Reportagem Retrô: Maníaco do Parque, a face inocente do terror

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Maníaco do Parque - Retro
A Inocente Face do Terror

Maníaco do Parque: A Inocente Face do Terror

Reportagem Retrô é uma coluna do blog O Aprendiz Verde que traz reportagens, matérias e artigos antigos publicados em algum lugar do nosso tempo-espaço. Trazer essas matérias é uma forma de resgatarmos o passado e, por um instante, ter um vislumbre daquele registro de época.

A Reportagem Retrô de hoje foi publicada na Revista Veja em 5 de Agosto de 1998, e fala sobre a caçada ao Maníaco do Parque.

seta

A face inocente do terror


Da infância aos crimes, a vida do suspeito de ser o maníaco do parque


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  • Revista Veja – 5 de Agosto de 1998

O menino da foto acima é Francisco, o filho do meio de uma família de três irmãos. Em casa, era chamado de “Tim”, apelido dado pelo irmão mais velho, Luis Carlos. Tim era um menino quieto, mas de riso fácil. Tinha loucura por bicicletas e por pão. Divertia a família quando pegava broas e sentava na escada do sobrado onde morava, na Vila Mariana, bairro de classe média de São Paulo, para ver o movimento na rua e aplaudir quem passava pedalando. Adorava assistir televisão e ficava agitado quando via cenas de patinação no gelo. Aos 8 anos, ganhou seu primeiro par de patins. Eram de plástico, vermelhos. Foi tentando equilibrar-se sobre eles que Tim levou um tombo numa serraria, ao lado de sua casa. Um pedaço de graveto entrou no ouvido esquerdo e o menino precisou fazer uma cirurgia para retirá-lo. Mesmo assim, a fixação pelos patins persistiu. Tim juntava moedas para comprar modelos melhores. Aos 14 anos, conseguiu uns sonhados patins de botas. “Um garoto meigo…”, define Rosamaria Fontana, uma vizinha da época. Tim é Francisco de Assis Pereira, o homem que a polícia aponta como o suspeito número 1 no caso do “maníaco do Parque do Estado”.

Procurado há três semanas, até mesmo no Paraguai, Francisco, 30 anos, transformou-se na encarnação do mal. Por causa dele, mulheres de São Paulo evitam ir sozinhas a parques movimentos como o Ibirapuera. O medo de que o maníaco apareça por entre as árvores, como nos velhos filmes de terror, também chegou ao Rio de Janeiro. Na tarde de segunda-feira, espalhou-se a versão de que ele estaria escondido num morro carioca. No dia seguinte, cartazes de “Procura-se” com a foto de Francisco foram afixadas em vinte parques e reservas ecológicas da cidade. Outra fotografia está estampada na Internet, no site da Polícia Civil de São Paulo. Francisco é suspeito de estar entre os piores psicopatas da crônica policial brasileira. Na terça-feira 28, cinco agentes da Polícia Civil e sete policiais militares fizeram mais uma busca nas matas do Parque do Estado, uma das maiores áreas verdes de São Paulo. Encontraram dois corpos de mulheres, mortas há pelo menos trinta dias. Seis corpos já haviam sido achados na mata anteriormente. Em todos os casos, atribui-se a culpa a Francisco.

Cartaz de "Procura-se" no Rio de Janeiro. Foto: Revista Veja.

Cartaz de “Procura-se” no Rio de Janeiro. Foto: Revista Veja.

Caça-talentos – O inquérito que vasculha sua vida não pára de crescer. São três volumes, 300 páginas. Nele estão os relatos de sete mulheres que dizem ter sido abordadas por Francisco. Foram levadas ao Parque do Estado mas conseguiram escapar. Entre elas, quatro contam que foram violentadas. As demais dizem que foram atacadas, mas conseguiram fugir. Outras duas mulheres afirmam ter recusado convite para ir até o parque. Em todas as descrições, Francisco teria agido de maneira parecida, com o método que caracteriza os assassinos em série. Encontrava as moças em supermercados, pontos de ônibus ou filas de cartórios e apresentava-se como caça-talentos, aquele sujeito que descobre beldades para agências de modelos. A pretexto de tirar fotografias, levava-as para o parque. O ataque acontecia em clareiras, longe de testemunhas. Os assassinatos também parecem obedecer a uma lógica matemática. Os oito corpos foram encontrados aos pares, o que indica que algumas mulheres viram vítimas anteriores. Todas eram morenas e jovens. Os cadáveres estavam num raio de 200 metros, em trilhas pouco conhecidas do Parque do Estado.

