Richard Kuklinski: As Fitas do Homem de Gelo – Conversas com um Assassino

Richard Kuklinski é um dos mais impressionantes “predadores de seres humanos” a ser capturado nos anais do crime.

Na foto: Barbara e Richard Kuklinski. Créditos: Barabara Kuklinski/ Mainstream Publishing.Na foto: Barbara e Richard Kuklinski. Créditos: Barabara Kuklinski/ Mainstream Publishing.

O texto abaixo é uma tradução livre do artigo Married to The Iceman, escrito por Adam Higginbotham e publicado no The Telegraph em 07 de Junho de 2013. Ao final do post, disponibilizamos o excelente documentário As Fitas do Homem de Gelo – Conversas com um Assassino.

Casada com o Homem de Gelo

Quando eles finalmente chegaram, em helicópteros e carros descaracterizados, empunhando suas metralhadoras, Barbara Kuklinski ainda não fazia ideia do quanto seu marido havia violado a lei. 

Era uma manhã fria, uma semana antes do Natal de 1986, e o casal havia acabado de deixar a garagem de sua casa de dois andares na Sunset Street, numa rua tranquila, de confortáveis residências de classe média, em Dumont, New Jersey, onde viviam juntos com seus três filhos.

Barbara, uma ítalo-americana alta e delicada, e Richard, de 51 anos, um grandalhão colossal com uma queda por cachimbos Meerschaum, eram casados há 26 anos e queridos por seus vizinhos. Eles estavam indo tomar café na Seville, localizada nas proximidades de Westwood, onde comiam juntos pela manhã. Mas quando Richard viu o comboio de carros pretos indo às suas direções, virou bruscamente em direção ao meio-fio; homens armados se amontoaram em torno do carro: um saltou sobre o capô, outro abriu a porta do motorista e apontou uma pistola automática engatilhada para a cabeça de Richard: “não se mexe, porra!”, disse. 

Barbara foi arrancada do carro e atirada ao solo pelos policiais, com um pé colocado no meio das suas costas. Algemada com as mãos para trás, foi jogada para dentro de um carro até a prisão do Condado de Bergen, em Hackensack. Lá, enquanto oficiais do Estado lutavam para dominar seu marido enfurecido – de acordo com Barbara, apesar de estar com mãos e pés algemados, ele se debateu e jogou três oficiais pela escada –, se esforçava para entender o que estava acontecendo.

Finalmente, o detetive Pat Kane veio até ela e disse simplesmente “ele é um assassino!”. Subitamente, todas as coisas esquisitas que ela havia percebido em Richard ao longo de anos (incidentes sobre os quais ela ficava assustada demais para contar a alguém) começaram a se encaixar. “E, de repente, foi como se fosse algo tipo ‘eu já sabia’”, ela diz agora; “Eu sabia que ele era um assassino.”. 

Durante seu casamento, Richard Kuklinski havia usado a máscara de um pai de família suburbano – ajudando como guia na missa de domingo, fazendo churrascos na piscina durante o verão, viagens anuais à Disneylândia – para ocultar um rosário de mortes. Havia assassinatos cometidos por ódio, outros apenas por diversão, mas a maioria era por dinheiro. Por vinte anos, Kuklinski ganhou a vida sendo um dos mais eficientes e prolíficos matadores de aluguel da história do crime organizado: um pistoleiro cujas alegações de que congelava os corpos de suas vítimas para confundir peritos forenses levaram a mídia a apelidá-lo de Homem de Gelo. 

Atualmente, Barbara Kuklinski vive em um pequeno apartamento no porão de uma casa de telhado branco no subúrbio do Estado de Nova Iorque, que divide com sua filha mais nova Christin, seu namorado e três cães. Aos 71 anos, ela sofre de artrite na coluna de uma série de outras doenças crônicas, que acredita serem provenientes dos anos que passou vivendo sob a sombra do marido. Uma enfermeira a visita uma vez por semana. Franca e direta, Barbara se orgulha da sua inteligência e força de vontade: “não peça minha opinião se não quiser ouvir a verdade.”, diz.

Acostumada com a vida luxuosa dos subúrbios, foi obrigada a procurar um meio de sustentar os filhos.

