A macabra história da ciência forense

Na cabeça do público, ciência forense significa tecnologia de última geração, profissionais bem equipados realizando experiências complexas em laboratórios impecáveis – como em CSI ou Silent Witness (exibido no...
A Macabra Historia da Ciencia Forense
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A Macabra História da Ciência Forense

Na cabeça do público, ciência forense significa tecnologia de última geração, profissionais bem equipados realizando experiências complexas em laboratórios impecáveis – como em CSI ou Silent Witness (exibido no Brasil com o título de Testemunha Silenciosa). Na verdade, a história real da ciência forense está repleta de pioneiros excêntricos, desastres judiciais e pesquisas perigosas (e algumas vezes fatais). 

Por anos, autoridades e indivíduos cultivaram a suspeita de que havia muito mais num crime do que apenas depoimentos: que a cena do crime, a arma de um homicídio ou, ainda, algumas gotas de sangue poderiam ser testemunhas da verdade. O primeiro registro do uso da ciência forense na solução de um crime vem de um manual chinês para legistas chamado A Limpeza dos Erros (洗冤集錄, no original em chinês), escrito em 1247. Um dos diversos estudos de caso que ele contém acompanha a investigação de um esfaqueamento numa estrada. O legista examinou os cortes no corpo da vítima, e então testou uma variedade de lâminas no cadáver de uma vaca. Ele concluiu que a arma do crime era uma foice. Apesar de descobrir o que havia causado os ferimentos, ainda havia um longo caminho até identificar a mão que empunhara a arma, então ele se voltou para os possíveis motivos. Os pertences da vítima estavam intactos, o que descartava a hipótese de roubo. De acordo com a viúva, ele não tinha inimigos. A melhor pista veio da revelação de que a vítima fora  incapaz de satisfazer um homem que recentemente havia exigido o pagamento de uma dívida. 

O legista acusou o agiota, que negou o crime. Mas, persistente como qualquer detetive de TV, ele ordenou que todos os 70 adultos da vizinhança se alinhassem, com suas foices a seus pés. Não havia sinais visíveis de sangue em nenhuma das foices. Mas em questão de segundos uma mosca pousou entusiasticamente na foice do agiota, atraída por vestígios microscópicos de sangue. Uma segunda mosca pousou, e então outra. Quando confrontado novamente pelo legista, o agiota forneceu uma confissão completa. Ele havia tentado limpar sua lâmina, mas sua tentativa de ocultação foi frustrada pelos insetos delatores, zumbindo silenciosamente a seus pés.

Na foto: Páginas do manual "A Limpeza dos Erros". O registro chinês é o primeiro documento conhecido sobre a ciência forense. Créditos: Wikipedia.

Na foto: Páginas do manual “A Limpeza dos Erros”. O registro chinês é o primeiro documento conhecido sobre a ciência forense. Créditos: Wikipedia.

Buck Ruxton

Até o século passado, A Limpeza dos Erros era levado às cenas de crimes pelos oficiais chineses. Já o ocidente levou mais tempo para reconhecer os benefícios forenses da entomologia (a ciência que estuda os insetos sob todos os seus aspectos e relações com o homem). Na Grã-Bretanha, em 1935, os cientistas confiaram em insetos levados da cena do crime para resolver um dos assassinatos mais notórios da história criminal britânica. O caso teve grande repercussão, ocupando colunas e mais colunas nos jornais.

Em 29 de setembro, duas mulheres estavam cruzando uma ponte sobre uma ravina perto de Moffat, na estrada de Carlisle para Edimburgo quando, horrorizadas, perceberam que estavam olhando para um braço humano despontando da margem do rio abaixo. Quando a polícia chegou na cena do crime, encontrou 30 pacotes ensanguentados contendo partes humanas enroladas em jornal; 70 partes foram recolhidas ao todo, de dois cadáveres diferentes. Era quase certo que eles foram esquartejados para impedir a identificação – as pontas dos dedos haviam sido removidas – e o trabalho fora realizado por alguém que conhecia a anatomia humana.

