A Verdadeira História de Drácula

“Apa trece, pietrele ramin.” “A água flui, as pedras permanecem.”  — Antigo Provérbio Romano. Quando a realidade encontra a ficção . Dracula de Bram Stoker, publicado em 1897, continua...
A Verdadeira Historia de Dracula

A Verdadeira Historia de Dracula - Capa

“Apa trece, pietrele ramin.”
“A água flui, as pedras permanecem.” 
— Antigo Provérbio Romano.

Quando a realidade encontra a ficção


.

Dracula de Bram Stoker, publicado em 1897, continua a provocar arrepios na espinha de quem o lê. É o dark gótico em seu melhor momento, um trabalho brilhante, criativo e impossível de ser esquecido. A atmosfera criada, na opinião de muitos, é mais assustadora do que qualquer romance de Stephen King. Milhares de pessoas no mundo já o leram; muitos dizem que seu romance fez nascer a literatura do horror, uma obra que teve um impacto tão profundo na cultura pop que não pode ser apropriadamente medido. Livros, filmes e séries de vampiros, zumbis e demais criaturas da noite que nos entretém, seja em games ou na TV, devem tudo a Dracula.

Mas muitas pessoas que leram o livro não sabem que o personagem do vampiro Drácula se baseia em um nobre membro da corte romena, de grande destaque na história da Europa — e, acreditem em mim, muito mais aterrorizante e sinistro do que seu descendente ficcional. Embora ele não seja revestido de um manto negro, não possua séculos de idade ou presas sanguessugas de fama literária, a infâmia dessa figura histórica supera e muito a da criação de Stoker.

Príncipe Vlad, ou como era chamado em seu tempo, Drácula, encabeça a lista romena de muitos, muitos cruzados cristãos que, nos anos de transição entre a Idade Média e do Renascimento, lutaram para manter os muçulmanos e turcos otomanos fora do seu país. E é estranho pensar que um nome conhecido por aparecer em pesadelos, na verdade, pertencia a um cruzador de uma causa religiosa!

Ainda assim, Drácula estava longe de ser um santo. Ele governou seu reino militarizado da Valáquia – sul da Romênia – com o punho pesado e encharcado de sangue. Não só para os turcos, mas também para muitos de seus conterrâneos, ele era Vlad Tepes (Vlad O Empalador, traduzindo do romeno). Determinado a não ser surpreendido por intrigas políticas – num mundo em que os príncipes eram diariamente enganados por sorridentes e hipócritas “aliados” – a paranoia entre a aristocracia era, e provavelmente precisava ser, o máximo de caráter em um soberano. Drácula construiu uma negra defesa em torno de si mesmo, não caía na armadilha da bondade e muito menos confiava nas pessoas. Durante seu reinado, ele foi um assassino em massa, criando uma sinistra floresta de pessoas espetadas em paus em torno de seu castelo – milhares de indivíduos que ele via como traidores, possíveis traidores e supostos inimigos para a segurança da Romênia e da Igreja Católica Romana. Às vezes, ele matava apenas para dar um aviso, mostrando a outros insurgentes e criminosos quais seriam os seus destinos se eles se tornassem problemas.

Um livreto publicado em Nuremberg, Alemanha, logo após a sua morte, em 1476, conta que ele queimava vivos mendigos após permitir-lhes comer de graça em sua corte. “Ele achava que eles estavam comendo a comida do povo para nada, e não podiam pagá-la”, dizia o livreto. E há inúmeros outros contos horríveis sobre Drácula, escritos há séculos, muitos dos quais serão descritos neste artigo.

Mas Vlad Drácula era mais do que apenas um déspota medieval. Os biógrafos Radu R. Florescu e Raymond T. McNally chamaram-no de “um homem de muitas faces”. Ele era um político, um guerreiro, um cavalheiro erudito e bem educado quando a ocasião lhe favorecia, e, como já indicado, um sanguinário assassino em massa. Ele falava várias línguas – romeno, turco, latim e alemão – e era um perito no uso da espada e balestra. Ele também foi um brilhante estrategista militar, liderando seu exército como um Berserker. Em três momentos distintos Drácula governou a Valáquia, um dos três principados húngaros que mais tarde se fundiu com outros – Transilvânia (ao norte) e Moldávia (a leste) — se tornando o que hoje é o país da Romênia. Pela Valáquia se posicionar acima da planície do rio Danúbio, que separava o Império Otomano da livre Romênia, o principado se tornou a defesa frontal contra os turcos não cristãos. Apesar de suas crueldades e punições desumanas, Drácula é considerado hoje um herói nacional, um mártir, muito devido ao seu ódio fervente por qualquer coisa turca, e também por ele ter dado a vida para salvar sua pátria. Vlad até mesmo lutou contra seu irmão mais novo, a quem ele considerava um traidor. Na Romênia, existem estátuas em sua honra, e sua terra natal, Sighisoara, e seu lugar de descanso em Snagov, são considerados quase canônicos.

“Embora muitos ocidentais fiquem perplexos com um homem cuja carreira política e militar esteja tão mergulhada em sangue, como foi o de Vlad Drácula, a verdade é que para muitos romenos ele é um ícone do heroísmo… É esta dualidade que faz parte de seu apelo.”, escreveu Elizabeth Miller, especialista no caso Vlad, em um ensaio para o Journal of the Dark Magazine.

O busto de Vlad Drácula em sua cidade natal, Sighisoara, Romênia.

O busto de Vlad Drácula em sua cidade natal, Sighisoara, Romênia. Créditos: Wikipedia.org.

A movimentada vida de Drácula o colocou em contato com as pessoas mais poderosas da época, dentre elas o “Cavaleiro Branco” Jonas Hunyadi (João Corvino), o Rei Húngaro Matias Corvino e o ambicioso e perigoso Sultão Maomé da Turquia. Em sua vida, Drácula testemunhou o uso crescente da pólvora como um meio de destruição; as Cruzadas; a queda de Constantinopla; a arte filosófica nouveau; a alquimia e a cultura que se tornou conhecida como Renascimento. Mas foi através de um romance escrito 421 anos após sua morte que ele definitivamente escreveu o seu nome na história.

O Drácula de Bram Stoker e o Drácula Real


.

A Verdadeira Historia de Dracula - Romance

A capa da primeira edição do romance Dracula, de Bram Stoker. Créditos: Wikipedia.org.

Não foi por escolha ociosa que o romancista irlandês de barba ruiva Bram Stoker, em 1896, escolheu o Empalador romeno como modelo para seu Nosferatu, o vampiro “morto-vivo”. Embora Stoker tenha admitido nunca ter posto os pés em solo romeno – ele fez a maior parte de sua pesquisa sentado numa cadeira na biblioteca de Londres – é óbvio que o infame Conde Drácula emula sua contraparte histórica. Debruçado sobre textos como An Extraordinary and Shocking History of a Great Berserker Called Prince Dracula, The Historie and Superstitions of Romantic Romania e Wilkinson’s Account of Wallachia and Moldavia, Stoker deve ter entrado em êxtase. Nestes e em outros volumes que ele estudou, Stoker leu sobre o líder romeno Drácula, cujas atrocidades fizeram tremer o mundo ocidental cristão e cuja ousadia o salvou de Alá.

Alguns autores e estudiosos modernos negam qualquer conexão entre o príncipe romeno real e o sanguinário personagem fictício, opinando que Stoker apenas usou o nome Dracula, que ele descobriu nas páginas de história antiga. Esses autores baseiam suas interpretações, principalmente, em duas premissas: a primeira é a de que o vampiro de Stoker reside em um castelo nos Alpes da Transilvânia e não no sopé da Valáquia, e os dois lugares tem 240 quilômetros de distância. A outra é que o vampiro é descrito por Stoker como sendo de sangue Szekely, de uma raça de pessoas no “país do norte”, e não de uma linhagem antiga valaquiana, como descende Vlad Drácula.

Outros autores, no entanto, reconhecendo as liberdades oferecidas pela literatura, apontam para as fortes semelhanças que mostram muito mais do que uma simples coincidência. As mais notáveis ​​são as referências para contar o passado do vampiro – proferidas pelo próprio nobre ficcional – e elas pintam uma história muitíssimo parecida com à de Vlad Drácula.

No romance, quando Jonathan Harker, um advogado britânico, visita o castelo de Drácula na Transilvânia com o objetivo de fechar um negócio imobiliário (o vampiro está de mudança para Londres em busca de sangue fresco), Stoker descreve a terra sobre a qual Harker viaja, uma “terra disputada durante séculos pelos valaquianos, Saxões e os Turcos… enriquecido pelo sangue de homens, patriotas ou invasores.”.

Em um capítulo posterior, o Conde Drácula conta a Harker uma história que emula sua própria herança real:

“É de se admirar que éramos uma raça conquistadora, que nós éramos orgulhosos; que quando os Magyar, os Lombard, os Avar, os Bulgar ou os turcos jogaram seus milhares em nossas fronteiras, nós os afastamos?… A nós, por séculos, foi confiada a guarda da fronteira da Turquia; e mais que isso, infinito serviço de guarda da fronteira.”.

Em outro ponto, Conde Drácula faz alusão a um “ancestral”, que “vendeu o seu povo para os Turcos e trouxe para eles a vergonha da escravidão!” E o nosso Drácula da vida real tinha um irmão assim. Coincidência?

Existem outras dezenas de referências, mas na verdade, o romance não aponta muito sutilmente para Vlad Drácula como a fonte exata – há referências a determinadas campanhas militares em que ele participou, ou contemporâneos que ele conheceu, e lugares que ele visitou. Em resumo, se Stoker não criou seu personagem sob o manto avermelhado de Vlad, o Empalador, ele certamente adornou sua criação com um manto de cor incrivelmente próximo da tonalidade.

A seguir, a história do Drácula real, um homem que, tendo preferido ou não, tornou-se, nos séculos seguintes, uma figura a quem os dicionários chamam de “um dos dez nomes mais conhecidos nos países de língua Inglesa do mundo”.

Onde o Oriente encontra o Ocidente


.

Vlad Drácula nasceu em novembro ou dezembro (os registros são vagos) de 1431, na Transilvânia, terra que era, e estava, em constante agitação, presa entre as influências da Hungria e do Império Otomano. O pai de Drácula, Vlad II Dracul (“Vlad II, O Dragão”), era o seu governador real. Um membro da família real Basarab, o Dragão tinha a reputação na “terra além da floresta” de um feroz príncipe guerreiro. Quando sua segunda esposa, a princesa Cneajna da Moldávia, deu à luz a seu segundo filho, Vlad II não estava contente com sua posição de governador da Transilvânia, e começou a almejar o trono da Valáquia, região localizada ao sul da Transilvânia, no rio Arges.

O segundo filho de Vlad II e Cneajna recebeu o nome de Vlad III e a alcunha de Drácula. Drácula foi, portanto, uma criança tumultuosa, um homem moldado pela sua época. Antes que ele pudesse andar e antes que ele pudesse falar, ele deve ter sentido o calor do período, sentido as rivalidades políticas, os subterfúgios e tudo que envolvia ser filho de uma família real e de um renascentista romeno. Sua natureza, portanto, cresceu competitiva e violenta. Em uma terra amaciada por batalhas, que conhecia a discórdia de pequenos exércitos privados em marcha – o tilintar de suas couraças era um barulho diário e habitual – a paranoia e a desconfiança eram características incrustadas nas personalidades dos nobres. Quando o sangue não estava sendo derramado sob uma causa religiosa, era derramado sob direitos de terras. Havia lutas externas e internas, e elas eram contínuas.

A Romênia do século XIV localizava-se exatamente na fronteira mundial das culturas oriental e ocidental, assim, este país católico tornou-se uma porta virtual que ligava culturas opostas e que não estavam nem um pouco interessadas que a outra existisse.

A Verdadeira Historia de Dracula - Divisão administrativa da Romênia do século XV

A divisão administrativa da Romênia do século XIV. A Transilvânia e seus distritos (cor verde); a Valáquia e seus distritos (cor azul); e a Moldávia (cor vermelha). Ao sul a Bulgária, que pertencia ao Império Turco Otomano. A Valáquia era a “porta de entrada” dos turcos para a Europa. Créditos da foto: Wikipedia.org.

Desde os anos 1100, os cruzados europeus em sua missão de salvar Bizâncio – isto é, manter os turcos e sua cultura longe da Europa – haviam atravessado a Romênia para apoiar os exércitos de capuzes brancos contra os sucessivos e incansáveis sultões turcos. Para piorar a situação, os romenos brigavam entre si pelo poder. “Havia problemas internos relativos aos herdeiros e o trono,” diz o autor romeno-americano Badu Bogdan. “Nos estados romenos, havia várias famílias régias, e elas estavam lutando entre si para decidir quem devia governar o país. (Havia) uma alta instabilidade política.”.

Antepassados


.

De acordo com o livro, Transylvania — The Roots of Ethnic Conflict (Transilvânia – As Raízes do Conflito Étnico), publicado pela Kent State Press, “a organização social dos romenos era relativamente simples. Os diferentes grupos de pastores nômades e soldados estavam sob a liderança de um voivoda (príncipe guerreiro) e de um knez (duque ou príncipe). Esses líderes locais eram o principal contato oficial entre os romenos e à autoridade política ou eclesiástica húngara.”.

As classes dominantes (os boiardos) da Romênia descendiam dos nativos Magyars e Szekelys. Ao longo dos anos, muito tem se discutido sobre qual linhagem Drácula pertencia. Bram Stoker afirma que ele era um Szekely. Mas Radu Florescu e Raymond McNally, em seu bem pesquisado In Search of Dracula (À Procura de Drácula), dizem que ele pertencia a uma linhagem muito mais antiga do que qualquer uma das citadas acima, que data diretamente para os Dacians, do período anterior ao Império Romano.

