Kuru: A Doença dos Canibais

Em 1961, um jovem pesquisador e médico australiano chamado Michael Alpers, então aos 28 anos, decidiu largar o conforto e o ar-condicionado do seu consultório na bela cidade de...
Kuru - A Doenca dos Canibais

A Doenca dos Canibais

Kuru

Em 1961, um jovem pesquisador e médico australiano chamado Michael Alpers, então aos 28 anos, decidiu largar o conforto e o ar-condicionado do seu consultório na bela cidade de Adelaide para “fazer saúde de uma maneira diferente”. O médico, de espírito inquieto, buscava desafios e encontrou um à altura de suas expectativas quando tropeçou na cratera de um vulcão, subindo nas altas terras da Papua Nova Guiné. Uma nova, estranha e devastadora doença estava dizimando os nativos daquelas montanhas.

A primeira vez que Alpers ouviu falar da misteriosa doença foi em 1957. De imediato ele ficou intrigado. Quando uma equipe de cientistas australianos foi designada para investigar o caso, Alpers fez de tudo para ir junto. E ele conseguiu.

Alpers voou para a selvagem fronteira montanhosa da cidade de Goroka em 1961. De lá partiu para uma aventura que duraria toda a sua vida e se tornaria sua obsessão. Uma investigação sistemática da doença já estava em andamento, iniciada por um médico local e liderada por um brilhante cientista americano, o físico e médico pesquisador Dr. Carleton Gajdusek, uma figura dinâmica, mas também controversa. Gajdusek e Alpers tornariam-se amigos e colaboradores.

Juntos, os médicos se viram no meio de uma grande tragédia. Mais de 200 nativos morriam por ano vítimas de uma misteriosa e fatal doença, e os efeitos eram devastadores. Chamada de “kuru” pelos nativos Fore, que na língua local significa “tremer”, a doença atacava principalmente mulheres e crianças e tinha como principais sintomas dor nas pernas, braços e cabeça, além de problemas de coordenação motora, dificuldades de deglutição e para caminhar (ataxia) e tremores e abalos musculares.

Uma filmagem feita em 1963 mostra toda a agonia de uma vítima da kuru.

Completamente perdidos e perplexos com o que viam, os médicos chegaram a levar em consideração a possibilidade de que a kuru era causado por algo sobrenatural, em outras palavras: feitiçaria.

Para a maioria de nós, do mundo ocidental, termos como feitiçaria e bruxaria evocam imagens delirantes e demoníacas. Quando alguém fala em feiticeiro, logo pensamos em uma pessoa com face enrijecida e olhos esbugalhados num cemitério estripando uma galinha à luz da lua. Mas para os povos da Papua Nova Guiné, o feitiço é algo incrustado na cultura, e eles possuem uma crença extrema no poder do ocultismo.

Ainda hoje existe uma crença generalizada em toda Papua Nova Guiné de que feiticeiros possuem poderes extraordinários que podem ser usados, algumas vezes, para bons propósitos. Entretanto, a maioria acredita que tais poderes são usados com mais frequência para trabalhos que visam a maldade. Devido a essa crença, muitos no país acreditam que doenças, catástrofes, fome e mortes são causados por feitiços e bruxarias.

E inseridos nesse mundo de superstições e sem uma bibliografia científica que pudesse ajudá-los a desvendar esta misteriosa doença, Alpers e Gajdusek se viram assustados com esta inquietante possibilidade. Mas isso mudaria radicalmente.

Michael Alpers em sua chegada na Papua Nova Guiné, em 1961.

Foto: Michael Alpers em sua chegada na Papua Nova Guiné, em 1961. Créditos: The Global Mail.

Foto: Michael Alpers e dois nativos Fore, Pako Ombeya e Karonde Kugurama. Data: 1963. Créditos: kuru-doco.com

Foto: Michael Alpers e dois nativos Fore, Pako Ombeya e Karonde Kugurama. Data: 1963. Créditos: kuru-doco.com

Carleton Gajdusek (esquerda), em foto tirada em 1959.

