Crimes Históricos: Gary Heidnik, uma viagem ao inferno

O nome Gary Heidnik irá eternamente viver na infâmia, e seu endereço na Rua North Marshall na Filadélfia irá para sempre nos assombrar com memórias de morte e depravação.
Gary M Heidnik

Gary Michael HeidnikGary Michael Heidnik

“Ela disse que ele as espancava as estuprava e as alimentava com cadáveres; também disse que ele era apenas um louco. Havia cachorros no jardim comendo ossos humanos. Eu apenas pensei que ela era louca. Eu realmente não acreditei, e eu continuo não acreditando nessa merda.”.

[Vincent Nelson, citado em “Cellar of Horror: The Story of Gary Heidnik”]

Vincent Nelson não via sua namorada Josefina Rivera desde o dia 26 de Novembro de 1986. Neste dia, o explosivo casal havia tido uma briga violenta, e Josefina saiu de seu apartamento soltando os cachorros. Pelos próximos quatro meses, Vincent não teve notícias dela. Apesar da briga e do temperamento de ambos, o sumiço de Josefina deixou Vincent muito intrigado. Eles já haviam brigado antes e a reconciliação sempre vinha em algumas horas ou em poucos dias. Mas dessa vez não, ela simplesmente desaparecera. Vincent já parecia conformado com o término do namoro quando, quatro meses depois, alguém bateu em sua porta. O silêncio era notório do lado de fora: cachorros uivavam e a Lua parecia mais brilhante que nas noites anteriores. Era meia-noite, um horário incomum para alguém esmurrar a porta alheia. Quando Vincent abriu, teve uma visão arrepiante. “Mas que diabos?”, gritou. O espanto não era para menos: à sua frente estava Josefina, sumida há quatro meses, num estado tão deplorável que parecia um cadáver andante: magérrima e com os olhos esbugalhados, como os de alguém que havia visto ou estado com o Diabo.

Mas mais chocante que o estado de sua namorada, era a macabra história que ela tinha para contar. Como lembrou Vincent tempos depois, “Eu realmente não acreditei, e eu continuo não acreditando nessa merda”. A história era tão surreal que Vincent simplesmente não podia acreditar. Mas era verdade, e o que Josefina contou a ele virou história e inspirou o melhor e mais famoso filme de serial killer de todos os tempos. E o que ela contou a ele é o que vocês lerão a partir de agora.

Uma pergunta: Está preparado?

seta

Uma viagem ao inferno


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  • Armadilha doentia

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Para Josefina, 26 de Novembro de 1986 é uma data que jamais será esquecida. Furiosa após uma briga com o namorado, ela deixou o apartamento deles num bairro pobre na zona norte da Filadélfia e andou sem rumo. Uma pessoa errante, Josefina era viciada em drogas e não raramente saia com homens por dinheiro. Cinquenta pratas era cinquenta pratas, um dinheiro fácil e mais do que o suficiente para comprar cocaína. Andar pelas ruas enevoadas da Filadélfia então, não era incomum para ela.

Enfrentando chuva e frio intenso, Josefina percebeu quando um Cadillac de Ville cupê branco e prateado passou lentamente e parou. Quando a janela do motorista foi abaixada, Josefina se aproximou e um homem barbudo perguntou se ela aceitaria companhia. Como ele aparentava ser legal, ela entrou no carro.

“Oi, meu nome é Gary”, apresentou-se o homem. Após os cumprimentos iniciais, Gary disse a Josefina que precisava dar uma parada. Ela concordou e, pouco depois, eles entraram num McDonald’s nas proximidades. Josefina o seguiu enquanto ele entrava e comprava café e sentou-se com ele. Em uma avaliação rápida oriunda de experiência, Josefina estudou sua nova companhia. Gary era branco e seu rosto era emoldurado por uma barba bem aparada; tinha olhos azuis frios e penetrantes. Apesar de usar relógio e joias caros e dirigir um carro de luxo, ela notou que suas roupas eram baratas e sujas. Ansiosa para puxar conversa, ela perguntou novamente seu nome. “Gary Heidnik”, ele respondeu taciturno. Alguns minutos depois, ele terminou seu café e disse a ela que eles iriam embora. Quando Josefina perguntou aonde iriam, ele lhe disse que iriam para a casa dele.

Eles seguiram até uma casa em ruínas num bairro decadente. Josefina não conseguiu deixar de notar outro carro estacionado em frente ao local – era um Rolls Royce 1971. Ele claramente possuía algum dinheiro.

Quando chegaram à porta, Heidnik tirou do bolso uma estranha chave e a enfiou na fechadura. Quando Josefina comentou sobre isso, ele explicou que havia cortado a chave em dois pedaços, um do quais permanecia na fechadura para que ninguém além dele entrasse. A porta dava acesso à cozinha, que era decorada com moedas coladas nas paredes. Heidnik a levou até a sala de estar, cuja mobília era pouca e antiquada. Gary se ofereceu para mostrar-lhe a casa e subiu com Josefina uma escada estreita. Ao chegar à porta do quarto dele, ela não pôde acreditar no que viu: o corredor em frente ao quarto estava parcialmente coberto com notas de um e cinco dólares. Para uma viciada em drogas que costumava mendigar centavos, aquele corredor deve tê-la impressionado bastante.

De repente, Heidnik parou atrás de Josefina e começou a asfixiá-la com as mãos. Ele soltou o pescoço, mas, ao invés de deixá-la ir, puxou seus braços para trás e algemou-a. Ele então a levou para um quarto frio e úmido no porão. O Gary Heidnik simpático e solícito… este não existia mais.

Heidnik a arrastou para um colchão sujo e colocou grilhões metálicos ligados a uma corrente em seus tornozelos. Então aplicou cola nos grilhões e usou um secador de cabelo para secá-la. A outra ponta da corrente, Heidnik prendeu num enorme cano que estava preso ao teto. Quando terminou, ele a mandou sentar e, imediatamente, pousou a cabeça em seu colo e dormiu. Assustada e sem entender direito o que estava acontecendo, Josefina só conseguia olhar para aquele homem louco, que acabara de lhe amarrar, dormindo em seu colo. Com o passar das horas, ela adormeceu; ao acordar, havia luz suficiente para dar uma olhada no pequeno cômodo que agora era sua prisão. No centro do cômodo, uma pequena área de concreto havia sido removida e uma cova rasa havia sido cavada no solo abaixo dela. Quando Heidnik regressou, começou a alargar e aprofundar o buraco.

Enquanto Josefina observava o trabalho dele, Gary disse que tudo que sempre quisera era uma família grande; àquela altura, possuía quatro filhos com quatro mulheres diferentes, mas havia perdido contato com eles por vários motivos. Ele contou a Josefina que seu plano era conseguir dez mulheres e engravidar todas elas, para que pudesse ter uma família só dele. Depois, para demonstrar suas intenções, ele a estuprou.

Quando ficou sozinha uma segunda vez, Josefina afrouxou um dos grilhões em um tornozelo e após espiar através das coberturas da janela, esticou a corrente em seu comprimento e pôs metade do corpo para fora. Incapaz de sair completamente, ela gritou, na esperança de que algum vizinho a ouvisse. Infelizmente, só Heidnik respondeu aos seus gritos.

Ele a puxou de volta para o porão e a espancou com um pau até que ela ficasse quieta. Então, empurrando-a para o pequeno buraco no chão, forçou a cabeça dela contra o peito e a cobriu com um pedaço de compensado, colocando vários pesos sobre ele. Para se certificar que seus gritos não atrairiam atenção externa, Gary ligou o rádio e o sintonizou numa estação de hard rock, no volume máximo, e saiu. Enquanto jazia quase nua e confinada sobre a terra fria, Josefina lutava por ar ao mesmo tempo que esperava pela morte.

Sandy


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No fundo do buraco, apesar do rádio ligado, Josefina ouviu claramente uma mulher choramingando e o som de uma corrente sendo arrastada pelo chão. Seu coração disparou quando a tábua foi levantada e Heidnik a arrastou para fora do buraco. Josefina olhou em volta e viu uma jovem, negra, nua exceto por uma blusa, acorrentada ao cano no teto da mesma forma que ela havia estado na primeira noite. Ela fitou a mulher, que parecia estar totalmente alheia ao que estava acontecendo a si própria. Mais tarde, antes de deixá-las sozinhas, Heidnik a apresentou como Sandy Lindsay. Quando Sandy começou a falar, Josefina começou a entender por que a recém-chegada parecia tão impassível: ela tinha problemas mentais.

