Serial Killers: Lucian Staniak, a Aranha Vermelha

Ele pode ser o serial killer mais prolífico da Polônia – pelo menos, desde 1922, quando um esfaqueador, ainda não identificado, deixou 11 mulheres mutiladas em uma área arbórea...
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Serial Killers - Lucian Staniak, a Aranha Vermelha

Lucian Staniak, a Aranha Vermelha

Ele pode ser o serial killer mais prolífico da Polônia – pelo menos, desde 1922, quando um esfaqueador, ainda não identificado, deixou 11 mulheres mutiladas em uma área arbórea próxima de Varsóvia –, mas a censura imposta pelo Estado deixa muito desse assustador caso um tentador mistério. Nós sabemos o nome do assassino, seu ano de nascimento e que ele nutria uma mórbida inclinação pela arte. Ele continua condenado por seis brutais homicídios e, supostamente, confessou outros catorze, mas algumas fontes sugerem que essas confissões foram conseguidas através da coerção, numa tentativa de limpar os arquivos dos homicídios não solucionados. Este serial killer tentou explicar sua motivação para a polícia, mas a fala explicava apenas o primeiro dos seus crimes e falhava em explicar os três anos subsequentes de violência. A reclusão perpétua em um asilo para lunáticos silenciou sua voz até os dias de hoje, talvez até para sempre.

Inevitavelmente, em virtude da natureza dos seus crimes e sua correspondência peculiar com a imprensa, este psicopata tem sido comparado ao londrino Jack, o Estripador. A comparação é imprecisa em vários pontos. Apesar de ambos os assassinos estriparem suas vítimas femininas, nenhuma das vítimas identificadas deste polonês eram prostitutas. Se suas confissões forem verdadeiras, ele matou quatro vezes mais do que o Estripador e operou por cerca de três anos (bem mais do que Jack, que totalizou dez semanas). Mas ambos os assassinos ganharam suas notórias alcunhas de cartas escritas à imprensa, como do nosso personagem aqui atribuído por um jornalista que notou seu “rastro de aranha”. Finalmente – e primordialmente – a “Aranha Vermelha” foi identificada, detida e encarcerada para o resto da vida.

Dia do Levante


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Em Julho de 1964, cidadãos poloneses se preparavam para celebrar o vigésimo aniversário do Levante de Varsóvia – luta armada que libertou a cidade da ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Uma grande parada foi marcada na própria Varsóvia, em 22 de Julho, com demonstrações menores planejadas por todo o País. Mas nem todos estavam interessados em comemorar. O primeiro indício de que algo estava errado chegou em 04 de julho, em forma de uma carta endereçada a Marian Starzynski, editor do jornal local Prezeglad Polityczny. Escrita com uma peculiar tinta vermelha, com uma “mão de aranha”, a nota dizia:

 “Não há felicidade sem lágrimas nem vida sem morte. Estejam cientes! Eu vou fazer com que chorem!”.

Starzynski considerou a carta uma ameaça pessoal e procurou proteção policial, mas o dia 22 começou e terminou sem que nada de ruim tivesse acontecido na capital do País. Mas não em Olsztyn, cerca de 200 quilômetros ao norte, onde Danka Maciejowitz, de 17 anos, não retornou para casa após o desfile patrocinado pela Escola de Coreografia e Folclore local. Na manhã seguinte, um jardineiro que trabalhava no parque de Heróis Poloneses encontrou o cadáver despido da adolescente loira escondido em um matagal. Ela havia sido estuprada e estripada. No dia 24 de julho, o jornal Kulisy, de Varsóvia, recebeu uma carta escrita com tinta vermelha que dizia:

“eu colhi uma flor suculenta em Olsztyn e eu devo fazê-lo novamente em outro lugar, pois não há feriado sem um funeral.”.

A polícia analisou a tinta e descobriu que se tratava de tinta própria de artistas, afinada com terebintina. Ambos os elementos eram comuns e indetectáveis sem outra amostra para comparação. A evidência recolhida do cadáver de Danka Maciejowitz, da mesma forma, era inútil sem um suspeito. Detetives nada podiam fazer a não ser esperar e ver se o assassino faria jus à sua ameaça de mais mortes a vir.