Foto: Carleton Gajdusek (esquerda), em foto tirada em 1959. Créditos: kuru-doco.com

Foto: Carleton ao lado dos nativos Fore durante uma filmagem de um grupo australiano. Créditos: kuru-doco.com

Foto: Carleton ao lado dos nativos Fore durante uma filmagem de um grupo australiano. Créditos: kuru-doco.com

Estudando a doença, por puro acaso, uma ligação entre o kuru e o scrapie foi feito. O scrapie é uma estranha e fatal doença degenerativa que afeta o sistema nervoso de ovelhas e cabras.

“Talvez a doença degenerativa e fatal que ataca o cérebro dos Fore seja transmissível como a scrapie”, pensaram os médicos. E assim, os dois pesquisadores embarcaram em testes e experimentos que custariam os 10 próximos anos de suas vidas.

Alpers decidiu realizar uma autópsia em uma vítima e inocular o material da doença em um chimpanzé. Kigea, uma jovem menina da aldeia, logo começa a mostrar os sintomas do kuru. Em poucas semanas ela está morta.

Naquele momento, os Fore estavam desesperados. A doença estava fora de controle e os médicos pareciam ser sua única alternativa. Apesar de acreditarem que o kuru era causado por feiticeiros, o sucesso no tratamento de úlceras (com penincilina) nos habitantes locais por Alpers deu esperanças aos Fore de que aquele médico branco também poderia descobrir a cura da doença. Pesou o fato também de todos ali saberem que ninguém sobrevivia ao kuru. A doença roubava progressivamente o controle, a mobilidade e a fala dos nativos, mas pior, os acometidos pela enfermidade explodiam em gargalhadas incontroláveis. Seria o próprio demônio levando as almas dos seus parentes e rindo em deboche para eles?

Por isso não foi difícil fazer com que o pai de Kigea desse permissão para Alpers realizar uma autópsia, algo que logicamente não era visto com bons olhos por eles.

Kigea, 11 anos, apoiada numa bengala e olhando timidamente para a câmera. Foto tirada por Michael Alpers.

Foto: Kigea, 11 anos, apoiada numa bengala e olhando timidamente para a câmera. Foto tirada por Michael Alpers. Alpers tirou várias fotos e fez inúmeras filmagens dos Fore, documentando a evolução da doença. Créditos: The Global Mail.

“Essa é Kigea, ela era da aldeia Waisa. Uma maravilhosa menina de 11 anos de idade que morreu de kuru. Seu fim foi persistente e horrível. Seu pai desesperou-se e fugiu para a selva até que tudo acabasse. Sua mãe já havia sido levada pelo kuru, como tantas outras mulheres jovens”.

[Michael Alpers, em reportagem do The Global Mail, de Novembro de 2012]

“O extraordinário é que eu ainda podia fazer contato. Lembro-me de perguntar a Kigea, um dia antes de sua morte, para colocar a língua pra fora. Ela estava neste estado travado, mas não estava paralisada. Foi uma situação terrível para todos”.

[Michael Alpers]

Alpers teve que esclarecer alguns pontos da autópsia, principalmente para as mulheres da tribo, que choravam copiosamente. Apesar de ser algo novo e estranho, alguns ajudaram o médico. Aquilo não era uma atividade incomum para eles, já que no passado muitos participaram de processos semelhantes, cortando os corpos dos seus parentes mortos.

“O pai ou um parente próximo segurou a cabeça e eu serrei a parte superior do crânio com um serrote. Levou 20 minutos… como cortar um abacate. Fui em partes específicas do cérebro… tirei pequenos cubos. Então tirei o cérebro e o coloquei em um balde cheio de formol e algodão para que não deformasse. Coloquei a tampa do crânio de volta e costurei”.

[Michael Alpers]

O cérebro de Kigea foi enviado em um voo fretado para Melbourne, Austrália, e de lá para os Estados Unidos. Em terras ianques, uma amostra do cérebro foi injetada em uma chimpanzé chamada Daisy. O experimento foi conduzido por Gajdusek, que estava nos Estados Unidos realizando testes laboratoriais. Em 1964, Alpers se juntou a Gajdusek em Washington para acompanhar Daisy e outro chimpanzé, o macho Georgette, que recebera o implante do tecido contaminado de um menino Fore chamado Eiru.