Sandy contou a Josefina que era amiga de longa data de Heidnik desde que o havia conhecido no Instituto Elwyn (um hospital local para deficientes físicos e mentais). Ela descreveu Gary como um bom amigo, que sempre cuidara dela. Com uma voz desprovida de emoção, ela descreveu como frequentemente fazia sexo com Gary e seu amigo Tony. Mais tarde, ela ficou grávida, mas abortou. Quando Gary soube do aborto, teve um acesso de fúria e a ofereceu mil dólares para que tivesse um bebê dele. Quando Sandy se recusou, Heidnik a fez prisioneira. 

Gary tinha agora duas prisioneiras esfomeadas e judiadas em casa. Mas ainda havia uma luz no fim do túnel (e esta pareceu mais brilhante quando alguém tocou a campainha). Por horas, ambas imploraram a Deus para que alguém as visse, mas ninguém veio. Dias depois, Heidnik contou a elas quem eram os visitantes inesperados: a mãe e dois primos de Sandy, que estavam a sua procura. Gary não atendeu e eles foram embora supondo que não havia ninguém em casa. Aquele episódio o preocupou e, mais tarde, obrigou Sandy a escrever uma carta para a mãe, dizendo que havia ido embora e ligaria depois. Ele disse às mulheres que postaria a carta em Nova Iorque para que a mãe de Sandy pensasse que ela havia fugido. Apesar de Sandy parecer não ter compreendido as implicações da carta, com sua experiência das ruas, Josefina entendeu que a intenção de Gary era manter sua prisioneira por tempo indeterminado.

Enquanto os dias se passavam, o comportamento de Heidnik se tornava cada vez mais bizarro. Ele as alimentava esporadicamente e as mantinha seminuas para que pudesse satisfazer seu apetite sexual sempre que desejasse, o que acontecia com frequência. Quando Gary não estava, elas se abraçavam para se aquecer e aguardavam aterrorizadas por seu retorno. Numa ocasião, elas tentaram pedir socorro, o que resultou em um espancamento brutal, que, por sua vez, fez com que elas gritassem ainda mais alto. Qualquer descumprimento das regras dele era punido com mais surras ou com um período de confinamento no temido buraco. Outra forma de castigo inventada por ele era prender as garotas em uma viga, suspensas por um dos braços, e deixá-las ali por horas a fio.

Enquanto Heidnik aprimorava suas habilidades como torturador, a mãe de Sandy procurava ativamente pela filha. Ela contou a um policial que acreditava que a filha estava sendo mantida em cativeiro por um homem que conhecia apenas como Gary, que vivia no número 3520 da Marshall Street, norte. Ela deu ao oficial todas as informações que possuía, incluindo um número de telefone, mas foi incapaz de fornecer um sobrenome. O policial tentou ligar para o número e até mesmo foi a casa, mas não obteve resposta, abandonando, assim, a investigação.

Lisa


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Perto do Natal de 1986, Gary Heidnik perambulava pelas ruas procurando outra mulher. Ao virar a esquina da Lehigh Street, ele a encontrou. Lisa, de dezenove anos, estava a caminho da casa da namorada quando Heidnik emparelhou com ela em seu Cadillac. Ele abaixou o vidro e fez um comentário sugestivo, mas ela se irritou e lhe disse que não era uma prostituta. Ele rapidamente se desculpou e ofereceu-lhe uma carona. Tranquilizada pela mudança de comportamento e impressionada por seu carro, Lisa aceitou.

Impressionando-a com comida e algumas roupas e oferecendo-se para levá-la até Atlantic City, ele a levou até sua casa, então a drogou com um pouco de vinho e quando ela desmaiou Heidnik a estuprou, algemou seus pulsos e a levou para o porão, para junto de suas outras “escravas”.

Agora havia três mulheres das dez que Heidnik planejava sequestrar. Enquanto conversavam sobre sua situação, elas se perguntavam como mais sete mulheres e quaisquer crianças que eventualmente tivessem conseguiriam viver num porão diminuto. A única esperança das três era que uma delas (ou uma vítima futura) conseguisse escapar e ir à polícia.

Mais Duas


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Dez dias depois, Heidnik voltou de um dos seus passeios com outra mulher, Deborah Dudley, 23 anos, que não permitiu que Gary a dominasse sem luta. Desde o momento em que ele a acorrentou com as outras, Deborah passou a questionar sua autoridade sempre que tinha uma oportunidade   o que geralmente não lhe garantia nada além de uma surra. Sua chegada também provocou tensão entre as outras, uma vez que sempre que ela desobedecia, Heidnik as castigava também. Espancamentos se tornaram regulares, com Gary frequentemente deixando uma das garotas no comando quando estava fora. Quando retornava, esperava ser informado por esta se as outras haviam se comportado mal. Se tivessem, ele ordenaria que a garota no comando as espancasse. Se não houvesse infrações para relatar ou se a surra não fosse severa o bastante, ele espancava todas elas. Durante este período, a experiente Josefina começou a ganhar confiança ao demonstrar um grau de lealdade e obediência, o que convenceu Gary de que ela realmente gostava de ser uma de suas “esposas”.

Seu apetite sexual também mudou com a chegada de Deborah: ao invés de transar com todas elas frequentemente, ele as forçava a fazerem sexo entre si enquanto assistia. Embora a higiene pessoal não fosse uma prioridade, Heidnik providenciou uma latrina portátil e lenços perfumados para suas cativas. Após um tempo, ele permitiu que as garotas tomassem banho, para que depois fossem forçadas a terem relações sexuais.

A quantidade e a qualidade da comida que ele oferecia pareciam mudar de acordo com seu humor. Alguns dias ele dava às garotas apenas pão e água. No dia seguinte poderia dar cachorros-quentes fedorentos ou sanduíches de manteiga de amendoim. Após, resolveu apenas dar a elas comida de cachorro enlatada enquanto as espancava até que comessem.

Em 18 de Janeiro de 1987, enquanto Jeffrey Dahmer caminhava pelos bares gays de Milwaukee a procura de companhia, Heidnik retornou para o seu calabouço com outra garota. A vítima era uma baixinha de 18 anos chamada Jacqueline – ele a pegou na região norte da cidade. Como das outras vezes, ele a estuprou e a arrastou para o porão, mas, no momento de acorrentá-la, descobriu que os grilhões eram grandes demais para seus tornozelos, então usou algemas no lugar. Mais tarde, naquele mesmo dia, Gary comprou comida chinesa para todas, acrescentando uma surpresa: uma garrafa de champanhe. A ocasião era o aniversário de 26 anos daquela que rapidamente estava se tornando sua favorita: Josefina.

Josefina revelou mais tarde que Heidnik estava bem-humorado porque acreditava que ela e Sandra Lindsay estavam grávidas dele, quando na verdade não.

Vítimas acorrentadas de Gary Heidnik. Foto: Documentário Criminal Profiler.Vítimas acorrentadas de Gary Heidnik. Foto: Documentário Criminal Profiler.

Porão da Morte


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No começo de fevereiro de 1987, Heidnik achou um motivo para castigar Sandra Lindsay quando a flagrou tentando mover o compensado que cobria o buraco. A punição foi severa: ela foi obrigada a ficar pendurada numa viga do teto por uma única algema por dias. Durante este tempo, seu estado de saúde piorou e ela se recusava a comer. Ainda acreditando que ela estava grávida, Gary tentava forçá-la a comer pedaços de pão. Até o fim da semana, apesar de ter vomitado e apresentar febre alta, Heidnik continuou a alimentá-la à força, empurrando a comida em sua boca e mantendo-a fechada até que ela engolisse. No dia seguinte, ela perdeu a consciência. Quando Gary não conseguiu acordá-la, ficou possesso e abriu as algemas, colocando-a no chão. Ele disse às outras que ela estava fingindo e chutou-a para o buraco, deixando-a ali enquanto servia sorvete às outras, depois saiu. Quando voltou, puxou Lindsay para fora do buraco e verificou seu pulso. Sandra Lindsay, 24 anos, estava morta. “Oh cara, um bebê desperdiçado”, resmungou Gary.