Não obstante, os antepassados ​​de Drácula eram senhores da guerra e príncipes. O pai de Drácula, Vlad II, era conhecido por sua inteligência e resistência, bem como por sua cavalaria, que o ajudou a ser introduzido na Real Ordem do Dragão em 1431, meses antes do nascimento de seu filho, Vlad. Assim, Vlad pai, ao entrar para a Real Ordem do Dragão, inadvertidamente deu ao mundo um nome que iria perdurar nos livros de história e na literatura durante séculos. Após sua indução, ele virou Vlad “O Dragão”, ou Dracul em romeno. Seu filho, ao nascer, automaticamente recebeu a alcunha de “Filho do Dragão”, ou Drácula em romeno. Na língua romena, adicionando um “a” após o nome, a palavra assume o significado “filho de”. Assim, Herdeiro ou Filho do Dragão, o jovem Vlad recebeu a alcunha de Drácula, honraria que ele fazia questão de ser chamado após o seu primeiro nome.

Entre os Otomanos


.

A Verdadeira Historia de Dracula - Vlad II Dracul

Auto-retrato de Vlad II Dracul, pai de Drácula. Artista e ano desconhecidos. Créditos: Wikipedia.org.

Como Filho do Dragão, era esperado que Vlad Drácula se tornasse, em sua adolescência, um guerreiro. Mesmo que o seu irmão Mircea fosse o primeiro na linha de sucessão ao trono do principado, Vlad pai olhou para todos os seus filhos — Mircea, Vlad e Radu (nascido em 1435) — como homens que num futuro próximo carregariam o nome da família. Todos eles deveriam ser fortes o suficiente. Eles aprenderam a segurar um arco, empunhar uma lâmina e a cavalgar sem sela, antes mesmo de se sentarem numa cadeira para aprenderem a ler. A arte da luta vinha em primeiro lugar.

Com roupas feitas para abrigar seus pequeninos corpos, espadas e pôneis árabes, os três irmãos corriam pela Floresta Edelweiss, ao lado de Sighisoara, cortando árvores que em suas mentes representavam sultões turcos. Enquanto águias dos Cárpatos voavam acima olhando com curiosidade, e enquanto pica-paus se inclinavam para fora dos troncos, o Dragão via com orgulho seus pequenos filhos ensaiando a arte de matar, com o pequeno Vlad, em especial, gostando de assumir o papel imaginário de Golias. Vlad Dracul cronometrava suas arrancadas e classificava suas legionárias habilidades.

O Dragão imaginava um grande futuro para o seu clã. E se por um lado os filhos de Dracul cresciam como homens de verdade, por outro, eles deveriam possuir um domínio próprio, assim pensou o pai. Sendo irmãos no governo da Transilvânia, meros fantoches para a Hungria, não era suficiente. A intenção de Dracul continuava a ser o estado livre da Valáquia. Ele queria tomá-lo do pacífico Danejsti, que na visão do Dragão, cometera o maior dos sacrilégios: Danejsti praticamente estendera o tapete de boas vindas aos turcos.

Em 1435, o Dragão convenceu seu velho mentor, o Rei Sigismund da Hungria, a dar a ele um exército grande o suficiente para expulsar seu familiar distante antes de a Romênia ser perdida para sempre. Como já dito no início do artigo, a Valáquia era a porta de entrada para o país. Se havia um lugar a ser bem protegido, este devia ser a Valáquia. Depois de um cerco complicado na capital de Valáquia, Tirgoviste, o Dragão finalmente sentou no trono que desejou por mais de uma década.

Tirgoviste, situada nas margens do rio Dimbovita, já podia ser considerada uma cidade antiga quando o jovem Drácula seguiu seu pai conquistador até lá. Localizada nas baixas terras do sul dos Cárpatos e com uma movimentada via comercial pública, Tirgoviste era composta de centenas de variedades de mercados e lojas comerciais, movimentada durante todo o dia. Próximo ao centro da cidade ficavam os ricos proprietários de terras. Eles possuíam uma divisão de campos férteis, onde produziam uvas com suas plantações cercando a cidade.

A muralha bizantina do Palácio do Príncipe, que mais parecia uma fortaleza, tinha como vista os telhados da cidade abaixo, e era cercada por uma paisagem de árvores, grandes pedras e planícies. Lagos forneciam água doce e peixes. As paredes centrais do palácio, com um metro e vinte centímetros de espessura, haviam sido erguidas por Mircea, avô de Drácula, a partir das ruínas de um antigo posto militar; em algum ponto distante elas se fundiam com as próprias paredes que cercavam Tirgoviste. Aposentos de luxo e o trono retangular do príncipe ficavam atrás do portão principal atravessando um pátio e jardins vigiados dia e noite por uma legião de sentinelas, que ficavam postados ao longo dos muros e no topo do principal ponto de observação, a Torre de Vigia Chindia.

A Verdadeira Historia de Dracula- Tirgoviste - Vista

A cidade de Tirgoviste atualmente. Vista aérea da avenida principal de Tirgoviste (ou Targoviste). A cidade hoje possui 74 mil habitantes e é a capital do Condado de Dâmbovita. Créditos: Google Street View.

A Verdadeira Historia de Dracula- Tirgoviste - Curtea Domneasca

Na imagem, as ruínas do Curtea Domneasca, um complexo de edifícios e fortificações medievais que serviram como residência dos príncipes romenos em Tirgoviste. Também era um ponto importante na defesa da cidade. Foi o lar do Dragão e seus rebentos, dentre eles Drácula. Créditos: Panoramio ©christake.

A Verdadeira Historia de Dracula - A Torre Chindia

A Torre de Vigia Chindia. É uma das poucas construções ainda intactas da fortaleza de Dracul. É um ponto turístico bastante visitado em Tirgoviste. Créditos: Tourist in Romania.

A Verddeira Historia de Dracula - Torre Chindia - Vista da rua

A Torre de Vigia Chindia vista da rua. Créditos: Google Street View.

A Verddeira Historia de Dracula - Torre Chindia - Vista interna

A Torre de Vigia Chindia vista internamente das ruínas do Palácio Real. Créditos: Google Street View.

A Verdadeira Historia de Dracula - Tirgoviste - Poarta Bucuresti

A Poarta Bucuresti (Portão Bucareste), entrada principal da Tirgoviste medieval. Créditos: Panoramio Mitrache Ionut.

Os primeiros anos da vida de Drácula em Tirgoviste foram como na Transilvânia. Sua mãe, a devota religiosa católica Princesa Cneajna, supervisou a educação religiosa de seus filhos, garantindo que eles comungassem juntamente com os monges da Igreja vizinha de Santo Paráclito. Antes do pôr do sol, a tutoria dos meninos também incluía, além de habilidades de combate, lições diárias de geografia, matemática, ciências, linguagem, artes clássicas e filosofia.

Drácula e seu irmão mais velho, Mircea, eram os mais ásperos e encrenqueiros dos herdeiros do Dragão que, a propósito, ficou muitas vezes no prejuízo com várias das travessuras dos garotos em Tirgoviste. Na aparência, eles muito se assemelhavam a seu pai, com seus traços escuros, nariz aquilino e maçãs do rosto salientes. Drácula, dizia-se, herdou o temperamento de seu pai, combustivo e impetuoso.

Seu irmão mais novo, Radu, apesar do treinamento de guerreiro, tinha uma fala mansa, movia-se em silêncio e tinha preferência pela companhia de meninos (Florescu e McNally insinuam que Radu era homossexual). Com rosto angelical, parecido com sua mãe, ele passaria, com o tempo, a ser chamado de Radu, o Belo. Nos anos seguintes, ele e Drácula se tornariam inimigos mortais.

Quanto ao Dragão, ele se tornou um digno estadista valaquiano, governando com mão de ferro, mas de forma justa. No entanto, ele se viu preso entre sua consciência e dever. Devido ao governo café com leite do seu antecessor, Danejsti, as forças do sultão turco Murad II pintavam e bordavam na Valáquia, saqueando a vontade o principado. Eles estavam por toda parte. Suas caravanas percorriam as ruas de Tirgoviste, Bazau e Bucareste; suas cavalarias desfilavam sem controle da fronteira com a Bulgária turca até as Montanhas dos Cárpatos; seus soldados acampavam abertamente sobre os rios Arges e Olt; suas cimitarras brilhando a luz do sol intimidavam os romenos. Em essência, era Murad, e não o Dragão, o dono de Valáquia. Uma prova disso era que Vlad Dracul era forçado a pagar ao sultão 10 mil ducados anuais para manter as grandes cidades em sua província livre de ataques selvagens. (Ducado: Moeda de ouro ou de prata, de diferentes países, em diferentes épocas.).

Dependendo da fonte, o relacionamento do Dragão com os turcos ou foi forçado (ele não tinha forças para contra atacar) ou neutro (aceitar a neutralidade com um pequeno preço a pagar pela liberdade valaquiana). Conhecendo o caráter de Dracul, pode-se supor que ele estava apenas à espera de uma primeira oportunidade para fazer o seu movimento. Quando essa oportunidade veio em 1442, no entanto, ele desistiu de lutar por se recusar a se juntar ao famoso e politicamente ambicioso “Cavaleiro Branco” João Corvino, vice-rei da Transilvânia, que reuniu um enorme exército para chutar os turcos de volta à Bulgária.

Alguns autores acreditam que o Dragão foi pessimista, acreditando que Corvino não tinha qualquer chance. O Cavaleiro Branco, à frente de uma força composta principalmente de tropas reais emprestadas a ele pelo novo rei húngaro Ladislau III, atacou sem a participação do príncipe da Valáquia. Depois de uma batalha sangrenta perto do Danúbio, os turcos sob o comando de Sihabeddin foram perseguidos até o sul do grande rio.

Frustrado, irritado pelo ataque e, principalmente, pelo recuo do seu exército, o sultão Murad chamou vários líderes europeus, incluindo o Dragão, até a cidade de Gallipoli para negociar. Mas somente o Dragão foi até o seu encontro. Ele levou consigo seus dois filhos mais novos, Drácula, de 13 anos de idade, e Radu, 9 anos, acreditando que a chamada do sultão era uma chamada de trégua. Mas quando entrou no salão de Murad, ele e seus dois filhos foram prontamente detidos.

Mantido em cativeiro por dias, o príncipe foi finalmente libertado em condições estabelecidas pelo tribunal turco:

  1. que jura pela Bíblia e o Corão que evitará o engendramento de novas hostilidades;
  2. que depositará 10 mil ducados para o tesouro do sultão, e;
  3. para assegurar que és um homem de palavra, deixarás seus dois filhos como reféns na Turquia por um período de tempo indeterminado.

Relutantemente o Dragão concordou. Sozinho em solo inimigo, Vlad Dracul não podia fazer nada.

Não era a primeira vez que os turcos arrancavam jovens da nobreza europeia. Como uma espécie de tática, esses jovens sequestrados eram inseridos no Esquadrão dos Janízaros, elite do exército turco, como explica Paul M. Pitman III em Turkey: A Country Study

“Expedições eram organizadas regularmente para recolher como tributo garotos cristãos das províncias Bálcãs. Os tomados se tornavam muçulmanos e passavam por um treinamento que incutia neles uma identidade corporativa. Estes ‘escravos do Estado’ eram… preparados para admissão na classe governante otomana… onde eles se engajavam em estudos islâmicos, aprendiam persa e árabe, e recebiam treinamento militar avançado.”

Os jovens Radu e Drácula foram transferidos de Gallipoli para o centro da nação turca, a cidade de Adrianópolis (atual Edirne). Eles não eram tratados como prisioneiros, mas eram mantidos sob constante vigilância e supervisão – afinal, eles eram filhos de um importante inimigo e, muitas vezes, tinham acesso a prédios do governo e informações militares. Mas longe de ficarem presos atrás de barras de ferro, eles praticamente eram livres para vagar pelas iluminadas ruas do escaldante sol turco, participando dos caminhos da vida oriental e seus costumes, respirando a atmosfera dos mercados e seus muitos temperos, saboreando o indescritível aroma dos pratos, até mesmo cortejando alguma menina na noite do prateado luar bizantino se quisessem.

Radu requereu pouca observação, ele se acostumou totalmente às leis, estatutos e cultura da Turquia, que ele via como o seu país “adotado”. Ele só tinha nove anos e era apenas uma criança, já o “aborrecente” Drácula…

Ao contrário do irmão mais novo, Drácula apresentava muitas vezes uma atitude agressiva. Era um bom aluno e não exteriormente hostil, mas, no entanto, gostava de brigar com seus superiores e lamentar seu confinamento. Ele lutava por uma liberdade mais pessoal, insultava seus guarda-costas e, não menos frequente (e de acordo com seu tutor turco), menosprezava os costumes asiáticos. Na verdade, interiormente, ele estava sufocado pela vontade de ir embora, de voltar às suas raízes, à sua família e à sua terra.

Em algumas ocasiões os turcos foram obrigados a aplicar-lhe alguns corretivos. Para ser mais preciso, no pelourinho.

Em 1445, os cristão europeus tentaram outra cruzada contra os Otomanos. Mais uma vez, o líder era João Corvino, o Cavaleiro Branco, que cavalgou em direção a distritos turcos com uma legião armada preparada para um longo conflito. O Dragão, apesar de sua promessa ao Sultão Murad – e provavelmente porque ele não queria enfrentar um castigo público como o sofrido quando ele foi contra a campanha de 1442 – ofereceu 4 mil homens a cavalo sob liderança do seu filho primogênito Mircea, 17 anos na época. Entretanto, ele se recusou a pessoalmente pegar em armas, na esperança de que o sultão interpretasse essa decisão como uma forma de lealdade e, assim, não prejudicasse os seus filhos sequestrados.

 Verdadeira Historia de Dracula - Estatua de Joao Corvino

A estátua do guerreiro João Corvino numa praça de Bucareste. Créditos: Városlakó Pécs.portál

O sultão, ao ouvir que Corvino partira para o ataque, trancou os meninos de Dracul em um calabouço. Lá, eles receberam chicotadas diárias e sofreram longos períodos de fome. A insolência de Drácula piorou seu tratamento, ele sofreu várias torturas, tanto físicas quanto psicológicas. Ainda assim, ele foi mantido vivo, provavelmente devido ao fato de que o sultão sabia que ele ainda poderia ser utilizado como uma moeda de troca.

A partir de uma estreita janela acima de sua cela, Drácula podia testemunhar no pátio exterior às execuções de prisioneiros menos afortunados. Dependendo do crime, eles eram enforcados, mortos com flechas ou lanças, decapitados, esmagados sob rodas, ou entregues a uma besta selvagem que os comiam vivos. Muitos eram empalados. O testemunho dessas atrocidades certamente foi a semente do comportamento sádico do futuro Empalador.