“Os chimpanzés são tão próximos dos humanos que foi difícil fazer este experimento. Mas tínhamos que fazer!”

[Michael Alpers]

Levou dois anos para que Daisy e Georgette mostrassem os primeiros sintomas do kuru. Eles começaram a se comportar de forma estranha. O caminhar mudou, sem coordenação. Quando Alpers viu que eles não podiam pegar maçãs e levá-las até a boca, percebeu que já tinha visto aquilo antes. Este foi um momento decisivo e tenso. Decisivo porque os pesquisadores confirmam que o kuru era transmissível e tenso porque a doença podia cruzar a barreira das espécies. A revelação, juntamente com os dados epidemiológicos recolhidos com a antropóloga Shirley Lindenbaum, que trabalhava com Alpers, ligou a doença com as festas mortuárias dos Fore.

Festas mortuárias?

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Kuru - A Doenca dos Canibais - Consumo

Consumo de Carne Humana

“Ao morrer, você não preferiria ser comido por parentes do que por vermes?”, um canibal mayoruna perguntou a um visitante europeu.

A pergunta acima, descrita no livro Anatomia do Mal, de Harold Schechter, exemplifica uma prática comum a vários povos ao redor do mundo: o canibalismo.

Como os habitantes da região amazônica peruana e brasileira, os Fore, da Papua Nova Guiné, comiam os corpos de seus parentes mortos por amor e respeito. Tal costume era interpretado pelos Fore como um ato final de amor diante da agonia da morte. E, incrivelmente, mesmo separados por milhares de quilômetros de distância, Mayoruna e Fore canibalizavam seus entes queridos pela mesma razão.

“Se o corpo fosse enterrado, seria comido por vermes; se o corpo fosse colocado em uma plataforma, seria comido por larvas; os Fore acreditavam que era muito melhor que o corpo fosse comido por pessoas que amavam o falecido do que por vermes e insetos. Ao comer seus mortos, eles eram capazes de mostrar seu amor e expressar sua dor”, descreveu Alpers em um artigo.

Antropólogos, entretanto, adicionavam um macabro elemento a este costume. Segundo eles, havia um elemento gastronômico em tal prática. Alguns Fore disseram que seres humanos eram deliciosos, especialmente o cérebro. Por amor ou pelo gosto, o fato era que esse ritual mortuário, literalmente, os levava a morte.

Michael Alpers foi o primeiro a suspeitar de canibalismo como causa da propagação do kuru. Gajdusek era reticente à possibilidade. Ele argumentava que a infecção poderia ser transmitida através de cortes ou feridas, ou talvez durante o manuseio dos olhos e órgãos internos dos mortos. Mas se fosse mesmo o canibalismo o responsável pela transmissão da doença, Alpers deveria entender melhor o povo Fore, assim como seu macabro costume.

Era responsabilidade das mulheres comerem seus mortos, moer os ossos e cozinhar a carne. Os filhos também eram estimulados pelas mães a saborearem o banquete canibal. Partes específicas dos corpos eram dadas a determinados parentes do sexo feminino. Embora meninos se juntassem ao ritual, eles geralmente eram excluídos após os 10 anos de idade. Isso era uma característica bastante interessante, já que o kuru acometia principalmente mulheres e jovens meninas.

Em 1964, Alpers fez um estudo comparando ano a ano os mortos pela doença.

“Eu comparei os dados de 1957, 58 e 59 com 61, 62 e 63, e procurei por qualquer padrão de mudança. No geral, não havia muita coisa, mas se você olhasse para as crianças e jovens, a doença tinha essencialmente desaparecido, mesmo nesse curto espaço de tempo. Obviamente, houve alguma mudança social ou ambiental entre os Fore. Gajdusek e eu fizemos uma lista. Percebemos que houve uma grande introdução de novos alimentos, novos animais, o término de determinadas atividades. Mas o que era biologicamente mais relevante eram as práticas mortuárias, pelo menos no meu ponto de vista”.

[Michael Alpers]

Dois anos depois, pesquisas de campo confirmaram que a doença havia desaparecido em crianças menores de 10 anos. E isso se encaixava em novas regras de comportamento adotadas pelos Fore; uma delas era o término da prática de canibalismo.

