando a ponte em Ohio. Ela descobriu que Ironton tinha ótimos clubes onde a música era alta e potenciais parceiros de dança eram abundantes. O mais popular dos clubes, aquele que mais atraía pessoas, era chamado Ritzy Ray, e deve ter sido num clube desses que ela o conheceu.

Na década de 1920 o agricultor Walter Scott mudou-se com sua família, de Catlettsburg, em Kentucky, para um local perto de Ashland, onde ele tentou a sorte cultivando ao longo da Big Sandy, um afluente do rio Ohio, antes de trocar a agricultura pelo trabalho em uma fábrica. Os dois filhos de Scott logo ganharam a reputação local de vigaristas. Darwin e o coronel, este último um nome dado, não sendo militar, encontraram empregos esporádicos em fábricas locais, mas seus esquemas preferidos eram os negócios ilícitos. Seu golpe mais notório envolveu uma ponte sobre Ohio, entre Ashland e Catlettsburg. A estrutura era originalmente privada, construída por um empresário que cobrava 10 centavos ao público para atravessar. O estado comprou a ponte e revogou o pedágio, mas os irmãos Scott assumiram o posto de pedágio vazio e fizeram dinheiro por quatro dias até a notícia se espalhar. Os meninos Scott, com seus bolsos tilintando com moedas de dez centavos, se calaram até que o furor das conversas diminuiu.

Coronel Scott era um camarada bonito e robusto que apreciava muito os prazeres que Ironton oferecia. Ele tinha uma fala mansa e a garota Kathleen Maddox, com seus quinze anos de idade, era a presa perfeita para seu charme. Como Scott tinha vinte e três anos, Kathleen se sentiu lisonjeada por receber a atenção de um homem mais velho. Ele a fez pensar que realmente era um coronel do exército. Scott também não disse que era casado. Eles dançaram e Scott a convenceu a beber. Sem dúvida, foi a primeira vez que ela bebeu (por que não? Todos no local estavam bebendo). Ela gostou da sensação. Kathleen começou a cruzar a ponte Iroton regularmente para ver seu novo namorado. Claramente ele a amava e ela o amava também.

Na primavera de 1934, Kathleen descobriu que estava grávida. Quando ela contou ao Coronel Scott, ele disse que havia acabado de ser chamado para negócios militares, mas que retornaria em breve. Passaram-se vários meses até que Kathleen percebesse que ele não tinha a intenção de ter nenhum contato e muito menos se casar com ela.

Kathleen não escondeu de Nancy sua gravidez. A adolescente não foi deserdada. Apesar de ter suas piores previsões confirmadas, Nancy ainda amava a menina. Mas, para permanecer na casa da mãe, Kathleen teria que deixar de lado seus caminhos pecaminosos e viver de acordo com as restrições bíblicas. O bebê seria criado na igreja. Kathleen, maldisposta no início da gravidez, se agarrou enquanto pôde à crença de que o Coronel Scott iria voltar e resgatá-la do futuro massante a que sua mãe a condenara. Mas, como Scott continuou longe e o bebê começou a chutar, as emoções de Kathleen se transformaram em fúria adolescente. Como Coronel Scott se atreveu a engravidá-la e não se casar com ela? De alguma forma, ela o faria se arrepender. Ela poderia não ter sido a garota mais sensata do mundo, mas ainda tinha muito bom senso. De certo modo, o exemplo de sua mãe a influenciou e Kathleen estava decidida a se casar. Ela queria um homem como Charlie Maddox, que cuidasse dela e do bebê, alguém que daria ao seu filho um nome e a ela uma casa e que, talvez, fizesse o Coronel Scott sentir ciúmes. Tudo isso ao mesmo tempo. E ela já tinha um candidato em mente.

Sabe-se muito pouco sobre William Manson além do esboço de algumas informações militares e registros de óbito superficiais. Ele nasceu em 1909 em West Virginia e morreu cinquenta e dois anos depois na Califórnia. Ele está enterrado em Fort Rosecrans National Cemetery – San Diego. William era um homem pequeno. Quando ele se alistou no exército em 1942, media 1,72 e pesava 61.7 quilos. Na ocupação civil, os militares fizeram uma anotação considerando-o “não qualificado em oficina mecânica”. Um diretório de negócios, de 1909, de Wheeling, West Virginia, lista “Wm. G. Manson” como um agente de seguros. Ele provavelmente era o pai ou um tio de William Manson.

Como William conheceu Kathleen Maddox, em 1934, permanece um mistério. Ele pode ter sido outro frequentador regular de Ritzy Ray que tinha ficado atraído pela adolescente corajosa. Talvez ele a tenha conhecido depois que o Coronel Scott a abandonou com seus problemas. De alguma forma, eles ficaram conectados. Em 21 de agosto, uma licença de casamento foi emitida para William e Kathleen. A idade de 25 anos foi corretamente atribuída ao noivo. Kathleen declarou, falsamente, ter vinte e um anos, o que significa que Nancy não foi informada do casamento com antecedência. Se Kathleen tivesse dito a verdade sobre sua idade, teria sido necessária a permissão de sua mãe para que ela se casasse, já que ela tinha apenas quinze anos. Registros arquivados no tribunal alguns anos mais tarde sugerem que William sabia que o bebê de sua noiva era filho de outro homem, embora ainda permaneça a possibilidade dele pensar que o filho era dele. De qualquer forma, o casal chegou a um entendimento e Kathleen agora tinha um marido.

Em 12 de novembro de 1934, Kathleen teve um bebê saudável no Cincinnati General Hospital. A certidão de nascimento da criança, arquivada no dia 03 de dezembro, não continha nenhum sinal de falsificação. O pai dele foi declarado como William Manson, agora de Cincinnati, um empregado de uma tinturaria. A criança recebeu o nome de Charles Milles Manson, em homenagem ao seu avô materno.

