Serial Killers: Hadden Clark, o Canibal Crossdresser

Embora considerado o protótipo do assassino moderno, o necrófilo Ed Gein tem pouco a ver com a imagem do lunático adepto ao travestismo tão comum nos filmes de terror sangrentos. Há, no entanto, um serial killer que parece de fato ter saído do pesadelo andrógino de Psicose ou de Vestida para Matar. Seu nome era Hadden Clark.
Serial Killers - Hadden Clark - O Canibal Cross Dresser

Hadden Clark - Canibal Crossdresser - Capa

Hadden Clark: O Canibal Crossdresser

“Embora considerado o protótipo do assassino moderno, o necrófilo Ed Gein tem pouco a ver com a imagem do lunático adepto ao travestismo tão comum nos filmes de terror sangrentos. Há, no entanto, um serial killer que parece de fato ter saído do pesadelo andrógino de Psicose ou de Vestida para Matar. Seu nome era Hadden Clark.”

[Harold Schechter. Serial Killers – Anatomia do Mal. Página 221]

Prelúdio para um Assassinato


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“Meu nome é Michele Dorr. Eu gosto de ter 6 porque eu gosto de ser grande. Minha mãe é uma enfermeira. Meu pai trabalha com carros. Meus gatos são J.J. e Fuzz. Quando eu crescer quero ser uma professora.”

[Michele Dorr, 1985]

Estava quente como o inferno na tarde de 31 de maio de 1986, mas uma brisa quente era o que muitos desejavam num fim de semana. Mas não Hadden Clark. O homem de 35 anos estava do lado de fora da casa vazia de seu irmão Geoffrey suando no calor de 34 graus. Ele era um homem magro, com um metro e oitenta e oito. Ele se encostou em sua caminhonete Datsun com pena de si mesmo e ficava mais irritado a cada minuto enquanto a temperatura subia. A casa estava assustadoramente silenciosa. Todos que viviam ali estavam fora se divertindo. Geoffrey Clark, seu único irmão fora da cadeia, havia rompido com ele.

As coisas não iam bem para Hadden: ele havia sido expulso do quarto que alugava na casa do irmão por ter se masturbado em frente a seus filhos pequenos. Clark tinha dois sobrinhos e uma sobrinha. Poucos meses antes, ele havia sido preso por furtar lingeries femininas numa loja de departamentos local. O interessante foi que ele não furtou sutiãs e calcinhas para dar a uma namorada e sim para ele próprio.

“Eu gosto das minhas roupas de menina”, ele disse uma vez à mãe. “Não tente me mudar”.

Menos de um ano antes, ele fora dispensado da marinha. Obteve uma dispensa médica – os médicos o diagnosticaram como um esquizofrênico paranoide. Hadden também não estava tomando os remédios que lhe foram receitados. Ele simplesmente não ligava. Aí, apenas uma semana antes, sua sobrinha de seis anos, Eliza, o chamou de retardado. Ele queria matá-la por ter dito aquilo. Não seria a primeira vez que ele mataria alguém que o “humilhara”.

Então Hadden estava ali fervendo no sol quente, prestes a entrar na casa do irmão na Sudley Road em Silver Spring, Maryland, para pegar a última caixa com seus pertences. Quando se moveu em direção à casa, uma garotinha caminhou até ele. Qual era mesmo o nome dela? Ele a tinha visto pela vizinhança várias vezes.

Seria Kelly? Shelly? Michele? Isso aí: Michele. A pirralha com franja e sardas no nariz era amiga da sobrinha de Clark, filha de um homem divorciado que morava na mesma rua e tinha a guarda dela nos fins de semana. Michele vestia um maiô rosa com babados, que ainda estava molhado de tanto brincar na piscina plástica do quintal.

“Cadê a Eliza?”

Foi então que Hadden Clark descobriu como se vingar de sua sobrinha por chamá-lo de retardado. Ninguém que fizesse aquilo com ele ficaria impune por muito tempo.

“Ela está em casa. Lá no andar de cima, brincando de boneca no quarto. Você pode entrar, se quiser”.

Ele observou enquanto Michele andava pela casa e ouviu seus passos subindo às escadas na silenciosa casa do irmão. Quando ela sumiu de sua vista, ele foi até o fundo de sua caminhonete e pegou uma caixa de ferramentas – Hadden ganhava a vida como chefe de cozinha, e dentro da caixa de metal estavam suas ferramentas de trabalho (todo tipo de facas que um restaurante comercial precisava. Havia facas de desossar, de trinchar, facas serrilhadas de filetar peixe, cutelos e tudo mais. Todas elas estavam afiadas o máximo possível). Hadden escolheu uma faca de trinta centímetros e subiu as escadas da casa do irmão.

Carl Dorr…

A vida não havia sido boa para o pai de Michele, Carl Dorr. Seus dois diplomas universitários – um em economia e outro em psicologia – não haviam lhe ajudado muito e, na metade dos anos 80, ele havia passado por uma série de empregos, terminando como pintor de carros. Sua vida pessoal era pior ainda: ele havia se casado com a mãe de Michele, Dorothy, em 1978, mas, depois do nascimento da filha, o casamento não só desmoronou como se tornou uma batalha brutal. Havia vezes em que Carl batia na esposa na frente da filha e a carga emocional recaía sobre ela. A tensão fazia a pequena garota gaguejar e ranger os dentes à noite.

“Ela já tinha visto coisas demais para uma criança de seis anos”, diria Dorothy ao The Washington Post.

Uma vez, no Dia dos Namorados de 1976, Carl apareceu na casa de sua mulher e recusou-se a ir embora. Ele lhe disse que se houvesse uma audiência de divórcio, mentiria sob juramento, diria que ela era adúltera e uma mãe incapaz, e que se ele perdesse, sequestraria Michele no ponto de ônibus da escola. Depois, de acordo com Dorothy, ele a atirou contra a parede e a espancou, causando cortes e hematomas.

Apesar de uma relação que poderia moldar a filha para se tornar uma adulta que precisaria de visitas semanais ao psiquiatra, ambos amavam a garotinha. Carl ficava ansioso pelos fins de semana com Michele e certamente aquele era o caso nos dois últimos dias de maio de 1986, quando buscou Michele na casa da mãe. Eles jantaram no McDonald’s, ele lhe comprou um brinquedo na 7-Eleven, alugou um filme infantil numa locadora e, naquele domingo calorento, encheu a piscina plástica ao meio-dia, prometendo levá-la às 16h a uma piscina maior do bairro. Ela se exibiu na piscina por alguns minutos e depois Carl entrou em casa para assistir às 500 Milhas de Indianapolis.

Lobo Mau


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A residência alugada de Carl ficava duas casas depois da de Geoffrey Clark. E enquanto assistia Rick Mears e Bobby Rahal correrem a uma média de 275 quilômetros por hora, ele esqueceu de vigiar sua garotinha do lado de fora. Michele logo se cansou de brincar sozinha e foi para a rua procurar por sua amiguinha, Eliza Clark. Minutos depois, Hadden Clark subia as escadas da casa vazia na ponta dos pés, empunhando uma faca que parecia ser tão grande quanto sua vítima. Ele a seguiu até o quarto de Eliza.

Hadden jogou a garotinha no chão e a atacou tão rápido que ela nem teve chance de gritar. O primeiro corte veio de trás para a frente, da direita para a esquerda, sobre o peito dela; o segundo veio na direção inversa, quase como o Zorro fazendo seu sinal de “Z”. Michele caiu em estado de choque e ele montou sobre ela, colocando a mão livre sobre sua boca. Ela o surpreendeu mordendo sua mão. Aquilo o enfureceu e ele enterrou sua faca de 30 centímetros direto na garganta da menina.

O sangue jorrou por todo o chão de madeira do pequeno quarto. O piso da casa antiga era inclinado e o sangue escorreu em direção ao andar de baixo.

