Elliot Rodger: Perfil de um assassino

“De tempos em tempos, o soluço vem em escala mundial. Um jovem, normalmente branco e de classe média, choca o mundo ao abrir fogo contra inocentes – sem motivação...
Elliot Rodger - Perfil de um Assassino

Elliot Rodger - Perfil de um Assassino

“De tempos em tempos, o soluço vem em escala mundial. Um jovem, normalmente branco e de classe média, choca o mundo ao abrir fogo contra inocentes sem motivação aparente…”.

O trecho acima foi escrito pelo jornalista Renato Queiroz, em julho de 2012. Naquele mês, James Holmes cometeu um atentado que chocou os Estados Unidos e o mundo. Longe de ser um fato isolado, o trecho assusta e, ao mesmo tempo, confirma algo inevitável: não importa o que façamos, de tempos em tempos, isso irá acontecer (e de novo e de novo). Isso porque ainda sabemos muito pouco sobre o ser humano e, apesar de muitos darem os sinais, ainda somos incapazes de entendê-los.

O personagem da vez é Elliot Rodger. Sim, Elliot é um assassino em massa. Sim, ele é jovem e ele era perturbado, mas, diferentemente de outros como ele, Rodger deixou para trás um manifesto que conta uma arrepiante e fatal história de privilégio, instabilidade emocional e isolação, no coração de Hollywood. Se na história do século XX o mundo lutou para entender outros como ele – homens que do nada cometeram assassinatos em massa e se suicidaram posteriormente, não deixando quase nenhuma explicação para trás –, Elliot deixou um manifesto, um instrumento único e muito poderoso para entender por que esses homens cometem atrocidades tão abomináveis. Com isso temos, pela primeira vez na história, um “manual” detalhado saído da mente doentia de um assassino em massa, manual este que também está disponível na internet, para que todos possam ler.

O Manifesto


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Em My Twisted World: The Story of Elliot Rodger (Meu Mundo Distorcido: A História de Elliot Rodger), Elliot, em 141 páginas, conta sua própria história de vida, começando com o seu nascimento, em 24 de Julho de 1991, em um hospital em Londres, passando pelo privilégio de poder usufruir de uma vida rica e, após, descambando para uma solidão crônica. Com uma base familiar profundamente enraizada em Hollywood – seu pai foi diretor-assistente do filme Hunger Games (Jogos Vorazes) e sua mãe namorou George Lucas, diretor de Star Wars e Indiana Jones; também sua madrasta recentemente conseguiu um papel num reality show francês sobre donas de casa de luxo. Elliot, inclusive, foi fotografado ao lado de Sylvester Stallone durante a premiere de Hunger Games, em 2012.

Em suas errantes crises de raiva, inveja e autopiedade, o retrato que floresce do manifesto é de um jovem profundamente desconectado dos valores humanos de compaixão, empatia e consideração. “Ciúmes e inveja: esses são dois sentimentos que dominam toda a minha vida e me trazem imensa dor.”, escreve em certo ponto.

Rodger afirma que não foi abusado nem negligenciado pelos pais. Elliot tinha irmãos, inclusive um irmão mais novo, que o admirava, mas ele, no entanto, planejou matá-lo no seu Dia de Retribuição. Rodger culpa seus pais por não pôr seus interesses antes dos deles próprios. Em relação à sua mãe, o ressentimento era grande, já que ela se recusou a casar-se novamente com alguém rico, para que ele pudesse viver uma vida de luxo. Do seu pai, sentia raiva, pois escolheu arriscar as finanças da família em um documentário que não foi bem-sucedido.

Ainda assim, ele descreve a vida atípica de uma criança: foi criado no mercado de entretenimento, com subidas e descidas financeiras, mas também com acesso VIP a premieres de filmes como Star Wars e Jogos Vorazes. Neste pacote hollywoodiano, estava incluso visitas a outros países, estudo em escolas caras e, claro, mulheres deslumbrantes (que ele ficava só olhando). Apesar do glamour, essa era uma vida na qual ele se via incapaz de fazer ligações sociais e isso só piorou com sua inabilidade de experimentar o sexo com uma mulher. Como alguém como ele, filho de Hollywood e frequentador da high society, não conseguia fazer sexo? Isso se tornou uma obsessão contínua e acabou suscitando uma incontrolável raiva do sexo oposto. Em um de seus muitos comentários perturbadores no Manifesto, ele diz como foi descobrir o sexo ao assistir a um vídeo pornográfico aos 13 anos: “Descobrir o sexo foi uma das coisas que verdadeiramente destruíram minha vida. Sexo: a própria palavra me enche de ódio.”.

A biografia descreve sua vida desde os primeiros dias e termina com seu doentio plano de executar um “Dia da Retribuição”, algo que se aproxima ao que ele aparentemente fez na noite de sexta-feira, 23 de maio. É um arrepiante retrato de um jovem doente e perturbado.

Primeiros Anos de Vida


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Elliot Rodger - Perfil de um assassino - George Rodger

George Rodger, avô de Elliot. George foi um notório fotógrafo britânico conhecido pelas fotos do Dia D e do assassinato em massa no campo de concentração de de Bergen-Belsen.

De acordo com o Manifesto, seu pai, Peter, pertencia a uma ilustre família britânica, e sua mãe, Chin, era uma enfermeira da Malásia. A família Rodger, diz ele, era uma família que tinha prestígio, mas que caiu de seu pedestal social durante a Depressão. Elliot diz que seu avô, George Rodger, foi um renomado fotógrafo durante a Segunda Guerra Mundial. De acordo com ele, sua mãe se mudou para a Inglaterra bastante jovem e, trabalhando como enfermeira em vários sets de filmes, fez amizade com celebridades como Steven Spielberg e George Lucas, namorando o último “por um curto período de tempo”.

Rodger descreve uma infância idílica a partir dos cinco anos, com “memórias de felicidade e êxtase”, havendo frequentado um internato chamado Dorset House, onde ele usava um uniforme. Na época, seu pai estava se tornando um diretor profissional e havia decidido seguir a carreira. Peter se mudou com a família para a Meca mundial do ramo: Hollywood.

Em seu manifesto, muito bem detalhado, ele diz: “Quando nós chegamos na América eu estava muito cansado. Nós pegamos nossa bagagem e colocamos em um novo SUV (veículo utilitário esportivo) que o meu pai alugou. A imagem de nós dirigindo para fora do aeroporto ainda está fresca em minha mente. Muitas vezes penso nisso como meu primeiro passo para minha nova vida nos Estados Unidos. Eu estava com tanto sono quando chegamos na nossa nova casa que eu nem sequer me preocupei em olhar ao redor.”.