A Bíblia dizia para Nancy odiar o pecado, mas amar o pecador, então ela veio a Cincinnati para ver a mais nova mãe e conhecer o neto. Fotografias a mostram radiante enquanto mimava Charlie. Apesar das circunstâncias da concepção da criança, Nancy adorava o menino e estava determinada a vê-lo ser criado com carinho.

Kathleen também amava seu filho, mas ao completar dezesseis anos, ela estava determinada a viver bons momentos quanto a ser boa esposa e mãe. Os dois objetivos se mostraram incompatíveis. Não se sabe muito sobre o casamento de Kathleen e William, nem mesmo onde moravam, embora tudo indique que eles permaneceram em torno de Cincinnati. Kathleen começou a sair à noite sem o marido. Às vezes ela até aparecia em Ashland ou Charleston para deixar Charlie aos cuidados da sua avó ou da sua tia Glenna enquanto saía para festejar. Nancy e Glenna ficavam preocupadas com Charlie, que muitas vezes era deixado com babás inadequadas. Kathleen desapareceu por uns dias com seu irmão Luther, que agora estava feliz por poder trazer sua irmã mais nova nas suas aventuras. Nancy, inquieta e esperando o pior, disse aos amigos que seus filhos foram até Chicago, onde ela acreditava que Kathleen conhecia homens em bares, seduzia-os com promessas de romances proibidos e os levava para serem roubados e espancados por Luther. É possível que Kathleen e Luther tenham tentado enganar as pessoas que conheciam nos bares, mas qualquer situação mais extrema parece improvável, já que os dois se mostraram completamente inexperientes em crimes violentos. Mas Kathleen definitivamente bebia e dançava e, para Nancy, qualquer mulher, até mesmo sua filha, que cometesse esses atos pecaminosos era capaz de qualquer coisa horrível.

William Manson rapidamente deu um basta no comportamento errante de sua esposa. No dia 30 de abril de 1937, menos de dois anos e meio depois de se casar, ele foi ao tribunal pedir o divórcio. Ele acusou Kathleen de “negligência grosseira ao dever”, uma frase genérica usada para descrever infidelidade, alcoolismo, abandono, ou alguma combinação dessas e outras transgressões conjugais. Ela não foi ao tribunal contestar o divórcio ou se defender. O tribunal concedeu o divórcio a William. Na decisão judicial, foi feita, de forma incisiva, a observação de que “não havia filhos no casamento em questão” e, por isso, William não tinha obrigação de pagar pensão a Charlie. Tudo que restou ao garoto foi seu sobrenome. Kathleen voltou a se chamar Maddox.

Kathleen não esperava que William Manson fosse rejeitar ela e seu filho. Duas semanas antes do divórcio dela com Manson ser finalizado, em Ohio, Kathleen foi ao tribunal de Kentucky e entrou com uma ação de paternidade contra o Coronel Scott. Ela queria localizá-lo de alguma forma e, embora não tivesse mais a expectativa de se casar com ele, Kathleen estava determinada de que ele teria que, ao menos, dar algum tipo de assistência financeira para a criação de Charlie.

No julgamento, Scott não negou que era pai de Charlie e o tribunal decidiu a favor de Kathleen. Charlie pode ter visto seu pai biológico, pela primeira vez, durante o julgamento da ação de paternidade. Kathleen se lembra de Scott ter visitado o filho algumas vezes depois. Mas o que o Coronel Scott não fez foi pagar a Kathleen os 5 dólares mensais da pensão determinada pelo juiz. Kathleen recebeu, ao fim do julgamento, o valor de 25 dólares mas, depois disso, nunca mais recebeu nenhum centavo do seu antigo amor. Ela pediu ao tribunal que penhorasse o salário que Scott recebia da fábrica em que trabalhava, mas o pedido não foi aceito. Kathleen insistiu por certo tempo no assunto até que ele se tornou a menor de suas preocupações legais.

Nos dezesseis meses que se seguiram, Kathleen e Charlie ficaram algumas vezes com Nancy em Ashland. Eles ficaram também com Glenna, Bill e sua filha, JoAnn, em North Charleston. A casa de Bill e Glenna, na Dunbar Line, um bairro de classe média conhecido como Dogtown, deve ter ficado cheia, pois Luther e sua namorada Julia Vickers também iam pra lá com freqüência. Não existem registros de que Kathleen tenha encontrado emprego, mas ela buscava, ativamente, um outro marido. No dia 2 de outubro de 1938, a Gazeta de Charleston noticiou que Ada Kathleen Maddox, de State Street – ela aparentemente teve sua própria casa na cidade por um tempo – estava noiva de James Lewis Robey. Kathleen continuava com sua habilidade de escolher o homem errado; Robey foi condenado várias vezes por pirataria e roubo de pequenos objetos.

Na tarde de primeiro de agosto de 1939, Kathleen e a namorada de seu irmão, Julia Vickers, vagavam por Charleston matando o tempo e olhando vitrines enquanto batiam papo. Charlie agora tinha quase 5 anos e havia sido deixado com Glenna ou algum conhecido de sua mãe. Kathleen já não era mais apenas uma garota ingênua que só queria dançar e se divertir um pouco. Aos vinte anos ela era uma mulher divorciada, com uma criança pequena e sem renda. Ela se ressentia por se considerar injustiçada pela vida. Durante estes tempos de desilusão e dificuldades, Kathleen se tornou determinada a ter algo melhor. Neste dia, a oportunidade de conseguir algum dinheiro através do crime se apresentou e Kathleen não resistiu à tentação.

Foi uma decisão impensada que afetaria e custaria vidas pelos próximos 75 anos.