No início, o adolescente pode ter se sentido repelido pelos empalamentos. Mas, depois de um tempo, ele certamente cresceu fascinado por esse horrendo método de execução. Empalamento, o mais desumano dos castigos, consiste em perfurar um corpo longitudinalmente com uma vara afiada, a vítima, em seguida, é deixada para morrer no topo do mastro levantado. O sofrimento é insuportável e a morte às vezes lenta. Em épocas antigas, os homens geralmente tinham as estacas inseridas através do ânus, as mulheres através da vagina. Drácula observava as vítimas se contorcerem, gritarem, sangrarem, e depois morrerem. Ele via os corvos escolherem suas carcaças, que muitas vezes ficavam sob o quente sol turco até terminarem apenas como carne seca.

Drácula aprendeu a detestar seus cativos por sua crueldade, mas em sua mente, ele almejou a oportunidade de servi-los da mesma forma. Sem saber se ele poderia ser o próximo a ser empalado, ele imaginou que, caso sobrevivesse, um dia infligiria tal tormento sobre os turcos. Maltratado, morrendo de fome, cortado, torturado, e agora com a vista diária do que os turcos faziam com seus prisioneiros, ele provavelmente deve ter enlouquecido.

A traição do cavaleiro branco e o fim do Dragão


.

O exército de Corvino havia acumulado três vitórias na Bulgária turca – em Peretz, Nis e Sofia – mas quando chegou à importante cidade marítima de Varna, no Mar Negro, ele ficou cara a cara com uma avassaladora força turca. As tropas de Corvino foram massacradas, o próprio Corvino teve de sair correndo a pé por sua vida. Ele e muitos poucos dos seus soldados, incluindo o filho do Dragão, Mircea, conseguiram chegar com segurança à Romênia. Foi nesta batalha que morreu o jovem Rei polonês Vladislau III.

O Cavaleiro Branco, que valorizava a sua reputação (e tinha os seus olhos fitando o trono da Hungria), perdeu o respeito após o fiasco em Varna. Para compensar, ele reagrupou suas forças, reconstruindo um pequeno exército e atacou o palácio do Dragão na Valáquia. Ao afirmar o seu poder dessa maneira, isto é, ao assumir a Valáquia como sua propriedade, ele poderia reconstruir um novo exército. João Corvino enxergou isso como um primeiro passo para restabelecer o poder político que havia perdido.

O Dragão foi pego de surpresa. As muralhas do seu castelo foram escaladas após um breve cerco. Fugindo para as montanhas, o desamparado príncipe, sua esposa Cneajna e o filho Mircea não conseguiram escapar de seus conquistadores. Capturados em Bălteni, eles foram rapidamente condenados à morte. Mircea conheceu o pior destino: ele foi cegado e enterrado vivo em Tirgoviste.

Quando a notícia do massacre de sua família chegou ao adolescente de 17 anos, Drácula ficou furioso. O sultão Murad, ao perceber que o menino já havia sofrido o suficiente, libertou-o da prisão e ofereceu-lhe uma posição de comando na cavalaria de seu exército. (Mesmo o nobre prisioneiro sendo um garoto petulante e indisciplinado, o sultão tinha admiração pelo seu bom senso.) Drácula aceitou o cargo.

A primeira evidência da astúcia de Drácula – uma astúcia que lhe serviria ao longo de sua vida – torna-se evidente neste momento. Usando um inimigo contra o outro, ele foi capaz de escapar da Turquia, sentar no trono da Valáquia, e vingar a morte de seus pais e irmão.

Ele fez uma proposta ao sultão. Se Murad lhe fornecesse força apropriada para expulsar Corvino da Valáquia e colocá-lo no trono que lhe era de direito, Drácula manteria o principado aberto ao comércio turco, suas rodovias desbloqueadas, e restauraria o tributo anual de 10 mil ducados. Parecia um bom acordo e o sultão concordou.

Uma grande força de cavaleiros tribais seguiu com Drácula para o oeste em 1448. Eles surpreenderam a vanguarda do exército de Corvino em Kosovo Polje, Sérvia, e em uma batalha noturna, destruíram totalmente o inimigo. Indo para o norte em busca de Corvino, a cavalaria de Drácula galopou com gritos de guerra e entrou triunfante em Tirgoviste. Mas, para a grande decepção do Filho do Dragão, o Cavaleiro Branco havia fugido.

De qualquer forma, um Dragão havia voltado para casa. Ele sentou-se no trono da Valáquia e procurou por qualquer boiardo que havia se aliado com o ambicioso Cavaleiro Branco contra seu pai — havia vários — e fez deles o exemplo perfeito.

Existem histórias de que um fiel servo do Dragão havia recuperado a espada do seu mestre no campo pantanoso onde ele havia sido morto. Ele levou a espada até o seu filho e herdeiro. Era uma elegante lâmina Toledo, talhada com o Sinal do Dragão. Drácula carregaria a espada de seu pai pelo resto de sua vida. Mas, por enquanto, ao recebê-la, ele apenas abençoou-a com o sangue dos assassinos de sua família.

O primeiro dos três reinados separados de Drácula havia começado. E não durou muito tempo.

Voivoda


.

Vlad III declarou-se Voivoda (na Romênia da Idade Média, voivoda era o título máximo usado pelos soberanos), mas seu primeiro reinado como Príncipe da Valáquia durou apenas o tempo suficiente para os alfaiates reais costurarem as suas vestes. No prazo de apenas dois meses, as forças vencidas de João Corvino se reorganizaram, desta vez sob o comando de um dos vassalos do Cavaleiro Branco, Vandislas. Quando o enorme exército apareceu no horizonte, Drácula – com seu exército em menor número – vagou o trono e buscou refúgio com a família do príncipe da Moldávia, Bogdan, um parente de sua mãe martirizada. Mas, ele prometeu a si mesmo que esta não seria a última vez que a Valáquia ouviria o seu nome.

“Drácula permaneceu em exílio na Moldávia por três anos, até o Príncipe Bogdan ser assassinado em 1451”, explica Ray Porter em seu artigo, “The Historical Dracula” (“O Drácula histórico”), escrito para um programa especial patrocinado pela Universidade de Georgetown.

“Isso forçou Drácula a ir para a Transilvânia onde buscou a proteção da família de seu inimigo, Corvino. O momento era propício, o fantoche de Corvino no trono da Valáquia, Vandislas, havia instituído uma política pró-Turca e Corvino precisava de um homem mais confiável na Valáquia. Consequentemente, Corvino aceitou a aliança com o filho de seu velho inimigo.”.

É estranho pensar em aliar-se com o homem cujas forças mataram seu pai, mãe e irmão, mas tal aliança foi algo pensado por Drácula para garantir a sua própria sobrevivência. Fora isso, comportar-se como um político (que sabemos muito bem, até os dias de hoje só pensam e trabalham para benefício próprio) trazia imensas vantagens. Era melhor engolir o rancor e ascender à luz do que estar isolado e no fundo do poço. Do outro lado, Corvino viu que havia ganhado um aliado e tanto. Os anos que Drácula passou com os turcos otomanos em Adrianópolis lhe deram conhecimento útil de como eles pensavam – e, mais importante, lutavam. No planejamento de expedições militares, o conhecimento de Drácula seria inestimável.

A Verdadeira Historia de Dracuula - Joao Corvino

Pintura de João Corvino.

Mas não nos enganemos, ambos os homens eram maquiavélicos, e ambos estavam cientes do estilo um do outro. No entanto, como diplomatas e oportunistas, eles deixaram isso de lado. Eles foram brilhantes em seus próprios propósitos.

Se alguém estudar seus retratos, poderá detectar inteligência em ambas as faces. A partir dos muros da Academia da República Socialista da Romênia, o retrato do Cavaleiro Branco olha para baixo com uma cara feia, encharcada, dura, um semblante ambicioso; ele parece querer saltar para fora da tela e mandar todos para o inferno.

O rosto de Drácula, capturado por um pintor anônimo e que agora repousa em uma galeria em Innsbruck, Áustria, cheira a um homem de opiniões inflexíveis e de um senso quase que paranoico de observação. Os olhos escuros olham para fora em um profundo e pensativo devaneio; sua mente parece pensar em algo que ele precisa fazer assim que o pintor acabar o serviço.

A Verdadeira Historia de Dracula - Retrato

O retrato de Vlad III Drácula. Datado de 1560, a pintura é supostamente uma cópia de uma pintura feita enquanto o príncipe ainda era vivo. O quadro atualmente está exposto no Castelo Ambras, em Innsbruck, Áustria. Créditos: Wikipedia.org.

Estes dois personagens suspeitos e desconfiados se encontraram no alto de uma montanha onde ficava o castelo de Corvino, em Hunedoara, Transilvânia, para formar uma parceria e um pacto. Drácula foi colocado no comando de uma fortaleza em Sibiu, região no extremo sudoeste da Transilvânia, guardando e protegendo a fronteira contra uma possível intervenção das forças valaquianas de Vandislas. Sua missão imediata era manter os dois duchies (condados) da Transilvânia, Faragas e Almas, longe das mãos do inimigo.

Mas logo, Drácula e Corvino perceberiam que havia um inimigo muito maior e muito mais assustador: o sultão Maomé II, filho e herdeiro de Murad, que ascendera ao trono após seu pai cair doente e falecer em 1450-51. Maomé II logo colocou seu nome na história ao conquistar Constantinopla, a capital do Império Bizantino, um dos mais significativos momentos da humanidade dos últimos mil anos.

Em Sibiu, Drácula ouviu falar da queda de Constantinopla, um duro golpe para os cristãos do leste europeu e que marcou o fim do Sacro Império Romano. Constantinopla foi a cidade que durante séculos as Cruzadas tentaram manter fora dos pagãos. Sua perda fez o Papa Nicolau V declarar:

“A luz do cristianismo, de repente, apagou.”.

A Europa ficou horrorizada e indignada com as histórias do massacre em Constantinopla, milhares de cristãos sendo empalados atrás das muralhas da cidade, enquanto os turcos riam, celebravam e saqueavam; as igrejas sendo queimadas; as cruzes sendo arrastadas para fora e sendo usadas como lenha para acender piras funerárias. Era o fim do império bizantino. Em uma só voz, Romênia, Hungria, França, Alemanha, Itália, Polônia, Portugal e Inglaterra choraram em uníssono a morte trazida pelo sultão Maomé. O medo era geral, o que poderia vir a seguir? A Europa tinha que se mexer. Se Constantinopla caiu, tudo agora era possível. Liderando a defesa do continente, a potência da época, Hungria, mais uma vez solicitou os serviços do Cavaleiro Branco João Corvino.

Nos primeiros meses de 1456, ficou evidente que os turcos caminhavam em direção a Belgrado, Sérvia. Tomar a cidade era estratégico pra subjugar a maior potência europeia, o Reino da Hungria. Belgrado era comandada pelo cunhado do Cavaleiro Branco e, Corvino, aconselhado por Drácula, propôs uma ofensiva dupla:

  1. apressar reforços para Belgrado enquanto;
  2. atacava Vandislas na Valáquia para evitar que ele abrisse a porta dos fundos para as forças do sultão.

Os cruzados de Corvino galoparam para Belgrado enquanto a cavalaria de Drácula foi para Tirgoviste. Ambos os homens foram bem sucedidos na concretização dos seus objetivos.

Belgrado foi poupada, mas Corvino, o seu salvador, morreria de febre menos de um ano depois. Na Valáquia, Vandislas conheceu o amargo e salpicado gosto de vingança que Drácula nutria. O Filho do Dragão o perseguiu até o Vale dos Cárpatos. Pode-se dizer que a luta corpo-a-corpo é o mais digno dos combates. Velhas e inquestionáveis histórias dizem que Drácula insistia em matar Vandislas pessoalmente após saber que foi ele quem ordenou a morte de sua família. Se as lendas estão corretas, os dois homens se enfrentaram em campo, cada um com uma espada na mão. Drácula, depois de um momento tenso, arrancou dos ombros a cabeça de seu inimigo com um rápido e limpo golpe. As tropas de Vandislas, ao ver o que acontecera ao seu líder, largaram as armas e fugiram.

Drácula, 25 anos de idade, sem mais delongas, mais uma vez subiu ao trono da Valáquia. E desta vez, ele não iria ser perseguido. Ele ordenou que os artesãos desenhassem o Brasão Drácula – um símbolo contendo um dragão alado (o símbolo da coragem) abraçando uma cruz (um símbolo do catolicismo) – no selo da Valáquia, bandeiras, moedas, edifícios públicos, armaduras, e em uma gloriosa placa pendurada acima do seu trono. Se ele era conhecido por outros nomes – Vlad, o Guerreiro; Príncipe Vlad; Vlad, o Conquistador – agora a visão constante do brasão de sua família lembrava a todos que ele era o filho de um alto membro da Ordem do Dragão. Ele era um Drácula. À medida que seu reinado entrava em vigor, e, à medida que ele provava ser mais do que outro nobre passageiro que surgia do caos para apenas ser deposto no outro dia, ele fez com que todos gravassem uma coisa: ele era o Filho do Dragão, portanto, todos deveriam chamá-lo de Drácula.

A Verdadeira História de Drácula - Mo

Duas moedas (ducados) fabricadas durante o reinado de Vlad Drácula. Até hoje são as duas únicas moedas atribuídas a Drácula. Créditos: Romanian Coins.

A Valáquia que Drácula governou, era formalmente conhecida na época como estado de Tara Romenescu, (Terra da Romênia). Em termos de tamanho, cobria 77 mil e 242 quilômetros quadrados (Florescu e McNally compararam com o tamanho do Estado de Nova York) e continha mais de três mil vilas aninhadas, principalmente nas fechadas encostas de pinheiros ​​na parte inferior da cadeia de montanhas dos Cárpatos. Sua população, em sua maioria, era de camponeses que trabalhavam para proprietários de terras húngaros, e se aproximavam a meio milhão de pessoas. Tirgoviste, onde ficava o palácio de Drácula, era a capital. Outras cidades importantes ao longo da rota comercial Tirgoviste-Danúbio eram Tirgsor, Braila e Bucareste (atual capital da Romênia).