Após dizer às garotas que ela provavelmente havia se engasgado, Heidnik carregou o corpo de Sandra escada acima. Pouco tempo depois, elas estremeceram horrorizadas ao ouvir o barulho inconfundível de uma serra elétrica. O horror, mais tarde se tornou repulsa quando um dos cães de Heidnik foi até o porão carregando um grande e carnudo osso e começou a devorá-lo em frente às garotas aterrorizadas. Heidnik moeu a carne de Lindsay usando um processador de alimentos, e usou-a para alimentar seus cães e suas cativas, misturando-a com comida de cachorro. Para descartar as partes remanescentes do corpo, ele as incinerou numa fornalha.

Nos dias que se seguiram à morte de Sandra, as garotas começaram a notar um cheiro nauseante que tomava a casa inteira. Finalmente, o cheiro se tornou tão forte que os vizinhos de Heidnik chamaram a polícia. Após várias ligações, um policial foi enviado à casa para investigar, mas foi embora depois de Heidnik lhe garantir que o cheiro era causado por um assado que passara do ponto.

Depois da morte de Sandra, o comportamento de Heidnik se tornou ainda mais bizarro. Ele pediu que as garotas vigiassem umas às outras, com a promessa de que daria melhores condições às que assim fizessem. Durante este período, as garotas elaboraram um plano para atacar Heidnik e fugir, mas a ideia nunca foi executada. Jacqueline afirmaria depois que o ataque nunca ocorreu porque Josefina contou a Heidnik o que elas estavam planejando.

Convencido de que as garotas estavam conspirando contra ele, Heidnik bolou um plano para impedir que elas fugissem. Após algemar os pés e mãos de cada uma, ele as pendurou numa viga e as amordaçou. Então, utilizando vários tamanhos diferentes de chave de fenda, ele perfurou seus ouvidos numa tentativa de deixá-las surdas. Gary acreditava que se elas não pudessem ouvir, seriam incapazes de perceber sua aproximação. Josefina foi a única em quem ele não tocou.

Com atrocidades cada vez piores, Deborah Dudley começou a questioná-lo e dar trabalho, Heidnik, então, lhe deu um aviso: libertou-a e levou-a escada acima. Quando eles voltaram, Deborah estava extraordinariamente calma e silenciosa. Depois que Heidnik saiu, as outras indagaram o que havia acontecido. Balbuciando de medo, ela lhes contou que Heidnik a levara à cozinha e lhe mostrara um pote que guardava na fornalha. Dentro dele estava a cabeça de Sandra Lindsay. Então ele abriu o forno e mostrou a ela parte das costelas de Sandra, que ele estava assando. Abrindo a geladeira, ele apontou para um braço e para outras partes do corpo que havia enrolado em plástico e disse-lhe que caso ela não o obedecesse, seria a próxima. Mas alguns dias depois, o medo da ameaça já havia passado e Deborah continuou a desafiar suas tentativas de “domá-la”.

Josefina Rivera e Sandra Lindsay. Reprodução Internet.Josefina Rivera e Sandra Lindsay. Reprodução Internet.

Lisa Thomas, Deborah Dudley e Jacqueline Askins. Reprodução Internet.Lisa Thomas, Deborah Dudley e Jacqueline Askins. Reprodução Internet.

Como um incentivo extra à obediência, Heidnik acrescentou um novo castigo à sua já cruel caixinha de truques: sua própria versão de um tratamento por eletrochoque. Seu método era simples. Ele removia o revestimento de uma extremidade de um fio elétrico e enfiava a outra num bocal. Então, ligando o interruptor, ele encostava o fio desencapado nas correntes das garotas e assistia com divertimento incomum enquanto elas se contorciam e dançavam para escapar da corrente elétrica. Como das outras vezes, Josefina era poupada do castigo.

Com o passar das semanas, Gary começou a tratar Josefina mais como uma parceira do que uma prisioneira, e passava cada vez mais tempo sozinho com ela. Tanto é que, em 18 de Março, quando Heidnik resolveu castigar as outras, ele escolheu Josefina para ajudá-lo. O tratamento de choque foi empregado novamente com um recurso adicional, água. Após fazer buracos para o ar na cobertura de compensado, Heidnik ordenou que Josefina enchesse o buraco com água. As outras três garotas, ainda acorrentadas, foram enfiadas nele antes de a tábua ser posta de volta e carregada com sacos de terra. Enquanto aguardavam tremendo de frio e medo, o fio desencapado foi enfiado através de um dos buracos até que tocou brevemente numa das correntes, enviando uma carga de eletricidade que percorreu todas elas. O fio então foi empurrado para o buraco uma segunda vez, entrando em contato direto com a corrente de Deborah. Absorvendo a maior parte da carga, Deborah gritou e se debateu descontroladamente antes de desmaiar, com o rosto na água.

Vendo sua amiga caída, Jacqueline e Lisa gritaram até que Heidnik removesse a tampa do buraco e arrastasse Deborah para fora. Ela estava morta. Após confirmar o óbito, Heidnik calmamente fez sanduíches e perguntou às garotas: “vocês não estão felizes por não terem sido vocês?”. Ele então saiu por alguns minutos e retornou com papel e caneta. Entregando-os a Josefina, ele ordenou que ela escrevesse data e hora no alto da página. Após, ele a fez escrever uma declaração detalhando como o havia ajudado a eletrocutar Deborah. Depois, ele ordenou que ela a assinasse, antes de acrescentar sua própria assinatura. Segurando a declaração, ele disse a ela: “se você for à polícia, eu posso usar isto como prova de que você matou Debbie”. Satisfeito por tê-la sob seu total controle, ele removeu as correntes de Josefina e disse a ela para subir e se trocar. Era a primeira vez que ela estava completamente vestida em quatro meses. No dia seguinte Heidnik voltou ao porão, e após enrolar o corpo de Deborah em plástico, colocou-o no freezer e saiu.

Fuga do Inferno


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Após a morte de Deborah Dudley, Josefina se tornou companhia constante de Heidnik, frequentemente acompanhando-o em suas saídas a restaurantes ou indo às compras. Numa dessas saídas, Gary contou a ela que, se um dia fosse preso, agiria com se fosse insano, uma vez que sabia como manipular os procedimentos da lei. Ele lhe disse que vinha enganando as autoridades havia anos para receber benefícios da previdência social por incapacidade. Heidnik também pareceu ter amolecido após a morte de Deborah e começou a proporcionar algum conforto extra para suas cativas, incluindo colchões, cobertores, travesseiros, e até mesmo uma televisão enquanto Josefina, no papel de sua confidente, garantia a duvidosa honra de dividir a cama com ele.

Numa viagem em particular, eles dirigiam pelo campo nos limites de Nova Jersey quando Heidnik parou o carro perto de uma área densamente arborizada e comentou que aquele seria um bom lugar para esconder o corpo de Deborah. Na noite seguinte, 22 de Março, Heidnik e Josefina puseram o corpo parcialmente congelado de Deborah em um dos seus outros veículos, uma van Dodge, e voltaram à região conhecida como Pine Barrens. Enquanto Josefina aguardava no carro, Heidnik descartou o corpo num bosque de árvores.

No dia seguinte, Heidnik disse a ela que precisava de uma “substituta” para Deborah e sugeriu que eles fossem “caçar” juntos para encontrar uma. Mais tarde naquela noite, a dupla dirigiu pelas ruas procurando uma vítima em potencial. E Heidnik encontrou uma nova, Agnes, a quem convenceu a acompanhá-lo até sua casa. Pouco depois de entrarem lá, Agnes estaria nua, acorrentada e aprisionada no porão com as outras. Neste ponto, Josefina já havia convencido Heidnik de que ela era uma participante voluntária em sua loucura, mas na realidade, ela tinha outros planos e estava ansiosa em esperar pelo momento certo para pô-los em prática.

Sua chance finalmente surgiu em 24 de Março quando, após dias de súplicas e bajulação, ela o convenceu de que se ele a deixasse sair e visitar sua família, ela lhe traria para sua coleção uma nova “esposa”. Heidnik, ansioso para aumentar sua “família”, concordou com a condição de que após visitar a família, ela pegaria a garota e o encontraria num posto de gasolina perto da casa dela por volta da meia-noite. Mais tarde, Heidnik a deixou próximo de casa e foi embora. Em segundos, Josefina estava correndo em direção ao apartamento que dividia com o namorado, Vincent Nelson.

