Serial Killers: Gilles de Rais, O Verdadeiro Barba Azul

Monstro ou Vítima? O tempo possui uma forma de reduzir a história às suas formas mais simples. Olhando para trás, personagens históricos são sempre reduzidos a papéis de heróis...
Gilles de Rais- O Verdadeiro Barba Azul
Serial Killers - Gilles de Rais - Capa

O Verdadeiro Barba Azul

Monstro ou Vítima?

O tempo possui uma forma de reduzir a história às suas formas mais simples. Olhando para trás, personagens históricos são sempre reduzidos a papéis de heróis ou vilões, santos ou pecadores. Heróis nacionais adquirem proporções míticas ao passar dos anos. Suas fraquezas e defeitos são ignorados em favor de seus feitos heroicos; Drácula é um exemplo disso: autor de assassinatos abomináveis, o príncipe guerreiro é um herói nacional na Romênia, que prefere lembrá-lo por expulsar os turcos do que por seu peculiar gosto por empalar inocentes (tanto adultos quanto criancinhas). Da mesma forma, patifes comuns se tornam inspiração para lendas terríveis e contos sobrenaturais (alguns serial killers medievais que o digam). Não há meio termo na história. As figuras históricas neutras são relegadas ao segundo escalão, enquanto o bem e o mal desfrutam do centro do palco, e me arrisco a dizer que o mal tem sempre a preferência da plateia.

Mas essas reduções, tanto para o lado bom quanto para o lado ruim da balança, são intrinsecamente injustas e imprecisas. Nenhuma pessoa, exceto, talvez, um Stalin ou uma Madre Teresa, é exclusivamente um monstro ou uma santa. Todos possuem o poder de fazer o bem ou o mal, e a maior parte pratica ambos em determinada proporção. Mas ao longo dos tempos, no mundo preto e branco da história, o caminho da imortalidade para o cidadão que se torna notório possui apenas duas saídas: ou no panteão dos heróis ou na masmorra dos vilões.

Gilles de Rais

Assim aconteceu com um dos assassinos confessos mais brutais e notáveis da história, o nobre francês do século XV Gilles de Rais. Este soldado lutou ao lado de Joana d’Arc, chegando à patente de Marechal, e era um dos homens mais ricos da França. A história nos conta que Gilles escondeu um lado negro e sinistro por muitos anos, durante os quais ele sequestrou, torturou e assassinou centenas de crianças camponesas (em sua maioria meninos), ao mesmo tempo em que trabalhava com alquimistas que usavam magia negra em tentativas de transformar metais comuns em ouro.

Como um dos homens mais poderosos da França, ele não estava preparado para lidar com os incríveis direitos que a sociedade havia lhe dado. Criado por um avô igualmente poderoso e politicamente inteligente – cujo único motivo para ter o neto sob sua guarda era aumentar a extensão das próprias terras -, Gilles cresceu sem firmeza moral para controlar seus impulsos e exibia uma ingenuidade política que mais tarde acabaria por contribuir para a sua queda.

Gilles confessou (sob tortura) ser pedófilo e homossexual em uma época em que ambas as atividades podiam resultar na perda de propriedades e da própria vida. Pelos padrões atuais, ele seria classificado como playboy bon vivant, que, na busca pela própria satisfação, levou a família à beira da falência. Gilles de Rais tinha a influência de um fazedor de reis, era destemido e um hábil soldado cujas façanhas salvaram a França de uma derrota total na Guerra dos Cem Anos. Entretanto, este mesmo impulso corajoso o levou a assassinar crianças e a praticar o satanismo. As crianças eram um meio dele atingir o clímax sexual, e a magia o instrumento para tentar manter seu extravagante estilo de vida.

Mas a história não destinou a Gilles de Rais um quadro no roll dos bravos guerreiros e heróis nacionalistas, ao contrário, ele teve o seu nome escrito nos cadernos dos assassinos sádicos. Apesar de existir aqueles que argumentam que as evidências apresentadas durante o seu julgamento foram forjadas e que ele não teve tempo o suficiente para preparar uma defesa para acusações tão graves, a maioria dos estudiosos do caso concordam em uma coisa: ele era um monstruoso predador sexual. Os que acreditam em conspiração dizem que ninguém poderia escapar impunemente de crimes tão chocantes por tanto tempo. Gilles seria apenas um peão num jogo político maior, um jogo que sua personalidade e inteligência foram incapazes de jogar.

Então, quem foi o verdadeiro Gilles de Rais? Foi um nobre francês serial killer e psicopata que obtinha prazer sexual torturando e matando crianças camponesas? Ou ele era apenas um soldado nascido numa família poderosa que estava no caminho de outras pessoas que cobiçavam suas terras e sua autoridade?

seta

1 - Serial Killers - Gilles de Rais

O Nobre Pecador

A Batalha de Agincourt

É impossível compreender Gilles de Rais sem examinar a sociedade em que ele nasceu. A França dos anos 1400 era um antro fervilhante de intrigas políticas, violência, doenças e guerra. Era um país onde a lealdade estava à venda e os poderes que governavam a sociedade serviam a interesses particulares em detrimento do bem comum (qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência). Como na maior parte da nobreza europeia, amor e casamento na França eram dois conceitos diferentes. Casamentos eram frequentemente arranjados para assegurar poder ou concentrar ainda mais a autoridade que algumas poucas famílias nobres já possuíam.

Quando Gilles de Rais nasceu, em 1405 (ou 1406, as fontes divergem), em um dos vários castelos de sua família – acredita-se que na Torre Negra, em Champtocé, oeste do País – a França estava em guerra com a Inglaterra. As duas nações brigavam sobre quem de direito deveria sentar no trono francês. Em Paris, o Rei Louco, Carlos VI, passava os seus dias sentando no trono de um país dilacerado pela guerra que estava sendo perdida para os ingleses, sob o comando de Henrique V. A Guerra dos Cem Anos não foi, como o nome poderia sugerir, uma guerra travada continuamente ao longo de um século, mas sim uma série de grandes batalhas (a maior parte em solo francês) seguidas por anos de trégua, que era interrompida por pequenas disputas e alianças de ocasião, entre os vários nobres que governavam as províncias francesas.

A semente da Guerra dos Cem Anos foi plantada em 1066, quando William, o Conquistador, invadiu a Normandia (região no noroeste da França). William tornou-se rei da Inglaterra, mas também manteve o título de Duque da Normandia. Aproximadamente 100 anos depois, um dos descendentes ingleses de William, Henrique II, casou-se com Eleanor de Aquitaine, a esposa divorciada do rei francês Luís VII. Com o casamento, Henrique e Eleanor juntaram muito mais do que duas escovas de dentes; eles passaram a ser donos de uma vasta extensão de terra no norte e em regiões centrais da França, fazendo deles pessoas tão ricas quanto o próprio Luís. Com o tempo, os descendentes ingleses de Henrique perderam o controle de grande parte dessas terras, mas sempre as recuperavam, principalmente quando os reis da Inglaterra não estavam ocupados demais lutando contra galeses e escoceses.

Quando Henrique V subiu ao trono inglês em 1413, a Inglaterra, a Escócia e o País de Gales estavam em paz e a loucura de Carlos VI fez surgir uma verdadeira disputa pelo poder. Sabemos que políticos são verdadeiros abutres que se aproveitam da primeira oportunidade para derrubar o outro. E se o rei está louco, por que não derrubá-lo? Henrique percebeu que aquele era o momento certo de fazer valer o seu “direito” ao trono francês, juntando-se ao Duque de Borgonha e outros reclamantes.

Carlos – cuja loucura era na verdade um quadro psicopatológico de psicose, que fazia com que ele tivesse alucinações persecutórias, ou seja, ora estava dentro da realidade ora vivia mergulhado em sua mente delirante – era um rei amado, porém fraco. O sistema francês de governo dava um poder extraordinário aos nobres do país, e muitas vezes o rei era um mero fantoche. O país era dividido em várias regiões. Borgonha, Orleans e Bretanha dançavam conforme a música, jogando os reis de Inglaterra e França uns contra os outros, mudando de lado no conflito várias vezes. Seus exércitos enormes e riqueza extrema faziam com que Carlos fosse incapaz de punir sua deslealdade. A responsabilidade dos nobres franceses com a coroa era apenas de ordem militar. Eles cunhavam suas próprias moedas, criavam suas próprias leis e faziam seus próprios tratados e alianças. O rei garantia lealdade através da disposição de feudos e atribuições. Em troca, nobres forneciam a proteção militar dos seus exércitos sempre que necessário.

Em 25 de Outubro de 1415, dia de São Crispim, ingleses e franceses se encontraram no campo de batalha em Agincourt, onde os ingleses sob o comando de Henrique V foram surpreendidos por uma força muito maior de tropas francesas sob comando do Marechal Jean Boucicaut. Os ingleses, que estavam em solo francês desde Agosto, já estavam desnutridos e cansados, vivendo de saques e extorsões enquanto seguiam rumo ao leste, da Normandia para Calais. Na noite de 24 de Outubro, sob forte chuva, as tropas de Boucicaut encurralaram os ingleses numa clareira em forma de diamante entre três áreas florestais que circundavam as cidades fortificadas de Agincourt, Tramecourt e Maisoncelles. Adotando uma estratégia que havia funcionado com seu ancestral William, O Conquistador, em Hastings, três séculos antes, Henrique tomou a decisão de atacar de uma posição mais segura através de um campo lamacento. Na manhã seguinte, sob um céu cinzento, porém seco, ele moveu seus exércitos adiante e separou seus arqueiros galeses colocando-os entre as divisões de soldados.

Enquanto os ingleses se moviam dentro da área de alcance das suas flechas, a cavalaria francesa atacou. A ofensiva francesa foi um completo desastre. A lama pesada dos campos arados dificultou o movimento e os soldados ficaram enterrados na lama na altura dos joelhos ou cintura. Eles foram alvos fáceis para os arqueiros galeses que os mataram às centenas. Os franceses, a cavalo, com suas pesadas armaduras, caíam nas poças de lama na medida em que os cavalos eram varados pelas flechas. Eles morreram de diversas formas: pisoteados pelos animais em disparada, sufocados em suas armaduras, ou mortos pelos soldados ingleses quando estavam atolados. Alguns foram enterrados a uma profundidade de três homens. O método preferido dos ingleses para matar os cavaleiros caídos era levantar a viseira deles e enfiar-lhes uma adaga no olho.