Após o ataque, Hadden ficou em dúvida sobre o que fazer: limpar o sangue e esconder o que havia feito ou tentar fazer sexo com a garota morta? Ele tentou o sexo primeiro, mas não conseguiu.

Clark, então, correu escada abaixo e conseguiu alguns sacos plásticos de lixo na cozinha. Ele foi até a caminhonete e pegou alguns trapos e uma velha sacola de lona da marinha. Em segundos, ele estava de volta ao quarto. Hadden pôs o corpo de Michele num saco plástico e depois na sacola de lona. Ele se ajoelhou e limpou o sangue como se estivesse esfregando o deque de um dos porta-aviões onde havia servido. Todo o material ensanguentado foi posto em sacos de lixo.

A limpeza pareceu ótima aos seus olhos. Nada parecia fora de lugar. Ninguém jamais saberia o que havia acabado de acontecer. Hadden jogou o corpo e os sacos na traseira da caminhonete. Ele tinha que estar em seu emprego no clube de campo Chevy Chase em 20 minutos. Um atraso seria percebido.

O Principal Suspeito


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Carl Dorr foi ao quintal várias vezes. Ele não viu Michele. A piscina estava tranquila, nem mesmo uma ondulação. Mesmo assim, ele não estava preocupado. A Sudley Road em Silver Spring, Maryland, era uma rua suburbana segura, a cinco quilômetros da divisa com Washington, D.C. Nada de interessante acontecia naquele enclave frondoso. Ele não tinha dúvidas de que sua filha estava brincando na rua com sua amiga, Eliza Clark. Ele permaneceu relaxado, pagando algumas contas enquanto terminava de ver a corrida. Mas Michele não voltou.

Por volta das 17h30, ele foi até a casa dos Clark. Geoffrey Clark havia voltado e estava no quintal fazendo um churrasco. Seus filhos do primeiro casamento estavam lá, bem como sua nova namorada. Eliza completava o grupo. Michele não estava ali.

Geoff disse que não viu Michele o dia inteiro. O mesmo disse sua filha Eliza. Perplexo, Carl caminhou até o fim da rua e não viu nada. O pai, aturdido, começou a bater nas portas. Nada. O pânico começou a se instalar. Ele dirigiu pelo bairro novamente e então rumou em direção ao posto policial mais próximo. Ali, noticiou o desaparecimento da filha. Mas, no momento em que fez isso, acabou se tornando o principal suspeito.

Longe dali, Hadden Clark terminava seu turno no clube de campo e saiu dirigindo com o corpo da garota de seis anos na traseira de sua caminhonete, coberta por uma capota metálica. Ele parou antes no Hospital Naval Bethesda para fazer um curativo em sua mão cortada. O atendimento médico gratuito era parte do pacote de benefícios que recebera quando foi dispensado da marinha. Quando deixou o hospital, era quase meia-noite.

Hadden dirigiu pela Old Columbia Pike até Baltimore. Quando avistou algumas árvores, ele parou no acostamento. E até já tinha uma desculpa pronta caso os policiais aparecessem: estava com vontade de fazer xixi.

O assassino de Michele Dorr pegou a sacola de lona, uma lanterna e uma pá nos fundos da caminhonete, saltou um guard rail e desceu escorregando por uma ravina em direção às árvores. No sopé de uma árvore, ele fez uma cova de 1m20, cavando até encontrar barro. E retirou o cadáver de Michele da sacola de lona com a intenção de atirá-lo lá. Mas havia mais uma coisa: ele tinha que saboreá-la. Sua carne era seu prêmio, a morte de Michele era sua vingança. Ele cortou pedaços do corpo e comeu ali mesmo, como um lobo. Após o deguste, cobriu o cadáver com partes de um velho colchão que encontrou nas redondezas e algumas folhas. Subiu o barranco até sua caminhonete e dirigiu de volta para sua casa recém alugada, a oito quilômetros da casa do irmão.

Michele Dorr. Foto: The Crossdressing Cannibal.

Michele Dorr. Foto: The Crossdressing Cannibal.

O Dedo da Suspeita


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Qualquer policial amador sabe que quando uma criança desaparece ele deve primeiro voltar suas atenções para os pais ou para o cuidador. As estatísticas comprovam isso. Usualmente, existe 90% de chance de que ou os pais ou o cuidador saibam o que aconteceu com a criança.

“Está na primeira página do manual”, afirmou na época o detetive Mike Garvey, o primeiro policial a falar com Carl Dorr. E quanto mais eles investigavam Carl Dorr, mais ele parecia ser o homem que procuravam. Afinal, ele não havia ameaçado a própria esposa, dizendo que sequestraria a filha deles, apenas três meses antes? Ele e Dorothy não haviam brigado pela guarda da filha por anos? Carl não foi a última pessoa a vê-la com vida? Eles caíram como um raio em cima dele, pedindo-lhe que fizesse um teste no polígrafo no dia seguinte. Quando o examinador do polígrafo, um bombeiro local, lhes disse que Carl poderia saber mais sobre o paradeiro de Michele do que havia dito, os policiais acharam que tinham pegado o cara certo.

“Era aquela coisa de policial bonzinho e policial malvado”, Carl diria depois. “Eles estavam na minha frente dizendo que eu havia falhado no teste do polígrafo e que haviam se passado 24 horas e eles sabiam que ela estava morta. ‘Nós a encontraremos’, diziam eles, ‘quando fizermos isso, vamos te pegar'”.

Sua ex-mulher disse aos policiais que também acreditava que ele havia feito aquilo. Ela lhes deu um motivo extra. O ex-marido estava tentando se livrar de uma pensão alimentícia de US$ 400 dólares mensais. Carll Dorr estava vivendo um pesadelo. Quando disse à polícia que amava a filha, eles não acreditaram. Ele fez um segundo teste no detector de mentiras e passou facilmente. Numa tentativa de provar sua inocência, se submeteu a hipnose e tomou tiopentato de sódio, conhecido como “soro da verdade”. Nada disso convenceu os policiais e, sob uma pressão enorme, Carl se tornou seu pior inimigo. Ele surtou e, durante uma crise psicótica, disse a um psiquiatra que havia sequestrado e matado a própria filha. Parece que, de tanto ser acusado, acabou convencido de que havia matado Michele.

“Eu comecei a ter alucinações. Eu não suportei a pressão. Meu cérebro derreteu”.

[Carl Dorr]

Com seu estado mental alterado, começou a acreditar no que as pessoas nos programas de televisão estavam falando. Mas pior do que isso eram as alucinações. Um dia, olhou atrás do aparelho de TV e, quando não viu nada, pensou que a polícia estava alterando o sinal que ele recebia.

No dia seguinte, Carl entrou no seu carro e dirigiu até o túmulo do pai. Ele começou a falar com a lápide e achou que ela estava lhe respondendo. Sua mente estava tão transtornada que começou a crer que era o filho unigênito de Deus.

“Eu acreditava que se pudesse encontrar Michele seria capaz de trazê-la de volta à vida. E se fosse capaz de fazer aquilo, então eu devia ser Jesus”, afirmou ele. Ele começou a chamar a si mesmo de Messias Branco.

Os policiais encararam aquilo como uma espécie de confissão. Eles interrogaram o pai de Michele seguidas vezes. Não levou muito tempo até Carl Dorr ser internado em um hospital para 72 horas de observação psiquiátrica. Assim que recebeu alta, foi detido para um novo interrogatório.

Álibi Incontestável


Cartaz de desaparecida de Michele Dorr. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Cartaz de desaparecida de Michele Dorr. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Na verdade, Carl realmente tinha algo a esconder. Envergonhado pelo fato de ter negligenciado sua filha naquela tarde, ele mudou a linha do tempo. A última vez em que vira Michele foi por volta do meio-dia de 31 de maio. Mas contou aos policiais que havia sido por volta das 14h10. A discrepância de tempo dava ao assassino Hadden Clark um álibi perfeito.