Fogos de Luxúria


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No dia 16 de janeiro de 1965, o jornal Zycie Varsóviay publicou a fotografia de Aniuta Kaliniak, de 16 anos, selecionada para comandar o desfile estudantil em Varsóvia no dia seguinte. Kaliniak vivia em Praga, um subúrbio a leste da capital. No dia seguinte à publicação de sua foto no jornal, ela caminhou até a celebração por uma ponte que cobria o rio Vistula, mas acabou cansando e pediu uma carona de volta com um motorista de caminhão local. Ele a deixou a dois quarteirões de sua casa, mas ela nunca chegou ao seu lar.

Família e amigos vasculharam Praga em busca de Aniuta quando outra das agora familiares cartas vermelhas chegou, direcionando a busca ao seu lugar de descanso final. Eles encontraram seu corpo no porão de uma fábrica de couro, em frente à sua casa. O assassino tinha, aparentemente, espreitado à espera de Kaliniak, emboscando-a próximo de sua casa e a estrangulando com um garrote de fios. Quando ela já estava morta, ele removeu uma grelha da calçada e logo ganhou acesso ao porão da fábrica, deixando Kaliniak com um espigão de metal projetado para fora de sua genitália.

Em 1.º de novembro de 1965 – Dia de Todos os Santos – o assassino atacou novamente, dessa vez em Poznan, 280 quilômetros a oeste de Varsóvia. Janka Popielski, uma jovem loira recepcionista de hotel, estava no terminal de transporte de Poznan naquela tarde, procurando por carona para visitar seu namorado em um vilarejo próximo. E nos arredores ela encontrou o maníaco que a subjugou com clorofórmio e a arrastou para trás de uma pilha de engradados, onde tirou sua calça e a estuprou e esfaqueou até a morte, com uma chave de fenda. Depois de mutilar sua vagina, o assassino colocou o cadáver de Popielski dentro de um dos engradados, onde foi encontrado uma hora depois. As mutilações eram tão horríveis que a polícia escondeu todos os detalhes da mídia.

Depois que Popielski foi encontrada morta, a polícia fez um cerco a todos os trens e ônibus que deixavam Poznan, procurando por um homem com roupas ensanguentadas. Eles não encontraram suspeitos. No dia 2 de novembro, um jornal de Poznan, o Courier Zachodni, recebeu uma carta escrita com tinta vermelha e citando o livro “Popioli”, escrito em 1928 por Stefam Zeromsky:

“apenas lágrimas de mágoa podem lavar a mancha da vergonha; apenas angústia e sofrimento podem apagar os fogos de luxúria”.

O assassino não estava se lamentando e os detetives suspeitaram que o seu desejo por sangue não havia sido satisfeito.

Caça à aranha


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A Polônia marcou um feriado duplo em 1º de maio de 1966, celebrando o Dia do Trabalho e o dia de regozijo do Partido Comunista. Naquela noite, Marysia Galazka, de 17 anos, saiu à procura de seu gato em Zoliborz, um subúrbio ao norte de Varsóvia. Ela nunca retornou para casa. O pai de Marysia, por sua vez, logo foi procurar por sua filha e a encontrou em um barracão atrás da casa, morta e terrivelmente mutilada, com vários cortes em suas coxas. Uma autópsia revelou que ela havia sido estuprada antes do assassino manejar sua lâmina.

O Major Ciznek, do esquadrão de homicídio de Varsóvia, foi colocado no comando do caso da Aranha Vermelha, e começou a operar a partir de algumas presunções básicas: Primeira: ele julgou improvável que um maníaco cometesse crimes apenas em feriados importantes.

Segunda: uma busca por toda a Polônia à procura de crimes similares acabou revelando catorze outros assassinatos com modus operandi similar ao da Aranha Vermelha, apesar de nenhum desses vir acompanhado das típicas cartas. Datando de Abril de 1964, cinco dos assassinatos ocorreram em volta de Poznan, dois em Bydgoszcz e um nas cidades de Bialystok, Kielce, Lodz, Lomza, Lublin e Radom. Traçando o mapa dos assassinatos, Ciznek notou que a maioria das cenas dos crimes estava ao Sul e ao Oeste de Varsóvia, em cidades conectadas diretamente por linhas de trem a Katowice e Kraków. Até então, nenhuma dessas cidades haviam sofrido ataques, corroborando com uma das teorias de Ciznek: de que o assassino não atacaria muito perto de sua casa.