Alpers mostrou seus dados em uma apresentação em Washington em 1967. Tais dados e pesquisas pareciam não deixar dúvidas: a prática de canibalismo era a causa do kuru.

“Por que mulheres e crianças apresentam a doença? Porque eram elas que realizavam a prática e não os homens. Por que as crianças pararam de morrer? Porque elas foram proibidas de comer os mortos. Podemos também concluir que a doença não estava sendo transmitida verticalmente de mãe para filho. Foi aí que a ficha caiu”.

[Michael Alpers]

Enraizada numa prática ritualística cultural, o ato de comer o cérebro dos parentes mortos levava os Fore a uma horrenda e prematura morte. E sem saber que tal prática levava à propagação da doença, outros parentes comiam os cérebros infectados daqueles que morriam pela doença, e assim ela continuava a dizimar todo o povo Fore.

As pesquisas dos médicos os levaram a novas e incríveis descobertas, mas a história do kuru estava longe do fim.

Eles descobriram que o príon era o agente infeccioso do kuru. Era o primeiro novo patógeno a ser descoberto em cem anos. Um príon é um agente infeccioso composto principalmente de proteína. Príon é a abreviação de partícula proteinácea infecciosa e, atualmente, todas as doenças conhecidas de príons afetam a estrutura do cérebro ou outro tecido neural, e todas são incuráveis e fatais.

A descoberta colocou a comunidade científica de cabeça para baixo. Todos se voltaram para o kuru, a única doença epidêmica conhecida de prion a atacar humanos. E até hoje o kuru assusta.

Não há cura para a doença, assim como não há cura para nenhuma doença de prion. Os efeitos do kuru continuam devastadores e os períodos de incubação da doença podem se estender por mais de 50 anos. Os Fore pararam de comer o cérebro dos seus parentes mortos, principalmente devido à pressão dos australianos, que na época dominavam a região, e consequentemente o kuru parou de matar.

Mas um aspecto do mistério permaneceu sem solução: quando foi que essa doença começou? Quem teria sido o paciente zero? Relatos orais do kuru aparecem a partir da década de 1910. Em 1970, Alpers escreveu um artigo propondo que o kuru se espalhou a partir de um único caso espontâneo da Doença de Creutzfeldt-Jakob. A Doença de Creutzfeldt-Jakob é uma desordem cerebral caracterizada por perda de memória, tremores, postura rígida, ataques epilépticos e paralisia facial, que dá a impressão de que a pessoa está sempre sorrindo. Sua evolução é rápida e fatal. É chamada por alguns como “a vaca louca” dos humanos.

É uma doença raríssima, mas bastante real. Normalmente apresenta-se em apenas um indivíduo de uma população. Nessa perspectiva, e sabendo que os Fore consumiam o tecido cerebral dos seus mortos em rituais fúnebres, um único caso da Creutzfeldt-Jakob poderia ser ampliada para mais de uma geração.

Tempos depois, análises genéticas forneceram evidências que suportavam essa teoria de Alpers. Não só isso, a genética aplicada a este caso trouxe sinistras surpresas.

Quando Michael Alpers chegou em Papua Nova Guiné, em 1961, e visitou aldeias onde as mulheres em idade fértil estavam sendo dizimadas, sua conclusão era a de que o povo Fore estava sendo extinto. Décadas depois, Alpers ficou intrigado com uma questão que martelava sua mente, “E se num enunciado clássico da seleção natural darwiniana os Fore renascessem das cinzas do kuru com pedigrees genéticos altamente resistentes?”

A resposta veio em um sensacional artigo escrito por Alpers e outros pesquisadores e publicado na revista Science em 2003. Em uma nova rodada de análises genéticas de sobreviventes idosos Fore, descobriu-se que eles tinham uma forma particular de um gene que parecia dar-lhes resistência genética ao kuru. Em uma amostragem mais ampla, duas mil pessoas de outras culturas passaram pelo mesmo teste. E em todas essas duas mil pessoas foram encontradas essa peculiaridade cromossômica. E o que isso quer dizer? Prepare-se!

