Crimes Históricos: Os Bórgias, família criminosa

Uma estranha e desconcertante família, os Borgias - 11 cardeais da Igreja Católica romana; três Papas; uma rainha da Inglaterra; um santo - eram uma família com longos tentáculos, começando no século 14 na Espanha e alcançando nos séculos 15 e 16 a Itália, Espanha, e França. Ganância, assassinato, incesto. E - estranhamente - piedade.
Familia Borgia
Borgias - Família Criminosa

Borgias – Família Criminosa

Os guardas papais forçam os esfarrapados prisioneiros para dentro da Praça de São Pedro. Eles foram algemados nos pulsos e reunidos em um grupo próximo ao centro geográfico da praça. Os guardas formaram uma falange na entrada da praça, prevenindo a fuga. Os prisioneiros olham para dentro das janelas do Vaticano onde, no parapeito de uma das janelas maiores, o Papa Alexandre, com 70 anos, anteriormente Rodrigo Borgia, surgia com sua filha Lucrécia Borgia, de 20 anos de idade. Ambos sorriam. A algumas janelas de distância, completamente vestido em veludo preto, estava o filho de Alexandre, César Borgia. Ao lado dele estava um servo, também vestido de preto.

Estavam todos prestes a ouvir palavras de misericórdia? Alguma dispensa generosa para seus crimes, que vão do mais sério ao mais trivial? Talvez eles tivessem esperança.

De repente, um dos prisioneiros cai, com um tiro disparado por César. Os prisioneiros corriam através da praça, conscientes que alguém em uma das janelas estava atirando em direção a eles. A cada tiro, o servo alcançava a César um novo rifle, completamente preparado, e ele atirava novamente. Cada tiro era seguido por um novo rifle, e outro tiro. Em uma questão de minutos, todos os prisioneiros estavam mortos.

Alexandre acenou para seu filho. “Ótima mira, meu filho”, disse o Papa. César sorriu e acenou de volta, e ele e seu servo deixaram a janela e adentraram no Vaticano. Quatro homens, puxando um carrinho, começaram a remover os corpos, enfiando-os em sacos de grãos. A colheita de César foi levada, então, para ser atirada no Rio Tibre.

Os detalhes desta cena foram imaginados, mas os fatos básicos do evento são verdadeiros. Johannes Burchard, o mestre de cerimônias papal, servo leal ao seu mestre, Alexandre VI, registrou esta cena em seu diário.

Religiosos e Assassinos


.

Uma estranha e desconcertante família, os Borgias – 11 cardeais da Igreja Católica romana; três Papas; uma rainha da Inglaterra; um santo – eram uma família com longos tentáculos, começando no século 14 na Espanha e alcançando nos séculos 15 e 16 a Itália, Espanha, e França. Ganância, assassinato, incesto. E – estranhamente – piedade.

Tamanho é o legado da família Borgia, que se estabeleceram em um dos períodos mais gloriosos da Itália, e isso, de várias maneiras, dominou a renascença com poder e intriga por 50 anos.

Desta notória família, quatro membros em particular são lembrados como notáveis exemplos de ganância e maldade. Dois eram Papas: Calixto III (Alonso Borgia) e Alexandre VI (Rodrigo Borgia). Outro, César Borgia, foi por um tempo um cardeal, promovido a esta posição por seu conhecido pai, Alexandre VI, e mais tarde, após deixar as ordens sagradas, um duque impiedoso e assassino. O quarto membro se tornou uma metáfora para a maldade feminina: Lucrécia Borgia, irmã de César.

Enquanto outros membros da família fazem aparições importantes neste drama sobre poder, estes quatro formam o núcleo pelo qual a família é lembrada. Eles são bonitos, charmosos e amorais. Como chefes da Máfia, eles inspiram admiração e lealdade. Mas, acima de tudo, eles inspiram medo:

“Eu conheci César ontem na casa de Trastevere: Ele estava se preparando para uma caçada, vestido completamente normal: isto é, em seda – e armado. Ele usava uma pequena tonsura * [pequena parte do topo da cabeça de um monge ou sacerdote onde é raspado o cabelo em um círculo] como um simples padre. Eu conversei com ele um pouco, enquanto caminhávamos – Tenho intimidade com ele. Ele possui um gênio forte e uma personalidade charmosa, comportando-se como um grande príncipe. Ele é especialmente animado e feliz, e apaixonado pela sociedade. Ele nunca possuiu o dom para o sacerdócio, mas o benefício disso é que o traz mais de 16,000 ducados anualmente.”

[Andrea Boccaccio, descrevendo César Borgia quando ainda era um padre, logo antes de ser promovido a cardeal]

Ao contrario do louco Calígula, que matou por insano prazer, ou Nero e seus predecessores, que matavam por poder político, os Borgias matavam não somente por prazer ou ganho politico, mas por riqueza pessoal. Eles foram, de fato, a primeira família criminosa, uma família única nos arquivos do crime. Eles não foram unidos por um ritual de sangue, mas pelos genes.

Papas Borgias


.

Quem foram eles? De onde vieram e como ascenderam ao poder?

Eles iniciaram sua dinastia na Espanha nos últimos anos do século 14, uma família conhecida como Borya.

Dois primos espanhóis, Domingo de Borya e Rodrigo de Borya, produziram filhos que iriam unir a linha no que se tornaria mais tarde os Borgias italianos. A filha de Domingo, Isabella, casou-se com o filho de Rodrigo, Jofre.

A história começa com o irmão de Isabella, Alfonso de Borya, Papa Calixto III. A história de ganância da família e busca de poder político tem inicio com ele. Para entender a família Borgia e como os de Boryas ficaram conhecidos na Itália, temos que conhecer os patriarcas, os homens que deram inicio à família que excedeu os excessos de outras da mesma época, como os Medicis, os Orsinis, os Sforzas, e os dela Roveres.

Os Borgias iniciam sua colorida história com nepotismo e conquista de riquezas, e avança para a mais complicada ordem de assassinatos.

Calixto Borgia - Familia Criminosa

O primeiro Papa espanhol, Calixto III, tinha 77 anos quando assumiu o trono de São Pedro, em 1455, um candidato comprometido com as diferentes facções existentes. Velho, acometido pela gota, ele parecia uma escolha segura e temporária. Governou por somente três anos, mas neste curto período de tempo, foi capaz de promover dois dos seus sobrinhos a Cardeais. Um destes, Rodrigo, filho da sua irmã, tornou-se o segundo e último dos Papas espanhóis, o infame Alexandre VI.

Calixto, nascido Alfonso de Borya, havia sido o Cardeal-sacerdote em Valencia, quando, em 1429, o Papa Martin V o promoveu a Bispo de Valencia. O Cardeal Alfonso persuadiu o Antipapa francês, Clemente VIII, a submeter-se à autoridade de Martin, e foi devidamente recompensado pelos seus serviços por ajudar a por um fim ao Grande Cisma da Igreja Católica, onde dois Papas, um na França e um em Roma, governavam a Igreja.

