Serial Killers: Os Assassinos Ludwig

Verona, Itália – é o cenário fictício para a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Mas Verona também foi o local escolhido por uma dupla de serial killers...
Serial Killers - Os Assassinos Ludwig

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - CapaOs Assassinos Ludwig

Verona, Itália – é o cenário fictício para a tragédia romântica de Shakespeare, Romeu e Julieta. Mas Verona também foi o local escolhido por uma dupla de serial killers que fizeram o que os famosos americanos Leopold e Loeb poderiam fazer se não tivessem sido presos após seu primeiro assassinato.

Em “A Enciclopédia dos Serial Killers”, Brian Lane e Wilfred Gregg descrevem Wolfgang Abel e Marco Furlan como colegas de escola com um ano de diferença na idade, ambos vieram de famílias privilegiadas e ambos eram muito inteligentes. Abel era matemático e Furlan formou-se posteriormente em engenharia de computação. Entretanto, não era a vida monótona de escritório que a eles interessavam, e sim a do crime. Com ideias macabras de limpar a sociedade dos impuros, eles começaram sua carreira criminosa queimando vivo um cigano em seu carro, em 1977. Em seguida eles foram para a cidade de Pádua, onde esfaquearam até a morte o funcionário de um cassino viciado em drogas e um garçom homossexual. Eles aumentaram sua brutalidade assassinando a machadadas uma prostituta e a marteladas dois padres. Em 25 de Maio de 1981 voltaram ao seu modus operandi anterior queimando vivo um caronista que dormia na torre de San Giorgio, local conhecido em Verona por abrigar mendigos e viciados em drogas.

Mas todos estes cinco assassinatos foram fichinha perto do que eles fizeram em seguida.

Em 20 de Julho de 1982, os padres Gabriele Pigato e seu irmão, padre Giuseppe Lovato, ambos na casa dos setenta anos de idade, caminhavam por uma estrada em Vicenza quando foram atacados a marteladas pela dupla de serial killers. Padre Gabriele morreu na hora e seu irmão pouco depois no hospital. Sete meses depois um crime digno de filme de terror, eles assassinaram o padre Don Armando Bison martelando um prego em sua testa, na sequência penduraram uma cruz de madeira no prego e o empurrou ainda mais no crânio para se certificarem de que a cruz estaria bem fixada.

Em quase todas as cenas de assassinatos, a partir de 1980, eles deixavam notas que explicavam o motivo dos crimes. A jornalista Laura Coricelli, que cobriu o caso para um jornal italiano, escreveu que eles também enviavam essas notas para jornais alegando outros três assassinatos de balconistas de lojas. Nas notas, eles diziam ser os últimos dois nazistas sobreviventes e que suas vítimas estavam entre aqueles que “haviam traído o verdadeiro Deus” ou que eram “pessoas inferiores”. Eles assinavam como “Ludwig”. Um trecho sempre presente nas notas dizia:

“LUDWIG

A NOSSA FÉ É O nazismo

 A NOSSA justiça É A morte

A NOSSA democracia É O ASSASSINATO”

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - NotaNa foto: Cópia de uma das notas dos assassinos Ludwig deixada numa cena de assassinato. Créditos: Wikipedia.