Os cavalos, assustados e sem cavaleiros, cercados por bosques, retornavam e corriam na direção de seus próprios compatriotas, causando confusão e caos enquanto uma chuva certeira e precisa de flechas caía sobre o campo de batalha. Aqueles franceses que conseguiam cruzar o campo da morte eram pegos por soldados ingleses ou por estacas afiadas camufladas no chão. A terceira fileira de soldados franceses, armados com bestas e armas rudimentares, assistiu a carnificina no campo de batalha e fugiu, tomando pouca parte na luta.

Serial Killers - Gilles de Rais - Batalha de Agincourt

Na foto: Arqueiros galeses lançam suas flechas entre estacas afiadas na Batalha de Agincourt. Créditos: Camelot International.

Uma hora depois a batalha havia terminado. O número de prisioneiros franceses superava em muito a quantidade de ingleses disponíveis para vigiá-los e Henrique foi obrigado a tomar uma decisão sangrenta. Em vez de exigir resgate pelos franceses (e eles poderiam lutar novamente), ele ordenou que todos fossem executados. Quando a carnificina terminou, 11 mil soldados franceses jaziam no solo de Agincourt. Entre eles, o Duque de Brabante e o Conde de Nevers, irmãos do Duque de Borgonha; o Duque de Alencon; o Duque de Bar; Charles d’Albret, Condestável da França; os condes de Marle, Roucy, Dalm, Vaudemot e Dammartin. Uma das baixas menos conhecidas, mas de importância vital – pelo menos na vida de Gilles de Rais – foi a de Amaury d’Craon, filho de Jean d’Craon.

A morte de Amaury d’Craon foi a terceira de três perdas significantes na vida do jovem Gilles de Rais. Aos 11 anos, Gilles via morrer seu único tio, sobrando agora apenas seu avô Jean como parente homem.

A Infância do Serial Killer

A mãe de Gilles, cujo nome de solteira era Marie d’Craon, se casou com Guy de Rais, herdeiro da riquíssima Jeanne la Sage, em um arranjo político que juntou três das famílias mais ricas e poderosas da França.

O casamento de Guy e Marie veio logo após Guy mudar seu sobrenome de Laval para de Rais, de modo a herdar as propriedades de Jeanne la Sage, a última da família de Rais. Jeanne havia se casado com Jean de Parthenay, mas o matrimônio foi anulado por eles serem parentes muito próximos. Ela, então, adotou Guy como herdeiro, mas descumpriu a promessa, deixando sua herança a Catherine de Marchecoul, a mãe de Jean d’Craon, que por sua vez era pai de Marie. Guy contestou a decisão de Jeanne e para evitar uma guerra entre Guy de Rais, a família Marchecoul e a família la Sage, Jean d’Craon ofereceu o compromisso politicamente astuto de dar a mão de sua filha em casamento. O casamento de Guy de Rais e Marie d’Craon foi, portanto, de natureza meramente política e financeira.

Serial Killers - Gilles de Rais - Arvore Genealogica

Árvore genealógica.

Nove meses após o casamento, em Setembro de 1404 ou 1405 (as fontes divergem), Marie deu à luz a seu primeiro filho, Gilles de Rais. Dois anos depois Gilles ganhou um irmão, René de Rais.

Os primeiros anos do jovem Gilles foram comuns a um pequeno nobre. Como filho de um dos homens mais ricos da França, ele foi educado de uma forma que hoje pode parecer fria e sem amor, mas na França daquela época, cuja filosofia de educação infantil tratava crianças como pequenos adultos e esperava-se que eles agissem dessa forma, era perfeitamente normal e esperada. Gilles raramente via os pais. Durante sete anos Guy e Marie fizeram apenas algumas visitas esporádicas ao filho. Ele foi criado por uma ama até atingir uma idade razoável para apresentar-se à sociedade francesa.

Como um futuro nobre, aos 7 anos, Gilles recebia formação em artes clássicas e ciências humanas, aprendendo a ler e a recitar latim e grego, além de receber treinamento militar e aulas de etiqueta. Os registros mostram que Gilles era um estudante excelente e um perito em artes marciais, mas como político, era inábil e rude. Parecia claro que o menino jamais seria um mestre conspirador maquiavélico ou capaz de criar intrigas na corte, habilidades mais do que necessárias a um francês do século XV.

Aos dez anos, Gilles passaria por provações que teriam um profundo impacto em sua personalidade. No período de um ano, três das pessoas que ele mais gostava no mundo estariam mortas. A primeira foi sua mãe Marie de Rais, que morreu logo após a celebração da Epifania do Senhor, em Janeiro de 1415. Meses depois, seu pai caçava javalis numa floresta próxima a um dos vários castelos da família quando um dos animais o chifrou até a morte. A agonia de Guy foi bastante lenta, com ele tendo tempo o suficiente para escrever um testamento e dar instruções de como seus filhos deveriam ser criados.

Em seu testamento, de Rais deixou instruções para que seus filhos fossem criados por um primo, Jean Tournemine de la Junaudaye. Guy de Rais deixou claro que sob nenhuma circunstância Jean d’Craon, avô dos meninos, devia participar na educação dos mesmos. Não havia nenhum sentimento de carinho entre Guy e seu sogro, e o falecido expressou em letras garrafais que queria o velho asqueroso LONGE dos seus garotos. Historiadores especulam que de Rais queria seus filhos longe de Jean d’Craon porque ele ainda guardava rancor por ter sido obrigado a renunciar à herança da própria família, e com Guy morto, o velho poderia apoderar-se das terras. Outros presumem que, intimamente, Guy de Rais sabia o tipo de homem que d’Craon era, e como seus filhos estariam perdidos se fossem confiados a ele.

Tudo pelo Dinheiro

Político hábil e experiente, d’Craon não permitiria que a riqueza e as propriedades de seus netos escapassem pelas suas mãos. Após a morte do genro, o velho passou a planejar cuidadosamente sua aquisição. Sem nenhum herdeiro após a batalha de Agincourt (seu filho Amaury morrera, sendo esta morte a terceira a causar um grande impacto no jovem Gilles), Jean não estava disposto a ver sua linhagem se extinguir e suas riquezas duramente adquiridas irem parar de volta na mão de um rei psicótico ou algum outro duque. d’Craon contestou com sucesso o testamento de Guy de Rais e na metade de 1416, os jovens Gilles e René de Rais foram entregues aos cuidados do avô.

Jean d’Craon era um senhor astuto e calculista, cujas manipulações e maquinações se comparam às de poucos na história. Sem escrúpulos e disposto a usar quaisquer métodos que fossem necessários para atingir seus objetivos, Jean era uma péssima influência para os pequenos de Rais, crianças jovens e impressionáveis. Levando em conta que nos castelos de seus pais os jovens foram bem educados em conceitos morais, éticos, religiosos e humanos, em Champtocé, o castelo com vista para o rio Loire, Jean d’Craon permitiu a seus netos correrem livres e com pouca supervisão.

O próprio Jean também não era um bom exemplo. Ele era de longe o segundo homem mais rico da França, e suas façanhas demonstravam que acima de tudo, d’Craon amava o dinheiro. Nenhum meio de obtenção de riqueza era inapropriado para ele. A descrição mais leve de Jean d’Craon é a de um bandido astuto e implacável.

Serial Killers - Gilles de Rais - Castelo de Champotcé - Vista da estrada

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: A fortaleza medieval onde acredita-se ter nascido Gilles de Rais vista a partir da estrada. O Castelo de Champtocé fica no extremo oeste da França no município de Champtocé-sur-Loire. Foi aqui que Gilles e seu irmão René cresceram sob criação do avô Jean d’Craon. Créditos: Google Street View.

Serial Killers - Gilles de Rais - A Torre Negra

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: A imensa Torre Negra, suposto local de nascimento de Gilles de Rais e também palco de seus assassinatos. Créditos: Google Street View.

 Gilles de Rais - Castelo de Champtocé

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: As ruínas do castelo de Champtocé. Créditos: Google Street View.

Serial Killers - Gilles de Rais - Vista Aérea

Na foto: Vista aérea do castelo de Champtocé, uma das moradias do serial killer Gilles de Rais. Créditos: Tequilas-secrets.

A mais influente e maligna das lições que Gilles de Rais aprendeu com seu avô foi que, como herdeiro do império de Rais e d’Craon, ele estava acima das leis da França. O avô plantou a semente do mal em Gilles de Rais, uma semente que floresceu em sua idade adulta. Seja qual foi o demônio que levou de Rais a estuprar e matar jovens crianças, ele foi alimentado pelo estilo de vida que conheceu em Champtocé.

O único esforço de d’Craon para educar os irmãos de Rais foi nas artes de Guerra. Aos 14 anos, vestido com a melhor “grife” de armaduras da época, uma vinda diretamente de Milão, Gilles cavalgou para fora de Champtocé pela primeira vez. Apesar de jovens nobres como Gilles gastarem horas aprendendo as melhores lições de esgrima, duelos e combates corpo-a-corpo, havia apenas uma forma de realmente aprender sobre combates e essa era participar nas batalhas da Guerra dos Cem Anos.

Logo após Gilles chegar a Champtocé, d’Craon deixou claro que ele pretendia usar o neto para expandir seu próprio domínio territorial e suas riquezas. Gilles tinha apenas 13 anos de idade quando d’Craon negociou o casamento dele com Jeanne Peynel, a filha do Lord de Hambye, da Normandia. A riqueza de Peynel, uma jovem órfã, rivalizava com a de Gilles e o casamento poderia facilmente tornar a casa de d’Craon a mais poderosa da França, se não de toda a Europa ocidental. Por este motivo, o Parlamento de Paris proibiu o casamento, ao menos até que Jeane Peynel atingisse a maioridade.