Como Papa, Calixto imediatamente organizou uma Cruzada para libertar Constantinopla dos turcos. Para pagar por isso, ele vendeu artefatos em ouro e prata e livros valiosos, ofereceu favores por um preço – cardinalatos, anulações, subvenções de territórios papais – e impôs taxas e impostos. Obteve alguns sucessos em sua Cruzada, apesar de a maioria dos governantes cristãos europeus serem indiferentes à causa, recusando-se a participar. Os Reis da Europa apoiaram a cruzada em princípios, mas não com as forças necessárias.

Mas os métodos desastrados de Calixto de arrecadar dinheiro, seu arrogante nepotismo e seus pronunciamentos duros contra os judeus criaram uma oposição na França e em sua própria terra natal, a Espanha. Quando ele morreu, os italianos se rebelaram contra os generais e administradores espanhóis de Calixto e eles fugiram de Roma aterrorizados. Os espanhóis – chamados catalães – foram ultrajados. Somente o sobrinho mais esperto, o Cardeal Rodrigo Borgia, evitou a ira da multidão.

Além de criar um futuro Papa na forma de seu sobrinho Rodrigo – separado do pontífice de Calixto por quatro Papas e 34 anos – Calixto é também lembrado por anular a sentença de Joana D’Arc, absolvendo sua heresia, uma concessão politica controversa acerca da Donzela de Orleans.

Concidentemente, ele morreu na Festa de Transfiguração (6 de Agosto), uma celebração que ele havia criado depois de derrotar os turcos fora de Belgrado. É um dia santo ainda lembrado na Igreja Católica Romana moderna e na comunidade Anglicana. Ele está enterrado na Igreja Espanhola de Roma.

Calixto provavelmente não foi um assassino, mas era politicamente impiedoso, ganancioso e, em mais de uma maneira, decidiu o que viria em seguida pelos descendentes Borgia.

Alexandre Borgia - Familia Criminosa

Alexandre foi o Papa mais notório da história. Ele conduziu um pontificado de nepotismo, ganância, crueldade, assassinato e, como McBrien descreveu, “desenfreada sensualidade”. Ele tornou-se a figura principal na saga da família Borgia como perpetuador do mal e facilitador de crueldades de ambos os seus filhos, César e Lucrécia.

O segundo e último Papa espanhol literalmente comprou seu pontificado com subornos. Tal eleição foi chamada “simoníaca” por esta razão e foi facilmente realizada com a ganância de 17 dos 22 Cardeais na votação para o novo Papa.

Ele nasceu com o nome de Rodrigo Borgia (Roderic Llançol i de Borja), perto de Valencia, Espanha, sobrinho de Calixto, que fez dele cardeal aos 25 anos em 1456 e vice-chanceler da Santa Sé em 1457. Como vice-chanceler de grande riqueza, viveu uma vida abertamente promíscua, e concebeu sete filhos, como Cardeal e como Papa. Pius II, que havia sucedido Calixto e continuou a apoiar a ascensão na hierarquia da Igreja pela família Borgia, teve que alertar o jovem Cardeal a reprimir sua participação em orgias. Isto seria, como Pius expressou, “impróprio”.

Papa Alexander VI retratado em Fresco of the Resurrection, pintado entre 1492 e 1495 pelo pintor italiano Pinturicchio.

Papa Alexander VI retratado em Fresco of the Resurrection, pintado entre 1492 e 1495 pelo italiano Pinturicchio.

Como um jovem rapaz, Rodrigo foi descrito como alto e bonito. Sigismondo de Conti o descreve como grande, robusto e com um olhar afiado, grande amabilidade, e “grande habilidade em matéria de dinheiro”. Outros admiravam sua figura alta, tez corada, olhos negros e boca cheia. Entretanto, com seus 60 anos, quando se tornou Papa, aparentemente perdeu seu charme físico. Temos poucos retratos que podem ser identificados como sendo verdadeiramente dele; um deles retrata um papa careca, robusto, de joelhos, em frente à tumba de Jesus Ressuscitado.

Enquanto Cardeal, tomou como sua amante Vannozza de Catanei, que lhe deu quatro crianças, incluindo César (nascido em 1475) e Lucrécia (nascida em 1480).  Quando se tornou Papa em 1492, abandonou Vannozza e tomou como amante a jovem Giulia Farnese, a qual foi mãe de provavelmente mais duas ou três crianças de Alexandre. E, antes de Vannozza, Rodrigo concebeu pelo menos mais duas ou três crianças com uma ou duas mulheres cujos nomes perderam-se na história.

Quando o Papa Inocêncio VIII morreu, seguiu-se uma luta política pelo papado. A barganha era feroz e quando os votos foram finalmente contados, Rodrigo Borgia, através da compra de um cardeal nos seus 96 anos e que já não possuía todas as suas faculdades perfeitas, foi eleito. Um dos seis cardeais que não puderam ser comprados foi Giuliano dela Rovere, que iria permanecer como inimigo da família Borgia e, eventualmente, sucederia Alexandre VI como o Papa Júlio II, o “Papa Guerreiro”, benfeitor notável de Michelangelo.

Durante a elaborada cerimônia que consagrou Rodrigo como Papa Alexandre VI, ele teve que ser “verificado” como homem, uma vez que houve no século 13 o escandaloso mito do “Papa Joana”, um Papa João que acreditava-se ter sido uma mulher. Por isso, papas recentemente eleitos teriam que se submeter a um exame sentando em um banquinho com uma abertura. O fato de que Rodrigo, pai prolífico, poderia estar disfarçando seu sexo foi um adendo divertido da sua ascensão do banco de exames genitais para o grande Trono de São Pedro.

Mas Rodrigo, agora Alexandre VI, aprendeu algo com seu predecessor, Inocêncio VIII, que foi o primeiro Papa a reconhecer abertamente seus filhos ilegítimos, enchendo-os de riquezas e títulos. Alexandre tomou proveito do precedente.

Após um forte início como Papa, reformando a Cúria e proibindo a simonia – que foi, obviamente, o meio que usou para chegar ao papado – Alexandre concentrou seus esforços nos seus interesses primários. Estes eram, como Inocêncio VIII, a aquisição de ouro, mulheres e os interesses da sua família. Entretanto, Alexandre fez seu predecessor parecer um mero amador. Nomeou seu filho César, com somente 18 anos, Cardeal, juntamente com o irmão mais novo da sua atual amante, o ainda mais jovem Alessandro Farnese. Arranjou três casamentos para sua filha Lucrécia, habilmente anulando o primeiro e, através dos esforços de César, convenientemente fazendo dela viúva do segundo. Lucrécia era frequentemente deixada no poder do papado – em efeito, como regente – quando Alexandre estava fora de Roma.

Alexandre forjou alianças através dos casamentos de seus filhos. Por exemplo, uniu seu poder ao da facção Milanesa, unindo as famílias Borgia e Sforza, através do casamento de Lucrécia e Giovani Sforza, o filho bastardo de Constanzo Sforza, primo do poderoso Cardeal Ascanio Sforza. Solidificou sua posição com o reinado de Aragão e Nápoles casando Jofre, seu filho mais novo, à Sancia de Aragão, que mais tarde trairia seu esposo e cometeria adultério com César e Giovani, irmãos mais velhos de Jofre.