Desde antes do tempo do avô de Drácula, a província era governada por um príncipe, ou domnul. O domnul trabalhava diretamente com a elite da sociedade, os proprietários de terras, chamados de boiardos, a fim de manter o comércio fluindo bem como a terra segura contra invasores e infiéis. Da mesma forma, o domnul mantinha um bom relacionamento com os membros da Igreja Católica Romana, que dominava a Romênia. Desta última parceria, o respeito mútuo era esperado, Deus e César ficavam felizes, por assim dizer.

No entanto, Drácula tinha um novo – o que ele chamou de necessário – plano para o seu principado, onde o César seria apenas um pouco mais feliz e muito mais poderoso. Ele acabou com o sistema feudal do domnul que, insistia, não era mais do que um fantoche da classe dominante, os boiardos, que juntamente de outros barões ricos e líderes eclesiásticos de costas quentes, é quem realmente ditava o ritmo das coisas. Após sua coroação como príncipe, ele anunciou que as pessoas deveriam olhar para ele como um voivoda, um príncipe guerreiro, a partir de agora governando o seu domínio como se estivessem sob lei marcial, onde deveria haver apenas um soberano, um tomador de decisões. Os turcos impunham uma ameaça constante sobre a terra, assim ele considerou a Valáquia um estado de guerra, e um estado de guerra exigia um governante mais duro.

Até aquele momento, os boiardos tinham suas próprias leis de terra e comércio; seu corpo legislativo definia os preços; controlavam a entrada e saída de mercadorias e negociavam títulos em troca de favores. Eles até mesmo tinham a liberdade de interferir na justiça do príncipe. Isso iria acabar. E aqueles que retaliassem, Drácula explicou, seriam tratados – seriamente – pelo próprio voivoda.

Ao expor seus planos, Drácula trouxe para o seu lado uma forte comitiva de aliados, muitos dos quais eram, há décadas, importantes nomes na região, e que haviam servido fielmente a seu pai Dracul. Nem ele, e nem seus aliados, havia esquecido que, durante o reinado do velho Dragão, muitos dos boiardos valaquianos tinham causado problemas. Muitos tentaram enfraquecer o Dragão com o poder que tinham. Drácula já havia matado os responsáveis ​​pela morte do seu pai, mas parece que não fora o suficiente.

Depois que suas políticas de transição foram anunciadas, muitos boiardos retaliaram e escreveram cartas convocando reuniões de protesto. Drácula percebeu que sua mensagem não estava sendo clara e chamou todos os insatisfeitos – cerca de duzentos homens – para deixá-los arejar suas queixas (ou assim ele disse) durante um suntuoso jantar no palácio. Depois que eles se expressaram, Drácula, na cabeceira da mesa, empurrou para trás sua taça de vinho e falou:

“Vocês falam de sua lealdade a Valáquia, à Romênia, e alguns até mesmo para mim. Mas, ainda assim, vocês tiveram muitos príncipes em sua terra, incluindo o meu pai. Como vocês podem explicar isso?”

[Drácula]

Os homens se entreolharam, esperando por um entre eles para servir de porta-voz. Quando a resposta demorou a chegar, o voivoda ficou de pé:

“Ouse algum de vocês admitirem a verdade! Eu vou dizer o porquê de príncipes irem e virem aqui: Por causa de suas vergonhosas intrigas!”.

[Drácula]

Com isso, ele apontou para um cortesão que aguardava na porta da sala; ele, por sua vez, sinalizou para um sem número de guardas que esperavam no vestíbulo.

“Vocês serão escoltados para fora!”, Drácula disse a seus convidados. “Saiam da minha frente!”. Brindando-os aos risos, Vlad viu seus convidados saírem ladeados por guardas armados. Quando eles chegaram ao pátio, Drácula, em pé sob uma varanda acima, deu um aceno e os boiardos conheceram o seu destino. Ainda se debatendo, os seus corpos foram empalados fora dos muros do palácio, com vista para a cidade abaixo.

A Verdadeira Historia de Dracula - Vlad Tepes

Pintura de Vlad Drácula encontrada num dos castelos da nobre família húngara Esterházy. O quadro é datado do século 17 e seu autor é desconhecido. Créditos: MNO Hungary.

Um manuscrito romeno do século 15 registra mais um episódio da vingança de Drácula. Em uma manhã de domingo de Páscoa, não muito tempo após o incidente do banquete, uma brigada de soldados pisou na catedral da cidade durante a missa e retirou a força dos bancos trezentos boiardos e suas famílias. Homens, mulheres e crianças foram acorrentados e levados ao castelo particular de Drácula onde “eles foram obrigados a trabalhar até que suas roupas estivessem rasgadas e eles ficassem nus.”.

O historiador grego Laonikos Chalcondyles (1423-1490) explica mais detalhadamente como os prisioneiros eram forçados a trabalhar: eles trabalhavam na reforma do castelo, reforçando as suas muralhas com uma mistura de argamassa, levantando pedras pesadas, carregando madeiras através de precipícios, cavando fossos — tudo isso até muitos deles sucumbiram à pressão, fadiga e febre. Chalcondyles estimava que os prisioneiros fossem bem mais do que os trezentos relatados no texto romeno. A linha de pessoas algemadas, diz ele, se estendia quilômetros através das aldeias até a porta do castelo.

O castelo de Drácula não deve ser confundido com o palácio real em Tirgoviste. Seu castelo particular, 48 quilômetros ao norte, foi construído sob um longo cercamento, para o caso da Valáquia sucumbir a um ataque turco. Foi originalmente construído por Mircea, avô de Drácula, no século XIV, mas foi Drácula que o fortificou, com uma “ajuda” especial dos prisioneiros boiardos. O castelo consistia de altas e grossas paredes de pedra natural, uma parede defensiva exterior (na arquitetura conhecida como barbacã), quartéis, altos parapeitos, ameias retangulares, baterias de canhões, torres de vigia, uma prisão, uma masmorra, um túnel de fuga que dava para o Rio Arges, um fosso, uma ponte levadiça e uma grande casa reservada para o príncipe. Apesar de não existir descrições mais recentes, provavelmente era parecido com o castelo da Transilvânia ficcional que Bram Stoker descreveu em Dracula — de portas cravejadas, grandes lareiras, pisos de madeira, escadas sinuosas, colunas arqueadas e cornijas, e tetos que desapareceram na escuridão da altura. Tapeçarias, murais ou mosaicos, e frisos provavelmente decoravam as firmes paredes.

“Em toda a Europa na Alta Idade Média, o castelo desempenhava um papel crucial: militar, político, social, econômico, cultural”, citou Joseph e Frances Gies em Life in a Medieval Castle (Vida em um Castelo Medieval). Este lar do reinado de Drácula frequentemente era palco de grandes festas e também servia para celebrações cujo tamanho o palácio real não poderia suportar. Drácula mantinha suas amantes lá. Além disso, ele ficava feliz em saber que tinha um santuário, uma casa protegida, principalmente naquela época de insurreição e guerra.

No momento em que Drácula chegou ao poder, grande parte da velha estrutura secular política e social havia caído em desuso e estava em plena decadência. As várias guerras e batalhas deixaram os estados quebrados. Isso significava que era preciso milhares de mãos para recuperá-lo. Essas mãos, essa mão de obra, pertenciam aos boiardos, cujo trabalho escravo, Drácula alegava, ensinava-lhes, pelo menos, a humildade.

Príncipes naqueles dias, muitas vezes, manipulavam as organizações ministeriais, e Drácula não perdeu tempo, por exemplo, substituindo abades estrangeiros por sacerdotes valaquianos. Para equilibrar sua interferência, ele pagou do próprio bolso para que belos mosteiros fossem construídos por todo seu domínio. O mais bonito deles foi o mosteiro de Snagov, cujo interior seria o destino final do voivoda.

A Verdadeira Historia de Dracula - O Monastério de Snagov

O Mosteiro de Snagov, na Valáquia. Construído com recursos do próprio Drácula, o mosteiro seria o destino final do Voivoda. Créditos: CC BY 2.0.

Vlad, o Empalador


.

O autor Bram Stoker, enquanto trabalhava seu conto de terror insidioso sobre a Transilvânia, planejou chamar seu vilão (e o romance) de Wampyr. Não é preciso muito tempo para sacar que wampyr é uma palavra germânica para vampiro. Mas, como mencionado anteriormente, Stoker, em sua pesquisa, tropeçou em lendas do Príncipe Drácula, e o nome que não foi, e não era, falado na maior parte do mundo por séculos era agora ressuscitado para a consciência humana – e de uma forma fenomenal.

Se existe alguma coisa verdadeira sobre a vida de Drácula que agitou o sangue de Stoker, e o assustou ao mesmo tempo, essa foi, sem dúvidas, as histórias que ele leu das crueldades do príncipe para com seus conterrâneos romenos. Mesmo que o escritor gótico não tenha procurado por um protótipo particular, como ele poderia resistir de moldar seu nosferatu após ler os livros de história que assustadoramente chamavam este homem de o Empalador? Stoker não poderia usar algo leve para servir como modelo do mal e, Drácula, de forma alguma, era leve. Certamente sua história deve ter ampliado os já ilimitados sentidos de Stoker.

Ele mudou o nome do seu personagem e seu romance para… Dracula.

“O reinado de terror” do príncipe Drácula – assim apelidaram os textos contemporâneos – durou de 1456 a 1462. Ninguém estava a salvo dos mortais decretos do Voivoda. Pelos padrões de hoje, ele seria chamado de um assassino em massa. A maioria dos seus assassinatos tinha como alvos os políticos – inimigos internos e externos – mas às vezes ele matava apenas porque estava entediado. Ele enforcava suas vítimas, esticava-as em cremalheiras, queimava-as na fogueira, as cozinhava vivas, mas, principalmente, as empalava.

Números estimados de vítimas variam entre 30 mil e mais de 100 mil. Estes números são, em grande parte, baseados em traduções de manuscritos romanos, húngaros, alemães e russos, escritos dentro de um século após a morte de Drácula. Registros de seu país, a Romênia, que prefere esquecer suas atrocidades e elevar suas vitórias militares, possuem os valores mais baixos. Por outro lado, por Drácula odiar comerciantes saxões alemães, que ele considerava intrusos em assuntos comerciais no seu país e, consequentemente, provinha carne fresca para a vara de empalação, somas alemãs são as mais altas. É aquela máxima: toda história tem dois lados e neste contexto de época em que viveu Drácula, talvez até mais.

No entanto, o total de 100 mil é provavelmente o mais preciso. A maioria das transcrições concorda que, de uma só vez, Drácula era capaz de empalar uma vila inteira ou erradicar toda uma brigada de muçulmanos turcos.

O empalamento não foi uma criação de Drácula, se você se lembra, ele aprendeu sobre o assunto quando adolescente em Adrianópolis. Na verdade, esse método cruel era usado por muitos povos. Os franceses a empregaram antes da guilhotina. Espanhóis e húngaros também o usaram. Mas, de acordo com o relato de Ray Porter, “The Historical Dracula”, o empalamento tornou-se uma forma de arte nas mãos do Voivoda. “Drácula geralmente tinha um cavalo ligado a cada uma das pernas da vítima e uma estaca afiada era gradualmente forçada a entrar no corpo”, explica ele. “O final da estaca era normalmente oleada e todo cuidado era tomado para que a estaca não ficasse muito afiada. Senão a vítima poderia morrer rapidamente de choque.”. Em outras palavras, a estaca de madeira não deveria estar muito afiada. Ela era embebida em óleo, para não matar a vítima de cara, e introduzida pelo ânus ou pela vagina até sair pela boca da vítima. Mas Drácula gostava de variar: podia espetar a pessoa diretamente no abdome ou pregar bebês ao peito das próprias mães, por exemplo.

A Verdadeira História de Drácula - Bran Castle

Dois bonecos representando vítimas empaladas de Vlad Drácula recepcionam os turistas que visitam o Castelo Bran, na estrada que liga Brasov a Câmpulung. Acredita-se que o castelo tenha sido construído por Mircea o Velho, avô de Drácula. Créditos: Tourist in Romania.

Estudar a cronologia dos crimes de Drácula torna fácil entender porque seu reinado, embora terrível, conseguiu passar em branco por seu próprio povo e outros governos por seis longos anos. Por um lado, isso se deveu porque ele matou muitos turcos numa época em que a Europa os temia e os queriam longe, mas também, Drácula foi capaz de sustentar uma imagem de cruzado; governantes estrangeiros que ouviam os vastos relatos de empalamentos aplaudiam seus crimes. Ele estava salvando a Romênia. Lembre-se que a Valáquia era a porta de entrada dos turcos para o país. Mas os valaquianos, que realmente o conheciam melhor e sabiam que eles também, a qualquer momento, poderiam ser objetos de sua ira, viviam com medo e em silêncio, intimidados pelo sádico príncipe.

Exemplos das barbáries de Drácula não faltam.

  • Dia de São Bartolomeu

Durante o festival de São Bartolomeu, em Sibiu, Drácula, em apenas uma tarde, prendeu e empalou 20 mil cidadãos. Alegando que eles eram ou burgueses traiçoeiros, ou apoiantes dos mesmos, ele empalou homens, mulheres e crianças nos arredores de uma floresta vizinha. Como era de seu costume, ele tinha servos que montavam uma solitária mesa, farta da mais boa comida e vinho. Assim ele podia desfrutar de seu almoço enquanto assistia às torturas de perto. Ele até mesmo tinha um servo que mergulhava o seu pão no sangue das almas que morriam para que ele pudesse saborear o gosto da vida. (Agora vocês sabem de onde surgiu o vampiro de Stoker, certo?).

A Verdadeira História de Drácula - Jantar

Desenho alemão datado do ano de 1499 mostra Drácula jantando em meio aos corpos empalados de suas vítimas. Créditos: Wikipedia.org.

E foi neste show de horrores, sentado sozinho em uma mesa bebericando um vinho e enchendo a barriga com pães sangrentos, que Vlad avistou um de seus cavaleiros segurando o nariz, num claro desconforto com o repugnante cheiro da morte que impregnava o ar. Quando ele perguntou ao soldado se ele estava tirando sarro da situação, o rapaz balbuciou: “Não, meu senhor, meu estômago embrulha, mas… Eu não sou do coração forte como o meu príncipe é.”.