Jean d’Craon não estava interessado em esperar até lá, e dez meses depois ele anunciou o noivado de Gilles com Beatrice de Rohan, sobrinha do Duque de Borgonha. Por alguma razão, não há registro do porquê o casamento nunca ter sido realizado.

Só após Gilles completar 16 anos o tema casamento foi mencionado novamente. Sob orientação de seu avô, Gilles sequestrou sua prima Catherine de Thouar. Catherine era filha de Milet de Thouars, cujas terras em Poitou eram adjacentes às propriedades dos de Rais. Apesar de ter sido sequestrada de casa e ter três dos seus resgatadores, incluindo um tio, lançados nas masmorras de Champtocé, Catherine casou-se com o primo em 1420. Após longas negociações, no curso das quais Milet de Thouars morreu de uma forte febre, os reféns mantidos nas masmorras de Champtocé foram libertados e o casamento reconhecido pelas autoridades eclesiásticas. As condições na prisão foram duras demais para os três prisioneiros, e o tio de Catherine morreu pouco depois. Os outros dois, cujas identidades são desconhecidas, nunca se recuperaram por completo.

O Santo e o Pecador

Sei que para alguns pode ser chato entrar num blog sobre serial killers e ter que ficar lendo sobre a história da França. Cadê o sangue? As atrocidades? Muitos leitores não devem ter interesse neste contexto histórico em que viveu Gilles de Rais, mas se você chegou até aqui é porque ou você não tem coisa melhor para fazer ou é tão psicopata quanto nós do Aprendiz Verde (aqueles que querem TODOS os detalhes possíveis). Então, após levá-los por um pequeno resumo da Guerra dos Cem Anos (Shakespeare escreveu seis peças falando sobre o assunto, e livros de história do primeiro grau tem capítulos inteiros a respeito – e nós aqui mencionamos apenas algumas palavras), você leitor é convidado a mergulhar só mais um pouquinho na política do século XV. Por uma questão de brevidade (e também para que você não enjoe e saia daqui) iremos comprimir a próxima década em alguns parágrafos.

No auge de sua loucura, Carlos VI deserdou seu filho, o Delfim Carlos VII, e permitiu a negociação de um tratado de paz com a Inglaterra, que nomeava Henrique V herdeiro do trono francês. O tratado foi rejeitado por muitos nobres na França e eles começaram a considerar a possibilidade de nomear Carlos VII como Príncipe Regente. Entre os apoiadores da ideia estavam Jean d’Craon e Gilles de Rais. O apoio de Gilles a Carlos VII foi por acaso. Em 1429, Gilles visitava o Príncipe Regente em seu castelo em Chinon quando uma jovem moça camponesa que dizia ouvir vozes divinas apareceu. O discurso da moça deve ter sido espetacular, já que ela convenceu Carlos VII a lhe dar um exército com a promessa de libertar a cidade sitiada de Orleans e lhe entregar o trono francês. A moça ainda passou por algumas provas diante dos teólogos reais e  interrogatórios de autoridades eclesiásticas de Poitiers, que verificaram sua virgindade e suas intenções. Essa moça era ninguém menos que Joana d’Arc.

Vestida com uma armadura branca com o brasão de armas do Delfim, Joana viajou com um exército de 10 mil homens. Quem foi seu principal general e conselheiro? Ele mesmo, Gilles de Rais. Quem de vocês leitores sabiam que o principal conselheiro da famosa Joana d’Arc foi um serial killer comedor de criancinhas? Isso não aprendemos no colégio, não é mesmo? Ao longo do ano, várias batalhas se seguiram até Joana e Gilles libertarem Orleans e dar Reims ao Delfim. A 129 quilômetros de Paris, Reims era o local histórico onde os reis franceses eram coroados. Gilles de Rais foi encarregado de levar a santa crisma, ou o óleo de unção, de Paris até Reims para a coroação. Ainda era 1429, e os assassinatos em série de crianças começariam em menos de dois anos.

Intrigas políticas, disputas internas entre os franceses, e a primeira de várias vendas de propriedades de Gilles de Rais marcaram os 18 meses seguintes. Gilles havia recebido o título de Marechal da França, a mais alta patente que um soldado poderia receber. Era de fato o homem mais poderoso da França. Sua bravura e inteligência no campo de batalha eram largamente conhecidas e admiradas, mas no campo político era um completo desastre, sem nenhum tipo de habilidade para serpentear por entre risos falsos e tapinhas nas costas. Ele fez vários inimigos entre os poderosos da França, inimigos que ansiavam de alguma forma colocar as mãos sujas nele. E quando os rumores do derramamento de sangue de inocentes começassem, esses inimigos teriam a desculpa perfeita.

Serial Killers - Gilles de Rais - Coroação

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: A coroação de Carlos VII. Atrás do rei e em pé, a guerreira Joana d’Arc. Pintura de Jules Eugène Lenepveu. O quadro atualmente está exposto no Panteão de Paris. Créditos: Wikipedia.

George La Tremoille, conselheiro-chefe do rei, enxergou em Joana d’Arc uma ameaça ao seu próprio poder. Um oportunista do pior tipo, La Tremoille havia ascendido ao poder após sequestrar e matar Pierre de Giac em 1427 com a ajuda do Condestável de Richemont. Pierre de Giac era o conselheiro favorito de Carlos VII, e La Tremoille não o substituiu apenas ao lado do rei, mas também em sua cama, tendo se casado com a viúva de Pierre, Catherine – que foi suspeita de ser cúmplice no assassinato do marido. Logo depois de ser nomeado Chamberlain da França, La Tremoille se voltou contra Richemont e o baniu da corte de Carlos VII.

Enquanto Joana triunfava ainda mais e ficava em alta com o povo e o rei, La Tremoille via sua própria influência diminuir. Era hora de mais uma vez colocar sua língua bifurcada de cascavel em ação. Ele convenceu o rei a abandonar o cerco a Paris, onde o jovem Henrique VI havia coroado a si mesmo rei da França e da Inglaterra. Joana discordou da decisão e começou a cair em desgraça.

O poder de La Tremoille atingiu seu auge em 1430, quando Joana d’Arc foi ferida e capturada pelo Duque de Borgonha, aliado dos ingleses. Enquanto La Tremoille negociava um acordo de paz com os Borgonheses, Joana definhava numa prisão. Pelos costumes da época, ela poderia facilmente ter sido resgatada através de um pagamento, mas La Tremoille conseguiu convencer Carlos VII de que isto não seria prudente. Gilles de Rais também abandonou a Donzela de Orleans que tanto havia contribuído para a sua carreira.

No outono de 1431, Joana d’Arc foi queimada viva numa estaca em Rouen, em grande parte graças às malignas maquinações de La Tremoille. Ela foi considerada uma herege por vários anos, até a queda da cobra diabólica La Tremoille e ascensão dos aliados dela ao poder. Centenas de anos depois, Joana d’Arc foi alçada ao status de heroína pelos franceses; a jovem morta aos 19 anos foi canonizada no início do século 20 e o dia da festa em sua homenagem, no fim de maio, é um feriado nacional na França.

Para todos os efeitos, a carreira pública de Gilles se encerrou no começo de 1432 quando seu avô Jean d’Craon morreu. Em seu leito de morte, Jean demonstrou remorso pelo seu duro estilo de vida e arrependimento por ter criado o monstro Gilles de Rais. Seria o medo do que o esperava após cruzar o portão do inferno? Na tentativa de fazer as pazes com todos aqueles que havia prejudicado, ele distribuiu propriedades e dinheiro para seus camponeses, em compensação por tudo que havia roubado, e doações a dois hospitais. Ele deixou sua espada para René de Rais e renegou sua vida orgulhosa. A afronta pública a Gilles (privá-lo de alguns bens da família e doar sua espada a René) era uma mensagem do velho moribundo Jean sobre o que ele pensava do seu neto mais velho. A pedido dele, um funeral simples e humilde foi realizado para um dos homens mais poderosos da França.

Quando o serviço público militar de Gilles terminou, sua vida de devassidão e decadência começou. Livre da sombra do avô, acreditando em seu íntimo que estava acima das leis, da decência, e da moral, e ainda bastante rico, Gilles devotou o resto da sua vida a satisfazer seus demônios.

Os Assassinatos Começam

Com o acordo entre franceses e ingleses, a Guerra dos Cem Anos terminou e o rei Carlos VII retirou-se para as suas propriedades para começar a reinar um país finalmente em paz. As disputas políticas acalmaram-se de certa forma, e os nobres deviam dissolver os seus exércitos e voltar às suas próprias posses para reconstruir e reacumular a riqueza que havia sido perdida durante a guerra. Gilles, tendo sido aliado tanto de Joana d’Arc quanto de La Tremoille, ficou em uma posição complicada após a morte de seu avô. Mesmo que ambos tivessem anteriormente brigado por Gilles ter sido forçado a vender uma propriedade da família para pagar seu exército particular, seu avô tinha muita influência, o que beneficiava o neto. Quando La Tremoille foi preso e banido da corte, Gilles voltou a Champtocé.

A vida sedentária de um herói de guerra aposentado não servia para Gilles de Rais, um jovem cheio de energias cuja experiência de vida até aquele momento havia sido de glórias e carnificinas de batalha. Ele ansiava por emoções e sangue, e em busca disso, se tornou um macabro assassino.

Se as circunstâncias haviam mudado, Gilles não. “Atividades incessantes, mortes e violência juntamente com exibições teatrais foram as condições da sua existência”, escreveu o biógrafo Jean Benedetti em The Real Bluebeard (O Verdadeiro Barba Azul). Gilles fechou-se no seu castelo, renunciou a qualquer contato com mulheres e dedicou-se a patrocinar espetáculos teatrais e a organizar dispendiosas festas que reduziram a sua fortuna.

A sociedade francesa nutria grande interesse pela sua capacidade de ser violento; sob certas circunstâncias, tal capacidade foi legitimada e honrada. A urgência psicopata de suas íntimas necessidades estava camuflada na brutalidade da prática militar. Logo, ele colocaria em prática suas fantasias pedófilas e homossexuais. Em seu julgamento, Gilles contou aos inquisidores que matou pela primeira vez no ano em que seu avô faleceu, entre 1432 ou 1433. Em sua confissão, Gilles afirmou que em Champtocé matou crianças, cuja quantidade não tinha certeza. E que havia cometido com elas os pecados da sodomia e antinatural. Em dado momento após a morte de d’Craon, Gilles mudou com seus criados para Machecoul, onde os assassinatos começaram para valer.

