Reportagem Retrô: Duas Garçonetes, Cinco Crocodilos, e o Açougueiro de Elmendorf

Reportagem Retrô é uma coluna do blog O Aprendiz Verde que traz reportagens, matérias e artigos antigos publicados em algum lugar do nosso tempo-espaço. Trazer essas matérias é uma...
Joe Ball - O Açougueiro de Elmendorf
Duas Garçonetes, Cinco Crocodilos e o Açougueiro de Elmendorf

Duas Garçonetes, Cinco Crocodilos e o Açougueiro de Elmendorf

Reportagem Retrô é uma coluna do blog O Aprendiz Verde que traz reportagens, matérias e artigos antigos publicados em algum lugar do nosso tempo-espaço. Trazer essas matérias é uma forma de resgatarmos o passado e, por um instante, ter um vislumbre daquele registro de época.

A Reportagem Retrô de hoje foi publicada na Revista Texas Monthly, edição de Julho de 2002, e fala sobre os crimes de Joe Ball.

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Duas Garçonetes, Cinco Crocodilos, e o Açougueiro de Elmendorf


Texas Monthly – Edição de Julho de 2002

“O gatinho desesperado caiu na piscina. Um crocodilo enorme abriu sua mandíbula, fechou-a furiosamente e o gato foi partido em dois. ‘Lá vai mais, meus bichinhos!’, gritou o Grande Joe Ball, enquanto a plateia embriagada rugia de excitação. E em seguida ele atirou um cãozinho dentro da piscina ensanguentada!!”

[De um artigo vertical na Biblioteca Pública de San Antonio]

NA FOTOGRAFIA, JOE BALL posa numa praia vestindo uma daquelas roupas de banho antiquadas. Sua mão direita segura uma garrafa aberta de whisky em frente à barriga, como se estivesse entre um gole e outro, e sua mão esquerda segura o que parece ser um par de binóculos. Ele está descalço na areia branca perto de um arbusto, do tipo que cresce em dunas ao longo da costa do Texas. Ele é bonito de um jeito estranho e encara a câmera ou com um olhar tímido ou um sorriso de escárnio – é difícil dizer qual dos dois. Se você não conhecesse a história de Joe Ball, poderia pensar que ele era apenas um cara festeiro das antigas, um sósia gentil do William Faulkner se divertindo por aí. Caso, todavia, você conheça a lenda de Joe Ball, seu cabelo cortado rente e seu rosto fechado farão com que ele pareça sórdido, letal. Ele se parece com alguém que, naquele dia ou em outro igual, embebedaria sua namorada, a faria olhar para o horizonte, atiraria na cabeça dela, a enterraria na areia e então retornaria para o seu bar, suas garçonetes e seus crocodilos. E isto é exatamente o que Joe Ball fazia.

Ele era um contrabandista e um vigarista, filho de uma das famílias mais ricas da pequena Elmendorf, aproximadamente 24 quilômetros a sudeste de San Antonio. Ele era, segundo se diz, o tipo de cara mulherengo que se dava bem com as garçonetes do seu bar e, quando elas engravidavam, livrava-se delas. Algumas vezes, com crocodilos. Quando a polícia finalmente o pegou, em setembro de 1938, eles escavaram o corpo desmembrado de uma de suas garçonetes, desenterraram sua namorada da areia e apreenderam os crocodilos. Ball ficou conhecido como “Barba Azul do Texas”, “Açougueiro de Elmendorf”, “Homem Crocodilo” e, sua história – contada e recontada em vários jornais, revistas policiais e livros –, chama a atenção de qualquer um que possa ficar fascinado com o quão baixo as pessoas podem ir e quão fundo o poço da infâmia humana pode ser escavado. Foi impossível determinar a verdadeira contagem de corpos, uma vez que muitas mulheres haviam entrado e saído pelas portas de Ball ao longo dos anos, mas o total era de, no mínimo, cinco. Sete ou oito. 12. 20. 25. Isso aparentemente faz de Joe Ball um dos primeiros serial killers modernos.