Matar uma pessoa por vez, aparentemente não estava satisfazendo o apetite da dupla de assassinos, por isso os assassinos Ludwig, como ficaram conhecidos, incendiaram um prédio em Milão que abrigava um cinema pornô, matando seis pessoas. Uma das vítimas, Livio Ceresoli, um médico de 46 anos, não estava no cinema, mas morreu tentando ajudar quem estava dentro a sair. Abel e Furlan saíram então em viagem pela Europa e sete meses depois eles cometeram uma atrocidade ainda maior. Em 17 de Dezembro de 1983, eles incendiaram uma boate em Amsterdã – Holanda, matando treze pessoas. Em seguida eles incendiaram a boate Liverpool, em Mônaco, matando uma mulher e ferindo mais de quarenta pessoas. No local, eles deixaram uma nota que dizia, dentre outras coisas, “Em Liverpool você não fode!”. O fim da linha para a sinistra dupla chegou quando eles tentaram matar 400 pessoas dentro da boate Melamara, na cidade de Castiglione delle Stiviere, Itália. Eles trancaram a saída de emergência da boate e encharcaram de gasolina o interior da mesma. Mas eles não contavam que o local era a prova de incêndio, uma medida tomada pelos administradores da boate após o incêndio perpetuado pelos mesmos assassinos anos antes no cinema pornô em Milão. Wolfgang Abel e Marco Furlan foram salvos de serem linchados pelos presentes por seguranças da boate. Acabava ali a terrível carreira de assassinatos da dupla que vitimou 28 pessoas e deixou 39 outras feridas.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Pigano e LovatoNa foto: Os irmãos Padre Pigato e Padre Lovato, mortos a marteladas em 20 de Julho de 1982. Créditos: l’Unitá.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - JulgamentoNa foto: Marco Furlan e Wofgang Abel durante o julgamento da dupla. Créditos: l’Unitá.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Julgamento 2Na foto: Marco Furlan e Wolfgang Abel durante julgamento. Data: 1 de Dezembro de 1986. Créditos: l’Unitá.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Julgamento 3Na foto: Wolfgang Abel e Marco Furlan durante julgamento. Data: 1 de Dezembro de 1986. Créditos: l’Unitá.

Presos, os dois foram a julgamento no final de 1986. Abel tinha apenas 27 anos e Furlan, 26. A letra de Furlan era compatível com as notas “Ludwig”. No apartamento de Abel a polícia encontrou um livro com o nome “Frei Ludwig” destacado. Testemunhas também os colocaram nas cenas dos crimes; vinte e sete acusações de assassinatos foram levantadas contra eles, mas a dupla de serial killers foi considerada culpada de apenas 10. Wolfgang Abel e Marco Furlan foram considerados parcialmente insanos e devido às tentativas de suicídio na prisão, a pena foi reduzida há 30 anos. Entretanto, eles cumpriram apenas três anos e foram autorizados a viver em “custódia aberta”, sendo transferidos para a vila de Casale di Scodosia (Furlan) e Mestrino (Abel) onde viviam normalmente, tendo apenas que reportar regularmente à polícia o que faziam. Em Fevereiro de 1991, Furlan fugiu do país, sendo recapturado em maio de 1995. Durante os quatro anos em que permaneceu em fuga ele viveu em Creta (Grécia), com um nome falso.

Em abril de 2008, Furlan apelou para sair em liberdade condicional, mas o pedido foi negado. Um ano depois ele conseguiu sair em liberdade condicional e em 12 de Novembro de 2010 Marco Furlan completou com sucesso seu programa de liberdade condicional e hoje é um homem livre. Segundo o site italiano Serial Killer, Abel passou por tratamento psiquiátrico durante anos até ser eventualmente liberado para sair da vila de Mestrino sob responsabilidade dos seus pais e em liberdade vigiada. Em 2011, o site italiano Il Gazzettino publicou uma matéria mostrando que Abel atualmente trabalha como motorista. Formado em Matemática, o serial killer diz se contentar com o trabalho que lhe permite também atuar com agricultura. Segundo a reportagem, o serial killer continua sendo vigiado pelas autoridades. Numa entrevista dada a jornalista Raffaella Fanelli, ele se diz inocente das acusações.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - ReportagemNa foto: “Sou inocente”, disse Wolfgang Abel para a jornalista Raffaella Fanelli nesta reportagem de 2010. Créditos: Raffaella Fanelli.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Reportagem Na foto: Reportagem da jornalista Raffaella Fanelli sobre Wolfgang Abel e Marco Furlan. Na imagem maior as cinzas do cinema pornô Eros em Milão que vitimou seis pessoas. Créditos: Raffaella Fanelli.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Reportagem Na foto: Após sair em liberdade em 2010, o serial killer Marco Furlan é clicado andando tranquilamente pelas ruas de Milão. A legenda da reportagem diz: “Com gravata e mochila. Milão, Marco Furlan, 51 anos, sai de casa e, muito pontual, vai para o local de trabalho onde atua como consultor de informática. A aparência bem cuidada faz com que se pareça um empregado modelo.” Numa frase atribuída a ele e que também ilustra a matéria, ele diz: “Eu matei e não podia fazer outra coisa: eu não conseguia me controlar. Mas então eu me comportei bem na prisão, e aqui estou.”. Créditos: Raffaella Fanelli.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Reportagem Na foto: Reportagem da jornalista Raffaelle Fanelli sobre o serial killer Marco Furlan. Créditos: Raffaella Fanelli.

A criminologia não é uma ciência exata, ao contrário, é empírica e baseada em observações. Talvez por isso a dúvida caminhe tão perto quando analisamos um crime ou tentamos classificá-lo. Muitos leitores podem se sentir “encucados” com o fato de Wolfgang Abel e Marco Furlan serem tachados de serial killers. De fato, o comportamento criminoso de ambos pode fazer alguns duvidar disso, afinal, eles agiam em dupla e mataram várias pessoas ao mesmo tempo, além disso não assassinavam um perfil específico de vítima e tinham o modus operandi  variável.

Mas eles são sim serial killers. No post Qual a diferença entre serial killers, mass murderers e spree killers?  escrevi que uma das principais características para diferenciar um serial killer dos outros dois é que o serial killer costuma agir sozinho, como um lobo. E como eu sublinhei: “costuma”. Essa não é uma característica absoluta e a mais otimista das estatísticas diz que em torno de 28% dos serial killers agem em dupla. Por que dois serial killers se unem em prol do mesmo objetivo ainda é uma pergunta difícil de responder. O recente caso dos Matadores de Santa Ana é um outro exemplo, e uma análise melhor sobre a questão pode ser lida clicando no link anterior. Portanto, não é porque serial killers agem em dupla que eles não podem ser classificados de serial killers.

Outro ponto que pode levantar dúvidas é o fato de Abel e Furlan assassinarem várias pessoas ao mesmo tempo num mesmo local, como os incêndios nas boates. Alguém poderia dizer que tal comportamento é próprio dos assassinos em massa, entretanto, o assassino em massa age uma única vez matando o maior número possível de vítimas e, na maioria das vezes, suicida-se ou é morto pela polícia após o ataque. Talvez então, Abel e Furlan sejam spree killers? Também não. Apesar dos assassinatos de spree killers ocorrerem em locais distintos, suas farras homicidas são consideradas eventos únicos, isso porque não há o que os especialistas chamam de “resfriamento emocional”, que é o período compreendido entre os assassinatos, onde o assassino leva uma vida normal. Tal período pode ser de dias ou até anos, e é encontrada apenas entre os serial killers. O intervalo entre o primeiro e o segundo assassinatos de Abel e Furlan foi de um ano e quatro meses. Nos três anos seguintes, eles mataram apenas três pessoas, em intervalos de um ano. A partir de 1983, com uma urgência maior em matar, os assassinatos passaram a ocorrer em períodos de apenas alguns meses.  Analisando apenas essa característica – intervalo de tempo – já poderíamos classificá-los como serial killers.

Aprendemos também que serial killers costumam matar pessoas com o mesmo perfil. A resposta para isso é que determinado tipo de vítima representa uma fantasia em sua mente. Jeffrey Dahmer assassinava somente jovens homens atléticos, já Ted Bundy somente mulheres jovens, lindas e de cabelos lisos partidos ao meio, já Ed Gein mulheres de meia idade. Robert Pickton e Robert Hansen somente prostitutas. Pedro Lopez meninas. Olhando para as vítimas de Abel e Furlan, não vemos um mesmo perfil, eles assassinaram de prostitutas a padres, de frequentadores de boates a viciados em drogas. Entretanto, as vítimas claramente eram objetos de fantasia em suas mentes. Se pudermos colocar suas vítimas dentro de um perfil “global”, elas se enquadrariam num perfil de, digamos, “lixos humanos” – prostitutas, homossexuais, viciados em drogas, mendigos – ou seja, pessoas que os assassinos, em suas visões distorcidas da realidade, classificavam como inferiores e por isso deviam morrer. Mas e os padres? Padres também eram vistos por eles como pessoas impuras. Segundo Abel e Furlan, os religiosos foram mortos pelo simples fato de que, certamente, em suas juventudes, eles também teriam cometido algum tipo de pecado. Nesse sentido fica fácil entender o porquê dos incêndios em boates – tais locais são antros de perversão; seus frequentadores pecadores. Em resumo, Furlan e Abel assassinavam pessoas que julgavam a escória da sociedade e, de algum modo, havia pecado (ou estavam pecando, como os mortos nas boates). Eles podem ser incluídos no hall dos assassinos missionários, sendo os missionários um sub-tipo bastante comum dentre os serial killers. Uma análise melhor sobre tais assassinos pode ser lida no caso Muhammad Ejaz. Muitos defendem psicopatas como Pedrinho Matador, afinal, serial killers como Pedrinho removem a escória da sociedade, pessoas que supostamente não deveriam viver. Mas o problema destes psicopatas assassinos (e já dissemos isso aqui várias vezes) é que não há como prever quem, em suas mentes distorcidas, deve ser eliminado. Quem defende tais assassinos deve ter a consciência de que você, a qualquer momento, pode ser vítima de um. Não importa se você é a Madre Teresa de Calcutá e está num evento beneficente dentro de uma boate. Se um Abel e Furlan da vida estiverem do lado de fora, eles irão queimar todos que estiverem ali dentro.

Para finalizar, Abel e Furlan compartilham de uma característica muito comum entre os serial killers: a prática de atos incendiários. O professor Harold Schechter diz em seu livro “Serial Killers – Anatomia do Mal, que “lançar bombas incendiárias em lojas e incinerar edifícios são, evidentemente, uma intensa expressão patológica de raiva e agressividade… há mais que uma mera perversidade por trás dos crimes incendiários dos serial killers… há sempre um motivo erótico na raiz do comportamento piromaníaco.”. Wilhelm Stekel diz em sua clássica obra “Sadism and Masochism: The Psychology of Hatred and Cruelty” que “o incendiário sente-se sexualmente excitado pelas chamas; ele gosta de vê-las queimar.”.

Segundo especialistas, queimar coisas é muitas vezes uma atividade sexual estimulante para os serial killers. A destruição de algo pelo fogo tem o mesmo peso perverso de destruir outro ser humano. É bem verdade que muitos serial killers com comportamentos incendiários não matam suas vítimas dessa forma, incendiando-as, entretanto, por esses psicopatas verem outros seres humanos apenas como simples objetos, a linha entre um ato incendiário e o assassinato de pessoas queimando-as vivas pode ser bastante tênue. E eu acho que o caso Abel e Furlan deixa isso bem claro.

Serial Killers - Os Assassinos Ludwig - Marco Furlan deixando o TribunalNa foto: O serial killer Marco Furlan espera um ônibus após sair do tribunal que o libertou definitivamente da prisão. Créditos: La Repubblica Milano.



Fontes consultadas: [1] Harold Schechter, Serial Killers – Antomia do Mal; [2] Brian Lane e Wilfred Gregg, A Enciclopédia dos Serial Killers; [3] Sadism and Masochism: The Psychology of Hatred and Cruelty, Wilhelm Stekel; [4] Ansa.it, La storia di Marco Furlan; [5] Crime About; [6] Serial Killer (Wolfgang Abel) – serialkiller.it; [7] Bergamonews, Da Verzeni a Pacciani Il primo serial killer in Italia era bergamasco; [8] Raffaela Fanelli, raffaellafanelli.it.

Esta matéria teve colaboração de:

ellen

Revisão por:

lucas

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