O detetive Wayne Farrell recordaria mais tarde ter cruzado a Sudbury Road no dia seguinte ao desaparecimento de Michelle. Ele estava ávido por uma pista e se aproximou de Clark, que mexia no motor de sua caminhonete na garagem do irmão.

“Você esteve aqui ontem?”indagou o policial. “Por uns dois ou três minutos”, retrucou Hadden.

Farrell falou com o outro detetive do caso, Mike Garvey, sobre o encontro com Clark. Eles conversaram e lembraram que Hadden tinha a fama de ser o esquisitão do bairro. Garvey, então, disse para Farrel levá-lo até a delegacia apenas para uma conversa. Farrell ligou para Geoff Clark, e Geoff ligou para Hadden dizendo-lhe para se apresentar no posto policial na manhã seguinte. Ele chegou no horário, mas Garvey o deixou de molho por 10 minutos antes de ir ao seu encontro.

Hadden parecia ter um álibi incontestável. Ele disse que havia batido ponto no clube de campo, onde trabalhava às 14h46 daquela tarde. Garvey e Farrell fizeram as contas. Se Carl Dorr afirmava que vira sua filha às 14h10, então Hadden Clark não seria capaz de encontrar, sequestrar ou matar alguém e então esconder o corpo num intervalo de 36 minutos. Aquilo era quase impossível. Ainda assim, eles não o deixariam ir sem interrogá-lo. No começo, pegaram leve, perguntando-lhe sobre os coelhos que ele havia criado nos fundos da casa do irmão e sua vida antes de se mudar para a casa dele. Gradualmente, começaram a perguntar sobre as crianças da vizinhança e Hadden se abriu, reclamando que um dos garotos havia chutado seus testículos uma vez enquanto brincava com um grupo. Ele confessou que uma vez havia imobilizado uma garotinha no chão, brincando. Garvey, então, jogou verde.

“Foi isso o que você fez com Michele?”, perguntou o detetive ao mesmo tempo em que mostrava a Clark uma foto da garotinha. Ao fazer isso, Hadden começou a se remexer na cadeira. Lágrimas surgiram em seus olhos e ele não quis olhar para a foto.

“Foi isso o que você fez com Michele?”, Garvey perguntou novamente. Hadden balbuciou uma resposta e então fez algo que os policiais não esperavam:

“Estou passando mal. Vocês têm um banheiro?”, perguntou. Ele entrou no banheiro do posto policial e começou a vomitar ruidosamente no vaso sanitário.

“O que você fez?”, Garvey gritou do lado de fora. “Os pais precisam saber. Diga-me o que aconteceu. Eles precisam sepultar a filha deles. Foi um acidente? Vamos conversar sobre isso”.

O suspeito respondeu vomitando ruidosamente. Enquanto continuava a vomitar, Garvey deslizou uma foto de Michele Door por baixo da porta da cabine. 

“O que você fez?”

Hadden fez o que mais tarde foi visto como uma confissão parcial.

“Eu não sei. Eu posso ter feito algo. Às vezes eu apago e faço coisas das quais não me lembro”.

Eles estavam perto, a centímetros de uma prisão. Mas Hadden pareceu recuperar o fôlego. Ele disse que havia trabalhado naquele dia e mencionou novamente ter batido o ponto às 14h46. Garvey checou novamente suas anotações. Clark talvez fosse maluco, mas você não pode matar ou sequestrar alguém, esconder o corpo e então ir ao trabalho – que ficava a quase 15 quilômetros – naquele intervalo de tempo. Carl Dorr dera ao assassino de sua filha o álibi perfeito, enquanto ao mesmo tempo direcionava as suspeitas para si mesmo.

Hadden Clark ficaria livre para matar novamente. Quanto a Michele Dorr, levaria mais 14 anos até que o mistério de sua morte fosse solucionado e seu corpo encontrado.

“…o que faz deste caso extraordinário são os bizarros acontecimentos que se seguiram desde o desaparecimento de Michele a 16 dias atrás. Durante a primeira semana, a mãe de Michele, Dorothy Jean Dorr, contratou um psíquico para localizar a garota. Ao mesmo tempo, o pai e seu irmão, tio da garota, Charles Dorr, foram chamados perante o grande júri para responder a perguntas sobre o desaparecimento. E semana passada, Dorothy Dorr preencheu um pedido do tribunal para colocar seu estranho marido sobre avaliação psiquiátrica, citando seu ‘incoerente, irracional’ comportamento. O comportamento, de acordo com Dorothy e investigadores de polícia, inclui suas declarações de que matou a garota e a enterrou debaixo de sua casa. Após obter um mandado de busca, a polícia passou quase duas horas cavando debaixo da casa, mas não encontrou nenhum vestígio da garota… o psiquiatra disse que o comportamento errático de Dorr foi causado pelo seu sentimento de responsabilidade por estar com a custódia da menina quando ela desapareceu. A pressão da polícia contribuiu para sua condição.”

[Molly Sinclair, The Washington Post, 16 de Junho de 1986]

Um Assassino Mayflower


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A maioria dos serial killers provém das camadas inferiores da sociedade. Eles crescem na pobreza e têm poucas oportunidades. Pais ou cuidadores frequentemente abusam deles, mas com Hadden Clark foi diferente. Embora ele tenha sido abusado, Clark teve várias vantagens, resultado de ser oriundo de uma família tradicional.

Sua mãe, Flavia, se gabava de ser capaz de rastrear sua linhagem até os viajantes do Mayflower (navio que transportou os primeiros colonos ingleses para a América do Norte) e de ter ascendentes diretos que foram heróis na Guerra Revolucionária Americana. O avô paterno da Hadden foi prefeito, eleito pelo Partido Republicano, em White Plains, Nova York. Seu pai – também chamado Hadden – ajudou a inventar o adesivo plástico transparente e carpetes retardantes de fogo.

A família Clark era abastada e conceituada entre seus vizinhos, mas, apesar de tudo, a família guardava um segredo a sete chaves: pai e mãe eram alcoólatras, cujas bebedeiras frequentemente os levavam a agressões físicas que muitas vezes aconteciam na frente dos filhos.

Hadden, nascido em abril de 1951, era o segundo filho. Seu irmão mais velho, Bradfield, nasceu um ano antes. Geoffrey Clark, seu irmão mais novo, veio ao mundo em 1955. A filha caçula, Alison, nasceu em 1959 – ela fugiria de casa na adolescência e, mais tarde, romperia com os pais, dizendo a um investigador: “eu nunca tive uma família”.

A família Clark perambulou por Connecticut e New Jersey durante a infância de Hadden, raramente permanecendo no mesmo local por mais de um ano. O pai de Hadden, que possuía um MBA e era PhD em química, nunca estava satisfeito com seus empregadores, sempre buscando mais dinheiro.

Bradfield era problemático desde sempre e na adolescência se envolveu com drogas. Apesar de ter obtido dois diplomas universitários e gozar de boa reputação no recém-nascido mundo da computação, os genes Clark seriam sua ruína. Em 1984, durante uma noite de bebedeira e drogas, Bradfield assassinou sua namorada, uma bela moça de 29 anos chamada Patricia Mak. Após bater a cabeça dela contra uma parede de tijolos e estrangulá-la, ele retalhou o corpo em onze pedaços na banheira, assou parte dos seios em sua churrasqueira e os comeu, e então colocou as partes restantes em sacos plásticos. Como seu irmão Hadden, ele pretendia enterrar o corpo, mas se encheu de remorso, tentou o suicídio e, por fim, chamou a polícia. Ele recebeu uma pena de 18 anos a prisão perpétua e continua cumprindo a pena na Prisão Estadual de Pleasant Valley, na Califórnia.