Na América


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A família se mudou para as Colinas Woodland, região de Los Angeles. Elliot voltaria a essa época para discursar sobre as mulheres; era o início do seu discurso injurioso contra elas. “Garotos e garotas começam iguais”, diz ele, e complementa que, mais tarde, na vida, “[nós] nos enfrentamos como inimigos”. E ainda adiciona: “Meu eu de seis anos estava brincando com as garotas, sem saber o horror e a desgraça que o gênero feminino infringiria mais tarde em minha vida… Que amarga ironia.”.

Posteriormente, sua família se mudou para a cidade de Topanga: “meu ano na primeira série terminou esplendidamente.”, diz. Mas a felicidade logo iria embora. Aos sete anos, sua família sofreu perdas financeiras, seus pais se divorciaram e sua mãe se mudou para uma casa menor. Ele ficou chocado quando seu pai assumiu um romance com a atriz marroquina Soumaya Akaaboune, com quem mais tarde se casaria. Nessa época de infelicidade, ele lembra que dois dos únicos motivos que teve para sorrir foi o convite de George Lucas para assistir às premieres de Star Wars, e sua coleção de Pokemons.

Aos nove anos, escreve sobre como ficou chateado quando sua irmã recebeu permissão para levar amigas à sua festa de aniversário: “Por natureza eu sou uma pessoa muito ciumenta e, aos nove anos, minha natureza ciumenta saltou para a superfície.”. Na adolescência, seu desejo por atenção o levou a tingir o cabelo de loiro escuro e a começar a andar de skate. Elliot dividia o tempo entre as casas de seus pais e diz que preferia a casa de sua mãe: “Na casa de minha mãe eu tinha meu jeito de ser e era daquela forma que eu queria viver.”.

No mesmo ano, Rodger viajou com a família para a Inglaterra, na primeira classe da companhia Virgin Atlantic; “eu sempre amei o luxo e a opulência.”, diz.

Elliot Rodger - Perfil de um Assassino - Familia

Elliot Rodger, seu pai Peter Rodger, e sua irmã Georgia Rodger. Foto: Cummins Real Estate Appraiser.

Ensino Fundamental e Médio


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No ensino fundamental, Elliot descobriu a Internet, ganhou um Xbox e começou a jogar os jogos de tiro Halo e Planet Cyber. Foi nessa época que ele teve um vislumbre do sexo e da pornografia, quando assistiu a um vídeo na Internet.

Com a puberdade chegando – e com os conflitos característicos dessa fase da vida –, seu sentimento de raiva começou a acumular, transformando-se, aos poucos, numa bomba-relógio, que explodiria anos depois. Ele passou a odiar ir ao cinema, pois “eu começava a ficar com inveja de todos os jovens casais de garotos e garotas.”.

Tempo depois, descobriu o jogo online World of Warcraft e, se ele ainda tinha alguma vida social, esta acabou ali: “Eu tinha todo o tempo do mundo e eu passava jogando World of Warcraft. Minha única interação social seria através de jogos online. Eu fiquei preso e era muito novo e bobo para perceber a severidade do quão longe eu havia ido.” Na casa de sua mãe, ele jogava World of Warcraft por mais de 14 horas por dia.

No ensino médio, frequentou a Taft High School, na cidade de Calabasas. Aos 15 anos, experimentou algo que o marcaria para o resto de sua curta vida:

“Tóxico é a palavra que descreve meu primeiro dia na Taft High School. Foi um tóxico pesadelo. Cada segundo foi uma agonia… Meu pai me levou até lá e eu não queria sair do carro. Ele quase teve que me arrastar para fora. A primeira semana na Taft foi como viver no inferno. Eu fui bolinado várias vezes. Eu estava completamente e totalmente sozinho. Ninguém estendeu a mão para me ajudar. Eu era um inocente e assustado garotinho preso em uma selva cheia de predadores maliciosos. Um garoto que era alto e loiro me chamou de perdedor bem em frente às suas namoradas. Sim, ele tinha garotas com ele. Lindas garotas. E elas pareciam não se importar se ele era um bastardo malvado. De fato, eu aposto que elas gostavam dele por isso. Isto é como as garotas são e eu estava começando a perceber isso. Isto foi o que realmente abriu meus olhos para o quão brutal o mundo é. O mais malvado e depravado dos homens fica por cima e as mulheres se reúnem com esses homens. Seus atos diabólicos são recompensados pelas mulheres, enquanto os bons, decentes homens são ridicularizados. Isso é doente, distorcido e errado em todos os sentidos. Eu odiava as garotas muito mais do que os bullies devido a isso. A pura crueldade do mundo em minha volta era tão intensa que eu nunca vou recuperar das cicatrizes mentais. Nenhuma experiência que eu tive antes me traumatizou tanto quanto esta.”.

Elliot frequentou a Taft por uma semana. Na segunda semana, após um choro histérico dentro do carro de sua mãe a caminho da escola, ela decidiu tirá-lo de lá. Rodger ficou um mês sem estudar e, enquanto seus pais decidiam o que fazer, ele passava todo o tempo jogando games online. Num raro momento de preocupação,  Elliot salvou seu irmão mais novo, Jazz, de se afogar na piscina da família.

Na mesma época, seu pai havia financiado um documentário sobre religião chamado Oh My God, que contava com figuras famosas como o “Wolverine”, Hugh Jackman; Bob Geldof (organizador do famoso concerto Live Aid); e Ringo Starr, baterista dos Beatles. Mas foi um completo fracasso financeiro. O documentário faliu a família. Enquanto isso, sua madrasta, que sempre o importunava por passar o dia inteiro jogando, se tornava uma estrela num reality show francês chamado Les Vraies Housewives.

Elliot era um fracasso na escola e seu pai não percebia sua desgraça. “Como ele pode ser tão cego. Ele estava tão preso a seu trabalho falho que ele não se importava como minha vida estava indo.”. Mas, mais do que isso, Rodger odiava seu pai porque ele não o “ensinava a atrair garotas”. O futuro assassino em massa escreve obsessivamente sobre a angústia de ainda ser virgem, vendo passar cada aniversário seu sem ter um relacionamento ou uma experiência sexual: “Eu nunca tive a experiência de ir até uma festa com outros adolescentes, eu nunca dei meu primeiro beijo, eu nunca segurei as mãos de uma garota, eu nunca perdi minha virgindade. No passado, eu me sentia inferior e fraco por todo o bullying que eu apenas aceitei para minha vida solitária e lidei com isso jogando World of Warcraft, mas, neste ponto, eu comecei a questionar porque eu fui condenado a sofrer tal miséria.”. “(…) Eu tinha dezoito e ainda um virgem de boca… Eu já sentia que nenhuma garota no mundo gostaria de me foder. Eu era um virgem de boca afinal. Essa era a única razão pela qual eu estava sofrendo. A maioria dos autores de best sellers e roteiristas não se tornam milionários antes dos quarenta ou cinquenta anos. Eu não queria esperar até que eu tivesse 40 anos para perder minha virgindade! (…) Meu aniversário de 19 anos me fez me sentir ainda mais derrotado. Dezenove e ainda um virgem…”, completa em outras partes do Manifesto.