Na foto: Buck Ruxton. Créditos: Wikipedia.

Na foto: Buck Ruxton. Créditos: Wikipedia.

Algumas larvas foram encontradas se alimentando das partes em decomposição, e elas foram enviadas para a Universidade de Edimburgo. Lá, os entomologistas as identificaram como uma espécie particular de mosca varejeira, e usaram a evidência dos insetos para estimar o tempo em que os corpos foram descartados, algo entre 10 e 12 dias. Aquele lapso temporal sugeria uma possível identidade para os cadáveres. Isabella Ruxton, a esposa de Buck Ruxton, um conhecido médico local, havia desaparecido recentemente, junto com sua criada de 19 anos, Mary Rogerson. Ruxton sustentou que sua esposa havia fugido com um amante, e que aquele não era um lar feliz: Buck acusava constantemente sua mulher de infidelidade, provocando discussões acaloradas.

Algumas das partes dos corpos foram enroladas em uma seção especial do jornal Sunday Graphic, distribuído apenas na região de Lancaster/Morecambe. Já outras partes estavam enroladas em roupas pertencentes aos filhos de Ruxton. Então um ciclista apareceu: ele havia sido atropelado por um carro no mesmo dia, e anotara o número da placa. Ela pertencia ao carro de Ruxton. Outra evidência: o rio transbordara em 19 de setembro, carregando algumas das partes até a margem, assim, os pacotes deviam ter sido descartados antes disso.

Ruxton foi condenado pelo que foi chamado de “Os Assassinatos Quebra-Cabeça”, e foi enforcado na prisão de Strangeways em Manchester; o mais provável é que ele tenha estrangulado sua esposa. A criada morreu depois de ter a garganta cortada, provavelmente para silenciá-la após ela ter descoberto o crime. A evidência dos insetos era apenas uma peça num mosaico que proclamava a culpa do assassino. Mas o sucesso da combinação de métodos usados no caso levou ao aumento da confiança do público e dos profissionais nas potencialidades da ciência forense. Mesmo se Ruxton tivesse enrolado as partes despedaçadas de suas vítimas em sacos em vez de utilizar seções do jornal local, mesmo se o carro dele não tivesse colidido com uma bicicleta, mesmo se o rio não tivesse transbordado, as larvas ainda teriam apontado para ele.

O Caso do Assassinato Luetgert

Quando foram desenvolvidas, técnicas como coleta de impressões digitais e antropologia forense frequentemente eram consideradas como pseudociência e perigosamente duvidosas. Muitas vezes era necessário um caso de repercussão para provar seu valor. Para a antropologia forense – hoje parte da investigação das cenas de crimes em tudo, desde redes de pedofilia até genocídios – a virada veio através do caso do assassinato Luetgert.

Adolph Luetgert havia emigrado para Chicago, em 1886, vindo da Alemanha aos 21 anos sem um tostão no bolso. Por 15 anos ele fez bicos em curtumes e companhias de remoção até finalmente juntar dinheiro suficiente para construir uma fábrica, montando a AL Luetgert Sausage & Packing Company. As salsichas da fábrica logo estavam sendo distribuídas por toda a cidade e circunvizinhança, garantindo a Luetgert o título de “Rei da Salsicha de Chicago”.

Em 1 de maio de 1897 ele saiu para um passeio com sua esposa, a pequena e atraente Louisa. E apesar de uma testemunha ter afirmado que havia visto os dois entrando na fábrica de salsichas às 10h30, apenas Adolph voltou para casa. Alertados pela família de Louisa, a polícia logo chegou ao lugar, onde notaram um aroma peculiar vindo de uma enorme tina usada para canalizar salsichas. Examinando a tina, os oficiais notaram sujeira no fundo, e um deles descreveu como tendo um cheiro “nauseante”, “algo morto ali dentro”. No meio do lodo, eles encontraram uma aliança de casamento, e outro anel com a gravação “LL”. Dentro de uma fornalha próxima, eles encontraram alguns pedaços pequenos do que parecia ser osso, e um pedaço de um espartilho queimado.

Enquanto a mídia estava polvorosa e as vendas de salsichas caíam por todos os Estados Unidos, Luetgert foi levado a julgamento no tribunal do Condado de Cook, no verão do mesmo ano. E um antropólogo – George Dorsey – foi chamado a testemunhar que os ossos encontrados na fornalha eram humanos, e que incluíam ossos do pé, de dedos da mão, costelas, de dedos do pé e do crânio de uma mulher.

Na foto: Adolph Luetgert durante seu julgamento em 1898. Créditos: Alchemy of Bones website

Na foto: Adolph Luetgert durante seu julgamento em 1898. Créditos: Alchemy of Bones website.

O primeiro julgamento produziu um júri empatado; os jurados estavam tão longe de um consenso que eles quase foram às vias de fato na sala de deliberação. No ano seguinte, um novo julgamento foi agendado. Dorsey testemunhou novamente. E dessa vez Luetgert foi considerado culpado pelo assassinato da esposa. Fora do tribunal, Dorsey enfrentou o ceticismo de outros anatomistas, que zombaram da sua “identificação de uma mulher a partir de quatro fragmentos de osso do tamanho de ervilhas” – e abandonou a ciência forense. Mas a cobertura da imprensa colocou a antropologia forense no mapa.

Mary Ann Cotton

O medo de envenenamento por arsênico no século XIX foi o que levou a toxicologia à linha de frente da investigação forense. Os franceses apelidaram seus problemas com arsênico de poudre de succession (pó da herança). Na Inglaterra e no País de Gales, houve 98 julgamentos por envenenamento criminoso entre 1840 e 1850. Apesar de um teste confiável – o teste Marsh – ter sido desenvolvido em 1838, o arsênico ainda era frequentemente usado. Ele era inodoro, praticamente insípido – alguns diziam que ele tinha um gosto levemente adocicado – e de acesso barato em qualquer tipo de loja. O corpo é incapaz de excretá-lo, e assim os elementos metálicos e pesados se acumulam na corrente sanguínea da vítima, simulando a lenta debilitação de uma doença natural. Aqueles que o ingerem sofrem inúmeros sintomas com graus de severidade variável: hipersalivação, dor abdominal, vômitos, diarreia, desidratação e icterícia pode ser resultado de um envenenamento por arsênico, levando frequentemente os médicos a diagnosticarem cólera, disenteria e febre gástrica. Assassinos de arsênico inteligentes preferiam o método crônico de administração em vez do agudo.

Quando tinha 19 anos, Mary Ann Cotton engravidou de um mineiro chamado Willian Mowbray e eles viajaram o país juntos em busca de trabalho. Ela deu à luz cinco crianças durante este tempo, mas quatro delas morreram, possivelmente de causas naturais. Em 1856, o casal se mudou de volta para o norte, onde ela teve mais três filhos. Todos morreram de diarreia. Seu pesar não a impedia de resgatar as indenizações dos seguros de vida que ela havia contratado para cada um deles. Então seu marido machucou o pé num acidente em uma escavação e teve que se recuperar em casa. Logo ele caiu doente e foi diagnosticado com “febre gástrica”; ele morreu em janeiro de 1865. Mary Ann se dirigiu ao escritório da Prudential Insurance Company e recolheu a apólice de 30 libras que ela recentemente o havia convencido a contratar.

No mapa acima, a simpática casinha azul atrás das árvores foi a moradia da primeira serial killer mulher conhecida da Grã-Bretanha. Foi lá que ela assassinou sua última vítima e eventualmente presa.

Durante os próximos doze anos, Cotton se tornaria a serial killer do sexo feminino mais prolífica da história britânica. Em 1872, ela voltou suas atenções para Richard Quick-Mann, um abastado coletor de tributos alfandegários. Apenas o enteado de sete anos dela, Charles Cotton, estava no caminho. Ela tentou entregá-lo a um dos tios dele, mas não conseguiu. Então ela o levou para o abrigo local; o superintendente recusou a entrada dele a menos que Cotton o acompanhasse. Quando todas as outras opções falharam, ela envenenou Charles. O superintendente do abrigo soube da morte dele e procurou a polícia. O médico que havia atendido Charles antes de ele morrer realizou uma autópsia e não encontrou indícios de envenenamento. Assim, o legista registrou morte por causas naturais. Mas o médico havia preservado o estômago e os intestinos de Charles, e quando ele os testou novamente descobriu o veneno letal.

Os corpos das vítimas mais recentes de Mary Ann foram exumados e descobriu-se que eles continham altos níveis de arsênico. Sob o peso dessas evidências e do depoimento de outras testemunhas, ela foi condenada por assassinato e sentenciada à morte. A história correu os jornais por meses, e uma rima foi cunhada, que começava com “Mary Ann Cotton – she’s dead and she’s rotten” (“Mary Ann Cotton, ela está morta e carcomida”). A imprensa sabia que seus leitores vitorianos eram fascinados pela figura da envenenadora, exalando amabilidade e doçura, oferecendo ao marido uma segunda colherada de açúcar para seu chá e então a tornando letal. Mais de 90% dos assassinos de cônjuge na Grã Bretanha do século XIX eram homens. Mas os homens eram mais propensos a esfaquear ou estrangular suas esposas; duas vezes mais mulheres do que homens eram julgadas por envenenamento. Duas outras envenenadoras famosas cujas histórias estão publicadas no blog são Gesina Gottfried e Mary Blandy.

Noivas na Banheira

Na metade do século XX os cientistas forenses atraíam muito mais atenção, e alguns, à sua maneira, eram quase celebridades. Sir Bernard Spilsbury, um conhecido patologista, era visto com grande simpatia pela polícia e pelos tribunais. O famoso escritor Arthur Conan Doyle, que de alguma forma era cético em relação a Spilsbury, observou a “infalibilidade mais que papal com a qual Sir Bernard é prontamente investido pelos jurados”.

O caso mais famoso de Spilsbury envolveu Dr. Crippen, um farmacêutico londrino acusado de envenenar a esposa Cora e enterrar o tronco dela no porão de sua casa. Seus métodos não convencionais também foram vitais em outro extraordinário caso, o qual nem mesmo testes de DNA ou qualquer outra técnica forense moderna poderiam tê-lo ajudado a resolver.

Em 3 de janeiro de 1915, Charles Burnham, um agricultor de Buckinghamshire, sentou-se com uma xícara de chá e abriu seu exemplar do News of the World. Na página três, ele encontrou a manchete “Morta na Banheira: O Destino Trágico de Uma Noiva no Dia Seguinte ao Casamento” e uma pequena reportagem explicando que uma tal Margaret Lloyd havia sido encontrada morta no apartamento dela no norte de Londres. A filha de Charles Burnham, Alice, também havia morrido no banho, pouco depois do casamento dela, quase um ano antes. Burnham contatou a polícia e descobriu que o marido de Margaret Lloyd era George Joseph Smith, o mesmo que anteriormente casara com sua filha Alice. Coincidência?

A polícia convocou Spilsbury para realizar uma autópsia no cadáver exumado de Margaret. Em seguida, ele viajou até Blackpool para examinar o de Alice. Logo, a polícia descobriria detalhes de uma terceira mulher, Bessie Williams, que casara com George Smith e morrera em casa, em circunstâncias similares, no ano de 1912 em Kent. Quando a polícia investigou outra vez, descobriu que Smith havia se beneficiado financeiramente da morte de todas as suas esposas, sendo a maior quantia de Williams, que lhe deixara £ 2.500 libras em testamento (aproximadamente £ 190 mil libras nos dias de hoje). Um padrão começava a surgir, e a polícia prendeu Smith.

Na foto - Bessie Mundy e o serial killer George Joseph Smith. Créditos: Murderpedia

Na foto – Bessie Mundy e o serial killer George Joseph Smith. Créditos: Murderpedia.

Nos corpos de Margaret e Alice, Spilsbury não conseguiu encontrar nenhum indício de violência, envenenamento ou ataque cardíaco, apesar de o clínico geral que foi o primeiro a examinar o corpo de Bessie ter notado que ela estava apertando uma barra de sabão. Spilsbury, então, fez com que todas as três banheiras fossem levadas à delegacia de polícia de Kentish Town, onde as alinhou juntas e examinou-as minuciosamente. Ele estava particularmente intrigado pelo caso de Bessie Williams. Pouco antes da morte dela, Smith a levara a um médico para uma consulta sobre sintomas de epilepsia. Smith disse ao médico que ela sofria ataques, mesmo ela não conseguindo se lembrar de nenhum deles e não tivesse casos de epilepsia na família. Bessie tinha cerca de 1,70m de altura e era obesa. A banheira onde ela havia morrido media apenas 1,50m de comprimento e era inclinada do lado da cabeça. Spilsbury sabia que a primeira fase de um ataque epilético causa completa rigidez corporal e que, devido ao tamanho dela e ao formato da banheira, um ataque desses deveria manter a cabeça de Bessie acima do nível da água em vez de levá-la para o fundo.

Spilsbury pesquisou mais e descobriu que uma invasão súbita de água pelo nariz e garganta pode inibir um nervo craniano vital, o nervo vago, e causar perda repentina da consciência, rapidamente seguida por morte. Um resultado subsidiário comum é rigor mortis instantâneo – o que Spilsbury acreditava explicar a barra de sabão apertada na mão de Bessie. Munido dessa informação, o oficial investigador, Inspetor Detetive Neil, decidiu conduzir uma série de experimentos antes do julgamento. A primeira voluntária entrou numa banheira cheia, vestida com roupas de banho, e conseguiu agarrar as laterais da banheira e fazer força. Mas quando Neil agarrou os tornozelos dela e abruptamente puxou suas pernas para cima, ela deslizou para baixo d’água e perdeu a consciência. Foram precisos vários minutos para o médico fazê-la recobrar os sentidos; ela teve sorte em sobreviver. Mas a polícia tinha sua resposta.

Smith, um predador vigarista com uma queda por anéis de ouro e gravatas borboleta coloridas e brilhantes, foi julgado pelo assassinato de Williams. No julgamento, Spilsbury falou com grande autoridade. O júri deliberou por 20 minutos antes de condenar Smith. O interesse público nos “Assassinatos de Noivas na Banheira” foi intenso. Dezenas de jornalistas, sedentos pela manchete “cientista derrota serial killer”, batiam na porta de Spilsbury no decurso da investigação.

Na foto: Gravura publicada em jornal da época mostra o cientista Spilsbury realizando o experimento com uma voluntária que quase morreu em nome da ciência forense. Créditos: The Milwaukee Journal. 27 de Janeiro de 1935.

Na foto: Gravura publicada em jornal da época mostra o cientista Spilsbury realizando o experimento com uma voluntária que quase morreu em nome da ciência forense. Créditos: The Milwaukee Journal. 27 de Janeiro de 1935.

O Fantasma de Heilbronn

Apesar de Smith ser quase que certamente culpado, a autoconfiança intensa de Spilsbury – e a fé implícita investida nele pelo sistema legal – também levou a inúmeros erros judiciais. Os jurados de hoje podem ser menos influenciados pela palavra de um perito carismático, mas eles ainda podem depositar muita confiança em matérias que são objeto de interpretação – tal como impressões digitais. Similarmente, progressos recentes têm sacudido as bases do perfilamento de DNA.

O estranho caso do “Fantasma de Heilbronn” envolveu uma suposta serial killer aparentemente sobre-humana, cujo DNA foi encontrado na cena de roubos e assassinatos ao longo de Áustria, França e Alemanha, nos anos 90 e 2000. A análise mitocondrial do DNA sugeria que ele vinha de uma mulher de origem russa ou do leste europeu que parecia estar envolvida em uma desconcertante variedade de atividades criminais sem ter deixado qualquer outro vestígio. Em 2009, quando o DNA apareceu no corpo carbonizado de um refugiado na Alemanha, as autoridades concluíram que o “fantasma” era simplesmente o resultado de uma contaminação no laboratório: os bastonetes de algodão utilizados para coletar DNA não eram certificados para o propósito, e finalmente foram rastreados até a mesma fábrica, que empregava várias mulheres do leste europeu que se encaixavam no perfil de DNA da “serial killer”.

Um especialista que eu entrevistei afirmou: “O DNA não mente. É uma pista excepcionalmente boa e uma evidência excepcionalmente forte, mas existe uma interação humana no processo [de perfilamento]. Então a margem de erro é excepcionalmente baixa, mas não é zero… O DNA não deveria ser uma desculpa preguiçosa para não realizar uma investigação.”

Suzanne Pilley

Os maiores saltos na ciência forense nos anos recentes têm sido digitais. Um caso que foi desdobrado com base em tal evidência foi o assassinato de Suzanne Pilley, que foi vista [pela última vez] indo para o seu trabalho de contadora em uma companhia de serviços financeiros no centro de Edimburgo, Escócia. As suspeitas recaíram rapidamente sobre David Gilroy, um colega de Suzanne com quem ela recentemente havia terminado um romance. A polícia interrogou Gilroy e notou um corte na testa dele, hematomas sutis no peito e arranhões curvos em suas mãos, pulsos e antebraços. Gilroy disse que ele havia arranhado a si mesmo enquanto praticava jardinagem. Mais tarde, o patologista forense Nathaniel Cary examinaria as fotos destes ferimentos e testemunharia que eles poderiam ter sido feitos pelas unhas de outra pessoa, possivelmente numa luta.

A polícia apreendeu o celular e o carro de Gilroy, e cães farejadores, especialmente treinados para encontrar cadáveres, detectaram vestígios de sangue humano na mala e no assoalho, apesar de claramente ter havido uma tentativa de limpar o carro. A polícia também encontrou vegetação sob o carro e uma suspensão danificada. Aquilo era suspeito, mas eles precisavam de mais para montar um caso. Um perito em análise digital foi chamado para trabalhar no telefone de Gilroy. Quando você desliga seu telefone, ele mantém um registro da última torre de transmissão à qual estava conectado, de modo que o telefone possa encontrá-la rapidamente quando você começa a usá-lo novamente. No dia em que eles acreditavam que ele havia descartado o corpo de Suzanne, Gilroy havia desligado seu telefone enquanto viajava entre Stirling e Inveraray. A polícia suspeitava que ele havia feito aquilo para evitar ser rastreado enquanto procurava por um bom local para se livrar do corpo de Suzanne na densa mata. No caminho de volta, Gilroy novamente desligou seu celular entre Stirling e Inveraray. Ali, acreditava a polícia, era onde ele havia abandonado o corpo.

Na foto: Suzanne Pilley e David Gilroy. Suzanne desapareceu em maio de 2010. Reprodução Internet

Na foto: Suzanne Pilley e David Gilroy. Suzanne desapareceu em maio de 2010. Reprodução Internet.

O corpo de Suzanne jamais foi encontrado. No entanto, em março de 2012 Gilroy foi condenado por homicídio e obstrução da justiça. É raro que assassinos sejam condenados sem a presença do corpo da vítima. No caso de Gilroy não havia DNA e os arranhões em seu braço não teriam sido o suficiente. Ele foi condenado por causa de uma atividade incomum no seu telefone, vídeos de circuito interno e imagens de câmeras rodoviárias.

Informações

Forensics: The Anatomy of Crime

Título: Forensics: The Anatomy of Crime

Autor: Val McDermid

Lançamento: 2 de Outubro de 2014

Número de páginas: 320

Descrição: Os mortos falam. Para o ouvinte certo, todos eles nos dizem sobre si mesmos: de onde eles vem, como eles viveram – e quem os matou. Cientistas forenses podem desvendar os mistérios do passado e ajudar que a justiça seja feita usando as mensagens deixadas por um cadáver, uma cena de crime ou o menor dos vestígios.

Obs.: O texto acima foi retirado do livro Forensics: The Anatomy of Crime.

Esta matéria teve colaboração de:

marcus

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