“Bradfield Clark, um especialista em software, declarou-se culpado de assassinato em segundo grau e mutilação de restos mortais humano e foi sentenciado de 18 anos a prisão perpétua em Junho de 1985.”

[Murder Suspect’s ‘Lifestyle is Getting Even’ – The Washington Post]

Geoff, o irmão mais novo, teria outros problemas. Após se graduar em microbiologia pela Universidade Estadual de Ohio, ele se casou com um amor de infância e os dois se mudaram para o subúrbio de Maryland em Washington, onde uma vaga na Food and Drug Administration esperava por ele. Eles se estabeleceram numa casa tranquila na Sudbury Road em Silver Spring e tiveram três filhos antes de o casamento se desfazer e os papéis de divórcio serem assinados. Marcia acusou Geoff de agredi-la duas vezes e ele foi condenado em uma das acusações, cumprindo sua pena em liberdade vigiada.

E havia Hadden.

Nascido Para o Mal


Hadden Clark - Canibal Crossdresser - Jovem

Hadden Clark. Data desconhecida. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Embora os três outros Clark tenham tido vidas difíceis, com Bradfield eventualmente cometendo o crime mais grave de todos, eles nem se comparavam a Hadden. Ele parecia ter nascido para o mal, com um gosto peculiar por machucar pessoas. As crianças geralmente fugiam quando ele aparecia e, os que ousavam cruzar seu caminho, frequentemente encontravam seus cães ou gatos decapitados na porta de suas casas.

Uma vez, quando Geoff e Hadden estavam aprendendo a andar de bicicleta sem as mãos, Clark agarrou seu guidão e deliberadamente derrubou o irmão. Geoff bateu com a cabeça na calçada e começou a sangrar em profusão. Hadden correu para casa e, no melhor estilo Chaves, avisou a mãe deles:

“Houve um acidente, mas não se preocupe, a bicicleta está bem”.

“O senso de realidade do meu irmão sempre foi meio distorcido”.

[Geoffrey Hadden]

Flavia Clark inicialmente colocaria a culpa do comportamento estranho do filho num parto a fórceps mal feito. Na época, ela acreditou que ele tivesse paralisia cerebral e o levou a uma clínica cara. Seu pai não compartilhava dessa ilusão. Após algumas bebidas, ele começou a se referir a seu filho como “o retardado”. Para piorar, uma vez que Hadden era o segundo filho e o casal desejava uma menina, sua mãe frequentemente o vestia com roupas femininas cheias de babados. Um gosto por roupas femininas foi implantado nele, bem como o nome Kristen – sua mãe o chamava por esse nome quando estava bêbada.

Mesmo assim, os testes de Hadden não mostravam nenhuma deficiência mental. Na verdade, ele aparentava ser um gênio no xadrez, um jogo que requer raciocínio e concentração. Por outro lado, emocionalmente, ele se tornava uma criança agressiva quando criticada em público. O único lugar onde ele sentia algum grau de normalidade era na propriedade afastada dos avós. Após o fim de seu mandato como prefeito de White Plains, seu avô comprou a casa dos sonhos nos limites de uma cidadezinha chamada Wellfleet, em Cape Cod. Ninguém o chamava de retardado lá e o lugar se tornou o mais próximo do paraíso que Hadden Clark podia encontrar.

“Os dias que passávamos lá eram os mais maravilhosos da vida de Hadden. Era assim para todos nós”.

[Geoffrey Clark]

Flavia Clark queria que seu filho tivesse uma profissão, então ela o matriculou no prestigiado Instituto de Culinária da América, uma escola para chefes de cozinha que durava dois anos em Hyde Park, New York. Lá, ele surpreendeu a todos ao demonstrar uma verdadeira habilidade para esculpir no gelo e criar figuras de sebo. Entretanto, seu aprendizado como chefe de cozinha não aconteceu sem incidentes. Hadden retaliava descortesias urinando em potes de molho de tomate. Ainda assim, ele foi aprovado em matérias suficientes para concluir o curso de culinária em janeiro de 1974. Numa rara demonstração de solidariedade, a família inteira de Hadden apareceu para a cerimônia de formatura

O diploma de uma renomada escola culinária permitiu que Hadden Clark escolhesse seus empregadores – no começo. Mas ele nunca conseguia manter o emprego por mais do que alguns meses. Seu comportamento estranho, como beber na frente de todos o sangue das carnes na cozinha dos restaurantes, fez com que ele não fosse apreciado pelos outros colegas ou pelos patrões. Seus primeiros empregos foram em Provincetown, em Cape Cod, Massachusetts, onde anos depois ele confessaria ter matado várias mulheres em dunas próximas. Numa ocasião, ele alegou ter assassinado uma jovem, enterrando-a nua na areia após ter decepado suas mãos na altura dos pulsos. Hadden contou à polícia que usou os dedos dela como uma isca experimental para pesca de praia, um hobby que ele desenvolveu quando viveu em Cape Cod.

Hadden Clark em um de seus empregos como patinador entregador de jornais. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Hadden Clark em um de seus empregos como patinador entregador de jornais. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Após ser rejeitado pelos proprietários de restaurantes nas cidades litorâneas de Massachusetts, Hadden Clark passou uma temporada de um ano no navio de cruzeiro S/S Norway. Depois disso, teve empregos em salões de banquete em Long Island e um contrato de três semanas nos Jogos Olímpicos de 1980. Ao todo, Hadden Clark passaria por 14 diferentes empregos entre 1974 e 1982.

Durante este tempo, sua família se desintegrou ainda mais. Seu avô morreu e sua avó, em péssimo estado de saúde, foi morar num asilo. Seus pais se divorciaram e seu pai morreu de câncer logo depois. Hadden, já um assassino de longa data de quem jamais se suspeitara, se alistou na Marinha Americana como cozinheiro no convés inferior. Era a última chance de sua carreira. Mas seus companheiros de navio não entendiam um marinheiro que frequentemente vestia calcinhas por baixo do uniforme. Eles o espancavam. Uma vez, ele foi trancado no refrigerador de carne por três horas. A Marinha tentou transferi-lo para outros navios, mas ainda havia incidentes. Após uma última surra na qual sofreu uma concussão quando sua cabeça foi batida contra o convés, Hadden recebeu uma dispensa médica, diagnosticado com esquizofrenia paranoide “manifestada por desilusões grandiosas e persecutórias”. Pouco depois, ele apareceu na porta do irmão Geoff, o que resultou no brutal assassinato da pequena Michele Dorr, de seis anos, com a polícia acreditando que o pai dela era o principal suspeito, ao invés de Hadden Clark.

Bomba-Relógio Ambulante


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O estado mental de Hadden Clark se deteriorou ao longo dos cinco anos seguintes, apesar de sua aparência e comportamento não serem ruins o bastante para que ele fosse mandado para uma instituição mental. Ele evitava alugar quartos e começou a viver embaixo da capota da sua caminhonete, frequentemente acampando em bosques nos arredores de alguma rodovia interestadual. Seus dias como chefe de cozinha haviam acabado. Ninguém o contrataria. Ele fazia bicos como jardineiro e à noite se virava em lojas de fast food. Hadden tinha bastante dinheiro. Viver sozinho no mato não lhe custava um centavo. Em 1990, ele havia economizado quase 40 mil dólares.

Em setembro de 1988, Hadden Clark visitou sua mãe, que já estava morando em Rhode Island. Durante a estadia, ele começou a roubar itens da casa dela. Flavia o pegou em flagrante e começou a vociferar.

“O que você está fazendo, me roubando?”, gritou ela.

Hadden a derrubou e começou a chutá-la para fora da casa. Então entrou em sua caminhonete e tentou atropelá-la. Ela desviou no último momento. No dia seguinte, Flavia acusou o filho de agressão e ameaça. Hadden foi condenado a um ano de condicional.