Os autores do artigo argumentaram que este “popular” gene-príon “protetor” indicava que uma seleção natural havia acontecido. Num passado remoto, os antepassados das pessoas que possuem esse gene haviam amplamente consumido carne humana. O posterior aparecimento de doenças infecciosas devido ao canibalismo fez com que as longínquas gerações futuras viessem com um gene “super forte” que os protegiam de tais doenças. Talvez você, leitor, possua esse gene, e isso quer dizer que o seu tatatatata-ra-vô comeu pessoas, “[…] isso sugere que uma forte seleção de equilíbrio neste locus ocorreu durante a evolução dos humanos modernos”, diz o artigo.

Com o desaparecimento do kuru e a descoberta dos seus mecanismos de propagação, a doença poderia ter se perdido nos anais da curiosidade (exceto nas memórias dos Fore). Mas então, em meados da década de 1980, surgiu a vaca louca. O medo de que a doença atingisse os humanos fez a comunidade científica lembrar do implacável kuru. E esse medo tornou-se um pesadelo quando, em 1996, uma variante da doença Creutzfeldt-Jakob atingiu humanos. Acredita-se que essa variante veio da BSE, popularmente conhecida como doença da vaca louca. Cento e setenta e seis casos foram registrados na Inglaterra.

Comparando com os arquivos de Alpers e Gajdusek, como o vídeo que você viu acima, os acometidos britânicos pareciam fantasmas pálidos dos Fore; seus rostos contorcendo-se nas mesmas formas de angústia; seus membros tremendo incontrolavelmente; imagens que chocaram o mundo, mas que Alpers e Gajdusek conheciam a muito tempo.

Num contexto médico amplo, kuru continua a fornecer informações que ajudam a entender doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.

“Todas essas doenças envolvem acúmulo de proteínas. Todas elas envolvem uma das proteínas erradas do corpo, formando aglomerados de material no cérebro. É este processo que parece ser crítico para o que é uma doença de prion, e está se tornando cada vez mais evidente que tais tipos de processos agem em doenças como Alzheimer e Parkinson”, diz John Collinge, professor e diretor do UK Medical Research Council Prion Unit.

A última vítima conhecida do kuru, uma mulher de 61 anos, faleceu em 2009. A mulher conviveu com o kuru adormecido em seu corpo por mais de 50 anos. Talvez, um “acidente” genético tenha despertado a enfermidade. Provavelmente ela era apenas uma criança quando sua mãe ou tias deram um pedaço do corpo de um parente para ela comer. Pedaço que levou-a à morte.

Na literatura médica, kuru não é mais reconhecida como uma doença exótica e estranha, causada por selvagens canibais de uma ilha remota, e sim como a representante máxima de toda uma nova classe de poderosas doenças que mostram que a saúde humana é mais vulnerável do que parece.

Nas montanhas do oeste da Papua Nova Guiné, a doença ainda causa calafrios. Muitos nunca acreditaram que o canibalismo era a causa e continuam a culpar feiticeiros e bruxos. De qualquer forma, as histórias dos velhos Fore e a presença de tantos pesquisadores e médicos durante tantas décadas mostram que a tragédia forneceu duras lições para mundo e dificilmente será esquecida. Para muitos, o kuru ainda assombra e é uma ameaça real. Levando-se em conta que o período de incubação da doença pode passar dos 50 anos, a qualquer momento o mundo pode novamente ficar frente a frente com uma das mais terríveis doenças a acometer a raça humana.

Michael Alpers e sua filha Kirsten na aldeia de Waisa, brincando com crianças Fore.

Foto: Michael Alpers e sua filha Kirsten na aldeia de Waisa, brincando com crianças Fore. Créditos: kuru-doco.com

Michael Alpers, em 1972, coletando mais informações para suas pesquisas com os Fore.

Foto: Michael Alpers, em 1972, coletando mais informações para suas pesquisas com os Fore. Créditos: kuru-doco.com

 Michael Alpers, em 1972. Mais de 10 anos depois de chegar a Papua Nova Guiné, o médico continua rastreando a doença

Foto: Michael Alpers, em 1972. Mais de 10 anos depois de chegar a Papua Nova Guiné, o médico continua rastreando a doença. Créditos: kuru-doco.com

A antropóloga chegou a Papua Nova Guiné em 1961 para investigar as práticas culturais dos Fore para ajudar a descobrir as causas da doença. Junto com seu marido, Robert Glasse, ela rastreou entre os Fore os primeiros casos datados da década de 1910.