Em 1493, Alexandre tentou traçar uma linha entre as esferas de influência portuguesas e espanholas no Novo Mundo, mas mesmo este vasto ato politico teve que ser modificado em 1494, uma vez que, na sua forma original, o decreto favorecia sua terra natal Espanha. Ele também é lembrado pela tortura e execução em 1498 de um famoso pregador florentino que teve o descaramento de denunciar a corrupção papal e pedir sua renúncia.

“Savonarola fez muitos inimigos poderosos. Entre eles estava o papa Borgia, Alexandre VI que tinha boas razões para se sentir desconfortável com as denúncias de laxismo e luxúria da Igreja e seus líderes. No Domingo de Ramos de 1498, Savonarola foi atacado por uma multidão em gritos e preso por autoridades florentinas juntamente com dois frades que estavam entre os seus seguidores mais fervorosos, Frade Dominicio e Frade Salvestro. Todos os três foram cruelmente torturados antes de serem condenados como hereges e entregues ao braço secular por dois comissários papais, que vieram de Roma. ‘Nós teremos uma boa fogueira’, o comissário senior comentou em sua chegada, ‘pois tenho a sentença de condenação comigo’.

Na manhã de 23 de Maio uma multidão de florentinos se reuniram na Praça della Signoria, onde um andaime havia sido erguido em uma plataforma. A partir do feixe pesado pendia três cabrestos, para pendurar os frades, e três cadeiras, para apoiar seus corpos enquanto eles queimassem até as cinzas. Madeira para a queima foi amontoada em baixo. Alguns na multidão gritaram palavras abusivas para Savonarola e seus dois companheiros, que foram destituídos de suas vestimentas deixados apenas com túnicas, pés descalços e mãos amarradas, antes de terem seus rostos raspados, como era costume. Diz-se que um padre se aproximou de Savonarola e perguntou-lhe sobre o que sentia sobre o martírio: ‘O Senhor sofreu tanto por mim’, e estas foram suas últimas palavras.”

[Execution of Florentine friar Savonarola. History Today]

Uma das praças mais bonitas e conhecidas de Florença, Piazza della Signoria foi o lugar onde o frei Girolamo Savonarola e dois de seus seguidores foram mortos pela Igreja Católica a mando do Papa Alexandre VI. Na imagem é possível ver a placa em homenagem aos mortos, colocada no local onde foram mortos.

Uma das praças mais bonitas e conhecidas de Florença, Piazza della Signoria foi o lugar onde o frei Girolamo Savonarola e dois de seus seguidores foram mortos pela Igreja Católica a mando do Papa Alexandre VI. Na imagem é possível ver a placa em homenagem aos mortos, colocada no local onde foram queimados a mais de 500 anos.

Em 1500, o comportamento de Alexandre – com a dominante influência de César – tornou-se ainda mais ultrajante. Libertinagem e assassinato eram ordens do dia para ambos, pai e filho.

Rapidamente, após o aniversário de 11 anos de sua ascensão ao papado, em agosto de 1503, Alexandre adoeceu, assim como César. Sobre esta coincidência cresceu um rumor em Roma que algumas autoridades, assim como McBrien, acreditam ser verdade. Alexandre e César jantaram com o Cardeal Adrian Corneto. Acreditou-se por muito tempo que os Borgias pretendiam fazer de Corneto sua próxima vitima. De fato, Corneto pensou ter sido envenenado, mas salvou-se ao trocar o copo dele pelo de César. Sem suspeitas ambos, Alexandre e César, beberam livremente do copo trocado. Em poucos dias César recuperou-se, mas seu pai persistiu doente por mais alguns dias e morreu aos 77 anos.

Burchard, o servo leal, reportou que homens de César forçaram a entrada no Vaticano e serviram-se de todo tesouro e riquezas que puderam carregar. Este vandalismo ocorreu enquanto o Papa estava ainda agarrado ao que restava de sua vida. Assim que Alexandre morreu, seus servos saquearam seu quarto. Depois que Burchard preparou o corpo, guardas do palácio afugentaram os padres que estavam guardando os restos mortais do Papa de possíveis profanações da enfurecida (e consideravelmente feliz) população romana. Burchard moveu o corpo para uma pequena capela, onde permaneceu não vigiado, vagarosamente apodrecendo no úmido clima de agosto de Roma.

Quando Burchard retornou com os servos para preparar o corpo para o enterro, encontrou Alexandre inchado e sem cor, o corpo tão grande que não caberia no caixão. Os servos retiraram a mitra papal e literalmente o forçaram para dentro do caixão.

“Assim morreu o Papa Alexandre, no auge da glória e prosperidade… Havia nele, em total quantidade, todos os vícios ambos de carne e espirito… Não havia nele religião, nenhuma palavra cumprida. Ele prometeu todas as coisas generosamente, mas limitou-se a não fazer nada que não trouxesse benefícios próprios. Não tinha nenhum compromisso com a justiça, uma vez que fez de Roma um covil de ladrões e assassinos. Apesar disso, seus crimes não encontraram nenhuma punição neste mundo, ele esteve até o fim dos seus dias em prosperidade. Em poucas palavras, ele foi mais perverso e sortudo, talvez, do que qualquer outro Papa por muitos anos antes dele.”

[Francisco Guicciardini – como reportado em Chamberlain]

O poder que Alexandre possuiu pode ser contemplado ao vermos o total colapso do império de César perante a morte de seu pai. Julius II, sucessor de Alexandre, havia sido um dos poucos Cardeais que Alexandre foi incapaz de comprar em 1492 e ele era, claramente, nenhum tipo de amigo para os Borgias.

Mas perto da crueldade de César, Alexandre parecia relativamente compassivo.

Cesar Borgia - Familia Criminosa

Se alguns dos Borgias ainda são lembrados hoje, são os dois filhos de Alexandre VI; que são conhecidos até pela crueldade que seus nomes remetem: César, assassino e aventureiro, e Lucrécia, suposta envenenadora. Ambas as descrições dizem muito e pouco ao mesmo tempo.

Uma ideia do poder, charme e crueldade de César Borgia pode ser vista em seu retrato, provavelmente pintado em 1500, por Gianfrancesco Bembo.

O retrato é de um rapaz bonito, sem sorriso, com olhos escuros e ameaçadores fixados longe. Pode-se contemplar a validade do comentário de Baluze (um observador contemporâneo):

“O Papa ama seu filho – e tem um grande medo dele”.

Retrato de Cesar Borgia.

Retrato de Cesar Borgia.

César era o filho mais velho de Alexandre e Vannozza de Catanei, nascido durante o auge da posse de Alexandre como Cardeal Rodrigo Borgia.

Deste modo, César foi o primeiro filho da segunda família iniciada por Rodrigo. Os primeiros filhos ilegítimos são de uma ou mais mulheres desconhecidas, e começaram com Pedro Luis (1462-1488), o primeiro Duque de Gandia, promovido a este cargo devido às maquinações de seu pai.