Flavia, devastada pela condenação de Brad por assassinato e Hadden por ameaça, não queria mais nada com sua prole. Ela escreveu uma carta para Hadden informando que pretendia agir como se ele estivesse morto até que ele procurasse ajuda num hospital psiquiátrico. “Lembre-se sempre que seu pai e sua mãe te amaram”, escreveu ela. O verbo “amaram”, escrito no passado, não passou despercebido.

Fora de Controle


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Hadden Clark, fichado pela polícia em 1988. Reprodução Internet.

Hadden Clark, fichado pela polícia em 1988. Reprodução Internet.

Em 1988, Hadden Clark foi parado por excesso de velocidade em Rhode Island. Embaixo do banco do motorista havia um revólver Astra calibre 38. O mesmo departamento de polícia que havia acusado Carl Dorr o liberou após ele se declarar culpado por destruição de propriedade, um crime que ele havia cometido antes naquele mesmo ano. Ele pôde ir embora com outra sentença de liberdade vigiada, uma punição leve que agora se estendia por dois estados.

A acusação por destruição de propriedade era particularmente grave e demonstrava que seu temperamento estava longe de estar sob controle. Em seu último aluguel, antes de ir morar dentro de sua caminhonete na floresta, Hadden foi despejado de uma casa em Bethesda, Maryland, e o dono do imóvel disse que “ele parecia doido e perverso”. Mas antes de sair, Hadden encheu a casa de armadilhas. Uma delas era um balde de 10 litros de óleo que ele equilibrou sobre uma porta, de modo que o óleo derramasse quando ela fosse aberta. Ele também pulverizou tinta preta no carpete da sala e escondeu cabeças podres de peixe dentro do piano da família, da chaminé e do forno. Como último ato de vingança, matou os dois gatos da família, deixando um dos animais mortos sobre o tapete de boas-vindas da entrada e outro dentro da geladeira. Por fim, roubou vários itens insignificantes que variavam de livros a ferramentas –  até mesmo o aspirador de pó.

“O cheiro de peixe em decomposição impregnou a casa e foi extremamente difícil para remover”, dizia o documento da acusação. Ainda assim, a combinação de acusações por porte de arma e vandalismo não disparou nenhum alarme sobre o homem que a polícia local havia – ainda que brevemente – suspeitado de matar uma garota de seis anos.

Mas, apesar do comportamento maquiavélico, havia momentos em que Hadden Clark procurava ajuda. Ele frequentemente aparecia num hospital local para veteranos, mas após permanecer por alguns dias e receber algumas doses de Haldol, uma droga anti psicótica, ele fugia e voltava para suas árvores.

Um diagnóstico médico parecia um aviso:

“Seu estado mental é psicótico com causa questionável. Ele afirma que pássaros e esquilos conversam com ele e lhe fazem companhia… ele fica choroso às vezes com explosões intermitentes de raiva e agitação… ele é potencialmente perigoso para si mesmo por conta de seu mau julgamento e comportamento auto defensivo”.

As palavras de Hadden, registradas pelos médicos do hospital, são assustadoras.

“Eu acho que tenho dupla personalidade. Eu não gosto de machucar pessoas, mas eu faço coisas das quais não tenho consciência”.

[Haden Clark]

Cada Vez Mais Instável


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Em fevereiro de 1989, a polícia prendeu Hadden Clark. Dessa vez, ele foi indiciado por 17 crimes. Quinze deles eram por furto e bastante incomuns. O que ele roubava e como fazia isso? Ele se vestia com roupas de mulher e visitava inúmeras igrejas locais. Enquanto as mulheres estavam nas aulas no coral, ele visitava o vestiário e roubava suas bolsas e casacos.

No dia em que foi preso, ele estacionou no acostamento da estrada de um parque e começou a mexer no carro. Quando os policiais ofereceram ajuda, Hadden entrou em pânico. Ele começou a mexer atabalhoadamente no banco dianteiro, tentando esconder algumas das bolsas e casacos femininos.

“Não! Não!”, disse aos policiais. “Vocês não podem entrar no meu carro”.

Era tarde demais. O policial havia visto um coldre preto pendurado no topo da presilha do cinto de segurança. Eles queriam ver o que mais ele tinha. Quando viram as bolsas e casacos de mulheres, perguntaram se tudo aquilo lhe pertencia. Hadden Clark afirmou que sim.

“São suas?”, perguntou o policial incrédulo. “Sim”, respondeu Hadden Clark. “Eu sou uma mulher”.

Os policiais procuraram mais. Havia perucas femininas, uma seringa hipodérmica, vestidos de mulher e um bolo grosso de dinheiro.

Preso, ele finalmente pegou algum tempo de cadeia. Ele permaneceu por 45 dias antes de pagar fiança, mas se gabou depois, dizendo ter ficado na cadeia de propósito, porque era mais confortável ficar lá do que do lado de fora, no frio congelante de fevereiro. Hadden passou a gostar de ter três refeições diárias, um teto sobre a cabeça e filmes toda quinta-feira. Ele estava quase que relutante em sair, quando a primavera chegou.

Apesar de algumas acusações terem sido retiradas em troca de uma declaração de culpa em duas delas, as sentenças ainda determinavam uma pena de três meses a dois anos. Mais uma vez, foi-lhe concedida liberdade condicional, apesar de ele já estar cumprindo uma condicional em Maryland e Rhode Island.

Por que uma pena tão branda?

“O acusado possui sérios problemas mentais e está enfrentando isso agora”, escreveu Irma S. Raker, juíza de Rockville, Maryland, ao fundamentar sua sentença. O defensor público dele, Donald Salzman, estava tão complacente que escreveu uma carta para Hadden Clark e o instruiu a apresentá-la a qualquer policial que o prendesse. A nota dizia:

“A QUALQUER POLICIAL

Eu desejo a assistência do meu advogado, Donald P. Salzman, e eu quero que meu advogado esteja presente antes de responder qualquer pergunta sobre o meu caso ou quaisquer outros assuntos.

Eu não desejo falar com ninguém a respeito de qualquer acusação criminal pendente contra mim ou qualquer outra pessoa, ou qualquer investigação criminal independente de eu ser ou não acusado.

Eu não desejo participar de qualquer reconhecimento ou dar qualquer amostra de caligrafia, ou fornecer nenhum tipo de amostra de sangue, cabelo, urina ou qualquer outra a menos que meu advogado esteja presente.

O endereço e telefone do meu advogado são:

Donald P. Salzman

Defensor Público

Escritório da Defensoria Pública

Courthouse Square, 27

Rockville, Maryland 20850

(301) 279-1372″

No fim da carta havia um local para que um policial assinasse, e logo ao lado, uma frase que dizia: “para provar que eu li esta declaração para você ou que você a leu, por favor, assine aqui”.

Hadden Clark era uma bomba-relógio ambulante que agora possuía um “Cartão Saia da Cadeia” no seu bolso de trás. Os tribunais e escritórios da defensoria pública estavam fazendo de tudo para mantê-lo nas ruas de Maryland e dando-lhe todas as oportunidades para matar novamente.

Ele faria isso muito em breve. E a jovem e bela moça que seria sua vítima teria uma morte terrível e desnecessária por causa disso.

Laura, Doce Laura


Hadden Clark - O Canibal Crossdresser - Laura Houghteling

Laura Houghteling. Foto: The Crossdresser Cannibal.

“Quando eu tinha cinco anos, criei coragem para perguntar à minha mãe se ela acreditava em Deus. Ela disse que não, e mais algumas coisas que eu não compreendi. Quando eu perguntei o que acontece quando alguém morre e não há Deus, ela disse que não sabia. Aquilo soava bem ridículo e solitário para mim, e eu fiquei assustada porque eu não queria que ninguém mais morresse e desejei que existisse um Deus para minha mãe acreditar”.