Serial Killers - Gilles de Rais - Castelo de Machecoul

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: As ruínas do castelo de Machecoul, o castelo dos horrores de Gilles de Rais, na cidade de Machecoul, França. Créditos: Wikipedia.

Serial Killers - Gilles de Rais - Castelo de Machecoul

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: As ruínas do castelo de Machecoul, moradia de Gilles de Rais e palco de brutais assassinatos de crianças. Créditos: Google Street View.

 Serial Killers - Gilles de Rais - Castelo de Machecoul

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: Vacas pastam no lugar onde um dia crianças morreram. Créditos: Panoramio – Phil’Ours.

Machecoul, o Castelo dos Horrores

Como a preservação dos registros do século XV não era tão cuidadosa como costumamos supor em processos judiciais, as datas reais dos desaparecimentos de crianças são grosseiras, na melhor das hipóteses. Em alguns casos as datas podem ser atribuídas, mas em muitos outros o ano é bastante suspeito.

O primeiro sequestro atribuído a Gilles de Rais ocorreu, acreditam historiadores, por volta de 1432, quando Gilles de Sille, um primo de Gilles de Rais, supostamente sequestrou um jovem aprendiz, que deveria levar uma mensagem ao castelo em Machecoul. O garoto sem nome de 12 anos, aprendiz de Guillaume Hilairet, um mercador de peles, era o filho de Jean Jeudon. Quando o garoto desapareceu e Hilairet procurou Gilles de Sille, foi dito a ele que o garoto havia sido sequestrado por ladrões na vila de Tiffauges. No julgamento de Gilles, os eventos foram descritos por Hillairet e sua esposa, Jean Jeudon e sua esposa, e cinco outros de Machecoul. Não existem evidências ligando Gilles de Rais a este sequestro, mas ele foi acusado pela morte do garoto.

Em The Real Bluebeard, Jean Benedetti especula o que aconteceu ao jovem:

“Ele foi bem tratado e vestido com as melhores roupas que já tinha visto. A noite começou com um grande banquete e bebidas fortes, particularmente hipocraz, que agia como estimulante. O garoto foi levado a um quarto superior onde apenas Gilles (de Rais) e seu círculo imediato eram admitidos. Ele então foi confrontado com a verdadeira natureza da situação. O choque produzido sobre o menino quando ele conhecia o que aconteceria a ele era provavelmente a primeira fonte de prazer de Gilles.”

[Jean Benedetti]

Cúmplice em vários dos crimes, Etienne Corrillaut, conhecido como Poitou, testemunhou que de Rais estuprou o garoto enquanto ele era pendurado pelo pescoço em um gancho. Antes que a criança morresse, Gilles o desceu, confortou-o, repetiu o ato e ou o matou com as próprias mãos ou deixou que morresse.

Poitou testemunhou que as vítimas às vezes eram mortas por decapitação, algumas vezes por degolamento, algumas vezes por desmembramento, algumas vezes tinham o pescoço quebrado com um bastão, e que havia uma arma específica para a execução, conhecida como braquemard. Uma braquemard é uma espada curta e grossa, de dois gumes.

Gilles de Rais raramente deixava uma criança viva por mais do que uma noite de prazer, afirmou Poitou. Na maioria das vezes ele causava ferimentos mortais nas crianças antes de estuprá-las, obtendo um prazer macabro enquanto a criança agonizava até a morte. Ocasionalmente, ele praticava atos sexuais com crianças mortas. Já outras ele decapitava no momento em que ejaculava em suas entranhas.

Em sua própria confissão, Gilles testemunhou que beijava as crianças mortas e mantinha aquelas que possuíam membros e cabeça mais belos para admirá-las. Ele, então, abria cruelmente seus corpos e deleitava-se com a visão dos seus órgãos internos, masturbando-se com as vísceras (qualquer semelhança com Jeffrey Dahmer não é mera coincidência); frequentemente quando estas crianças estavam morrendo, ele sentava-se sobre as suas barrigas e sentia prazer em vê-los morrer, esfregando seu pênis, testículos e ânus e sorrindo ao mesmo tempo.

A maior parte dos corpos era descartada através de cremação na câmara dos horrores. O fogo queimava lentamente de forma a minimizar o cheiro, testemunhou Henriet Griart, outro cúmplice. Poitou também alegou que as cinzas eram jogadas em um fosso.

Os Conspiradores

Como vocês devem ter notado, o julgamento de Gilles de Rais revelou que ele não estava sozinho em sua perversidade. A princípio, ele manteve um número mínimo de cúmplices, mas conforme o tempo passava e o número de vítimas aumentava, mais pessoas, tanto homens quanto mulheres, eram introduzidos à carnificina. E isso é um fato bastante comum quando olhamos para nobres poderosos e assassinos da Idade Média. Elizabeth Báthory e Vlad Drácula são outros exemplos.

Os primeiros cúmplices foram os primos de Gilles de Rais, Gilles de Sille e Roger de Briqueville. Gilles de Sille parece ter sido o primeiro ajudante, trazendo a primeira e a segunda vítimas para Machecoul. Não há registro nos autos da participação dele nos aspectos sexuais dos crimes, mas ele era claramente um parceiro solícito no planejamento e limpeza.

Os primeiros cinco desaparecimentos aconteceram em um curto espaço de tempo, em algumas semanas, mostram as transcrições, apesar de as datas registradas não serem confiáveis. No primeiro e no segundo sequestros, de Sille desempenhou um papel fundamental, inclusive tendo sido visto vestindo um longo manto e um véu sobre o rosto enquanto falava com a segunda vítima, uma criança de 9 anos.

Os desaparecimentos de crianças causaram pânico no vilarejo de Machecoul, com os camponeses alegando uma presença sobrenatural. O testemunho de um pai, Andre Barbe, revelou que de Rais e seus criados inicialmente eram suspeitos de participar nos crimes. Ele acrescentou que ninguém ousava falar por medo dos homens do castelo do senhor de Rais; aqueles que se queixassem corriam risco de serem presos ou maltratados, ou de ninguém dar ouvidos às queixas. O testemunho de Barbe também revelou que o Castelo de Machecoul começou a adquirir uma sinistra reputação na região. Quando ele encontrou um homem de Saint-Jean-d’Angely e disse-lhe que era de Machecoul, o homem se assustou e, antes de ir embora apressado, disse que se comia criancinhas por lá.

Serial Killers - Gilles de Rais - O Verdadeiro Barba Azul

Na foto: Capa do livro The Real Bluebeard, de Jean Benedetti

Benedetti conta em The Real Bluebeard que em dado momento as crianças passaram a ser fornecidas a Gilles de Rais por uma mulher chamada Perrine Martin, apelidada de La Meffraye (O Terror). Muitos acreditam que a existência dessa mulher é mais lenda do que verdade. Ela percorreria o campo, atraindo quaisquer crianças que cruzassem o seu caminho ou que estavam cuidando de animais. Uma velha apelidada de O Terror e que sequestrava criancinhas indefesas parece mais com uma história que pais contam a crianças desobedientes. De qualquer forma, entendem agora de onde surgiram os Contos de Fadas e histórias como a do Homem do Saco?

Essa mulher, apesar de não ser mencionada na transcrição do julgamento, aparentemente é citada no testemunho de Guillaume Fouraige: “(Madame) Fouraige declarou que no período de um ano ela às vezes se encontrava com uma velha a quem não conhecia, que usava um vestido preto esfarrapado e um capuz preto; a mulher era pequena; uma vez ela levava um garoto consigo e disse que estava indo para Machecoul. Dois ou três dias depois, a testemunha a viu retornar sem a criança; ela disse que a havia deixado com um bom mestre.”, cita Benedetti em The Real Bluebeard.

Os desaparecimentos causaram comoção e desespero no vilarejo e de Sille foi forçado a inventar uma história para acalmar os pais que choravam por seus filhos. Ele admitiu que havia sequestrado as crianças, mas que agiu sob ordem do rei da Inglaterra. Segundo de Sille, as crianças seriam treinadas para servirem como pajens. Não se sabe se isso aliviou a dor dos pais, mas uma coisa é certa: os desaparecimentos continuaram.

Juntamente com a velha conhecida como O Terror, de Sille e de Briqueville, Poitou e Henriet foram introduzidos no círculo da devassidão. Poitou, que foi levado ao castelo como uma vítima e salvo por sua beleza, confessou ter ajudado de Rais na busca, morte e descarte das vítimas.

Magia Negra

Misticismo, espiritualidade e religião desempenharam um papel importante na vida de Gilles de Rais. A existência de uma aparente piedade entra em conflito direto com a vida secreta de homicídios que confessou. E isso levou alguns estudiosos a duvidarem da veracidade da reputação que a história lhe deu. Mas sabemos também que psicopatas são assim, duas caras. Na frente da sociedade eles são uma pessoa. Dentro dos seus aposentos, são outra completamente diferente. Gilles de Rais foi um generoso apoiador da igreja, construindo várias capelas e uma catedral, bem como fazendo doações para que sempre houvesse um clérigo para servir ao seu povo. Quando a sua fortuna diminuiu e Gilles precisou de dinheiro, ele não teve vergonha de penhorar o ouro de suas várias igrejas, mas isso não significava falta de fé, apenas falta de dinheiro.

Como companheiro de Joana d’Arc, ele foi testemunha dos seus milagres. Em um deles, Gilles observou surpreso uma mudança na direção do vento, o que favoreceu os franceses durante o cerco de Orleans. Tal mudança foi atribuída às preces de Joana, que implorou ao Senhor para que ele fizesse algo do tipo. Em outro milagre, ele viu a moça retirar uma flecha, ou dardo, do próprio ombro e se recuperar de um ferimento que teria deixado um cavaleiro comum de cama por um mês. Gilles testemunhou Joana pedir ajuda divina antes do cerco de Orleans, e quatro dias depois ela conseguiu o que os melhores soldados franceses não fizeram por mais de um ano. Ele também estava presente quando Joana fez várias profecias fabulosas que se tornaram realidade. Acreditar no sobrenatural não era difícil para ele e esta fé se estendeu através do que ele aprendeu na igreja até o seu trabalho com alquimia e, de acordo com os registros do julgamento, necromancia (arte de evocar os mortos) e adoração ao Diabo.