Recentemente, sua história estava sendo desenvolvida como parte de um filme que deveria ser estrelado por Mickey Rourke no papel de seu ex-marido assassino, mas, quando o financiamento foi cancelado, um projeto concorrente e largamente baseado na vida de Kuklinski, “The Iceman”, foi levado adiante, com Michael Shannon no papel principal e Winona Ryder como a esposa leal do assassino. O filme foi lançado em junho de 2013, mas Barbara não recebeu um centavo da produção e não tem a intenção de vê-lo. “Jamais. Não verei. Não gosto de nada violento. E eu soube que é extremamente violento”. O filme também está, diz ela, “bem distante da verdade… e quem é essa tal Winona Ryder? Você está de brincadeira?”.

Quando foi lançado em Cannes, Barbara disse que ficou furiosa ao ouvir a atriz comentar sobre o personagem que a interpreta no filme: “sou tão culpada quanto ele.”. Recordando isso, a viúva do Homem de Gelo lança um olhar irônico em torno da pequena sala de estar, do seu crochê e dos retratos de família emoldurados em torno da TV. “Sim”, diz ela. “Não está vendo como eu me beneficiei daquilo?”. 

Barbara conheceu Kuklinski quando tinha apenas 18 anos, recém-saída do colégio e com um novo emprego de secretária na Swiftline, uma transportadora de New Jersey. Popular, inteligente e com um senso de humor sarcástico, sua ideia de viver perigosamente era arrumar uma garrafa de rum numa noite de sábado para que ela e seus amigos pudessem misturar com coca-cola antes de irem comer comida chinesa e ir ao cinema. Barbara queria começar a frequentar a escola de artes, mas, quando acompanhou um amigo para uma entrevista na Swiftline, recebeu uma proposta de emprego para si mesma e acabou aceitando. Richard trabalhava no setor de carga lá. Kuklinski era sete anos mais velho do que ela, casado e com dois filhos, entretanto, Barbara aceitou sair com ele em um encontro com outro casal. “Ele era um perfeito cavalheiro. Nós fomos ao cinema e então fomos comer pizza e ele levantou e tocou ‘Save the Last Dance for Me’ na jukebox.”. Na manhã seguinte, Richard apareceu em sua casa com flores e um presente, então ela aceitou um segundo encontro. “E aquele foi o fim,”, diz ela agora. 

Barbara nunca havia tido um namorado de verdade antes, e ficou encantada com a atenção; quando ela deixava o trabalho à noite, encontrava Richard esperando-a com flores; ele era charmoso e cortês ao lado dela. E, apesar de não ser italiano, sua família gostou dele. Enquanto os meses se passavam, Barbara gradualmente percebia que havia se isolado de seus amigos, e raramente via alguém que não fosse Richard.  Um dia, enquanto sentados no carro Barbara teve coragem para dizer-lhe como se sentia; ela tinha apenas 19 anos e desejava mais espaço para sair com outras pessoas. Richard silenciosamente respondeu apunhalando-a nas costas com uma faca de caça tão afiada que ela sequer sentiu a lâmina penetrar. “Eu senti aquele sangue escorrendo pelas minhas costas”, diz. Richard disse que ela lhe pertencia e, que se tentasse deixá-lo, mataria sua família; quando Barbara começou a gritar furiosamente, ele a estrangulou até deixá-la inconsciente. 

Na foto: Barbara Kuklinski. Créditos: Mark Mahaney.Na foto: Barbara Kuklinski. Créditos: Mark Mahaney.

No dia seguinte, Richard estava esperando-a novamente após o trabalho, com flores e um ursinho de pelúcia. Ele se desculpou e disse que desejava se casar e que pediria o divórcio da esposa. Ele a havia ameaçado porque a amava tanto que ficava louco. Jovem, inexperiente e ingênua, Barbara acreditou. 

“Eu não me considero uma boba, de maneira alguma. (…) Mas eu fui criada como uma garotinha católica boazinha. Eu era protegida. Eu nunca havia visto o lado ruim de coisa alguma.”, diz ela agora. De fato, na época em que Barbara teve seu primeiro vislumbre da real escuridão de Kuklinski, ele já havia feito coisas mais terríveis do que ela poderia imaginar. 