Rodger se matriculou na faculdade, mas desistiu de frequentá-la. Sua mãe queria que ele conseguisse um emprego, porém, ao invés disso, ele passava seus dias na biblioteca Barnes and Noble lendo livros, tentando se educar, mas se enfurecia sempre que via casais.

“Sempre que os via eu ficava tão repleto de inveja e decepção que eu ia ao banheiro para chorar. (…) Tudo era abastecido pelo meu desejo de punir todos que eram sexualmente ativos, porque eu concluí que não era justo que outras pessoas pudessem experimentar sexo enquanto eu havia sido negado por toda a minha vida (…) Como um inferior garoto mexicano poderia sair com uma garota loira branca enquanto eu ainda sofria como um virgem solitário?”.

Preocupados, seus pais contrataram um coaching profissional para tentar ajudar Elliot, mas “o problema era que a maioria dos empregos que estavam disponíveis para mim naquele tempo eram empregos que eu considerava abaixo de mim. Eu sou um intelectual que está destinado à grandeza.”.

Santa Bárbara


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Os pais de Rodger montaram um plano para enviá-lo até Santa Bárbara, onde eles esperavam que, uma vez matriculado numa faculdade local, ele pudesse fazer amigos e ser menos isolado. Não foi o que aconteceu. Embora Elliot tenha aprendido a comprar roupas melhores e tenha sido presenteado com uma BMW por sua mãe, ele desceu mais fundo em sua raiva, alimentando ainda mais suas fantasias violentas: “Para me fazer sentir mais confiante, minha mãe me deu um carro para dirigir em Santa Barbara, uma BMW. Eu sempre quis isso, já que eu me importava muito com minha aparência.”. 

Elliot Rodger - Perfil de um Assassino - BMW

Elliot Rodger e sua BMW. Créditos: Facebook Elliot Rodger.

“Num restaurante no Camino Real Marketplace, junto com meu pai, eu vi um jovem casal sentado a poucas mesas de distância. A visão deles me enfureceu, especialmente porque era um garoto negro mexicano com uma sexy garota loira e branca. Eu tomei isso como um grande insulto à minha dignidade. Eu fiquei envergonhado em estar naquela posição inferior em frente ao meu pai. Quando eu vi os dois se beijando, eu mal pude conter minha fúria. Eu deveria ser aquele com a garota loira sexy, fazendo meu pai orgulhoso. Em vez disso, meu pai teve que me assistir sofrer em uma posição patética. Foi muito humilhante (…) Outro incidente aconteceu no dia seguinte. Eu fui até o Starbucks (…) momentos depois, quando eu olhei para o meu café, eu vi um jovem casal sentado. Os dois estavam se beijando passionalmente. O garoto se parecia com um punk desagradável: ele era alto e usava calças largas. A menina era uma linda loira! Parecia que eles estavam no auge da atração sexual um pelo outro, esfregando seus corpos juntos e beijando de língua em frente a todos. Eu estava absolutamente lívido de ódio invejoso. Quando eles saíram, eu os segui até o carro e joguei café neles. O garoto gritou comigo e eu rapidamente corri com medo. Eu nunca antes havia atacado meus inimigos, e eu senti uma pequena sensação de gratificação rancorosa ao fazer. Eu os odiava tanto. Mas mesmo que eu tivesse jogado meu café neles, ele ainda era o vencedor. Ele estava indo para casa para fazer um sexo celestial e apaixonado com sua linda namorada e eu estava indo para casa até o meu solitário quarto para dormir sozinho em minha cama. Eu nunca me senti tão infeliz e maltratado em minha vida. Amaldiçoei o mundo por me condenar a tal sofrimento (…) Eu queria infringir dor em todos os jovens casais.”.

Os planos de violência de Elliot cada vez ficavam mais elaborados. Ele vivia absorto em suas fantasias violentas e começou a planejar o que ele chamou de “Dia da Retribuição”. “Eu não queria fazê-lo. Eu queria viver (…) Pensar sobre o Dia da Retribuição faz com que eu me sinta preso. Eu queria uma saída. Depois de profunda contemplação, eu tive a revelação (…) que se eu pudesse de alguma forma me tornar um multimilionário enquanto jovem, então minha vida iria instantaneamente se tornar melhor do que a da maioria das pessoas da minha idade. (…) Era uma forma feliz e pacífica de vingança e se tornou minha única esperança.”.

No Manifesto, Rodger fala constantemente sobre “merecer” garotas, amor e sexo. No entanto, ele nunca pareceu ter tentado conhecer ou, ao menos, chegar em uma garota para conversar; ao invés disso, ele sentava no pátio de um shopping em Isla Vista, esperando que as garotas se aproximassem dele.

Em 12 de março de 2012, Elliot foi à premiere de Jogos Vorazes com seu pai. Lá, conheceu Jack Ross, o filho de 16 anos do diretor Gary Ross, e escreveu: “Eu imediatamente o odiei à primeira vista.”. Rodger fala sobre estar enfurecido com o fato de que Jack era mais alto e que supostamente vivia uma vida melhor. Ao longo do filme “eu tive que lutar contra a vontade de derramar minha bebida em todos os idiotas em uma raiva veemente.”.

De volta a Santa Bárbara, seus devaneios se tornaram mais delirantes: “Riqueza é um dos fatores mais marcantes do valor pessoal e da superioridade,” ele escreve. Elliot jogou na loteria com um único objetivo: se tornar rico ainda jovem, o que lhe renderia loiras, muitas loiras. Quando não ganhou, ele se recusou a deixar seu quarto; foi assim durante um mês.

Suas fantasias violentas começaram a infiltrar-se no mundo real. Ele começou a arremessar bebidas em casais em cafeterias e comprou uma pistola d’água, que encheu de suco de laranja, pulverizando-a em um grupo de jovens (homens e mulheres) que jogavam kickball em um campo.

Em um prelúdio de sua fúria planejada, no verão de 2013, Elliot ficou bêbado em uma noitada em Isla Vista. Enfurecido, pois as meninas não haviam socializado com ele, tentou atacá-las. Sua noite terminou com um tornozelo torcido e vários hematomas pelo corpo, após ser espancado por outros jovens.

“Eu nunca havia sido espancado e humilhado tão seriamente. (…) A noite de Sábado, 20 de julho, foi o dia que eu decidi sair em Isla Vista numa tentativa de perder minha virgindade antes de fazer 22. Era a única coisa que poderia ter me salvado. Eu estava dando ao gênero feminino a última chance em me oferecer os prazeres que eu merecia delas. Eu estava tão nervoso em sair que comprei uma garrafa de vodka. (…) Eu vi muitos garotos populares socializando em grupos por todo o lugar, e se eu não estivesse bêbado, isto teria me intimidado bastante. Eu estava tão bêbado que eu caminhei até uma festa em Del Playa. Eles tinham um DJ tocando um horrível hip hop que os jovens de hoje gostam. (…) Eu logo fiquei frustrado por ninguém prestar atenção em mim, particularmente as garotas. Eu vi garotas conversando com outros caras, que eram obviamente feios, mas nenhuma delas mostrou interesse em mim. (…) Eu sou meio-asiático, mas quando eu vi essa garota branca conversando com um asiático (puro) (…) eu nunca tive aquele tipo de atenção de uma garota branca! E garotas brancas eram as únicas garotas que me atraíam, especialmente as loiras. Como um asiático feio atraía a atenção de uma garota branca enquanto um lindo euro-asiático como eu nunca teve qualquer atenção delas? Eu pensei. Vi que já havia sido insultado o suficiente. Eu caminhei com raiva até eles e empurrei o garoto asiático para o lado, tentando agir vaidosamente e arrogantemente tanto com o garoto como com a garota. Meu estado de embriaguez pegou o melhor de mim e eu quase cai no chão depois de alguns minutos. (…) Fui para o lado de fora, no jardim; eu fiquei sem jeito no jardim, percebendo o quão patético eu parecia enquanto todos à minha volta festejavam. Para acalmar, eu caminhei e subi num lugar alto e vi um monte de garotos de mãos dadas com loiras sexys. Isso alimentou minha raiva, como sempre foi. Eu devia ser um daqueles caras, mas nenhuma garota loira nunca me deu aquela chance. Eu olhei para todos eles e, em minha embriaguez, estendi meu braço a eles apontando como se fosse matá-los, rindo muito. Outros garotos se aproximaram, eram todos garotos desagradáveis (…) um casal de garotas bonitas se aproximou e conversou com eles, mas não comigo. Todos eles começaram a socializar perto de mim e nenhuma das garotas prestou atenção em mim. Eu levantei de uma cadeira e comecei a xingá-los. Eles apenas riram e xingaram de volta. Isso foi a gota d’água, eu havia tido insultos suficientes naquela noite. (…) Eu tentei empurrar o maior número deles. Meu alvo principal eram as garotas. Eu queria puni-las por conversar com garotos idiotas ao invés de mim. Eu não consegui empurrar nenhum dos garotos e eles começaram a me empurrar, o que resultou em eu ser o único a cair na rua. Quando eu caí, senti um estalo no meu tornozelo, seguido de uma dor lancinante. Eu não conseguia andar e tentei ficar o mais longe possível de lá. Poucos metros depois de lá, eu percebi que alguém havia roubado meus óculos de sol Gucci que minha mãe havia me dado. Eu amava aqueles óculos e o queria de volta. Eu caminhei em volta e estava tão bêbado que não lembrava onde era a festa. Terminei de frente ao jardim de uma casa, exigindo meus óculos de volta. As pessoas na casa deviam ser amigos dos outros que eu havia brigado anteriormente. Eles me chamaram de nomes como “bicha” e “maricas”, típicas coisas que canalhas dizem. Todos os brutos decadentes vieram e me arrastaram para a rua, me espancando. Eu queria lutar e matar todos. Eu tentei dar um soco no atacante principal, mas isso só meu causou mais espancamento.”.

Rodger passou a enviar vídeos confessionais – que continham descrições de sua frustração sexual e seu ódio contra as mulheres, além de ameaças – ao YouTube. Pouco tempo depois, policiais bateram na sua porta, pois haviam sido alertados sobre seus vídeos após seus pais acessarem seu canal no YouTube. Eles partiram logo que um calmo e educado Elliot assegurou que não tinham nada com que se preocupar. “Eu os disse diplomaticamente que era tudo um mal entendido e eles finalmente foram embora. Se eles tivessem exigido uma busca no meu quarto (…) tudo estaria arruinado.”.

Certo dia, Gavin, um orientador contratado por seus pais, aconselhou-o a mudar-se de Isla Vista. Elliot recusou. Seus pais o enviaram a um terapeuta, que prescreveu Risperidone, uma droga antipsicótica. Ele também se recusou a tomá-la. Segundo o advogado da família, Rodger foi diagnosticado com “uma síndrome de Asperger altamente funcional”. Na tarde de sexta-feira, 24 de Maio, Elliot se aproximou do Giovanni’s Pizza, na rua de seu prédio. Ally Kubie, de 20 anos, que estava trabalhando no balcão, disse que o rapaz ficou imóvel no pátio enquanto a olhava pela janela com um sorriso fixo em seu rosto. “Eu perguntei: ‘Você precisa de ajuda?’, mas ele apenas ficou olhando para mim. Foi assustador.”. Naquela noite, sua mãe recebeu um telefonema desesperado do terapeuta de Elliot pedindo-a para que abrisse um e-mail. Rodger havia enviado seu manifesto ao seus pais e ao seu terapeuta. Sua mãe leu apenas as quatro primeiras linhas do Manifesto e acessou sua conta de vídeos no YouTube. Lá, ela assistiu, horrorizada, ao último vídeo postado pelo filho, no qual ele dá detalhes sobre o Dia da Retribuição. Desesperada, ela ligou para o pai do rapaz, que estava jantando com amigos em Los Angeles. Os dois correram em carros separados até Isla Vista. Não havia mais volta, Elliot Rodger já havia escrito o seu nome no infame hall dos mais notórios assassinos da América.

“Eu não sou parte da raça humana. A humanidade tem me rejeitado. As fêmeas da espécie humana nunca quiseram se acasalar comigo, então como eu poderia me considerar parte da humanidade? A humanidade nunca me aceitou entre eles e agora eu sei por quê. Eu sou mais do que humano. Eu sou superior a eles em tudo. Eu sou Elliot Rodger (…) magnífico, glorioso, supremo, eminente, divino! Eu sou a coisa mais próxima que existe para um deus vivo. A humanidade é uma espécie nojenta, depravada e maligna; é o meu propósito punir todos eles. Eu vou purificar o mundo de tudo o que está errado com ele. No Dia da Retribuição, eu serei verdadeiramente um deus poderoso, punindo todos que eu considero serem impuros e depravados.”

[Elliot Rodger, página 135]

“As mulheres não deveriam ter o direito de escolher com quem se acasalar e procriar. Esta decisão deve somente ser feita para elas por homens racionais e com inteligência. Se as mulheres continuarem a ter direitos, elas só irão atrapalhar o avanço da raça humana por meio do cruzamento com homens degenerados, criando uma prole estúpida e igualmente degenerada. Isso fará com que a humanidade se torne ainda mais depravada a cada geração. As mulheres têm mais poderes na sociedade humana do que elas merecem, tudo por causa do sexo. Não há nenhuma criatura mais maligna e depravada do que a fêmea humana.”

[Elliot Rodger, página 136]

“Todo este ponto de vista e ideologia de abolir o sexo decorre disto ter sido privado de minha vida. Se eu não posso tê-lo, eu farei tudo que posso para DESTRUI-LO. Minha orquestração do Dia da Retribuição é a minha tentativa de fazer tudo, em meu poder, para destruir o que eu não pude ter. Todas essas meninas bonitas que eu tanto desejei em minha vida, mas nunca pude ter, por elas me desprezarem, eu irei destruir. Todas essas pessoas populares que vivem vidas hedonistas de prazer, eu vou destruir, porque eles nunca me aceitaram como um deles. Eu irei matar todos e fazê-los sofrer, assim como eles me fizeram sofrer. Isso é justo.”

[Elliot Rodger, página 137]

Elliot Rodger - perfil de um assassino - cronograma

Cronograma do massacre.

Análise


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O perfil de Elliot, já removido do Facebook, tinha uma coleção de selfies e fotos de sua “rica”, mas solitária vida. Havia fotos dele, dele mesmo e dele de novo: voando na primeira classe, segurando uma taça de champanhe e do cartão para pessoas vips do show da Kate Perry, com seus pais em premiere de filmes, etc. É fato que pessoas ricas tendem a chamar atenção e possuir amigos que se aproximam não pela pessoa, mas pelo estilo de vida que ela leva e, claro, pelo dinheiro que ela tem. A maioria das pessoas são facilmente compradas pelo luxo e pelo poder; por isso, pessoas ricas que não veem problemas em mostrar o que têm, são tão bajuladas. Na Internet, então, tais pessoas são deuses. Normalmente, os ricos têm obsessão com eles próprios e, principalmente, em mostrar seu opulento estilo de vida. O Facebook, então, se torna o lugar perfeito para isso. Eles têm milhares de amigos nas redes sociais e, se postam uma foto da ração do cachorro, milhares de bajuladores irão curtir, comentar e compartilhar a foto. Mas esse não era o caso de Rodger. Apesar de sua “espetacular” vida de “rico” no Facebook, ninguém comentava suas fotos e, praticamente, ele era o único a curtir as próprias publicações. “Eu fiz um novo perfil no Facebook (o qual ainda uso) em um esforço para melhorar minha vida social.”, escreve na página 60 de seu Manifesto.

A história de Elliot Rodger, mais do que de outros casos envolvendo assassinatos em massa, tem um forte tempero de solidão, e o próprio atirador utilizou esta palavra dezenas de vezes em seu Manifesto e em seus vídeos. As pessoas costumam associar assassinos em massa a homens solitários, no entanto, existem algumas outras características pertinentes: eles sofrem de algum transtorno mental, são homens, jovens e, no caso dos americanos, utilizam armas obtidas legalmente. Dizer que o sofrimento causado por ser uma pessoa solitária e mal amada é a única razão por trás desses acontecimentos é, no mínimo, enganosa, mas, certamente, uma parte do todo. Na verdade, se sentir separado do resto da humanidade remove a barreira que impede tais jovens de cometer esses crimes. Se você não se sente parte da raça humana ou, pior, se você se sente injustiçado, você provavelmente sentirá menos culpa ao matar. “A sociedade teve a sua chance,” disse James Huberty, que, em 1984, cometeu um dos piores assassinatos em massa da história americana.

Ao olhar para a história de Elliot, vemos temas fortes no que tange à solidão, típicos daqueles cronicamente solitários. Indivíduos assim, muitas vezes experimentam uma constante e avassaladora sensação de estarem sozinhos no mundo, uma sensação em que há pouco alívio. Eles costumam compartilhar de algumas características, tais como:

1 – Trauma na infância: no Manifesto, Rodger menciona o divórcio dos seus pais quando tinha sete anos. Isto lhe causou muito sofrimento quando criança. Indivíduos que são solitários patológicos, muitas vezes experimentam pelo menos um evento traumático na infância. Estes eventos deixam feridas que, muitas vezes, são difíceis de superar, especialmente se a pessoa não tem o apoio necessário para passar por essas experiências.

2 – Consciência distorcida de relacionamentos: é comum ouvir pessoas solitárias lamentando o fato de que todo mundo parece ter um relacionamento e que eles são os únicos que não conseguem obter um. Além disso, eles têm uma visão distorcida de tais relacionamentos. Muitas vezes, quando uma pessoa solitária vê um casal, ela supõe que são felizes, que não têm problemas e que vivem fazendo sexo e se divertindo. Atingir tal patamar se torna o desejo máximo do solitário. Por outro lado, eles não veem (ou preferem ignorar) que casais passam por problemas, brigas, dúvidas e medos, características subjacentes à relação. Solitários crônicos veem o que querem ver num casal, um espelho de seus próprios desejos e não a realidade do que realmente existe lá. Sendo incapaz de atingir tal objetivo (timidez extrema, por exemplo), a vontade acaba se transformando em desespero e raiva, uma raiva que acaba sendo projetada àquilo que ele próprio almeja.

3 – Reagindo a solidão crônica com violência: se a solidão é crônica, a reação a esse sentimento pode se tornar violenta. No caso de Elliot, essa violência foi dirigida aos outros e, particularmente, de forma brutal. A violência, na maioria das vezes, não chega ao extremo de matar e se manifesta de outras formas, incluindo violência física, verbal ou emocional. Formas sutis incluem tomar drogas, se cortar ou comer demais. Formas mais extremas incluem suicídio e assassinato. Muito antes do Dia de Retribuição de Elliot, ele já havia sido agressivo com outras pessoas.

4 – Falta de consciência sobre a contribuição alheia à sua própria solidão: tudo o que acontecia na vida de Elliot era culpa dos outros. Se ele se sentia rejeitado porque outras pessoas achavam estranho o seu comportamento, isso não era culpa dele, mas dos outros. Ele ficou perplexo pelo fato do seu companheiro de quarto – o qual ele considerava inferior por ser asiático – conseguir um relacionamento e ele não. Rodger, em sua mente, era um cavalheiro perfeito, mas mesmo assim não conseguia uma namorada. Todos nós temos um ponto fraco, uma falha e, no caso de indivíduos solitários, suas falhas são que eles mesmos contribuem para sua própria solidão. Dadas as ações de Elliot, fica claro que ele não era um cavalheiro e que havia coisas com o seu comportamento que eram motivos de preocupação para pessoas ao seu redor. Chris Pollard, um vizinho de Elliot em Isla Vista, disse que o rapaz sempre rejeitou qualquer tipo de ajuda para socializar com outros jovens do prédio onde morava. Rodger não enxergava (ou não reconhecia) que ele mesmo era a causa de sua solidão. Ao não enxergar ou admitir isso, pessoas como ele procuram por um bode expiatório, algo ou alguém em que possam colocar a culpa. Como já comentei em vários posts, psicopatas assassinos tendem a colocar a culpa de suas ações em um componente externo: pornografia, um game ou filme violento, a Bíblia, a sociedade que o menosprezou, a mulher que o traiu, a mãe que o castigava, o pai bêbado. A lista é longa. A culpa nunca é deles e no caso de Elliot, a culpa foi das mulheres.

5 – Crescente desconfiança e ódio de outras pessoas: indivíduos cronicamente solitários também possuem pensamentos e expectativas falhas em relação a outras pessoas. Eles, muitas vezes, assumem que ninguém pode ser confiável e/ou que eles sempre serão rejeitados em situações sociais. A partir da adolescência, Elliot começou a assumir que todos os garotos populares, principalmente as meninas, iriam rejeitá-lo. É seguro dizer que alguns deles o fizeram (nada de anormal, principalmente para alguém como ele) e, a partir disso, ele assumiu que dali para a frente todos seriam assim. Certamente este tipo de pensamento derrotista influenciou suas interações com esses grupos de pessoas de uma forma que só fez confirmar suas convicções distorcidas, resultando numa espécie de profecia autorrealizável. Quando decidiu jogar bebidas nos outros por eles o “rejeitarem”, acabou confirmando sua condição de estranho e de alguém que realmente deveria ser rejeitado ou ignorado.

6 – Para curar a solidão, arrume uma namorada: um pensamento bastante comum em pessoas com solidão crônica é que a melhor maneira (se não a única forma real) de curá-la é entrar em um romance. Isso é o fator principal na vida de Elliot e ele destaca isso várias vezes como algo que ele desejava mais do que tudo na vida: o amor de uma mulher. O atormentava o fato dele, aos 22 anos, ainda ser virgem, algo que via como um tremendo fracasso. Sua hipótese era de que, se ele tivesse um relacionamento amoroso, tudo seria melhor. Mas, na vida real, sabemos que não é bem assim. Não significa que a solidão inexiste só porque você está se relacionando com outra pessoa. Muitos de vocês, leitores, devem conhecer histórias de homens e mulheres que se sentem totalmente sozinhos e frustrados em seus casamentos ou relacionamentos. Em alguns casos, realmente a solidão pode ir embora, por alguns meses, mas, eventualmente, ela retorna. O que realmente é desejado pela maioria são amizades verdadeiras e profundas, seja em um relacionamento amoroso ou não. Mesmo assim, o problema é que o desenvolvimento e a manutenção de tais amizades requerem muito trabalho e muito crescimento e maturidade por parte de cada indivíduo. Você tem que ser capaz de amar a si mesmo antes de poder amar qualquer outra pessoa. Se você não ama a si mesmo, não espere que outra o faça.

7- Ruminação constante em vez de procurar ajuda: ruminação significa focar sua atenção sobre si mesmo, sobre seus sentimentos, pensamentos e situação. Normalmente, ruminação é usada como um meio de gerenciar as emoções, especialmente a ansiedade. É bastante óbvio que Elliot era um indivíduo ruminante. A ruminação leva o afligido cada vez mais para baixo, até que ele atinja o fundo do poço. No caso de Rodger, a ruminação, aliada ao seu ponto de vista misógino e racista, o levou a planejar um assassinato em massa e o suicídio. Não se pode curar a solidão crônica pensando somente em si mesmo, absorto em seus próprios pensamentos e sentimentos. Num mundo perfeito, tal indivíduo procuraria um terapeuta e desabafaria. Nesses casos, as pessoas devem falar com as outras, mostrar o que sentem. É um alívio surpreendente quando elas descobrem que não são as únicas pessoas no mundo a se sentirem assim.

É bastante claro que Elliot era um indivíduo cronicamente solitário, e, em nossa sociedade, ser solitário é sinônimo de perdedor e indigno de aproximação. Isso, obviamente, não é uma justificativa para suas ações. Rodger tomou uma decisão consciente ao cometer esses assassinatos. Não há desculpa para isso. Mas seu caso é um grande exemplo que pode ser usado para aumentar a conscientização sobre a questão da solidão e do estigma que pessoas solitárias carregam na sociedade, rotuladas, muitas vezes, como “estranhas” e “perdedoras”. As pessoas que são cronicamente solitárias devem perceber que elas não estão sozinhas na forma como elas se sentem. O assassinato em massa acontecerá de um jeito ou de outro e Elliot não foi o último, mas se mais pessoas se sentirem ligadas a outras, tirar a vida de alguém se torna bem mais difícil.

Misoginia e Racismo


.

Outro ponto que merece uma reflexão é quanto à sua misoginia. É fato que Elliot era machista e racista, mas seria simplista demais reduzir os seus crimes a um puro ódio dirigido às mulheres. Tão logo seus crimes vieram à tona, pipocaram textos em blogs e sites culpando o machismo de Elliot pelo triste episódio. Respeito e aceito tais opiniões, mas em minha análise, o tema machismo é apenas uma parte do todo. É interessante notar que muitas pessoas enxergam apenas aquilo que lhes convêm. Um assassino misógino, que odiava mulheres, acabou se tornando o assunto perfeito para feministas. Mas Rodger não odiava apenas mulheres, ele também odiava os homens, tanto negros e hispânicos, quanto brancos. E isto é tão claro, tão óbvio.

Em seu manifesto, homens são descritos em detalhes. Eles geralmente têm nomes e sobrenomes, principalmente se são brancos. Elliot nos fala sobre sua cor, suas personalidades e hobbies. Quando fala sobre uma bonita garota que ele flertava na aula de matemática, não diz como ela se parece, mas descreve seu namorado, que é “alto, musculoso, tipo surfista…”. Até mesmo detalhes de homens que ele vê passando nas ruas são fornecidos. Ele nos diz sobre o quão alto eles são, seus queixos másculos, suas roupas: “(…) Eu vi patetas detestáveis vestidos com shorts e camisetas de basquete…”. Isso mostra que seu problema não são apenas as mulheres, mas também os homens, talvez até mais os homens. “…vejo aqueles caras desagradáveis conversando com lindas garotas. Isso me deixa puto porque eu deveria ser o tal com as garotas.”. […] “Outro dia eu estava fazendo compras no Trader Joe’s e vejo esse merda perdedor. E ele entra acompanhado de duas lindas garotas loiras. Me senti tão insultado.”.

Elliot Rodger via as mulheres como um símbolo de status. Sua vontade obsessiva em perder a virgindade tinha menos a ver com o desejo de prazer e mais com a necessidade de mostrar aos outros homens que ele era meio-branco ou tão bom quanto um, “ser merecedor.”. Para ele, sua incapacidade de seduzir uma mulher branca era a prova embaraçosa de sua inferioridade. Um de seus problemas era o fato de ele não ser branco puro. Muitas pessoas pensam que Elliot sentia-se no direito de fazer sexo e ter atenção das mulheres. Isso não é muito preciso. Descrições de si mesmo como “lindo” ou “magnífico” parecem tentativas desesperadas de autoilusão. Ele era muito mais honesto e vulnerável quando se referia à sua origem racial. Rodger acreditava claramente que sua metade asiática o arruinou, colocando-o abaixo dos que eram brancos puros. Sua raiva mais clara era dirigida àqueles que acreditava estarem abaixo dele – negros “imundos”, latinos “pobretões”“asiáticos puros” –, mas que podiam fazer sexo com mulheres brancas. Ele aceitava o fato de que não merecia o que os homens brancos tinham, mas não aceitava que aqueles com sangue menos puro podiam obter sexo com brancas; na verdade, eles até podiam, mas Elliot, em sua escala racial, deveria ter primeiro.

Seu ódio então era dirigido tanto às mulheres quanto aos homens. Os brancos, por terem uma vida melhor que a dele, e os negros, asiáticos, latinos, por serem inferiores a ele e mesmo assim poderem sair com loiras brancas e supostamente fazer sexo com elas. “Vou dar a vocês exatamente o que merecem. Todas as garotas que me esnobaram e rejeitaram, me trataram como escória, enquanto se entregavam a outros homens. E todos vocês homens por viverem uma vida melhor que a minha, todos vocês homens com vida sexual ativa, odeio vocês! Eu odeio todos vocês! Não posso esperar para lhes dar exatamente o que vocês merecem.”, disse em seu último vídeo postado no Youtube.

Ao final, Elliot Rodger assassinou quatro homens (três asiáticos e um branco) e duas mulheres (um número significativo e uma ducha de água fria para aqueles que resumem o seu ato a um puro e simples ódio ao sexo feminino). De qualquer forma, ele odiava homens porque ele odiava mulheres, e isso é uma evidência horrível de até que ponto a cultura da misoginia pode ir.

Elliot Rodger - perfil de um assassino - Monette Moio

Monette Moio. Hoje modelo, Moio foi citada por Elliot Rodger em seu Manifesto – página 41 – como sua primeira paixão. Ele também a chama de “vadia maquiavélica”. Elliot tinha raiva dela por ela ter muitos amigos, ser popular e por não prestar atenção nele. Foto: The Telegraph.

Narcisismo


.

Parece evidente que Elliot era um indivíduo extremamente narcisista. De fato, seu comportamento encaixa-se perfeitamente aos critérios de diagnostico do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV TR).

O transtorno de personalidade narcisista possui nove critérios para que seja feito o seu diagnóstico, sendo a característica fundamental para esse transtorno um padrão global de grandiosidade, necessidade de admiração e ausência de empatia, iniciando-se no começo da vida adulta e fazendo-se presente em vários contextos. Indivíduos com este transtorno apresentam um sentimento grandioso em relação à sua própria importância, sendo este o critério 1 para o diagnóstico. “Isso é uma injustiça tão grande, porque eu sou tão magnífico. Eu mereço garotas.”, disse Rodger.

Tais indivíduos hipervalorizam as suas capacidades e exageram nos seus feitos, em regra geral, gabando-se e sempre de uma forma muito pretensiosa. Assumem com naturalidade que outras pessoas atribuam a mesma valoração às suas realizações, e um fator muito importante é que ficam surpreendidos, pela negativa, quando este reconhecimento externo não acontece. É frequente que ocorra uma desvalorização das contribuições dos outros, e com grande frequência a fantasia está ligada com poder, beleza, brilho, êxito ilimitado ou do amor ideal, sendo este o critério 2 de diagnóstico. A fantasia de Elliot em busca do amor ideal, o amor de uma loira branca, misturava-se com suas fantasias de beleza/brilho, “eu sou lindo” e poder – os óculos de sol Giorgio Armani, suas roupas da Hugo Boss, a BMW.

O critério 3 de diagnóstico, faz referencia à crença por parte do indivíduo de que é muito especial, único e superior, e esperam que os outros os reconheçam como tal. Acreditam que as suas necessidades são especiais, e que estão além do alcance das pessoas comuns. Concluindo ser o único na face da terra incapaz de ter o amor de uma garota, Rodger viu a si mesmo como um ser superior, especial, impossível de ser compreendido pelos outros seres humanos (inferiores).

Indivíduos narcisistas necessitam de uma admiração excessiva, sendo este o critério 4 para o diagnóstico. A autoestima é muito frágil e normalmente preocupam-se com o quão bem estão se saindo e se estão sendo cotados de forma favorável pelos demais, o que remete a uma necessidade constante de atenção e admiração. Não recebendo atenção e admiração de garotas, Elliot via mulheres com outros homens e sentia que eles o estavam insultando pessoalmente. “Vocês finalmente verão que sou eu o superior.”.

No critério 5, consta o sentimento de ser reverenciado, estes indivíduos esperam um tratamento exclusivamente favorável, e ficam confusos e furiosos quando isto não ocorre. Não só as meninas deveriam amá-lo por sua riqueza e aparência, como também não deveriam insultá-lo por estar com outros homens ou vestindo shorts reveladores. Na mente distorcida de Rodger, o que as mulheres fazem é diretamente relevante para ele, independentemente do que está acontecendo na mente ou na vida delas.

Quando combinados os sentimentos de direito a reverencia com a ausência de empatia e sensibilidade, o resultado pode ser uma exploração dos outros. Narcisistas esperam que lhes seja atribuído aquilo que desejam ou o que acreditam necessitar, não importando o que isso signifique para o outro, utilizando-os para atingir os próprios fins, sendo então este o critério 6. Era exatamente esta a postura que Elliot esperava das mulheres, que elas lhes deviam servir para o próprio prazer, afinal, ele considerava-se digno disto.

No critério 7 salienta-se a ausência da empatia. Tais indivíduos são incapazes de reconhecer os sentimentos e necessidades dos outros, assumindo então que as pessoas deveriam estar preocupadas com o seu bem estar. Tendencialmente discutem os seus problemas com um pormenor extenso e inapropriado, ignorando os problemas dos outros, com acentuada frieza emocional e recíproca falta de interesse.

O critério 8 fala sobre a frequente inveja dos outros ou a crença de que os outros o invejam. Invejam o êxito das outras pessoas, e sentem que eram merecedores de mais privilégios, realizações e admiração. Podendo desvalorizar intensamente as contribuições dos demais. Talvez o que mais tenha destruído Elliot Rodger tenha sido sua enlouquecedora inveja dos outros, principalmente dos homens. Num de seus vídeos, enquanto ele olha para o por do sol, ele diz que não pode admirá-lo porque está pensando em como vários homens naquele momento estavam com suas lindas namoradas. Em um vídeo intitulado Minha reação ao ver um jovem casal na praia, inveja (abaixo), ele filma um casal se beijando na praia, “Eu tenho que filmar isso. Eu tenho que mostrar ao mundo porque a vida não é justa. Nenhuma garota faria isto comigo.”.

Narcisistas apresentam comportamentos extremamente arrogantes e altivos, sendo este o critério de numero 9 para o diagnóstico. Em um vídeo (abaixo) que Elliot filmou a si mesmo dentro de sua BMW, ele, sem brincadeira, dá o que ele acha ser um olhar sexy, piscando e dirigindo ao mesmo tempo. Isoladamente, poderia ser um momento embaraçoso de autoabsorção, mas sabemos que Elliot era um indivíduo cheio de si mesmo.

Dentro daquilo que define o transtorno de personalidade narcisista, creio que Elliot se encaixava perfeitamente em todos os critérios sintomáticos. A vulnerabilidade da autoestima torna os indivíduos com esta perturbação extremamente sensíveis à ofensa e derrota, sendo que isto pode torná-los obcecados por sentimentos de humilhação e vazio, podendo eles reagir com raiva ou com contra-ataques ao “provocador”. Tais experiências podem promover um evitamento social, com as interações sociais sendo potencialmente diminuídas em decorrência dos problemas resultantes da necessidade de admiração e reverencia. Muito embora exista presunção e confiança, o rendimento pessoal (realizações) pode ser interrompido devido à intolerância a critica e à derrota; podem ter pouca vontade de aceitar novos desafios onde as chances de derrota sejam plausíveis. Sentimentos como humilhação e vergonha podem estar associados ao evitamento social, humor depressivo, perturbação distímica ou depressiva maior.

O diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista é somente efetivado quando estes traços forem inflexíveis, persistentes, desadaptativos e causarem significativa incapacidade funcional e sofrimento subjetivo ao indivíduo.

É evidente que essas considerações acerca da possibilidade diagnóstica de narcisismo é apenas uma especulação, como apresentado através de uma entrevista onde o psicólogo Xavier Amador refere que Elliot encaixa-se em um diagnóstico de transtorno psicótico. Nem sempre as opiniões são as mesmas, e infelizmente o dano causado por Elliot não será reparado mesmo que tenhamos um diagnóstico preciso. Mas uma coisa é certa, ele deu sinais, publicou vídeos, e mesmo assim nada foi feito para evitar esta tragédia.

Vídeos


.

ABC News: Por dentro da mente de um assassino

Psicólogo fala sobre Elliot Rodger

O desabafo de Richard Martinez, pai de uma das vítimas

Fontes consultadas: My Twisted World – The History of Elliot Rodger; Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV TR); The Telegraph; Daily Mail; Los Angeles Times, CNN, BBC; Forbes; New Yorker; Salon; Al Jazeera; .

Esta matéria teve colaboração de:

Psicóloga forense

leandro

Psiquiatra forense

ester

Revisão por:

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“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” (Platão)

Deixe o seu comentario:
  • Emerson

    muito bom! sou leitor assiduo do site ha mais ou menos um mes. pesquisava uma materia sobre serial killers e vim parar aqui. desde então, nao saio mais! parabens pela equipe e pelos textos maravilhosos!

  • Pingback: Goiânia: Polícia pode ter prendido o maior serial killer da história do Brasil | Blog O Aprendiz Verde()

  • t3muc0

    sinto muito, mas mulher (das q conheci, pelo menos) preferem ser pegadas por qualquer 1 msm e depois descartadas…a fila anda e roda enquanto nós estamos ocupados ou não…ainda mais na america

    • t3muc0

      *a fila anda, roda E GIRA….XD
      why so cirilo?

    • Doug B Ant

      ou seja, entendam “ser pegadas com pegar” ou/e “descartadas=descartar”
      igualmente diferente
      semelhança com igualdade
      msm tratamento e nao alegar possivel discrepancia pra sobressair
      simples e objetivo, nao vitimista q justifica erro com outro ou pior pra continuar se desculpando
      adeus definitivo

  • Doug B Ant

    soh pra desenhar uma coisa, nao costumo comentar mas vendo tamanha capacidade, compreençao e, principalmente, consideraçao brhu3, a gnt se segura pra nao comentar e faz o possivel pra rir disso[mais pra nao chorar]…
    NAO DELES CLARO
    e sim dos q perderam tempo nao soh vindo aqui, mas ainda pra falar mau e mal
    um erro nao justifica o outro, como tb nao justifica mais propagaçao de comentarios desse nivel
    novamente; sinto por todas as vitimas…nao por vcs
    educaçao brhu3, soh tentando corresponder educadamente sorrindo ao sarcasmo mal direcionado da inconveniencia…
    ADEUS e passar bem
    vou focar em coisas boas e tentar, apenas, esquecer tudo isso

  • Jaque

    Os pais dele deveriam ser responsabilizados, como assim não viram que os filhos tinha problemas serios? pais negligentes só potencializou os problemas que ele tinha. Como assim não se medicava? não tinha que querer, a mão tinha que obriga-lo a tomar, internação, sei lá.

  • Pingback: James Huberty: Massacre no McDonald's | Blog O Aprendiz Verde()

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