Os fatos sobre a história de Ball variam bastante dependendo da fonte. Desde o número de vítimas até os nomes de pessoas e o que as testemunhas viram. Isso acontece especialmente online, onde sites como o Wacky World of Murder e o Homicidal Heroes tratam Ball como se ele fosse uma antiga estrela do rock, o Chuck Berry dos serial killers. É quase como se eles o venerassem. Na verdade, Ball é frequentemente tratado com algum parentesco mítico com Ed Gein, o esquisitão de Wisconsin que, nos anos 50, matou pessoas, desenterrou corpos e vestiu suas peles – o cara em quem Psicose, de Alfred Hitchcock e O Massacre da Serra Elétrica, de Tobe Hooper, se inspiraram. (Não seria surpresa que o segundo filme de Hooper, Devorado Vivo, apresentasse um hoteleiro demente do Texas que utilizava seus hóspedes, incluindo uma bela prostituta que ele espanca até a morte com uma foice, para alimentar um crocodilo que mantinha no quintal). Seria Joe Ball realmente, como insiste um site, “um dos maiores malucos dos Estados Unidos”? Ou seria ele, como outros maníacos modernos se defendem, meramente um incompreendido?

Em San Antonio eu encontrei fragmentos da verdade. Uma vez que os homens do Escritório do Xerife do Condado de Bexar que prenderam Ball já morreram, perguntei por e-mail aos seus sucessores se alguma espécie de registro escrito no departamento havia sobrevivido desde os anos 30. Não, respondeu um oficial lá, mas seu bisavô havia sido xerife no vizinho Condado de Wilson. “Eu soube que Joe Ball era um homem negro”, escreveu ele, “e ele matava suas garçonetes e atirava seus corpos em um tanque no quintal dele”. Eu fui à Biblioteca Pública de San Antonio e perguntei à bibliotecária no departamento de genealogia texana se ela teria algum arquivo da família Ball. Ela parecia não se lembrar de nada até eu dizer que um dos membros mais famosos era um conhecido serial killer. “Ah”, ela disse animadamente, “esse é o cara da fazenda de crocodilos?”.

Bem, não exatamente, mas perto o bastante para uma lenda como a de Joe Ball. Sua história é a prova, mais uma vez, que as pessoas veem o que querem ver. Especialmente quando isto envolve crocodilos comedores de carne.

PISQUE E TERÁ PASSADO POR ELMENDORF, especialmente se estiver indo para o sul na US 181 e pensando nas praias de Port Aransas ou Corpus Christi. A maioria das pessoas passa voando pela pequena cidade (população: 664) logo depois da placa que determina os limites de San Antonio. Se você virar a oeste em direção a Elmendorf, dirigirá por alguns quilômetros em campos atrofiados, pastos enormes, trailers e subdivisões de casas móveis. Muitas dessas são boas, com quintais enfeitados e belos jardins. As caixas de correio revelam sua população: Garcia, Ramos, Guerrero. Elmendorf é dois terços hispânica e bastante pobre. Ninguém jamais a fotografou para uma revista turística. Muitas das ruas da cidade são de cascalho. O cruzamento principal, na FM 237 e na Terceira Avenida, tem uma placa de “pare” e um salão de beleza. Logo atrás do cruzamento há uma placa feita à mão: de um lado ela anuncia o Tony’s Bar and Grill e no outro mostra uma caricatura de um crocodilo em um boné de baseball com um bastão nos ombros onde se lê “Gators”. Perto dali ficam o Roy’s Place e a DeLeon’s Grocery, que estão no ramo há 70 anos. O Elmendorf Lounge costumava ser ali, mas agora está na rodovia 181.

A cidade foi incorporada em 1963 e seu primeiro prefeito foi Raymond Ball, irmão de Joe. Mas ela possui uma história conturbada. Elmendorf adquiriu a reputação de ter radares escondidos nos anos 70 e, em 1983, o prefeito renunciou – bem como dois chefes de polícia consecutivos que foram acusados de enviar documentos falsos a uma agência estatal. Em 1987, o prefeito e um membro do conselho abandonaram uma reunião por causa de uma divergência; eles renunciaram e depois tentaram voltar, mas o conselho não os aceitou de volta. Em 2000 o prefeito e quatro membros do conselho, incluindo Richard “Bucky” Ball, Jr. (sobrinho de Joe), foram indiciados pior violarem o Texas Open Meetings Act (uma contravenção penal). A cidade recebeu água encanada há apenas três anos e a rede de esgoto ainda está em construção. A maior parte do comércio – restaurantes, postos de gasolina, lojas de antiguidades – se localiza na US 181, o que faz com que o resto do mundo passe direto por Elmendorf.