Pelas contas da polícia, Francisco teria atacado quinze mulheres. É o suficiente para incluí-lo na galeria dos psicopatas mais temidos. No Brasil, a crônica dos assassinos em série conta com casos esdrúxulos como o de André Luiz Cassimiro, preso, em 1996, por ter violentado e asfixiado cinco mulheres entre 58 e 77 anos, em Juiz de Fora. Há também Marcelo Costa de Andrade, que há seis anos chocou o país ao confessar a morte e o estupro de catorze meninos. Maníacos do gênero também apavoraram cidades inteiras dos Estados Unidos. Houve Ted Bundy, o “Assassino Educado”, que estuprava suas vítimas depois de matá-las. Ou o mais famoso, Jeffrey Dahmer, que matou dezessete homens e devorou partes de seus corpos. Em todos esses casos há traços em comum. Um deles é a predileção por um tipo determinado de vítima. Outro é a aparente normalidade dos criminosos. Francisco se encaixa nos dois.

Adorado pelas crianças – Ele nasceu em São Paulo, no dia 29 de novembro de 1967, exatamente um ano depois que seu irmão mais velho. Teve uma infância e adolescência de altos e baixos financeiros. O pai, Nelson Pereira, trabalhou como apanhador de laranjas, pescador, barqueiro, foi frentista e chegou a ter três açougues. A família – os pais e dois irmãos de Francisco – mudava muito de bairro e até de cidade. “Francisco sempre foi o que melhor se adaptou a essas mudanças”, conta a mãe, Maria Helena Pereira. Por causa da operação no ouvido, Tim repetiu a primeira série do primário. Mas, no geral, ia bem na escola. Fez até a quinta série e concluiu um supletivo, mas largou os estudos para entrar no Exército. Chegou a ser cabo, e gostava de usar farda. Francisco também gosta de cozinhar. “Ele faz um assado muito bom”, diz o irmão mais novo, Roque. Francisco nunca abandonou os patins. Participava de competições e exibições públicas com grupos de patinadores. Para algumas delas, tingia os cabelos. Há seis anos, os pais e irmãos de Francisco mudaram para Guaraci, no interior de São Paulo. Ele não quis ir. Alegou que em São Paulo havia mais oportunidades para patinadores. O último encontro de Francisco com a família foi no Natal do ano passado. Mostrou-se como sempre: tranquilo e divertido. As visitas que fazia a Guaraci, uma cidade de cerca de 15 mil habitantes que vive da agricultura era sempre um evento. A criançada da vizinhança o adorava. As meninas da cidade apareciam para visitá-lo. Certa vez reuniu uma multidão na praça da cidade para um show de acrobacias sobre patins. Chegou a saltar sobre um carro.

Maniaco do Parque e sua mãe, Maria Helena. Foto- Revista Veja

Francisco de Assis Pereira e sua mãe Maria Helena. Foto: Revista Veja.

Na estante da sala dos pais há um troféu e medalhas que Francisco ganhou em competições de patinação. Há também a gravação de uma entrevista a uma rádio de Bauru. Francisco responde às perguntas do locutor como um jovem articulado e até talentoso. Transmite entusiasmo, fala de seus planos de fazer grandes trajetos patinando. É modesto, sensato e dá conselhos de segurança aos iniciantes. Sem notícias do filho, Maria Helena chora quando ouve a gravação. Em São Paulo, ele também fazia peripécias sobre rodas. No dia 12 de maio participou da romaria de motoqueiros até a cidade de Aparecida. Foi de patins, agarrado à garupa das motos de amigos. Durante um ano e cinco meses, ele foi um dos catorze motoqueiros da J.R. Express, uma empresa de entrega de encomendas no Brás, centro de São Paulo. Entre eles, Francisco é conhecido como Chico, um rapaz boa-praça e namorador. Morava na própria empresa, um lugar com ferramentas espalhadas pelo chão, uma geladeira, um fogão, uma televisão em preto-e-branco e um armário que também servia como despensa. A impressão que o lugar causa não é das melhores. Mesmo assim, Francisco costumava levar namoradas para lá. “Cansei de chegar aqui e ver o Chico com garotas”, conta Jorge Alberto Sant’Ana, um dos proprietários da empresa. “Confiava nele. Nunca mexeu em nada”, diz o outro sócio, Juarez Sant’Ana Jr.