Em 1480, o Papa Sixtus IV procurou um especulador para provar que César era um filho legítimo, permitindo a ele receber os “benefícios”, renda que viria dos vários trabalhos os quais ele deveria desempenhar. Com sete anos, foi dado a César o título de prebendário da Catedral de Valencia, pouco tempo depois protonotário apostólico ou dignitário da chancelaria papal. Ambos os trabalhos traziam benefícios, assim como pagamentos regulares. Com nove anos, César era também reitor de Gandia, Albar e Jativa e, finalmente, tesoureiro de Cartagena. Estes compromissos, obviamente, foram garantidos através da influência de seu pai, Rodrigo, e eram propriedades eclesiásticas em Valencia, garantindo assim que elas permanecessem no controle da Família Borgia.

César tinha um irmão mais novo, o segundo filho de Vannozza, Giovanni, e quando seu meio-irmão, Pedro Luis, Primeiro Duque de Gandia morreu, Rodrigo fez de Giovanni o Segundo Duque de Gandia. Desta maneira, Rodrigo decidiu que César teria uma carreira eclesiástica, fortalecendo a influência Borgia na Igreja. Giovanni, o irmão mais novo, pode ter sido, como veremos, uma das primeiras vítimas de César.

De acordo com a descrição de Cloulas, a educação de César foi cuidadosamente planejada por Rodrigo. Ele cresceu em Roma até seus 12 anos, educado por tutores. Em seguida ele foi enviado para Perugia, aos cuidados de um tutor Valentino que mais tarde se tornaria Cardeal, uma recompensa por seus trabalhos como tutor. César estudou Direito e Ciências Humanas na Universidade e foi para a Universidade de Pisa estudar Teologia. Ao fim dos seus estudos, seu pai, agora Papa Alexandre VI, o fez Cardeal.

Em 1493, depois de comparecer a um jantar em família com sua mãe Vannozza e seu irmão mais velho César, Giovanni, o Segundo Duque de Gandia, desapareceu. Ele havia cavalgado noite adentro com seu irmão, amigos e servos, despediu-se deles, e cavalgou em direção ao palácio papal acompanhado de um criado e um homem desconhecido, em uma máscara festiva. Ele nunca mais foi visto. Na tarde seguinte, quando estavam procurando por Giovanni, os investigadores encontraram uma testemunha que havia visto dois homens jogarem um corpo no Tibre. O rio foi drenado, e após uma longa noite de trabalhos, o corpo foi encontrado ao meio-dia seguinte. Ele estava usando seus ornamentos, ainda possuía sua pulseira de trinta ducados, mas sua garganta havia sido cortada e seu corpo mutilado.

“O cadáver foi jogado no rio no ponto além da fonte onde o lixo das ruas normalmente é despejado na água, perto ou ao lado do Hospital de São Jerônimo dos Eslavos, na estrada que vai da Ponte do Anjo direto para a Igreja de Santa Maria de Popolo. O criado foi ferido seriamente. Ele milagrosamente foi levado até a casa de alguém desconhecido por mim e cuidado. Como estava inconsciente, ele não podia dizer nada sobre o caminho de seu mestre. “

[Johann Burchard. Liber Notarum, página 89]

Ao ouvir sobre a morte de seu filho, Alexandre enlouqueceu de tristeza, declarou que resolveu “alterar nossa vida e reformar a Igreja. Nós renunciamos a qualquer nepotismo. Nós iniciaremos a reforma com nós mesmos e seguiremos com todos os níveis da Igreja até que todo trabalho esteja completo.” A sinceridade temporária de Alexandre não durou, e rapidamente ele voltou à vida antiga, ignorando suas promessas. Ele foi, assim como o clero, tão bem preparado para a reforma anunciada, que tudo voltou ao normal com programas políticos e ligados ao prazer.

O assassino nunca foi descoberto, mas aproximadamente um ano depois da morte de Giovanni, quando César abandonou as vestes de Cardeal, espalhou-se o rumor que ele havia matado o irmão. Os motivos foram, supostamente, a inveja de César para com os poderes seculares do irmão e o desejo de adquirir os títulos e honras de Giovanni para si. Entretanto, havia pouco para ser passado a César após a morte do irmão, já que Giovanni tinha um filho, também chamado Giovanni, o qual imediatamente tornou-se o Terceiro Duque de Gandia. O motivo poderia ser também vingança de um marido injustiçado, o que é consistente com os excessos sexuais dos membros da Família Borgia.

Por agora, parecia que César poderia não ter nada a ver com o assassinato, mas seu comportamento tornou difícil para os romanos acreditarem que ele não estivesse envolvido. No entanto, ficou claro que a morte de Giovanni abriu o caminho para que César se tornasse civil novamente e recebesse posições esplêndidas que eclipsariam as honras dadas a seu irmão mais novo pelo pai. A crença de que César seria o assassino foi discutida pelos historiadores contemporâneos Sanudo e Guicciardini, que estavam convencidos que tal crime somente poderia ter sido executado com tamanha perfeição pelo gênio da intriga, César Borgia. O crime até poderia ter testemunhas, mas como cita Burchard:

“Os servos do Papa perguntaram a Giorgio [pescador] por que ele não levou nenhuma informação de tal crime para o governador da cidade, ao que ele respondeu:

‘No meu dia a dia tenho visto centenas de corpos jogados no rio e no mesmo lugar, durante diferentes noites sem que ninguém se importe com isso, então eu não dei nenhuma importância para o fato.'”

[Johann Burchard. Liber Notarum, página 91]

O Rio Tibre. Ao fundo o Vaticano. Durante a Idade Média, o Tibre foi usado como descarte de corpos humanos. Serial killers, ladrões, assassinos e até cardeais da Igreja usavam o Tibre para dar sumiço em suas vítimas. Foto: Um Pouquinho de Cada Lugar – Joaquim Nery.

O Rio Tibre. Ao fundo o Vaticano. Durante a Idade Média, o Tibre foi usado como descarte de corpos humanos. Serial killers, ladrões, assassinos e até cardeais da Igreja usavam o Tibre para dar sumiço em suas vítimas. Foto: Um Pouquinho de Cada Lugar – Joaquim Nery.

Em 1498 César estava ansioso para deixar as ordens sagradas e assumir outras posições. Apesar dele ainda ser um Cardeal, Alexandre fez uma tentativa de providenciar o casamento entre César e Carlotta, a filha do Rei de Nápoles. Tal união traria a rica cidade de Tarento com ela, como dote. A fim de acelerar as negociações, César renunciou à sua ordem sagrada, para seu prazer, e foi anunciado como Duque de Valentois. Apesar disso, o Rei de Nápoles tinha outras ambições para sua filha e não aceitou a proposta do Papa. Alexandre, para não ser prejudicado, formou uma aliança com o novo Rei da França, Louis XII, o qual reivindicou ambos os reinos de Milão e Nápoles, tendo os herdado de seu predecessor. Em troca de anular o casamento de Louis, o Rei francês proporcionaria a César uma princesa que foi, eventualmente, Charlotte d´Albert, filha do Duque de Guyenne. O dote era grande, o casamento devidamente solene e, de acordo com a carta escrita por César a seu pai, consumada oito vezes durante a noite de núpcias, “uma após a outra”.

