Assassinatos BTK: 40 anos depois, Charlie Otero encontra paz e estabilidade

"Não me entenda errado; se Dennis Rader estivesse na minha frente, eu provavelmente o socaria na mandíbula."
Massacre da família Otero

Na foto: Josephine Otero.

No dia 15 de Janeiro de 2014, publicamos um post em nossa página no Facebook que dizia o seguinte:

Há exatos 40 anos atrás, o adolescente Charlie Otero, 15 anos, voltava para casa após mais um dia na escola. Ao chegar em casa, estranhou o incomum silêncio. “Tem alguém aí?”, ele gritou. Nem mesmo o cachorro da família latiu. Apreensivo, ele caminhou até o quarto dos pais. E o que Charlie viu lá dentro, assim como em outros cômodos de sua casa, até hoje é mostrado e estudado em aulas de cursos de criminologia e psicologia forense mundo afora.

Seu pai, Joseph, 38, estava deitado de bruços no chão, com os pulsos e tornozelos amarrados. Sua mãe, Julie, 34, estava deitada na cama amarrada de forma semelhante. Seu irmão mais novo, Joseph II, 9, estava deitado ao lado de sua cama; pulsos e tornozelos amarrados, e com três capuzes cobrindo sua cabeça.

Mas o pior estava por vir.

Ao revistar a casa, a polícia encontrou no porão a irmã de Charlie, Josephine, 11, pendurada em um cano pelo pescoço (foto acima). Ela estava parcialmente nua, vestindo apenas camiseta e meias.

Não é preciso dizer que a execução da família Otero causou repulsa e assustou as autoridades locais. Ninguém naquela cidade havia visto algo como aquilo. Os fios do telefone da casa estavam cortados. Os Otero não possuíam cordas, portanto, as que foram encontradas nos corpos foram levadas pelo assassino. Havia sêmen por todo local, o que fez os peritos concluírem que o assassino se masturbou pela casa e em cima das vítimas.

Ninguém sabia, mas a família Otero eram as primeiras vítimas de um dos mais notórios assassinos em série dos Estados Unidos. Aquele 15 de Janeiro de 1974 marcou para sempre a cidade de Wichita, Kansas. A partir daquele dia, os moradores tiveram que conviver com a ideia de que entre eles havia um serial killer, um psicopata metódico, organizado e que planejava brilhantemente cada etapa dos seus assassinatos, num timing perfeito, sendo capaz, como no caso da família Otero, de dominar um grupo de pessoas jovens e com plena capacidade de defesa. Não a toa ele só seria pego 31 anos depois.

“A forma como os membros da família foram mortos indica um fetiche por parte do agressor”. (Floyd Hannon, investigador chefe do caso, Wichita Eagle, 1974)

Quão fetichista ele era? Este serial killer era um fetichista bondage e gostava de usar as roupas íntimas de suas vítimas do sexo feminino. Ele gostava de se amarrar de todas as formas possíveis e tirar fotos de si mesmo em vários ambientes. Sim, fotos de si mesmo não são um fenômeno da geração Facebook.

Quer uma amostra de tais fotos? Clique no link abaixo… se tiver coragem.

O ano de 2014 marca o aniversário de 40 anos do início dos crimes do serial killer Dennis Rader, o infame BTK (de bind-torture-kill; amarrar-torturar-matar). Um dos mais conhecidos psicopatas assassinos da América, Rader é também um dos que os professores de criminologia e psicologia forense mundo afora mais gostam de citar em suas aulas. 

Finalmente capturado em Fevereiro de 2005, Rader logo confessaria seus crimes aos investigadores. Um deles era um grande mistério local: o assassinato da família Otero em 1974.

Em 17 de Agosto de 2005, as famílias das vítimas assassinadas por Dennis Rader ouviram com o coração dilacerado o depoimento de investigadores de polícia sobre os assassinatos da família Otero, que haviam ocorrido mais de três décadas antes. De acordo com a cobertura da mídia na época, o diretor assistente do Escritório de Investigação do Kansas (Kansas Bureau of Investigation), Larry Thomas, testemunhou que Josephine Otero gritou por sua mãe enquanto lutava para não ser enforcada no porão de sua casa. O tribunal ouviu que Rader obteve gratificação sexual enquanto assistia a morte de Josephine e enquanto a torturava. Ela foi a última de quatro membros da família Otero assassinados naquele dia, incluindo seu irmão e pais. 