Há bastante movimento, no entanto, na Igreja Católica de Santo Antônio de Pádua, a maior e mais antiga na cidade. Dentro do salão paroquial, em qualquer manhã durante a semana, você encontrará uma multidão de pessoas idosas da região, que aparecem para conversar com amigos e comer uma refeição grátis fornecida pelo Departamento de Idosos do Texas e pela cidade de San Antonio. Numa boa manhã há 80 pessoas, metade deles mexicano-americanos e, outra metade, anglo-americanos. Algumas das mulheres começam a jogar dominó por volta das dez e meia; outras passam o tempo visitando as cinco fileiras de mesas dispostas em um estilo de cafeteria. O programa é mantido desde 1973. A primeira diretora era uma tal de Senhora Michael Ball.

Acima a Igreja Católica de Santo Antônio de Pádua em Elmendorf, Texas.

Eu me sentei lá por várias manhãs na primavera, fingindo tentar entender o jogo de trem mexicano e perguntando aos mais velhos sobre Joe Ball. Todos ali reconhecem o nome; alguns de fato lembram-se do homem. Lawrence Liedecke tinha 14 anos em 1938 e costumava invadir o quintal de Ball para ver os crocodilos. Ele disse que Ball era um excelente atirador e que conseguia meter uma bala na boca de uma garrafa de cerveja ou acertar uma moeda no ar. Mas ele era mau. “Nós tínhamos medo dele”, relembrou Pollie Meriam, que hoje tem 88 anos. “Ele ficava bravo e te mataria”. Os moradores já suspeitavam de Ball mesmo antes de sua morte, afirmou ela. “Ele era um rato imundo. Ele tinha alguns negros lá; ele os tratava tão mal”.

Os locais tem certo prazer silencioso em falar sobre o filho mais infame da cidade, mesmo que eles nem sempre conheçam direito os fatos. “Eles encontraram dois corpos em algum lugar na praia”, afirma Jesse Bayer, que vive na cidade próxima de Floresville. “Mas eles jamais encontraram nenhum outro corpo. Ele os deu de comer aos crocodilos, segundo eu soube. Eu não sei quantos”. Perguntei a Alex Saucedo, que também cresceu em Floresville, se ele achava que Ball havia atirado suas garçonetes para os seus crocodilos. “Ah, sim!”, ele respondeu alegremente. Alguém na mesa disse que era uma questão de todas as mulheres serem prostitutas, desaparecendo, se mudando como prostitutas fazem. Eu assenti, fingindo compreender. Finalmente, Liedecke é cético a respeito da contagem de corpos. “Um monte de mentirosos”, disse ele. “Eu acho que na verdade foram dois”. Mas ninguém sabe com certeza? Ele deu de ombros. “Ah, é”.

Eu fui até o cemitério, onde a maioria das lápides foram decoradas com flores coloridas. Achei que o túmulo de Joe Ball estaria em algum canto, escondido pelo abandono. Mas a lápide dele é a primeira que se vê ao atravessar o portão da igreja: “Joseph D. Ball, 7 de janeiro de 1896 – 24 de setembro de 1938”. Ele está ao lado de seu pai, Frank X. Ball. Os Ball jazem por todo o cemitério.

O túmulo do serial killer Joe Ball. Foto: pacweb.alamo.edu.

O túmulo do serial killer Joe Ball. Foto: pacweb.alamo.edu.

FRANK X. BALL CONSTRUIU ELMENDORF, que havia sido fundada em 1885 por Henry Elmendorf, que mais tarde se tornaria o prefeito de San Antonio. Eram os tempos do algodão e Ball pegou algum dinheiro emprestado e comprou uma descaroçadeira para processar a colheita. A ferrovia construiu um depósito na cidade e o algodão de Elmendorf, – bem como cerâmica, tijolos e telhas feitas numa fábrica local – eram exportados para o resto do mundo. Uma escola foi aberta em 1902. No fim dos anos 20 a cidade era próspera, com várias lojas, um hotel, um consultório médico, açougues, uma confecção e várias algodoeiras. “Meu pai dizia que havia vagões com algodão a três quilômetros da velha ferrovia”, relembrou Bucky, cujo pai, Richard, era irmão de Joe. “Elmendorf era uma cidade fervilhante na época”.