César, agora uma aliado francês, tornou-se um respeitável general de Louis XII, ganhando importantes vitórias na Romagna, uma cidade-estado adjacente aos estados papais. Ele entrou triunfante em Roma em fevereiro de 1500, arrastando ao seu lado, em correntes douradas, Caterina Sforza, a dama de duas das cidades que ele havia conquistado. Ela foi aprisionada e teria morrido naquelas correntes, se os franceses não tivessem intercedido e pedido a sua liberdade.

O ano jubileu de 1500 marcou um período de grande decadência para Alexandre e César. César divertiu multidões de romanos matando cinco touros na Praça de São Pedro, fazendo dele um herói de Roma. O leal Burchard descreve muitas cenas de devassidão durante os primeiros meses de 1500. Não fosse o suficiente a cena insensível de atirar em prisioneiros desarmados na praça, Burchard também descreve uma cena em que Alexandre, César e Lucrécia assistiram com entusiasmo enquanto 50 prostitutas foram arranjadas com 50 servos do Vaticano, competindo por prêmios de “melhor desempenho”, premiadas por Alexandre.

“Na tarde do último dia de Outubro, 1501, César Borgia organizou um banquete em seus aposentos no Vaticano com cinquenta prostitutas, chamadas cortesãs, que dançaram após o jantar com os servos e outros presentes, primeiramente em seus vestuários, então nuas. Após o jantar, os candelabros com velas queimando foram tirados das mesas e colocados no chão, e castanhas foram espalhadas em volta, as cortesãs nuas, rastejando em mãos e joelhos, pegando-as entre os lustres, enquanto o Papa, César, e sua irmã Lucrécia assistiam. Finalmente prêmios foram anunciados para aqueles que fizessem o ato mais vezes, tais como túnicas de seda, sapatos, barretes e outras coisas.”

[Johann Burchard. Liber Notarum, página 154]

Outros episódios relatados por Burchard envolvem um folião bêbado que teve sua mão e língua cortadas por zombar de César. Um veneziano que havia escrito um panfleto criticando-o foi sentenciado a afogamento no rio Tibre. Gregorvarius reporta que César, respondendo a apelos de misericórdia de suas vítimas, disse “Roma é acostumada a falar e escrever o que quer, mas ensinarei essas pessoas a tomar cuidado”.

“César perseguia toda crítica contra ele com uma crueldade selvagem. Quando Alexandre observou que Roma era uma cidade livre onde qualquer um poderia escrever e dizer o que pensasse, César respondeu que faria se arrepender aqueles que o fizessem. Um que escreveu um Pasquim contra ele teve sua língua fatiada por um punhal em brasa quente e ambas suas mãos cortadas. Ele frequentemente e desnecessariamente realizava espetáculos cruéis. Um dia ele trouxe seis homens para a rua antes de São Pedro, e eles foram caçados com arco-e-flecha como se fosse um jogo.”

[Johann Burchard. Liber Notarum, página XXIII]

Mas César não estava satisfeito somente com seu retorno triunfante a Roma. Presentes jubileus acabaram em seus cofres e Alexandre dividiu com ele a grande soma obtida com a agregação de nove novos Cardeais, cada um pagando milhares de ducados. Ainda assim, os Borgias não estavam satisfeitos. Decidido de que o segundo marido de Lucrécia, o Duque de Bisceglie, perdeu seu valor – França e Espanha haviam se unido para derrubar a família Bisceglie em Nápoles – César o estrangulou enquanto ele ainda se recuperava de ferimentos de outro atentado à sua vida, realizado por capangas de César. É bem provável que Alexandre não houvesse planejado o assassinato, mas a iniciativa do filho permitiu que ele arranjasse o terceiro casamento de Lucrécia.

Depois da morte de Alexandre em 1503, César fugiu para a Espanha, e pouco mais de três anos depois da morte do pai, morreu bravamente como um mercenário.

Depois de alguns meses de seu casamento com Charlotte em 1498, César nunca mais viu sua esposa, tampouco sua filha, Louise. Charlotte, entretanto, permaneceu leal à memória de seu marido. Ela e sua filha entraram para um convento e viveram como devotas até a morte de Charlotte. Louise casou-se e teve seis crianças, dando origem a uma linha de competentes soldados.

Os dois filhos ilegítimos de César, Camilla e Girolamo, tiveram destinos diferentes. A filha Camilla tornou-se Madre Superiora em um convento, vastamente reconhecida por sua piedade. O filho Girolamo tornou-se uma pessoa violenta, responsável por pelo menos um assassinato reconhecido e, provavelmente, muitos outros. Ele morreu deixando duas filhas cujos destinos são desconhecidos. A propensão à violência de César aparentemente termina com seu filho ilegítimo.

Estranhamente, o legado permanente de César é que ele serviu de modelo para “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel, o líder que promove a si mesmo unicamente através de suas vontades. Quando ouvimos o termo “maquiavélico” estamos novamente na presença de César Borgia.

“Será esta estada junto de César Bórgia que proporcionará ao florentino a matéria do seu futuro livro, ‘O Príncipe’. Mesmo depois, de César Bórgia já ter caído em desgraça, Maquiavel, que já não teme o Valentino, mas que continua sempre a observá-lo com grande interesse e curiosidade, vem visitá-lo com frequência à Torre Bórgia”.

[Ivan Cloulas. César Bórgia]

Lucrecia Borgia - Familia Criminosa

“Lucrécia era apenas uma ferramenta para os Borgias, pai e filho, mas César era o orgulho e centro da família.”

[Johann Burchard. Liber Notarum, página XXi]

Nenhum retrato de Lucrécia Borgia captura sua natureza contraditória mais do que a alegórica pintura de Titian que está exposta na galeria Borghese em Roma. A pintura mostra Lucrécia na extremidade de uma pequena piscina, uma Vênus nua do outro lado e um pequeno cupido entre elas. A alegoria pretende representar o amor sagrado (Lucrécia) e amor profano (Vênus). Tamanho é o paradoxo histórico de Lucrécia.

Amor sacro e profano foi pintado por Titiano por volta de 1515.

Amor sacro e profano foi pintado por Titiano por volta de 1515.

Lucrécia foi a filha do Cardeal Rodrigo Borgia e sua senhora, Vannozza de Cattanei. Aos 11 anos, depois que Rodrigo tornou-se o Papa Alexandre VI, ele a casou com Giovanni Sforza, estabelecendo uma aliança com a poderosa família milanesa. O casamento foi representativo, efetuado por um mandato e, por quatro meses, após seu casamento até a chegada de seu novo marido em Roma, Lucrécia morou em um belo palácio próximo ao Vaticano com a nova amante do Papa, Giulia Farnese (o marido de Giulia estava convenientemente “fora” a serviço do Papa). A casa era próxima ao palácio do Vaticano e Alexandre podia ir e vir facilmente, visitando a filha e a amante sem ser observado. Uma cerimônia formal do casamento foi celebrada assim que Sforza chegou a Roma, com 500 damas atendendo a noiva, lideradas pela nova amante do Papa. Um banquete magnífico foi servido, com uma peça de Plauto encenada, uma comédia sobre libertinagem, amantes e cafetinas. Foi um evento escandaloso, mas não mais opulento que muitas celebrações renascentistas.