Outras provas apresentadas durante o julgamento revelaram que Josephine era o alvo principal de Rader e sua mãe o alvo secundário. Ele ficou interessado nelas após vê-las andando juntas na rua. Ele observou a menina e sua mãe por cerca de dois meses antes de atacá-las. Rader disse aos investigadores que ficou “ligado” em mãe e filha, afirmando que ele tinha atração por “mulheres de aparência hispânica”. Ele ainda disse aos investigadores que “sempre tive um desejo sexual por mulheres novas.”

Os testemunhos dos investigadores afirmaram que Rader mentiu para os Otero após invadir a casa deles com uma arma. Ele disse que não iria machucá-los, apenas que era um foragido da lei e só queria um pouco de comida e dinheiro. Edie Magnus relatou em um especial da NBC Dateline, “Secret Confessions of BTK”, que a família Otero “comprou sua mentira sobre ser um fora da lei e que não ia machucá-los”. Assim, eles o permitiram que os amarrassem sem qualquer resistência. Após amarrá-los, Rader estrangulou o Sr. Otero, e a partir daí as crianças e a mãe perceberam que também iam morrer.

As fantasias sexuais narcisistas e psicopatas de Rader continuavam após os seus assassinatos. Segundo depoimento, o serial killer acreditava que na vida após a morte a família Otero iria servi-lo como escravos. A repórter Lori O’Toole Buselt escreveu na época para o Wichita Eagle que Rader “esperava que Joseph Otero lhe servisse de guarda-costas, Julie seria sua escrava sexual, o filho do casal, Joey, seria o seu brinquedo sexual e um menino escravo e para Josephine ele ensinaria como fazer sexo e a praticar fetiche bondage”.

Uma boneca do tipo Barbie foi encontrada na casa de Rader, com pelos pubianos e cílios desenhados. Os promotores afirmaram que o serial killer usava a boneca imaginando que era Josephine.

Na foto: As 10 vítimas de Dennis Rader. Créditos: AP.

Na foto: As 10 vítimas de Dennis Rader. Créditos: AP.

Charlie Otero

Como é acordar cedo para ir a escola e ao voltar encontrar parte de sua família assassinada? Com apenas 15 anos, Charlie Otero perdeu todo o chão no qual pisava. De um brilhante estudante de notas A’s a um órfão desamparado, revoltado e sem rumo. Em apenas algumas horas, a vida de Charlie virou ao avesso.

O que teria acontecido ao jovem que em 15 de Janeiro de 1974 encontrou pais e irmãos assassinados por Dennis Rader?

O The Wichita Eagle publicou em Novembro de 2013 uma reportagem especial sobre Charlie, hoje com 56 anos. Ele conta como sua vida seguiu numa espiral descendente após os assassinatos; seu comportamento selvagem o levou a perder contato com os irmãos restantes e a passar um tempo na cadeia no Novo México.

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40 anos após os “assassinatos BTK”, Charlie Otero encontra paz e estabilidade

Há mais de três anos Charlie Otero trabalha numa concessionária de motocicletas em El Dorado, Kansas, a apenas alguns quilômetros da prisão onde está Dennis Rader. Em 2005, Rader confessou ter assassinado os pais e os irmãos mais novos de Otero de forma que choca até hoje, 40 anos depois. Otero voltava da escola em 15 de Janeiro de 1974 quando chegou na pequena casa branca da família, no norte de Edgemoor, e se deparou com uma carnificina. O que ele viu naquele dia foram os primeiros assassinatos de um misterioso serial killer que usava as iniciais BTK. As fotos tiradas pela mente de Otero, de seus pais amarrados e brutalmente estrangulados, nunca irão deixá-lo. Ele está agora com 55 anos e ainda tenta lidar com o que encontrou naquela tarde.

Mas algo bom aconteceu com Charlie Otero.

Pela primeira vez desde aquele dia traumático, Otero está desfrutando de um tempo de paz e estabilidade. Ele disse que tem uma nova motivação: ajudar outras pessoas que sofrem.