Filho de um pai alcoólatra e violento e de uma mãe religiosa e devota, Richard cresceu em uma comunidade polonesa de Jersey City. Durante entrevistas conduzidas pelo escritor Philip Carlo na prisão em 2004, Kuklinski admitiu que matou pela primeira vez aos 14 anos. Espancou um valentão da vizinhança até a morte com um porrete de madeira improvisado e enterrou-o na região remota de Pine Barrens, em New Jersey. 

Pelos dez anos seguintes, enquanto embarcava para valer em sua carreira criminal, cometendo assaltos e roubos a caminhões, Richard começou a matar com frequência: deu fim a um policial fora de serviço que o acusou de trapacear na sinuca, a membros de sua própria gangue e a mendigos (estes últimos, matou apenas por diversão). Sob ordens de Carmine Genovese, membro de uma família da máfia local, ele executou seu primeiro assassinato profissional aos 18 anos de idade. Como um verdadeiro psicopata, frequentemente torturava suas vítimas antes de matá-las e eliminava as evidências dos crimes descartando os corpos em túneis de minas ou removendo seus dedos e dentes. De acordo com o livro “The Ice Man: Confessions of a Mafia Contract Killer”, na época em que conheceu Barbara, em 1961, Kuklinski já havia cometido 65 homicídios – a maioria deles verificados por Philip Carlo.

Mas se Barbara inicialmente continuou com Richard por ingenuidade, aquela ignorância logo foi substituída pelo medo. Após seu primeiro pedido de desculpas, ele continuou a ser tão charmoso e atencioso quanto antes, mas também tinha acessos de raiva em que a espancava ou a segurava pelo pescoço. Convencida de que nunca poderia deixá-lo, ela concordou em se casar. A primeira filha do casal, Merrick, nasceu dois anos depois, em 1964. 

No começo, Richard aparentemente tentou se endireitar e conseguiu um emprego em um laboratório cinematográfico, mas, depois de um tempo, começou a ficar até mais tarde para produzir cópias piratas de filmes: primeiro desenhos animados da Disney e depois pornografia. Então, começou a arrumar dinheiro extra roubando caminhões. Com um dos seus primeiros grandes roubos – um carregamento de jeans, que vendeu por US$ 12 mil dólares –,comprou um carro novo, um aparelho de TV e móveis para a casa. Os trabalhos ilegais de Kuklinski permitiram ao casal ampliar a família – eles tiveram Christin e um filho, Dwayne; após, se mudaram para uma casa maior na Sunset Street. No entanto, Barbara nunca perguntava de onde vinha todo aquele dinheiro. Richard não gostava de perguntas e era rude e imprevisível mesmo quando estava aparentemente de bom humor. A ideia de que ele estivesse envolvido em algo ilegal nunca a ocorreu, ou, se lhe ocorreu, não admitia. 

“Eu serei a primeira a dizer: talvez eu fosse ingênua porque eu nunca havia visto nada como aquilo. Minha família nunca fez algo como aquilo.”, diz Barbara. E não levou muito tempo até Richard voltar ao que fazia de melhor: matar por dinheiro. Na metade dos anos 70, a reputação de sua crueldade e eficiência havia se espalhado pelos Estados Unido e ele era constantemente contratado pelas sete famílias da máfia na Costa Leste – incluindo os DeCavalcantes, em New Jersey, e os Gambinos, os Luccheses e os Bonannos, em Nova Iorque. Richard afirmou que jamais feriu mulheres ou crianças, mas, por outro lado, assassinava aqueles que deviam dinheiro à máfia, e outros que tivessem desprezado ou insultado seus soldados e tenentes, ou simplesmente se tornado inconvenientes. Quando a máfia desejava que membros importantes morressem, comunicavam Kuklinsk. Em 1979, ele foi responsável pelo assassinato – em plena luz do dia – de Carmine Galante, chefe da família Bonanno; em 1985, participou do grupo de extermínio que abateu Gambino Don Paul Castellano do lado de fora da Sparks Steak House, em Manhattan. Richard ainda afirmou ser o homem que matou o famoso Jimmy Hoffa, líder do sindicato Teamsters, que desapareceu sem deixar vestígios, numa tarde de 1975.