“Ela apareceu e, enquanto subíamos os degraus, ela divagava, sabe, falando muito rápido sobre esse cara tendo três garotas acorrentadas no porão de sua casa e ela era uma refém há quatro meses… Ela disse que ele as espancava, estuprava, alimentava-as com cadáveres, que ele era apenas um louco. Havia cachorros no jardim comendo ossos humanos. Eu apenas pensei que ela era louca. Eu realmente não acreditei, e eu ainda não acredito nessa merda.

[Vincent Nelson]

Quando Nelson atendeu a porta, Josefina contou sua história incrível. Enquanto ela relatava como havia sido sequestrada, estuprada e torturada, Nelson se perguntava se ela havia perdido o juízo. Quanto mais tentava acalmá-la, mais ela continuava a descrever cenas que envolviam morte, comida de cachorro e partes humanas até um ponto em que Nelson decidiu ele mesmo ir à casa de Heidnik e confrontá-lo. Temendo que essa interferência pudesse causar a morte das outras garotas, Josefina convenceu-o a chamar a polícia.

Alguns minutos depois, dois policiais, John Cannon e David Savidge, chegaram. Josefina contou novamente sua inacreditável história. Como Nelson no início, Cannon e Savidge não acreditaram na louca esquelética até que Josefina levantou a barra de suas calças jeans e mostrou-lhes as cicatrizes em seus tornozelos, onde as correntes haviam estado. Convencidos, eles foram até o posto de gasolina onde Gary a aguardava em seu Cadillac. Quando sacaram suas armas e se aproximaram do carro, Heidnik ergueu as mãos e perguntou se eles estavam ali por causa de pagamentos de pensão alimentícia. Ele foi informado que o assunto era muito mais grave e recebeu voz de prisão.

Após quatro meses de um horror indescritível, o reinado de terror de Gary Michael Heidnik, 43 anos, finalmente chegava ao fim.

Evidências Macabras


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Pouco antes das 5 da manhã do dia 25 de Março de 1987, um esquadrão de polícia sob o comando do tenente James Hansen, da Divisão de Homicídios, chegou ao número 3520 da Marshal Street, norte. Sem conseguir passar pelo intrincado sistema de trancas de Heidnik, Hansen deu a ordem para que a porta fosse arrombada. Um dos primeiros oficiais a cruzar os umbrais foi Dave Savidge, um dos homens que havia prendido Gary Heidnik. Seguindo instruções de Josefina, ele e seu parceiro, o oficial McCloskey foram direto ao porão.

Quando Savidge adentrou o pequeno cômodo, ele viu duas mulheres dormindo num colchão no meio do recinto. Apesar do clima frio, a única proteção que tinham era um lençol fino e imundo. Enquanto ele se aproximava, elas acordaram e começaram a gritar até que Savidge garantiu que era um oficial de polícia e que iria libertá-las. Ele percebeu que as mulheres estavam acorrentadas a um cano no teto, e não vestiam nada além de finas blusas e meias. Quando um dos policiais perguntou se havia alguma outra mulher na casa, elas apontaram para a tábua de compensado no piso, que tinha sacolas plásticas cheias de terra empilhadas sobre ela.

Retirando as sacolas e a tábua, McCloskey viu o a silhueta nua de Agnes, que estava agachada no fundo do buraco. Após içá-la para fora, a polícia removeu as correntes e levou as garotas para cima, onde uma ambulância as aguardava. Com todas elas livres, a polícia voltou suas atenções para uma busca. Na cozinha, Savidge encontrou um pote de alumínio na fornalha, que estava bastante queimado e cotinha uma substância gordurosa amarelada. No balcão da cozinha havia um processador industrial de alimentos, que fora recentemente usado, possivelmente para moer carne. Dentro da fornalha, ele encontrou uma assadeira contendo um pedaço de osso carbonizado que se assemelhava a uma costela humana. Àquela altura, Savidge ainda relutava em acreditar no que realmente havia acontecido na cozinha, mas quando ele abriu a geladeira, o que encontrou não lhe deixou nenhuma dúvida. Sobre uma prateleira do freezer estava um antebraço humano.

Em 25 de Março de 1987, homens removem o corpo de Deborah Dudley de uma área florestal perto de Hammonton, Nova Jérsei. Foto: AP Photo/Charles Krupa.Em 25 de Março de 1987, homens removem o corpo de Deborah Dudley de uma área florestal perto de Hammonton, Nova Jérsei. Foto: AP Photo/Charles Krupa.

Durante vários dias a polícia vasculhou a casa e seu quintal, detalhando cada pedaço de papel e material que encontrava. Eles escavaram a parte da frente e de trás da casa, mas não encontraram mais nenhum resquício humano. Na casa eles encontraram um armário cheio de revistas pornográficas, todas elas exibindo mulheres negras. Apesar da casa e das redondezas darem a impressão de que o proprietário era uma pessoa perturbada vivendo apenas de uma pensão para veteranos de guerra, mais tarde descobriu-se que Gary Heidnik na verdade era um homem rico, tendo acumulado a incrível quantia de US$ 550 mil dólares num fundo de investimentos do Merrill Lynch. Enquanto a busca continuava, Heidnik foi mantido em custódia e interrogado por policiais que tentavam desvendar a vida e os crimes do indivíduo maltrapilho que a imprensa já estava chamando de “o louco perverso”.

Enquanto a mídia alardeava com estardalhaço as macabras descobertas, os cidadãos norte-americanos se perguntavam: como alguém seria capaz de cometer tamanhas atrocidades?

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Serial Killers - Gary Heidnik - O Louco PerversoGary Michael Heidnik

Espiral Descendente


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A vida de Gary Heidnik começou em 22 de Novembro de 1943 em Eastlake, subúrbio de Cleveland, Ohio. Dezoito meses depois Terry, irmão de Gary, nasceu. O casal Heidnik, Michael e Ellen, viviam as brigas e nem o nascimento dos dois filhos serviu para apaziguar os ânimos. Seis meses depois do nascimento de Terry, eles se divorciaram e os garotos foram viver com a mãe e seu novo marido. Mas a vida ao lado da mãe não durou muito já que Ellen, uma beberrona assumida, abandonou os meninos que foram morar com o pai Michael e sua nova esposa. Definitivamente não foi uma época boa para os garotos, uma vez que eles passavam a maior parte do tempo ou sendo maltratados por sua madrasta ou severamente disciplinados por seu pai, um linha dura selvagem. Heidnik diria a psicólogos mais tarde que seu pai constantemente o ridicularizava, em especial quando ele fazia xixi na cama, o que era frequente. Naqueles momentos seu pai pendurava o lençol sujo em uma das janelas do segundo andar da casa para que o mundo inteiro visse.

Gary também era ridicularizado na escola, após uma queda de uma árvore ter lhe causado uma deformação na cabeça. Seu irmão Terry acredita que o acidente foi a principal causa de seu comportamento instável. Um comentário curioso, ainda mais considerando que o próprio Terry passou grande parte de sua vida em instituições para doentes mentais e tentou suicídio diversas vezes. Na verdade, a família Heidnik sempre foi assombrada por severos problemas psicológicos que os afligiram por toda sua vida. Ellen, por exemplo, acabaria por cometer suicídio.

“O irmão mais novo do homem acusado de torturar e matar mulheres que mantinha prisioneiras no porão disse que a infância dos dois foi marcada pelo ódio e frequente espancamentos do pai deles. ‘Chegou ao ponto de termos medo de qualquer coisa’, disse Terry F. Heidnik. ‘Eu desmaiei uma vez’… Terry Heidnik disse que após o divórcio dos pais, os irmãos foram viver com a mãe, Ellen Vandervoort. Durante esta época, Gary caiu de uma árvore, sofrendo um grave ferimento que deixou sua cabeça deformada. Terry relembra que as crianças na vizinhança começaram a chamar Gary de ‘cabeça de futebol’. Ele ficou mais violento e sua personalidade começou a mudar. ‘Ele passou a brigar mais’… Terry disse que a mãe deles era alcoólatra e seu pai os batia com frequência, atormentava-os e as vezes os forçava a vestir calças com um alvo desenhado atrás. Terry disse que os colegas de classe e seu pai chutavam o alvo. ‘Gary passou toda sua infância tentando ser a luz dos olhos do meu pai’, disse Terry. Aceitação era provavelmente tudo o que Gary buscou em sua vida, disse.