Foto: A antropóloga australiana Shirley Lindenbaum. A antropóloga chegou a Papua Nova Guiné em 1961 para investigar as práticas culturais dos Fore para ajudar a descobrir as causas da doença. Junto com seu marido, Robert Glasse, ela rastreou entre os Fore os primeiros casos datados da década de 1910. Créditos: kuru-doco.com

A antropóloga Shirley Lindenbaum com os Fore em 1961.

Foto: A antropóloga Shirley Lindenbaum com os Fore em 1961. Créditos: kuru-doco.com

 Shirley Lindenbaum e os Fore

Foto: Shirley Lindenbaum e os Fore: Créditos: kuru-doco.com

Curiosidades

  • As descobertas de Albers e Gajdusek envolvendo o kuru foram reconhecidas como uma das 20 maiores descobertas da ciência biomédica do século 20.
  • Carleton Gajdusek ganhou o Prêmio Nobel de medicina em 1976 pelo seu trabalho com o kuru.
  • O currículo de Gajdusek foi manchado em 1996 quando ele foi acusado e condenado por pedofilia. Em suas pesquisas no Pacífico Sul, Gajdusek adotou 56 crianças e as levou para morar com ele nos Estados Unidos. Um deles, quando adulto, o acusou de molestá-lo sexualmente. Descobriu-se que Gajdusek fazia sexo com alguns dos meninos adotados. Ele declarou-se culpado da acusação e foi condenado a 12 meses de prisão. Foi solto em 1998 e foi morar na Europa, vindo a falecer na Noruega aos 85 anos.

Carleton Gajdusek recebendo o Prêmio Nobel em 1976

Foto: Carleton Gajdusek recebendo o Prêmio Nobel em 1976. Créditos: kuru-doco.com

  • Michael Alpers nunca escondeu seu desconforto com o termo canibalismo. “Você não gostaria de chamar seus amigos de canibais”, escreveu ele. Mais tarde ele inventaria um novo termo para o ritual canibal Fore: “transumption” (sem tradução).
  • Alpers definiu o costume Fore como “incorporação do corpo da pessoa morta para os corpos dos parentes vivos, contribuindo assim para libertar o espírito do morto”.
  • Alpers conheceu Carleton Gajdusek em 1962, e apesar do comportamento difícil do americano, os dois construíram uma amizade que durou até a morte de Gajdusek. “Ele perturbou muita gente. Todo mundo me alertava sobre ele, mas depois, quando descobrimos que o kuru era como o scrapie, unimos forças para testar a ideia de que o kuru também era transmissível”.
  • Até hoje Alpers defende com unhas e dentes seu difícil amigo de pesquisa sobre o episódio de abuso infantil.
  • Em 29 de novembro de 2013 estreia nos cinemas brasileiros o filme de terror Somos o que Somos, que mostra uma família de canibais cuja matriarca morre em decorrência do kuru.

“É uma doença extremamente poderosa, horrível de se viver, e horrível de ver alguém morrendo dela. As pessoas ainda tem muito medo dela”.

[Michael Alpers]

Vídeo

Filmagem feita pelo pesquisador Carleton Gajdusek, entre 1957 e 1962. A filmagem mostra as atividades diárias do povo Fore: um garoto brincando com uma cobra; um garoto com um arco-e-flecha; crianças brincando; um homem construindo o telhado de sua casa; uma mulher batendo a casca de uma árvore, dentre outras atividades.

Mais informações, vídeos e fotos, além de um excelente documentário sobre a aventura de Alpers e Gajdusek você pode ver no site oficial do documentário Kuru: The Science and The Sorcery.



Fontes Consultadas: Documentário: Kuru: The Science and The Sorcery, Kuru: The Dynamics of a Prion Disease, Cannibalism causes fatal disease?; The New York Times, The Global Mail, Vice, Sorcery Act 1971.

Esta matéria teve colaboração de:

Revisão por:

ester

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