É uma transformação notável, considerando que por anos ele esteve, como ele mesmo disse, vivendo uma vida fora da lei nas mesmas colinas em que Billy The Kid caçava, no Novo México. Na época, Otero dormia em barracões, cultivava a própria comida,  criava pit bulls, virava noites em festas e andava com o tipo errado de motociclista. Ele vivia perto até demais da violência. Corria com motos e não se importava em causar um acidente. Ele desenvolveu habilidades mecânicas, mas nunca teve uma renda que pudesse sustenta-lo. “Eu era um homem selvagem,” diz.

As coisas atingiram um novo nível quando ele foi para a prisão no Novo México, entre 2001 e 2005, após se declarar culpado de lesão corporal grave sob a alegação de violência doméstica.

Mesmo antes de Otero deixar a prisão, ele já era um dos alvos dos apresentadores de talk-shows e repórteres que cobriam a história fascinante que se desdobrava em Wichita, em 2004 e 2005 – o serial killer que havia permanecido calado por décadas, que havia deixado uma trilha de assassinatos não solucionados, inclusive os dos Otero, estava novamente enviando cartas para a mídia e a polícia. Detetives estavam trabalhando duro por trás das cenas e capturaram o assassino quando ele se descuidou ao contatá-los.

Otero ainda não acredita que Rader — que havia trabalhado numa empresa de segurança domiciliar, como funcionário de uma empresa de controle animal e que havia voluntariado como líder em igrejas e grupos de escotismo — era o único envolvido no assassinato de sua família. Mas essa é outra história.

‘Carregar esse peso’

No fim de 2008, Otero se mudou novamente para a área de Wichita, o que para ele parecia loucura; aquele era o lugar onde sua vida havia mudado de órbita naquele terrível dia em 1974.

Ter voltado foi bom, diz Otero.

“Eu sinto que o povo de Wichita me abraçou. Eles transformaram essa escolha numa das mais fáceis e inteligentes que já fiz.”

Depois de anos de períodos dispersos e sem abrigo, ele está vivendo com sua noiva numa bela casa no estilo fazenda, em Valley Center. Ele tem uma verdadeira estabilidade — pisos de madeira firmes abaixo dele. Ele tem seu próprio quintal e uma garagem para manter sua moto a salvo do clima. A cada dia de trabalho, ele dirige um caminhão Chevy beat-up 1978 para El Dorado e trabalha em motocicletas que atingem até 360 km/h. Seu chefe disse que ele tem um dom especial para conserto de carburadores.

Na foto: Charlie Otero e seus amigos motociclistas. Créditos: Facebook.

Na foto: Charlie Otero e seus amigos motociclistas. Em sua camiseta lê-se: “Survive” (“Sobreviver”) Créditos: Facebook.

Ele ainda tem a mesma aparência que manteve na prisão: cavanhaque e cabeça raspada, exceto por um remendo na parte de trás da cabeça. Para algumas pessoas ele ainda parece um bandido, ou talvez um pirata.

Mas ele diz que é um homem diferente por dentro.

Um dos momentos reveladores que refletem sua nova vida veio ano passado. Começou com sua ida ao trabalho, que está a uma curta distância da prisão onde Rader está atrás das grades após receber 10 penas de prisão perpétua pelo assassinato de 10 pessoas entre 1974 e 1991.

A co-proprietária da loja de motos, Bette Luinstra, disse que apesar de não ter conhecido Otero na época dos crimes, rezava por ele e por seus irmãos que sobreviveram enquanto acompanhava o desdobramento do caso BTK. Ela acredita que Deus levou Otero a trabalhar em seu negócio, e que ele representa uma “vitória sobre a escuridão.”  

Ela o perguntou se ele se incomodava em trabalhar tão perto do assassino de sua família.

Ele riu, ela relembra, e disse algo como: “Ele está lá, e eu estou aqui fora. Ele está trancado e nunca vai sair, e eu estou livre e nunca vou voltar pra lá.”

Mesmo assim, houve um tempo em que, quando Otero passava pela prisão, ele reflexivamente estendia seu dedo do meio em direção a Rader.

Mas um dia no ano passado, enquanto voltava e rezava por um amigo que havia sido ferido num tiroteio e pela mãe de sua noiva, que estava doente, ele decidiu que não era certo pedir a ajuda de Deus e odiar alguém ao mesmo tempo.

Então Otero decidiu deixar de lado seu ódio por Rader e parar de levantar seu dedo do meio.

“Eu odeio o que ele fez”, disse.

Mas odiar Rader era como “carregar um peso por aí, e eu estava simplesmente cansado de carregar esse peso.”

Enquanto dizia isso, ele estava perto de sua caixa de ferramentas na loja de consertos de motos. Ele parou por um momento, e então adicionou: “Não me entenda errado; se aquele cara estivesse na minha frente, eu provavelmente o socaria na mandíbula.”

‘Eu perdi minha religião’

Como parte de sua nova vida e como membro de vários ministérios diferentes, Otero tem falado com prisioneiros (mas não onde Rader está preso), com sem-teto e pessoas em reabilitação, inclusive viciados em metanfetamina. “E eu tenho falado com eles sobre abrir o coração para o Senhor.” Ele disse que quer ser uma fonte de motivação, e não um símbolo de dor e objeto de pena.

Ele fez um curso para melhorar sua fala em público e quer dar mais palestras. Falou  várias vezes aos estudantes da Universidade Estadual de Wichita, inclusive numa aula de introdução à justiça criminal cujo professor, Danny Back, advogado de Wichita, se tornou amigo de Otero.

Todas as vezes, disse Back, Otero põe tudo de si em suas palestras.

Numa noite de Novembro de 2013, Otero se pôs diante de algumas dúzias de estudantes na aula de Back. Otero vestia calças jeans, botas de cowboy, uma blusa marrom e joias turquesa — com alguns tons que lembravam seu passado no Novo México. Ele havia limpado suas mãos calejadas após um longo dia de manuseio de máquinas e ferramentas, e usava uma cruz ao redor do pescoço. Sua voz gradualmente ficava mais alta, comovida, enquanto ele contava como havia entrado em casa naquele dia e descoberto que quatro dos membros de sua família haviam sido massacrados.

“Quando eu os vi, eu odiei Deus. Eu perdi minha religião.”

De repente, duas semanas antes de seu aniversário de 16 anos, “eu sou órfão”, ele relembra.

Ele levantou suas mãos e por um instante as manteve sobre os olhos.

“Eu não consigo explicar o quão intensas eram minhas emoções naquele tempo.”

Na foto: Charlie Otero e sua irmão mais nova Carmen durante julgamento de Dennis Rader. Créditos: AP.

Na foto: Charlie Otero e sua irmã mais nova, Carmen, durante julgamento de Dennis Rader. Créditos: AP.

Como hoje ele recorda, um dos primeiros policiais a chegar à cena do crime perguntou a ele, “seu pai poderia ter feito isso?”. Otero era o filho mais velho numa tradicional família porto riquenha. Ele tinha orgulho de seu pai, que havia se aposentado depois de uma carreira como sargento-mor e técnico da Força Aérea. Seu pai havia sido campeão de boxe.

Daquele dia em diante, ele disse à classe, “Eu me tornei um inimigo da lei. Eu nutria ódio pelas autoridades.”

Depois que a polícia capturou Rader, disse Otero, ele se tornou obcecado por vingar seu pai Joseph, 38; mãe, Julie, 34; sua irmã, Josephine, 11; e seu irmão Joseph ll, 9.

Otero tinha apenas um pensamento: “Ponha suas mãos nesse homem”. Ele podia ver-se atacando Rader.

No dia da condenação de Rader, quando Otero teve a chance de chegar perto dele, algo inesperado aconteceu. O filho de Otero, que morava em Wisconsin e a quem ele nunca havia tido a chance de conhecer, havia sofrido um ferimento sério na cabeça. De repente, os pensamentos de Otero foram pra longe do serial killer, longe da raiva e do ódio, e encontraram seu filho, com quem ele agora tem um relacionamento.

“A vida pode ser muito estranha,” ele disse aos estudantes naquela noite.

Ele falou por duas horas sem pausas e respondeu várias perguntas. Depois da palestra, muitos dos estudantes o cumprimentaram ao sair. Um deles, uma estudante mais nova, virou-se ao deixar a sala de aula.

Ela sorriu para Otero e disse, “Você teve uma baita de uma vida”.

Em 2013, Charlie Otero foi tema do documentário, I Survived BTK, (“Eu Sobrevivi ao BTK”).

Com informações: [1] The Wichita Eagle – Charlie Otero finds peace, stability nearly 40 years after BTK murders; [2] Crime Library; [3] Documentário: I Survived BTK.

Esta matéria teve colaboração de:

Tradução e revisão por:

ester

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“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” (Platão)

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