Em algum momento durante o início da noite, Kathleen e Julia conheceram um estranho chamado Frank Martin. Ele as atraiu graças a sua personalidade amigável e, principalmente, ao seu Packard coupé conversível cinza. Martin levou Kathleen e Julia para o Valley Bell Dairy onde elas foram servidas com um pouco de queijo. Kathleen disse que Martin podia deixá-las lá, mas ele aceitou o convite dela para que estendessem a noite. O trio dirigiu para Dan’s Beer Parlor, onde Martin mostrou um maço de notas. Suas novas amigas foram servidas com cervejas refrescantes até as 23h30. Esse era exatamente o tipo de cenário com o qual Nancy havia dito, a muito tempo, para que Kathleen tomasse cuidado. Um homem alcoolizado em um bar com uma garota podia ter intenções inadequadas. Talvez Martin até tivesse intenções inadequadas, mas Kathleen também as tinha. Só que as dela não eram sexuais. Ela chamou Julia para ir ao banheiro e disse que era horrível que pessoas como Martin parecessem ter todo o dinheiro do mundo. Kathleen disse que queria parte do dinheiro de Martin e Julia riu e disse que sabia como conseguir. As duas mulheres voltaram para a mesa onde Martin esperava e mencionaram como seria bom alugar um quarto em algum lugar. Martin entendeu o recado e perguntou quanto um quarto custaria. Kathleen disse que 4, 5 dólares, mas completou dizendo que não tinha muito dinheiro. Martin pegou 3 notas de um dólar e 50 centavos, não a totalidade da soma, mas o suficiente para convencer Kathleen de que seu plano daria certo. Ela pediu licença e saiu para usar o telefone público do bar e chamar Luther na casa de Glenna. Kathleen disse ao irmão que ela e Julia estavam com alguém que tinha dinheiro demais para um homem só. Luther sabia exatamente o que sua irmã estava sugerindo e disse que ela deveria providenciar para que os três se encontrassem com ele em poucos minutos na Littlepage Service Station.

Martin, na expectativa de ir logo para algum quarto alugado para poder brincar com as duas jovens mulheres, deve ter ficado intrigado por Kathleen levá-lo a um posto de gasolina e, mais ainda, quando percebeu que havia um homem esperando por eles. Luther se apresentou como John Ellis. O quarteto então entrou no Packard de Martin e foi para o Blue Moon Beer Parlor. Martin estava aparentemente pronto para se contentar com uma noite de festa, mesmo se isso não incluísse brincadeiras sexuais. Todos beberam um pouco de cerveja e dançaram. Luther puxou sua irmã para um canto e perguntou se Martin realmente tinha muito dinheiro. Ela assegurou-lhe que sim e Luther brincou: “bem, eu acho que vou ter que contar esse dinheiro”. Julia permaneceu no Blue Moon enquanto Martin, Kathleen e Luther entraram no Packard e foram embora.

Quando eles estavam um pouco além da cidade, Luther mandou que Martin parasse o carro e saísse. Martin riu e Luther disse “estou falando sério”. Kathleen observou os dois homens caminharem para o lado da estrada. Ela não conseguiu ouvir o que Luther disse em seguida, mas viu muito claramente o que ele fez.

Luther tinha consigo uma garrafa de ketchup cheia de sal. Ele encostou o pescoço da garrafa nas costas de Martin e disse que estava segurando uma arma. Martin não acreditou nele. Luther acertou a cabeça de Martin com a garrafa, que quebrou, e sua vítima, aturdida, mas consciente, caiu no chão. Luther o livrou de sua carteira, e ele e Kathleen fugiram. Quando eles olharam dentro da carteira, descobriram que o roubo deles havia totalizado $27,00. Luther e Kathleen apanharam Julia no salão de cervejas Blue Moon e abandonaram o carro próximo à estrada. Luther chamou um táxi, e o trio se refugiou em um quarto alugado no Daniel Boone Bar B Q nas proximidades de Snow Hill. Mais tarde, Kathleen e Julia pegaram outro táxi para a casa de Bill e Glenna, em Dunbar Line. Luther ficou no quarto alugado dormindo. O caso de assalto e roubo foi resolvido dentro de horas. Não havia um desafio real para os investigadores porque os criminosos eram tolos. Apesar de ter usado um nome falso para apresentar seu irmão a Martin, Kathleen e Luther não fizeram nada para cobris suas identidades ou seus rastros.

Assim que Martin recobrou seus sentidos, ele cambaleou de volta para a cidade e chamou a polícia de Charleston. Por volta de uma da manhã o dinheiro já havia sido recuperado e o testemunho de Dan, do salão de cervejas, confirmou que Martin tinha estado lá com duas mulheres chamadas Kathleen e Judy ou Julia. A mulher era freguesa habitual e alguém lá lembrou que elas disseram que vieram do Norte de Charleston. Logo que os correios do Norte de Charleston abriu de manhã, o chefe J.E Akers informou aos policiais que Kathleen Maddox e alguém chamada Judy Bryant recebiam cartas num endereço em Dunbar Line. Vários policiais, com Martin no reboque, chegaram à casa de Glenna e Bill. Martin identificou Kathleen e Julia. Charlie, que não tinha cinco anos ainda, provavelmente viu sua mãe sendo levada algemada. Kathleen negou saber onde Luther estava, mas Julia mencionou que ela e Kathleen haviam passado a noite com ele em um quarto no Boone Bar B Q.

A polícia encontrou Luther e prenderam-no também. Depois de serem presos, Luther, Kathleen e Julia deram a policia declarações sobre o que eles tinham feito. Na sua, Luther galantemente confirmou que as duas mulheres não tinham ideia de que ele planejava roubar Martin, então “por isso reconhecia toda a responsabilidade por este crime cometido e vinha a dispensar todos os outros envolvidos no mesmo”. Mas Kathleen e Julia confessaram seus papéis. Contudo, Julia deixou claro ter sido deixada para trás quando Luther e Kathleen partiram com Martin para roubá-lo. Como consequência, ela enfrentou acusações menores de cumplicidade, diferentemente dos seus parceiros, que foram conduzidos para o tribunal sob sérias acusações. Relatos do jornal de Charleston zombaram do “assalto da garrafa de ketchup” e dos trapalhões envolvidos, mas o juiz D. Jackson Savage não achou nada engraçado sobre o crime. Em um breve depoimento sete semanas mais tarde, Savage julgou Luther Maddox culpado de assalto e o sentenciou a dez anos na prisão. Uma vez que Kathleen ficou no carro enquanto seu irmão praticava o crime, o juiz a sentenciou a cinco anos de reclusão.