Ainda assim, essa teoria dificilmente solucionaria o caso por si só. Katowice era maior do que Varsóvia, com mais de três milhões de habitantes, enquanto Kraków tinha mais de 800 mil.

O Artista


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Na véspera do Natal de 1966, três soldados embarcaram em um trem que iria de Kraków a Varsóvia. Preferindo não fazer o percurso na terceira classe, eles abriram um compartimento reservado e se chocaram ao encontrar um corpo feminino mutilado no chão. Eles chamaram o condutor, que, por sua vez, alertou o engenheiro. A polícia de Varsóvia recebeu a chamada de rádio, ordenando que o trem prosseguisse sem nenhuma outra parada até a capital. Cada passageiro foi examinado no momento do desembarque, mas, novamente, os detetives não encontraram mãos ou roupas ensanguentadas. Dentro da caixa de correio do trem, provavelmente colocada através de uma fenda antes de deixar Kraków, a polícia encontrou outra mensagem da Aranha Vermelha:

“eu fiz isso novamente”.

A vítima foi identificada como Janina Kozielska, de 17 anos, moradora de Kraków. Sua minissaia de couro foi cortada com faca do assassino, assim como a parte inferior de seu abdômen e suas coxas. Novamente a Aranha Vermelha tinha, cuidadosamente, evitado contato com a face da vítima e seus seios. Investigando o assassinato, os detetives perceberam que o compartimento onde Janina viajava havia sido reservado por telefone. O reservador era um homem que se identificou como Stanislav Kosielski. Sua “esposa” tinha pegado as passagens e pago por elas em dinheiro. O condutor do trem mostrou a ela o compartimento e Janina comentou que seu marido chegaria em breve. O mesmo condutor checou a passagem do “marido”, mas não recordava de seu rosto.

A polícia, então, percebeu que Janina Kozielska conhecia seu assassino bem o suficiente para viajar com ele e posar de sua esposa, já que ela não era casada. Eles supuseram que ela havia sido morta e mutilada durante os dez minutos subsequentes à partida do trem, antes dele chegar a Kraków. Ao chegar à cidade, o assassino saiu andando tranquilamente, deixando sua carta na fenda de correio enquanto os soldados subiam para viajar até Varsóvia.

A estação ferroviária de Krákow. Foto: Google.

A estação ferroviária de Krákow. Foto: Google.

Uma checagem na vida da vítima revelou que sua irmã de 14 anos, Aniela, havia sido morta em Varsóvia dois anos antes. Era muito para uma coincidência. O Major Ciznek se convenceu de que se ele resolvesse a morte das irmãs pegaria o psicopata mutilador. Ele interrogou os pais da vítima e, enquanto os Kozielskas não conseguiram apontar nenhum suspeito, eles apuraram que ambas as garotas haviam trabalhado como modelos artísticas na Escola de Artes Plásticas de Kraków e no Clube de Amantes de Arte.

A começar pelo Clube, Ciznek apurou que ele tinha 118 membros, a maioria deles respeitosos homens de ofício, incluindo médicos, dentistas, jornalistas e oficiais públicos. Ainda operando com base na teoria de que o assassino não mataria “em casa”, Cizkek procurou na lista de membros os residentes de Katowice. Ele encontrou um: Lucian Staniak, um tradutor de 26 anos, que trabalhava para o Governo Polonês. Staniak viajava com frequência e, por conta de seu trabalho, usava um bilhete do tipo “ulgowy” – um tipo especial de passagem, feita para viagens ilimitadas de trem em qualquer lugar da Polônia.

Ciznek pediu para o gerente do Clube de Arte abrir o armário de Staniak. Dentro, ele encontrou diversas facas utilizadas para fazer pinturas em lonas, além de vários trabalhos recentes do artista. Ele tinha uma preferência por tinta vermelha e uma pintura intitulada “O Círculo da Vida” fez com que Ciznek ficasse confiante de que havia encontrado a Aranha Vermelha. A pintura retratava uma vaca comendo uma flor: a vaca devorada por um lobo, um lobo morto por um caçador, um caçador atropelado por uma mulher motorista e a mulher deitada no chão com seu abdômen aberto e flores brotando da ferida.

Em 31 de Janeiro de 1967, Ciznek alertou os detetives de Katowice, que foram até o endereço de Staniak. A polícia tentou contato pela porta, mas o suspeito não se encontrava.

Staniak estava ocupado naquele momento usando sua faca em outra vítima.

Louco Encarcerado


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Staniak havia pegado um trem para Lódz naquela manhã, ele estava à procura de presas. Ele escolheu Bozhena Raczkiewicz, uma linda estudante de 18 anos do Instituto de Artes Cinematográficas, e a levou para a estação de trem da cidade por volta das 18 horas. Lá, dentro de um abrigo construído para viajantes presos em virtude do mau tempo, ele surpreendeu Raczkiewicz com uma garrafa de vodka, cortou sua saia e sua roupa íntima e, então, com seu jeito peculiar, a cortou até a morte. Apressado, Staniak deixou uma impressão digital na parte de cima da garrafa.

Ele passou a noite bebendo em Lódz e então pegou um trem noturno de volta a Katowice. Detetives o prenderam na estação e o levaram para interrogatório. Staniak rapidamente confessou ter cometido vinte homicídios, embora as queixas contra ele listassem apenas seis. Ele contou à polícia que seu primeiro assassinato, em 1964, foi causado por uma tragédia familiar. Seus pais e sua irmã estavam passando por uma rua coberta por gelo quando foram atingidos e mortos por um carro em alta velocidade. A motorista, uma jovem esposa loira de um piloto da Força Aérea Polonesa, foi absolvida das acusações de direção imprudente e assassinato. Staniak ansiou por vingança, mas tinha medo de matar o alvo de sua raiva, já que facilmente ele seria considerado o principal suspeito. Então, começou a procurar por vítimas parecidas: jovens mulheres loiras, selecionando-as através de uma foto de jornal. Quando matou a primeira, descobriu que gostava do ato e continuou fazendo “por esporte”.

Julgado por seis homicídios em 1967, Staniak foi condenado à morte, sentença que posteriormente foi comutada para prisão perpétua após ele ser considerado insano.

Autoridades polonesas não falam sobre ele, aparentemente Staniak é alguém que deve ser esquecido para sempre. Sua história tem hoje um status de lenda urbana e muitos nem sequer acreditam que um dia ele existiu. Ele supostamente está vivo, morando em um asilo para doentes mentais, e há quem diga que o predador de 74 anos ainda gosta de pintar. As outras 14 vítimas de sua matança não foram identificadas – pelo menos não publicamente. Os detalhes de seus crimes continuam obscuros e a especulação de que ele pode ser inocente em alguns desses ou todos esses casos continua. Em 2009, Havery Rosenfeld escreveu “Depravity: A Narrative of 16 Serial Killers”; no livro, ele comenta que tentou contato com o Chefe de Polícia de Varsóvia, na esperança de ter acesso aos arquivos do caso. Como ele cita no livro:

“Não recebi nenhuma resposta.”

Qualquer que seja a verdade, ninguém melhor do que a Aranha Vermelha para comentar, mas isso é algo que, provavelmente, nunca irá acontecer. O nome Lucian Staniak inexiste na lista de pacientes de hospícios poloneses.

“Durante a década de 1960, na Polônia, os jornais eram preenchidos com artigos enaltecendo o povo polonês. Os aspectos obscuros da vida eram renegados, ou, na melhor das hipóteses, tratados superficialmente. Para os líderes da Polônia, tudo sobre o socialismo polonês era bom. O mal era para ser encontrado apenas nas nações imperialistas.”.

[Ramdon.net, site polonês dedicado a serial killers, ao comentar o caso Lucian Staniak] 

Informações


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Lucian Staniak - FotoNome: Lucian Staniak

Conhecido como: Aranha Vermelha

Vítimas: 6 confirmadas

Local: Varsóvia, Polônia

Período: 1964-1967

Obs.: Staniak confessou o assassinato de 20 mulheres. Em 1967 foi condenado a morte, pena comutada posteriormente para prisão perpétua. Pode ainda estar vivo, com 74 anos, preso em algum manicômio sob outro nome.

Foto: Desenho de Lucian Staniak feito pelo artista polonês Nathan MacDicken.

Fontes consultadas: [1] Depravity: A Narrative of 16 Serial Killers, Harvey Rosenfeld, iUniverse, 2009; [2] Lucjan Staniak – tajemnicza historia polskiego Kuby Rozpruwacza, disponível em http://facet.wp.pl/;

Esta matéria teve colaboração de:


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