No entanto, Kuklinski compartimentalizava meticulosamente sua vida, nunca socializando com seus patrões do crime organizado e tomando o cuidado de jamais lhes revelar nada a respeito de sua família ou de onde morava. Este isolamento das relações diárias com a Cosa Nostra lhe ajudava tanto a evitar ser descoberto por seus crimes quanto a manter sua identidade como pai de família carinhoso na cidade em que vivia. 

Na foto: Richard Kuklinski e suas filhas Merrick e Christin. Créditos: Barabara Kuklinski/ Mainstream Publishing.Na foto: Richard Kuklinski e suas filhas Merrick e Christin. Créditos: Barabara Kuklinski/ Mainstream Publishing.

Na foto: Richard Kuklinski e família. Créditos: Crime And Punishment.Na foto: Richard Kuklinski e família. Créditos: Crime And Punishment.

Ali estava um homem que não media esforços pelos seus filhos: colocava-os nas escolas particulares mais caras. Ele adorava alimentar os patos da lagoa, nas proximidades de Demarest, e encantava os convidados nos churrascos semanais da família, para os quais todo mundo no quarteirão era convidado. Imediatamente após o assassinato de Paul Castellano, Richard abandonou sua jaqueta e sua arma, pegou o ônibus de volta para New Jersey e se sentou em casa enquanto observava sua esposa e filhas abrindo presentes de Natal. Os vizinhos nunca suspeitaram de nada: “Eles o achavam espetacular. (…) Todos que o conheciam achavam que eu era a pessoa mais sortuda do mundo. O caminhão de flores vinha uma vez por semana, eu ganhava novas joias, ele me comprou um casaco de pele de guaxinim de US$ 12 mil dólares…”, diz Barbara. 

Ao longo dos seus anos juntos, o apego obsessivo de Richard à sua esposa jamais diminuiu, e como era típico de um fã dedicado de country and western, ele era igualmente um ciumento fervoroso e um romântico piegas. Ele apelidou Barbara de “Lady” e, quando saíam para jantar, sempre ligava antes para se certificar de que a canção de mesmo nome de Kenny Rogers estaria tocando no restaurante no momento em que eles entrassem.

Mas seu humor podia mudar num instante. Durante o casamento, ele a deixou com olhos roxos, quebrou costelas, destruiu a mobília e, com força quase sobre-humana, rasgou os lençóis da casa com as próprias mãos. Frequentemente, os ataques de fúria assassina surgiam sem nenhuma razão: eles poderiam ter um maravilhoso jantar juntos, ele levaria uma xícara de chá para ela antes de deitar, “e a próxima coisa que eu descobriria é que eram duas da manhã e havia um travesseiro no meu rosto: ‘é hoje que você vai morrer!’”, explica ela, A violência de Kuklinski contra sua esposa causou dois abortos, e os filhos finalmente começaram a intervir quando temiam que ele pudesse matá-la. 

“Eu costumava chamar aquilo de raiva – era algo além de raiva. Ele era doente. E havia vezes em que eu implorava para que ele procurasse ajuda”, diz ela. Não surpreende que ele se recusasse a tomar remédios ou visitar um psicólogo. Quando Christin tinha 16 ou 17 anos, ela e Barbara planejaram envenená-lo. Por fim, elas perceberam que não conseguiriam fazer aquilo. Primeiro, Kuklinski sempre oferecia bocados da sua comida para o amado cão Terra Nova da família (isso lhes deu esperanças por algum tempo). “Eu desejava vê-lo morto, todos os dias. (…) Durante as melhores épocas, eu queria vê-lo morto.”, Barbara conta. 

Richard foi finalmente denunciado pela pessoa mais próxima de ser um amigo: Phil Solimene, um receptador local da máfia, a quem o pistoleiro conhecia havia mais de vinte anos. Naquela época, Kuklinski e Barbara haviam jantado com Solimene e sua esposa apenas uma vez, mas aquilo representava o quanto o matador confiava nele. Solimene foi fundamental numa armação policial em que Kuklinski foi pego discutindo a realização de um assassinato em fita. Durante horas após ele e Barbara terem sido presos, a polícia entrou na casa da Sunset Street com um mandado, esperando encontrar esconderijos de armas; eles não encontraram nada. “Acreditem em mim, não havia armas na minha casa.”, diz Barbara com certo orgulho. 

Na foto: Richard Kuklinski durante seu julgamento. Reprodução Internet.Na foto: Richard Kuklinski durante seu julgamento. Reprodução Internet.

No dia seguinte, Kuklinski foi acusado de cinco homicídios. Em 1988, foi condenado por quatro deles. Mais tarde, foi condenado por mais dois; em entrevistas que deu depois na prisão, assumiu a responsabilidade por 250 mortes. Mas Pat Kane – que liderou a investigação que levou à prisão de Kuklinski – acredita que ele pode ter matado cerca de 300 homens antes de ser pego. “Ele matava quem ele queria, quando queria. (…)Ele não tinha um emprego em tempo integral. Aquilo era o que ele fazia.”, diz Kane, aos 64 anos, atualmente aposentado da polícia. 

Richard revelou sua infâmia e jamais expressou nenhum remorso por suas vítimas. “Eu nunca me arrependi de nada que fiz. (…) Apenas me arrependo de ter magoado minha família. Eu desejo que minha família me perdoe.”, disse ele durante uma das entrevistas que deu à TV da prisão. 

Mas Barbara permaneceu temerosa de que ele pudesse atingi-la e a seus filhos ou a outros parentes e, por 10 anos, continuou a visitá-lo na prisão. Ela atendia suas ligações a cobrar em casa e enviava pacotes com comida. Mas enquanto as crianças cresciam, suas visitas pessoais se tornaram menos frequentes. Oito anos após sua prisão, Barbara conseguiu o divórcio e começou a namorar novamente. E quando alguns documentários de TV a cabo fizeram de Kuklinski uma espécie de celebridade, as ligações dela eram transferidas para o escritório de produção do filme. Finalmente, durante uma conversa telefônica com Barbara, ele disse algo horrível sobre as crianças e ela bateu o telefone em sua cara. Na quarta vez que ele ligou, Barbara atendeu com um seco “Sim?”. 

“Se você fizer isso novamente” – começou ele, e ela o cortou. “O que você vai fazer, Richard? Você percebe que não há nada que possa fazer agora? Se você disser qualquer coisa contra meus filhos novamente, eu nunca mais atendo outra ligação”. “Mas aquilo levou bastante tempo.”, diz ela. 

Em outubro de 2005, aos 70 anos, e passado 25 anos na prisão, a saúde de Richard Kuklinski começou a decair e, diagnosticado com uma inflamação rara e incurável nos vasos sanguíneos, foi finalmente transferido para um hospital. Em março do ano seguinte, Barbara levou sua filha para visitá-lo lá; ele lhes disse que era uma vítima de uma conspiração de assassinato. Enquanto jazia na UTI, falou que gostaria de confidenciar uma última coisa à sua ex-esposa: “Você é uma boa pessoa. Você sempre foi uma boa pessoa.”. Barbara deixou o quarto sem responder. Mas enquanto caminhava pelo corredor em direção à saída, virou-se para a filha e disse: “Eu vou me arrepender pelo resto da vida por simplesmente não ter lhe dito que ele era um bastardo e o quanto eu o odeio. Eu gostaria que as últimas palavras que ele tivesse ouvido fossem o quanto eu o odeio do fundo do coração.”. 

Nos dias que se seguiram, enquanto a vida de Richard Kuklinski finalmente se esgotava, ele ficou consciente por tempo o bastante para pedir aos médicos que se certificassem de ressuscitá-lo caso ele tivesse uma parada cardíaca. Mas antes de sair, Barbara havia assinado uma ordem para que não o ressuscitassem. Uma semana antes de sua morte, nas primeiras horas do dia 5 de março de 2006, o hospital perguntou a Barbara ela desejava cancelar a instrução. Ela não o fez.

As Fitas do Homem de Gelo

Abaixo, disponibilizamos para os leitores do blog o ótimo documentário da HBO “The Iceman Tapes – Conversations with a Killer” (“As Fitas do Homen de Gelo – Conversas com um Assassino”). 

O documentário, de 1992, na verdade é uma entrevista com Kuklinski no corredor da morte, na qual ele conta sobre sua vida. Achei a entrevista muito poderosa e, apesar de estar acostumado a ler e assistir entrevistas dos mais variados tipos de psicopatas assassinos, tenho que admitir que Kuklinski me impressionou. Existe algum assassino mais macabro e assustador do que Jeffrey Dahmer, Andrei Chikatilo ou Ted Bundy? Não, não existe. Mas se você pegar entrevistas com esses assassinos, o que você vê (por fora) são homens completamente normais e, aparentemente, sinceros. Tudo bem, sabemos que Bundy foi um assassino dissimulado que dizia o que as pessoas queriam ouvir, o mesmo podemos dizer de Chikatilo, que em sua última entrevista antes de ser executado adotou uma postura parecida com a de Bundy e de John Wayne Gacy: fugir pela tangente quando é questionado sobre seus crimes e passar a imagem de vítima. A exceção, talvez, seja Dahmer, que pareceu bastante sincero em suas entrevistas pós-prisão, sempre se colocando como o único responsável por sua barbárie. 

E Richard? Ele é completamente diferente dos citados acima. Não se esconde atrás de mentiras ou subterfúgios e fala abertamente sobre seus assassinatos com uma frieza que faz quem assiste ficar boquiaberto. É assustador e ao mesmo tempo revelador quando ele conta sobre uma vítima que chamou a Deus por todos os lugares antes de ser morta. “Eu tive uma experiência que não sei se deveria contar. Provavelmente ofenderia muitas pessoas.”, diz ele. Nesta frase, ele revela sua mente psicopata. Sabemos que psicopatas compartimentalizam suas ações, eles simplesmente não entendem determinados tipos de iterações sociais, mas imitam tais ações observando o comportamento de outras pessoas, tudo com o objetivo de parecer normal perante a sociedade. A tal experiência não afetou em nada Kuklinski, mas ele sabia, através de sua convivência com pessoas, que a mesma ofenderia e causaria repulsa em muitas delas. Isso é uma prova de que psicopatas não são pessoas insanas, eles sabem sim o que é certo e o que é errado. 

No início do documentário, o Procurador-Geral Robert J. Carrol diz que Richard não é um serial killer. De fato, ele é, acima de tudo, um assassino de aluguel. Entretanto, muitos criminologistas o definem como sendo um raríssimo caso de um criminoso que é ao mesmo tempo assassino de aluguel e serial killer (chegamos a citar este ponto de vista no post Assassino de Aluguel Não é Serial Killer). Nós discordamos da opinião do Procurador. Kuklinski é sim um serial killer, que obtinha um prazer sádico no ato de subjugar e matar outro ser humano e que conseguiu fazer disso sua profissão. Antes de ser um assassino de aluguel, foi um serial killer do tipo justiceiro, alá Pedrinho Matador, ou o fictício Dexter. Em “The Ice Man: Confessions of a Mafia Contract Killer”, página 46, Carlo diz: “Na primavera de 1954, aos 19 anos, [Kuklinski] começou a frequentar constantemente Manhattan e a matar pessoas, sempre homens, nunca uma mulher. Sempre alguém que o olhava torto, por algum motivo imaginado ou extremamente fútil. Ele atirava, esfaqueava, ou espancava os homens até a morte. Alguns ele deixava onde caíam, outros ele jogou no Rio Hudson. Assassinato, para Richard, se tornou um esporte. A polícia de Nova Iorque chegou a acreditar que esses homens estavam atacando e matando uns aos outros, nunca suspeitando que um serial killer de New Jersey estava indo até Manhattan apenas para matar pessoas, para praticar o assassinato perfeito. Richard, segundo suas palavras, fez de Manhattan uma espécie de laboratório da morte, uma escola.”. 

O trecho acima acaba com qualquer dúvida a respeito de Richard Kuklinski ser ou não um serial killer. Neste trecho, podemos notar várias características de um assassino em série. Em sua maioria, serial killers são territorialistas, atacando sempre numa mesma região. No caso de Richard, ele ia até Manhattan. O perfil de vítimas era sempre o mesmo: homens que considerava vagabundos, o que faz dele um serial killer justiceiro, um sub-tipo extremamente comum. Posso compará-lo até mesmo com fictício Hannibal Lecter, cujas vítimas – em sua mente distorcida – eram homens mesquinhos e indignos de viver. Matar “por esporte” também é uma informação-chave. Muitos serial killers fazem de seus crimes uma espécie de esporte, um jogo que obviamente possui apenas um vencedor. No caso, tudo começa com o simples fato de planejar o dia e a forma como se dará a caçada. Que roupa vestir, que horas sair, que desculpa dar pra esposa ou para a mãe, que rua ou esquina procurar por presas. E, uma vez no local, farejar a ovelha como um lobo ensandecido, mas com todo o cuidado, esperando o momento certo de atacar. Para Kuklinski, seu esporte terminava quando a vítima estava no chão sem respirar, mas para muitos outros – como Israel Keyes e Robert Hansen – as etapas do jogo poderiam durar muito mais.  

Retardado?

Um espectador do canal comentou que Kuklinski parece “meio retardado”. Discordo de tal afirmação. É preciso inteligência, autocontrole e oportunismo para assassinar tantas pessoas e durante tanto tempo. Foram mais de trinta anos enganando autoridades policiais e judiciais Norte-Americanas. Perto de Kuklinski, Ted Bundyconhecido pela inteligência e astúcia – é um amador. 

É preciso dizer que Richard teve sorte ao encontrar uma mulher com as características que encontrou e, vendo o documentário, surge a dúvida: Kuklinski apenas emulava uma família organizada ou ele realmente sentia-se bem num ambiente organizado e com crianças?

Durante a entrevista, fica claro que a única coisa importante em sua vida era sua família. É bem provável que esse sentimento tenha aflorado por ele estar preso e longe das únicas pessoas que, segundo ele, “são importantes para mim.”. Vendo-o falar de sua mulher e filhos, Kuklinski parece muito longe do monstro pintado por sua esposa na matéria do The Telegraph. Barbara, inclusive, é entrevistada no documentário: “Ele era perfeito. Éramos uma família perfeita e feliz.”, diz ela. Uma fala bastante diferente da publicada na matéria acima. Richard também era um monstro com sua família? Fica a dúvida. Mas podemos especular. As duas falas de sua esposa têm vinte anos de diferença. Em 1992, e mesmo com Kuklinski preso, ela ainda poderia estar presa ao relacionamento doentio com seu marido possessivo e violento, e os anos passados podem ter dado a ela o tempo necessário para se libertar e colocar para fora tudo o que estava engasgado. Ainda em 1992, ela também poderia ter medo, não propriamente dele, mas de Kuklinski, de alguma forma, poder fazer algo contra ela ou seus filhos.

Psicopatas tem prazer por algo totalmente imoral, que se sobrepõe aos outros desejos e mecanismos de autocontrole. Com relação ao afeto, e no caso específico de Kuklinski, um indivíduo que não é capaz de sentir empatia está sem dúvidas longe de qualquer sentimento como afeto e amor. É possível que no seu caso o “afeto” à família seja sinônimo de “posse”, ou seja, a família era importante para ele porque era a família DELE, pertencente única e exclusivamente a ele.

Antes de morrer, Richard Kuklinski deu ainda outras duas entrevistas sinistríssimas: “The Iceman Confesses: Secrets of a Mafia Hitman” (2001) e “The Iceman and the Psychiatrist” (2002), nesta última, ele é entrevistado por um dos papas no estudo da mente criminosa, o psiquiatra Park Dietz. Foi para Dietz que Kuklinski deu as famosas confissões de como matava suas vítimas com granadas de mão e deixando-as amarradas em cavernas infestadas por ratos famintos. 

Como eu disse, por mais que você esteja acostumado a assistir entrevistas de psicopatas assassinos, você nunca poderá dizer que nada o surpreenderá, Richard Kuklinski, e seus mais de 100, 200 ou 300 assassinatos, pode não ter sido o assassino mais assustador que existiu, mas certamente sua frieza e indiferença o colocam – e como disse um promotor – como um dos mais impressionantes “predadores de seres humanos” a ser capturado nos anais do crime.

As Fitas do Homem de Gelo – Conversas com um Assassino


Matéria do The Telegraph: Married to The Iceman. Disponível em: http://www.telegraph.co.uk/culture/film/9959985/Married-to-The-Iceman.html

Esta matéria teve colaboração de:

Psicóloga forense

leandro

Psiquiatra

Revisão

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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