E Frank Ball estava rico. Ele começou a comprar e vender fazendas, especialmente quando elas ficaram baratas durante a Grande Depressão. Ele abriu uma loja, onde vendia de tudo, desde caixões a sapatos. Ele construiu a primeira casa de pedra na região e, ele e sua mulher, Elizabeth, tiveram oito filhos, muitos dos quais se tornaram importantes na comunidade. Frank Junior se tornou um administrador escolar em 1914. Raymond abriu uma nova loja, que também era uma agência postal; Jane, sua esposa, se tornou a chefe do posto.

O segundo filho deles, Joe, não era político. No entanto, era bom com armas. “Meu tio podia acertar um pássaro numa linha telefônica com um revólver do parachoque do seu Ford A”, afirmou Bucky. Ball se alistou no Exército em 1917 para lutar na Primeira Guerra Mundial. Em sua foto oficial no Exército ele parece pálido e inocente, como vários dos americanos que partiram para lutar pela democracia. Ball conheceu a ação na Europa e, de acordo com Bucky, recebeu uma dispensa honrosa em 1919, retornando a Elmendorf.

Joe pode não ter seguido os passos do pai, mas aprendeu algo com ele a respeito de negócios. Assim como as pessoas precisavam de descaroçadeiras para processar seu algodão, elas precisavam, bem, de gim. E de whisky e cerveja. Como a Lei Seca foi estabelecida nos anos 20, Ball se tornou um contrabandista. “Ele dirigia por toda a região”, disse Liedecke, “vendendo whisky para as pessoas num enorme barril de 50 galões”. Ball tinha aproximadamente 1,80m e 80 quilos, de acordo com Elton Cude, Jr., cujo pai, um policial do Condado de Bexar, ajudou a investigar Ball e mais tarde escreveu sobre ele num livro intitulado The Wild and Free Dukedom of Bexar (O Livre e Selvagem Ducado de Bexar, em tradução livre). “Ele não era nem um pouco bonito, como é descrito nessas revistas policiais”, afirmou Cude, Jr. “Ele podia ser perigoso”. Na metade dos anos 20, Ball começou a contratar, esporadicamente, um jovem negro chamado Clifton Wheeler para cuidar da casa e dos negócios. Wheeler era um faz-tudo, mas fazia a maior parte dos trabalhos manual e sujo de Ball. De acordo com várias pessoas, Wheeler vivia com medo de Ball. Liedecke afirma que Ball atirava nos pés de Wheeler para fazê-lo dançar jitterbug. Como seria de se esperar, o sobrinho de Ball tem uma imagem diferente de Joe, baseada nas histórias contadas por seu pai. “Ele sempre foi gentil”, disse-me Bucky, lembrando uma história sobre seu tio pagar para que um jovem casal mexicano-americano pudesse ir ao médico ter seu bebê. “Ele fazia coisas daquele tipo o tempo inteiro”.

Sobrinho do serial killer, Bucky Ball participou de um documentário caseiro sobre o seu tio. Foto: Serial Killers - Joe Ball (The Butcher Of Elmendorf) - Documentary.

Sobrinho do serial killer, Bucky Ball participou de um documentário caseiro sobre o seu tio. Foto: Serial Killers – Joe Ball (The Butcher Of Elmendorf) – Documentary.

Depois da Lei Seca, Ball abriu uma taberna. Nos fundos havia dois quartos e na frente havia um bar, um piano e uma sala com mesas, onde os homens bebiam e jogavam cartas. Às vezes Ball organizava rinhas de galo. Em algum momento, ele foi até algum dos pântanos próximos onde os crocodilos costumavam ser vistos, pegou alguns deles e os pôs numa piscina de concreto atrás da taberna. Ele esticou arame a uma altura de três metros em torno da piscina. Talvez ele gostasse dos crocodilos ou talvez ele apenas soubesse como atrair clientes. “Era de conhecimento geral que toda noite de sábado acontecia uma orgia louca”, escreveu Cude em seu livro. “Qualquer animal selvagem, possum, gato, cachorro, ou qualquer outro animal sem dono ajudava a tornar o show um pouco melhor. Fique bêbado, jogue um animal e assista os crocodilos”. Ball contratava mulheres dançarinas para atender às mesas. Era a Grande Depressão, tempos difíceis, e as mulheres vinham para Elmendorf em busca de emprego. Algumas ficavam, e algumas pareciam desaparecer.

Legenda original: Hazel Brown, 22 anos e funcionária do bar Sociable Inn em Elmendorf, Texas, foi a última vítima de Joe Ball. Seu tronco, braços, pernas e restos da cabeça foram encontrados em uma cova rasa, corroborando a história de Cliff Wheeler, empregado negro de Ball, que afirmou que o patrão assassinou pelo menos cinco jovens mulheres e alimentou seus jacarés com partes de seus corpos. Wheeler e outros, cujas identidades a polícia de San Antonio mantêm em segredo, trouxeram à luz a terrível história. Foto: © Bettmann/CORBIS.

Hazel Brown. Foto: © Bettmann/CORBIS.

OS OLHOS DE HAZEL BROWN OLHAM direto em seus olhos. Ela é pura confiança, perigosa beleza e se parece com uma daquelas famosas estrelas de Hollywood dos anos 40, como Elizabeth Short, a Dália Negra, cujo macabro assassinato em 1947 jamais foi solucionado. Talvez seja só a idade na foto ou a época em que foi tirada. É fácil ver por que Joe Ball se apaixonou por ela.

Antes dela, Ball havia se apaixonado por outras garçonetes. Em 1934 ou perto disso ele conheceu uma mulher de Seguin chamada Minnie Gotthardt, também conhecida como Big Minnie. Big Minnie era, de acordo com Cude, “uma pessoa mandona, desagradável e antipática”. Mas Ball gostava dela – ela cuidava do bar com Wheeler e ela e não tinha medo dos bêbados. Entretanto, em algum momento Ball começou a sair com a garçonete Dolores “Buddy” Goodwin, que era 15 anos mais nova. Ela se apaixonou por ele, mesmo depois de uma noite na primavera de 1937 em que ele atirou uma garrafa e a acertou no rosto, deixando uma cicatriz que ia de um olho até o pescoço. Mas naquela época, Brown, que era de McDade e conhecida como Schatzie, estava trabalhando na taverna de Ball. Ela também era jovem, apenas 22 anos, e popular entre os fregueses. Ela e Buddy se tornaram amigas. Big Minnie, entretanto, não gostava nem um pouco de Buddy e não tinha medo de demonstrar isso.

Naquele verão, Big Minnie desapareceu. Ball disse às pessoas que ela estava grávida em um hospital de Corpus Christi; Wheeler ouviu Ball contar a alguém que ela teria um bebê “crioulo”. Ela devia ter deixado a cidade com muita pressa, então, porque deixou todas as suas roupas para trás. Em setembro, Ball se casou com Buddy e lhe revelou seu segredo, que havia levado Minnie para a praia e a matado. Ela não lhes causaria mais problemas. Buddy contou a Schatzie sobre o destino de Minnie. Ela falou sobre isso várias vezes. Em janeiro de 1938 o braço esquerdo de Buddy foi decepado e boatos começaram a circular por Elmendorf de que os crocodilos malucos de Ball o teriam arrancado ou que Ball o havia cortado e os alimentado com ele (na verdade Buddy havia perdido o braço num acidente de carro). Em abril, Buddy desapareceu. Naquela época, Joe estava saindo com Schatzie. E então ela desapareceu também.

Em 23 de setembro de 1938, um velho mexicano-americano se aproximou do xerife John Gray, do Condado de Bexar, que caçava pombos em Elmendorf, e contou-lhe sobre um barril fétido e cercado de moscas que Joe Ball havia deixado ao lado do celeiro de sua irmã. O cheiro, disse ele, era como se houvesse algo morto dentro. Já haviam desaparecido tantas mulheres na vida de Ball que no dia seguinte Gray e o policial John Klevenhagen foram falar com ele. Klevenhagen, que mais tarde se tornaria um Texas Ranger, era um parceiro de caça de Ball; ele também era ótimo atirador. Eles foram até o celeiro, mas o barril fedorento tinha desaparecido. Eles dirigiram até o bar por volta do meio-dia e falaram com Ball, que negou saber qualquer coisa a respeito. Mas quando eles retornaram ao celeiro, sua irmã corroborou a história do velho. Aquilo era o bastante para os policiais, que disseram a Ball que o levariam para San Antonio para interrogá-lo. Ball perguntou se teria permissão para tomar uma cerveja e fechar o local. Os xerifes assentiram e o trio retornou ao bar. Ball pegou uma cerveja, tomou alguns goles, foi à caixa registradora, abriu-a e tirou de lá uma pistola .45. Ele a brandiu em direção de Gray e Klevenhagen, que gritou “Não!” e sacou o próprio revólver enquanto Ball apontou o seu para o coração. Ele puxou o gatilho e caiu morto no chão do bar.

QUATRO OUTROS POLICIAIS, incluindo Cude, desceram até a taberna. Eles verificaram os cinco crocodilos (um grande e quatro pequenos) no tanque, que estava cercado de carne podre. Eles encontraram um machado sujo de sangue e cabelos. Sua primeira teoria era óbvia: que o bêbado assustador havia matado e mutilado sua esposa e outras vítimas e as dado como comida aos crocodilos. Os policiais falaram sobre outros desaparecimentos, incluindo duas garçonetes e um garoto de 16 anos que frequentava o bar de Joe. Talvez as refeições frenéticas das noites de sábado fossem apenas uma distração para os assassinatos de domingo à noite. Talvez os velhos barris de contrabando agora contivessem comida de crocodilo.

Mas então Wheeler, que havia sido levado pelos policiais a San Antonio, deu com a língua nos dentes. Schatzie havia se apaixonado por outra pessoa, afirmou ele, um dos clientes do bar, um cara com um lar e um bom emprego. Ela queria ir embora, mas Ball não queria saber disso. Quando ela ameaçou contar à polícia sobre Big Minnie, ele a matou. E agora o faz-tudo sabia exatamente onde Schatzie estava. Ele levou os policiais de volta a Elmendorf, a aproximadamente cinco quilômetros da cidade, numa encosta que ficava a uns 90 metros do Rio San Antonio. À luz de uma fogueira, ele começou a cavar. Sangue surgiu no meio da sujeira, e o cheiro se tornou insuportável. Wheeler puxou dois braços e duas pernas, e finalmente um tronco. A visão e o cheiro eram tão ruins, contou Cude, “que os curiosos correram em todas as direções e começaram a arfar e vomitar”. Wheeler foi indagado onde estava a cabeça, e apontou para os restos de outra fogueira. Após peneirarem cuidadosamente, os policiais encontraram uma mandíbula, alguns dentes e, finalmente, alguns pedaços do crânio que havia ostentado a bela face de olhos castanhos.

Wheeler contou como, após uma noite de intensa bebedeira, Ball lhe havia pedido para abastecer o carro com lençóis e cerveja; Joe tinha uma serra, um machado e uma escavadeira com ele, bem como sua pistola. Eles foram ao celeiro da irmã dele, parando pelo caminho para beber e então recolheram o fétido barril metálico de 200 litros, que levaram até o rio. Ball forçou Wheeler, sob a mira da arma, a cavar uma cova, e eles abriram o barril. Nele estava o corpo de Brown. Wheeler se recusou a auxiliar Ball a desmembrar o corpo, então ele tentou fazê-lo sozinho. Mas ele ficou tão furioso quando uma das mãos dela ficou no caminho enquanto ele tentava decapitá-la que Wheeler se aproximou e segurou a mão de Brown, e então ajudou mais, segurando os braços e as pernas dela enquanto seu chefe serrava. Ambos ficaram enjoados, então beberam mais algumas cervejas e enterraram o corpo, apesar de terem jogado a cabeça dela, junto com suas roupas, numa fogueira. Quando amanheceu, eles se sentaram, beberam e então dirigiram de volta ao bar.

Wheeler também solucionou o mistério de Big Minnie. Em junho, Ball disse a Wheeler para carregar o Ford A e se certificar que havia bastante whisky e cerveja. Então ele levou Minnie e Wheeler para Ingleside, perto de Corpus Christi. Ball encontrou uma área afastada e, após nadar um pouco e beber bastante, pediu à condenada Minnie para tirar as roupas. Wheeler se afastou, mas quando Ball pediu mais whisky, Wheeler notou que seu chefe estava com sua arma. Ball apontou de longe e, quando Minnie se virou para olhar, ele a acertou na têmpora. Wheeler estava chocado, mas Ball lhe disse que não tinha escolha – ela estava grávida e ele estava saindo com Buddy. Os dois a enterraram na areia e dirigiram de volta para Elmendorf.

Os oficiais interrogaram Wheeler a respeito de outras mulheres e descobriram um pacote de cartas, bem como um álbum com fotos de dezenas de mulheres. Aquilo, afirmou o xerife J. W. Davis, “pode levar à descoberta de uma ou duas dúzias de outros assassinatos”. Os jornais de San Antonio escreveram sobre o desaparecimento de mais de dez garçonetes, incluindo “Stella”, que havia tido uma briga com Ball por causa de Big Minnie. Os xerifes também tinham uma teoria que Ball estava traficando narcóticos e que teria sido um “trabalho simples” colocar a droga em barris e armazená-la no tanque dos crocodilos. Eles drenaram o tanque, mas não encontraram nenhuma droga.

Três dias após o suicídio de Ball, a polícia começou a cavar a areia a seis quilômetros a sudoeste de Ingleside. Eles levaram maquinário pesado e contrataram trabalhadores locais. Pessoas sem nada melhor para fazer – às vezes centenas delas – vieram assistir. Um comerciante local montou uma barraca e começou a vender refrigerantes. A multidão se apinhava. “A excitação e os rumores eram enormes”, noticiou o The San Antonio Light. Outras dunas pareciam suspeitas como cemitérios em potencial e formas misteriosas eram vistas perambulando pela noite. Finamente, em 14 de outubro, eles encontraram os restos mortais de Big Minnie, bem preservados na areia fria e profunda.

Enquanto isso, a polícia havia localizado Buddy em San Diego, para onde ela havia fugido de seu marido e ido morar com a irmã. Duas semanas depois, Klevenhagen e Gray a levaram a San Antonio. No caminho, eles pararam em Phoenix e encontraram uma das mulheres listadas como “desaparecidas” da taberna. Buddy mais tarde afirmou que Wheeler havia lhe dito que em seu último dia na terra, Schatzie, que não sabia que Buddy estava em San Diego, havia acusado Ball de tê-la matado, justamente como havia matado Big Minnie. Schatzie atormentou Ball até que ele se enfureceu. “Depois de um tempo”, disse Buddy, “Joe a golpeou com sua pistola e eu acredito que ele a matou”. Ele atirou nela também, só para garantir.

NO FIM DAS CONTAS, OS CROCODILOS foram para o zoológico de San Antonio e Wheeler pegou dois anos de cadeia como cúmplice. Ele saiu e abriu seu próprio bar na cidade, mas logo foi embora e nunca mais se ouviu falar dele. E a lenda de Joe Ball começou. A imprensa escrita tinha muito a ver com aquilo. A True Detective, a bíblia mensal dos crimes reais, achou sua história irresistível e não largou dela, frequentemente voltando ao conto sensacional do garanhão assassino, dezenas de moças desventuradas, crianças abortadas, mutilação, gatinhos e cães, e claro, crocodilos famintos por carne humana. Crocodilos famintos vendiam revistas, exatamente como Ball os havia usado para vender cerveja, mas os fatos nas matérias às vezes vinham da imaginação do escritor. Elton Cude Jr. afirmou, “Meu pai ligou para eles uma vez e perguntou ‘onde vocês conseguem essas histórias?’ De acordo com uma delas, meu pai era o mais rude, o policial mais durão e violento na história do Condado de Bexar. Bem, ele não era assim, apesar de realmente jogar alguns bêbados para fora de um bar ocasionalmente”. Bucky me contou sobre sua tia Madeline, irmã de Joe, que processou a True Detective várias vezes por suas versões imaginárias do tio Joe. “Eu não sei se ela sequer recebeu algo”, disse ele. “Ela não precisava do dinheiro”.

Outras revistas se aproveitaram da história distorcida e o mesmo fizeram livros como The Encyclopedia of Serial Killers (A Enciclopédia dos Serial Killers, em tradução livre) e America’s Most Vicious Criminals (Os Criminosos Mais Perversos da América, em tradução livre). Por fim, a história chegou aos sites, onde qualquer um pode escrever uma história. Então a fama continuou crescendo e os erros se repetindo: como Ball atirou na própria cabeça, como seu faz-tudo era chamado Wilfred Sneed, como Sneed disse ter esquartejado 20 mulheres, como pedaços de carne humana foram encontrados no tanque. Em suma, é difícil dizer em quem se pode confiar. Por exemplo, de acordo com um artigo de 1938 na chamada The Sheriff’s Association Magazine, o misterioso pacote de cartas encontrado pela polícia continha uma de Big Minnie dizendo a Ball que “Eu ainda quero acabar com você e Buddy, mesmo que seja a última coisa que eu faça… o tio Henry e eu vamos te mandar para a cadeia, assim que ele chegar aqui. Eu vou contar tudo que eu sei”. Sobre o quê? Corpos? Crocodilos?

Há várias outras histórias também, incluindo a frequentemente contada de um velho homem que, em 1932, havia flagrado Ball atirando o corpo de uma mulher no tanque. De acordo com a lenda local, Ball ameaçou o homem, que deixou a cidade; ele fugiu para a Califórnia e regressou apenas após a morte de Ball. Outros alegam ter visto Ball atirando pedaços de carne humana no tanque. Finalmente, é claro, é impossível provar que ele não o fez. Mesmo que a maioria das mulheres tenha sida encontrada (frequentemente em San Antonio), algumas jamais foram. E ainda que nenhum vestígio humano tenha disso encontrado no tanque dos crocodilos, isso não significa que Ball não possa tê-lo limpado. E mesmo que Wheeler, a única testemunha ocular dos crimes de Ball, jamais tenha mencionado nada a respeito dos crocodilos, isso não significa que ele não sabia como se manter de boca fechada quando necessário. Com Ball, era fácil acreditar no pior. Ainda é. Peguem um cara violento, um bêbado sádico conhecido por jogar animais aos seus crocodilos, uma esposa desaparecida com um braço só, uma namorada esquartejada e outra enterrada na areia, quem sabe mais quantas mulheres indo e vindo – é só fazer as contas. Seis, dez, 12, duas dúzias de garçonetes despedaçadas. Comida de crocodilo.

Buddy tentou consertar as coisas em uma entrevista em 1957. “Joe nunca pôs pessoas no tanque dos crocodilos”, afirmou. “Joe não faria algo assim. Ele não era um monstro horrível… Joe era um homem bom, gentil e doce, e ele jamais machucaria alguém a não ser que fosse obrigado a isso”. Referindo-se à cicatriz no próprio rosto, ela disse “Ele nem sequer pretendia me cortar. Ele estava jogando a garrafa num outro cara”. Houve só dois assassinatos, afirmou ela. Elton Cude, Jr. concorda, assim como seu pai, que em uma entrevista em 1988 afirmou “eu não acho que aqueles crocodilos comeram qualquer parte humana”.

Bucky, claro, concorda também. Ao contrário do que se espera, ele tem um senso de humor sobre a história que ensombreceu o nome de sua família. Na verdade, ele não teve escolha. Quando Bucky estava treinando com os Greem Beretes em 1959, na Carolina do Norte, a mãe de um amigo, que morou em Nova Jérsei e conhecia seu sobrenome, enviou ao filho uma revista com a horrível história de Joe Ball e os crocodilos. Bucky, que aos 70 anos usa um corte pompadour e parece um velho rockabilly, gargalha ao se recordar do choque deles quando disse “ele era meu tio”. Em abril, Bucky e sua esposa, que praticam hipismo nas horas vagas, estavam em Giddings. “Este amigo meu me encontrou e disse ‘ei, Ball, você trouxe seu crocodilo com você?'”. Na verdade, os crocodilos não são tão comuns nessa região do sul do Texas, afirma Bucky, que se lembra de ver um deles empalhado no tribunal de Floresville quando era criança. “Eles ficam no Rio San Antonio”, ele me diz. “Eu vi quatro no Braunig Lake recentemente. Eles gostam daquela água parada”. Bucky diz que seu tio provavelmente pegou os seus em Graytown, a cinco quilômetros de Elmendorf, nos pântanos, aonde eles vão para pôr ovos.

Bucky guarda a foto do seu tio na Primeira Guerra Mundial e uma bandeira de 48 estrelas entregues à família após a morte dele. Ele as mantém numa caixa de vidro em sua sala de estar. O veterano de 24 anos faz acompanhamento no Brook Army Medical Center em Fort Sam Houston e acredita que a experiência do tio na guerra teve a ver com suas ações posteriores. “Meu pai me disse que depois que meu tio voltou da guerra, ele estava diferente. Eu acho que o que você vê ou faz, retorna para você. Meu psicólogo me diz que o cérebro é como uma fita, e estas coisas estão no seu cérebro. Nunca vão embora”.

Não havia muito acompanhamento militar durante a Grande Depressão e Joe Ball provavelmente não teria aceitado isso, de qualquer forma. Ele não parecia ser o tipo de cara que fala sobre seus sentimentos. Ou talvez seja apenas o mito falando.

Nota do Aprendiz: Leia também o post:

Esta matéria teve colaboração de:

Marcus Santana
Tradução

Marina Ferezim
Revisão

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“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” (Platão)

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