No século XV, a alquimia havia sido proibida pela igreja e pelo rei, mas isto não impedia os crédulos de buscarem a famosa pedra filosofal, que permitiria que eles transformassem chumbo ou ferro em ouro. As raízes da química moderna remontam a estes primeiros experimentadores, que apesar dos seus motivos, fizeram algumas das grandes descobertas que beneficiaram a humanidade. A maior parte dos alquimistas, no entanto, era de charlatões e vigaristas que usavam do ilusionismo ou truques mais elaborados para enganar os desavisados.

A ganância de Gilles de Rais fez dele uma presa fácil para alquimistas fajutos, e ele aparentemente nunca percebeu que estava sendo enganado. Seus biógrafos relatam dois episódios em que ele foi enganado por trapaceiros, cada uma mais ridículo do que o outro. No primeiro, seu padre favorito, Blanchet, apresentou-lhe um ourives (profissional que trabalha com metais preciosos) que supostamente havia descoberto uma maneira de converter prata em ouro. Gilles e o homem se encontraram numa taberna local onde de Rais deu-lhe uma moeda de prata. Gilles deixou-o sozinho para praticar sua arte, e ao retornar encontrou o ouvires bêbado e inconsciente. Aparentemente tudo que o homem conseguira fazer foi transformar um florim em uma jarra de vinho.

A segunda trapaça custou a Gilles um pouco mais de dinheiro.

Novamente Blanchet apresentou um mago que alegava ser capaz de invocar o demônio. Uma noite, com uma espada e vestido numa armadura branca, o mago, Jean de la Riviere, levou Gilles e seu pessoal para dentro da floresta e pediu que esperassem numa clareira enquanto ele partia para invocar Satã. Blanchet depois testemunhou ter ouvido um grande ressoar, que ele acreditava ser Riviere batendo na própria armadura, e então um Riviere pálido e assustado surgiu dizendo que havia visto o demônio sob a forma de um leopardo que correu para a floresta. Depois disso, e segundo o testemunho de Blanchet, de Rais, Riviere e os outros foram para Pouzauges, onde mergulharam em várias diversões e então dormiram.

Gilles estava convencido da sinceridade e habilidade de Riviere. Ele estava enfeitiçado, e Riviere sabia disso. O mago disse a Gilles que necessitava de alguns suprimentos para continuar suas invocações e Gilles deu a ele 20 ecus (tipo de moeda francesa da época), dizendo-lhe que retornasse assim que pudesse. Obviamente, Riviere desapareceu e nunca mais foi visto por aquelas bandas.

Invocando o Diabo

Gilles não estava interessado na alquimia apenas para recuperar sua riqueza, ele também ansiava por poder. O problema de bajuladores é que eles emburrecem o bajulado. A maioria das pessoas tem necessidade de atenção e em ser o centro das atenções. Ricões não tem esse problema, por isso, estar rodeado de sanguessugas alimentadores de ego pode ser tão prejudicial. E um desses bajuladores disse a de Rais que ele poderia usar um demônio para realizar as suas vontades, fazendo dele o homem mais poderoso da França. Ele comprou a ideia. Mas como fazer isso? Ele enviou seu padre Blanchet em busca de um homem que possuía o controle do submundo. Blanchet encontrou este homem na Itália, um francês chamado François Prelati. Contando histórias sobre a vida fabulosa que de Rais podia oferecer, Blanchet convenceu Prelati a acompanhá-lo até a propriedade do ex-Marechal da França.

Prelati era um belo jovem de 22 anos, ilusionista e charlatão, que exalava confiança e charme. Ele era inteligente e esperto, fluente em latim, italiano e francês, e Gilles foi com a cara dele de primeira. O modo como Gilles, de 33 anos, reagiu a Prelati foi como a de um adolescente apaixonado. Cego pela beleza, astúcia e boa lábia do rapaz, ele não conseguiu ver que Prelati o estava fazendo de bobo e tirando vantagem de sua hospitalidade.

Neste momento, Gilles de Rais estava vivendo em outro de seus vários castelos, o de Tiffauges, em Tiffauges, França. Navegue abaixo pelo castelo.

Prelati e Blanchet chegaram ao Castelo de Tiffauges em meados de maio de 1439, mas apenas na véspera do equinócio vernal – quando o Sol, no seu movimento aparente, passa do hemisfério sul para o hemisfério norte, marcando a mudança das estações – à meia-noite, uma hora em que os espíritos e forças místicas estariam particularmente ativas, foi que Prelatti e Gilles iniciariam o processo de invocação de um demônio. Por toda a Europa os camponeses sempre celebravam esta noite acendendo tochas nas ruas e nas praças. Apesar de as tochas serem abençoadas pelos padres, a celebração geralmente era conduzida por leigos. As celebrações da noite do equinócio eram uma continuação dos rituais pagãos teutônicos e ritos de fertilidade associados à agricultura, na época do solstício de verão.

Aquela não era a primeira vez que de Rais tentava invocar um demônio para atender seus desejos, mas era a primeira vez que participava ativamente da cerimônia. No século XV, quando tantos eventos naturais não eram compreendidos da forma que é hoje, Deus desempenhava um papel muito mais ativo e visível na vida diária dos cidadãos. Mudanças bruscas no clima, mortes prematuras ou coincidências misteriosas, por exemplo, eram vistas com misticismo pela população. Então não era incomum que um homem corajoso e assassino como Gilles agisse como uma criança assustada diante da ideia de invocar um demônio. Todos temem o desconhecido, não é mesmo? Também não seria justo julgá-lo como um covarde quando ele tremeu nas bases enquanto Prelati preparava seus feitiços tolos.

Pouco antes da meia-noite, Gilles, Prelati, Poitou, Henriet, Blanchet e Gilles de Sille entraram no salão inferior do castelo de Tiffauges. Ali, entre as tapeçarias, brasões de armas e artefatos de guerra, Prelati desenhou um grande círculo no chão e começou a traçar cruzes, símbolos misteriosos e sinais dentro dele. Gilles de Rais carregava com ele um livro enorme, encadernado em couro, com um grande fecho de metal. As páginas no interior estavam escritas em tinta vermelha… ou seria sangue? Havia um rumor circulando pelo vilarejo de que o senhor de Rais estava sequestrando crianças, assassinando-as e usando o sangue delas para escrever um livro de feitiços e encantamentos que estava preenchido com os nomes de vários demônios sob o seu controle (“bom, só falta agora a última parte do rumor para ele se completar!”, deve ter pensado Gilles).

O tempo todo, o showman Prelati avisava a todos que sob nenhuma hipótese eles deveriam fazer o sinal da cruz, não importa o quanto estivessem assustados. Ele ordenou que as quatro janelas do grande salão fossem abertas. Então, com as velas acesas e o salão preparado, o senhor do feudo ordenou que os seus serviçais deixassem ele e Prelati sozinhos. Essa dispensa deve ter sido um alívio para de Sille, que morria de medo do sobrenatural e já havia fugido por uma janela de Champtocé quando um mago convenceu os dois primos que um demônio estava presente na sala. Os serviçais esperaram nos aposentos de Gilles de Rais e Prelati começou o trabalho.

Além do livro com o sangue das crianças, Gilles segurava nas mãos uma nota que planejava entregar a Satã quando o Senhor das Trevas aparecesse. Nela, ele prometia oferecer a Lúcifer tudo o que ele desejasse – exceto a sua alma e sua vida – se o diabo lhe garantisse “apenas” uma fortuna fabulosa. Às vezes de joelhos, outras de pé, Prelati conduzia Gilles pela falsa cerimônia para invocar o demônio, que Prelati chamou de Barron. Por duas horas eles imploraram e suplicaram que Barron aparecesse, mas o demônio não deu as caras.

Em cima, no quarto de Gilles, os outros aguardavam nervosamente. Qualquer barulho de gato andando no telhado era motivo de desespero. Logo depois das duas da manhã, Prelati e de Rais se juntaram a eles, desapontados por Barron tê-los desprezado. A dupla não mencionou o aparecimento de nenhuma criatura com cascos. Felizmente para Prelati, ocorreu uma mudança no clima durante a cerimônia, causando uma mudança significativa no vento, assim como chuva e trovões. O sinal serviu apenas para aumentar a confiança de Gilles no jovem.

Nos dias seguintes, pressionado, Prelati tentou uma jogada que pensou que faria de Rais desistir de invocar o seu demônio. “Bom, meu senhor. Preciso então de ofertar coração, olhos e órgãos sexuais de uma criança sacrificada!”, disse o ilusionista. Bom, todos nós sabemos que isso não seria problema para de Rais. Muitos estudiosos acreditam que isto foi um blefe de Prelati, já que é improvável que de Rais o tenha confidenciado todos os seus perversos hábitos sexuais. Mal sabia o mago que a sua instrução seria prontamente atendida. O sacrifício veio depois de Prelati conseguir fazer Barron aparecer (obviamente o mago estava sozinho neste momento). O demônio veio e o espancou sem piedade. Trancados do lado de fora do salão, de Rais e seus criados podiam apenas escutar, horrorizados, enquanto Prelati era agredido. Blanchet, que claramente não acreditava em feitiçaria, disse posteriormente em seu testemunho que o som era como se alguém estivesse batendo num colchão de penas.

Em outra vez, Prelati (não preciso dizer que ele novamente estava sozinho, ou preciso?) invocou uma poderosa serpente. Horrorizado, ele correu da sala para os braços de Gilles de Rais, que também se assustou e correu até a sua capela, onde agarrou um crucifixo que continha uma lasca da Cruz de Cristo. Ao retornarem ao lugar da aparição da serpente, ambos estavam desapontados e aliviados em descobrir que ela havia retornado para o submundo.

As travessuras continuaram por mais de um ano, e só terminaram quando Gilles de Rais foi preso.

A Queda

Não é porque Gilles estava tentando invocar um demônio que a sua sede de sangue havia sido ignorada. Ao contrário, a devassidão e os assassinatos continuaram inabaláveis. Gilles cometeu vários deslizes e esteve próximo de ser pego, e historiadores especulam que René de Rais e outros parentes próximos estavam cientes dos atos de Gilles. O relacionamento entre René e o irmão era tenso, mas amável. René, que havia adotado o sobrenome do avô, la Suze, estava constantemente na cola do irmão devido aos seus atos dispendiosos. Como em tantas famílias, René e Gilles eram opostos em muitos aspectos, apesar de René ser tão corajoso quanto o irmão em batalha. René era igualmente devoto, mas econômico (bom, ser econômico em comparação com o irmão não era tão difícil). Ciente dos gastos exorbitantes do irmão, René conseguiu um decreto real proibindo Gilles de vender qualquer uma das propriedades da família, e ganhou o controle do castelo de Champtocé. Quando Gilles percebeu que o irmão iria se mudar para lá, entrou em pânico. René estava claramente tomando medidas severas de modo a limitar os gastos de Gilles e era apenas uma questão de tempo até que seu irmão caçula se dispusesse a tomar Machecoul também. Isto significaria a desgraça de Gilles de Rais, já que seu irmão poderia topar com os pedaços de corpos enfeitando o castelo . Gilles enviou Poitou e Henriet para Machecoul e ordenou que eles queimassem os corpos de 40 crianças ou mais que ele mantinha numa torre.

Eles obedeceram, mas aí já era tarde demais. Alguns amigos nobres espionaram os dois serviçais enquanto eles cumpriam sua tarefa macabra, mas a reação deles não foi de surpresa ou horror. Eles ignoraram o que haviam visto, afinal de contas, as vítimas eram apenas miseráveis crianças camponesas. “A justiça reagiu na ocasião de um outra maneira; sob certas circunstâncias a justiça pode ter fechado os olhos”, escreveu o historiador francês Georges Bataille.

O medo de Gilles de que René tivesse a intenção de ocupar Machecoul tinha fundamento. Três semanas após se mudar para Champtocé, René e um primo, Andre de Laval-Loheac ocuparam Machecoul para impedir Gilles de vender qualquer outra propriedade da família. Gilles de Sille e uma criada haviam sido encarregados de certificarem de que o castelo estava livre de evidências – as ferramentas de alquimia haviam sido destruídas quando Luís, o Delfim, visitou o castelo. Era trabalho de Silles se livrar dos ossos e ele falhou nessa tarefa. Dois esqueletos foram encontrados no jardim e o capitão da guarda interrogou Poitou e Henriet sobre eles. A dupla negou saber algo a respeito, o que era mentira, e o assunto foi abafado. Claro, estamos falando de uma das famílias mais poderosas da França. “Uma parede de silêncio foi construída em torno da família”, escreve Benedetti em The Real Bluebeard. “Além disso, se a história se espalhasse, os camponeses locais poderiam vir a público contar o que sabiam e toda a família cairia em desgraça.”.

Mas o tempo não estava ao lado de Gilles de Rais. Aposentado das forças armadas aos 35 anos, politicamente impotente e claramente louco, Gilles parecia um tubarão ferido em frenesi. Ele não possuía verdadeiros aliados nem dinheiro para pagar por um exército, ele estava em situação delicada aos olhos da toda poderosa igreja e o pior de tudo, suas propriedades eram cobiçadas por vários nobres. Como predadores rodeando um animal enfraquecido, seus inimigos esperaram o momento certo de atacar. Os dias de Gilles estavam contados, e nada sobrenatural ou coisa parecida poderia mudar isso.

O fim veio em 1440. Gilles, desesperado, reuniu um grupo de mercenários e rumou para a igreja de St. Etienne de Mermorte. Ele invadiu o lugar durante uma missa e com os olhos arregalados e empunhando um machado de dois gumes, ameaçou o padre empurrando-o para longe. O sacerdote era irmão do tesoureiro da Bretanha, encarregado de ocupar um castelo de propriedade de Gilles, o qual ele foi forçado a vender. Gilles exigiu que o padre renunciasse a reivindicação do bretão sobre a propriedade. Apesar de Gilles de Rais ter estuprado e assassinado com requintes de crueldade centenas de crianças, roubado e saqueado comerciantes e burgueses da Bretanha, Anjou e de sua própria província, Pays de Rais, e ter se envolvido com as artes proibidas da magia negra e alquimia, foi apenas após sequestrar um importante sacerdote dentro de uma igreja que alguém decidiu que ele havia ido longe demais. Não era segredo que Jean V, duque da Bretanha, cobiçava as terras e propriedades de Gilles de Rais, e faria o que fosse necessário para consegui-las. Ele firmou uma aliança com o Bispo de Nantes, Jean de Malestroit, que era inimigo de longa data de Gilles de Rais. Mais uma vez – como quando alguns nobres assistiram friamente os criados de Gilles descartarem as vítimas de Champtocé – as mortes de crianças camponesas não significavam absolutamente nada para o duque e o bispo. Para eles, não era uma questão de justiça, mas puramente financeira.

Serial Killers - Gilles de Rais - Igreja de Saint-Étienne-de-Mer-Morte.

*Clique na imagem para ampliar. Na foto: O que restou da Igreja de Saint-Étienne-de-Mer-Morte. Há 574 anos atrás, Gilles de Rais invadiu esta igreja e ameaçou o padre. Foi a atitude que seus inimigos precisavam. Esta pracinha hoje tem o nome de Gilles de Rais (é, não é só no Brasil que bandeirantes assassinos e estupradores dão nomes a praças, ruas, avenidas…). Créditos: Google Street View.

Secretamente, Malestroit começou a coletar depoimentos e reunir informações sobre Gilles de Rais. Apesar de ser um homem moldado a seu tempo e apto a jogar o traidor jogo da intriga e conspiração, é fácil imaginar como Malestroit deve ter se sentido quando começou a ouvir as macabras histórias de Gilles de Rais: o livro de feitiços escrito com sangue de crianças; como Gilles adorava sentar sobre a barriga de crianças moribundas e se masturbar, dentre outras. Ainda que seu único propósito fosse arruinar um desafeto político, o estômago do bispo deve ter se revirado enquanto ele ouvia testemunha após testemunha e suas histórias de crianças desaparecidas e homens suspeitos com os rostos cobertos por véus negros perambulando pelo campo e sequestrando jovens camponeses inocentes. Em julho de 1440, Malestroit veio a público com suas descobertas. Como bispo de Nantes, ele publicou uma bombástica coleção de entrevistas com sete plebeus que viviam sob o domínio de Gilles. Na denúncia, ele afirmou que “O senhor Gilles de Rais, cavaleiro, senhor, e barão, subordinado a nós e sob nossa jurisdição, com determinados cúmplices, cortou as gargantas, e hediondamente massacrou muitos garotos jovens e inocentes, praticando com estas crianças atos luxuriosos desnaturais e cometendo o pecado da sodomia, frequentemente convidando ou fazendo com que outros praticassem a terrível invocação de demônios, oferecendo sacrifícios e fazendo pactos com os últimos, e perpetrando outros enormes crimes dentro dos limites da nossa jurisdição…”.

Apesar das duras palavras oriundas da catedral de Nantes, Gilles permaneceu resoluto em sua audácia e ingenuidade. Ele era o Marechal da França, o comandante militar do rei, invocador de demônios e senhor de Pays de Rais. Ninguém ousaria ir a Tiffauges acusá-lo de heresia ou assassinato. Seus cúmplices, entretanto, não estavam tão confiantes. Gilles de Sille e Roger de Briqueville, tendo economizado dinheiro para uma situação como aquela, imediatamente fugiram de Tiffauges e desapareceram na história. Poitou, Henriet, Prelati e Blanchet permaneceram em Tiffauges com seu mestre para aguardar seus destinos. Henriet tinha tanto medo do que o futuro lhe reservava que considerou cortar a própria garganta. Em Agosto, o Condestável da França, irmão do duque da Bretanha, confiscou Tiffauges e esperou pela permissão das autoridades seculares para prender de Rais, que neste ponto estava entocado no castelo de Machecoul. Em um inquérito separado do eclesiástico, representantes do rei ouviram mais das mesmas evidências e também prepararam documentos para prender de Rais. Mas foi apenas em 14 de Setembro de 1440 que o bispo Malestroit solicitou um mandado de prisão para o grupo. Em uma carta a todos os padres sob sua jurisdição, ele ordenou que eles encontrassem Gilles de Rais, o prendessem e o trouxessem a Nantes para enfrentar uma inquisição.

No dia seguinte, homens do duque da Bretanha adentraram os portões de Machecoul e tomaram Gilles e seus criados sob custódia. Ele foi levado a Nantes, onde primeiro foi apresentado diante do tribunal secular para responder às acusações relativas ao seu ataque à igreja de St. Etienne. Curiosamente, a transcrição desta audiência não traz, em absoluto, nenhuma referência a nenhum dos assassinatos ou atitudes sobrenaturais. É interessante notar os conceitos morais da época, não?

Inquisição

Três dias após ser levado em custódia, e diferentemente dos plebeus, de Rais foi mantido em confortáveis aposentos em Nantes e o inquérito sobre as suas ações foi iniciado. Pierre de l’Hospital, juiz chefe da Bretanha, iniciou o processo conduzindo entrevistas com os pais e parentes das crianças desaparecidas de Machecoul. Uma mãe contou uma história comovente sobre ter sido coagida por Poitou a entregar-lhe o filho dela, e o senhor de Rais prometendo cuidar e educar o garoto. No dia seguinte, quando o garoto e os assassinos se preparavam para ir embora, a mãe mudou de ideia e implorou a de Rais que devolvesse seu filho. Gilles ignorou a presença da mulher e foi embora com a criança de 10 anos. A mulher nunca mais viu o filho.

l’Hospital e seu promotor, o frade Jean de Touscheronde, ouviram as queixas de 10 famílias cujas crianças haviam desaparecido e que culpavam de Rais pelos sequestros. De 18 de Setembro a 8 de Outubro, l’Hospital e o promotor ouviram gritos melancólicos de pais em luto, que temiam que seus filhos tivessem caído nas mãos de um monstro. Durante parte do inquérito, autoridades eclesiásticas também estiveram presentes, na pessoa do Vice Inquisidor de Nantes, Jean Blouyn.

Em 13 de Outubro, os juízes haviam ouvido testemunhos suficientes dos parentes das vítimas e indiciaram formalmente de Rais por 34 acusações de homicídio, sodomia, heresia e violação da imunidade da igreja. A última acusação tinha relação com o roubo e sequestro da igreja em St. Etienne. O indiciamento alegou que 140 crianças haviam sido vítimas de Gilles e seus comparsas, ao longo de 14 anos. O documento erra ao definir a data do primeiro crime em 1426, quando de fato ele não ocorreu antes de 1432. Incluídas nas acusações estava a afirmação de que Gilles, em vários momentos de sua vida, havia expressado remorso e vergonha por seus atos, prometendo realizar uma peregrinação a Jerusalém para lavar sua alma. Entretanto, isso nunca ocorreu e ele continuou matando.

 Serial Killers - Gilles de Rais - O Julgamento

Na foto: O julgamento de Gilles de Rais. Autor desconhecido. Créditos: Biblioteca Nacional da França.

Em pé diante das autoridades eclesiásticas e seculares, Gilles foi convidado a responder às acusações. Em vez disso, ele atacou verbalmente as autoridades, chamando-os de libertinos e simonitas (alguém que vende perdões eclesiásticos ou indulgências) e afirmando que ele preferia ser enforcado a responder àqueles clérigos e juízes. De fato, os religiosos não poderiam ser assassinos, mas certamente eram sujos e maquiavélicos. Quatro vezes os juízes pediram a Gilles que se defendesse, e quatro vezes ele os ignorou. Sem outra escolha, o bispo de Nantes excomungou Gilles de Rais. A audiência foi adiada.

Dois dias depois, um Gilles arrependido apareceu diante dos juízes. Tendo a comunhão e o rito de penitência negados e aparentemente temendo pela sua alma, Gilles reconheceu a autoridade do júri e admitiu ter cometido atos malignos e perpetrado os crimes descritos no indiciamento. Um Gilles choroso e humilhado pediu perdão ao tribunal pelos ataques verbais realizados antes. O vice inquisidor e bispo o absolveu e o readmitiu à igreja.

Gilles então passou a admitir todos os crimes de que fora acusado, exceto a invocação de demônios. Ele jurou sobre uma Bíblia e ofereceu-se para passar por uma prova de fogo que mostraria sua inocência. O promotor, no entanto, manteve a acusação e trouxe Poitou, Henriet, Prelati e Blanchet que também testemunharam as tentativas de Gilles de invocar o demônio. O testemunho dos cúmplices foi ouvido ao longo de cinco dias, e ao final, os juízes perguntaram a Gilles o que ele tinha a dizer. Cooperativo, mas ainda reticente, Gilles respondeu que não tinha nada a acrescentar e concordou que os testemunhos deveriam ser publicados como um aviso aos hereges.

Mas o promotor não ficou satisfeito com a resposta de Gilles e pediu que o tribunal autorizasse sessões de tortura para arrancar uma confissão do senhor de Rais. Os juízes concordaram e ordenaram que Gilles fosse levado à masmorra em La Tour Neuve. Eles acreditavam que uma visita à câmara de tortura soltasse a língua de Gilles. (Assim fica fácil condenar alguém, não?)

Forma de tortura na Idade Média

Na foto: Uma forma de tortura utilizada na Idade Média. Créditos: trendzified.

Confissão e Execução

Os juízes, em sua ignorância (ou maldade), estavam certos. Gilles, que sem dúvidas havia usado instrumentos de tortura durante seus dias de devassidão, não teve estômago (quem teria?) para enfrentar os equipamentos da inquisição. Depois de uma breve visita à prisão de La Tour Neuves, ele concordou em responder as questões dos juízes. Ele perguntou se podia confessar seus crimes em seus próprios aposentos, em vez de falar diante dos instrumentos de tortura no porão do castelo, e os juízes concordaram.

Com detalhes angustiantes, Gilles confessou diante do Bispo Jean Pregent e do juiz Pierre de l’Hospital. Sua confissão assinada admitia que havia sido dada voluntariamente; por livre e espontânea vontade (e, claro, dolorosamente). Ele disse aos dois juízes que era o único responsável por suas ações.

Ele cometeu seus crimes de acordo com a própria imaginação e fantasia, sem influência de ninguém e seguindo seus próprios instintos, unicamente para prazer próprio e deleite carnal, e sem nenhuma outra intenção ou fim, revela uma transcrição contemporânea da confissão. É possível que Gilles tenha destacado esse ponto em uma última tentativa de salvar a própria pele. O crime de homicídio de camponeses, mesmo que múltiplo, não era tão grave aos olhos da justiça francesa quanto a heresia. Se os juízes acreditassem que ele cometera os crimes em sacrifício a Satã, então a sua vida estaria perdida. Ainda havia uma chance de que ele pudesse ser perdoado pelas mortes.

Os juízes trouxeram Prelati para corroborar as afirmações de Gilles, e juntos eles confessaram terem colocado a mão de uma criança, o coração e os olhos, em um recipiente numa tentativa de invocar o demônio. Após os juízes terminarem com François Prelati, Gilles virou-se para ele e em lágrimas desejou-lhe o bem da forma mais piedosa, claramente indicando sua afeição pelo feiticeiro ilusionista.

“Adeus, François, meu amigo! Nunca mais nos veremos neste mundo; rezo para que Deus lhe dê muita paciência e compreensão, e certamente, desde que você tenha muita paciência e fé em Deus, nos encontraremos novamente na Grande Alegria do Paraíso.”.

[Gilles de Rais]

Gilles estava certo, ele nunca mais viu Prelati novamente. O feiticeiro foi condenado pelos seus crimes e sentenciado à prisão perpétua. Ele escapou, mas retornou à sua antiga vida e foi preso, julgado e condenado novamente por heresia. Desta vez ele foi enforcado.

Na manhã seguinte, Gilles repetiu sua confissão diante do tribunal eclesiástico, onde admitiu que descontrolado, ele se dedicou a tudo que o lhe agradava, e se satisfez com cada ato ilícito.

Novamente o tribunal o excomungou, e ele caiu ao solo implorando, suspirando e gemendo, de joelhos, para ser reincorporado à igreja. O bispo de Nantes, usando em suas palavras o amor de Deus, absolveu Gilles da sentença de excomunhão e deu a ele as boas-vindas de volta à Santa Madre Igreja, permitindo que ele recebesse os sacramentos. Reincorporar Gilles à igreja permitiria que ele morresse com o perdão divino e fosse sepultado em solo sagrado, disse o bispo quando a sentença de morte foi anunciada.

Pouco depois, o tribunal secular anunciou um veredito similar para Gilles, Poitou e Henriet. Eles deviam morrer enforcados e ter seus corpos queimados até as cinzas. Gilles pediu para ser executado primeiro, para servir de exemplo para seus criados. O pedido foi atendido.

Gilles de Rais e seus cúmplices subiram ao patíbulo em 26 de Outubro de 1440. Antes de sua execução, Gilles proferiu um longo sermão à grande multidão que se reuniu para o evento, discorrendo sobre os males de uma juventude desenfreada. Ele admitiu seus pecados à multidão, exortou-os a educar suas crianças de forma rigorosa e terem fé na igreja. Seu sermão, infelizmente, perdeu-se na história, mas os registros que restaram sobre ele indicam que foi um belo exemplo de humildade cristã e arrependimento.

Martin, a “Velha Terror” foi supostamente sentenciada à prisão perpétua em Nantes, Bretanha, onde confessou seus pecados antes de morrer.

Serial Killers - Gilles de Rais - A Velha Terror

Na foto: Ilustração da Velha Terror oferecendo uma maçã a uma criança. Créditos: Musée Pays de Retz.

Um Homem Inocente?

Então, Gilles de Rais pertence à galeria dos vilões ou ao panteão dos heróis? Bom, sua confissão, assim como o de seus cúmplices, foi obtida sob tortura. Sendo confrontado com métodos horríveis de tortura, quem não confessaria os crimes dos quais foi acusado? É muito provável que no momento em que foi acusado, Gilles percebeu que sua vida estava perdida. Juízes do século XV buscavam confissões e punições, e nunca a verdade. Olhando para julgamentos medievais, chega a ser risível a forma como eram dirigidos. O próprio julgamento de Gilles nos mostra o quanto aquele tempo não deve ser levado a sério, muito menos suas autoridades. Décadas de assassinatos bárbaros podia, mas ameaçar um padre dentro de uma igreja não. Nunca seria permitido a Gilles ficar de pé diante de uma multidão e fazer o seu discurso de inocência, ao contrário, ele foi levado aos porões da tortura para “confessar” para depois ser imediatamente executado.

O que dizer então das queixas dos pais das crianças desaparecidas? Eles não tinham nenhuma razão para mentir, muito menos mentir sobre um nobre bastante poderoso. E isso é um ponto importante aqui. Naquela época existia uma grande diferença entre nascer plebeu e nascer nobre. Como dito no post sobre Drácula, nascer um nobre era como ser automaticamente canonizado. Existia um verdadeiro precipício entre nobreza e o resto. O poder era tanto que camponeses podiam ser tratados como cachorros, serem massacrados em assassinatos rituais, e mesmo assim era algo normal. Eles tinham que conviver com isso e não podiam fazer e nem falar nada. Por isso, os testemunhos de camponeses humildes devem ser levados bastante a sério.

A verdade sobre Gilles de Rais nunca será conhecida. Mas uma coisa está clara: sua confissão foi coagida, e portanto maculada. A dos seus cúmplices também. Eles podem ter sido coagidos a confessar dezenas de assassinatos inexistentes. Já outros testemunhos, como a dos nobres que supostamente viram os cúmplices de Gilles se desfazendo de corpos em Machecoul, podem ter sido inventados para prejudicar de Rais. Sabemos que havia poderosos por trás da queda do Marechal e, como no mundo de hoje, cada um leva um pouco com o desvio da verba. Estudiosos acreditam ser pouco provável que Gilles tenha assassinado centenas de crianças, mas como diria minha avó, onde há fumaça…

Epílogo

Esta história poderia continuar até amanhã, mas não vamos sobrecarregar o leitor que chegou até aqui com mais intrigas nojentas entre nobres. Podemos resumir a vocês que as propriedades de Gilles de Rais foram pulverizadas em disputas e processos judiciais.

Gilles de Rais foi enforcado e teve o corpo lançado numa fogueira, mas antes que as chamas o consumissem, o Bispo o retirou de lá e o sepultou num ritual católico. A igreja onde seu corpo descansava foi destruída durante a Revolução Francesa. Sua esposa Catherine de Thouars, foi apenas uma nota de rodapé em sua vida e logo após o casamento saiu de cena. Seu nome ressurgiu após a execução de Gilles, quando ela casou com Jean de Vendome, um homem rico e poderoso, aliado do duque da Bretanha. A filha de Gilles com Catherine, Marie, sobre quem se sabe ainda menos, se casou com um almirante da marinha francesa que, por incrível que pareça, era inimigo do duque da Bretanha. Tempos depois da morte do pai ela construiu um altar no local onde ele foi sepultado que, com o tempo, se tornou um local de peregrinação para mulheres grávidas que ansiavam por uma abundância de leite materno. O altar foi destruído junto com a igreja durante a Revolução Francesa. Marie morreu com apenas 28 anos e não deixou filhos.

René virou o Barão de Rais e, apesar da cobiça do duque da Bretanha, controlou o Castelo de Champtocé até sua morte. Ele morreu em 1473, aos 66 anos, deixando uma filha que também morreu sem deixar descendentes. A linhagem dos de Rais, tão habilmente preservada por Jean d’Craon, desvaneceu-se na escuridão.

No século XVIII, Gilles de Rais ganhou um forte aliado: ninguém menos que Voltaire. O filósofo gostava de citar o serial killer em suas aulas como um exemplo infeliz do fanatismo religioso agravado pela ignorância e superstição. Um dos pilares do Iluminismo, Voltaire tinha razão em duvidar do sistema judicial de sua época, dizendo que a Inquisição Medieval não permitia um julgamento justo.

Inocente ou não, a história já deu o seu veredito, e de Rais perdura na galeria dos mais sanguinários assassinos que o mundo já viu. Sua infâmia é tanta que ele foi a inspiração para a lenda do Barba Azul, o mais famoso serial killer dos contos de fadas. Harold Schechter, em seu livro Serial Killers – Anatomia do Mal, diz que:

“O monstruoso legado de Gilles de Rais sobreviveu de forma disfarçada nos contos folclóricos sobre o Barba Azul, mais conhecido na versão de Charles Perrault… Na história de Perrault, a noiva do Barba Azul entra em um quarto proibido no castelo do marido e descobre os corpos desmembrados de suas antigas esposas, um matadouro que evoca a torre de Gilles de Rais, abarrotada com os restos mortais de suas vítimas destroçadas. Mas uma pergunta: como foi que de Rais, de torturador de crianças e assassino, transformou-se em um viúvo homicida? De acordo com sua biografia, escrita por Leonard Wolf, os criadores dos contos do barba Azul transformaram o vilão em um assassino de adultos para tornar a memória dos crimes hediondos do barão mais fácil de absorver.”.

[Harold Schechter. Serial Killers – Anatomia do Mal. Página 107]]

Como uma última ironia do destino, o Castelo de Tiffauges, palco de dezenas de assassinatos cruéis, abriu suas portas aos turistas no início de Abril último. Como diz esta reportagem do Ouest France, crianças e professores podem agora mergulhar no coração da aventura medieval e explorar mil anos de história numa das maiores fortalezas do ocidente. Cerca de 13 mil crianças já passaram pelo castelo somente neste ano de 2014. Olhando a foto da matéria, é no mínimo antagônico ver crianças felizes e sorridentes no mesmo local onde 580 anos antes, crianças como elas estavam sendo torturadas, estupradas e massacradas a golpes de machado. Talvez Gilles de Rais os esteja observando, e obtendo o mesmo prazer de quando levava um deles para os seus aposentos.

Linha do Tempo

Data


Acontecimento politico


Acontecimento familiar


1400A Guerra dos Cem anos já se estendia por mais de 60 anos. Carlos VI, o Rei Louco, está no trono da França.Jeanne la Sage, última da linhagem de Rais, nomeia Guy de Laval como seu herdeiro, mas ele deve adotar o sobrenome e o brasão de armas dos de Rais.
1402

-


Jeanne la Sage renega Guy de Rais, deixando suas posses para Catherine de Machecoul. Guy de Rais contesta a decisão.
1404

-


Jean d’Craon, filho de Catherine, negocia um casamento entre sua filha Marie e Guy de Rais. Nasce Gilles de Rais.
1407

-


Catherine morre. Guy de Rais e sua família mudam-se para o Castelo Machecoul. Nasce René de Rais.
1415Batalha de Agincourt.

A mãe de Gilles, Marie de Rais morre. O pai de Gilles, Guy de Rais morre.


Amaury d’Craon, filho de Jean d’Craon, morre em Agincourt.


1416Explode uma Guerra Civil na França quando o duque de Borgonha, o Delfim Carlos VII e outros, passam a disputar o trono de Carlos VI.Jean d’Craon, avô de Gilles e René,  consegue a custódia dos netos.
1417Jean d’Craon arranja um casamento entre o jovem Gilles, de 13 anos, e a filha órfã do Lord de Hambye.
1419Aliados de Carlos VII assassinam o duque de Borgonha durante negociações de paz.Gilles de Rais fica noivo de Beatrice de Rohan, sobrinha do duque da Bretanha. O casamento nunca se consumou.
1420Carlos VI deserda o filho. Um tratado de paz com a Inglaterra nomeia o inglês Henrique V herdeiro do trono francês.Gilles de Rais sequestra sua prima, Catherine de Thouars. A esposa de Jean d’Craon morre. Ele se casa com a avó de Catherine de Thouars, Anne de Sille.
1421

-


Gilles de Rais e Catherine de Thouars se casam.
1422Henrique V da Inglaterra morre. O Rei Louco Carlos VI morre.

-


1424-Gilles assume o controle das suas propriedades contra a vontade do avô.
1426Os franceses são derrotados em St. James e a Bretanha novamente declara Henrique VI rei da França.

-


1427Jean d’Craon é nomeado tenente geral do exército de Carlos VII.Poitou é sequestrado, mas passa a trabalhar para Gilles.
1428O cerco de Orleans começa.

-


1429

Joana d’Arc chega à corte de Carlos VII em Chinon. Joana d’Arc e Gilles de Rais libertam Orleans.


Carlos VII é coroado em Reims.


A filha de Gilles, Marie de Rais, nasce em Champtocé. Gilles começa a vender suas propriedades para custear seu estilo de vida extravagante.
1431Joana d’Arc é queimada na fogueira.Os assassinatos de crianças começam.
1432Morre o avô de Gilles de Rais, Jean d’Craon. Início dos assassinatos de crianças.
1435

-


Familiares de Gilles se mudam para suas propriedades para evitar que sejam vendidas.
1439

-


Pobre e em desgraça, Gilles começa a se envolver com alquimia e magia negra.
1440

-


Gilles e um grupo de mercenários invadem e assaltam uma igreja em St. Etienne. Um inquérito secreto é iniciado.


Gilles é preso e acusado de infanticídio e heresia.


Gilles confessa.


Gilles de Rais, 35 anos, é enforcado em Nantes.


1697

-


Charles Perrault lança "Barbebleu" ("Barba Azul"), um conto de fadas que acredita-se ter sido inspirado em Gilles de Rais.
1885

-


A primeira monografia sobre o serial killer, "Gilles de Rais, maréchal de France, dit 'Barbe-Bleue'", é escrita por l'abbé Bossard. Clique neste link para ler a monografia digitalizada.
2014

-


Em Abril, o Castelo Tiffauges é aberto para visitação. Escolas de toda França fazem caravanas até lá.

Informações

Serial Killers - Gilles de Rais -  Info

Nome: Gilles de Rais

Conhecido como: O Verdadeiro Barba Azul

Nascimento: Setembro de 1404 ou 1405. Castelo de Champtocé, comunidade de Champtocé-sur-Loire, região de Pays de la Loire, França.

Ocupação: Marechal da França, de 1420 a 1436. Lutou com honras em batalhas da Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França. Entre elas destaca-se o Cerco a Orléans, Batalha de Jargeau e Batalha de Patay.

Acusações: Heresia e assassinatos

Vítimas confirmadas: 140

Local dos assassinatos: Champtocé-sur-Loire; Machecoul e Tiffauges, França.

Período: 1432-1440

Captura: 14 de Setembro de 1440

Julgamento: Acusado em 29 de Julho de 1440. Seu julgamento iniciou-se em 17 de Setembro de 1440.

Pena: Condenado a morrer por enforcamento e ter seu corpo queimado.

Morte: 26 de Outubro de 1440, Nantes, França.

Foto: Imagem publicada em 1921 na obra Handbuch der Sexualwissenschaften, de Albert Moll.



Fontes consultadas: [1] Jean Benedetti – The Real Bluebeard; [2] Ouest France – Des visites du château dédiées aux scolaires; [3] Harold -Schechter Serial Killers Anatomia do Mal; [4] Crime Library; [5] The Telegraph, 17 de Junho de 1992 – Second Chance for Bluebeard; [6] Musée Pays de Retz, disponível em http://museepaysderetz.free.fr/gilles-retz-1.html; [7] Le Procès de Gilles de Rais (Georges Bataille 1977) – Biblioteca Nacional da França, clique aqui para acessar (necessário ter instalado o Microsoft Silverlight); [8] L’Abbé Eugene Bossard – Gilles de Rais, Maréchal de France, BARBE-BLEUE.

Esta matéria teve colaboração de:

marcus

Traduções

daphine

Texto e revisão

Revisão

Psicóloga forense

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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