[Laura Houghteling]

Considerada uma pessoa brilhante, Laura era alguém que estava galgando degraus na vida. Ninguém ficou surpreso quando ela foi aceita na Universidade de Harvard. Os amigos dela tinham grandes expectativas para com a bela loira, que às vezes era chamada de Twiggy por causa dos seus 1,80m de altura.

“Ela se tornaria presidente desse país”, afirmou sua amiga íntima, Susanna Monroney. As palavras foram ditas em 1992, após Hadden Clark torturá-la e matá-la.

A casa da mãe de Laura, a psicoterapeuta Penny Houghteling, em Bethesda, Maryland, ficava a aproximadamente 15 quilômetros de onde Hadden havia matado e canibalizado Michele Dorr cinco anos antes. Penny gostava de ajudar os desvalidos e achou que estava praticando uma boa ação quando contratou alguém que ela achava ser um sem-teto da organização de uma igreja local, no começo de 1992. Ela precisava de um jardineiro e Hadden demonstrou ser um bom trabalhador, que logo a trataria como se ela fosse sua própria mãe. Hadden cuidava de suas zínias e podava suas plantas tão bem que ela lhe deu acesso à cozinha. Ele tinha permissão para fazer seu próprio café e usar o banheiro durante o trabalho sem pedir.

“Hadden Clark, 40, é um rosto familiar na comunidade de sem-teto de Bethesda. Aqueles que conhecem Clark o descrevem como um homem excêntrico e generoso com períodos de depressão e um desejo compulsivo em ser aceito. Ele vivia em uma camionhete 1983 velha, improvisado em uma área de campismo na floresta. Quando ele era incapaz de conseguir um emprego estável, trabalhava como jardineiro ou um faz-tudo. Por quase dois anos ele trabalhou como jardineiro em tempo parcial na casa que Houghteling dividia com sua mãe.”

[Murder Suspect’s ‘Lifestyle is Getting Even’ – The Washington Post, 15 de Novembro de 1992;]

Penny era confiante e talvez não muito observadora. Quando um valioso colar de pérolas desapareceu, ela não confrontou o empregado. Ela também demorou a perceber que suas roupas íntimas e outras peças de vestuário estavam sendo roubadas, uma de cada vez. Penny já havia reclamado com Hadden sobre o desaparecimento de algumas ferramentas de jardinagem e o empregado havia explodido e gritado com ela. Talvez estivesse sendo dura demais com ele, ela pensou na época.

Após sua graduação em Harvard no verão de 1992, Laura voltou para a casa de sua mãe. Hadden, que se tornara mental e emocionalmente ligado a Penny, não gostou de ter sua atenção compartilhada. Em sua mente, parecia que Penny tinha agora, além dele, uma nova filha. Ela também parecia gostar mais de Laura do que dele. Após alguns dias, Hadden Clark planejou se vingar – no melhor estilo Norman Bates.

“Ele desenvolveu um tipo de relacionamento com Penny, era como se ela fosse a sua mãe.”

[Katherine Ramsland, psicóloga forense. The Cross-Dressing Cannibal]

Tramando a Vingança


Penny e Laura Houghteling

Penny e Laura Houghteling. O tempo trabalhando como jardineiro para Penny fez Hadden Clark desenvolver uma obsessão doentia por ela. Seu amor macabro acabou levando Laura a morte. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Em meados de outubro, Penny Houghteling avisou Hadden que passaria uma semana fora participando de uma conferência. Ela lhe deu as datas exatas – de 17 a 25. Aquilo era tudo o que ele precisava. No dia seguinte, ele visitou uma loja de ferramentas e comprou dois rolos de fita adesiva, alguns metros de corda trançada e alguns cordões de náilon. No canto esquerdo do cheque que usou para suas compras – onde a palavra “Memo” estava impressa – ele escreveu “Laura”.

Naquele sábado, 17 de outubro, Laura foi a um encontro de cavalos na cidade vizinha de Middleburg, Virginia. Um jantar de gala se seguiu ao evento. No dia seguinte, ela dormiu na casa do irmão, Warren, e assistiu a um jogo de futebol americano com ele e seu companheiro de quarto. Ela havia conseguido um emprego temporário em Washington até que decidisse se faria outra faculdade, de direito, ou se tornaria uma professora. Havia um grande projeto na empresa prestes a começar na manhã seguinte e ela pretendia dormir cedo, logo após às 22h.

Por volta da meia-noite, Hadden Clark estacionou sua caminhonete na rua vizinha à casa dos Houghteling. Ele foi até a cabana de jardinagem de Penny e pegou a chave extra da casa, que ele sabia onde ficava guardada.

Hadden não se parecia consigo próprio nem se sentia como tal. Para começar, ele estava vestindo uma peruca de mulher. Sob as roupas, ele estava vestindo as roupas íntimas de Penny. Ele carregava uma bolsa preta, e sobre a lingerie de Penny ele vestia blusa e calças femininas. Era um homem que agia como uma mulher, um crossdresser. Ele também vestia um sobretudo de gabardina feminino, e sob ele escondia um rifle calibre 22. Ele girou a chave na fechadura, andou na ponta dos pés até o quarto de Laura, e depois de entrar usou a arma para acordá-la. Suas primeiras palavras para a moça a deixaram atônita.

“Por que você está na minha cama?”, perguntou ele.

Laura não sabia o que responder.

“O que você está fazendo na minha cama?”

As perguntas dele não faziam sentido.

“Por que você está usando minhas roupas?”

Lágrimas rolaram dos olhos de Laura. 

“Diga-me que eu sou Laura”, instruiu ele.

“Você é Laura. Por favor, não me machuque”, ela disse.

Jure que sou Laura!


.

Hadden pediu a Laura que jurasse sobre a Bíblia que ele era Laura. Ela fez isso. Depois, apontando a arma para ela, ele forçou-a a se levantar, se despir e tomar um banho. Após esse ritual de limpeza, ele a levou de volta ao quarto e a fez deitar de bruços. Seu plano era sequestrá-la, levá-la ao seu acampamento na floresta e “apresentá-la a Hadden”. Ele prendeu os pulsos dela com fita adesiva, e depois seus tornozelos. Ele a virou e começou a cobrir sua boca com a fita, mas ficou tão empolgado que não conseguiu parar e cobriu também seus olhos e nariz. Ela não conseguia respirar. Laura se debateu até ficar imóvel, sufocada pela falta de ar.

Enquanto Laura permanecia imóvel, Hadden começou a remover a fita do rosto dela com uma tesoura. Excitado, sua mão escapou e a tesoura pontiaguda perfurou o pescoço dela, fazendo o sangue escorrer sobre os lençóis e a fronha. Ele ficou fascinado com os brincos que ela usava e decidiu tomá-los como souvenir. Quando encontrou dificuldades em remover o segundo, ele simplesmente o cortou com a tesoura afiada, amputando a parte inferior da orelha e fazendo com que mais sangue jorrasse.

Hadden Clark sentou ao lado da cama e observou o corpo nu de Laura por quase uma hora. Às vezes ele acariciava os seios. Às três da manhã, ele enrolou o corpo num lençol grande, o atirou nos ombros e o escondeu numa pequena cama sob a capota de sua caminhonete. Ele voltou para dentro e recolheu todas as evidências ensanguentadas – o lençol, a cobertura do colchão e a fronha e os levou para fora, junto com outros troféus. O anel de formatura de Laura do ensino médio, um unicórnio de cristal e outros pertences pessoais foram parar nos bolsos dele. Então ele se deitou na cama dela e dormiu.

A caminhonete de Hadden Clark. Foto: The Crossdresser Cannibal.