“Mas, por que eu iria querer no meu serviço um homem que não pode olhar para a morte sem regurgitar? Morte é um meio de vida para um soldado!”, retrucou Drácula. Dito isso, o Voivoda chamou seus seguranças particulares para empalar o soldado de espírito fraco. “Deixe-o se juntar a esses outros, mas por ele ter sido leal até hoje, icem-no maior do que o resto para que ele não tenha que cheirar sua companhia!”

  • Uma noite com os Pobres

Um exemplo perfeito da dicotomia de Drácula é tecida em uma antiga lenda alemã de Nuremberg. Ela nos fala de sua simpatia pelos oprimidos da sua terra – os pobres, os inválidos, os aleijados, os enfermos. Mas, essa “simpatia” teve um resultado mórbido. Uma noite, ele convidou centenas de mendigos para sua sala de jantar em seu castelo, tratando-os com algo que não tinham em anos: uma abastada refeição. Após as sobremesas serem servidas, Drácula e seu pessoal lentamente serpentearam para fora, deixando para trás os convidados esfarrapados no salão de pedra. Sozinhos no salão, os mendigos não sabiam que do lado de fora hábeis arqueiros preparavam flechas de fogo, que logo adentraram nas altas janelas, incendiando tapeçarias, cortinas, tapetes e o jogo de mesa de jantar. O incêndio se irrompeu em um verdadeiro inferno. Enquanto as pobres almas batiam impotentes na porta trancada, Drácula, em uma sala perto, dizia, “Pobres criaturas mal amadas, é melhor que deixem este mundo agora, com o estômago cheio.”.

  • É a honestidade a melhor política?

Em um episódio que nos faz lembrar a expressão de Pilatos, “O que é a verdade?”, enquanto, simultaneamente, ele ordenava a crucificação de Cristo, Drácula perguntou a dois monges que visitavam o seu castelo o que eles achavam sobre a sua dura disciplina. Aquele que respondeu honestamente foi morto.

Após levá-los em um passeio matinal, através de fileiras e fileiras de cidadãos recentemente empalados, ele exigiu que, como homens santos, eles avaliassem sua justiça sangrenta. Um monge, morrendo de medo, respondeu: “Você é o príncipe de toda Valáquia! Quem sou eu para questionar suas decisões?” O outro, incapaz de controlar seus sentimentos, desabafou em condenação: “O que esses infelizes fizeram para merecer tal destino? Não há desculpa para o homem mortal brincar de Deus!”

Responda rápido: Quem foi o monge que voltou vivo para o seu mosteiro naquela manhã?

Outro registro da justiça Draculeana, com um toque diferente, é a história do comerciante viajante cujas economias foram roubadas durante sua passagem por Tirgoviste. Drácula ouviu falar da perda do homem e chamou-o para o seu palácio. “A minha cidade, mais do que qualquer outra na Europa, é livre de crimes e, incidentes, tais como o roubo, não são tolerados”, disse Drácula. “O agressor será preso.”.

Como prova da sinceridade da capital da Valáquia, o seu príncipe ordenou que o comerciante deixasse sua carroça com o pouco de dinheiro que ainda lhe restava do lado de fora do seu pouso à noite, exposta e destrancada. “Nenhum florin irá mais sumir”, prometeu. “Na verdade, quando você acordar pela manhã, o dinheiro roubado terá sido restaurado para o seu tesouro.”.

Como prometido, quando o viajante checou ao nascer do sol, todos os florins foram devolvidos. E ainda havia uma moeda extra. Correndo até a corte, o eufórico homem expressou todos os seus agradecimentos a Drácula, “Não apenas meu dinheiro foi restabelecido, como seus guardas adicionaram um florin extra, o qual agora devolvo a você.”.

Drácula sorriu, disse ao homem para ficar com o florin, e acrescentou: “Você é um ser honesto. Se não tivesse confessado o florin excedente, você se juntaria agora ao ladrão cujo corpo está balançado numa estaca no meu pátio.”.

Como nota, Drácula não estava errado ao supor que sua capital, Tirgoviste, realmente era uma cidade honesta. Seu reinado de terror tinha vigaristas tão amedrontados que era praticamente a metrópole mais segura do continente. Um site chamado Castle of Spirits explica, (Drácula) tinha tanta confiança que nenhum ladrão se atreveria a desafiá-lo (que) ele colocou uma taça de ouro em exposição na praça central… A taça nunca foi roubada e permaneceu intocada onde estava, ao longo do (seu) reinado.”.

  • A Esposa “Preguiçosa”

Drácula via as mulheres como, se podemos usar apenas uma palavra, inferiores. Elas levavam o prazer para o quarto e eram boas para o trabalho servil diário, um trabalho cujas mãos masculinas não deveriam manusear. Uma vez, quando viajava com sua comitiva pela Valáquia, Drácula avistou um camponês usando um caftan (avental) mais curto que o tradicional usado durante a colheita. Quando ele perguntou por que sua roupa parecia incompleta, o homem disse ao príncipe que sua esposa não pôde terminar de fazê-lo por estar com a saúde debilitada.

“Desculpas!” latiu Drácula. “No meu reino nós não temos mulheres desleixadas; o dever dela para com você vem antes de sua saúde!” Apesar dos protestos do marido, os homens de Drácula puxaram a esposa doente de seu leito e a empalaram no campo fora de sua casa. Então, andando até uma fazenda vizinha, Drácula selecionou uma garota solteira e formosa a quem ele ordenou a se casar com o súbito viúvo. “Você é jovem e vigorosa e será capaz de fazer esse pobre agricultor feliz”, ele expressou. “Você vai se casar esta tarde, e eu voltarei dentro de um mês para ver se seu marido está devidamente vestido e alimentado.”.

Se ele voltou, como prometido, não se sabe. Mas, as chances de que a nova esposa tenha se tornado um modelo de domesticidade são bastante altas.

  • Nunca minta para Vlad Drácula

Entre a ninhada das amantes de Drácula havia uma fervorosa esperança de que ele terminaria por escolher uma delas como sua princesa. Elas o bajulavam competitivamente. E uma delas, uma jovem donzela zelosa, não encontrando outro meio para prender seu príncipe, tentou do velho golpe da barriga. Mas detalhe: ela não estava realmente grávida.

O voivoda, cujos complexos de psicoses não podem ser totalmente explicados, encontrou-se em total desespero. Sua reputação estaria arruinada entre os devotos do seu reino se ele gerasse um filho ilegítimo. Ele imediatamente começou a planejar o casamento que deveria ser realizado imediatamente. Neste caso, a mulher parecia conhecer Drácula melhor do que ele mesmo. Bem, acho que não.

Enquanto os preparativos estavam sendo realizados, o noivo chamou médicos da corte para examinar sua dama. Quando eles disseram que ela não estava gerando um filho, Drácula voou na moça em um acesso de raiva. Ela admitiu sua mentira, mas disse-lhe que era a única maneira que encontrara para ficar com ele. “Eu te amo e quero engravidar na nossa noite de núpcias para dar-lhe um filho maravilhoso. Perdoe-me!” ela implorou.

“Um homem que mente é uma coisa, mas a mulher que engana é um diabo. Bem, você não deve usar suas artimanhas para prender outro homem!”

[Drácula]

Enquanto os guardas a seguravam, Drácula a despiu. Com um punhal, ele massacrou seu corpo, abrindo-o em forma de T, com um corte que ia da sua vagina até seu tórax, e de lá aos seus seios. Tudo isso com ela consciente. Ele, então, ordenou que sua arruinada forma fosse exibida para todos verem “o mal que uma mulher pode forjar.”.

Uma narrativa russa que sobreviveu à passagem do tempo fala sobre a visão geral de Drácula sobre a feminilidade: elas foram feitas para pecar, mas uma vez que elas pequem, não merecem dignidade. “Se alguma esposa tivesse um caso fora do casamento, Drácula cortaria fora seus órgãos sexuais”, diz o manuscrito. “Ela, então, era esfolada viva e exposta em praça pública, sua pele era pendurada em uma estaca… A mesma punição era aplicada às donzelas que não conservassem suas virgindades, e também às viúvas impuras.”.

Muitos podem se perguntar por que uma mulher em seu perfeito juízo iria querer se casar com Drácula. De fato, ele se casou com alguém. Talvez tenha sido um casamento arranjado ou, como alguns estudiosos sugerem, ele simplesmente a viu, a quis e a pegou. Quem ela era não se sabe; há teorias – um membro da realeza da Moldávia, uma princesa húngara, a filha de um nobre valaquiano, uma nobre da Transilvânia. O casamento seria trágico e breve, como veremos mais adiante, e pareceu não produzir qualquer sentimento de ninho aconchegante no príncipe. Ele raramente a permitia em sua companhia, e restringia suas libertinagens no seu castelo particular.

  • O Panfleto Alemão de 1521

Um exemplo de como Vlad, o Empalador se tornou um emblemático ícone de todos os horrores inimagináveis foi descrito em um panfleto alemão de 1521. Historiadores acreditam que o primeiro manuscrito alemão sobre Drácula foi escrito em 1462. No ano seguinte veio o poema “Von ainem wutrich der hies Trakle waida von der Walachei” (“A História do Louco da Valáquia Chamado Drácula”), de Michael Beheim, apresentado à corte de Frederico III, Imperador do Sacro Império Romano, no inverno de 1463. Quatro manuscritos e 13 panfletos sobreviveram à passagem do tempo. Pesquisadores e estudiosos acreditam ser bem possível que tais panfletos tenham exagerado no horror, algo típico das histórias boca a boca (sabemos que a história muda de uma boca para outra), além do que muitos dos autores de tais panfletos são desconhecidos. Não seria de se admirar que um inimigo de Drácula produzisse um panfleto mentiroso sobre ele para difamá-lo, não é mesmo? De qualquer forma, este panfleto alemão de 1521 dizia o seguinte:

“Ele assava crianças, as quais eram dadas para suas mães comerem. Ele cortava os seios das mulheres e forçava os seus maridos a comerem. Depois disso, todos eles eram empalados.”

A Verdadeira História de Drácula - Panfleto

A capa do panfleto Von ainem wutrich der hies Trakle waida von der Walachei escrito em 1521. Faça o download digitalizado do panfleto clicando no link (em azul) acima. Créditos: Google.

Histórias como as citadas acima são apenas algumas e quantas outras não sobreviveram para serem contadas? Com o passar do tempo Drácula trabalhou arduamente para expandir sua influência e começou a praticar suas atrocidades do outro lado da fronteira, na Transilvânia. Sua justificativa foi a de que ele precisava fazer isso para desencorajar seus rivais políticos que, segundo ele, planejavam sua morte.

A pior barbárie que ele cometeu na Transilvânia foi a tomada da cidade de Brasov nas Montanhas dos Cárpatos. Ele incendiou a cidade e sitiou os habitantes na crista da Colina Hill. Aqueles que não foram empalados tiveram seus corpos picados em pedaços como bifes de carne, um pedaço de cada vez. Enquanto a cidade queimava abaixo e àquela agonia infernal cheirando a sangue fresco era pintada diante dele, Drácula jantava sentado numa extravagante mesa, digna de um príncipe.

Reza a lenda que, ao fundo, ao longe, os lobos uivavam para a lua. Era a sinfonia de terror que os animais não puderam deixar de sentir aquela noite e que serviu de trilha sonora para aquela carnificina. O cheiro estava no ar.

“As crianças da noite,” o conde Drácula assim chamava os lobos no romance de Stoker. “Oh, que música eles fazem!” Coincidência?

A Verdadeira História de Drácula - Jantar na Transilvânia

Representação moderna do jantar de Drácula na Transilvânia. Reprodução Internet.

A Verdadeira História de Drácula - Drácula jantando

Pintura de autor desconhecido mostra o peculiar jantar de Vlad Drácula.

Assombrando os turcos


.

Drácula não era louco; isto é o que os estudiosos nos dizem. Ele sabia a diferença entre o certo e o errado. Um líder político brilhante para seu tempo e um comandante militar desonesto, ele praticou o céu e o inferno, qualquer que seja o modo de ajuste para conquistar uma terra e mantê-la.

Ele conhecia a psicologia envolvida nas relações humanas e entendia como ninguém a personalidade de uma pessoa em apenas uma conversa. Ele sabia como e onde mergulhar para ir até o fundo de suas almas. Ele trabalhou para entender a emoção refletida nos olhos e podia reconhecer mentiras dos outros, simplesmente comparando-as com as suas próprias. Se nem sempre estava certo, ele adivinhou corretamente em sua maior parte.

No entanto, ele tinha uma psicose excêntrica. Olhando em retrospecto para a sua personalidade, um psiquiatra ou psicólogo poderia concluir hoje que os trágicos crimes de Drácula foram produtos inerentes vindos de uma infância errática. O que ele viu em torno dele e o que aconteceu com ele em seus anos de formação parecem ter muito a ver com a formação deste homem.

Primeiro, existia a dicotomia religiosa de sua época. Ela ensinava a virtude e o amor, mas também que era certo mutilar e torturar em nome de Deus. Bem… não realmente… mas foi dessa forma que os políticos da época moldaram a religiosidade, tudo para defender suas próprias ambições zelosas baseadas no princípio de pisar antes de ser pisado. Para uma criança, no entanto, isso deve ter feito todo o sentido do mundo. Uma criança é moldada em seu ambiente de criação. O filho de um camponês tende a crescer pacífico e trabalhador, já que desde cedo ele é colocado para ajudar o pai nas colheitas e não tem outra preocupação a não ser acordar, arar o campo, colher, e ir até feira na vila mais próxima vender o seu produto. Já o filho de um nobre não.

Apesar da riqueza e educação, ele cresce em meio a intrigas, com seu pai desde cedo o ensinando a não confiar em ninguém, que o homem que hoje está ao seu lado pode, na verdade, estar conspirando contra você. Drácula e seus irmãos, desde pequenos empunhavam espadas, cortando tocos de madeira que em suas mentes representavam homens de verdade. Essas crianças, desde que elas começaram a entender o que é mundo, foram criadas para serem assassinas. E numa época instável como a Europa medieval, onde guerras e atrocidades eram tão comuns como o nascer do sol, não é de se espantar que Drácula tenha crescido com uma alma tão negra quanto a própria escuridão.