O perfil de Francisco, o homem normal, começou a ruir quando seu nome foi divulgado pela polícia. Francisco fugiu e seu lado sombrio veio à tona. Apareceram relatos que, juntos, desenham o retrato falado de um maníaco. A personalidade do aventureiro simpático desdobra-se em uma outra face – terrível. Um dos relatos é o do travesti Thayná Rodrigues, que diz ter morado com ele durante um ano e dois meses. Thayná conta que o conheceu em janeiro de 1996, em Diadema, na Grande São Paulo. No mesmo dia, foram morar juntos. No tempo em que Francisco esteve desempregado, foi sustentado por Thayná. Os dois tinham brigas frequentes. Francisco dava socos no estômago e tapas no rosto do travesti, o mesmo tipo de agressão que as sete mulheres que o acusam dizem ter sofrido. Thayná acredita que ele pode mesmo ser o autor dos crimes. “Uma vez ele chegou em casa com o short manchado de sangue na altura do pênis. Disse que tinha se machucado”, conta. Francisco e Thayná se separaram porque ele se apaixonou por uma garota. Na última briga, o motoqueiro assegurou: “Um dia serei famoso. Mesmo que seja nas páginas policiais”.

A travesti Thayná. Foto: Revista Veja.

A travesti Thayná. Foto: Revista Veja.

C., de 19 anos, a menina que foi o estopim da briga com o travesti descreve Francisco como uma pessoa contraditória. Os dois namoraram por cerca de quatro meses. Ele era carinhoso, brincalhão, atencioso. Mas era estourado. “Puxou o meu cabelo porque descobriu que eu matei aula.” C. é uma garota bonita, que não quer identificar-se porque está noiva. Vive num mundo oposto ao de Thayná. Mas também dá sua contribuição para o quebra-cabeça. Lembra de uma noite em que Francisco apareceu com arranhões no peito. “Ele disse que encontrou uma ex-mulher e brigou com ela.” Os depoimentos das pessoas que conviveram com Francisco confirmam alguns detalhes do que dizem as mulheres que foram atacadas. As vítimas afirmam que Francisco sofre dores durante as relações sexuais.

Thayná confirma. A uma das moças atacadas, Francisco revelou que estava brutalizando para vingar uma antiga desilusão amorosa. A família diz que ele, de fato, teve uma.

Num diário apreendido pela polícia, Francisco escreveu: “Janete, para achar alguém como você não vai ser fácil, mas estou procurando uma menina de 12, 13 anos para dominá-la. Como dominei você”. Janete é uma velha história. Era vizinha de Francisco quando ele morava com a família em São Paulo. É nove anos mais nova que ele e os dois costumavam brincar. “Ele dizia que ia esperar ela crescer para que eles ficassem juntos”, conta Maria Helena. Quando Janete completou 19 anos, os dois começaram um namoro. Em 1995, ela engravidou. Francisco se recusou a casar e brigou com a família de Janete. “Ele me disse que só casaria quando tivesse como sustentá-la”, diz o pai de Francisco. O namoro acabou. Janete casou com outro homem, antes mesmo de o filho nascer. Francisco tentou vê-la na maternidade, mas foi proibido. Até hoje não conhece o filho.

Vítimas do Maníaco do Parque. Foto: Revista Veja.

Vítimas do Maníaco do Parque. Foto: Revista Veja.

Uma desilusão amorosa é pouco para explicar um comportamento psicopata. Mas, por enquanto, descobrir os mecanismos cerebrais de Francisco é o de menos. Mais urgente é descobrir onde ele está, já que psicopatas não costumam refrear seus impulsos mesmo sob o assédio policial. Ao contrário, a fome por notoriedade incentiva-os a prosseguir – com mais apetite ainda – em sua caçada. Dois oito cadáveres encontrados, só três foram identificados. Foram reconhecidos os corpos de Raquel Mota Rodrigues, 23 anos, Selma Ferreira Queiroz, 18, e Elisângela Francisco da Siva, 21. A polícia suspeita que as estudantes Patrícia Gonçalves Marinho, 24 anos, e Isadora Fraenkel, 18, ex-namorada de Francisco, estejam entre as mortas. Depois de três semanas de investigações, apenas a morte de uma delas pode ser diretamente associada a Francisco, já que a polícia encontrou documentos de Selma no banheiro da empresa onde o motoboy trabalhava. As demais mortes foram associadas a ele pelas semelhanças entre os crimes. Agora, a polícia tenta identificar o DNA do sêmen encontrado nos corpos das moças. Se for o de Francisco, então será a prova definitiva. Para isso, será preciso encontrá-lo. Será preciso que ele saia da sombra.


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