A caminhonete de Hadden Clark. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Clark deixou a casa por volta das oito horas da manhã seguinte. Ele estava vestindo uma peruca feminina e carregando uma bolsa. Uma governanta que esperava o ônibus escolar com uma criança diria à polícia mais tarde que acreditou que aquela pessoa fosse Laura indo para o trabalho. Hadden entrou em sua caminhonete e dirigiu por dois quarteirões até o estacionamento de uma igreja próxima. Ele estacionou seu carro num canto e dormiu novamente, ao lado do cadáver de Laura.

Enquanto Hadden dormia, a patroa de Laura começou a ligar para a casa, sempre caindo na secretária eletrônica. Laura não era de faltar ao trabalho sem dar explicações. Preocupada, ela enviou alguém até a casa para dar uma olhada. A jovem, uma amiga, não obteve resposta quando tocou a campainha. Alarmada, ela telefonou para o irmão de Laura e começou a ligar para todos os amigos dela. Não havia razão para chamar a polícia. Ainda.

Após vasculhar a casa, seu irmão Warren decidiu fazer o caminho de Laura até o ponto de ônibus que diariamente pegava para ir trabalhar. Enquanto descia a rua, ele viu Hadden Clark dirigindo em sua direção em sua caminhonete. Hadden estava planejando fazer outra visita à casa para roubar mais um pouco. Inocentemente, Warren tentou acenar para ele, na tentativa de descobrir se o jardineiro da família sabia algo sobre o paradeiro da irmã. Hadden parou, mas quando Warren andou em sua direção ele mudou de ideia e acelerou como se estivesse sendo perseguido pelo demônio em pessoa. Warren achou o comportamento meio estranho, mas sabia que Hadden era meio esquisito e não deu muita importância para aquilo. Mais tarde naquela noite ele ligou para a polícia e para sua mãe. Os policiais lhe disseram para não se preocupar. Laura provavelmente voltaria logo, disseram eles.

Hadden ficou amedrontado após seu encontro com Warren. Ele decidiu enterrar seu tesouro naquela noite. Ele dirigiu até um ponto da Interestadual 270, cruzando exatamente a rodovia de seu último acampamento. Laura era pesada. Ela pesava bem mais que Michele Dorr, e ele cambaleou com o peso do cadáver até largá-lo, a apenas seis metros da estrada. Ele cavou fervorosamente até conseguir uma cova rasa. Ele a rolou para dentro e cobriu o cadáver com terra e folhas. Nos meses seguintes, animais sentiriam o cheiro do corpo, e cavariam sobre ele, tentando encontrar seus restos. Na primavera, os pulsos e membros inferiores de Laura surgiriam no solo; as chuvas pesadas forçaram o corpo para cima.

Caça ao Lunático


.

Ainda nervoso após enterrar Laura Houghteling, Hadden Clark dirigiu para o norte, em direção a New England. Em Rhode Island, ele parou e enfiou os lençóis ensanguentados, a cobertura do colchão e os itens que havia roubado num armário que havia alugado. Ele guardou a fronha. Daquele modo, ele poderia reviver aquela noite afundando seu rosto nela. Se ele desejasse uma excitação mais forte, poderia pegar os lençóis ensanguentados no armário e brincar com eles. Ele dirigiu de volta até Washington, sentindo-se bastante orgulhoso de si mesmo.

Àquela altura, os policiais do condado de Montgomery, Maryland, queriam falar com Hadden. Warren e Penny haviam mencionado seu nome e quando sua descrição foi transmitida ao departamento, alarmes soaram. Ele não era suspeito do desaparecimento de Michele Dorr? Ainda confiante, Penny desdenhou da acusação.

“Hadden não machucaria ninguém. Ele é só um jardineiro”, afirmou ela.

Mas os policiais tinham outras ideias. O chefe de Mike Garvey, Robert Phillips, foi chamado e lembrou do relato de Garvey sobre Hadden vomitando no banheiro e seu álibi. Quando lhe perguntaram se deviam ou não intimá-lo, Phillips quase explodiu.

“Hadden Clark! Absolutamente! Vamos lá! Vamos pegá-lo! Aquele filho da puta escapou uma vez!”, gritou ele no telefone. Os policiais ligaram para o número de correio de voz de Hadden, e ele retornou quase que imediatamente. Ele estava tranquilo. Não, ele não poderia ir ao posto naquele momento, disse. Ele estava indo dormir em sua caminhonete. Eles teriam que esperar até o dia seguinte.

Depois da ligação, Hadden dirigiu de volta ao estacionamento da mesma igreja perto da casa de Penny e Laura. Ele entrou na caminhonete, encontrou a fronha ensanguentada e correu para as árvores que circundavam a igreja. Ele jogou a fronha perto da base de uma árvore e voltou para a caminhonete, tendo uma noite atribulada de sono.

Hadden Clark - Canibal Crossdresser - Fronha Ensanguentada

A fronha com o sangue de Laura foi jogada por Clark atrás de uma igreja. Foto: The Crossdresser Caniibal.

Quando Hadden chegou, no dia seguinte, estava acompanhado por Sue Snyder, líder de um grupo local de sem-tetos. Os policiais foram gentis, em parte porque não tinham nenhum motivo para prendê-lo e em parte por ele estar acompanhado. Hadden, obviamente, tinha um álibi para todo o tempo, exceto o horário em que Laura foi morta. Ele estava dormindo, afirmou, em sua caminhonete. Quando deixaram o posto policial, ele começou a chorar e Sue Snyder perguntou-lhe o porquê.

“Me sinto tão mal por Penny e Warren”, disse ele.

Quando Laura não apareceu, os policiais locais decidiram fazer uma varredura completa na área. Um cão da unidade de farejadores os levou às árvores que rodeavam a igreja perto da casa de Penny. Lá, o cão encontrou um dos sutiãs de Penny, uma blusa feminina, um sapato de salto alto e a fronha ensanguentada de Laura. Levada ao laboratório, foi determinado que o sangue era do mesmo tipo de Laura. Então a polícia teve sorte. Havia uma única impressão digital no sangue. Era o fim da linha para Hadden Irving Clark.

“Eu sou apenas um sem-teto”, ele balbuciou ao ser preso. “Eu não tenho amigos. Não conseguirei emprego depois disso”.

Os policiais blefaram.

“Nós encontramos a fronha na mata”, disseram. “Havia uma impressão digital nela. A digital era sua”.

Apesar de eles terem encontrado uma impressão digital, ela ainda não havia sido verificada. Eles esperavam uma confissão, uma reação. Hadden não desmoronou completamente, mas começou a soluçar e verter lágrimas.

Hadden Clark, ao centro, sendo confrontado por detetives. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Hadden Clark, ao centro, sendo confrontado por detetives. Foto: The Crossdresser Cannibal.

“O que você fez a Laura Houghteling?”, rugiu um detetive.

“Eu não me lembro”, respondeu ele.

Apesar desta declaração, os policiais o liberaram. Eles ainda não tinham nada para mantê-lo preso.

Nos dias que se seguiram, usando mandados de busca, a polícia examinou a conta bancária de Hadden e encontrou uma cópia do cheque incriminador que o suspeito deles tinha usado na loja de ferramentas. Eles também localizaram o acampamento dele, o vasculharam, mas não encontraram Laura. Os detetives, inclusive, escavaram o cemitério perto da sepultura do pai de Clark, onde eles acreditavam que Hadden poderia ter enterrado Laura.

Então o laboratório confirmou que a digital na fronha ensanguentada era de Hadden. Os policiais o encontraram mais tarde naquela noite, dormindo no fundo da sua caminhonete, com os braços envolvendo um ursinho de pelúcia caolho. Hadden Clark jamais veria a liberdade novamente.

Fim de Jogo


.

Confrontado com evidências esmagadoras, ainda que não houvesse um corpo, Hadden Clark se declarou culpado por homicídio em segundo grau e recebeu uma sentença de 30 anos de prisão em 1993. Alguns dias após sua condenação, ele levou a polícia, seus advogados e a promotoria até o corpo de Laura Houghtelling.