[Pittsburgh Post-Gazette. 4 de Abril de 1987]

Na época em que estava na oitava série, Heidnik desenvolveu duas grandes obsessões: ganhar dinheiro e se tornar um oficial do exército. Esta última ambição era tão forte que seu pai conseguiu que ele frequentasse a prestigiada Academia Militar de Staunton, na Virgínia. De fato, e apesar dos problemas psicológicos, Gary tinha grande potencial. Com um excepcional QI de 130 pontos, Heidnik durou dois anos na academia, obtendo notas excelentes, mas a abandonou subitamente em seu penúltimo ano e voltou para casa para morar com seu pai. Durante o ano seguinte ele tentou dois colégios diferentes, mas logo ficava entediado e desistia após algumas semanas. Finalmente, aos dezoito anos, ele se alistou nas forças armadas. Heidnik contaria mais tarde aos psicólogos da prisão que deixou Staunton após se consultar com um psicólogo, mas não conseguiu explicar porque achou que precisava de um, nem deu detalhes de seu tratamento.

Heidnik se adaptou rapidamente à vida militar, mas fez poucos amigos. Durante seu treinamento, ele foi avaliado como “excelente”. Depois do treinamento básico, ele se inscreveu para vários treinamentos para posições específicas, incluindo a polícia militar, mas foi rejeitado. Finalmente, foi enviado para San Antonio, no Texas, para receber treinamento médico. Ele novamente foi bem, e também desenvolveu um próspero negócio ao emprestar dinheiro a outros soldados e cobrar juros sobre os valores. Infelizmente para ele, seu empreendimento chegou ao fim rapidamente quando ele foi transferido para um hospital de campanha na Alemanha Ocidental. Depois de algumas semanas de sua realocação, Heidnik fez uma prova para obter um diploma equivalente ao ensino médio registrando uma pontuação de 96% de acerto. As coisas pareciam ir bem para ele até o final de Agosto de 1962, quando foi à enfermaria reclamando de tontura, visão embaçada e náuseas. Um neurologista determinou mais tarde que ele sofria de gastroenterite, e também apresentava sintomas de uma doença mental, mas não especificou qual.

Jack Apsche, um famoso psicólogo da Filadélfia, mais tarde investigou o histórico de doenças mentais de Heidnik e descobriu que apesar de o exército não ter indicado se o considerava esquizoide ou esquizofrênico, eles lhe prescreveram um tranquilizante pesado normalmente reservado para o tratamento de psicoses graves ou pacientes que sofrem alucinações.

Após algumas semanas, Heidnik foi enviado de volta aos Estados Unidos. Três meses depois, ele obteve uma dispensa honrosa e foi aposentado pelo exército por razões de saúde, recebendo uma pensão de 100% por incapacidade. O diagnóstico oficial foi “transtorno de personalidade esquizoide”. Ele tinha servido apenas por catorze meses. Após deixar as forças armadas, ele se estabeleceu na Filadélfia e se licenciou como auxiliar de enfermagem, recebendo um registro estadual. Mais tarde ele se matriculou na Universidade da Pensilvânia e obteve créditos em uma variedade de disciplinas incluindo antropologia, história, química e biologia. Finalmente, com sua qualificação em enfermagem, ele conseguiu um emprego no Hospital Universitário, mas foi demitido algum tempo depois quando a qualidade do seu trabalho decaiu. Dali ele se matriculou no Hospital de Administração de Veteranos, próximo à Filadélfia, para obter treinamento como enfermeiro psiquiátrico, mas foi expulso por causa de seu mau comportamento.

Daquele momento em diante a vida de Heidnik começou a degringolar, ao mesmo tempo em que passava cada vez mais tempo em instituições para doentes mentais. Em 1970, sua mãe Ellen tirou a própria vida ao beber veneno, o que serviu apenas para piorar sua condição mental já fragilizada. Numerosas tentativas de suicídio se seguiram, o que resultou em mais tempo em hospitais, e assim o ciclo vicioso continuou. Ele frequentemente passava longos períodos recusando-se a se comunicar, algo que beirava a catatonia. Em um dos seus momentos de maior lucidez, ele passou por uma série de testes de QI, que indicaram que ele possuía um intelecto “superior”.

Carteira de Seguro Social de Gary Heidnik. Foto: Discovery Investigation - Escaped: The Cellar of Terror.Carteira de Seguro Social de Gary Heidnik. Foto: Discovery Investigation – Escaped: The Cellar of Terror.

Em uma ocasião, ele foi internado numa ala psiquiátrica após atacar seu irmão Terry com uma plaina. Quando visitou Terry mais tarde, durante a recuperação dele, Gary lhe disse que se ele tivesse morrido em virtude dos ferimentos, ele mergulharia seus restos mortais numa banheira cheia de ácido para descartar o corpo. A cada internação em um hospital, seu comportamento se tornava mais bizarro. Ele passava a maior parte dos dias completamente mudo, comunicando-se apenas através de bilhetes. Ele vestia constantemente uma jaqueta de couro, que se recusava a tirar. Sua higiene pessoal era quase inexistente e ele desenvolveu uma série de manias, como bater continência e enrolar uma das pernas das calças quando não queria ser perturbado.

Durante períodos mais lúcidos, Heidnik conseguia colocar seu intelecto “superior” para trabalhar em seu benefício. Com as economias de sua pensão do Exército, comprou uma casa velha de três andares e colocou o imóvel para alugar. Foi nessa época que ele também encontrou Jesus.

Em 1971, após uma viagem à Califórnia, Heidnik teve uma revelação surpreendente: ele devia criar sua própria igreja. De volta à Filadélfia, ele registrou a Igreja Unida dos Ministros de Deus e se nomeou como “Bispo” Heidnik. Naquela época, a “igreja” possuía apenas cinco membros, que incluíam Terry Heidnik e a namorada retardada de Gary. Em 1975, Heidnik abriu uma conta no Merrill Lynch em nome da igreja. Nos doze anos seguintes, em grande parte devido ao seu interesse desde a infância em aplicações financeiras, ele conseguiu transformar seu investimento de US$ 1.500 dólares em US$ 545 mil. Durante este período, ele intercalou idas e vindas em instituições de saúde mental com “ministramentos” para o seus paroquianos, que obviamente eram poucos.

Desenho da câmara dos horrores de Gary Heidnik. Créditos: Associated Press.Desenho da câmara dos horrores de Gary Heidnik. Créditos: Associated Press.

Além de ser figura conhecida nos hospitais psiquiátricos, Heidnik também se tornou bastante conhecido pela polícia. Em 1976, ele foi indiciado por roubo agravado e porte ilegal de arma, por carregar uma pistola sem registro.  As acusações foram feitas após Heidnik atirar contra um homem que alugava uma de suas casas, um tiro que raspou o rosto dele. A casa foi vendida posteriormente, e quando os novos compradores realizaram uma limpeza no local, encontraram caixas de revistas pornográficas e um estranho buraco cavado no piso de concreto do porão.

Dezoito meses depois a polícia novamente voltou suas atenções para ele, após Heidnik retirar a irmã de sua namorada, que possuía retardo mental, de uma instituição para doentes mentais e mantê-la prisioneira em seu apartamento. A mulher, Alberta, de 34 anos e QI de bebê, foi retirada do hospício por Heidnik e resgatada posteriormente da despensa do porão. Ao retornar ao hospital, ela foi examinada e constatou-se que ela fora estuprada, sodomizada e infectada com gonorreia, tanto vaginal quando oral. Mais tarde, Heidnik foi preso e acusado por diversos crimes correspondentes a sequestro, estupro e cárcere, e por interferir na custódia legal de uma pessoa.

Quando o caso foi a julgamento, em Novembro de 1978, Heidnik se declarou inocente e fez sua própria defesa. Após o juiz ordenar um exame psicológico, que determinou que Heidnik era “manipulador e psicossexualmente imaturo”, Heidnik foi considerado culpado e sentenciado a cumprir de três a sete anos de prisão. Uma apelação posterior anulou a sentença original, o que fez com ele passasse quase três anos encarcerado em várias instituições psiquiátricas. Nesse tempo, Heidnik certa vez rabiscou uma mensagem e a entregou para os guardas. Ele não podia mais falar, dizia a mensagem, porque o diabo enfiara um biscoito em sua garganta. Nos dois anos e meio que se seguiram, Gary Heidnik ficou mudo.

Ele finalmente foi solto em 12 de Abril de 1983, sob a condição de ser supervisionado por um programa de saúde mental aprovado pelo estado. Como em tantos casos semelhantes, se as autoridades tivessem percebido o real estado da mente de Heidnik, jamais o teriam libertado.

Antes de sua prisão, Heidnik se envolvera em vários relacionamentos com mulheres. Ele parecia ter fixação por mulheres negras, algumas delas com algum tipo de retardo mental. Durante estes relacionamentos seu foco parecia ser a paternidade. Sua primeira parceira lhe deu uma filha, mas o abandonou pouco depois levando a criança. A seguinte foi uma mulher chamada Dorothy, que tinha sérios problemas mentais. De acordo com os vizinhos, Heidnik tratava Dorothy muito mal, frequentemente batendo nela, mantendo-a presa e recusando-se a dar-lhe comida. Eventualmente Dorothy fugiu, e foi vista mais tarde perambulando pelas ruas, desnorteada.

A próxima mulher que Heidnik se envolveu se chamava Anjeanette, e era irmã de Alberta, por cujo estupro Heidnik havia sido condenado. Ela também possuía retardo mental. Quando Heidnik deixou a prisão, Anjeanette sumiu. Uma investigação policial subsequente não conseguiu encontrar nenhum vestígio dela, deixando os policiais com a impressão de que Heidnik era o responsável pelo seu desaparecimento.

Após ser solto em 1983, Heidnik solicitou a ajuda de uma agência de matrimônios para encontrar uma nova companheira. Seu critério de seleção era simples: ele desejava uma garota oriental virgem. Algumas semanas depois, ele começou a trocar cartas com uma jovem filipina chamada Betty. Por dois anos, eles se comunicaram através de cartas e eventuais telefonemas. Finalmente Heidnik pediu Betty em casamento, dizendo-lhe que era um pastor. Betty aceitou o pedido e viajou para a Filadélfia em Setembro de 1985.

Após encontrá-la no aeroporto, Heidnik a levou para a casa na Marshall Street e mostrou-lhe o quarto dela. Ela ficou chocada ao encontrar uma garota retardada dormindo na cama que deveria ocupar. Heidnik lhe disse que ela era apenas uma inquilina. Apesar das desconfianças de Betty em relação a Heidnik e às condições de vida, eles se casaram em 3 de Outubro em Maryland. Na primeira semana, Heidnik a tratou bem e falava em formar uma família. Uma semana depois, ela voltou das compras e encontrou Heidnik na cama, transando com três prostitutas negras. Horrorizada, ela exigiu que ele pagasse sua passagem de volta para casa. Ele se recusou, dizendo-lhe que era o chefe da família e que era normal para ele ter várias parceiras sexuais.

Daquele dia em diante sempre havia outra mulher na casa de Heidnik, e frequentemente Betty era obrigada a assistir enquanto Heidnik fazia sexo com elas. Nas ocasiões em que ela reclamava, Heidnik a espancava e mandava que ela cozinhasse para ele e suas parceiras. Com o passar dos dias, ele se tornou cada vez mais violento e ameaçava Betty constantemente, dizendo que se ela o abandonasse ele a encontraria e mataria.

Um dia em 1986 foi a gota d’água para Betty. Após ela reclamar das mulheres que ele levava para casa, Heidnik a surrou, a estuprou vaginal e analmente, e ameaçou matá-la novamente. Por conhecer apenas Heidnik e os amigos dele, Betty foi forçada a buscar ajuda em outros membros da comunidade filipina. Eles a convenceram de que devia abandoná-lo e quatro dias depois, fingindo ter ido às compras, ela foi embora e nunca mais voltou. Duas semanas depois, Heidnik foi preso e acusado de ameaça e vários crimes correspondentes a estupro, estupro conjugal, dentre outros. Para a sorte de Heidnik, o período de liberdade condicional para seus crimes sexuais anteriores havia expirado na véspera de sua prisão. A sorte lhe sorriu novamente quando as acusações foram posteriormente retiradas, uma vez que Betty não compareceu à audiência preliminar. Após a fuga de Betty, Heidnik ficou obcecado com um plano para criar uma fábrica de bebês no porão de sua casa. Sua intenção era sequestrar, aprisionar e engravidar dez mulheres. E enquanto ele fazia isso, teve que lidar com Betty. No meio do plano, Betty o processou na tentativa de obter uma pensão alimentícia para o filho deles, que havia sido concebido, embora Heidnik não soubesse. Durante o processo, o juiz foi informado sobre o histórico médico de Heidnik e ordenou que ele fosse submetido a uma bateria de testes para determinar seu estado mental. Na época em que os testes foram realizados, duas das garotas que ele mantinha cativas em sua “fábrica de bebês” no porão já haviam morrido.

Gary Heidnik e o capitão de polícia Charles McCloskey. Poucas horas após ser preso, Gary foi abordado na delegacia por McCloskey que disse: "Gary, no caso de você se tornar o mais famoso serial killer da história, eu irei tirar uma foto com você."Gary Heidnik e o capitão de polícia Charles McCloskey. Poucas horas após ser preso, Gary foi abordado na delegacia por McCloskey que disse: “Gary, no caso de você se tornar o mais famoso serial killer da história, eu irei tirar uma foto com você.”

Dois dias após ser preso Gary Heidnik é levado da Delegacia de crimes sexuais da Filadélfia. Foto: AP Photo Charles Krupa.Dois dias após ser preso Gary Heidnik é levado da Delegacia de crimes sexuais da Filadélfia. Foto: AP Photo Charles Krupa.

Dois dias após ser preso Gary Heidnik é levado da Delegacia de crimes sexuais da Filadélfia. Foto: AP Photo Charles Krupa.Dois dias após ser preso Gary Heidnik é levado da Delegacia de crimes sexuais da Filadélfia. Foto: AP Photo Charles Krupa.

Louco ou o quê?


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Em 23 de Abril de 1987, um mês após ser preso, Heidnik apareceu no tribunal pela primeira vez desde sua prisão. Ao seu lado estava o advogado dele, Charles “Chuck” Peruto. Heidnik escolhera Peruto, um advogado experiente e arguto, com base em sua reputação de atuar em casos polêmicos. A razão da audiência era determinar oficialmente se a promotoria possuía “indícios de autoria” para manter Heidnik preso pelos crimes pelos quais era acusado. Para o promotor assistente Charles Gallagher, a audiência preliminar era uma mera formalidade, já que as provas contra Gary eram incontestáveis. Heidnik foi acusado de homicídio, sequestro, ameaça, lesão corporal, crimes correspondentes a estupro, atentado ao pudor, cárcere privado e outros crimes associados.

“O suspeito da ‘Casa dos Horrores’ Gary Heidnik queria ‘o máximo de bebês possíveis’ e celebrava com champanhe quando as mulheres que ele estuprava e mantinha acorrentadas em seu porão ficavam grávidas, disse uma vítima. Jacqueline Askins, 18, testemunhou, ‘Gary queria 10 garotas, ele disse, e ele queria o máximo de bebês possíveis antes de morrer’. Askins disse que quando três das mulheres ficaram grávidas, Heidnik fazia celebrações no porão e ‘comprava champagne e fast food’.”

[Beaver County Times, 23 de Abril de 1987]

Foto: © Bettmann/CORBIS.Gary Heidnik durante audiência preliminar em 23 de Abril de 1987. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Gary Heidnik durante audiência preliminar em 23 de Abril de 1987. Foto: Associated Press.Gary Heidnik durante audiência preliminar em 23 de Abril de 1987. Foto: Associated Press.

A evidência mais contundente contra Heidnik foi o testemunho das próprias prisioneiras. A primeira a ser chamada foi Lisa, que descreveu em detalhes minuciosos como Gary Heidnik a havia acorrentado, espancado e estuprado. A próxima a depor foi Josefina. Em um discurso claro e confiante, ela contou sua história desde quando pegou carona no Cadillac de Heidnik até o momento em que foi libertada. Ela foi particularmente explícita na descrição da morte de Sandra Lindsay e na eletrocussão de Deborah Dudley, principalmente quando admitiu ter sido ela quem introduziu o fio elétrico no buraco. Peruto interrogou Josefina posteriormente e a acusou de incitar vários dos espancamentos e a eletrocussão de Dudley. Quando Lisa foi interrogada, ela também acusou Josefina de ser cúmplice voluntária de Heidnik em suas ações assassinas e depravadas, entretanto esta evidência foi rejeitada quando Jacqueline sentou no banco das testemunhas e disse no tribunal que Josefina só atendia os pedidos de Heidnik quando estava sob ameaça de castigo ou morte.

Os procedimentos terminaram com o Dr. Paul Hoyer, do escritório médico forense do condado, apresentando evidências referentes às partes humanas e outros vestígios humanos encontrados na cozinha do psicopata. Diante de uma plateia atônita, o Dr. Hoyer enumerou os itens encontrados como uma macabra lista de compras: dois antebraços, um braço, dois joelhos e dois pedaços de coxa, todos cortados com uma serra, com tecidos, músculos e pele ainda neles. Ao todo, quase onze quilos de restos humanos foram encontrados cuidadosamente enrolados e estocados no refrigerador de Gary Heidnik, e ele foi indiciado e levado a julgamento.

“O advogado A. Charles Peruto Jr. disse que Heidnik, um veterano do Exército com uma incapacidade psiquiátrica, foi exposto a experimentos de LSD que agravaram sua esquizofrenia.”

[Beaver County Times, 13 de Junho de 1988]

Gary Heidnik chega para o primeiro dia de seu julgamento. Data: 14 de Junho de 1988. Foto: © Bettmann/CORBIS.Gary Heidnik chega para o primeiro dia de seu julgamento. Data: 14 de Junho de 1988. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Gary Heidnik fotografado no primeiro dia de seu julgamento. Foto: Foto: © Bettmann/CORBIS.Gary Heidnik fotografado no primeiro dia de seu julgamento. Foto: Foto: © Bettmann/CORBIS.

O julgamento de Gary Michael Heidnik começou no dia 20 de Junho de 1988, diante de uma sala de audiências lotada. Desde o início, enquanto o promotor Charles Gallagher delineava sua acusação e todos os detalhes nojentos dela, Chuck Peruto sabia qual seria sua estratégia de defesa. Ele declararia seu cliente culpado por todas as acusações, mas tentaria provar que Heidnik era comprovadamente insano.

Se a estratégia de acusação da promotoria já era poderosa na audiência preliminar, no julgamento em si parecia ainda mais forte. Com a declaração inicial de ambas as partes durando apenas alguns minutos, Charles Gallagher começou a chamar suas testemunhas ao banco. Durante dois dias, o júri de seis brancos e seis negros ouviu os depoimentos das próprias cativas, das famílias delas, da polícia e de peritos médicos. Quando a juíza dispensou a última testemunha de acusação, Chuck Peruto solicitou que a acusação de homicídio em primeiro grau fosse removida, alegando que a intenção de matar não havia sido provada. A juíza Lynne Abraham respondeu com algo que se tornaria familiar para Peruto ao longo de todo o julgamento: “negado”.

A defesa de Chuck Peruto era baseada em dois homens, o psiquiatra de Heidnik, Dr. Clancy McKenzie, e o psicólogo Jack Apsche. Infelizmente para Peruto e Heidnik, quando o advogado chamou sua primeira testemunha ao banco percebeu que McKenzie tinha sua própria pauta. McKenzie, que havia passado um total de cem horas com Heidnik, recusou-se a responder perguntas diretas, preferindo em vez disso se dedicar a uma discussão intelectual sobre esquizofrenia e outros distúrbios mentais associados, que às vezes confundiam completamente o júri. Finalmente Peruto conseguiu fazer McKenzie opinar sobre o aspecto mais importante de um argumento de insanidade. Na época dos crimes, Gary Heidnik era capaz de diferenciar o certo do errado? McKenzie respondeu que Heidnik não sabia a diferença.

Peruto então pediu à juíza que instruísse o júri a considerar a possibilidade de Josefina ser, na verdade, cúmplice de Gary Heidnik. A juíza Abraham respondeu que estava preparada para fazer isso, mas advertiu Peruto: Se Heidnik era capaz de recrutar uma cúmplice, como ele poderia ser insano? Astutamente, o advogado decidiu abandonar esta questão. No dia seguinte, a estratégia da defesa sofreu novo golpe quando a juíza Abraham recusou-se a admitir a maior parte do testemunho de Jack Apsche sobre o histórico mental de Heidnik, declarando-o inadmissível. Peruto foi pego completamente desprevenido pela determinação, uma vez que a maior parte do seu argumento de insanidade baseava-se nos testemunhos de Apsche e McKenzie. Num curto período de tempo McKenzie havia implodido sua própria credibilidade e Apsche não foi autorizado a apresentar os resultados de semanas de pesquisa árdua sobre o histórico médico de Heidnik, cujos detalhes Peruto acreditava poder provar que seu cliente havia estado louco na maior parte de sua vida adulta.

Trio infernal: o psicopata Gary Heidnik ao lado do serial killer Harrison "Marty" Graham. Gary e Marty foram presos na Filadélfia com apenas cinco meses de diferença, mas foram os crimes de Heidnik que chamaram mais atenção, apesar de Graham ter feito cinco vítimas a mais do que Gary. O terceiro homem na foto é "Crazy Phill" Leonard, um dos maiores mafiosos da história da Pensilvânia; assassino de 10 pessoas e que posteriormente se tornou informante do governo. Foto: Reprodução Internet.Trio infernal: o psicopata Gary Heidnik ao lado do serial killer Harrison “Marty” Graham. Gary e Marty foram presos na Filadélfia com apenas cinco meses de diferença, mas foram os crimes de Heidnik que chamaram mais atenção, apesar de Graham ter feito cinco vítimas a mais do que Gary. O terceiro homem na foto é “Crazy Phill” Leonard, um dos maiores mafiosos da história da Pensilvânia, assassino de 10 pessoas e que tornou-se informante do governo. Foto: Reprodução Internet.

Peruto então deu sua cartada final convocando o Dr. Kenneth Kool, outro psiquiatra. Kool foi capaz de dar sua opinião profissional a respeito da sanidade de Heidnik, mas em uma audiência fechada Abraham determinou que o testemunho dele estava “confundindo o júri” e determinou que a maior parte dele deveria ser suprimida. Kool também teve seu testemunho destruído no interrogatório, quando admitiu que havia passado apenas vinte minutos com Heidnik e “fora embora frustrado” quando Heidnik se recusou a falar com ele. Quando Gallagher perguntou em que ele havia baseado sua análise, ele admitiu que havia confiado no histórico médico anterior de Heidnik.

Como um tiro de misericórdia numa defesa já moribunda, Gallagher convocou uma testemunha adicional, Robert Kirkpatrick, corretor de Heidnik no Merril Lynch. Kirpatrick deu provas de que o Gary Heidnik que ele conhecia era “um investidor astuto que sabia exatamente o que fazia”. Nos dias seguintes, Peruto e Gallagher convocaram testemunhas adicionais para provar ou contestar os argumentos um do outro até que não havia mais testemunhas a chamar e ambos começaram suas alegações finais. No dia seguinte, a juíza Abraham instruiu o júri sobre os aspectos técnicos dos vários graus de homicídio e de outras questões legais, para ajudá-los a chegar a um veredito.

Finalmente, em 30 de Junho de 1988, após dezesseis horas de deliberação ao longo de dois dias e meio, o júri estava pronto. Quando Betty Ann Bennett, coordenadora do júri, levantou-se para ler o veredito, Chuck Peruto estava confiante que seu cliente seria considerado culpado pelo crime menor de homicídio em segundo grau, e assim escaparia da pena de morte. Suas esperanças foram frustradas, entretanto, quando Bennett começou a ler o veredito.

“Pelo assassinato de Deborah Dudley, culpado por homicídio em primeiro grau. Pelo assassinato de Sandra Lindsay, culpado por homicídio em primeiro grau”. E assim a lista prosseguiu. Quando Bennett terminou, Heidnik havia sido condenado em dezoito acusações. Duas acusações de homicídio em primeiro grau, cinco acusações de estupro, seis acusações de sequestro, quatro acusações de lesão corporal e uma acusação de relação sexual desviante involuntária (pela lei americana, distingue-se de estupro comum pela presença de sexo anal ou oral).

Com os vereditos anunciados, a juíza Abraham dispensou os jurados até as 9 da manhã do dia seguinte, quando promotoria e defesa teriam a oportunidade de contatar o júri antes de a sentença ser decidida. Às 12h15min do dia seguinte, o júri havia decidido por unanimidade: Gary Heidnik deveria ser sentenciado à morte pelos assassinatos de Deborah Dudley e Sandra Lindsay. Heidnik não demonstrou nenhuma emoção quando a sentença foi lida, exatamente como durante o julgamento.

Gary Heidnik é escoltado após o júri condená-lo por assassinato em primeiro grau, sequestro e estupro de duas mulheres e encarceramento de quatro outras. Data: 2 de Julho de 1988. Foto: AP Photo/Amy Sancetta, File.Gary Heidnik é escoltado após o júri condená-lo por assassinato em primeiro grau, sequestro e estupro de duas mulheres e encarceramento de quatro outras. Data: 2 de Julho de 1988. Foto: AP Photo/Amy Sancetta, File.

Fim de Jogo


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Até os dias de hoje, Jacqueline, Agnes e Lisa possuem vários graus de surdez, devido aos danos que Heidnik lhes causou com suas chaves de fenda. Junto com Josefina, elas ingressaram com ações civis para terem acesso aos investimentos de Heidnik em sua conta no Merril Lynch e dividirem-nos igualmente entre si, como indenização pelos crimes. Outras entidades, como o Corpo da Paz e o IRS (Internal Revenue Service, serviço de receita do governo dos Estados Unidos), também solicitaram acesso aos fundos.

Por onze longos anos, Gary Heidnik aguardou na prisão até que a discussão legal que inevitavelmente se segue a uma sentença de morte diminuísse. Durante este tempo, ele tentou o suicídio diversas vezes, e quase não participou dos procedimentos de apelação. Finalmente, em 6 de Julho de 1999, às 22h29min, Gary Michael Heidnik foi executado por injeção letal. Após sua morte, nenhum membro da família reclamou seu corpo, que posteriormente foi cremado.

“Gary Heidnik, o assassino da ‘Casa dos Horrores’, que torturou e assassinou mulheres em seu porão na Filadélfia, foi executado noite passada. ‘Obrigado Jesus’, disse uma das testemunhas quando o médico legista anunciou o óbito de Heidnik às 22h29, de acordo com Peter Jackson da Associated Press. Aplausos também vieram da sala das testemunhas.

Heidnik, 55, manteve sua inocência mas não lutou contra sua execução, dizendo que sua morte iria parar as execuções no estado. Foi permitido a ele ver sua família, filha, advogados e um conselheiro espiritual. Após uma última refeição – duas xícaras de café preto e dois pedaços de pizza de queijo -, Heidnik foi preparado para receber a injeção letal. Ele não pronunciou suas últimas palavras e não indicou o que queria que fosse feito com seu corpo. A cortina da sala de execução abriu às 22h18 com Heidnik coberto até seus ombros com um pano, seu braço direito em um suporte. ‘Seu rosto ficou num vermelho profundo, então pálido’, disse Jackson.

Sua execução foi testemunhada por seis membros da imprensa e 10 cidadãos. Heidnik se tornou o terceiro homem executado na Pensilvânia desde 1962.”

[The Patriot-News. 7 de Julho de 1999]

Gary Heidnik estava certo. Após sua morte nenhum outro homem foi executado na Pensilvânia.

Epílogo


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  • Uma inspiração para o cinema

Cerca de um ano depois da prisão de Heidnik, o escritor Thomas Harris sacudiu o mundo com a sequência de seu romance “Red Dragon” (Dragão Vermelho, 1981). “The Silence of the Lambs” (O Silêncio dos Inocentes) logo virou best-seller e deu origem ao melhor filme da história com a temática serial killer. E um dos pontos que chama atenção no livro é que o modus operandi de um dos antagonistas, Buffalo Bill, indiscutivelmente se assemelha a Gary Heidnik. Sabe-se que Harris inspirou-se em assassinos e serial killers da vida real para escrever os romances, Ed Gein e Ted Bundy são os mais evidentes – com Hannibal Lecter inspirado em um assassino mexicano chamado Alfredo Balli. E entre os lugares mais aterrorizantes da história do cinema está o poço onde o serial killer Buffalo Bill aprisionava mulheres antes de esfolá-las. Na época – e ainda hoje – muitos acreditaram que tal lugar só poderia existir na imaginação de um escritor, mas não. A ideia do poço nasceu após Harris ler as inúmeras manchetes do caso Gary Heidnik.

  • Josefina

“Todos os dias no poço era terrível. Depois de um tempo ele levou mais garotas e todas passavam pela mesma rotina; algemas colocadas nos tornozelos e enfiadas no buraco. Heidnik era imprevisível, nós nunca sabíamos o que esperar quando ele descia as escadas. Heidnik era solitário. Essa foi a primeira coisa que vi nele. Por isso ele queria todos aqueles bebês,” disse Josefina ao The Mirror ano passado – sua segunda entrevista em 27 anos (a primeira pode ser vista neste link).

Após escapar da morte certa, Josefina perdeu a guarda de seus dois filhos pequenos – ela não tinha capacidade de cuidar deles – e voltou a usar drogas. Durante os 20 anos seguintes ficou no fundo do poço, mas se reergueu e em 2010 se reaproximou de seus filhos que foram dados para adoção. Hoje, aos 54 anos, Josefina é casada, tem seis netos e mora em Atlantic City. Em 2014 ela publicou o livro “The Cellar Girl”, onde conta os escabrosos detalhes dos quatro meses de convivência com Gary Heidnik e as cinco outras garotas.

“Você não se recupera totalmente de uma experiência como a minha. Você tem que apenas a aprender a conviver com isso.”

[Josefina Rivera]

  • Jacqueline

Quase 30 anos após ser mantida presa num porão, Jacqueline Askins ainda luta para ter uma vida normal. Ela toma sete remédios por dia e sofre de ansiedade e medo, além de ter flashbacks do horror que viveu. Em uma reportagem do Huffingtonpost, seus filhos dizem que, durante os flashbacks, a mãe deles rasteja até um canto como se ainda estivesse no porão. “Da última vez que isso aconteceu ela não sabia quem eu e meu irmão éramos. Em seus olhos, nós não éramos seus filhos… ela disse: ‘Gary Heidnik, eu vou matar você’. Ela pegou um objeto e me golpeou com ele. Teve vezes que se ela tivesse pego uma faca, eu não estaria mais aqui”, relatou um de seus filhos, Juwan Ron. De acordo com a reportagem, isso acontece porque, durante os flashbacks, Jacqueline assume uma personalidade diferente, que ela chama de Donna. Psicólogos chamam essa mudança de identidade do subconsciente de “dissociação”, que é uma maneira de uma mente traumatizada proteger-se do medo e da dor.

“Donna é a dominante. Ela está pronta para ir a guerra com qualquer um que me machuque. Ela é meu escudo protetor.”

[Jacqueline Askins]

Josefina e Jacqueline em fotos recentes. Fotos: David Maialetti/Staff Photographer; Huffingtonpost.Josefina e Jacqueline em fotos recentes. Fotos: David Maialetti/Staff Photographer; Huffingtonpost.

Informações:


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Gary Heidnik - informações

Nome: Gary Heidnik

Nascimento: 22 de Novembro de 1943. Eastlake, Ohio, Estados Unidos.

Morte: 6 de Julho de 1999 (55 anos). Condado de Centre, Pensilvânia, Estados Unidos.

Causa da morte: Execução por injeção letal.

Acusação: Sequestros, estupros, cárcere privado e assassinatos.

Vítimas fatais: 2

Pena: Condenado a pena de morte

Período: 26 de Novembro de 1986 a 19 de Março de 1987

Captura: 24 de Março de 1987

Local: Filadélfia, Pensilvânia, Estados Unidos.

Fontes consultadas: [1] Gary Heidnik jurors to be selected in Pittsburgh. Beaver County Times. 13 de Junho de 1988; [2] Witness says Heidnik wanted many babies. The Bryan Times. 23 de Abril de 1987; [3] Heidnik abused as a boy. Pittsburgh Post-Gazette. 4 de Abril de 1987; [4] Shechter, Harold. Serial Killers – Anatomia do Mal. DarkSide Books, 2014; [5] Crime Library; [6] Return to the House of Horrors. Philadelphia Weekly; [7] Englade, Ken. Cellar of Horror: The Story of Gary Heidnik. St. Martin’s Paperbacks, 1992; [8] Horrors’ Killer Gets His Wish Victims’ Kin Watch As Gary Heidnik Gets Lethal Injection. Philly.com; [9] Nelson, Vincent. Cellar of Horror: The Story of Gary Heidnik; [10] PG News website – www.postgazette.com;

Esta matéria teve colaboração de:

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