Serial Killers: O Caçador de Humanos

Caçadores de animais costumam ser impiedosos. O ser vivo que está na mira de um rifle geralmente não escapa. Mas a morte, para esses animais, muitas vezes pode ser...
Serial killers - O Caçador de Humanos

Serial Killers - O Cacador de Humanos

Caçador de Humanos

Caçadores de animais costumam ser impiedosos. O ser vivo que está na mira de um rifle geralmente não escapa. Mas a morte, para esses animais, muitas vezes pode ser uma bênção, um alívio para a dor e o sofrimento de ser perseguido, aleijado ou mutilado.

A caça é algo que se funde à história do homem. Sempre caçamos e sempre caçaremos. Como esporte, proporciona um momento único em contato com a natureza, amigos e família. Para muitos caçadores profissionais, a caça representa a incorporação dos valores familiares. Mas, claro, existe também um componente emocional (psicólogos preferem chamar de erótico), indicado pela elevação da frequência cardíaca, principalmente naquele momento em que predador e presa se entreolham. Essa emoção pode também servir como um forte estímulo; perseguir, caçar e matar proporciona uma sensação de poder.

Existem caçadores que perseguem animais, mas não atiram, assim como existem pescadores que pescam e devolvem o peixe ao rio. Estes são diferentes, e sentem orgulho em não matar animais. Entretanto, a simples perseguição causa dor e sofrimento a esses animais. No caso do peixe é pior; ele volta para a água fraco, ferido e com a boca mutilada. Não se sabe quantos peixes morrem após serem pegos e devolvidos ao seu habitat, mas sabe-se que em torno de 10% das trutas morrem apenas pelo simples fato de serem manipuladas pelas mãos humanas.

Eu também batia no meu irmão mais novo. A sensação de ser maior, de ser mais poderoso, de saber que aquele indivíduo que está na sua frente não pode fazer nada contra você, é muito prazerosa. Mas nos coloquemos no lugar dos mais fracos. Qual seria a sensação de ser perseguido? Como dito, mesmo que caçadores persigam animais e não os matem, o simples ato de ser perseguido causa sofrimento. Patrick Bateson, da Universidade de Cambridge, Inglaterra, descobriu que veados que são perseguidos por cães selvagens sofrem de estresses semelhantes ao nosso sentimento de medo. Um veado vítima de uma perseguição apresenta altos níveis de cortisol e suas células vermelhas sanguíneas destruídas indicam um extremo estresse psicológico.

Seja como for, não há dúvidas de que os animais sofrem. Graham Collier, professor de filosofia da Universidade da Georgia, Estados Unidos, diz que a caça por “esporte” é apenas outro nome para descrever “a emoção em assassinar”. Segundo ele, a suposta alegria narcisista que impulsiona o caçador compulsivo de hoje não é a atitude psicológica que levou o caçador do período paleolítico a fazer o mesmo. Bacanas americanos e europeus costumam pagar fortunas para que governos de países africanos os deixem caçar em seus territórios. Recentemente, tivemos o caso da jornalista inglesa Melissa Bachman, que causou indignação em todo mundo. Para muitos especialistas, caçadores são pessoas narcisistas e sádicas, que buscam o prazer, poder e controle ao subjugar um ser indefeso.

Em abril de 2013, a Examiner publicou uma reportagem sobre um grupo de caçadores de lobos que dizem sentir orgasmos ao caçar, matar, estripar e comer suas vítimas de quatro patas. “A necessidade em caçar e prender os lobos não se trata de administrar ou preservar a vida selvagem. Essa é uma necessidade de indivíduos psicologicamente doentes que obtêm prazer sexual ao torturar um animal que eles amam odiar”, diz a reportagem.

Nesse sentido podemos comparar caçadores a serial killers. Muitos serial killers se sentem vulneráveis durante boa parte de suas vidas e, ao descobrir que controlar alguém apaga esse sentimento, eles começam a matar, e assim atingem a autogratificação, que muitas vezes vem em forma de orgasmo. Como os caçadores de lobos acima e muitos outros ao redor do mundo, serial killers descobrem que causar humilhação e dor em suas vítimas é uma maneira de mostrar-lhes quem está no comando. Eles torturam suas vítimas de todas as formas possíveis, às vezes fazendo-as recobrar a consciência para que elas possam ver com os próprios olhos que são eles quem estão no controle. O assassinato acaba sendo um substituto do prazer sexual e da incompetência como pessoas que eles sentem em sociedade.

Caçadores de animais e serial killers não parecem estar tão longe um do outro. Ambos buscam emoção, poder e controle. Ambos matam seres vivos repetidamente e ambos matam causando sofrimento físico e psíquico às suas vítimas. Causar sofrimento e morte a outras pessoas é o que diverte serial killers. O mesmo eu posso dizer de um caçador, afinal, para muitos, é viciante o gemido da presa ao ser atingida por um tiro.

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Serial Killers - O Cacador de Humanos - Caça no Alasca

Alasca

Alasca

O Alasca é conhecido entre os americanos como a divisa do “Norte para o Futuro”, mas se você perguntar a qualquer um que já tenha estado lá, eles provavelmente o descreverão como a última fronteira americana. Mesmo sendo o maior estado em território do país, a população consiste apenas de 731,449 pessoas, ocupando a posição 47 dos 50 estados americanos. Os pouquíssimos habitantes, porém, não acham que o lugar é necessariamente o fim do mundo. Definitivamente não há nenhum outro lugar no planeta como o Alasca. Belas costas oceânicas, rios cheios, magníficas montanhas, esplêndidas geleiras, florestas temperadas e uma abundância de vida selvagem. É um pedaço da América congelada que oferece aos moradores e aos turistas uma experiência pura de vida selvagem.

O vale do Rio Knik é o território de caça preferido dos caçadores. A apenas 40 quilômetros da maior cidade do estado, Anchorage, o desfiladeiro esculpido pelo gelo pré-histórico glacial torna-se um lugar perfeito para encontrar cabras, ursos e alces. E foi atrás desses animais que, em 12 de setembro de 1982, dois homens saíram para uma tarde de adrenalina ao longo do Rio Knik. Eles eram John Daily e Audi Holloway, dois amigos policiais que cresceram praticando o esporte preferido das gerações alascanas: a caça.

Mas aquela tarde era o dia da caça. Os dois homens não tiveram muita sorte e logo a escuridão dava sinais de que vinha com força. Numa última tentativa de levar um troféu para casa, os dois caçadores começaram a gritar, imitando sons de animais, na esperança de que a caça desavisada viesse em suas direções. O local não era fácil, mas os dois eram familiarizados com aquele lugar, e logo eles estavam cortando a tundra até um banco de areia. E foi avançando em direção ao rio que eles notaram algo diferente. Uma bota parecia emergir da areia. Para qualquer pessoa, encontrar tal objeto não seria motivo de preocupação ou curiosidade, mas policiais são diferentes, eles sentem cheiros onde ninguém mais sente, e aquela bota despertou a curiosidade deles, e para um policial, curiosidade significa investigação. Após uma inspeção mais minuciosa eles foram surpreendidos. Uma vez que suas mentes processaram o que eles haviam acabado de ver, deram um pulo para trás. Instintivamente eles agiram como policiais; Em outras palavras, não queriam contaminar ou mexer naquela cena. Eles haviam acabado de descobrir restos mortais humanos.

Rollie Port, um condecorado veterano do Vietnã, assumiu a investigação. Ele era considerado um dos melhores investigadores da força policial de Anchorage. Meticuloso, costumava passar horas nas cenas de crimes examinando cada centímetro. Ao chegar no local, Port tirou várias fotografias de todos os ângulos possíveis; examinou cuidadosamente os restos mortais que ali se encontravam antes de autorizar que os restos fossem ensacados. Levou várias horas para que ele terminasse o seu meticuloso serviço, mas no final valeu a pena. Peneirando a terra em volta do corpo, ele encontrou uma única cápsula de uma bala calibre .223. E Port sabia muito bem de qual arma vinha aquela bala: um rifle de alta potência, talvez um M-16, ou um Mini-14 ou um AR-15. Mas o mais importante era estabelecer o que provavelmente acontecera àquela pessoa. Se havia balas, então havia armas, e se havia armas, então eles tinham um assassinato.

De volta a Anchorage, uma autópsia preliminar revelou detalhes estranhos. A vítima era uma mulher de idade indeterminada. Ela já estava morta há aproximadamente seis meses quando foi encontrada e a causa da morte foi três tiros de bala calibre .223. Mas o mais estranho foram algumas ataduras da marca Ace encontradas misturadas com o cadáver. Aparentemente a vítima foi vendada e morta. Outra coisa que chamou atenção foram as roupas da vítima. Embora ela tenha sido encontrada vestida, não havia buracos de bala no vestuário. Estaria a vítima nua quando foi baleada? E após sua morte o assassino a vestiu?

Duas semanas depois, finalmente, os investigadores conseguiram identificar a vítima. Ela era Sherry Morrow, 24 anos, dançarina do Wild Cherry Bar, uma casa noturna no centro de Anchorage. A última vez que ela foi vista foi em 17 de novembro de 1981 e, de acordo com amigos, Morrow saíra para encontrar com um homem que lhe havia oferecido 300 dólares para posar para fotos.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Sherry Morrow

Nome: Sherry Morrow

Idade: 24 anos

Desaparecimento: 17 de novembro de 1981

Local: Anchorage, Alasca

Fatos: Os restos mortais de Sherry foram encontrados ao lado do rio Knik, em 12 de setembro de 1982, por dois policiais que foram caçar na região. Ela levou três tiros, e cartuchos encontrados perto do corpo indicavam que a arma utilizada era uma calibre .223. Uma estranha característica chamou atenção dos policiais: embora ela estivesse vestida, não havia buracos de bala nas roupas, o que sugeria que ela fora baleada nua e vestida após a morte.

Desaparecimentos em série

A polícia de Anchorage suspeitava que o assassinato de Sherry Morrow não havia sido um incidente isolado. Ao longo dos últimos dois anos, houvera um aumento repentino no número de pessoas desaparecidas, com a maioria dos casos sendo arquivados. As desaparecidas, em sua maioria, eram dançarinas de strip-tease e prostitutas. Antes da descoberta do assassinato de Sherry, tais desaparecimentos não receberam muita atenção da polícia. Como eu já escrevi em trocentos posts desse blog, prostitutas são o tipo de pessoa a quem a polícia não dá atenção, até porque elas tendem a ser solitárias e muitas viajam de cidade em cidade, apenas para reaparecer anos mais tarde. A polícia não tem tempo para elas. De qualquer forma, uma ligação foi feita entre o assassinato de Sherry Morrow, uma dançarina de strip-tease, e os vários desaparecimentos de mulheres como ela nos últimos anos. A polícia não queria que essa suspeita chegasse aos ouvidos dos residentes de Anchorage e consequentemente aos ouvidos de um possível assassino, por isso tal suspeita foi mantida sob sigilo.

Investigando os arquivos, policiais encontraram pelo menos três mulheres que se encaixavam no perfil de Sherry e que estavam desaparecidas desde 1980. A descoberta acendeu a luz amarela no departamento, mas nem todos acreditavam que poderia existir um psicopata agindo nas ruas de Anchorage, pegando e matando dançarinas. Como em muitos outros casos (veja O Assassino da Fazenda dos Porcos), a própria polícia é cética em relação a tal ideia. E não é para menos. Em sã consciência, ninguém pode pensar ou imaginar que existe um psicopata serial killer agindo dentro da sua comunidade. É algo tão irreal que só podemos imaginar tal possibilidade em filmes. Até mesmo policiais pensam assim. E levando-se em conta locais onde o assassinato é um fenômeno raro (como o Alasca), tal pensamento torna-se ainda mais impossível de ser concebido.

Sim ou não, a Tropa do Estado do Alasca, uma divisão do Departamento de Segurança Pública do Estado, foi designada para determinar se o assassinato de Sherry Morrow foi ou não um incidente isolado. Trabalhando com o Departamento de Polícia de Anchorage, as duas agências começaram a compartilhar arquivos e comparar descobertas. E nesse meio tempo eles encontraram o primeiro indício de que o assassinato de Sherry poderia não ser um incidente isolado.

Dois anos antes do corpo da dançarina ter sido encontrado, trabalhadores da construção civil descobriram restos mortais humanos enterrados numa cova rasa perto da estrada Eklutna, fora da cidade de mesmo nome, uma pequena cidade a pouco mais de 1 hora de Anchorage. Animais haviam levado a maior parte dos restos e haviam poucas evidências no local. A vítima nunca foi identificada e foi apelidada pelos investigadores do caso como “Eklutna Annie”. No mesmo ano (1980), outro corpo foi encontrado perto de uma pedreira próxima ao local onde Eklutna Annie repousava. Essa outra vítima foi identificada como Joanne Messina, uma dançarina de strip-tease. Infelizmente, a decomposição do corpo deixou poucas evidências a serem encontradas.

As descobertas, apesar de promissoras, não levaram as investigações a lugar algum. Meses se passaram e a cada dia a esperança de capturar o assassino de Sherry diminuía. As perspectivas não eram das melhores. Investigadores começaram a conviver com a possibilidade daquele ser um caso isolado, o que indicava que eles provavelmente nunca pegariam o assassino. Por outro lado, se o assassino de Sherry tinha alguma conexão às mortes de Eklutna Annie e Joanne Messina, então havia esperanças, e a esperança era que ele atacasse novamente e cometesse algum erro, erro que levaria os investigadores até ele. E como em muitos casos de serial killers mundo afora, foi isso o que aconteceu.

Uma vítima consegue escapar

Em junho de 1983, a adolescente Laura Sarkisyan era morta com requintes de crueldade perto de uma estação ferroviária em Shakhty, Rússia. E neste mesmo mês não era só o estripador da floresta russo que estava à caça de humanos para satisfazer seus perversos desejos sexuais. A milhares de quilômetros de distância de Shakhty, mais especificamente em Anchorage, Alasca, um outro serial killer também saía em busca de vítimas.

Na noite do dia 13 de junho de 1983, um caminhoneiro passava pela cidade de Anchorage quando percebeu uma mulher agitando os braços e gritando em sua direção. Ela estava frenética; tinha algemas penduradas em um dos seus pulsos e estava com a roupa toda ao avesso. O caminhoneiro a socorreu. A mulher era uma prostituta e disse que um louco estava atrás dela. O caminhoneiro levou a mulher até o Big Timer Motel, em Anchorage. Chegando lá, ela fez uma ligação para o seu cafetão relatando o incidente. O caminhoneiro, mais prudente, dirigiu até o Departamento de Polícia da cidade e relatou o ocorrido.

Quando o official Gregg Baker chegou até o motel, encontrou a mulher ainda sozinha e com as algemas. Enquanto ele removia suas algemas, ela começou a contar uma sinistra história.

Segundo a mulher, ela foi abordada na rua por um homem na casa dos 40 anos, cabelos ruivos, que ofereceu U$ 200 dólares por sexo oral. Ela concordou com a oferta (uma boa oferta, segundo ela), mas no meio do ato, o homem a algemou e sacou uma arma. Ela relatou que o homem a tranquilizou, dizendo que se ela fizesse o que ele mandasse nada aconteceria a ela. Ele então dirigiu até sua casa em Muldoon, um bairro de alto padrão de Anchorage, não muito longe do centro da cidade. Uma vez lá dentro, ela foi brutalmente estuprada, teve os mamilos mordidos e foi violada com um martelo. Após um breve repouso, o homem disse que a levaria de avião até sua cabana nas montanhas, e mais uma vez a advertiu dizendo que nada de ruim aconteceria a ela se ela o obedecesse. Eles foram até o aeroporto de Anchorage e o homem forçou-a a entrar dentro de um pequeno avião. A jovem prostituta sabia muito bem no que ela estava se metendo; aquele homem parecia ser um psicopata lunático. Certamente ele não estava levando-a para um fim de semana de amor nas montanhas. Ela via a morte chegando a qualquer momento. Quando o homem começou a carregar o avião com suprimentos, ela esperou até que ele virasse de costas, empurrou a porta e correu como se estivesse correndo de um tsunami, sem olhar para trás. Mas em dado momento ela olhou, e quando ela olhou, o homem estava correndo em sua direção, com os olhos vidrados, feito um predador atrás de sua caça. A sorte da prostituta foi o caminhoneiro. No momento em que o caminhoneiro foi parando para ajudá-la, o predador, talvez sentindo o cheiro de perigo, recuou, e desistiu.

Um homem. Duas faces

Após registrar seu depoimento na delegacia, os investigadores levaram a jovem prostituta até o aeroporto Merrill Field. Eles esperavam que ela pudesse identificar o avião do seu sequestrador. Andando pelo hangar, ela notou um modelo Piper Super Cub azul e branco, número de série N3089Z, e identificou como sendo o avião do seu algoz. Uma checada na torre de controle revelou que o avião pertencia a Robert Christian Hansen, 44 anos, que vivia em Old Harbor Road.

Após levar a mulher até um hospital, Baker e um grupo de investigadores foram direto até a casa de Hansen. O que ele teria a dizer? Seria verdade o que a mulher contara?

Ao saber da história, Hansen ficou completamente indignado. Ele era um homem respeitável e receber aquela visita era uma afronta à sua imagem. Ele negou qualquer envolvimento com a mulher e, num tom irônico, chegou a questionar a história. “Você não pode estuprar uma prostituta, pode?”, disse ele.

Hansen era um homem casado, pai de dois filhos, um empresário de sucesso e respeitável membro da comunidade. Aos policiais, ele disse que sua mulher e filhos estavam de férias na Europa e que passara toda a tarde e noite da suposta agressão na companhia de amigos. Os policiais ficaram confusos. O homem parecia estar dizendo a verdade. Em dado momento se perguntaram o que estavam fazendo ali, importunando um homem de família por causa da história louca de uma prostituta. De qualquer forma eles eram policiais e deviam seguir em frente. A checagem dos álibis parecia ser o caminho mais plausível. E os álibis foram confirmados. Os policiais pediram desculpas e nenhuma acusação foi feita contra Robert Hansen.

As coisas pareciam estar calmas novamente quando, 10 dias antes do aniversário de 1 ano da descoberta dos restos mortais de Sherry Morrow, mais precisamente no dia 2 de setembro de 1983, uma macabra descoberta veio à tona. Outro corpo havia sido encontrado ao longo do rio Knik. Os restos estavam parcialmente putrefados e enterrados em uma cova rasa. A vítima foi posteriormente identificada como Paula Golding, 17 anos, uma dançarina de strip-tease e prostituta de Anchorage. Ela havia desaparecido cinco meses antes. Uma autópsia revelou que ela havia sido morta com uma bala calibre .223.

Serial killers - O Canibal de Milwaukee - Olhar

Se existiam dúvidas, elas acabaram de desaparecer. Dois corpos. Duas jovens mulheres. Duas dançarinas de strip-tease. As duas encontradas na margem do rio Knik. As duas mortas com uma arma calibre .223. Camuflado sob o gelo do extremo norte, um serial killer caçava jovens prostitutas de Anchorage. Supondo que ele descartava os corpos das vítimas na imensa área ao longo do rio Knik, policiais chegaram à terrível conclusão de que o número de vítimas poderia ser muito maior do que as duas encontradas.

Convencidos de que havia um serial killer à solta, o Departamento de Polícia de Anchorage pediu ajuda ao FBI. Esta não era a primeira vez que autoridades do Alasca lidavam com um serial killer. Entre 1979 e 1981, o serial killer Thomas Richard Bunday espalhou o terror na cidade de Fairbanks, assassinando cinco mulheres. Militar, ele conseguiu camuflar-se durante anos. Quando finalmente a polícia descobriu quem era o assassino, Bunday suicidou-se jogando sua moto na frente de um caminhão. Era fato que a polícia do Alasca não tinha boas lembranças de Bunday, mais fato ainda era que eles haviam perdido aquela batalha. Por isso eles não pensaram duas vezes em chamar o FBI para auxiliá-los neste novo caso.

O FBI sempre foi conhecido pela obstinação de seus agentes em caçar serial killers. Já nos anos 70, eles criaram, talvez, o primeiro departamento do mundo especializado nestes tipos de assassinos. E o FBI não decepcionou. Em resposta ao pedido de Anchorage, eles enviaram, simplesmente, um dos maiores especialistas da história em serial killers, uma verdadeira lenda: John Edward Douglas.

Douglas foi enviado ao Alasca para interagir com a força policial local e traçar um perfil do serial killer de Anchorage. Para muitos investigadores, o pai de família Robert Hansen continuava um suspeito viável e muitos deles estavam ansiosos para compartilhar suas suspeitas com Douglas.

A Mente de Um Caçador

A este ponto, vamos dar um pulo de 13 anos para o futuro. Em 1996, John Douglas publicou o livro Mind Hunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit (Caçador de Mentes: Por Dentro da Unidade de Crimes Em Séries do FBI). Neste livro, Douglas descreve vários casos em que trabalhou, um deles é o do serial killer de prostitutas de Anchorage.

No livro, Douglas diz que o assassino escolheu prostitutas e dançarinas de strip-tease porque a maioria dessas pessoas são viajantes. Elas mudam de cidade em cidade; fogem de casa e vão viver em cidades distantes, completamente sozinhas. Essas são as vítimas preferidas de serial killers, primeiro porque elas saem com qualquer homem; segundo porque, se elas sumirem, ninguém irá notar.

Devido à insistência dos investigadores locais, Douglas começou a investigar Robert Hansen. E como todo especialista da área, Douglas esmiuçou o seu passado.

Douglas notou alguns pontos interessantes em Hansen. Ele tinha estatura baixa, pele do rosto “esburacada” e sofria de um grave problema de fala: ele era gago. Devido à sua aparência, Douglas supôs que ele devia sofrer com problemas de pele, como acne, e que por isso, quando adolescente, deve ter sofrido bullying dos seus colegas. As acnes e a gagueira, segundo Douglas, poderiam ter acarretado uma baixa auto-estima em Hansen, e isso poderia explicar porque ele vivia em uma casa num bairro isolado. O abuso de prostitutas é uma maneira dos abusadores vingarem de mulheres. Se Hansen era o serial killer, provavelmente ele estava usando-as como uma forma de se vingar. “Talvez, pelo seu aspecto quando adolescente, ele fora ignorado pelas mulheres”, pensou Douglas.

A esta altura todos os investigadores estavam familiarizados com Hansen e seu estilo de vida. Eles descobriram que ele era um exímio caçador, tendo ganho fama após matar uma ovelha selvagem com um arco-e-flecha. Inclusive, ele ganhou quatro condecorações na Pope & Young (em 1969, 1970 e 1971), uma das principais organizações de caça dos Estados Unidos.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Robert Hansen - 1971

Na foto: Robert Hansen segurando um dos seus troféus. Data da foto: 1971. Créditos: Anchorage Daily News

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Robert Ransen

Na foto: Robert Hansen posa com seus troféus após uma caçada. Data da foto desconhecida. Créditos: Murderpedia

Douglas supôs: “Talvez o nosso amigo tenha se cansado de carneiros, alces e ursos e encontrara uma presa mais interessante”. Com o perfil progredindo, Douglas disse aos investigadores que se Hansen fosse mesmo o serial killer, como um caçador, possivelmente ele era um “colecionador” e guardaria pequenas lembranças de suas vítimas.

Apesar das suspeitas, não havia nada de incriminador contra Hansen. A única maneira de considerá-lo como suspeito seria se os investigadores encontrassem algum buraco em seu álibi. Douglas suspeitou que os amigos de Hansen mentiram por ele e encorajou os investigadores a ameaçá-los com indiciamentos. Encorajado por Douglas, o sargento da Polícia do Estado Glenn Flothe decidiu interrogar os amigos de Hansen mais uma vez. Bingo! Pressionados, os homens disseram que mentiram e que não haviam estado com Hansen na noite em que a prostituta fora supostamente sequestrada e levada até o aeroporto. Nesse meio tempo, a polícia descobriu que Hansen cometera uma fraude de seguros. Certa vez, ele relatou à polícia que vários itens pessoais foram roubados de sua casa, mas uma investigação provou que ele escondera tais itens em seu porão, na esperança de receber o seguro.

Após saber da tentativa de fraude de Hansen, os investigadores chegaram à conclusão de que por trás daquela máscara de homem respeitável estava alguém que escondia suas verdadeiras intenções. Flothe foi até o Juiz Victor Carlson com um caderno contendo 48 páginas e o Juiz concedeu-lhe oito mandatos de busca a serem executados na casa de Hansen.

Em 27 de outubro de 1983, os investigadores seguiram Hansen até o seu trabalho e antes que ele pudesse entrar, o “convidaram” para que fosse com eles até a delegacia. Hansen não pareceu preocupado, não perguntou o motivo, e apenas concordou em ir junto. Ao mesmo tempo, dois grupos de investigadores cumpriam os mandatos de busca na casa e no avião do suspeito.

A casa de Hansen ficava na Old Harbor Road, uma sinistra rua afastada de Anchorage. O aspecto sombrio da rua lembra um pouco a macabra Elm Street, moradia de Freddie Krueger. Mas apesar da atmosfera bucólica e abandonada, o local era habitado por pessoas de poder aquisitivo alto. A casa de Hansen era grande e confortável. Por fora parecia não muito bem cuidada, mas por dentro o aspecto era diferente.

Os policiais entraram e começaram a procurar por algo incriminatório. Encontraram armas por toda a casa, mas nada que pudesse implicar Hansen nos assassinatos.

Eles estavam prestes a ir embora quando um dos policiais descobriu um espaço escondido aninhado nas vigas do porão. A propósito, um sinistro porão, com cabeças de animais decorando todo o local. Dentro deste espaço escondido, eles descobriram um rifle Remington 552; uma pistola Thompson 9 milímetros; um mapa de aviação, com locais específicos marcados em vermelho; várias jóias; recortes de jornais; uma espingarda Winchester calibre .12; uma carteira de motorista, e vários documentos de identidades. Robert Hansen parecia estar em sérios apuros, não por essas descobertas, mas porque entre as carteiras de identidade estavam as das duas mulheres mortas e o mais importante: um rifle Mini-14 calibre .223.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Old Harbor Road

Na foto: A sinistra rua Old Harbor Road, moradia de Robert Hansen. Créditos: Google Street View.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Old Harbor Road - 2

Na foto: A sinistra rua Old Harbor Road, moradia de Robert Hansen. Créditos: Google Street View.


Serial Killers - O Cacador de Humanos - Porão Hansen

Na foto: O porão de Hansen. Créditos: Murderpedia.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Rifles

Na foto: Dois rifles encontrados na casa de Robert Hansen. Créditos: Murderpedia.

O Passado do Caçador

Robert Christian Hansen nasceu em 15 de fevereiro de 1939, em Esterville, Iowa. Filho de Christian Hansen, um imigrante dinamarquês, e Edna Hansen, Robert teve uma educação bastante rigorosa. Seu pai era muito rigoroso e obrigava o filho a trabalhar longas horas na padaria da família. Mas não era isso o que mais afligia o pequeno Robert Hansen. Ele sempre foi considerado pequeno pra idade e com o passar dos anos sua estatura passou a ser motivo de vergonha. Para piorar, na adolescência sofreu com um problema grave de acne, problema do qual ele lembraria pelo resto da vida. Embora fosse naturalmente canhoto, seus pais o obrigaram a usar a mão direita. Essa educação rígida acabou agravando um outro problema de Hansen: a gagueira. Ele tinha poucos amigos na escola, mas esses poucos raramente conversavam com ele. Ele não tinha uma amizade profunda. Em 1957, o carniceiro de Wisconsin, Ed Gein, assassinava Bernice Worden. Na mesma época, no estado vizinho, Robert Hansen formava-se no colegial. Logo ele estava servindo o exército. Após o treinamento básico nas forças armadas, ele voltou para sua cidade natal mas foi obrigado a dedicar um fim de semana por mês para serviços militares. Ele continuou trabalhando na padaria do seu pai e de vez em quando fazia trabalho voluntário num grupo de escoteiros. Em 1960, aos 21 anos, conheceu uma garota local e casou-se com ela.

O primeiro indício de desvio na vida de Robert Hansen ocorreu em 7 de dezembro de 1960. Nesse dia, ele incendiou o ônibus escolar dos escoteiros. Não se sabe ao certo, mas aparentemente Hansen sofria abusos por parte do grupo. Ele era motivo de chacota por da causa sua altura? Rosto? Não se sabe. O fato é que uma testemunha viu Hansen incendiando o ônibus e ele foi condenado a três anos de prisão. Envergonhada da ação do seu marido, sua esposa pediu o divórcio. Na cadeia, ele foi avaliado como dono de uma “personalidade infantil”. Serviu apenas 20 meses e foi solto.

Pouco depois da sua libertação, ele conheceu uma jovem mulher. Os dois se casaram em 1963. Sua fachada exterior mostrava um homem quieto, calmo e devoto à esposa. Mas por dentro, Hansen era um outro homem. Afligido por um desejo incontrolável de cruzar para o lado errado da vida, Hansen começou a praticar pequenos furtos. Foi preso várias vezes e não durava em emprego algum. Em 1967, ele decidiu que era hora de recomeçar a vida. Talvez ele quisesse mesmo recomeçar sua vida do zero ou talvez ele tenha percebido que não tinha mais quem roubar em Iowa. Aos 28 anos, Hansen decidiu mudar para o Alasca, um lugar distante o suficiente para desajustados como ele que buscavam recomeçar a vida.

Em Anchorage, Hansen parecia realmente ter mudado de vida. Tornou-se um empresário bem-sucedido, prosperando no ramo de atuação da família: a panificação.

Obteve uma licença de piloto, comprou seu próprio avião e se tornou um exímio caçador de animais selvagens, perseguindo cabras de montanha, ursos-cinzentos e lobos com arco e flecha e rifle. Para os seus vizinhos, ele parecia um cidadão modelo: um homem de família que venceu por esforço próprio e um membro engajado da comunidade.

Mas logo rachaduras começariam a surgir em sua fachada exemplar. Em 1977, ele foi preso por roubar uma moto-serra e condenado a cinco anos de prisão. Depois de uma avaliação mental habitual, um psiquiatra da prisão concluiu que Hansen sofria de “transtorno afetivo bipolar” e pediu que o tribunal o obrigasse a tomar lítio para controlar suas mudanças de humor. Tal ordem nunca foi cumprida e 1 ano depois de ser preso Hansen já estava nas ruas.

Durante o início da década de 1980, Hansen deu queixa de um assalto à sua casa. Ele recebeu U$ 13 mil dólares da companhia de seguros e usou o dinheiro em sua padaria. Logo, a padaria de Hansen tornou-se uma das mais bem sucedidas de Anchorage. À esta altura, Hansen tinha dois filhos com sua mulher, tinha um negócio que lhe rendia um bom dinheiro e, consequentemente, era bastante respeitado na comunidade. Seus problemas passados com a lei já estavam superados e ele parecia viver uma vida tranquila e monótona. Apenas parecia.

O Acordo

Voltando ao dia em que foi preso e que evidências incriminatórias foram encontradas em sua casa, Hansen negou qualquer envolvimento nos assassinatos. Depois de um breve jogo de gato e rato, ele se cansou das acusações e pediu um advogado. Foi pedida a prisão de Hansen sob acusação de agressão, sequestro, crimes de armas, roubo e fraude de seguros.

Em 3 de novembro de 1983, o tribunal de Anchorage acusou-o oficialmente de sequestro, cinco acusações de má conduta em posse de uma arma, roubo em segundo grau e fraude em seguros. Os investigadores aguardavam os resultados dos testes balísticos no rifle de Hansen e, por isso, inicialmente, ele não foi acusado de assassinato. Ele declarou-se inocente de todas as acusações e sua fiança foi fixada em meio milhão de dólares.

O fim da linha para Robert Hansen chegou no dia 20 de novembro de 1983. O laboratório criminal do FBI, em Washington, concluiu que as cápsulas encontradas nas cenas dos assassinatos vinham todas do rifle de Hansen. O pino de disparo e as marcações do extrator eram idênticas.

Hansen foi percebendo aos poucos que a massa de evidências contra ele dava escassas chances dele vencer no tribunal. Ele ainda dizia ser inocente, mas a cada dia novas provas chegavam contra ele. Dois meses depois, o caçador permanecia trancafiado e resignado. Em 22 de fevereiro de 1984, o advogado de defesa de Hansen, Fred Dewey, marcou um encontro entre seu cliente e o promotor de Anchorage, Victor Krumm. Durante a reunião, Krumm ofereceu a Hansen um acordo. Em troca de sua confissão completa, o promotor garantiu-lhe que ele só seria acusado dos quatro casos de assassinatos conhecidos por eles: Sherry Morrow, Joanne Messina, “Eklutna Annie” e Paula Golding. Além disso, caso Hansen fosse condenado, ele serviria seu tempo em uma instalação federal ao invés de uma prisão de segurança máxima (agora entendo porque muitos assassinos nunca confessam seus crimes).

Hansen ficou relutante, mas aconselhado por seu advogado, ele concordou com os termos. O que ele contou a partir daí chocou a todos. Nunca antes ninguém tinha ouvido algo como aquilo.

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Um Filme da Vida Real

“Eu agia da seguinte forma: eu tiro a arma, e acho que o discurso padrão era: ‘Olhe, você é uma profissional. Você não ficará animada, você sabe que há algum risco no que você faz. Se você fizer exatamente o que eu digo, você não irá se machucar. Você só irá lembrar disso como uma experiência ruim e como algo para se ter em mente quando for sair com…’ Eu tentava agir tão duro quanto podia, assustá-las da pior maneira possível. Colocava uma arma em sua cara, mantendo a cabeça para trás, para ela se sentir impotente, com medo… Talvez não tenha sido o mesmo procedimento com todas mas, você sabe, você sempre tenta obter o controle da situação… talvez eu tenha visto alguns programas policiais na TV, não sei…”

[Robert Hansen]

Escutando a sinistra confissão de Hansen, os investigadores ficaram abismados. Sua história parecia sair de um filme ou livro. De fato, a história de Hansen assemelha-se bastante com o popular e lendário conto The Most Dangerous Game, de Richard Connell, publicado originalmente em 1924 e bastante conhecido nos Estados Unidos e Europa. A história é sobre um trio de náufragos que se encontram presos e aparentemente sozinhos numa ilha desconhecida. Em dado momento, eles encontram um conde russo, conhecido como General Zaroff. O grupo inicialmente sente um imenso prazer e alegria ao encontrar alguém naquela ilha, mas a felicidade dos náufragos transforma-se em desespero quando eles percebem que o naufrágio não foi um acidente e que eles foram atraídos para lá para serem caçados. Cansado de caçar animais, Zaroff decidiu fazer algo mais desafiador e excitante: caçar pessoas.

Até Robert Hansen ser descoberto, essa história parecia apenas ser ficção.

Hansen costumava frequentar boates de strip-tease e as ruas de Anchorage em busca de vítimas. Ele oferecia um bom dinheiro para um programa e uma vez que a vítima estivesse sob seu controle, ele a levaria até seu refúgio na selva, voando para as montanhas em seu avião particular. Aquelas que fornecessem sexo de graça, ou seja, aquelas que “faziam o que ele queria”, eram levadas de volta à Anchorage ilesas. Mas aquelas que exigiram dinheiro em troca de seus favores sexuais tiveram um fim terrível. Depois de mantê-las amarradas em sua cabine por vários dias de estupro e tortura, ele as libertava nuas no meio da selva. Então, depois de dar às vítimas uma vantagem inicial, Hansen as perseguia com um rifle de caça calibre .223, caçando-as como se fossem animais selvagens. Ao todo, 17 mulheres foram assassinadas nesse “esporte” depravado e hediondo. Ao descrever suas caçadas aos investigadores, Hansen disse que era como “ir atrás de um troféu de ovelha ou urso”.

Em 1999, o conservacionista Gareth Patterson publicou em seu site pessoal um artigo intitulado The Killing Fields. No artigo, Patterson compara as semelhanças entre caçadores de cabeças de animais, os chamados caçadores de troféus, e serial killers.

“Certamente pode-se afirmar que, como o serial killer, o caçador de troféus planeja a morte com cuidado e deliberação. Como o serial killer, ele decide com antecedência o tipo de vitima, isto é, qual espécie ele pretende pegar. Além disso, como o serial killer, o caçador planeja com muito cuidado onde a morte ocorrerá, em que área, com que arma irá caçar. Ambos tem uma compulsão em coletar troféus ou lembranças de seus assassinatos. O serial killer mantêm certas partes do corpo ou outros troféus da mesma forma que o caçador monta a cabeça ou chifres retirados de suas presas… como troféus de caça”.

[Gareth Patterson].

É fato que, como centenas de animais selvagens, serial killers tendem a ser territorialistas, restringindo sua matança a uma área específica de caça. Tais lugares variam bastante de tamanho, podendo ser um bairro, como no caso Jeffrey Dahmer e Jack, o Estripador, ou uma região montanhosa, como no caso Hansen. Óbvio que assim como Dahmer, Hansen procurava suas vítimas em áreas específicas e depois as levava para uma área à qual estava familiarizado e que servia como seu matadouro. Especialistas chamam isso de “zona de conforto” do assassino. A maioria dos serial killers comete seus crimes em áreas que conhecem como a palma das suas mãos, é onde eles se sentem confiantes e no controle da situação. Eles gostam de conhecer bem o terreno, sabem os melhores locais para emboscarem suas vítimas, as rotas de fuga que ela pode tomar… No caso Hansen isso fica bem visível, já que nenhuma vítima que foi com ele para sua cabana nas montanhas conseguiu escapar para contar a história.

A maneira como um maníaco homicida mata suas vítimas, as armas que usa, os tipos de ferimentos que gosta de infligir nas vítimas, revela tanto sobre sua psicologia subjacente e suas necessidades e fantasias distorcidas como qualquer outra característica do seu comportamento. Hansen não assassinava aquelas mulheres que se sujeitavam a fazer sexo “de graça” com ele. De fato, algumas registraram queixa contra ele, mas sua máscara de empresário bem sucedido e casado “desmentia” na hora aquela “puta de rua”. Essa questão de abordar uma vítima e levá-la à força para se submeter aos seus mais doentios desejos pode ser visto como uma necessidade extrema de controle e aceitação do sexo oposto. Ele deve controlá-las de forma abrupta, exercer seu poder sobre elas, e elas devem fazer sexo de graça com ele, como se fosse consensual, como se elas o desejassem e quisessem aquilo. Isso denota uma vida passada frustrante com relação ao sexo, muito possivelmente devido à rejeição. Há de fato alguns casos onde as vítimas pareceram entender essa mente doentia e por isso conseguiram escapar. Em 1991, um pré-adolescente foi tão passivo quando um psicopata o estuprou que o homem até o levou para o seu trabalho. Num momento de descuido, o adolescente escapou. Dias depois a polícia carioca prenderia Marcelo Costa de Andrade como “O Vampiro de Niterói”, um serial killer estuprador responsável pelo assassinato de 13 crianças.

De acordo com a tipologia dos ofensores sexuais descrita pelo profiler Roy Hazelwood (1), Hansen enquadra-se nos subtipos que são motivados pela raiva. O que vale salientar é que, em uma violação, a componente sexual é apenas um meio para obter um fim, ou seja, o agressor utiliza da violação para dar vazão a outra questão muito mais forte: a raiva ou o poder. No caso Hansen, e pelas características dos ataques, podemos dizer que ele é um agressor com características muito acentuadas de raiva/retaliação e com características também do subtipo raiva/excitação (sádico sexual). Os ofensores motivados pela raiva são muito violentos fisicamente. No subtipo raiva/retaliação, a componente principal é o desejo de punir e humilhar as mulheres. Ele procura vingança por injustiças que tenha sofrido (reais ou imaginárias), e usa, então, do sexo para punir as mulheres (que simbolizam outras mulheres na sua vida). Os ataques normalmente são brutais; usa força física excessiva, sendo essa força extrema fruto da raiva acumulada, que é liberada contra a vítima por meio da agressão física e sexual. Após o ataque, essa raiva volta novamente a acumular-se, e o novo ataque surge quando a fúria suscitar. Já no subtipo raiva/excitação, que conhecemos como o sádico sexual, o prazer dá-se através do sofrimento da vítima; é altamente ritualista e a fantasia desempenha um papel muito importante para o agressor. Não é a dor da vítima que gera a excitação sexual, e sim o sofrimento, o medo, a submissão, sendo a dor (física e emocional) um dos meios utilizados para atingir essa finalidade. Todo o ataque é planejado ao pormenor, utiliza também níveis excessivos de violência, o que muitas das vezes resulta em hospitalização ou até mesmo na morte da vítima. A abordagem com a vítima inicialmente é manipulativa, e normalmente mantem suas vítimas cativas durante horas ou até mesmo dias.

Na maioria dos casos, serial killers possuem preferências homicidas definidas. Robert Hansen usava seu rifle Mini-14 para caçar suas vítimas. Atirar, mesmo que de uma longa distância, pode proporcionar o tipo de emoção doentia buscada por psicopatas como Hansen, incluindo a gratificação sexual. Como Freud explica, armas podem ser objetos eróticos nas mãos de seus usuários. Mesmo para os que não extraem um prazer especificamente sexual de seus crimes, as armas podem satisfazer seus impulsos psicopatas ao dar a eles um sentimento divino de poder.

A tortura e a coleta de souvenirs (lembranças) e troféus das vítimas são outras características presentes em Hansen e comuns a muitos outros serial killers. Apesar do FBI dizer que os termos tem significados diferentes, a maioria dos criminologistas não distinguem souvenir de troféu. No que tange à diferenciação de lembrança e troféu, a primeira é literalmente para lembrar-se da vítima (frequente em casos de violação motivadas por poder, confirmação, onde o sujeito viola para reafirmar a sua masculinidade), já o troféu é tipicamente usado para masturbação, remete portanto ao processo de vitórias, triunfos daquilo que ele fez, para reviver o ataque. Indo por estas definições, Hansen possuía lembranças de suas vítimas: jóias e carteiras de identidade. Para especialistas, a coleta de tais itens lembra ao assassino o quanto ele se divertiu, permitindo-lhe reviver a experiência e suas fantasias até que possa repeti-la. Tais itens não costumam possuir um valor inerente, mas são motivo de orgulho para eles, objetos quase que mágicos. Em muitos casos, troféus e souvenirs não são apenas maneiras de lembrar ou comemorar de suas façanhas, mas inspirações masturbatórias (principalmente os troféus).

Não há muitos detalhes disponíveis sobre Hansen, mas a forma como ele torturou as vítimas sobreviventes pode dizer muito sobre sua faceta sádica. Elas eram mantidas horas ou dias sob tortura. A que conseguiu escapar do seu avião teve os mamilos mordidos e foi violada com um martelo. Isso o coloca como um assassino sexualmente sádico. A profiler Pat Brown, autora do livro Matando por Esporte: Dentro da Mente dos Serial Killers, diz que “O assassino sexualmente sádico mantém sua vítima viva por horas ou dias enquanto a tortura com toda a variedade de atos sexualmente sádicos. Ele gosta de ver sua dor, ouvir seus gritos e fazê-la suplicar e implorar”.

Tais assassinos gostam de usar instrumentos em suas vítimas. Como sabemos, Hansen usou um martelo em uma delas, mas certamente tal instrumento foi apenas um dos. Chicotes, grampos para mamilos, vibradores, cera quente, enemas, garrotes, mordaças e lâminas são outros instrumentos bastante usados por esse tipo de assassino.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Robert Hansen - Deixando o tribunal em 1983

Na foto: Na foto: Robert Hansen deixa o tribunal após audiência: Data: 1983. Créditos: Anchorage Daily News.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Robert Hansen - Preso

Na foto: Na foto: Robert Hansen no tribunal: Data: 1983. Créditos: Anchorage Daily News.

O Caçador Enjaulado

Hansen forneceu um grande mapa aéreo da região e identificou 15 sepulturas, 12 das quais eram desconhecidas pelos investigadores. Uma vez sendo quase impossível localizar qualquer um dos túmulos através das marcações no mapa, os investigadores decidiram levar Hansen a cada local. Em 23 de fevereiro de 1984, Hansen subiu num grande helicóptero militar no aeroporto internacional de Anchorage. Sua primeira parada foi ao longo do rio Knik, não muito longe de onde Paula Goulding foi encontrada. Depois eles voaram até Jim Creek, e depois Susitna. Suas paradas finais foram no Lago Horseshoe e Figure Eight. Em cada um desses locais, Hansen levou os investigadores aos restos de suas vítimas. O gelo cobria os locais e por isso marcadores foram deixados na neve.

Três dias depois, o serial killer caçador de Anchorage, Robert Christian Hansen, foi sentenciado a 461 anos de prisão, sem possibilidade de pedir liberdade condicional, pelos assassinatos de Paula Golding, Joanna Messina, Sherry Morrow, e “Eklutna Annie.” Ele foi enviado para uma Penitenciária na Pensilvânia.

Em maio de 1984, o canibal russo Andrei Chikatilo cometia um crime bárbaro ao assassinar mãe e filha no Parque dos Aviadores de Rostov. Charles Ng e Leonard Lake torturavam suas vítimas mulheres em seu bunker na Califórnia. Richard Ramirez viajava até Los Angeles para começar sua onda de assassinatos em série no mês seguinte. Em Anchorage, Alasca, investigadores encontravam sete corpos nas sepulturas apontadas por Robert Hansen.

Nenhum outro corpo jamais foi encontrado.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Investigadores procuram fragmentos de corpos - 1984

Na foto: Investigadores procuram fragmentos de corpos. Data: 1984. Créditos: Anchorage Daily News.

Serial Killers - O Cacador de Humanos -Investigadores procuram fragmentos de corpos - 1984

Na foto: Investigadores procuram fragmentos de corpos. Data: 1984. Créditos: Anchorage Daily News.

Serial Killers - O Cacador de Humanos -Investigadores procuram fragmentos de corpos - 1984

Na foto: Investigadores procuram fragmentos de corpos. Data: 1984. Créditos: Anchorage Daily News.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Paula Golding

Na foto: Megan Emerick. Créditos: The Charley Project.

Megan Emerick, 17 anos, desapareceu em 5 de julho de 1973, em Seward, Alasca. A adolescente que gostava de cavalos, motos e rock, pode ser uma das inúmeras vítimas não encontradas de Robert Hansen. O serial killler admitiu estar em Seward no dia em que a jovem desapareceu, mas negou qualquer envolvimento em seu desaparecimento. Mas para a polícia, Megan foi uma das 17 vítimas de Hansen.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Paula Golding

Nome: Paula Golding

Idade: 17 anos

Encontrada: 2 de setembro de 1983

Local: Rio Knik

Obs.: Três meses após o sequestro de Cindy Paulson, que conseguiu escapar de Hansen, o corpo de Paula Golding foi encontrado nas margens do Rio Knik. a vítima foi identificada por uma amiga dançarina de strip-tease. Ela foi morta da mesma forma que Sherry Morrow, sendo vestida após ser assassinada.

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Joanne Messina

Nome: Joanne Messina

Idade: 24 anos

Encontrada em: Julho de 1980

Local: Perto do lago Eklutna

Obs.: Dançarina de strip-tease de Anchorage, o corpo de Joanne Messina foi encontrado em um barranco. Infelizmente, seu corpo estava em avançado estado de decomposição e, como Eklutna Annie, poucas evidências foram encontradas.
.
Serial Killers - O Cacador de Humanos - Sue Luna

Nome: Sue Luna

Idade: Desconhecida

Encontrada em: 24 de abril de 1984

Local: Rio Knik

Obs.: A exata data da morte de Sue é desconhecida. Robert Hansen levou Sue para sua cabana nas montanhas, tirou suas roupas, e mandou correr na selva para caçá-la feito um animal.

Outras vítimas de Robert Hansen incluem: Malai Larsen, encontrada em 24 de abril de 1984 em uma area florestal abaixo da velha ponte Knik;
DeLynn Frey, encontrada em 25 de abril no Lago Horseshoe; Teresa Watson, encontra em 26 de abril na Peninsula Kenai; Angela Feddern, encontrada em 26 de abril no Lago Figure Eigh; Tamara Pederson, encontrada em 29 de abril, há três quilômetros da ponte do rio Knik e Lisa Futrell, encontrada em 9 de maio na parte sul da velha ponte Knik.

Em 1988 Hansen voltou para o Alasca, tornando-se um dos primeiros prisioneiros da nova penitenciária de Anchorage. Ele permanece lá até os dias atuais. Pouco depois de sua sentença, a Pope & Young apagou o nome de Hansen do seu livro de recordes. A esposa e filhos de Hansen permaneceram no Alasca, mas em 1986 ela pediu o divórcio e mudou-se.

Em 21 de fevereiro de 2003, mais de 20 anos após seu corpo decomposto ser descoberto, autoridades do Alasca fizeram uma reconstrução facial de “Eklutna Annie” numa tentativa de descobrir sua identidade.

De acordo com uma reportagem publicada no jornal Kenai Peninsula News, a vítima era uma mulher branca de cabelos pretos, na casa dos 20 anos. Quando encontrada, ela usava usando botas de salto alto, jeans, um top de malha sem mangas e uma jaqueta de couro marrom.

Filme

Em agosto de 2013 foi lançado um ótimo filme sobre o caso Hansen. The Frozen Ground (Sangue no Gelo) traz os astros Nicolas Cage (sargento Glenn Flothe) e John Cusack (Robert Hansen) nos papéis principais. O filme é ambientado na década de 1970 e foca nos eventos que levaram à captura de Hansen. No filme, Cindy Paulson (o diretor usou o nome real da prostituta que escapou de Hansen), interpretada por Vanessa Hudgens, escapa de Hansen e conta sua sinistra história que posteriormente levou à captura do serial killer. Assista o filme abaixo:

Serial killer estaria à beira da morte

  • atualizado em 22 de Maio de 2014

O site de notícias Your Alaska Link publicou ontem (21 de maio) que Robert Hansen estaria à beira da morte. O serial killer de 75 anos foi transferido da prisão de segurança máxima em Seward para Anchorage, a maior cidade do Alasca. Fontes próximas disseram ao site que Hansen estaria à beira da morte no Hospital Regional do Alaska, em Anchorage. Devido a lei americana HIPAA, que assegura privacidade nesses casos, nenhuma informação por parte do hospital foi fornecida. A repórter Lindsay Housaman, do Your Alaska Link, confirmou a transferência de Hansen em seu perfil no Twitter.

Morre Robert Hansen

  • atualizado em 22 de Agosto de 2014

Faleceu ontem no Alasca, aos 75 anos de idade, o serial killer Robert Hansen. Com sua morte, morre também a possibilidade de saber a verdadeira extensão de seus crimes, incluindo o número total de vítimas, a localização de seus corpos e suas identidades.

Hansen faleceu às 1h30 da manhã de ontem no Hospital Regional do Alasca, em Anchorage. A saúde do serial killer piorou do último ano pra cá, e em Maio ele chegou a ser hospitalizado, o que criou rumores de que seu fim estava próximo. A causa da morte não foi informada.

Afligido na infância por uma gagueira severa, uma timidez incapacitante e um caso de acne desfigurante, Hansen cresceu se sentindo rejeitado pelo mundo, especialmente pelo sexo oposto, pelo qual desenvolveu um ódio profundo. É um caso único no mundo de um serial killer que sequestrava suas vítimas, as levava para uma floresta, e as soltava para caçá-las como animais. Ele admitiu ter assassinado 17 mulheres e estuprado 30 outras.

Eu não importo muito comigo, mas vocês jornalistas feriram muito minha família”.

[Robert Hansen]

“Este mundo é melhor sem ele”.

[Glenn Flothe, investigador do caso]

Informações

Serial Killers - O Cacador de Humanos - Robert Hansen - Mugshot

Nome: Robert Christian Hansen

Nascimento: 15 de fevereiro de 1939. Estherville, Iowa. Estados Unidos

Morte: 21 de Agosto de 2014 (75 anos)

Acusações: Assassinatos e estupros

Número de vítimas: 17 confirmadas

Período: 1971 a 1983

Local: Anchorage, Alasca, Estados Unidos

Captura: 13 de junho de 1983

Pena: 461 anos de prisão

.



Fontes consultadas: (1) Hazelwood, R., Burgess, A.W., (2001) Practical Aspects of Rape Investigation – A Multidisciplinary Approach, 4th Ed; Crime Library; Anchorage Daily News, Murderpedia; Pope e Young, Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit; The Killing Fields (Gareth Patterson), disponível em http://www.garethpatterson.com/Gareth_Patterson/Killing.html; Murderpedia.

Esta matéria teve colaboração de:

Psicóloga forense

Revisão por:

ester

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