Quando soube do veredicto, Nancy Maddox pegou sua neta, JoAnn, de lado e sussurrou: “a vida é como viver embaixo de uma grande rocha; sempre olhe para ela e reze para que ela não vá cair em você”. Nancy sentiu como se ela tivesse sido enterrada por uma avalanche. Ela tentou muito criar o filho do jeito apropriado, e de alguma maneira Deus em sua sabedoria tinha ainda permitido coisas assim. Quando o tempo permitisse, Nancy rezaria e tentaria entender como salvar as almas de seus desobedientes filhos. Por agora, Luther e Kathleen foram levados para a prisão em Moundsville, em Charleston, para cumprir suas longas sentenças. Luther foi autorizado a se casar com Julia pouco antes de sair; o casamento não durou. Uma vez que a prisão tinha fama de ser um buraco do inferno, Nancy estava justificadamente aterrorizada sobre o que poderia acontecer com seus filhos lá. Mas Nancy tinha ainda uma preocupação maior: um neto de quatro anos e meio que por algum tempo não tinha pai e agora não teria a mãe por cinco anos. O que viria a tornar-se o pequeno Charlie?

Capítulo 2 – Moundsville e McMechen


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Logo depois de Kathleen ser levada para Moundsville, sua avó Nancy e, provavelmente, sua tia Glenna levaram Charlie para um canto para explicar que sua mãe tinha que ir embora por um tempo. Se Charlie compreendeu o crime que Kathleen havia cometido, isso não se sabe. De fato foi explicado que, embora ele pudesse ir visitá-la algumas vezes, ele não poderia viver com ela por cinco anos, o que para um garotinho deve ter parecido uma eternidade.

Durante o encarceramento de Kathleen, Charlie poderia ter vivido com Nancy, em Ashland. Nancy adorava a criança e ela certamente queria expor a ele as positivas influências religiosas neste traumático período de sua jovem vida. Mas Ashland era muito distante da prisão federal. Todos concordavam que o pequeno garoto deveria visitar sua mãe com a frequência que fosse possível. O emprego de Bill Thomas na ferrovia fez com que ele se mudasse para o oeste da Virginia, para a cidade de McMechen, que ficava cerca de cinco milhas ao Sul da grande cidade de Wheeling e apenas cinco milhas ao Norte de Moundsville. Isso tornou a solução óbvia: Charlie se mudaria com seu tio Bill, tia Glenna, e sua prima de oito anos, JoAnn.

McMechen, com a população em torno de 4 mil habitantes, era por excelência a cidade do colarinho azul. Praticamente toda família que vivia lá era chefiada por um pai que trabalhava para uma das minas locais, moinhos ou ferrovias. Havia pouca diferenciação dos salários, todo mundo era de classe média baixa. Uma metade da cidade era cercada pelo Rio Ohio. Do outro lado estavam altas colunas densas com florestas cravejadas pelos trabalhos das minas. As casas no meio eram as mais úteis. Havia também lojas de conveniência, pequenas lojas de departamento e outros negócios. Havia um médico e uma sapataria.

Os quartos da frente de várias casas serviam como lojas de doces da vizinhança; os habitantes de McMechen raramente percorriam todo o caminho para Wheeling ou Moundsville para comprar. Ônibus fornecidos transportavam tudo o que era necessário, poucos residentes possuíam carros. Os moradores estavam orgulhosos de cerca de uma dúzia de igrejas florescerem dentro dos limites da cidade, entretanto, não se gabavam sobre a manutenção do mesmo número de bares. A segregação não precisava ser forçada porque apenas pessoas brancas viviam em McMechen. Os papéis de gêneros e gerações eram imutáveis. Homens trabalhavam duro durante a semana, bebiam nos bares da cidade depois do trabalho e nos sábados, possuíam armas e caçavam, e nunca mostravam qualquer emoção. Mulheres ficavam em casa, criando as crianças, reunindo sua família para a igreja nos domingos e deferindo aos seus maridos os papéis de chefes da família. Crianças não podiam nadar no perigoso Rio Ohio e se referiam a todos os adultos como senhor e madame.

Garotos bagunceiros, com seus amigos, aprendiam a manusear armas e nunca a chorar. Quando eles tinham idade suficiente, conseguiam empregos nas mesmas companhias onde seus pais trabalhavam. Garotas aprendiam a cozinhar, costurar e outras habilidades necessárias para uma esposa e mãe. Todos se conheciam e confiavam em seus vizinhos, ninguém trancava suas portas à noite ou quando saíam. Sobretudo, McMechen era independente. Pouco que acontecia no mundo exterior importava. Contanto que os moinhos e as minas ficassem abertas e a ferrovia continuasse a seguir, McMechen permaneceria inalterada de uma geração para a próxima.

Glenna e Bill Thomas adaptaram-se perfeitamente à sua nova comunidade. Bill trabalhava duro para a B&O, possuía algumas armas e era claramente o chefe de sua família. Ele também gostava de beber, e até mesmo para os padrões de McMchen, alguns vizinhos achavam que Bill bebia demais. Eventualmente ele percebeu isso e manteve o problema sob controle. Glenna mantinha uma boa casa e era ativa na igreja. JoAnn foi para a escola elementar local (a única para crianças protestantes; crianças católicas tinham sua própria escola) e tinha excelentes notas. Então, eles incluíram Charles no mix, e ele não se encaixou de maneira nenhuma.

O pequeno Charlie Manson era uma criança desagradável. Alem de sua avó amorosa, que ainda reconhecia muitas de suas falhas, poucos que o conheciam nesse tempo ou nos anos seguintes de sua adolescência encontraram muito para admirar sobre ele além de sua aparência. O sorriso com covinhas de Charles poderia iluminar o lugar, e seus olhos eram escuros e expressivos. Era possível lamentar pelo garoto, ele não tinha um pai e agora sua duvidosa mãe estava na cadeia. Charlie era tão pequeno que ele parecia mais perto da estatura de bebês do que de outras crianças de cinco anos e prestes a entrar na escola. Mas mesmo para uma criança de sua idade, ele mentia sobre tudo. Quando ele se metia em problemas por contar mentiras ou quebrar coisas, ou de quaisquer outros inumeráveis delitos que ele cometia diariamente, Charlie sempre culpava alguém por suas ações. Se ele não pudesse ser notado por fazer a coisa certa, ele estava disposto a atrair atenção pelo mau comportamento. Você não poderia relaxar quando ele estava por perto. Era apenas uma questão de tempo até que ele tramasse alguma coisa ruim. Tio Bill, tia Glenna e a prima JoAnn já estavam cientes do jeito irritante de Charlie antes dele se juntar a eles em McMechen, no final de 1939. Eles não queriam a responsabilidade por ele, mas as obrigações familiares superavam as preferências pessoais. Possivelmente o comportamento do garoto melhoraria agora que ele estava em um ambiente estável. JoAnn não pensava desta forma. Sua opinião sobre seu primo no momento em que ele se mudou era que “não havia nada feliz sobre ele. Ele nunca fazia nada que era bom”. Antes de Charlie chegar, Bill e Glenna deixaram claro à sua filha de oito anos de idade que ela agora era sua irmã mais velha. Isso significava que ela teria que vigiar ele sempre que seus pais não estivessem por perto e de vez em quando levá-lo para passear por McMchen, caminhando com ele até a escola elementar, protegendo-o dos valentões e geralmente cuidando do seu bem estar. Bill e Glenna deixaram claro que Charlie entenderia melhor o comportamento que era esperado dele. Eles tentaram demonstrar alguma afeição chamando-o de Chuckie, mas o nome não funcionou. Ele era muito amargo. Na maioria das vezes eles encontravam-se tratando o garoto como Charles, usando o seu primeiro nome com todas as letras como parte de repreensões diárias por eles administradas.

Assim que Charlie chegou, duas ações de imediato foram exigidas. Ele deveria visitar sua mãe na prisão em Moundsville e ele teria que ir a escola. Nenhuma das experiências foi boa.

Tudo sobre os seis acres da Penitenciária do Oeste da Virginia, em Moundsville, foi projetado para intimidar. Dominando a parte sul da cidade, a prisão foi projetada para assemelhar-se a um castelo gótico, não um símbolo de esperanças e luz como em Camelot, mas uma construção bruta governada por um dominante cavaleiro negro. Paredes de pedras externas tinham quatro metros de espessura, vinte e quatro metros de altura, e tudo era coberto por arame farpado com as torres tripuladas por guardas armados. Entrar além das paredes para o interior da construção era possível através de pesadas portas gradeadas; do lado de fora alguém poderia facilmente imaginar os gritos das vítimas sendo torturadas nas cavernas subterrâneas, o que estava de fato perto da verdade. Prisioneiros já condenados, culpados de sérias infrações, eram levados para um escuro, úmido e frio quarto de punições, despidos e curvados sobre uma plataforma baixa chamada de chuta-Jenny, com seus pés e mãos amarrados a anéis no chão. Em seguida um monstruoso guarda rasgava suas costas nuas com um chicote de couro encharcado por água até seus braços ficarem cansados ou até que suas vítimas aparentassem estar próximas da morte.

Mesmo os prisioneiros que evitavam estes episódios sangrentos sofriam diariamente. Em 1939, quando Luther e Kathleen chegaram para cumprir sua sentença, a população da prisão era mais que 3 vezes o da capacidade calculada de 870. Homens detentos eram empurrados dentro de uma pequena cela de cinco por sete metros. Pelo menos em termos de espaço para dormir, mulheres tinham o melhor. Elas eram alojadas no terceiro andar do prédio da administração.

A prisão era rigorosamente separada. Pretos e brancos se observavam a partir de distancias obrigatórias. Em vários lugares no corredor, linhas pretas e brancas eram pintadas no chão, indicando onde era esperado que cada raça caminhasse. Segregação era implantada no estreito refeitório, ainda que baratas rotineiramente encontrassem o caminho para dentro da comida, sem importar a raça. Todo mundo comia o que era dado, insetos e tudo. Eles necessitavam de suas forças para trabalhos específicos, então eles mastigavam e engoliam, mesmo enquanto ratos passeavam sobre as mesas do refeitório.

Funcionários da West Virginia queriam que a prisão fosse auto-sustentável, e até mesmo durante a grande depressão, a penitenciária deu lucro. Detentos do sexo masculino eram alugados para empresas e agricultores da área por pouco mais de 16 centavos a hora. Não havia regras a serem observadas por esses empregadores em relação ao cuidado do trabalho alugado. Os prisioneiros eram alimentados pelo o que seus patrões externos queriam, ou simplesmente não eram alimentados. Se o trabalho não fosse satisfatório, eles voltavam para os funcionários da prisão e para as sessões de chutes, tudo para incentivar o trabalho.

As mulheres eram colocadas para trabalhar numa fábrica de costura caseira onde fabricavam partes do uniforme da prisão, inicialmente costurados por presos do sexo masculino em outra parte da penitenciária. Algumas prisioneiras femininas, particularmente azaradas, eram colocadas em serviço de custódia; elas passavam longos dias a esfregar o chão frequentemente sujo de suor, vômito, urina e sangue.

Outros produtos fabricados por lá acabavam em placas, cobertores, cintos e mais de uma centena de outros produtos que eram vendidos ao público pelo Estado. A fazenda vizinha de duzentos hectares conhecida como Camp Fairchance utilizava os presos para os trabalhos de plantação, tratamento de plantas e colheita. Os melhores vegetais eram vendidos nos mercados locais. Qualquer coisa invendável para o público era enviado para a cozinha da prisão. Homem ou mulher, todos os presos sãos eram obrigados a trabalhar por nove horas em cada dia da semana, e meio dia no sábado.

Excesso de trabalho, espancamentos, falta de alimentos, e todas as condições insalubres tomou seu pedágio na população carcerária. Surtos de tuberculose regularmente matavam dezenas de detentos. Tais mortes eram acidentais. Já as mortes programadas fascinavam a população local. Qualquer pessoa que recebia a pena de morte em um tribunal de West Virginia era transportada para Moundsville para execução. Os condenados eram enforcados em uma forca próximos ao portão Wagon Nort. Cada enforcamento era organizado como forma de entretenimento. Bilhetes eram impressos pela prisão e distribuídos ao público. Uma vez distribuídos, os bilhetes eram rotineiramente escalpelados ou trocados por bebidas ou outros bens.

Luther e Kathleen Maddox não corriam perigo de serem encostados pelo carrasco. Seus respectivos dez e cinco anos faziam os oficiais da prisão os verem como não perigosos. Eles eram apenas dois criminosos comuns a mais ali. De acordo com registros, Luther foi enviado inicialmente para trabalhar na fábrica de tintas da prisão. Sua irmã não teve a mesma sorte. Kathleen teve uma atribuição privativa de liberdade, mas ela não fez nenhuma queixa. Por causa das condições de superlotação, os presos que trabalhavam duro e seguiam as regras eram, frequentemente, liberados antes de servir suas sentenças inteiras. Tais “palavras de honra” nunca vinham cedo. Mesmo com um comportamento perfeito, os Maddox poderiam esperar permanecer em Moundsville por anos. Mas mesmo por um dia a menos fora daquele lugar sujo e assustador, valia a pena lutar.

Logo após Charlie chegar em McMechen, tio Bill levou-o para Moundsville. Talvez ele tivesse advertido o menino sobre o que ele iria ver; a própria penitenciária era aterrorizante, bem como Kathleen no macacão de prisioneira. Mas o mais provável é que ele advertiu o garoto de cinco anos de idade sobre se comportar adequadamente, sem choramingar ao ver sua mãe, pois meninos não faziam isso. Se a visão das paredes exteriores e portas de entrada fortemente vigiadas não desestabilizaram completamente Charlie, a visita a Kathleen certamente o fez.

Ele foi introduzido à entrada principal pelo tio Bill e agentes penitenciários uniformizados e levado por um corredor até o salão. Charlie foi empurrado para um duro assento feito de ripas de madeira na frente de um painel de vidro espesso. Do outro lado estava Kathleen. Qualquer que fosse o amor que ela tentasse a ele, era verbal. Até o dia em que saísse em liberdade, era improvável que fosse permitida a Kathleen tocar, muito menos abraçar seu filho. Se Charlie conseguiu não chorar ou demonstrar qualquer outra emoção humana naquele dia na prisão, ele mais que compensou isto quando seus tios o matricularam na escola.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - O pequeno Charlie

Manson aos cinco anos de idade em uma imagem nunca antes vista, tirada pouco antes do seu primeiro dia na escola. As bochechas com covinhas e o sorriso tímido escondiam a verdadeira natureza que ele possuía por dentro. 

Mais de 70 anos depois, moradores de longa data de McMechen ainda estremecem quando recordam-se de suas experiências no primeiro grau da classe da Sra. Varner. Richard Hawkey diz sem rodeios: “Ela me assustava”.

Virginia Brautigan, que quando adulta trabalhou nas escolas de McMechen, diz que muito tempo depois de sua aposentadoria, a Sra. Varner permaneceu lendária entre os administradores por conta de “quão horrível era a seus alunos”. Ninguém parece lembrar o primeiro nome da mulher. A senhora não incentivava a familiaridade.

Todos concordam que a Sra. Varner liderava a classe como um sargento da Marinha de Parris Island aterrorizando seus trêmulos recrutas em sua apresentação. Alunos da primeira série marchavam ao invés de andar classe adentro, e quando o sino tocava para ir embora, as crianças só podiam ir embora quando a professora permitia. Eram dispostos em quatro fileiras, e a Sra. Varner atribuía assentos não por ordem alfabética, mas por quem agradava mais e menos. Seus animais de estimação, invariavelmente meninas, estavam na primeira fila, com a favorita especial sentada no banco da frente, o mais próximo a ela. Essa criança não poderia fazer nada de errado.

Em seguida, as mesas eram preenchidas de acordo com o seguinte julgamento: o mais caprichosos e promissores na frente; os pouco promissores atrás; os menos promissores na quarta fila; o último assento na fileira de trás era reservado a qualquer azarado tido como uma causa perdida, tornando-se um alvo frequente do devastador desprezo da Sra. Varner.

Bater era permitido pelas regras da escola, mas a Sra. Varner não tinha necessidade de recorrer a isso. Ela esviscerava os estudantes com palavras, e mais uma vez, seu vocabulário exato na sala de aula não é precisamente lembrado, mas todos lembram que ela sabia instintivamente como descobrir e explorar verbalmente as maiores inseguranças infantis.

Depois que Charlie completou cinco anos, em novembro de 1939, seus tios o levaram para a escola primária. Eles se sentiram aliviados em tirá-lo de casa. Charlie foi enviado para a sala da Sra. Varner. Ela olhou para a pequena criança abandonada, provavelmente consignada sobre as fofocas que ela ouvira sobre sua mãe e seu tio preso, e sentenciou-o ao equivalente Varnerian da pena de morte: Charlie foi direcionado para o último lugar na quarta fileira. Seja quem fosse aquele menino sentado lá, o mesmo deve ter ficado entusiasmado pela trégua. Durante o primeiro dia de Charlie, a Sra. Varner teve muitas oportunidades para mostrar seus defeitos. A prisão de sua mãe pode ter sido mencionada, juntamente com as terríveis previsões sobre o futuro sem esperança da criança.

Memórias de testemunhas não são específicas, mas todos eles se lembram perfeitamente das consequências. No final de seu longo e terrível dia, Charlie correu para casa chorando, e seu tio Bill testemunhou este inaceitável comportamento. Naqueles dias, os pais raramente questionavam o tratamento dos professores aos seus filhos. A suposição era de que tudo o que o professor fazia era merecido pelo aluno. Nem mesmo a Sra. Varner era contestada.

Além disso, meninos de McMechen não choram. Eles estoicamente aceitam qualquer punição que tenha sido atribuída, mesmo que isso fosse injusto; eles achavam que isso ajudaria-os a se preparar para a vida como homens adultos da classe trabalhadora. Na melhor das hipóteses, Bill Thomas não tinha paciência para chorões, e aqui estava este menino que vive em sua casa, que fugiu da escola, agindo como uma menina chorosa. Tio Bill poderia ter se lembrado que Charlie não era seu filho, mas ele tinha muito orgulho de ser um homem que aproveitava o que quer que a vida lhe desse e ainda assim tinha sucesso. É necessário coragem e resistência para subir na vida, de bombeiro a engenheiro.

Talvez sua mãe e tio Luther fossem más influências, mas Charlie poderia se beneficiar da intercessão do tio Bill. Não importa se algum professor o fizera chorar, o que era importante era fazer algo drástico que convencesse Charlie a nunca agir como um maricas novamente. Na manhã seguinte, Bill remexeu o armário de sua filha e escolheu um dos vestidos de JoAnn. Ele ordenou que Charlie o vestisse. JoAnn era três anos mais velha e de tamanho normal e Charlie era pequeno, e o vestido certamente não servia nele. Em seguida, tio Bill mandou o garoto de cinco anos de idade de volta à sala de aula da Sra. Varner. Charlie teve que usar um vestido folgado de JoAnn durante todo o dia. Como Bill pretendia, ele nunca mais esqueceu disso.

Mais tarde na vida, Charlie exagerou ou mentiu descaradamente sobre quase tudo de sua conturbada infância, tentando fazer experiências ruins soarem ainda piores. Mas ele disse a verdade sobre ser forçado por seu tio a usar um vestido para ir a escola. Nenhum enfeite era necessário.

Além do incidente do vestido, com exceção de sua prima JoAnn, ninguém vivo lembra muito sobre a primeira estadia prolongada de Charlie Manson em McMechen. Ele atraiu pouca atenção. Ao invés de correr nas ruas e campos próximos brincando com os amigos e os outros meninos, ele passava seu tempo escondendo-se em torno da casa dos tios. Embora ele tenha sobrevivido na sala de aula da Sra. Varner, Charlie permaneceu um estudante pobre nos dois anos e meio que se seguiram. Suas habilidades de leitura eram fracas e, testado como um adulto, podia apenas ler em um nível rudimentar.

Seu tempo na escola elementar McMechen foi notável apenas na forma com que ele sempre atraía a atenção dos agressores através de uma combinação de sua pequena estatura e boca grande. Uma vez Charlie trocou insultos com um menino mais velho, muito maior do que ele, e começou a esbofeteá-lo. JoAnn, selada com a proteção de seu primo e determinada a viver de acordo com a responsabilidade, saltou entre eles, e o menino maior a esbofeteou também.

JoAnn mordeu o dedo dele e ele fugiu, uivando de dor. Sua professora estava confusa — JoAnn sempre se comportou bem e nunca se envolveu em brigas no parque infantil. Quando ela perguntou à menina o que aconteceu, JoAnn explicou como Charlie estava sendo atingido por um menino maior, e assim ela entrou em cena para resgatá-lo. Mas quando Charlie foi chamado e pediu para corroborar o que JoAnn havia dito, ele alegou que não sabia nada sobre isso. Ele só disse ter visto JoAnn mordendo alguém. JoAnn poderia ter se metido em sérios apuros, mas a professora sabia que ela era verdadeira, ela acreditava em JoAnn. Nesse momento JoAnn perebeu que Charlie gostava de iniciar confusões para em seguida culpar alguém.

Outro incidente cimentou o desprezo completo de JoAnn para com seu primo. Bill e Glenna foram para Charleston por um dia, deixando JoAnn encarregada de Charlie, que então tinha uns sete anos. Além de babá, a menina de dez anos foi instruída a limpar a casa. Não havia dúvida de que Charlie não ajudava. Ele rotineiramente ignorava suas tarefas. JoAnn estava arrumando uma das camas quando Charlie entrou, empunhando uma foice afiada que ele tinha trazido do quintal. Ele deliberadamente entrou no caminho de JoAnn enquanto ela tentava puxar e dobrar o lençol. JoAnn olhou para ele e ordenou que Charlie fosse para fora. Ele disse “me obrigue”, e ela empurrou-o. Então ela trancou a porta. Charlie gritou e cortou a tela com a foice; Jo Ann estava certa de que Charlie pretendia usar a lâmina sobre ela se ele saísse, pois ele parecia e soava como um louco, completamente fora de controle. Bill e Glenna voltaram na hora certa. Eles viram que a tela da porta de trás estava rasgada, Charlie com o rosto vermelho e furioso, JoAnn assustada e pálida, e exigiram saber o que acontecera.

Assustada e quase sem palavras, JoAnn murmurou, “pergunte a Charles”. Sua versão foi a de que ela começou e ele estava apenas se protegendo. Seus tios não acreditaram nele, e Charlie levou uma surra. “É claro que não fez qualquer diferença”, JoAnn lembra, 70 anos depois. “Você poderia chicoteá-lo todos os dias e ele ainda iria agir do jeito que quisesse”. Nos dois anos e meio em que viveu com seus tios, Charlie desenvolveu três interesses. Ele ficou fascinado com facas ou qualquer outra coisa que era afiado. Ele gostava de lidar com armas, a única característica que o garoto exibiu e que pareceu, aos olhos de tio Bill, normal para um menino. E, acima de tudo, ele se apaixonou por música. Seus tios tinham um piano e Charlie sentava nele e perdia-se durante horas. Charlie também surpreendeu os tios com sua bela voz. Eles o arrastaram à igreja aos domingos, e uma vez lá, ele gostava de cantar os hinos. As habilidades musicais de Charlie eram a melhor coisa nele.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Jo Ann Thomas, Nancy Maddox e Charles Manson

A prima de Manson, Jo Ann Thomas (esquerda), sua avó Nancy e o pequeno Manson, aos cinco anos de idade. Créditos: Los Angeles Times. Arquivo pessoal de Jo Ann.

O tempo passou lentamente para a mãe de Charlie e seu tio na prisão estadual. Apesar das cômodas atribuições de trabalho, Luther tinha mais resistência do que Kathleen. Sua sentença de dez anos foi o dobro do tempo, e seu casamento com Julia Vickers se desfez. Mesmo que Luther soubesse que o mau comportamento impediria sua libertação antecipada, ele continuou a cometer pequenas infrações. Ele roubou um pouco de papel e perdeu seus privilégios de escrever cartas. Depois de três anos em Moundsville, Luther não aguentava mais. Ele se comportou por um tempo, mas em 21 de fevereiro de 1942, ele roubou um caminhão da prisão e fugiu. Luther não era melhor em fugas do que em assaltos. Três dias depois ele estava de volta à prisão, e a liberdade antecipada por bom comportamento não era mais uma opção.

Kathleen era mais sensata. Não existem registros de quaisquer infrações cometida por ela na prisão. Ela ficou em silêncio, fez o seu trabalho e, no final de 1942, estava em liberdade condicional depois de cumprir três anos de sua sentença de cinco anos. Ela disse à sua família que tudo o que ela queria agora era uma vida tranquila com seu filho.

Eles não podiam viver com Nancy em Ashland, porque mãe e filha não estavam em boas condições. Kathleen pensou que se ela voltasse com Nancy, ela estaria mais uma vez sob o polegar de sua mãe.

Os Thomas não queriam que Kathleen viesse morar junto com eles e queriam que Charlie fosse embora, então, ela e Charlie foram embora por conta própria.

FIM DA TRADUÇÃO

Roman Polanski e Sharon Tate.

Roman Polanski e Sharon Tate. Créditos: New York Daily News.

Foto: Roman Polanski e sua bela mulher, a atriz Sharon Tate

Roman Polanski e sua bela mulher, a atriz Sharon Tate. Créditos: vigilantcitizen.

Foto: Roman Polanski, devastado e em choque, em frente a casa onde sua mulher acabara de ser morta.

Roman Polanski, devastado e em choque, ao retornar para casa e saber da brutal morte de sua mulher. Créditos: Crime shots.

Foto: Imagem mostra Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys e Charles Manson.

Imagem mostra Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys e Charles Manson. Encontrei esta foto em um fórum húngaro. Não dá para comprovar sua autenticidade. Me parece uma montagem bem feita. Créditos: http://alfahir.hu/

Seguidoras de Charles Manson comem restos de comida encontrados num latão de lixo.

Seguidoras de Charles Manson comem restos de comida encontrados num latão de lixo. Créditos: Murderpedia.

Livro - A Vida e os Tempos de Charles Manson - Charles Watson

O assassino Charles Watson segurando seu livro autobiográfico “Will you Die for me?” Na prisão Watson “encontrou” Deus e se tornou cristão. Casou-se com uma admiradora e teve quatro filhos. Em 2009 graudou-se dentro da prisão em gestão de negócios. Já está preso a 42 anos. Data da foto: 1978. Créditos: Murderpedia.

O produtor Terry Melcher durante uma das audiências do assassinato de Sharon Tate.

O produtor Terry Melcher durante uma das audiências do assassinato de Sharon Tate. Data: 9 de dezembro de 1969. Créditos: Corbis.

Mulheres membros da família Manson do lado de fora da sala de júri. No cartaz a frase: "Dia do Judas".

Mulheres membros da família Manson do lado de fora da sala de júri. No cartaz a frase: “Dia do Judas”. Créditos: Murderpedia.

Foto: Três seguidoras de Manson com um X talhado na testa dentro de um carro de polícia. Créditos: Murderpedia.

Três seguidoras de Manson com um X talhado na testa dentro de um carro de polícia. Créditos: Murderpedia.

As seguidoras de Charles Manson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten sorriem ao receberem a pena de morte.

As seguidoras de Charles Manson, Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten sorriem ao receberem a pena de morte. Data: 29 de março de 1971. Créditos: Corbis.

A ex-mulher de Charles Manson, Rosalie Willis, e seu filho Jay White. Jay cometeu suicídio em 1993

A ex-mulher de Charles Manson, Rosalie Willis, e seu filho Jay White. Jay cometeu suicídio em 1993. Créditos: mansonblog.com.

Charles Manson. Aos 79 anos, Manson continua preso na Califórnia. Poderá pedir liberdade condicional em 2025.

Charles Manson. Aos 79 anos, Manson continua preso na Califórnia. Poderá pedir liberdade condicional em 2025. Créditos: adoraburl.typepad.com.


Fontes consultadas: Paul Donneley, 501 Crimes Mais Notórios, Harold Schechter, Serial Killers – Anatomia do Mal, Crime Library, The Telegraph, Daily Mail, Los Angeles Times, New York Daily News, Jeff Guinn, The Life and Times of Charles Manson.

Esta matéria teve colaboração de:

Revisão por:

ester

Tradução por:

higor

jackson

maria eduarda

thais

victoria

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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