Após passar dois anos como Condessa de Pesaro, localizada na região onde o Papa havia mandado seu genro em uma expedição militar, Lucrécia retornou a Roma com seu marido. Ela serviu como anfitriã em muitas recepções diplomáticas do pai. Rapidamente, a presença de Giovanni Sforza na corte papal passou a não significar nada, já que os Borgias não precisavam mais dos Sforzas. Novas alianças políticas fizeram a ligação com a família Sforza insignificante.

Lucrécia, informada por seu irmão César que seu marido estava para ser morto, avisou Giovanni e ele fugiu de Roma. Este pode ter sido um estratagema de Lucrécia e César para afastar seu marido. Ela estava extasiada por se livrar de seu entediante marido e Alexandre e César estavam ainda mais entusiasmados com o prospecto de arranjar mais um casamento lucrativo para Lucrécia. Claro, antes eles deveriam livrar-se de Giovanni Sforza.

Alexandre entrou em ação. Ele pediu ao tio de Giovanni, o Cardeal Ascanio Sforza, para que seu sobrinho concordasse com um divórcio. Giovanni recusou e recorreu à sua poderosa família em Milão. Eles, entretanto, relutaram em entrar em desavenças com o Papa e intencionalmente sugeriram que a defesa de Giovani se desse pela prova de sua masculinidade, dormindo com Lucrécia enquanto observados por membros das famílias Borgia e Sforza. Giovanni rejeitou a proposta – como esperado por seus parentes – e contra-atacou. Ele acusou Lucrécia de incesto com seu pai e irmãos, César e Giovanni, o segundo Duque de Gandia.

O Papa então usou o único argumento para a anulação: a não consumação do casamento e ofereceu a seu genro o dote da filha. A cabeça da família Sforza ameaçou retirar sua proteção ao sobrinho se ele recusasse a proposta do Papa. Giovanni Sforza não teve escolha e assinou uma confissão de impotência e os documentos da anulação diante de testemunhas.

E isso foi tudo para o marido número um. Ele foi realmente afortunado de escapar com vida.

Moeda do século XVI estampando o rosto de Giovanni Sforza, o primeiro marido de Lucrécia Borgia, filha do Papa Alexandre VI. Foto: Wikipedia.

Moeda do século XVI estampando o rosto de Giovanni Sforza, o primeiro marido de Lucrécia Borgia, filha do Papa Alexandre VI. Foto: Wikipedia.

Durante a barganha de seu divórcio, Lucrécia retirou-se para um convento próximo e sua única comunicação com o pai durante sua estadia forçada foram mensagens trazidas por um jovem camareiro, Pedro Calderon Perotto. Seis meses depois, grávida de Perotto, Lucrécia participou de uma cerimônia no Vaticano na qual juízes atestaram que ela estava intacta, isto é, virgem. Giovanni Sforza jurou em testamento sobre este fato e o divórcio foi pronunciado.

César, descobrindo sobre a gravidez da irmã, ficou furioso. Ele apressou-se em encontrar o jovem Perotto e o apunhalou em frente ao Papa, Pertotto caiu perante o trono papal, jorrando sangue em Alexandre VI. Perotto sobreviveu ao ataque, mas foi jogado na prisão. Poucos dias depois, Burchard reportou que Perotto “havia caído no rio Tibre contra sua vontade”. Seis dias depois, o corpo de Perotto foi “pescado” do rio, juntamente com a serva de Lucrécia, a qual se acreditava que havia facilitado o romance.

A criança nasceu em segredo e quando foi finalmente reconhecida, foi chamada infans Romanus. Ele era Giovanni e foi uma figura um tanto quanto misteriosa na história da família Borgia. Esta criança não veio à tona até três anos depois do seu nascimento, quando Alexandre declarou que ele era de fato a infans Romanus, a criança de Roma, e era filha de César com uma mulher desconhecida. O primeiro disparate papal foi seguido por um segundo, o qual reconhecia que a criança era filha dele mesmo, apesar de ele estar com 67 anos na época da sua concepção. O propósito destes disparates foi o de dar a Alexandre uma desculpa para nomear Giovanni herdeiro do ducado de Nepi, uma propriedade importante da família Borgia.

Este subterfúgio para legitimar a infans Romanus simplesmente levou o povo a assumir que o menino era filho de Lucrécia e Alexandre ou de Lucrécia e César. O historiador Potigliotti sugere que Lucrécia insistiu nos disparates por que ela não sabia qual dos dois amantes, seu pai ou seu irmão, havia realmente gerado a criança. Giovanni passou de guardião a guardião, eventualmente terminando com Lucrécia em Ferrara, como seu “meio irmão”.

O infeliz Giovanni nunca herdou seus títulos e após uma vida de servidão como um funcionário nas cortes do Vaticano e na França, morreu relativamente desconhecido em 1548. O rumor do incesto originou-se com os ataques do primeiro marido de Lucrécia e persiste até hoje. Pode ser verdade ou também pode ser fruto da indiscrição de Lucrécia e Perotto.

Mais tarde naquele ano, Lucrécia casou-se com o príncipe de Aragão, Alfonso, então com 17 anos, em Nápoles, permitindo a Alexandre forjar mais uma aliança com outro reino. Alfonso foi o Duque de Bisceglie, um principado importante no reino de Nápoles. O segundo casamento foi tão grandioso quanto o primeiro e os dois jovens de 17 anos estavam plenamente felizes.

Como era comum neste período da História, alianças políticas começaram a mudar e a sofrerem reformas, então o aliado se tornava adversário. Alfonso, Duque de Bisceglie, de repente encontrou a si e a família desvalidos, enquanto Alexandre mudou seu apoio aos inimigos de Nápoles. Enquanto o Papa assegurou a seu genro que ele ainda estava a seu favor – até dando ao jovem casal um castelo, juntamente com a cidade e as terras de Nepi – Alfonso sabia que algo estava errado. Primeiramente, Alexandre deu o governo de Spoleto e Foligno, algo geralmente reservado a Cardeais, para Lucrécia, essencialmente rendendo a Alfonso o papel de um cônjuge sem função alguma. Lucrécia, apesar de estar com somente 19 anos, não era somente uma figura representativa e administrou bem a cidade. Após alguns meses, o Papa persuadiu sua filha e seu marido a retornarem a Roma e aguardar o nascimento do primogênito do casal, que seria nomeado com o nome do avô, Rodrigo.

Não muito tempo depois de retornarem, Alfonso, cruzando a Praça de São Pedro, foi cercado por um grupo de homens armados. Ele foi seriamente ferido e dado como morto, mas foi trazido para os recintos do Vaticano para ser cuidado por sua esposa, Lucrécia. Ela estava genuinamente perturbada e permaneceu ao lado de seu marido, sabendo que seu irmão César estava por trás do ataque. Através do cuidado de sua esposa, Alfonso quase se recuperou. Infelizmente ele foi visitado por seu cunhado, o qual ordenou que Lucrécia, sua cunhada Sancia e servos deixassem o quarto. De acordo com a história, César ordenou a seu capanga para estrangular Alfonso. Alexandre, vendo sua filha e nora fugindo do quarto aterrorizadas, enviou seus camareiros para evitar o assassinato. Quando chegaram, já era tarde demais. Como reportou Burchard “como Don Alfonso se recusou a morrer de seus ferimentos, ele foi estrangulado em sua cama”.