Nascido na nobreza, Vlad era protegido das realidades exteriores por um sistema feudal que favorecia o nobre nascido. Na verdade, nascer nobre era quase como ser canonizado. Ele não tinha outro recurso para a aprendizagem do mundo do que pela experiência, e sua experiência veio fortemente das artes do combate, do fanatismo, e da intolerância que deve ter sido predominante na casa do Dragão. Como uma criança brincando nos aposentos de seu pai, ele interpretava o que ouvia durante as reuniões dos adultos como um fato incontestável: os turcos são ruins. Você não pode confiar em ninguém. Esteja alerta — ou morra. A própria violência forjou o sucesso de seu pai (e sua alcunha) e isso reflete fortemente nas visões de Drácula sobre justiça: Força é violência, violência é a força, então a violência é um direito.

Seus pais representavam ambos os polos: a devota e o sagaz. Sua mãe era uma mulher estritamente religiosa que acreditava em cada linha da Bíblia; seu pai, um soldado que, primeiramente, acreditava no estado. E na idade em que Drácula poderia resolver quem tinha a razão, onde a linha divisória estava, ele foi varrido para uma cultura estrangeira onde ideais ocidentais existiam, mas que eram convertidos de uma maneira muito diferente das parábolas familiares europeias.

Imaginem o sentimento de traição e de abandono do menino quando o pai que ele adorava o entregou para os estrangeiros sujos que supostamente seriam seus inimigos? Abandonado em Adrianópolis, tirado da sensibilidade de sua mãe, a orientação de seu pai, ele era dissidente. Incapaz de entender a cultura de seu lar adotivo, Turquia, ele provavelmente criou a sua própria – uma mistura de preconceitos europeus e turcos e, claro, as lições de justiça física ensinadas por ambos.

Quando chegou a hora de voltar para casa, ele escolheu a maneira mais rápida para redoutrinar a si mesmo como um príncipe: continuar de onde o seu pai assassinado havia parado. Ao vingar seu pai, Vlad tornou-o um mártir de si mesmo e todos os sentimentos de abandono se dissiparam.

Vingança tornou-se sua inspiração.

Quanto aos empalamentos, eles sugerem frustrações pseudo-sexuais que alguns estudiosos afirmam? Talvez. Afinal, para um homem a quem a violência era essencial, não seria o sexo outro esporte de contato?

Drácula não era insano, mas ele parecia ser muito, mas muito confuso.

Os desejos de sua libido cresceram atenuadas à medida que seu reino chegava no que seria o seu meio-termo. Por volta de 1458, após uma longa década de relativa paz entre Europa e os turcos, a renovação de escaramuças na fronteira ao longo da linha Sérvia-Romênia começou a se manifestar como nuvens negras que anunciam a iminente tempestade. O Vaticano, de olho e desconfiado, alertou os reis Cristãos convocando-os a se unirem antes que os muçulmanos dessem o ar da graça.

Se o Papa esperava a paz, as ações de Drácula não ajudavam em nada a acalmar as relações. Em 1458, o sultão Maomé II enviou uma dupla de emissários para lembrar aos valaquianos que há três anos eles deviam o pagamento do tributo anual de 10 mil ducados de ouro; Drácula já esperava tal visita, e tinha em sua mente um plano para interromper por completo os pagamentos. Não preciso dizer que seu plano envolvia mais assassinatos no estilo Jigsaw de Jogos Mortais.

Quando eles chegaram diante de seu trono, os emissários turcos cuidadosamente começaram a conversa, e Drácula deixou-os falar. Uma vez percebendo onde eles queriam chegar, ou seja, ao assunto dos pagamentos em atraso, o voivoda cortou-os: 

“Desculpe-me, cavalheiros, mas ouvindo vocês falando de pagamentos devidos, eu não pude deixar de notar que vocês não me pagaram o devido respeito removendo seus chapéus diante da minha corte. Vocês não perceberam que é um costume tradicional fazer isso?”

Os homens se assustaram. Um deles, tocando seu barrete frígio (chapéu característico turco), humildemente respondeu, “Nós não temos a intenção de insultá-lo senhor, mas se não fosse um costume religioso nosso não removê-lo em público, nós teríamos feito isso imediatamente diante de sua presença. Tenho certeza de que tendo morado em nosso país, você entende.”. E sorriu o homem.

“Eu entendo,” respondeu Drácula com sangue nos olhos. “Então o que vocês estão dizendo é que desejam nunca serem vistos em público sem os seus… turbantes?”

“Correto, senhor.”

“Então, que o seu desejo seja concedido,” e gargalhou Drácula, apontando ao mesmo tempo seu dedo para seus sentinelas. “Nossos amigos aqui amam tanto seus chapéus que eu acho que devemos permitir-lhes o privilégio que pedem. Tirem-nos do meu tapete e preguem seus malditos chapéus em seus crânios para que eles nunca saiam de suas cabeças!”

Implorando por misericórdia, os turcos foram arrastados da sala e os valaquianos nunca mais os viram vivos, mas seus gritos ecoavam pelo palácio, saindo do calabouço, onde o carrasco executava sua… carpintaria?

A Verdadeira História de Drácula - Os enviados turcos

Drácula e os enviados turcos. Pintura de Theodor Aman (1831-1891). A data da pintura é desconhecida e atualmente o quadro está em exposição na Galeria Nacional de Bucareste. Créditos: Wikipedia.org.

Quando o sultão Maomé, em Constantinopla, recebeu os corpos de seus dois enviados e seus chapéus pregados a seus crânios com pregos enferrujados, ele se enfureceu. Maomé arquitetou um plano para destruir Drácula de uma vez por todas. Ele notificou o príncipe que desejava conhecê-lo, no rio Danúbio, na cidade de Giurgiu, para negociar a paz. Na verdade, o sultão planejou enviar antes um exército de assassinos para emboscar Drácula e sua escolta nas montanhas.

Drácula, que de bobo não tinha nada, não acreditou na proposição do sultão. No entanto, ele escreveu de volta concordando com tal encontro e planejou uma pequena surpresa a Maomé. Dias antes da data combinada, ele liderou um pequeno exército e, espreitando ao norte de Giurgiu, acima de uma passagem estreita, as tropas de Drácula avistaram uma vanguarda turca de mil homens cavalgando desordenadamente em direção a Tirgoviste. Embora ele estivesse em grande desvantagem numérica, Vlad usou a vantagem da luta na montanha, uma habilidade que ele aprendera anos antes. Estrategicamente posicionados, seus mosqueteiros atacaram a frente da tropa turca, enquanto os atiradores restantes disparavam a partir de posições da retaguarda do inimigo. A estratégia forçou os turcos até um espaço onde não havia recuo. Muitos tentaram se render, mas Drácula fazia deles uma verdadeira peneira. Esta emboscada é um exemplo da astúcia militar do voivoda. Historiadores o creditam como um dos primeiros cruzados europeus a usar de uma forma artisticamente mortal a pólvora.

Dias depois, quando o sultão chegou até o Danúbio, na esperança de encontrar sua tropa segurando a cabeça de Drácula, ele foi tomado pelo terror e desespero: ao longo da margem do rio, por quilômetros, estava sua tropa empalada, pendurados por pregos em estacas, meio comidos por inúmeros corvos que, mesmo com um dos mais poderosos homens do mundo olhando, dirigiam seus bicos na carne putrefada de seus homens. A visão era tão repulsiva que Maomé abandonou o local, cancelando os planos seguintes, e voltou para Constantinopla onde ele passaria meses pensando na situação.

Drácula, em seu pequeno território e com seu pequeno exército botava para correr o homem mais poderoso do mundo. Nem mesmo Maomé, acostumado a batalhas e mortes sangrentas podia enfrentar um inimigo que se dispunha a tal ato.

Mas apesar de seu heroísmo, Drácula sabia que tinha cutucado a onça com vara curta. Ele conhecera Maomé quando adolescente em Adrianópolis, conhecia o seu temperamento e, principalmente, conhecia o temperamento dos turcos otomanos. Ele sabia que Maomé estava, provavelmente, procurando apenas por uma desculpa para iniciar uma guerra em grande escala. Nervosamente, Drácula escreveu ao Papa:

“Se (Romênia) subjugada, por favor, entenda que eles não ficarão satisfeitos com a nossa terra, eles imediatamente irão fazer guerra em vocês… Então agora é a hora: ajudando-nos, vocês estarão ajudando a si mesmos, parando o exército deles longe de suas terras e não lhes permitindo que (nos) destruam, machuquem e oprimam.”.

O príncipe ficou aliviado ao ouvir, em resposta, que uma Cruzada Santa havia sido acordada em Mantua, Itália, e que todas as forças estavam prontas para cavalgar até a Turquia. Drácula prometeu sua lealdade e começou a recrutar um exército composto de leais valaquianos e tropas vindas a ele a partir de outras nações. O tamanho da sua força era estimado em cerca de 30 mil homens, compostos principalmente por soldados a pé.

Mas os esforços de Drácula nunca poderiam fazer frente aos poderosos turcos. Toda sua força era ofuscada quando comparada à gigantesca máquina turca de guerra de 250 mil homens que cruzaram o Danúbio, em maio de 1462. Entre eles estavam à elite do exército, os Janízaros; o esquadrão suicida dos Saiales; os lanceiros Azabs; os arqueiros Acings; os Beshlis (homens com rifles) e a cavalaria dos Sipahis. A maioria deles foi diretamente para Tirgoviste.

Sabendo que ele não seria páreo para o exército turco, Drácula fez do caminho para Tirgoviste um inferno. Para dificultar a marcha do inimigo, ele derrubou árvores, envenenou poços, queimou pontes e vilas que podiam abriga-los e, claro, sempre que podia matava um ou outro turco. Seus atiradores, postados em penhascos com vista para as passagens, fizeram o seu melhor para reduzir o volume do inimigo; franco-atiradores e arqueiros causavam estragos nas margens de rios arborizadas. O maior dano causado aos turcos ocorreu fora da capital quando o corpo principal da cavalaria de Drácula cavalgou à noite para fora das florestas e massacrou um grande contingente de soldados que estavam a pé.

Isso tudo infligiu danos físicos aos otomanos, mas desde quando sofrimento e dor física paravam os turcos? Drácula sabia por experiência própria que apenas uma coisa poderia pará-los em sua marcha, hesitá-los e, talvez, fazê-los abandonar sua missão. E isso era abrir os portões do Inferno e ataca-los em sua imaginação, em outras palavras, uma guerra psicológica.

Durante anos, os valaquianos capturaram soldados e espiões turcos, sabiamente mantendo-os vivos para usá-los num futuro qualquer como mecanismo de troca. Suas masmorras em Tirgoviste, em seu castelo, e em outros postos incrustados nos Cárpatos, jaziam cerca de 20 mil prisioneiros. Agora, com uma possível derrota da Valáquia, Drácula concluiu que ele não tinha nada a perder, e tudo a ganhar. Drácula voltou-se para o seu passo coringa, um que havia funcionado muito bem antes e que, em sua mente, lhe daria a vantagem psicológica necessária.

Quando os turcos chegaram fora dos muros de Tirgoviste, eles pararam. E eles tremeram. Alguns choravam. Muitos vomitavam. Circundando a cidade estavam os corpos de seus próprios camaradas, 20 mil deles, os seus longos cabelos e vestes esvoaçantes na brisa, seus olhos fitando vagamente para baixo; de suas bocas saíam a ponta afiada de uma estaca que havia sido introduzida e martelada através dos seus traseiros. Não havia nenhum som vindo de dentro das paredes do inimigo, nenhum movimento. Mas, a onda de silêncio era assustadoramente ensurdecedora. Os turcos, incrédulos, testemunhavam algo único na história da humanidade, uma atrocidade nunca antes vista ou imaginada: uma floresta de pessoas empaladas.

A Verdadeira História de Drácula - Floresta de Empalados

Representação da floresta de empalados de Vlad Drácula. Reprodução Internet.

Definitivamente uma das piores atrocidades já cometidas por um ser humano. Fico imaginando tal barbárie cometida nos dias de hoje. Com toda parafernália eletrônica e sanguessugas da mídia sedentos por uma carnificina para aumentar o ibope, tal episódio entraria para o Top 5 das atrocidades históricas com direito a #PrayForRomania nos trending topics do Twitter e milhares de compartilhamentos no Facebook de uma foto tirada por um fotógrafo da Reuters mostrando um turco empalado, “o cheiro é horrível”, seria o seu comentário. Mas não, por algum motivo, ninguém fala sobre isso, não estudamos nada a respeito na escola, e nem mesmo há uma nota de rodapé nos livros de história. Sim, estudamos as Cruzadas e os turcos otomanos, mas nem uma citação nos é dada do homem que usou do terror para proteger a Europa.

Voltando 550 anos atrás, os turcos dobraram seus corcéis, desistiram e correram de volta para o Danúbio. Com gritos de “Alá, protegei-nos!” em suas bocas, eles correram do que acreditavam ser o Diabo, um inimigo que eles não poderiam derrotar. Mais uma vez, e em sua pequenez, Drácula enxotava o exército mais poderoso e temido do mundo. Ele realmente havia aberto as portas do Inferno para eles.

A traição do irmão


.

A Verdadeira História de Drácula - Radu, o Belo

Reprodução artística de Radu, o Belo, datada do século XIX. Pintor desconhecido. Créditos: Wikipedia.org.

Naquele dia, quando os assustados turcos viraram seus corpos e fugiram para bem longe de Tirgoviste, havia entre eles um homem que tentara dissuadi-los de fugir dali, mas não obteve sucesso. Ele conhecia e entendia os jogos mentais usados por homens como Drácula; e, ao ver aquela cena, ele se lembrou do seu próprio pai, o Dragão, dizendo-lhe ainda menino que um bom general causa a um inimigo mais confusão mental usando o seu cérebro do que a sua lâmina. Este homem não era outro senão Radu, o irmão mais novo de Drácula.

Tendo permanecido na Turquia desde os 9 anos, Radu se tornou totalmente doutrinado na cultura otomana e um fiel a seu exército. Agora, por volta dos 30 anos, servia como um oficial de elite dos Janízaros. Forçado a recuar para o Danúbio, Radu ficou raivoso e frustrado que um truque idealizado pelo seu irmão assassino em massa tenha impedido o avanço dos seus orgulhosos, mas supersticiosos, companheiros.

Radu também era um Drácula, um Filho do Dragão, e considerava-se tão astuto quanto seu irmão mais velho. Apesar do recuo, ele estava determinado a não rastejar de volta para a Turquia de mãos vazias. Tirgoviste tinha que cair e Drácula tinha que morrer. Assim ele se tornaria o comandante e seria coroado como Príncipe da Valáquia, sendo o primeiro homem do Império Otomano a ser coroado em terras romenas. Isso teria significado uma grande conquista, honra e respeito. E ele estava disposto a atingir tal objetivo.

Quando o sultão e suas forças retornaram para além do Danúbio, Radu ficou para trás, pronto para colocar em prática seus próprios jogos mentais. Com a ajuda de embaixadores já plantados entre a elite valaquiana, Radu serpenteou para dentro da descontente classe dos boiardos que há anos queriam derrubar Drácula, mas não tinham exército. Radu lhes ofereceu um acordo que parecia acomodar a todos. Apoiando ele para o trono da Valáquia, os boiardos teriam:

  1. uma trégua com os turcos, acabando assim com o derramamento de sangue em solo valaquiano;
  2. o retorno do poder social que Drácula havia tirado;
  3. o exílio de Drácula.

Para os boiardos isso soou como música, pois, além destes itens, o acordo significava o fim dos temíveis empalamentos. Eles não teriam mais que conviver com o medo de soldados invadindo suas casas à noite para pegá-los e às suas famílias, serem arrastados para fora e mortos como cães. Eles apoiaram firmemente Radu.

Drácula soube que seu irmão estava na vizinhança, e uma vez que não havia nenhum amor perdido entre eles, suspeitou de intrigas. Ele sabia que Radu agora era aliado dos turcos, e uma vez que a inteligência do seu exército relatou que não havia uma força turca perto de Tirgoviste, Drácula cometeu um erro: ele baixou a guarda. Talvez ele tenha pensado que o filho de um Dragão, em sua honra, não trairia um de mesmo sangue. Ele falhou ao não dar ouvidos aos sinais óbvios e, então, a revolta começou. Os boiardos, apoiados por uma brigada de turcos, atacaram o Palácio do Príncipe.

Mas, naqueles dias, Drácula, sua esposa e um pequeno grupo dos seus mais fiéis seguidores estavam de férias em seu castelo no norte da cidade. Quando Radu descobriu isso, ele apressou suas tropas até Poenari, através do Rio Arges, e iniciou um bombardeio. Alguns atiradores de Drácula não foram páreo para a polida artilharia de Radu e os muros do castelo começaram a ruir. Após três dias de tiros constantes, um mensageiro levou a Drácula uma carta de Radu advertindo que, a menos que ele se rendesse imediatamente, ele e todos que estavam dentro daquelas paredes seriam empalados. Assustada, a esposa de Drácula (de nome desconhecido) jogou-se de uma torre. A escolha do suicídio era uma forma mais humana de morrer para ela.

Seu reinado acabou, sua esposa se foi, e o príncipe vencido rastejou por uma saída secreta que o levou às margens do Arges. Camuflado pela floresta e escuridão, ele evitou os turcos serpenteando pelas águas do rio.

Antes mesmo de Radu se aliar aos boiardos, Drácula já planejava uma visita ao último monarca da Hungria, o todo poderoso Matthias Corvinus (Matias Corvino), para iniciar conversas sobre outra cruzada contra os turcos. O rei sempre passava suas horas de lazer nas montanhas dos Cárpatos, em Brasov, onde Drácula sabia que ele estava no momento. Com a situação preta na Valáquia, o príncipe fugido esperava que Matias – que era filho de seu aliado anterior, O Cavaleiro Branco João Corvino – desse a ele refúgio político.

Mantendo-se à frente de seu irmão traidor, Drácula dirigiu-se ao noroeste de Brasov. Cruzando os Alpes da selvagem Transilvânia, ele encontrou abrigo em um castelo abandonado perto de Dobrins. (É interessante notar que este santuário não era muito longe da famosa Passagem Borgo, onde Bram Stoker fincou o castelo de seu vampiro, o Castelo Bran.) Alimentado e vestido por camponeses leais que conheciam e respeitavam o “matador de Turcos,” ele finalmente seguiu em frente, até chegar a Brasov. Mas, a saudação que ele recebeu de Matias não foi a que ele esperava. O rei mandou prendê-lo e aprisioná-lo.

Matias já estava a par da situação na Valáquia e sabia do total apoio da classe que um dia foi dominante, os boiardos, a Radu. O forte apoio da aristocracia a Radu significava a restauração do velho modo europeu de viver, com um grupo mandando e um soberano fazendo o meio de campo. Obviamente os boiardos preferiam a forma de governo de Radu do que à ditadura sangrenta do seu irmão. Como Rei da Hungria, Matias teve que jogar o jogo e evitar ser o dissidente, ou seja, ele teve que ficar com a maioria em detrimento de apoiar o príncipe destronado à força.

Durante meses, a nova casa do prisioneiro político Drácula foi a Torre medieval de Salomão, uma fortaleza para criminosos no Palácio de Visegrad, localizado no sul da Hungria. Apesar de estar jogado as traças, Drácula tinha como consolo a bela paisagem que circundava o seu local de confinamento. A jornalista Caroline Wren, que visitou o local para um artigo da Europa Central Online, descreve o que ela viu:

“A visão proporcionada pela subida à cidadela é magnífica. A sua posição, espetacularmente descansando em um penhasco e com vista para as Montanhas Borzsony e Nagymaros na margem leste da curva do Danúbio, faz valer a pena a subida.”.

 Verdadeira história de Drácula - Castelo de Visegrad

O Castelo de Visegrád. Ao fundo o Rio Danúbio. Créditos: Tour Guide Hungary.

A Verdadeira História de Drácula - A Torre de Salomão

A Torre de Salomão. Construída para vigília, era utilizada como prisão. Foi lá que Drácula ficou confinado enquanto esteve sob custódia do Rei húngaro Matias Corvino. Créditos: Interpals.

Confinado à sua cela, o ex-príncipe tinha como diversão praticar um estranho hábito: empalar aranhas, baratas e ratos que ele apanhava. De acordo com guardas da torre, ele os espetava com lascas de madeira tiradas a partir das tábuas do chão da cela e os exibia como troféus em sua janela. Ele se afundava em completo devaneio após esfaqueá-los, olhando com admiração para seus pequenos espasmos, até que finalmente ficassem imóveis. (No romance Dracula, Renfield, um personagem psicótico confinado a um asilo, captura e devora insetos; alguns ele mostra aos funcionários do local antes de consumi-los. Coincidência?).

Após Radu ficar em segurança no trono da Valáquia e o furor pela queda de Drácula passar, os termos de “aprisionamento” do Empalador desapareceram. Mantendo-se legalmente sob custódia do rei durante a próxima década, Drácula ficou livre para ir e vir na Transilvânia, desde que ele mantivesse seus passos comunicados ao Rei Matias ou seus administradores. Rapidamente removido da triste ala de prisioneiros, Drácula recebeu um apartamento no palácio e sua imagem passou de condenado para um confidente real. Sua presença em bailes, jantares sociais e, depois de um tempo, em reuniões da corte, tornaram-se comuns.

No início de sua “prisão”, ele foi apresentado a adorável e escultural Condessa Ilona Szilagy, prima do Rei Matias e filha do Conde Michael Szilágyi, Voivoda da Transilvânia (1457-1460). O rei, obviamente, sancionou o romance e logo o casal tornou-se envolvido. O noivado, sem dúvida, subiu rapidamente a influência de Drácula na nobreza e deve ter causado aos seus detratores um amordaçamento de suas opiniões. Também parece provável que Drácula estivesse nos seus melhores dias — sem crises de angústia ou raiva, sem empalamentos — para o casamento – uma das obrigações da nobreza – parece ter funcionado muito bem. O casal viveu em Badu, Transilvânia, em uma fortaleza dada a eles pelo rei, e dentro de três anos Ilona deu a Vlad Drácula dois filhos, Vlad IV e outro cujo nome permanece desconhecido.

Dizem que uma vez conhecido o poder, o que vem com ele se torna mais do que um vício. Drácula, um homem moldado ao seu tempo, não era alguém que se contentava em brincar de casinha. Marido e pai a parte, o interior do ex-príncipe ansiava por tempos de guerra. E naqueles tempos, Drácula não precisou esperar muito. Radu provou ser uma grande decepção, concedendo mais e mais aos turcos e menos e menos aos boiardos, quebrando a promessa aos aristocratas de que pouco a pouco a Valáquia se veria livre dos turcos. Muitos dos homens mais poderosos do mundo na época, do Rei Matias ao príncipe da Moldávia, Stephen o Grande, tomaram como afronta pessoal a forma como Radu governava a Valáquia, uma espécie de traição para com seu próprio país, a Romênia, e principalmente, jogando na lama tudo o que o seu pai, o grande Dragão, representava. Mas ninguém estava mais insultado do que ele, Drácula. E estes três homens orquestraram a queda de Radu.

O fim de Radu e a expulsão dos turcos


.

Em julho de 1475, Drácula já havia servido quase 13 anos como “prisioneiro” político quando Matias o perdoou oficialmente. Mas o perdão não vinha de graça, Drácula era fundamental para participar de uma nova campanha contra os turcos. Graças às políticas de “pomba-branca” de Radu, os turcos e seu “Exército de Alá” já haviam cruzado a Valáquia e agora espreitavam as bordas da Transilvânia e Moldávia. Tornou-se objetivo, então, expulsar os turcos. As primeiras ações foram ataques às principais bases de suprimentos abaixo do Danúbio, localizadas na província sérvia da Bósnia. Pela primeira vez na história, Transilvânia, Moldávia e Valáquia, representadas por Matias, Stephen e Drácula, estavam trabalhando juntas como uma unidade.

Ao analisar a situação, parece que o rei húngaro queria que seu novo primo, Drácula, se sentasse novamente no trono da Valáquia. Quem melhor para governar este importante principado do que um parente? Mas, havia um problema. Ainda eram frescas as memórias do reinado de terror que seu protegido um dia realizara. Por causa disso, Matias resolveu tornar-se (o que hoje chamaríamos) o Gerente de Relações Públicas de Drácula. A julgar pelo brilhante passado militar de Drácula, o rei pensou nele como um bom investimento. O homem, sem dúvidas, seria um dos diferenciais da nova cruzada contra os turcos, e uma vez mais provado ser um herói para a Romênia, seria reglorificado, recuperando assim a tolerância e admiração dos valaquianos.

A massiva ofensiva começou no outono, e os resultados vieram mais rápido do que o exército cristão esperava. Seu primeiro objetivo, destronar Radu, foi cuidado pela própria natureza, sem derramamento de sangue. O filho mais novo do Dragão morreu aos 40 anos de sífilis, e Drácula não derramou nenhuma lágrima pelo irmão.

Com as tropas somando 5 mil homens, os cruzados cavalgaram até o sul da Bósnia. Eles silenciosamente passaram por pequenas contingências de turcos até chegarem em Sabac, cidade que eles destruíram; então vieram Srebrenica, Kuslat e Zwornik. Ao longo do caminho, Drácula empalou milhares de turcos, o que não enfureceu Matias, ao contrário, ele dizia às cortes europeias que desta vez os empalamentos eram pela honra da liberdade; para o Vaticano, ele disse que as atrocidades eram pela honra de Deus.

Com suas metas de vitórias atingidas, e o sultão enfraquecido, os cruzados retornaram à Romênia em Março de 1476. Entretanto, os combates não pararam por aí. Antes do fim do verão, Drácula e seus compatriotas cobriram uma ampla faixa de sua terra natal, caçando os invasores turcos nos Cárpatos em um banho de sangue nunca antes visto. Foi a coisa mais perto do gotterdamerung (Crepúsculo dos Deuses. em alemão) – o mito da união de poderes dos deuses alemães em fúria – que os turcos já viram.

Em novembro daquele ano, Drácula sentou novamente no trono em Tirgoviste. Era a terceira vez que o Filho do Dragão chegava ao poder na Valáquia, o mesmo trono que uma vez seu pai sentara. Mas, como na primeira vez, em 1448, Drácula teve pouco tempo para degustar do poder. Se em 1448 ele foi enxotado do trono em dois meses, agora, vinte e oito anos depois, ele não passaria um mês, mas com a diferença de que, dentro de um mês, o sanguinário Drácula estaria morto.

A vindicação de Matias dos crimes de Drácula não caiu bem nas cidades vizinhas de Tirgoviste. Tais cidades haviam sido antes as mais afetadas pelo cruel reinado de Drácula. Os boiardos, que perderam seus pais, mães, crianças, irmãos e irmãs para as terríveis torturas e empalamentos do príncipe, lembravam muito bem do terror anterior. Então, quando Drácula se viu sozinho – as forças de Matias haviam retornado para a Hungria e as de Stephen para a Moldávia – ele encarou um reino desgastado e com um pé atrás. Deixado para trás com uma parca guarnição – não mais do que dois mil homens, em sua maioria moldávios – para defender a Valáquia, ele precisava de homens vis e sãos. Quando ele convocou os valaquianos para pegar em armas, ninguém se apresentou.

Para piorar, o nunca desanimado e sempre agressivo sultão Maomé havia se recuperado das recentes derrotas e revisou sua estratégia. Ele ainda dominava uma grande cidade, Bucareste, perto do Danúbio, e de lá foi concentrando o que restava de suas tropas. As unidades, uma vez acumuladas, chegaram a dois dígitos de milhares.

Drácula, um homem praticamente sem exército, seria chamado para atacá-los.

O governador recém-nomeado da Transilvânia, um homem chamado Stefan Bathory (humm, eu acho que vocês conhecem esse sobrenome, não?), estava planejando com os húngaros uma invasão a Bucareste e precisava de Drácula para ajudar a pavimentar o caminho. Seria atribuição de Drácula lutar contra os turcos numa área ao norte de Bucareste, de topografia pantanosa e floresta fechada. Não era uma batalha grande, a ideia era causar confusão aos turcos e atraí-los para uma armadilha. Com poucos homens, Drácula sabia que sua missão era quase suicida. Por segurança, ele deixou sua esposa e filhos na Transilvânia e, segundo alguns estudiosos, expressou preocupações a outras autoridades europeias. Mas se expressou, tais documentos não foram registrados ou não sobreviveram ao tempo. Marchando para fora dos muros de Tirgoviste no início de Dezembro de 1476, ele seguiu ao sul do Rio Dimbovita. Seu destino era o mosteiro de Snagov, onde ele finalizaria seus planos. Ele provavelmente esperava que o Conde Bathory lhe enviasse reforços, mas ninguém chegou.

Em uma manhã fria pouco antes do Natal, Drácula e sua vanguarda toparam com um enorme contingente de turcos na Floresta Vlasia, adjacente ao mosteiro. Foi uma luta violenta e sangrenta, com os romenos, em menor número, lutando como demônios. Eles, provavelmente, foram inspirados pelo seu líder que, empunhando a lâmina Toledo de seu pai, o Dragão, gritava aos seus comandados como um verdadeiro mensageiro da morte. Ninguém ali podia se render aos porcos turcos.

Como Drácula morreu é incerto, são muitas as hipóteses e as testemunhas não são nem um pouco confiáveis. Ele lutou até ser espetado por um turco; ou morreu com um golpe de machado na cabeça desferido por um de seus homens, na confusão da batalha; ou recebeu um tiro na cabeça enquanto aplaudia a bravura dos seus homens. Mas uma coisa é certa: seu corpo foi encontrado mutilado em um pântano nas proximidades. A visão foi registrada pelos monges do mosteiro que reconheceram seus medalhões e vestes reais. Após sua morte ele foi decapitado, aparentemente durante um estiloso ritual. Sua cabeça, essa os monges não encontraram.

A Verdadeira Historia de Dracula - Casa

O casarão (pintado de amarelo) em Sighisoara, Transilvânia, onde, em 1431, nasceu Vlad Drácula. Obs.: Clique na foto para ampliar. Créditos: Google Street View.

Epílogo


.

Dizem que a cabeça de Drácula foi levada como troféu pelos turcos até Constantinopla, onde o sultão Maomé, velho inimigo de Drácula, exibiu-a acima dos portões da cidade: para os turcos, o sultão disse ser o testemunho do triunfo de Alá sobre o mal que representava o Império Europeu.

Os turcos otomanos e a Europa continuaram em guerra pelos próximos 400 anos, com os romenos sofrendo as piores consequências por estarem no meio do caminho entre a Turquia e a Europa.

Durante séculos, a nação otomana e seus sultões se recusou a abrir mão de anexar a Romênia. A história só teve um fim em 1878, quando – com a assistência dos Romanov da Rússia – os romenos foram capazes de se livrarem de uma vez por todas dos turcos. “O renascimento do sentimento político e social romeno ocorreu no final do século XVIII, quando uma burguesia nacional surgiu, a qual lutou pela independência e unificação dos estados separados em um único país… A (Romênia) foi elevada à categoria de Reino em 1881.”, explica a The Foundation for East European Family History Studies.

Após a morte de Drácula, sua esposa foi convidada pelo Rei Matias a viver na Corte húngara com seus dois filhos. Em 1508, o filho mais velho de Drácula, Vlad IV Drácula, tentou subir ao trono da Valáquia, mas foi pretendido por Mihnea, um filho ilegítimo de Drácula (alguns estudiosos sugerem que ele era filho de Drácula com sua primeira esposa). Mihnea já havia feito seus movimentos para subir ao trono da Valáquia. Quando Vlad IV pensava em sentar no trono, Mihnea já fazia suas politicagens com os boiardos.

Se Mihnea estava mentindo sobre sua linhagem, isso não se sabe, mas se mentiu, ele definitivamente fez um bom trabalho imitando o comportamento sádico do pai. Seu reinado durou apenas um ano e seis meses. Logo após se sentar, ele começou com a velha prática de empalamentos do pai. Mas ele não contava que os valaquianos, além de estarem de saco cheio daquilo, já tinham uma grande experiência com homens como ele. Eles se rebelaram e enxotaram o homem que eles chamaram de “Mihnea o Mau”. Mihnea foi esfaqueado por um assassino contratado e enterrado na Igreja Católica Romana de Sibiu. Sua tumba é hoje um dos locais mais visitados por turistas.

Poderia hoje ter um Drácula andando entre nós? Historiadores acreditam que não. Dos descendentes diretos de Drácula, somente Vlad IV viveu até a maturidade. Dos seus dois filhos, somente um se casou, aquele cujo nome é desconhecido. A partir desse ponto, o número de herdeiros masculinos diminuiu. Em meados do século de 1700, o último dos Dráculas estava vivendo na Transilvânia (haveria outro lugar?), ao longo da infame Passagem Borgo. Em 2012, ninguém menos que o Príncipe Charles da Inglaterra foi ligado como descendente de Drácula. O príncipe nunca escondeu seu amor pela Romênia, tendo inclusive comprado uma fazenda em Viscri, uma vila rural da Transilvânia. Mas a notícia foi mais uma artimanha do governo romeno em atrair turistas do que realmente uma ligação com o voivoda.

Dos contemporâneos de Drácula, Matias Corvino reinou até 1490, continuando a combater os turcos, bem como a Europa Bohemia (atual República Tcheca), que também queria o seu reino. Um homem da Renascença, ele era um verdadeiro patrono das artes. “Sua biblioteca em Buda, a Corvina, foi uma das melhores da Europa.”, diz a Enciclopédia Columbia.

Stephen Bathory governou a Transilvânia por quinze anos. Vindo de uma das famílias mais nobres da Europa, a família Bathory, Stephen tinha tudo para ser o membro mais famoso de sua linhagem, até nascer sua sobrinha Elizabeth, a única que realmente entrou para os livros de história e, no século XX, para o Guinnes Book. Reza a lenda que a Condessa Elizabeth Bathory – uma mulher vaidosa e extremamente neurótica – acreditava que se ela banhasse no sangue de virgens mulheres sua juventude seria preservada. Quando as autoridades finalmente abriram os olhos, mais de 300 jovens já haviam perdido suas vidas; elas tinham o sangue drenado, algumas eram comidas por cachorros, e por aí vai. Por seus crimes, ela foi apropriadamente chamada de “A Condessa Drácula”. Sua história pode ser lida neste link

O repouso final de Vlad Drácula


.

Onde Drácula está enterrado é desconhecido. Os monges em Snagov registraram que eles o enterraram ao pé do altar na capela. Mas em meados da década de 1930, quando arqueólogos removeram a placa de mármore que deveria estar cobrindo a sepultura do Empalador, eles encontraram uma cova vazia de um metro e oitenta e dois centímetros que parecia ter sido a casa de alguém no passado. Essa revelação deu origem a… bem, você já deve saber: que Drácula saiu de sua tumba! Na época, Bela Lugosi ainda estava fresco na mente do mundo ocidental, tendo aparecido pouco antes na versão cinematográfica em preto-e-branco do romance de Stoker. Os jornais, claro, alimentaram a histeria e o medo, dando uma ajuda para a mitificação em torno de Drácula.

Vários anos mais tarde, um esqueleto sem cabeça foi encontrado atrás de uma grande pedra na parte de trás da igreja. Os ossos envoltos em trapos podres foram provados ser das vestes típicas das dos príncipes do século 1400. Muitos acreditaram que o esqueleto de Drácula, finalmente, havia sido encontrado. Outro forte argumento a favor é que o manto que cobria os ombros tinha uma coloração que indicava no passado ter sido de um vibrante vermelho vinho, a cor real da família do Dragão.

Sem uma melhor teoria para refutar, o esqueleto é considerado até hoje como sendo do poderoso e temível Vlad Drácula, o Empalador. Mas vários pesquisadores e estudiosos não estão convencidos e vira e mexe aparecem artigos a favor ou contra.

Em tom de gozação, Radu Florescu e Raymond McNally, em Dracula – Prince of Many Faces (Drácula – Príncipe de Muitas Faces) satirizam, “Os vampiristas determinados, naturalmente, responderão que ele nunca morreu e que seu espírito irá nos assombrar por toda eternidade.”. Sobriamente, os historiadores citam um antigo documento russo que alega que Drácula “abandonou a verdade e a luz e aceitou a escuridão”, e que por isso ele nunca irá descansar em paz.

Por mais estranho que possa parecer para nós, uma grande porcentagem dos moradores camponeses dos Alpes da Transilvânia ainda acreditam em vampiros e fantasmas que se levantam dos seus túmulos. Cerimônias religiosas são realizadas em determinadas épocas do ano, como a Walpurgis Nacht (A Noite do Demônio), em primeiro de Maio. De acordo com o folclore romeno, a Walpurgis é realizada anualmente para espantar o mal e impedir que ele domine o mundo.

Como o Conde Drácula diz ao advogado britânico Jonathan Harker no romance, “Esta é a Transilvânia e a Transilvânia não é a Inglaterra.”. Realmente Conde, naquelas bandas, coisas estranhas acontecem, e como mamãe ensinou, de problemas e coisas sobrenaturais, eu passo longe.

Homenagem


.

Deixamos aqui a nossa homenagem ao professor Radu Florescu, morto aos 88 anos no último dia 14 de Maio.

Se o mundo hoje conhece a história de Vlad Drácula é graças a ele. Por quatro décadas, Florescu foi o maior especialista em Drácula do mundo. O primeiro de muitos livros sobre o Príncipe Empalador veio em 1972, “In Search of Dracula”, escrito em parceria com Raymond T. McNally. “Mudou minha vida”, disse o professor para o The New York Times na época. “Eu costumava escrever livros que ninguém lia.”.

Intrigados com as similaridades entre o personagem Dracula do romance de Bram Stoker e o Drácula da vida real, Florescu e McNally começaram uma árdua pesquisa por todo leste europeu, catalogando e registrando todo e qualquer documento que citasse o Empalador. McNally faleceu em 2002 e Florescu no último dia 14 de Maio.

Na foto: O professor e historiador Radu Florescu em 1975 ao lado de um retrato de Vlad Drácula.

O professor e historiador Radu Florescu em 1975 ao lado de um retrato de Vlad Drácula.

Informações


.

A Verdadeira Historia de Vlad Dracula - Pilatos e Dracula

Nome: Vlad III

Conhecido como: Vlad Drácula (Vlad Filho do Dragão); Vlad Tepes (Vlad, o Empalador);

Nascimento: Novembro ou Dezembro de 1431. Sighișoara, Transilvânia, Romênia.

Avô: Mircea, O Velho. Reinou a Valáquia de 1386 até sua morte em 31 de Janeiro de 1418 aos 62/63 anos.

Pais: Vlad II Dracul e Princesa Cneajna da Moldávia.

Irmãos: Mircea (1428-1447) e Radu, o Belo (1435-1475).

Ocupação: Príncipe da Valáquia, Voivoda da Valáquia.

Reinados: 1448; 1456–1462; 1476

Esposa(s): Uma nobre da Transilvânia de nome desconhecido e a Condessa Ilona Szilágyi, filha de Michael Szilágyi (1400-1460), Voivoda da Transilvânia.

Filhos: Vlad IV; Mircea o Mau (1460-1510); e outro de nome desconhecido.

Morte: Dezembro de 1476. Bucareste, Valáquia.

Imagem: Pilatos Julgando Jesus Cristo. Pintura de autor desconhecido do século 15 mostra Vlad Drácula como Pilatos, julgando Jesus Cristo.

Fontes consultadas: In Search of Dracula (Radu Florescu e Raymond McNally); Radu Florescu, Scholar Who Linked Dracula and Vlad the Impaler, Dies at 88 (The New York Times); Crime Library; A Country Study: Turkey; Transylvania — The Roots of Ethnic Conflict – Kent State Press; The Historical Dracula, disponível em http://www.eskimo.com/~mwirkk/castle/vlad/vladhist.html;

Com colaboração de:


.

Revisões e traduções por:

ester

jackson

Curta O Aprendiz Verde No Facebook


"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
  • Jhon

    show

  • Pingback: Serial Killers: Gilles de Rais, O Verdadeiro Barba Azul | Blog O Aprendiz Verde()

  • Carol

    Muito bom!!!

  • Junior Monteiro

    Meus parabéns, o texto me prendeu por HORAS!
    Super completo e bem contado. São 05:41 e eu fiquei lendo ate agora, simplesmente não consegui parar de ler.

    Novamente meus parabéns pelo trabalho. Super bem escrito, detalhado e direto. Adorei saber um pouco mais a fundo sobre a verdadeira história desse mito, que foi Vlad.

    Abraço forte à todos os envolvidos, e novamente meus mais sinceros PARABÉNS!

  • Pingback: Biografias | Pearltrees()

  • Amanda Smith

    I am Amanda Smith, From UK, I will start by saying to all that have experience heart break and also can’t do without their lover should please stop here and read up my story, So as you will know how to go solving or getting your ex back…Am writing this article to appreciate the good work of Dr WAKA that helped me recently to bring back my Husband that left me for another woman for no reason for the past 3 years. After seeing a post of a woman named Monique Robinson from USA on the internet testifying of how she was helped by Dr WAKA. I also decided to contact him for help because all i wanted was for me to get my husband, happiness and to make sure that my child grows up with his Dad. Am happy today that he helped me and i can proudly say that my husband is now with me again and he is now in love with me like never before. Are you in need of any help in your relationship like getting back your man, wife, boyfriend, girlfriend, winning of lotteries, herbal cure for sickness or job promotion E.T.C. Viewers reading my post here is your solution Dr WAKA is your solution contact him now on his Email: drwakaspellsolution@gmail.comor call +2348165674140

DarkSide Books

RELACIONADOS

Dupla Identidade – Bruno Gagliasso

Glória Perez

Ilana Casoy

OAV TV

OAV TV

Queremos Você!

Queremos Você!

Siga-nos no Twitter

Siga-nos no Facebook!

21 Anos de Arquivo-X

20 Anos da Execução de Andrei Chikatilo

20 Anos da Execução de John Wayne Gacy

O nascimento de um serial killer

Categorias

Contribua com O Aprendiz Verde!

Bate-Papo

Blogs Brasil

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers