Crimes Históricos: Horror em Amityville

Quarenta anos depois, os acontecimentos na casa 112 de Ocean Avenue, que inspiraram livros e filmes, ainda contém algumas perguntas sem respostas.
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Horror em Amityville

“Eles se mudaram em 23 de Dezembro. Pouco depois, tomaram conhecimento de que o lugar era habitado por alguma força psíquica e temeram por suas vidas. Eles disseram sobre sentir a presença de algum tipo de energia interna, algum mal não natural que crescia em força cada dia que permaneciam.”

[Jay Anson, “The Amityville Horror”, página 2. 1977]

Em Dezembro de 1975, a família Lutz mudou-se para uma casa estilo colonial no subúrbio de Long Island, estado norte-americano de Nova Iorque. George e Kathleen Lutz sabiam que, um ano antes, a casa havia sido palco de um terrível massacre em que toda uma família foi assassinada. Mas a propriedade, com suítes e piscina, estava com um preço bom demais para não comprar. Vinte e oito dias depois, os Lutz fugiram em terror do lugar.

O que eles contaram sobre a residência de número 112 já é história. O lugar, supostamente possuído por espíritos malignos e assombrado por fenômenos psíquicos terríveis, fez brotar livros e filmes e já faz parte do inconsciente Americano e do mundo.

Essa misteriosa história pode, inclusive, ser ligada a um famoso caso de assassinato ocorrido no Brasil: em Agosto de 2013, o país ficou chocado com o caso Marcelo Pesseghini, em que uma família inteira foi massacrada num crime que dividiu a opinião pública e que até hoje é cercado de controvérsias. Entre diversos elementos intrigantes descobertos na investigação do caso, uma imagem chamou a atenção:

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Em 19 de Dezembro de 2012, Marcelo Pesseghini, que ao final de um inquérito controverso foi apontado como o assassino da própria família, compartilhou essa imagem em seu perfil do Facebook com a legenda: “quando você perceber, terá se cagado de medo.”.

O que essa imagem compartilhada por Pesseghini tem a ver com o misterioso caso americano? Qual a verdadeira história por trás de um dos mais famosos casos de assassinato dos Estados Unidos? Entidades malignas ou apenas o mal que habita o ser humano?

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Horror em Amityville – A História Real


Vila de Amityville, Babylon, Condado de Suffolk, Nova Iorque.

  • 13 de Novembro de 1974

Era apenas mais uma noite rotineira na central de emergência do condado de Suffolk, Nova Iorque. Não havia ligações e, de qualquer forma, aquela tranquila cidade raramente tinha um crime do qual reclamar, ao menos para os padrões da Metrópole. De repente, às 18h35min, a tranquilidade foi quebrada por um telefonema que destruiria a aura de região suburbana segura que envolvia o Condado. A transcrição da conversa demonstra a agitação da pessoa que havia ligado, enquanto tentava relatar ao operador a cena  à qual havia sido levado.

Operador: “Aqui é da polícia do Condado de Suffolk. Posso ajudá-lo?”

Homem: “Houve um tiroteio aqui. Hum, DeFeo.”

Operador: “Senhor, qual seu nome?”

Homem: “Joey Yeswit.”

Operador: “Pode soletrá-lo?”

Homem: “Sim. Y-E-S-W-I-T.”

Operador: “Y-E-S…”

Homem: “Y-E-S-W-I-T.”

Operador: “…W-I-T. Seu telefone?”

Homem: “Eu nem sei se está aqui. Há, hum, não tem nenhum número no telefone aqui.”

Operador: “Certo, de onde você está ligando?”

Homem: “De Amityville. Chamem a polícia de Amityville, fica bem na, hum… Ocean Avenue em Amityville.”

Operador: “Austin?”

Homem: “Ocean Avenue. Mas que…?”

Operador: “Ocean… Avenue? Onde fica?”

Homem: “Logo depois da Merrick Road. Ocean Avenue.”

Operador: “Merrick Road. Qual… qual o problema, senhor?”

Homem: “Um tiroteio!”

Operador: “Um tiroteio. Alguém ferido?”

Homem: “Hein?”

Operador: “Alguém ferido?”

Homem: “Sim, é que… hum, hum – estão todos mortos.”

Operador: “O que você quer dizer com estão todos mortos?”

Homem: “Eu não sei o que aconteceu. O garoto entrou correndo no bar. Ele disse que todos da família haviam sido mortos, e viemos até aqui.”

Operador: “Aguarde um segundo, senhor.”

(Um oficial de polícia assume a ligação)

Policial: “Alô.”

Homem: “Alô.”

Policial: “Qual o seu nome?”

Homem: “Meu nome é Joe Yeswit.”

Policial: “George Edwards?”

Homem: “Joe Yeswit.”

Policial: “Como se soletra?”

Homem: “O que? Eu acabei de… QUANTAS vezes eu tenho de dizer? Y-E-S-W-I-T.”

Policial: “Onde você está?”

Homem: “Estou na Ocean Avenue.”

Policial: “Que número?”

Homem: “Não tem um número aqui. Não há nenhum número no telefone.”

Policial: “Qual o número da casa?”

Homem: “Eu nem sei.”

Policial: “Onde você está? Ocean Avenue e o que mais?”

Homem: “Em Amityville. Chamem a polícia de Amityville e mandem alguém vir aqui. Eles conhecem a família.”

Policial: “Amityville.”

Homem: “É, Amityville.”

Policial: “Certo. Agora me diga o que há de errado.”

Homem: “Eu não sei. O cara entrou correndo no bar. O cara entrou correndo no bar e falou lá  que seu pai e sua mãe haviam sido baleados. Nós corremos até esta casa e todo mundo aqui foi baleado. Eu não sei há quanto tempo foi, você sabe. Então, hum…”

Policial: “Hum, qual o endereço… qual o endereço da casa? “

Homem: “Hum, espera. Deixe-me ir ver o número. Certo. Espera. Ocean Avenue, 112, Amityville.”

Policial: “É Amityville ou North Amityville?”

Homem: “Amityville. Logo a… sul da Merrick Road.”

Policial: “Fica dentro dos limites do vilarejo?”

Homem: “Fica nos limites do vilarejo, sim.”

Policial: “Ah, certo, qual o seu telefone?”

Homem: “Eu nem tenho um. Não tem nenhum número no telefone.”

Policial: “Certo, de onde você está ligando? De um telefone público?”

Homem: “Não, estou ligando diretamente da casa, é que não vi nenhum número no telefone.”

Policial: “Você está dentro da casa?”

Homem: “É.”

Policial: “Quantos corpos há?”

Homem: “Acho que, hum, não sei – acho que eles falaram quatro.”

Policial: “Há quatro corpos?”

Homem: “É.”

Policial: “Certo. Fique aí mesmo na casa, eu ligarei para a polícia do vilarejo de Amityville e eles irão até aí.”

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“High Hopes”, o número 112 da Ocean Avenue. Créditos: Wikipédia.

No final da noite, os investigadores encontrariam não quatro, mas seis corpos na Ocean Avenue. Seis dos sete membros de uma mesma família que residia na casa de número 112 da Ocean Avenue haviam sido metodicamente assassinados enquanto dormiam em suas camas. Apenas um deles sobrevivera ao massacre. Abaixo segue a misteriosa e assustadora história de como tudo isso aconteceu.

Raiva e Ressentimento


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O senhor Ronald DeFeo havia conseguido realizar uma grande parte do sonho americano quando comprou a casa de número 112 na Ocean Avenue, em Amityville, uma vila bucólica da cidade de Babylon, região de Long Island. Nascido e criado no Brooklyn, Ronald havia trabalhado duro na concessionária de carros luxuosos do sogro e, depois de tantos anos, começava a colher os frutos. Dinheiro não era mais um problema quando ele finalmente tomou a decisão de abandonar a turbulenta Nova Iorque e se mudar para Long Island. A casa que escolheu era um típico modelo clássico: dois andares e um sótão, vários quartos e uma pequena casa de barcos no rio Amityville. Havia bastante espaço para ele, sua esposa Louise e seus cinco filhos. Um letreiro no jardim dizia “High Hopes” (Grandes Esperanças), indicando o que o novo lar simbolizava para os DeFeo.

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Os cinco filhos do casal DeFeo. Acima, da esquerda para a direita: John, Allison e Mark. Abaixo, Dawn (à esquerda) e, o mais velho, Ronald “Butch” Jr. Créditos: Murderpedia.

Mas, por baixo do verniz de sucesso e felicidade, Ronald era um homem temperamental, dado a acessos de raiva e violência. Havia brigas furiosas entre ele e Louise, e ele era visto pelos filhos como uma figura autoritária. Como filho mais velho, Ronald DeFeo Jr. sentia o peso do temperamento e das expectativas do pai. Na juventude, Ronald Jr., ou Butch, como viria a ser chamado, era gordo e retraído, a vítima perfeita de bullying na escola e nada popular entre as outras crianças. Seu pai o encorajava a se defender, mas ao mesmo tempo em que o aconselhava a respeito dos maus-tratos dos valentões da escola, os mesmos (conselhos) não se aplicavam ao modo como o jovem Ronald era tratado em casa. Ronald, o pai, não tolerava ser respondido ou desobedecido, mantinha o filho mais velho sob rédea curta e não permitia que ele se defendesse da forma como havia lhe dito para fazer na escola.

Mas quando Butch entrou na adolescência, cresceu em tamanho e força e não era mais um indefeso diante dos abusos do pai. Discussões aos gritos frequentemente evoluíam para troca de socos quando pai e filho chegavam às vias de fato à menor das provocações. E logo ficou claro para o casal DeFeo que o filho deles Butch tinha algum problema. Apesar de Ronald pai não ser tão habilidoso em suas relações sociais, ele era esperto o bastante para entender que as mudanças de temperamento e o comportamento violento do filho eram incomuns demais, mesmo em comparação com as suas próprias. Ele e a esposa conseguiram que o filho visitasse um psiquiatra, mas de nada adiantou, Butch simplesmente adotou uma posição passivo-agressiva com seu terapeuta e rejeitou qualquer insinuação de que precisava de ajuda.

Na falta de outra solução, os DeFeo empregaram uma estratégia consagrada pelo tempo para apaziguar filhos indisciplinados: começaram a comprar para Butch tudo o que ele queria e a dar-lhe dinheiro. Aos 14 anos, o pai o presenteou com uma lancha de US$ 14 mil dólares, para que ele cruzasse o Rio Amityville. Sempre que queria dinheiro, tudo que Butch precisava fazer era pedir e, se não estivesse a fim de pedir, simplesmente o pegava.

Aos 17 anos, foi forçado a abandonar a escola paroquial que frequentava. Nessa época, ele tinha começado a usar drogas pesadas, como heroína e LSD, e também havia começado a se envolver em pequenos roubos. Seu comportamento violento e delinquente estava se tornando cada vez mais psicótico e não se limitava mais a explosões dentro de casa. Uma tarde, enquanto caçava com alguns amigos, apontou seu rifle carregado para um membro da sua turma, um jovem que conhecia há anos. Ele observou com ar inexpressivo enquanto o rosto do amigo empalidecia. O garoto saiu correndo, e Butch calmamente abaixou a arma. Quando reencontraram o amigo mais tarde, Butch perguntou-lhe por que havia fugido tão rapidamente.

Quando completou 18 anos, conseguiu um emprego na concessionária de carros luxuosos Buick do avô. Na verdade, era um emprego inútil, em ele quase não possuía atribuições. Independente de aparecer ou não para trabalhar, ele recebia um salário do pai ao fim de cada semana. Então ele o usava para manter seu carro (que os pais também haviam comprado), para comprar bebidas e drogas, como speed e heroína. As brigas com o pai estavam ficando cada vez mais frequentes e violentas. Numa noite, uma briga entre o casal DeFeo começou. Para resolver o problema, Butch pegou uma escopeta calibre .12 no seu quarto, pôs um cartucho e desceu as escadas em direção ao palco da discussão. Sem hesitação ou aviso, para separar a briga, ele apontou o cano da arma para o rosto do pai, gritando: “Deixe a mulher em paz. Eu vou te matar, seu gordo fodido! É isso aí”. Butch puxou o gatilho, mas a arma misteriosamente não disparou. Ronald, paralisado, observou com sombria perplexidade enquanto seu próprio filho abaixava a arma e simplesmente caminhava para fora do recinto, indiferente ao fato de que quase havia matado o pai a sangue frio. A briga havia terminado, mas as ações de Butch eram um prenúncio da violência que em breve descarregaria não apenas sobre o pai, mas sobre toda a sua família. [Abaixo o número 112, Ocean Avenue, no Google Maps]

Tiros Durante a Noite


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Nas semanas que antecederam a chacina, a relação entre Butch DeFeo e seu pai havia atingido o limite. Butch, aparentemente insatisfeito com o dinheiro que recebia do pai, concebeu um plano para desfalcar a família. Duas semanas antes das mortes, ele foi enviado para uma tarefa por um dos funcionários da concessionária, com a incumbência de depositar no banco US$ 1.800 dólares em dinheiro e US$ 20 mil dólares em cheques. Mas, ao invés disso, simulou um roubo no caminho até o banco com um conhecido, com quem mais tarde dividiria o dinheiro.

Butch e outro cúmplice da concessionária saíram para o banco às 12h30min. Após duas horas, eles ainda não haviam retornado e, quando chegaram, contaram a história de que haviam sido assaltados enquanto esperavam num sinal vermelho. Ronald, estava na concessionária quando o filho retornou e explodiu em fúria quando ouviu a historia. A polícia foi chamada e, quando chegou, naturalmente, pediram para falar com Butch. Entretanto, ao invés de de bancar o cooperativo e ao menos elaborar uma descrição básica para o bandido fictício, ficou tenso e irritado com as autoridades. Quando começaram a suspeitar da mentira, Butch ficou violento e as perguntas passaram a focar nas duas horas em que ele esteve fora. Ele não deveria ter corrido de volta para a concessionária, uma vez que tanto dinheiro havia sido roubado dele? Onde havia estado durante aquele tempo? Em respostas às suas perguntas, Butch começou a xingá-los, batendo no capô de um carro no estacionamento do avô para demonstrar sua raiva. A polícia recuou por um momento, mas o pai, Ronald, com base no comportamento do filho, já havia chegado a sua própria conclusão.

Na sexta-feira que antecedeu os assassinatos, os policiais haviam pedido a Butch que examinasse algumas fotos, na possibilidade de poder reconhecer o ladrão. Ele inicialmente concordou, mas desistiu em cima da hora. Quando Ronald soube disso, confrontou o filho no trabalho e exigiu saber por que ele não cooperou com a polícia. “Você carrega o demônio nas costas”, gritou o pai para o filho. Butch não hesitou: “Seu gordo idiota, eu vou matá-lo!”. Ele então correu para seu carro e saiu em disparada. Essa briga não chegou às vias de fato, mas o confronto final era iminente.

O jovem Ronald DeFeo (segunda fila, o segundo da direita para a esquerda) na foto do ano do colegial. Foto: Photobucket.

O jovem Ronald DeFeo (segunda fila, o segundo da direita para a esquerda) na foto do ano do colegial. Foto: Photobucket.

O adolescente Ronald DeFeo em foto anual do colégio. Foto: Photobucket.

O adolescente Ronald DeFeo (segunda fila, terceiro da esquerda para a direita) em foto anual do colégio. Foto: Photobucket.

O manto da noite ainda cobria o vilarejo de Amityville nas primeiras horas da manhã de terça-feira, 14 de Novembro de 1974. Cães vadios e a locomotiva eram os únicos sinais de vida, enquanto famílias e vizinhos dormiam. Mas ódio e selvageria fermentavam sob a aparente calma do número 112 na Ocean Boulevard. Toda a família DeFeo havia ido para a cama, com exceção de Butch. Enquanto permanecia sentado em silêncio no seu quarto, ele sabia o que queria fazer, o que na verdade ele IRIA fazer. Seu pai e sua família não seriam mais um incômodo.

Butch era o único membro da família que possuía um quarto só para si. Seu temperamento agressivo e o fato de ser o filho mais velho haviam lhe garantido esse pequeno luxo. Isso também lhe proporcionou um lugar privado para armazenar uma grande quantidade de armas, que colecionava e às vezes vendia. Na noite dos assassinatos, Butch escolheu um rifle Marlin calibre .35 do seu armário e dirigiu-se, sorrateira mas decididamente, para o quarto dos pais, e silenciosamente empurrou a porta e os observou por um momento enquanto dormiam. Então, sem hesitação, Butch levou o rifle ao ombro e puxou o gatilho – o primeiro dos oito disparos fatais que ele faria naquela noite. O primeiro tiro rasgou as costas de seu pai, perfurando seu rim e saindo pelo peito. Butch deu outro tiro, novamente acertando as costas do pai. Esse tiro perfurou a base da espinha de Ronald e alojou-se em seu pescoço.

Os tiros despertaram Louise DeFeo, que teve apenas alguns segundos para reagir antes dele começar a disparar contra ela. Butch apontou a arma para a mãe enquanto ela estava de bruços sobre a cama e disparou duas vezes. As balas estraçalharam suas costelas e destruíram seu pulmão direito. Ambos os corpos agora jaziam silenciosamente em poças frescas de sangue.

Apesar do barulho característico de cada disparo do rifle, ninguém mais acordou na casa. Butch rapidamente examinou a devastação que havia causado, antes de continuar o massacre de inocentes. Seus dois irmãos menores, John e Mark, seriam as próximas vítimas de sua fúria.

Ele entrou no quarto dividido pelos dois garotos e parou entre as duas camas. Em pé, exatamente acima de seus irmãos indefesos, Butch disparou um tiro em cada um enquanto dormiam. As balas atravessaram os corpos dos jovens, destruindo seus órgãos internos. Mark ficou imóvel, enquanto John, cuja coluna havia sido partida pelo ataque impiedoso do irmão, se contorceu espasmodicamente por alguns momentos após o tiro. Mais uma vez os disparos não acordaram os únicos membros restantes da família DeFeo. Então, Butch se esgueirou, implacável, para o quarto que era dividido por suas irmãs Dawn e Allison. Dawn era a mais velha depois de Butch, enquanto Allison estava em idade escolar, assim como John e Mark.

Quando Butch entrou no quarto, Allison acordou e olhou para cima, exatamente quando ele abaixou o rifle até o seu rosto e puxou o gatilho. A irmã menor morreu instantaneamente. Ele, então, foi até o quarto de hóspedes, onde Dawn dormia, apontou sua arma para a cabeça dela e disparou, literalmente estraçalhando o lado esquerdo do rosto da irmã.

Tudo aconteceu pouco depois das três da manhã. Em um intervalo de menos de quinze minutos, Ronald “Butch” DeFeo Jr. havia chacinado brutalmente e a sangue frio todos os membros de sua família. O cão dos DeFeo, Shaggy, estava amarrado próximo à casa de barcos e latia violentamente em reação à brutalidade que acontecia na casa. No entanto, seus latidos não distraíram o assassino em nenhum momento. Ciente de que havia completado a tarefa a que havia se destinado, ele então voltou suas atenções para limpar-se e criar um álibi a fim de manter a inevitável investigação policial fora do curso. Butch tomou banho calmamente, barbeou-se e vestiu uma calça jeans e botas de trabalho. Ele então recolheu a roupa ensanguentada e o rifle, enrolou-os numa fronha e seguiu para seu carro. Em seguida, jogou as evidências no veículo e saiu pela madrugada. Butch dirigiu do subúrbio até o Brooklyn e descartou a fronha e o conteúdo dela dentro de um bueiro. Ele então retornou para Long Island e foi trabalhar na concessionária do avô, como de costume. Eram seis da manhã.

Fotos da cena do crime. Imagens fortes!

Corpos dos seis membros da família DeFeo. Créditos: Documenting Reality.

Desmascarando um Assassino


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Butch não permaneceu no trabalho por muito tempo. Ele ligou para casa várias vezes e, quando o pai não apareceu, agiu como se estivesse entediado com a falta do que fazer e saiu por volta de meio-dia. Ele, então, ligou para a sua namorada, Sherry Klein, para avisá-la que largaria o serviço mais cedo e que gostaria de passar para vê-la. No caminho de volta para Amityville, Butch cruzou com seu amigo, Bobby Kelske, e os dois pararam para conversar. Butch seguiu para a casa de Sherry, chegando por volta das 13h30min. Sherry tinha 19 anos, era uma garota bonita e popular e trabalhava como garçonete em um dos inúmeros bares que ele frequentava com os amigos. Após ter chegado, Butch casualmente mencionou que tinha tentado ligar para casa várias vezes e, apesar de todos os carros estarem na garagem, não obteve resposta. Para demonstrar, ele ligou do apartamento de Sherry para a própria casa, com o mesmo resultado previsível.

Parecendo intrigado, porém despreocupado, Butch levou Sherry ao shopping durante a tarde. Do shopping em Massapequa, ele dirigiu até a casa de Bobby. Ronald contou ao amigo o mesmo que havia dito a Sherry: que sua família aparentava estar em casa, mas não havia resposta quando ele telefonava. “Há algo acontecendo lá”, disse. “Os carros estão todos na garagem e eu ainda não consigo entrar em casa. Eu telefonei para lá duas vezes e ninguém atendeu”. Mudando as marchas abruptamente, Butch perguntou se Bobby iria sair mais tarde. Bobby respondeu que tiraria um cochilo, e que se Butch quisesse encontrá-lo estaria em um bar local chamado Henry’s, por volta das 18h.

Butch passou o resto da tarde visitando amigos, bebendo e usando heroína. Ele finalmente chegou ao Henry’s depois das 18h. Bobby o seguiu pouco depois. Mais uma vez, Butch fingiu preocupação com a dificuldade de falar com alguém em casa. “Eu vou ter que ir para casa e arrombar uma janela para entrar”, disse a Bobby. “Bem, faça o que tiver que fazer”, seu amigo respondeu tranquilamente. Ronald deixou o bar em sua suposta viagem de descoberta, apenas para voltar depois de alguns minutos em um estado de agitação e agonia. “Bob, você tem que me ajudar”, ele implorou. “Alguém atirou nos meus pais!”.

Os dois amigos se juntaram a um pequeno grupo de clientes e todos eles se amontoaram no carro de Butch, com Bobby no volante. Haviam se passado aproximadamente 15 horas desde os assassinatos. Momentos depois, eles chegaram à casa, Bobby Kelske entrou pela porta da frente e correu escada acima em direção ao quarto do casal. Lá estavam os corpos de Ronald e sua esposa, Louise. Ele voltou para fora e encontrou Butch ao seu lado com ar de visível sofrimento e consternação. Joey Yeswit havia encontrado o telefone na cozinha e estava chamando a polícia. Dentro de dez minutos, o oficial Kenneth Geguski estava na cena do crime. Ao chegar, ele encontrou um grupo de homens reunidos no gramado do jardim dos DeFeo. Butch estava entre eles, soluçando incontrolavelmente. “Meus pais estão mortos”, ele disse quando Geguski aproximou-se do grupo.

O policial do vilarejo de Amityville entrou na casa e imediatamente foi para o andar de cima. Primeiro ele descobriu os corpos de Ronald e Louise, bem como os de John e Mark DeFeo. Então voltou para baixo e ligou para a delegacia do vilarejo. Ronald Jr. estava sentado na mesa da cozinha, ainda chorando. Ao ouvir a descrição de Geguski, ele alertou o oficial para o fato de que também tinha duas irmãs. Geguski largou o telefone e subiu as escadas novamente. Àquela altura, outro policial do vilarejo havia chegado: o oficial Edwin Tyndall. Os dois encontraram juntos os corpos de Dawn e Allison. Seria necessário um perito forense para localizar onde as duas garotas haviam sido baleadas, e que tipo de arma as havia matado: tinha sangue demais para os policiais ao menos poderem supor.

Pouco depois das 19h, a vizinhança fervilhava com a notícia do que havia acontecido na casa chamada “Grandes Esperanças”. A própria casa estava cheia de gente da polícia, enquanto vizinhos e curiosos diversos se ajuntavam no gramado do jardim. O detetive Gaspar Randazzo, do condado de Suffolk, foi o primeiro a interrogar Butch, o único sobrevivente do massacre. Eles sentaram-se na cozinha dos DeFeo e Randazzo perguntou quem ele acreditava ser capaz de fazer uma coisa daquelas. “Louis Falini”, Butch respondeu após uma pequena pausa. Falini era um conhecido pistoleiro da máfia que, segundo Butch, tinha uma rixa com a sua família, resultado de uma discussão entre os dois alguns anos antes.

O interrogatório continuou na casa do vizinho ao lado, onde uma base de operações temporária da polícia foi estabelecida. O detetive Gerard Gozaloff juntou-se ao caso. Foi sugerido que se os assassinatos estivessem realmente ligados ao crime organizado, Butch ainda poderia ser um alvo, sendo assim, qualquer outro interrogatório deveria ser feito na delegacia. Lá, eles se juntaram a um terceiro detetive, Joseph Napolitano, e Butch deu à polícia seu depoimento por escrito. Nele, alegava ter permanecido em casa na noite anterior, e que ficou acordado até às 2h da manhã, assistindo “Castle Keep” (A Defesa do Castelo) na televisão. Às quatro da manhã, ele disse ter ido até o banheiro do andar de cima, e que a cadeira de rodas do irmão Mark estava na frente da porta. Ele também alegou ter ouvido o barulho da descarga do banheiro. Como não conseguia mais dormir, decidiu sair para o trabalho mais cedo. Ele descreveu o resto do dia: saindo do trabalho antes do horário, visitando Sherry e Bobby, bebendo, e tentando entrar em contato com a família por telefone. Ele disse que quando finalmente voltou para casa para ver se tudo estava bem com a família, entrou por uma janela na cozinha e foi para o andar de cima, onde descobriu os corpos dos pais. Depois da descoberta, ele desceu as escadas correndo e voltou para o Henry’s bar, onde reuniu alguns homens que subsequentemente avisaram a polícia.

Após Butch dar seu primeiro depoimento, os detetives continuaram a interrogá-lo sobre sua família e sobre a sua suposição de que Louis Falini poderia ser o assassino. Butch respondeu que Falini havia morado com eles por um período, e durante este tempo ele havia ajudado Butch e o pai a cavarem um lugar secreto no porão, onde o pai Ronald guardava uma reserva de dinheiro e pedras preciosas. Sua briga com Falini teria se originado de um incidente em que Falini criticou um trabalho que Butch realizou na concessionária. Ele também confessou ser um usuário eventual de heroína, bem como o fato de ter incendiado um dos barcos do pai, de modo que Ronald pudesse receber o seguro ao invés de pagar pelo motor, que Butch havia danificado antes. Por volta das três da manhã, os detetives haviam encerrado o interrogatório, e Butch foi dormir numa cama em um depósito nos fundos. Ronald Jr. dava toda a impressão de ser uma testemunha cooperativa, e até então os detetives não tinham motivo para suspeitar dele.

Tais circunstâncias começaram a mudar, no entanto, na medida em que os investigadores continuaram a examinar as evidências físicas, tanto na cena do crime como no laboratório da polícia. Uma descoberta crucial foi feita por volta das 2h30min de 15 de novembro, quando o detetive John Shirvell estava fazendo uma última varredura nos quartos dos DeFeo. Os quartos onde os assassinatos ocorreram haviam sido vasculhados minuciosamente, enquanto no quarto de Ronald até então só haviam dado uma olhada superficial. Mas, num segundo exame, o detetive Shirvell avistou um par de caixas de papelão retangulares, ambas com etiquetas descrevendo o conteúdo recente delas: rifles Marlin, um .22 e um .35. Shirvell não sabia que um Marlin calibre .35 havia sido a arma do crime, mas levou as caixas assim mesmo, para o caso de elas poderem ser uma evidência importante. E eram!

As caixas de armas de Butch. A descoberta levou à solução do caso. Créditos: Amityville Murders.

As caixas de armas de Butch. A descoberta levou à solução do caso. Créditos: Amityville Murders.

Funcionários do escritório do médico legista em Amitvylle carregam um dos corpos retirados da residência de Ronald DeFeo. Data: 14 de Novembro de 1974. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Funcionários do escritório do médico legista em Amityville carregam um dos corpos retirados da residência de Ronald DeFeo. Data: 14 de Novembro de 1974. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Funcionários do escritório do médico legista em Amitvylle carregam um dos corpos retirados da residência de Ronald DeFeo. Data: 14 de Novembro de 1974. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Funcionários do escritório do médico legista em Amitvylle carregam um dos corpos retirados da residência de Ronald DeFeo. Data: 14 de Novembro de 1974. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Detetive do Condado de Suffolk usa um detector de metais em busca de evidências no jardim da casa estilo colonial de Ronald DeFeo. Foto: Dan Godfrey.

Detetive do Condado de Suffolk usa um detector de metais em busca de evidências no jardim da casa estilo colonial de Ronald DeFeo. Foto: Dan Godfrey.

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O rifle Marlin .35 usado por Butch para massacrar sua família inteira. Foto: reprodução internet.

Logo depois de chegar à delegacia com a nova evidência, Shirvell soube o tipo exato de arma que havia sido usado nos assassinatos. O interrogatório posterior de Bobby Kelske os levou a descobrir que Butch era um fanático por armas e que ele havia simulado o roubo do dinheiro da concessionária Buick.

Em pouco tempo, os detetives do Condado passaram a considerar seriamente a possibilidade de Butch tê-los enganado, e de que pudesse ser o suspeito que procuravam ou ao menos saber mais sobre as mortes do que havia contado até então. Às 8h45min, o detetive George Harrison acordou Butch. “Vocês já encontraram o Falini?”, perguntou DeFeo. Mas Harrison não estava ali para dar nenhuma notícia e sim para ler os direitos de Butch. DeFeo alegou que tinha cooperado o tempo inteiro e que não era necessário que lessem os direitos dele. Ele chegou ao ponto de abrir mão do direito a um advogado, tudo para provar que ele era uma testemunha inocente sem nada a esconder.

Àquela altura, Gozaloff e Napolitano estavam exaustos. Dois outros oficiais, o tenente Robert Dunn e o detetive Dennis Rafferty, assumiram. Os dois não estavam para brincadeira. Rafferty leu novamente os direitos de Butch e prosseguiu interrogando o suspeito a respeito de suas atividades e seu paradeiro nos dois dias anteriores ao crime. Rafferty focou na hora dos homicídios. Butch havia escrito em seu depoimento que ele estava acordado até perto das quatro da manhã e que ouviu seu irmão no banheiro àquela hora. “Butch, toda a família foi encontrada em suas camas, vestida em seus pijamas”, disse Rafferty. “O que indica a mim que isso não aconteceu à uma da tarde, depois que você foi trabalhar!. Rafferty continuou a pressionar Butch até que pudesse afastá-lo da sua versão inicial de quando o crime aconteceu, definindo que o crime de fato havia ocorrido entre duas e quatro da manhã.

Com esta pequena rachadura, a história construída por Butch começou a ruir. Dunn e Rafferty martelaram nas contradições entre a versão dita por Butch e o que as evidências físicas mostravam. Butch estava fisicamente ligado à cena do crime desde que a hora dos homicídios foi definida. Num primeiro momento, ele tentou desesperadamente contornar sua situação complicada, tentando fazer com que os detetives acreditassem que, embora ele realmente estivesse presente na casa durante os assassinatos, só havia estado nos quartos após os crimes acontecerem. Mas a polícia não caiu nessa.

“Butch, é incrível”, disse Rafferty. “É quase inacreditável. Butch, nós sabemos que temos a caixa de uma arma calibre .35 que estava em seu quarto – cada uma das vítimas foi baleada com uma .35. E você viu a coisa toda. Há algo mais. A sua arma foi usada”.

Mais desesperado do que nunca, Butch continuou a mentir, mesmo que isso o colocasse ainda mais no centro dos assassinatos. Ele disse aos investigadores que às 3h30min Louis Falini o acordou e pôs um revólver em sua cabeça. Outro homem estava presente na sala, contou Butch, mas, quando questionado, ele não conseguiu dar nenhuma descrição física para a polícia. De acordo com a nova versão de Butch, Falini e seu companheiro o levaram de quarto em quarto, assassinando cada um dos membros da família. A polícia deixou Butch continuar falando e, em dado momento, ele se complicou ao descrever como recolheu e descartou evidências da cena do crime. “Espera um minuto”, disse Rafferty. “Por que você pegou a cápsula se não tinha nada a ver com isto? Você não sabia que era a sua arma que tinha sido usada.”.

Butch não respondeu à pergunta, então os investigadores deixaram-no falar um pouco mais. Eles já haviam descoberto uma boa quantidade de evidências que incriminavam Butch, o tempo todo fingindo acreditar que Falini e seu cúmplice haviam-no levado com eles durante a chacina e poupado apenas a sua vida. Uma vez que eles conseguiram uma descrição sólida de como os homicídios haviam acontecido, Dunn enveredou pelas mortes: “Eles devem ter feito você atirar em ao menos um deles – ou alguns deles”. Butch caiu nessa, e a armadilha funcionou.

“Não aconteceu dessa forma, não é?”, perguntou Rafferty.

“Dê-me um minuto”, respondeu Butch, com a cabeça entre as mãos.

“Butch, eles nunca estiveram lá, não é? Falini e o outro cara nunca estiveram lá”.

“Não”, Butch finalmente confessou. “Tudo começou muito rápido. Depois que eu comecei, eu simplesmente não consegui parar. Foi muito rápido”.

Ronald DeFeo chegando ao Tribunal onde seria acusado de seis assassinatos em segundo grau.

Ronald DeFeo chegando ao Tribunal onde seria acusado de seis assassinatos em segundo grau. Toto: Mooney/News.


Ronald DeFeo Jr., deixa o tribunal após audiência em 15 de Novembro de 1974, um dia após matar toda sua família. Foto: Richard Drewap.

Ronald DeFeo Jr., deixa o tribunal após audiência em 15 de Novembro de 1974, um dia após matar toda sua família. Foto: Richard Drewap.

O Julgamento


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O caso de Butch DeFeo foi a julgamento em 14 de outubro de 1975, quase um ano após os assassinatos. A acusação de DeFeo e a responsabilidade de garantir que um homem como ele jamais pudesse ser novamente uma ameaça a ninguém na comunidade recaíram sobre Gerard Sullivan, procurador assistente do condado de Suffolk, Nova Iorque. Apesar da confissão de DeFeo, apesar do fato dele ter sido capaz de levar os investigadores ao lugar exato onde havia se livrado das evidências, e apesar do fato de o rifle calibre .35 de Butch ter sido identificado como a arma do crime, Sullivan não quis correr riscos em sua acusação. Durante o período de interrogatórios pré-julgamento e escolha do júri, Sullivan estudou DeFeo, fez perguntas e observou como ele se comportava e interagia com os outros. Ele sabia que Butch era um mentiroso patológico e que era evasivo. Ele havia contratado um advogado famoso na região, William Weber, para sua defesa; seu padrão de comportamento antes dos assassinatos poderia oferecer a Weber a oportunidade de alegar inocência por motivo de insanidade. Mas Sullivan sabia que DeFeo não era louco, e sim um assassino violento e de sangue frio, e estava determinado a trancafiá-lo de uma vez por todas. Seu primeiro pronunciamento ao júri foi crucial, porque definiria o cenário da sua tentativa de mostrar a verdade sobre a personalidade criminosa de DeFeo. Ele não podia se dar ao luxo de acreditar que o júri veria DeFeo da mesma forma que ele via: um assassino metódico e são.

“Senhoras e senhores do júri, cada um de vocês será mudado de alguma forma por este caso. Vocês deixarão esse tribunal após emitirem um veredito, talvez daqui a um mês, carregando consigo uma lembrança permanente do horror que aconteceu naquela casa no número 112 da Ocean Avenue, na calada da noite, onze meses atrás.

Tenham em mente que a evidência estabelecida e apresentada de como os crimes aconteceram é importante para o veredito de vocês, assim como a prova de quem os cometeu. Grande parte da evidência de ‘como?’ tratará da questão de saber se vocês absolverão o réu por suas ações em razão de alguma doença mental ou distúrbio. Se vocês mantiverem as mentes abertas e examinarem e avaliarem cuidadosamente todas as provas, estou confiante que ao fim do caso voltarão à esta sala e declararão Ronald DeFeo Jr. culpado de seis homicídios em segundo grau”.

A questão do estado mental de DeFeo na hora dos assassinatos permaneceria como a parte principal da evidência sobre a qual sua absolvição ou condenação repousariam. Antes do julgamento, Weber astutamente havia tentado fazer o caso ser completamente anulado, alegando que Butch tinha sido privado do direito a um advogado pouco antes de a polícia conseguir sua confissão. Ele ainda alegou que a própria confissão foi obtida sob coação, produto de abuso físico por parte da polícia. Nenhum desses argumentos foi aceito, no entanto, e Weber foi deixado com a única opção de defender as ações de seu cliente com a alegação de que ele era legalmente insano no momento em que os crimes aconteceram.

Sullivan foi previdente o suficiente para saber que um argumento unidimensional de que DeFeo era de fato são e responsável por suas ações poderia não ser suficiente para convencer os jurados da culpa dele. Ele convocou inúmeras testemunhas, incluindo policiais e detetives que haviam trabalhado no caso, e diversos parentes e amigos de Butch. Através do testemunho deles, o promotor procurou apresentar ao júri um retrato tridimensional do homem que foi capaz de assassinar seis familiares indefesos. Mas nenhuma testemunha ofereceu uma oportunidade melhor do que o próprio DeFeo.

Weber convocou suas testemunhas e conduziu o interrogatório, previsivelmente levando seu cliente a fornecer respostas que iriam corroborar a alegação de insanidade. Segurando uma foto da mãe dele, enquanto jazia morta na cama, Weber perguntou ao seu cliente. “Ronnie [outro apelido de Ronald], esta é sua mãe, não é?”

“Não, senhor”, respondeu Butch. “Eu te disse antes e vou dizer novamente. Eu nunca vi essa pessoa antes na minha vida. Eu não sei quem é essa pessoa”.

Weber prosseguiu mostrando a Butch uma foto do cadáver do pai dele, e perguntou: “Butch, você matou o seu pai?”

“Se eu o matei? Eu matei todos eles. Sim, senhor. Eu os matei todos em legítima defesa.”

Sullivan permaneceu impassível, enquanto alguns membros do júri suspiraram em voz alta, em resposta à confissão de DeFeo no tribunal. Weber continuou imperturbável, perguntando por que Butch havia feito tal coisa.

“Até onde eu sei, se eu não matasse minha família, eles iriam me matar. E até onde eu sei, o que eu fiz foi legítima defesa e não há nada de errado nisso. Quando eu peguei a arma em minhas mãos, não havia dúvida na minha mente de quem eu sou. Eu sou Deus.”

Para o membro leigo comum do júri, o testemunho de DeFeo podia ter aparentado ser coisa de um louco demente, alguém com pouca compreensão da realidade. E era precisamente essa possibilidade, a possibilidade de DeFeo escapar do julgamento enganando os jurados, que Sullivan trabalhava para evitar. Ele não perdeu tempo e atacou o testemunho de DeFeo durante o interrogatório. Ele ridicularizou a aparente incapacidade de Butch de lembrar quem era sua própria mãe e expôs inconsistências entre o seu testemunho e o depoimento que havia dado à polícia na noite do crime. Acima de tudo, Sullivan começou a provocar DeFeo, expressando-se agressivamente para fazê-lo perder a compostura, inflamar sua arrogância e ódio. Sullivan queria que o júri visse que em vez de uma vítima da insanidade, Ronald “Butch” DeFeo Jr. era um assassino degenerado, lúcido e de sangue frio.

Suas perguntas começaram a focar nos assassinatos e relatos conflitantes de DeFeo sobre suas ações naquela noite. Sullivan sabia que não conseguiria um relato coeso de Butch a respeito do que havia acontecido, mas sabia que podia fazer o assassino revelar o senso distorcido de prazer que ele teve em matar sua família inteira.

Sullivan: “Você se sentiu bem naquela hora?”

Butch: “Sim, senhor. Acho que me senti muito bem”.

Sullivan: “Isso é porque você sabia que eles estavam mortos, porque você havia dado dois tiros em cada um deles?”

Butch: “Não sei por que, honestamente não sei responder”.

Sullivan: “Você lembra-se de se sentir feliz?”

Butch: “Não me lembro de ter me sentido feliz. Lembro-me de ter me sentido muito bem. Bem”.

Os esforços provocativos de Sullivan para o seu objetivo chegaram ao ápice no momento em que ele realmente ameaçou a vida do promotor. “Você acha que estou brincando”, rugiu Butch furiosamente do seu lugar. “Se eu tivesse algum juízo, o que eu não tenho, eu desceria aí e te mataria agora”.

Os Psiquiatras


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A habilidade de provar ou refutar o estado mental de DeFeo no momento dos assassinatos seria crucial para o sucesso tanto da defesa quanto da promotoria. Sem dar nenhuma chance, ambos os lados haviam solicitado os serviços de dois famosos psiquiatras locais. O Dr. Daniel Schwartz foi convocado pela defesa, e era familiarizado com procedimentos criminais. Ele havia entrevistado inúmeros acusados, testemunhado em centenas de casos. Mais tarde, ele ganharia notoriedade nacional como o psiquiatra que declararia David Berkowitz criminalmente insano no caso dos assassinatos do “Filho de Sam”.

Sullivan estava ciente do momento crucial que o julgamento havia alcançado. Todos os alicerces que tinha posto, todas as suas tentativas de trazer para fora a personalidade assassina de DeFeo no tribunal seriam inúteis se ele permitisse que Weber e Schwartz assumissem o controle da etapa final do julgamento. A despeito do fato de que ele havia solicitado os serviços de outro psiquiatra bastante proeminente, Sullivan sabia que precisava confiar em suas habilidades de promotor e interrogador, assim como nas habilidades do seu perito ao testemunhar. Como ele escreveu em seu relato sobre o julgamento, “os jurados haviam ouvido sobre DeFeo e seus assassinados por quase dois meses. Eles haviam ouvido as suas mentiras e insultos por dias. O Dr. Schwartz havia falado com ele por apenas algumas horas. Eu iria mostrar que o psiquiatra não conhecia o verdadeiro Butch DeFeo”.

Quando isto aconteceu, Sullivan afortunadamente conseguiu uma brecha na forma de Weber interrogar sua própria testemunha. Em um lance que pôde claramente ser interpretado como excesso de confiança nas habilidades de Schwartz, Weber fez apenas algumas perguntas preliminares à sua testemunha, e então prosseguiu deixando Schwartz alegremente realizar uma mini palestra sobre psicose, dissociação e insanidade criminal. Sullivan notou que o júri realmente havia sido afetado pela explanação do profissional, pelo que aparentemente era sua opinião como especialista no assunto, e como tudo se aplicava às ações de Butch DeFeo na noite de 14 de novembro de 1974. Apesar disso, Sullivan silenciosamente anotou uma quantidade de pontos chave que Schwartz havia citado e que Weber havia falhado em mencionar ou pedir a Schwartz para explicar. Ele sorriu, silenciosamente planejando fazer isso ele próprio durante o interrogatório.

Sullivan abriu sua linha de questionamento referindo-se à experiência prévia de Schwartz como um perito, tentando desestabilizá-lo por demonstrar até que ponto ele havia analisado a testemunha. Vendo que isto trouxe poucos benefícios em um curto período de tempo, Sullivan moveu-se rapidamente para o caso em questão, contestando a caracterização feita por Schwartz do comportamento de DeFeo após ter matado a família.

Sullivan: “Este não é um indicativo de que uma pessoa cuidadosamente se esforçou para levar as evidências do crime, que o ligariam a ele, para fora da casa?”.

Schwartz: “É uma evidência de que alguém está tentando remover evidências de si mesmo, também, de que ele tenha feito isso. Nós estamos especulando agora sobre o motivo da limpeza. Se você estiver familiarizado com a queixa de Lady MacBeth – ‘Como, estas mãos nunca ficarão limpas?’ – ela não estava ocultando um assassinato de ninguém, mas não podia viver com o sangue imaginário nas mãos”.

Na famosa tragédia de Shakespeare, Lady MacBeth passa a ter delírios e crises de sonambulismo, lavando as mãos de um sangue imaginário por não suportar a culpa pelos assassinatos dos quais participou.

Sullivan não engoliu uma palavra, e estava determinado a não deixar os jurados fazerem o mesmo. “Doutor”, vociferou ele, “esta é sua opinião psiquiátrica ponderada?”

Schwartz: “Minha opinião psiquiátrica ponderada, promotor, é que ele não está ocultando o crime de ninguém por recolher as cápsulas. Os corpos estão lá. As balas estão nas pessoas”.

Sullivan: “Ele removeu da casa tudo que pôde recolher e que pudesse ligá-lo ao crime, não foi?”

Schwartz: “Isso do que você fala é trivial comparado aos seis corpos”.

Sua resposta indiferente inflamou o senso de ultraje do promotor.

Sullivan: “Trivial que ele tenha removido as evidências da casa que pudessem ligá-lo ao crime, trivial que não tenha nada a ver com a questão sobre se ele achava que o crime era errado?”

Schwartz: “A evidência estava lá, nas vítimas”.

Sullivan colocou o psiquiatra em desvantagem, a confiabilidade do seu primeiro testemunho se desvanecia, recuando diante da furiosa investida do promotor. Sullivan mirou a seguir no diagnóstico de DeFeo como um neurótico, feito por Schwartz.

Sullivan: “Então você testemunha, pelo que eu entendi, Dr. Schwartz, que o fato de que não foi muito inteligente jogar tudo naquele bueiro, junto no mesmo lugar, é um indicativo do fato de que ele estava neurótico quando fez isto?” 

Schwartz respondeu afirmativamente, notando que DeFeo aparentava estar agindo sem nenhum propósito claro em mente, de certa forma distraído pela paranoia e ilusões neuróticas. Mas ao dizer isso, ele caiu direto na armadilha do promotor, uma armadilha construída exatamente com as anotações que Schwartz havia feito durante sua entrevista com Butch.

Sullivan: “Ele te contou sobre não querer deixar pistas para a polícia?” 

O promotor indicou a passagem nas anotações de Schwartz onde DeFeo havia declarado exatamente isso: “eu o questionei sobre as cápsulas, e ele disse que não queria deixar para a polícia nenhuma pista de que tipo de arma havia sido. Ele não era amigo dos policiais, e não queria ajudá-los”.

A armadilha funcionou, Schwartz foi pego em seu próprio testemunho, e Sullivan ergueu-se triunfante sobre a sua presa. Como alguém que não tinha noção do que estava fazendo arruma as coisas para não deixar pistas para a polícia? “Certo, agora você sabe por que ele removeu as cápsulas, não é?”, perguntou ironicamente.

“Eu sei um dos motivos. Existem outros”, Schwartz respondeu nervosamente. Mas seu testemunho já havia sido atingido mortalmente pelo interrogatório agressivo de Sullivan. “Não tenho mais perguntas”, anunciou o promotor enquanto caminhava de volta para sua bancada.

O Dr. Harold Zolan testemunhou para a promotoria. Diferentemente do estilo de Weber de questionar sua testemunha, Sullivan concebeu um elaborado sistema de perguntas e respostas com Zolan, fazendo todo e deliberado esforço para dar ao júri acesso ao processo de raciocínio do psiquiatra, de modo que eles pudessem entender como Zolan havia chegado àquelas conclusões, e como eles poderiam fazer o mesmo sozinhos. Diferentemente de Schwartz, Zolan atribuiu o comportamento de DeFeo a uma personalidade antissocial, uma forma de transtorno de personalidade que distinguia de qualquer forma de distúrbio mental. Basicamente, aqueles com este transtorno de personalidade estão plenamente conscientes das suas ações, são perfeitamente capazes de compreender a diferença entre o certo e o errado, mas são motivados por uma atitude imperiosa e egocêntrica, no linguajar popular, Ronald DeFeo era um psicopata. Sullivan e sua testemunha foram completos na dissecação de DeFeo, apresentando incontestavelmente ao júri, em linguagem simples, que Butch realmente era responsável por seus atos na noite de 14 de novembro de 1974. Quando Weber tentou desestabilizar Zolan da mesma forma que Sullivan havia desestabilizado Schwartz, a testemunha de acusação se manteve firme em seu diagnóstico. Sullivan estava confiante que entre o seu questionamento metódico e as respostas bem fundamentadas de Zolan, o júri estava finalmente de posse da evidência clínica de que Butch era culpado por assassinato.

Ronald DeFeo Jr. e seu pai Ronald DeFeo. Foto: Murderpedia.

Ronald DeFeo Jr. e seu pai Ronald DeFeo. Foto: Murderpedia.

Após cada testemunha ser interrogada e questionada, mais algumas outras foram chamadas por Sullivan para depor. Embora não fossem centrais no caso, o testemunho adicional delas ajudou a fechar o cerco de Sullivan contra DeFeo. Entretanto, o veredito de inocência ou culpa repousava sobre a questão da sanidade de DeFeo, como ele já sabia. Weber e Sullivan fizeram sua argumentação. Então, em 19 de novembro de 1975, um ano e cinco dias desde os assassinatos, o juiz presidente instruiu o júri a reunir-se na sala de deliberação, e retornar ao tribunal com um veredito para Ronald “Butch” DeFeo Jr.

Apesar dos esforços meticulosos de Sullivan, ele sabia que um veredito de culpa não era uma aposta certeira. Ele foi recompensado pelo seu ceticismo quando a primeira votação do júri veio 10-2, com dois indecisos que ainda estavam duvidosos a respeito do estado mental de DeFeo no momento dos assassinatos. Após reverem as transcrições do testemunho de DeFeo, no entanto, a votação voltou com um 12-0 unânime. Na sexta-feira, 21 de novembro de 1975, Ronald DeFeo Jr. foi declarado culpado de seis homicídios em segundo grau. Duas semanas depois ele foi sentenciado a seis penas de vinte e cinco anos de prisão por todos os crimes.

“Ronald irá preso por pelo menos 25 anos pelos ‘indiferentes e insensíveis’ assassinatos de seis membros de sua família. Ele poderá sair em liberdade aos 49 anos.”

[The Telegragh. 8 de Dezembro de 1975]

Seria a condenação de Ronald DeFeo Jr. o capítulo final desta trágica história? Não, ela apenas estava começando.

Horror e Exploração


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“George e Kathy Lutz mudaram para o número 112 da Ocean Avenue em 18 de dezembro. Vinte e oito dias depois, eles fugiram aterrorizados”.

Capa do livro "Amityville Horror", de Jay Anson.

Capa do livro “Amityville Horror”, de Jay Anson.

Assim começa o primeiro capítulo do livro de Jay Anson, “Horror em Amityville – Uma História Real”. Escrito como um trabalho de não-ficção, o livro se propõe a relatar os eventos diários que expulsaram os novos moradores da casa de número 112. “Em Horror em Amityville”, Anson conta a história do casal Lutz, que morou na casa de número 112 na Ocean Avenue após o massacre da família DeFeo. Menos de um mês depois, eles deixaram a casa alegando que o lugar era habitado por entidades malignas.  O livro se tornou um best-seller, e deu origem a um conhecido filme estrelado por Rod Steiger, Margot Kidder e James Brolin em 1979. “A fantástica história deles, nunca antes revelada em completos detalhes, faz dele um livro inesquecível, com todos os choques e suspense emocionante de O Exorcista, A Profecia ou O Bebê de Rosemary, mas com uma diferença vital… a história é verdadeira”, diz a sinopse na contracapa do livro. A pergunta que não quer calar: A casa realmente era habitada por espíritos do mal? Ou seriam os fantasmas da família DeFeo querendo expulsar os novos moradores? Ou tudo não passou de invenção – um tipo de marketing pré-Bruxa de Blair?

Para se ter uma resposta, devemos citar o nome do investigador paranormal Dr. Stephen Kaplan, que passou muitos anos tentando expor a verdade em relação ao “Horror” de Amityville. Já falecido, o Dr. Kaplan era um respeitado parapsicólogo de Long Island. Fundador do Instituto de Parapsicologia da América, ele era um convidado frequente no programa de rádio “Spectrum with Joel Martin”, na WBAB. Em 16 de fevereiro de 1976, pouco depois de a família Lutz supostamente “fugir” da casa na Ocean Avenue, o Dr. Kaplan recebeu um telefonema de George Lutz, solicitando que o doutor e sua equipe investigassem a casa. Como o Dr. Kaplan relembrou em seu relato do incidente, “The Amityville Horror Conspiracy” (“A Conspiração do Horror em Amitvylle”), sua conversa inicial imediatamente começou a despertar suspeitas sobre a validade da alegação de George que a casa era assombrada por demônios e toda sorte de espíritos malignos.

“Eu comecei a fazer perguntas. O que realmente havia acontecido a ele e sua família? George… diz que ele simplesmente não consegue descrever o fenômeno físico. Mas que há demônios lá. Ele sabe… até sabe o nome deles!

‘Quais os nomes deles?’, eu pergunto. [George] não me diz: ele alega que eles aparecerão se ele simplesmente mencionar seus nomes em voz alta.

‘Quem te disse isso?’, eu pergunto. ‘Eu li num livro’, ele responde.

Eu pergunto-lhe o título, mas ele não consegue lembrar – ele leu tantos livros desde que compraram a casa. Livros sobre demonologia, bruxaria, satanismo, fantasmas, fenômenos físicos – a lista segue. E tudo em algumas poucas semanas, ou algo assim, alega George.

Eu o pressiono sobre os demônios e ele responde mencionando ‘fatos’ que ele descobriu sobre demônios e adoração a Satã. Em uma discussão sobre bruxaria, [George] menciona Ray Buckland, um conhecido bruxo na região que comandava o Witchcraft Museum em Bayshore antes de mudar-se para New England.

Eu ia ficando mais desconfiado a cada minuto. George não tinha acabado de me dizer que não sabia nada sobre ocultismo até dois meses atrás? Ray Buckland tinha ido embora de New York havia um ano ou dois. Aquilo significava que George havia discutido ‘bruxaria’ como ele, ele conversou com um dos mais conhecidos bruxos do país muito antes de comprar a casa”.

As dúvidas sobre a veracidade da assombração dos Lutz se confirmaram um ano e meio depois, quando o Dr. Kaplan recebeu uma cópia de “Horror em Amityville”. Lendo-o de ponta a ponta, ele rapidamente chegou à conclusão de que George realmente havia feito seu trabalho de feitiçaria e demonologia – o relato estava cheio de todo tipo de fantasma, vampiro, poltergeist e demônio, os quais empregaram todo tipo de truques no livro para aterrorizar a família Lutz, mas não os assustaram o suficiente para deixarem a casa durante um mês inteiro. As inconsistências e invenções que o Dr. Kaplan encontrou incluem:

  • O completo exagero do papel que um amigo padre desempenhou em todo o drama. No livro, um personagem padre chamado Mancuso é aterrorizado por um demônio enquanto tentava benzer a nova casa. Ele então é seguido pelo espectro de volta para a casa paroquial, onde é atacado com furúnculos, sangramentos nas mãos (à la Stigmata (1999)), uma febre e um penetrante cheiro de excrementos. Na vida real, um padre realmente benzeu a casa, e demonstrou alguma preocupação com a possibilidade de uma assombração, mas nem o padre nem a casa paroquial foram atacados por demônio algum.
  • O Henry’s bar, a cena da revelação chocante de Butch, é mencionado como “Witches Brew”. Um sargento da polícia fictício chamado “Gionfriddo” menciona que a polícia descobriu os assassinatos porque Butch contou ao bartender, em uma descrição dos eventos que nem se aproxima do que realmente aconteceu.
  • Os eventos sobrenaturais que os Lutz descreveram ter testemunhado são espetaculares demais, o que significa dizer que uma única casa não poderia conter demônios suficientes para causar tudo o que eles dizem ter acontecido. Por exemplo, George alega que o leão de porcelana saltou de um canto da sala e o mordeu no tornozelo; George teve uma visão fantasmagórica da cabeça de Ronald DeFeo Jr. flutuando no porão; George e sua esposa Kathy acreditam ter visto a impressão chamuscada de uma figura demoníaca, encapuzada na lareira deles; Kathy levitou sobre a cama dela; Kathy olhou no espelho e viu uma idosa decrépita olhando de volta; os banheiros jorraram um lodo negro e fedorento, e as paredes da casa foram cobertas de lama; George e Kathy olharam pela janela da sala de estar e viram um porco flutuante com brilhantes olhos vermelhos.

Por fim, este conto de horror e possessão demoníaca foi desmascarado pela Diocese Católica de Rockeville Center, pelo Departamento de Polícia de Amityville, por William Weber (advogado de defesa de Butch), pelo Juiz Distrital da Corte Jack Weinstein e mesmo por George e Kathy Lutz, que posteriormente acabaram por desmentir algumas partes da história.

Ainda assim, a história fantasmagórica dos Lutz rendeu quase uma dezena de filmes, alguns ótimos e outros de qualidade duvidosa (em alguns deles, as semelhanças se limitam ao nome da cidade onde os eventos “sobrenaturais” acontecem).

40 Anos Depois


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Em 2013, o massacre de Amityville foi lembrado após a divulgação da imagem apresentada no começo do post. A imagem, na época, foi alardeada pela opinião pública (e pela imprensa) como uma evidência de que o pequeno Marcelo Pesseghini, com apenas 13 anos, seria um garoto obcecado pelo caso, o que sustentaria a tese (diga-se de passagem, montada antes de qualquer investigação aprofundada) de que ele seria capaz de assassinar toda sua família a sangue frio, assim como fez Ronald DeFeo. A foto foi originalmente revelada por George Lutz no “The Merv Griffin Show”, em 1979, o mesmo ano em que o filme original – Horror em Amityville – foi lançado. Supostamente, a imagem seria uma fotografia tirada na casa, na qual apareceria o fantasma de John, o caçula dos DeFeo. No entanto, a foto nunca foi exibida antes disso, o que reforçou a ideia de que a imagem não passa de uma montagem feita para promover o filme. Como muitas imagens “assustadoras” que circulam sem maiores informações na internet (e principalmente no Facebook), era perfeitamente possível que Pesseghini sequer soubesse do que se tratava e nunca tivesse ouvido falar dos DeFeo.

Butch DeFeo permanece preso no Department of Corrections do estado de Nova Iorque. Durante esse tempo casou-se três vezes com admiradoras, a última em 2012. Sua versão dos eventos mudou várias vezes, e toda a publicidade gerada em torno dos filmes e livros publicados ajudaram a criar uma aura nebulosa sobre toda a história, tornando difícil diferenciar fatos de invenções e teorias conspiratórias. Algumas dúvidas ainda permanecem. Como Butch poderia ter matado seis pessoas da própria família numa casa de dois andares, com uma arma tão potente e barulhenta, sem que ninguém tivesse acordado ou tentado fugir? Por que Dawn estava dormindo no andar de baixo e não no quarto que dividia com a irmã Allison? Em 2002, Ric Osuna lançou o livro “The Night the DeFeos Died”, contendo o que seria uma nova versão dos eventos daquela noite, contada pelo próprio Butch. Nela, Butch teria cometido os assassinatos juntamente com a irmã Dawn e mais dois amigos, Bobby Kelske e Augie Degenero. O plano inicial seria matar apenas os pais deles, mas Butch teria se enfurecido ao perceber que Dawn também havia matado os outros irmãos e atirou nela após ter-lhe dado uma pancada na cabeça que a deixou inconsciente sobre a cama. Mas tal relato, posteriormente negado por Butch, que negou ter dado ao autor qualquer informação importante sobre o crime, também não encontra suporte nos laudos feitos pelos legistas e especialistas em balística que participaram da investigação do caso.

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Disposição dos corpos encontrados na casa dos DeFeo. Créditos: Murderpedia.

Recentemente, em 2012, o documentarista Ryan Katzenbach levantou novamente a hipótese de os crimes não terem sido cometidos por um único assassino. Segundo ele, um time de mergulhadores teria encontrado uma segunda arma no canal atrás da casa. Na época, uma fronha foi achada numa lixeira próxima ao canal.

“Sabemos que DeFeo usou fronhas para limpar a cena do crime”, afirmou Ryan. Na época, a polícia afirmou que Butch usou fronhas para carregar o rifle e descartou roupas e outras evidências da cena do crime. Eles encontraram o coldre de seu revólver, mas a arma jamais foi encontrada. Ryan afirma que essa é a arma encontrada por sua equipe.

Mas a polícia do Condado de Suffolk não está convencida disso. “As pessoas são bastante criativas e a internet permite que elas tragam coisas que acreditam ser fatos, quando na verdade não são”, disse o detetive Gerard Pelkofsky, chefe da Divisão de Homicídios do Departamento de Polícia do Condado. Após tanto tempo submersa, é praticamente impossível obter uma resposta conclusiva, pois não há como identificar o número de série da arma.

“Casas não guardam lembranças”, diz o George Lutz fictício em uma cena do filme de 1979. No entanto, como a maioria dos palcos de horríveis acontecimentos, a casa do antigo número 112 de Ocean Avenue continua assombrada, se não por fantasmas, certamente pela memória da tragédia que se desenrolou naquela noite. A casa foi comprada em 1977 por James Cromarty, e vendida em 1987 a Peter O’Neill. Passados mais dez anos, em 1997, a casa foi vendida a um homem chamado Brian Wilson, segundo os registros. Em 2010, a casa foi vendida pela última vez, e em 2012 a casa foi posta à venda novamente. Mesmo com uma fachada bastante diferente da original e com o endereço alterado para o número 108 numa tentativa de afastar os curiosos, a casa continua sem um comprador (talvez o único fantasma seja o da crise imobiliária americana). Os antigos donos afirmam que o único incômodo não vem dos mortos, mas de gente bem viva e curiosa para conhecer a casa famosa pelo massacre de 1974 e pelas histórias contadas nos livros e filmes.

Vídeo: Entrevista com Ronald DeFeo – em inglês



Fontes consultadas: [1] High Hopes: The Amityville Murders, Gerard Sullivan & Harvey Aronson; [2] The Amityville Horror, Jay Anson; [3] Murderpedia; [4] Crime Library; [5] Amityville Murders; [6] CBS New York; [7] History vs. Hollywood; [8] USA Today; [9] Wikipédia; [10] Documenting Reality; [11] Amityville FAQ; [12] Daily Mail.

Esta matéria teve colaboração de:

Revisão

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Deixe o seu comentario:
  • Daniela Araujo

    Excelente artigo, bastante esclarecedor. Quando eu era adolescente acreditava no sobrenatural e tinha este crime como um dos fundamentos para minha credulidade. Hoje entendo que estes espíritos não existem e o único mal está na mente do homem. Este artigo só veio reforçar meu entendimento. Parabéns pelo trabalho.

  • Barbara Gutenberg

    Vcs são os melhores!!!! Enquanto eu lia, me senti assistindo um documentário sobre o Caso.

  • Brian De Felipo Aubert

    Não entendi qual a dificuldade. Os espíritos assassinados ficam presos ao mesmo lugar uns 30 anos. É claro que posteriormente a casa foi assombrada por eles.

    • Phillip

      Cara… nasce de novo!

    • Brian De Felipo Aubert

      Mas tirando a conclusão incorreta, o post é muito bom e rico em detalhes.

  • AndreMendes

    Cresci acreditando nessa história, mas era uma época que não existia internet.
    Com o passar dos anos caí na real e vejo o quanto George Lutz foi sem vergonha, mas continuo achando esse livro foda pra caralho!!
    Sempre busco artigos sobre os bastidores desse livro, e esse aqui foi o melhor que lí até agora.
    Vocês estão de parabéns!

  • Binho Baptistoni

    Tudo bem, mas e quanto a foto tirada no 2 andar, na qual aparece aquele menino?

    • Marcus Santana

      Como descrito no próprio texto, essa foto foi divulgada por George Lutz num programa de entrevistas no mesmo ano em que o primeiro filme sobre a história foi lançado. Como ela jamais foi apresentada antes, os céticos afirmam que trata-se de uma montagem criada para divulgar o filme e o livro.

  • Pingback: Horror em Amityville – A história real – Lendas na Internet()

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