Na prisão, Hadden cometeu vários erros. Ele começou a se gabar de seus vários assassinatos, contando em detalhes a outros detentos como havia matado Michele Dorr, Laura e outras mulheres. Os condenados, que odiavam assassinos de crianças, e acreditando que ao denunciar Hadden podiam também conseguir uma libertação antecipada, contataram a polícia. Em 1999, ele foi julgado duas vezes. O primeiro julgamento foi pelo roubo da família Mahany, que lhe rendeu outros dez anos. O segundo, pelo assassinato de Michele Dorr, no qual vários de seus companheiros de prisão testemunharam contra ele, lhe garantiu mais trinta anos.

No julgamento, seu advogado tentou confundir os jurados levantando suspeitas sobre Carl Dorr, o que não funcionou. Após a condenação, um Hadden Clark enlouquecido se confessou com um detento que ele acreditava ser Jesus Cristo (o prisioneiro realmente guardava uma assustadora semelhança com as imagens populares do Messias) e lhe disse onde havia enterrado Michele Dorr. Em janeiro de 2000, Hadden levou autoridades à floresta e ajudou a escavar os restos morais da garotinha, quase 14 anos após tê-la matado.

“O mistério do desaparecimento de Michelle Dorr do jardim da casa de seu pai em 1986, finalmente terminou na noite de quinta-feira quando detetives desenterraram o esqueleto da garota de seis anos. A polícia não disse quem os levou até a cova, mas pessoas que seguem o caso dizem que foi Hadden Irving Clark, 43, jardineiro, condenado pela morte da garota.”

[The New York Times, 8 de Janeiro de 2000]

Alguém poderia pensar que, uma vez preso, Hadden Clark afundaria no ostracismo, mas não. Em vez disso, ele convenceu uma equipe de investigadores de serial killers do FBI de que havia matado várias outras mulheres. Entre janeiro e abril de 2000, ele e seu amigo “Jesus” foram escoltados por vários estados (Massachusetts, Connecticut, Nova Jersey e Pensilvânia), lugares onde ele alegou ter matado jovens moças. Para facilitar as buscas, as autoridades visitaram uma K-Mart local onde compraram roupas femininas e uma peruca para ele vestir enquanto eles vasculhavam as dunas de Cape Cod.

“No início de 2000, Clark decidiu mostrar aos investigadores os locais dos homicídios com a condição de que comprassem para ele um guarda-roupa feminino em uma loja especializada. Empetecado com sua nova peruca, calcinha, sutiã e saia, ele levou os investigadores a vários locais de Connecticut, Nova Jersey, Pensilvânia e Massachusetts.”

[Harold Schechter, Serial Killers – Anatomia do Mal, página 223]

Em 2000, o serial killer Hadden Clarkm usando peruca de mulher, sutiã e calcinha, levou detetives a locais onde supostamente enterrou várias de suas vítimas. Foto: The Crossdresser Cannibal.

Em 2000, o serial killer Hadden Clark, usando peruca de mulher, sutiã e calcinha, levou detetives a locais onde supostamente enterrou várias de suas vítimas. Foto: The Crossdresser Cannibal.

No fim, as buscas foram infrutíferas, em parte porque mais de vinte anos haviam se passado. A areia das dunas havia mudado, e os lugares onde Hadden alegou ter enterrado suas vítimas haviam sido cobertos com asfalto e agora eram pequenos shoppings.

Mas a polícia, com a ajuda de Hadden, realmente encontrou algo que dava credibilidade às suas alegações sobre outras vítimas. Nos limites da antiga propriedade do avô dele, eles desenterraram um enorme balde que continha aproximadamente 200 peças de joalheria feminina. Vários dos itens pertenciam a Laura Houghteling. Hadden alegou ter coletado as joias de cada uma de suas vítimas, como troféus.

Perto do topo do balde estava um refinado broche de prata com uma ninfa da floresta. Hadden contou aos investigadores que aquele broche era seu “anjo da morte” e que ele havia sido retirado de sua primeira vítima. Ele alegou tê-lo usado, preso às roupas de Penny, na noite em que matou Laura. Em 22 de Março de 2013, Penny Houghteling faleceu aos 87 anos.

Catorze anos após sua morte, Michele Dorr finalmente pode ser sepultada. Durante o velório em Silver Spring, Gayle Komisar, professor de Jardim de Infância, leu uma cartinha que Michele havia escrito um ano antes de sua morte.

“Meu nome é Michele Dorr. Eu gosto de ter 6 porque eu gosto de ser grande. Minha mãe é uma enfermeira. Meu pai trabalha com carros. Meus gatos são J.J. e Fuzz. Quando eu crescer quero ser uma professora.”

Hadden Clark: Vestido para Matar


.

Abaixo o episódio “Vestido para Matar” do programa Forensic Files revela como a ciência forense ajudou a ligar Hadden Clark ao assassinato de Michele Dorr.

Informações:


Hadden Clark - Canibal Crossdresser - Informacoes

Nome: Hadden Irving Clark.

Conhecido como: O Canibal Crossdresser. 

Nascimento: 31 de Julho de 1952, Troy, Nova York.

Vítimas confirmadas:

Sentença: 70 anos em regime fechado.

Período: 1986 a 1992.

Captura: 6 de Novembro de 1992.

Local: Maryland, Estados Unidos.

Status: Tem hoje 62 anos e continua cumprindo pena em Nova York. Confessou o assassinato de várias mulheres, mas os corpos nunca puderam ser encontrados. Ele é um dos principais suspeitos do assassinato da “Dama das Dunas”, cujo corpo foi encontrado em 1974 e até hoje não pode ser identificado.

Fontes consultadas: [1] Maryland Police Unearth Body of Girl, Ending Mystery of Her 1986 Disappearance – The New York Times, 8 de Janeiro de 2000; [2] After 16 Days, Disappearance of Michele Dorr Remains a Mystery – The Washington Post, 16 de Junho de 1986; [3] Harold Schechter, Serial Killers – Anatomia do Mal. DarkSide Boos (2014); [4] Murder Suspect’s ‘Lifestyle is Getting Even’ – The Washington Post, 15 de Novembro de 1992; [5] The Cross-Dressing Cannnibal. Channel 5. Documentário; [6] Dorr family, public celebrate Michele’s life at funera – Maryland Gazette, 19 de Janeiro de 2000; [7] Adrian Havill, Born Evil: A True Story of Cannibalism and Serial Murder. St. Martin’s True Crime (2001); [8] Wikipedia – Lady of the Dunes.

Esta matéria teve colaboração de:

marcus

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
  • odle

    Cara, vocês são simplesmente fantásticos nas suas matérias. Parabéns pelo site e pela colaboração na minha monografia. rsrs

  • Mhl

    Parabéns por essa matéria. Muito completa, fiquei admirado com o empenho desse blog com suas postagens.

  • Karla

    Mais uma pra elogiar as matérias espetaculares e super detalhadas que eu tanto adoro ler. Nunca parem com isso, por favor.

    • Obrigado pelo comentário Karla. E pode deixar, continuaremos nossa cruzada. Abraços!

  • B

    Olá! Eu gostaria que vocês fizessem uma matéria com o caso da cruel Barbora Skrlová.

  • B

    Gostaria de acrescentar que já li todas as matérias do blog e vocês nunca deixam a desejar. Parabenizo-os pelo excelente trabalho. Abraços!

  • Junior

    Impressionante reportagem sobre um serial killer estilo “Vestida para Matar”. Ansioso para ler de vcs coluna sobre o Zodíaco. Abraços

  • Lucy Silva

    O assassinato de Laura Houghteling é tema do episódio Beaten by a Hair da série Medical Detectives….

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