E isso foi tudo para o marido número dois. Ele não foi tão afortunado quanto o marido número um.

Um ano depois, enquanto ainda somava suas aquisições resultantes da derrota do pai de Alfonso, Federigo, Rei de Nápoles, Alexandre deixou a administração do Vaticano nas mãos de Lucrécia. Uma mulher de 21 anos, agindo como a cabeça da cristandade, não chocou os Cardeais da cúria, eles estavam acostumados aos excessos do papado de Alexandre. O Papa estava ocupado acumulando dinheiro para financiar as aventuras militares de César e para obter um grande dote para Lucrécia, a qual ele esperava casar com um terceiro marido. Desta vez, se possível, da realeza.

César fez a seleção. O príncipe e herdeiro do ducado de Ferrarra – uma cidade-estado adjacente à província de César em Romagna – estava disponível. Ele tinha 24 anos e era um viúvo sem filhos. Lucrécia, com somente 21, seria perfeita para ele. Em troca de um grande dote e a revogação de seu imposto papal, o Duque de Ferrarra concordou com o casamento. Lucrécia teve seu terceiro, e último, marido.

Afonso d´Este, o príncipe de Ferrarra, era do tipo forte e silencioso, interessado em artilharia, música e bordéis, e foi rapidamente cativado por sua nova esposa. Um cortesão descreveu Lucrécia:

“Ela tem altura mediana e formas graciosas; seu rosto é alongado, assim como seu nariz; seu cabelo é dourado, seus olhos acinzentados, sua boca relativamente grande, os dentes brancos e brilhantes, seu peito é macio e branco e admiravelmente proporcional. Seu ser por completo exala bom humor e diversão.”

[Niccolo Cagnolo – como reportado em Cloulas]

A partir deste momento, Lucrécia se tornou uma esposa amável e mãe admirável. Exceto por algumas poucas coisas. Enquanto ela satisfazia seu marido e tinha quatro filhos com ele, manteve um romance com o poeta Pietro Bembo. Se isso foi somente algo físico ou um amor platônico não está claro, mas temporariamente despertou suspeita de seu marido. Depois que Bembo deixou Ferrarra por Veneza, suas cartas à Lucrécia tornaram-se mais formais e, em 1505, a ligação havia terminado. Curiosamente, sua relação com Bembo conferiu a ela uma sensibilidade artística que reforçou sua reputação em Ferrarra.

Lucrécia acompanhou seu irmão em várias aventuras militares e quando César morreu, ficou devastada. Ela definiu o estabelecimento de proteção para Rodrigo, filho de seu segundo marido, e seu “meio irmão”, o misterioso Giovanni, infans Romanus. Contra a vontade de seu marido, ela os trouxe para Ferrara, onde eles se juntaram à família. Os dois jovens meninos seriam enviados para Isabella de Aragão, que prometeu educá-los. Rodrigo morreu em 1512, com 13 anos, e Lucrécia retirou-se a um convento em luto. Após um tempo, voltou para o marido.

Depois de dar à luz ao seu quinto filho em Ferrara, que morreu logo após o nascimento, Lucrécia contraiu febre puerperal, causada por complicações no parto, e morreu em 24 de junho de 1519. Ela ainda não tinha 39 anos.

Então, Lucrécia, acusada de participar dos assassinatos conduzidos por seu pai e irmão; acusada de incesto tanto com o pai quanto com o irmão (ou ambos), morreu como uma devota e respeitada esposa do Duque de Ferrara. Um de seus filhos, Ercole, sucedeu ao pai como Duque, e outro, Ippolito, tornou-se Cardeal. Ambos ficaram conhecidos pelo amor à luxúria e, como tal, continuaram a tradição Borgia de excessos e materialismo.

Em Perspectiva


.

Os anos da grande influência dos Borgias (1435-1520) correspondem a um dos períodos mais importantes da história europeia. É a era da Renascença, o início da Era da Exploração e a época de alguns grandes governantes, artistas, e escritores que influenciaram nossa Era Moderna.

A Era Borgia começa aproximadamente no tempo de Joana d’Arc (1430) e a subsequente expulsão dos britânicos da França, passa pelas últimas Cruzadas (1460) e termina (na época da morte de Lucrécia) com Cortez conquistando o México. Cobre o período da Guerra das Rosas na Inglaterra e as lutas entre os governantes da França, Portugal, Espanha e Alemanha.

É carregado de eventos históricos. É a era da família Médici de Florença, os ilustres patronos das artes que simbolizam a Renascença. Vai do fim da Era Medieval ao inicio da Reforma. É quase mais do que alguém pode digerir intelectualmente.

Alguns dos muitos eventos podem ser colocados em ordem cronológica:

AnoAcontecimento
1429Joana d’Arc liberta Orleans
1430Nasce Alonso Borya (Borgia), mais tarde Calixto III
1440O General e serial killer Gilles de Rais é enforcado em Nantes
1443Fim do Grande Cisma da Igreja Católica
1445Alonso Borya torna-se Papa Calixto III
1456Rodrigo Borgia torna-se cardeal
1456Reabilitação de Joana d´Arc
1458Morte de Calixto III
1469Casamento de Isabella e Ferdinando
1475Nascimento de César Borgia
1476Morte do príncipe romeno Drácula
1480Nascimento de Lucrécia Borgia
1492Colombo descobre o Novo Mundo
1492Rodrigo Borgia torna-se Papa Alexandre VI
1497Leonardo da Vinci pinta A Ultima Ceia
1497Vasco da Gama inicia sua viajem pelo mundo
1500Pedro Álvares Cabral descobre o Brasil
1503Morte do Papa Alexandre VI
1507Morte de César Borgia
1508Michelangelo começa a pintar a Capela Sistina
1517Martin Luther firma suas teses contra indulgências
1519Morte de Lucrécia Borgia
1520Martin Luther é excomungado
1521Ferdinand Cortez conquista o México
1560Nascimento de Erzsébet Báthory

Existem outros eventos que poderiam preencher esta cronologia, ano após ano. Transitando por este drama estão Maquiavel, Bocaccio, Copérnico, Pinturicchio, Pieta de Michelangelo, Mona Lisa de Da Vinci, a construção da atual São Pedro – tudo em um espaço de 20 anos. É um período extraordinário.

O aspecto mais difícil da Era Borgia é a complexidade dos eventos políticos. A Itália tornou-se um grande número de cidades-estados, algumas das quais eram feudos papais. Não foi até a última parte do século 19 que a Itália conseguiu tornar-se um só país. Como tal, os vários “reinos” italianos nos séculos 15 e 16 foram palco de intrigas, batalhas e envolvimento estrangeiro. Em vários momentos Espanha e França governaram partes da Itália e alianças políticas foram formadas e quebradas constantemente. Esferas de influência foram forjadas através de casamentos, com frequência, estabelecidos pelos governantes de Espanha e França, assim como o Vaticano. O que é difícil de reconhecer é que os Papas não eram somente governantes espirituais, mas governantes seculares também, com frequência mais interessados em adquirir poder político do que liderar os fiéis. As Cruzadas finais foram mais um exercício de extensão de poder do que um reclame da Terra Santa. Santidade era secundário para a aquisição de riquezas, que depois gerou poder político.

Os Borgias, então, não eram os únicos com desejos por riquezas e terras, mas simplesmente eles eram mais impiedosos na forma como lidavam com isso.

Havia exceções. Francisco Borgia, após gerar um grande número de crianças, tornou-se o principal proponente da nova ordem dos monges, os Jesuítas, fundada por Ignatius Loyola, elevado à santidade por seus esforços. Existe um grande número de freiras e abadessas na família, descendentes femininas que foram dadas à Igreja quando sua negociabilidade quanto a possíveis casamentos políticos eram fracas. Uma descendente de São Francisco, Catarina de Bragança, casou-se com Charles II da Inglaterra e ajudou seu Rei a presidir uma das cortes mais imorais na história da Monarquia Britânica.

O último dos Papas Borgia foi descendente da filha mais velha de Alexandre, Isabella. Giovanni Battista Pamfili, Papa Inocêncio X (1574-1655, Papa de 1644-1655), estava 100 anos distante dos protagonistas da família Borgia, assim ele não foi fortemente influenciado por sua herança. Ao invés de condenar o Jansenismo – um movimento na França no qual a Igreja Católica parecia mais Protestante que Católica – ele continuou os esforços de seus predecessores no suporte de missões mundiais, e apoiou algumas campanhas artísticas importantes em Roma, mas seu papado não teve muitas consequências. Apesar de inclinado a continuar com a prática Borgia de nepotismo, ele foi relativamente ameno neste aspecto. Evidentemente, os genes Borgias estavam começando a enfraquecer.

Mas qual é a verdade sobre os Borgias? De onde vêm sua reputação, particularmente a de Lucrécia como articuladora e envenenadora, símbolo feminino do mal? A maioria das informações proferidas através da história – e, comumente modificada através do narrador – vem de duas obras do período e duas obras de ficção do século 19.

A primeira é a grande obra de Maquiavel, O Príncipe (1513), um guia para líderes políticos que usou Alexandre e, em particular, César como modelos. César é destacado como o exemplo primário da crueldade requisitada de governantes. O segundo livro contemporâneo é o Diário de Johannes Burchard, que não é somente uma soma de rituais, práticas e detalhes do Santo Ofício, mas uma compilação de eventos, escândalos e rumores da época. Até a Era da Escola Moderna de História no fim do século 19, estes dois livros foram a fonte de todas as outras obras sobre os Borgias e forneceram as bases para elaboração, fantasia e rumores.

Em 1833, Victor Hugo escolheu Lucrécia Borgia como heroína de uma peça largamente vista e elogiada. O que Hugo fez pela reputação de Lucrécia pode ser vista pelo prefácio de sua peça. É difícil determinar se ele está falando de Lucrécia, ou sobre o Corcunda de Notre Dame:

“Quem, na verdade, é Lucrécia Borgia? Encontre a mais hedionda, a mais repulsiva, a mais completa deformidade moral; Coloque-a onde melhor se encaixar – no coração de uma mulher a qual a beleza física e grandeza real farão com que o crime eleve-se o mais contundentemente; então adicione a toda aquela deformidade moral o mais puro sentimento que uma mulher pode ter, o de uma mãe… Dentro de nosso monstro coloque uma mãe e o monstro irá nos interessar e nos fazer chorar. E esta criatura que nos encheu de medo vai inspirar piedade; aquela alma deformada irá parecer quase bonita perante nossos olhos…”

[Victor Hugo – do prefácio de sua peça Lucrécia Borgia]

Outra descrição semificcional de Lucrécia que teve grande influência em sua reputação foi de Alexandre Dumas (1839) em seu Les Crimes Celebres. Nesta obra, os Borgias tornam-se famosos pelo uso de veneno para o despacho de adversários.

Existem poucas dúvidas sobre a criminalidade do pai Alexandre e do filho César. E se incluirmos avareza, extorsão e nepotismo, podemos incluir o avô, Calixto, para atingir pelo menos três gerações nesta família criminosa (Girolamo, filho ilegítimo de César, foi sem dúvidas um assassino).

Isso nos daria quatro gerações de maldade. É muito provável que Alexandre ordenou incontáveis mortes de seus oponentes e pode ser seguramente assumido que ele não era exatamente específico quanto aos meios. César certamente matou com as próprias mãos e, enquanto ele pode ter usado veneno, era mais provável que ele usasse uma faca, espada e arma.

Mas Lucrécia é outro caso. Ela certamente foi uma solícita observadora e apoiadora dos crimes do pai e irmão. Ela é fielmente reportada como sendo participante nas idas-e-vindas desregradas da família. Não há evidencia de que ela contestou o uso do homicídio como solução para os problemas políticos familiares. Até tornar-se a Duquesa de Ferrarra, ela foi certamente uma jovem sexualmente bem ocupada e pode certamente ter cometido incesto com membros de sua família. Talvez ela mudou assim que tornou-se mais velha, ou talvez só ficou mais discreta. Mas parece haver pouca base para sua reputação como o arquétipo de assassina envenenadora, o tipo de viúva-negra renascentista que nós viemos a acreditar que ela era.

Fontes consultadas: [1] Liber Notarum. Pope Alexander VI and His Court (O Papa Alexandre VI e sua Corte, pt_BR). Johannes Burchard. Disponível em: Archive.org; [2] Execution of Florentine friar Savonarola. History Today; [3] Os Borgias: A História da Primeira Grande Família do Crime. Mario Puzo. Record, 2002; [4] Alexandre VI – Bórgia, o Papa Sinistro. Volker Reinhardt. Europa, 2012; [5] Bellonci, Maria. 1953. The Life and Times of Lucrezia Borgia. Harcourt, Brace; [6] Bradford, Sarah. 1976. Cesare Borgia, His Life and Times. Weidenfeld & Nicolson; [7] Crime Library; [8] Cloulas, Ivan. César Bórgia. Edições 70, 2009;

Esta matéria teve colaboração de:

laynara

Tradução

Marina Ferezim
Revisão

Curta O Aprendiz Verde No Facebook


"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
DarkSide Books

RELACIONADOS

Dupla Identidade – Bruno Gagliasso

Glória Perez

Ilana Casoy

OAV TV

OAV TV

Queremos Você!

Queremos Você!

Siga-nos no Twitter

Siga-nos no Facebook!

21 Anos de Arquivo-X

20 Anos da Execução de Andrei Chikatilo

20 Anos da Execução de John Wayne Gacy

O nascimento de um serial killer

Categorias

Contribua com O Aprendiz Verde!

Bate-Papo

Blogs Brasil

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers