A sinistra história do Marquês de Sade

Morto a mais de 200 anos, Marquês de Sade viveu uma vida turbulenta. Nascido em uma família aristocrática, desfrutou de todos os privilégios da nobreza e entrou para a história por seu bizarro apetite sexual que o levou a cometer crimes hediondos contra mulheres e crianças.
A Sinistra Historia do Marquês de Sade
A Sinistra História do Marquês de Sade

A Sinistra História do Marquês de Sade

“Eu quis apenas viver de acordo com os desejos do meu eu verdadeiro. Por que isso foi tão difícil?”

[Marquês de Sade]

Sacrilégio!


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O jovem nobre elegantemente vestido acompanhou a graciosa prostituta francesa até um quarto alugado no segundo andar de uma mansão qualquer na periferia de Paris. O Marquês de Sade frequentava tais casas durante suas viagens à capital, viagens que ele aparentemente fazia a negócios. A verdadeira natureza dos seus “negócios”, no entanto, era a busca por prazer, do tipo que a nobreza da França havia desfrutado durante gerações sem nenhuma repercussão ou recriminação. O Marquês recém-casado havia organizado as mais variadas orgias em várias mansões que alugara nos arredores de Paris durante o mês de outubro de 1763. Entretanto, ele tinha em mente um encontro mais singular para si e a jovem prostituta, a senhorita Jeanne Testard.

Após adentrarem o recinto, o Marquês trancou a porta atrás deles e imediatamente exigiu saber se a senhorita Testard possuía crenças religiosas, se ela era devota aos ensinamentos e práticas da Igreja Católica Apostólica Romana. Quando ela respondeu afirmativamente, o Marquês passou a ofendê-la com os insultos mais vis e degradantes. Para horror de Jeanne, ele também começou a praticar os atos mais provocativos e blasfemos, incluindo masturbar-se dentro de um cálice, referir-se ao Senhor como “filho da puta” e inserir duas hóstias na garota horrorizada antes de penetrá-la ele mesmo, tudo isso enquanto gritava:

“SE SOIS DEUS, VINGAI-VOS!”.

A senhorita Testard, que já aguentara muito mais do que havia combinado com o Marquês, ficou mortificada com o seu novo pedido: que ela aquecesse um “gato de nove caudas” [espécie de chicote que se constitui em um bastão com nove tiras de couro ou corda] no fogo até que ele estivesse em brasa, e então o surrasse com ele. Ela deveria então escolher um chicote para que o Marquês fizesse o mesmo. Quando ela se recusou a deixar que ele a açoitasse, o Marquês começou a se masturbar com um par de crucifixos, e depois disso manteve-a sob a mira de uma espada enquanto a forçava a repetir impiedades vulgares e blasfêmias.

Às 9h do dia seguinte, a cafetina da Srta. Testard chegou e encontrou sua protegida em um estado de total histeria. Elas correram até o comissário de polícia local, que colheu o depoimento da jovem. Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade, foi detido dez dias depois pelo Inspetor da Polícia de Paris, Louis Marais, e pela primeira de muitas ocasiões em sua vida, o Marquês foi encarcerado por agir de acordo com seus desejos lascivos e pervertidos.

Infância Inconstante


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“Quem assistiu ao filme Contos Proibidos do Marquês de Sade (2000) pode ter a impressão de que Sade foi um paladino da liberdade sexual e artística, injustamente perseguido por um regime repressivo e hipócrita que se sentia ameaçado pela sua ânsia de viver. Na verdade, ele era um aristocrata incrivelmente depravado com um desprezo niilista por tudo o que as pessoas comuns valorizavam como decente, moral e virtuoso. Dizer que sua notória obra ‘Os 120 Dias de Sodoma’ é um catálogo de toda a perversão concebível não é muito correto, já que as monstruosas atividades que ele descreve vão bem além do que a maioria de nós consegue conceber.”

[Harold Schechter. Serial Killers – Anatomia do Mal]

Donatien Alphonse Francois de Sade nasceu em 2 de junho de 1740, filho de Jean Batiste, Conde de Sade, e Marie-Elonore de Maille de Carman, Condessa de Sade, sua mãe e prima distante do Príncipe de Condé, um ramo menor da família real de Bourbon. Sua mãe serviu como dama de companhia da Princesa de Condé e como ama do filho dela, o jovem Príncipe de Condé, quatro anos mais velho que Donatien. A primeira menção ao jovem Marquês nos livros de história viria em resultado de uma briga entre ele e o primo, o Príncipe de Condé, que tentara recuperar um de seus brinquedos favoritos das mãos do pequeno Donatien, então com quatro anos. Em vez de se submeter à autoridade do Príncipe, o Marquês recusou-se a ceder o brinquedo, e por sua vez passou a agredir o primo com golpes de crescente violência e ferocidade. Ambos tiveram que ser separados por adultos e foi logo após este incidente que o Marquês acabou devolvido aos cuidados de sua extensa família. Não seria a primeira vez que autoridades reais fariam uso deste tratamento como forma de controlar o explosivo Marquês.

Como resultado do seu confronto com o Prínicipe, Donatien foi enviado para viver com sua avó paterna em Avignon. Foi lá que ele passou seus primeiros e fundamentais anos, rodeado por um rebanho de parentes do sexo feminino que atendiam a todos os caprichos dele e o enchiam de carinhos sexuais:

“A vovó Sade era visitada com frequência por suas cinco filhas. A caçula, Henriette-Victoire, tia de Donatien, uma beldade notoriamente promíscua, tinha um apego especial por seu sobrinho turbulento e adorava mimá-lo. As outras quatro filhas da Marquesa eram freiras. Conventos eram relativamente mundanos na época pré-revolucionária e aquelas senhoras, durante seus passeios pelo mundo secular, mimavam Donatien da mesma forma generosa que o resto da sua parentela feminina. A avó coruja e as tias lhe ofereciam toda a afeição do mundo. Presenteando-o com brinquedos, doces e carícias, elas atendiam a todos os seus caprichos, e como resultado o aprendiz de tirano… se tornou mais incontrolável do que nunca”.

O Conde de Sade, pai de Donatien, estava servindo no exterior como embaixador da corte do Eleitor da Bavária durante esta época, mas recebia relatos sobre a educação do seu filho. Ele ficou cada vez mais furioso ao saber como seu filho estava sendo corrompido nas mãos de sua mãe e de suas irmãs indulgentes. Apenas dois anos após Donatien ter ido morar com a avó, seu pai buscou-o de volta. O Conde desejava incutir no filho uma criação com a presença e influência masculinas que ele próprio era incapaz de oferecer. Assim, Donatien foi enviado para a casa do irmão do Conde, o Abade Jacques-François de Sade, um famoso intelectual e autor da época. O abade dividia seu tempo entre sua residência oficial em Auvergne e o castelo da família em Saumane, a 35 quilômetros de Avignon.

O Abade de Sade era contemporâneo e amigo de Voltaire, o famoso filósofo francês. Como as irmãs dele, o Abade possuía um lado sensual e mundano, que Voltaire encorajava e celebrava com poemas tais como o seguinte:

“Por mais que tu sejas um sacerdote, senhor, continuarás a amar. Este é o teu verdadeiro ministério, ser um bispo do Pai Sagrado. Tu amarás, seduzirás, e serás igualmente bem-sucedido, na Igreja e na Cythera [outro nome para Afrodite, a deusa grega do amor, fertilidade e beleza]“.

E assim, o Marquês se descobriu em outro lugar onde os adultos tratavam o sexo e a sexualidade como meios recreativos para um fim prazeroso, e onde satisfação sexual era regra em vez de ser exceção. Quando não estava cuidando de seus afazeres clericais, que requeriam sua presença em Auvergne apenas durante alguns meses do ano, o Abade ocupava seu tempo livre perseguindo uma variedade de beldades francesas, mulheres oriundas de todas as classes sociais. Ele era amplamente conhecido como o “sibarita” (alguém excessivamente apegado ao prazer e à luxúria). Durante os anos que Sade viveu com seu tio, o Abade hospedou inúmeras companheiras femininas, inclusive uma dupla formada por mãe e filha, uma criada e uma prostituta local.

Quando o Abade não dispunha de pessoas de verdade com quem interagir, ele só precisava se voltar para sua volumosa biblioteca para alimentar seu apetite por delícias sensuais e mundanas. Embora o erudito clérigo mantivesse alguns dos clássicos mais sábios da era em sua coleção, ele também tinha espaço para literatura com títulos como “O Livro das Posições”, “Venus no Claustro”, ou “A Freira em Sua Camisola”, e até mesmo “João, o Fodedor Pervertido”. Donatien era livre para ler a seu bel-prazer e, na ausência de outros amigos de sua idade, ele geralmente encontrava refúgio nas páginas da maioria dos textos guardados na biblioteca do tio, incluindo aqueles que, de acordo com o eufemismo francês, “deviam ser lidos com uma mão só”.

Jean Baptiste François Joseph, Conde de Sade e pai de Donatien.

Jean Baptiste François Joseph, Conde de Sade e pai de Donatien.

Embora seja difícil imaginar um ambiente mais indecente para a educação de uma criança impressionável, o Abade de Sade não era um clérigo renegado. Na verdade, por séculos, na França e em outros países europeus, homens e mulheres do clero desfrutavam dos prazeres da carne na mesma medida e, provavelmente, até mais do que os fiéis a quem deveriam fornecer orientação moral. Não era incomum que orgias acontecessem no interior dos muros de conventos e abadias, onde monges, freiras, prostitutas e nobres se misturavam para compartilhar das atividades mais escandalosas e pervertidas.

Cada vez mais preocupado com o fato de que a educação de seu filho não estava sendo menos corrompida pela influência do seu irmão do que havia sido antes com sua mãe e irmãs, o Conde de Sade decidiu mais uma vez buscar Donatien e introduzi-lo num lugar aparentemente mais apropriado para um garoto da idade dele. Com dez anos, ele se mudou de Saumane para Paris, onde foi matriculado no College Louis-le-Grand, uma escola jesuíta para jovens de linhagem nobre. Embora sua reputação como educadores fosse insuperável por toda a Europa, os jesuítas não eram menos mundanos que o Abade de Sade. Sodomia e castigos físicos eram marcas registradas da educação escolar e estadística do colégio.

“A prática dos jesuítas, de praticar açoitamentos em frente do corpo estudantil reunido e com uma mão notavelmente pesada, era uma experiência particularmente humilhante. Além disso, açoitamentos podem ser sexualmente excitantes e frequentemente geram o que pode ser chamado de comportamento sadomasoquista. Na idade adulta, Sade raramente se satisfazia com sexo ‘normal’, e suas preferências carnais pareciam de várias maneiras se resumirem a um nível anal infantil”.

Outra característica importante do regime jesuíta era que todos deviam confessar pecados como forma de analisar e finalmente erradicar suas imperfeições. Ganhar o benefício total da confissão requeria que o confessor refletisse sobre alguns dos aspectos mais desagradáveis e sombrios de seu caráter e então trouxesse estes aspectos íntimos à tona, onde seriam dolorosamente escrutinados pelos olhos perscrutadores de outra pessoa. Era este aspecto que parecia ter impacto mais profundo em Sade, em relação à sua percepção da natureza humana e até onde ele desejava ir para não apenas entender completamente, mas viver completamente a vida sombria escondida nos recantos mais profundos do coração humano. Já adulto, ele escreveu:

“O estudo profundo do coração humano – o labirinto da natureza – sozinho pode inspirar o novelista, cujo trabalho deve nos fazer enxergar o homem não apenas no que ele é, ou como ele parece ser – que é trabalho do historiador – mas o que ele é capaz de ser quando sujeitado às influências modificadoras do vício e o impacto completo da paixão. Por conseguinte, devemos conhecê-los todos, devemos usufrior de cada paixão e vício, se trabalharmos nesta área”.

Após quatro anos desinteressantes no colégio, o pai de Donatien o transferiu para uma academia militar. Em 1755, com a idade de 15 anos, Sade entrou para o regimento da cavalaria real leve, como subtenente. Ele logo foi chamado para as linhas de batalha, quando a Guerra dos Sete Anos explodiu. Ele ficou marcado como um líder destemido e decisivo durante a batalha pelo forte britânico em Port Mahon. Com centenas de baixas francesas sobre o campo de batalha, Sade e um companheiro de armas lideraram um ataque que finalmente resultou na tomada de Port Mahon pelos franceses. Não contente em ver seu filho como um cavaleiro bem-sucedido, o Conde de Sade usou seus poucos contatos remanescentes para colocá-lo com os Carabiniers de Monsieur, que eram comandados por um membro da família real. Ele conseguiu e Donatien foi nomeado porta-estandarte de uma companhia de cavalaria inteira com os Carabiniers.

A bravura demonstrada em batalha, combinada com sua boa aparência e charme encantadores, contribuíram para o sucesso da carreira militar do jovem Marquês. Ele recebia críticas elogiosas de seus superiores e foi promovido à patente de capitão com a idade de 18 anos, sendo lotado na Alemanha, onde começou a libertar seu crescente apetite sexual. No entanto, apesar de seu sucesso, ele recebia repreensões severas de seu pai cada vez mais. Depois de descobrir que Donatien estava apostando seus salários, o Conde escreveu uma carta furiosa ao Abade, afirmando em parte dela “como se aquele canalha tivesse um louis [moeda francesa] por dia para perder! Ele prometeu não arriscar um centavo. Mas não se pode confiar que ele mantenha sua palavra”.

Tais palavras tiveram graves repercussões no jovem Marquês, que temia a possibilidade de perder o amor do único dos pais que ele conhecia. O relacionamento com o pai prevalecia sobre suas outras amizades, como demonstrado numa carta que escreveu quando ainda era um soldado: “amigos são como mulheres: quando postos à prova, os melhores frequentemente se mostram fracos. Eu te abro meu coração, não a um pai que alguém teme e não ama, mas ao mais honesto dos amigos, o amigo mais terno que julgo ter no mundo”.

O Conde de Sade


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“Menina, não se atreva a falar de Deus aqui dentro. Se Deus existisse ele não deixaria a gente fazer isso com você.”

[Marquês de Sade. Os 120 Dias de Sodoma]

A frustração crescente do Conde de Sade com seu único filho provinha do declínio de sua própria fortuna e da esperança de redenção que ele havia depositado na carreira de Donatien. Sua própria carreira havia atingido seu ápice pouco depois do nascimento de Donatien, quando ele serviu como embaixador na corte do Eleitor da Bavária. Durante este tempo, a Guerra da Sucessão Austríaca estourou e ele foi aprisionado pelas tropas leais à Imperatriz Maria Theresa da Áustria. Sua libertação foi garantida pelos esforços fervorosos de sua esposa, mas depois de retornar a Paris ele foi confrontado com acusações de má-gestão financeira durante seu tempo na Bavária. A vida que havia sonhado a si mesmo, de um nobre e bom vivant, foi destruída na medida em que rixas pessoais e inimizades se abateram sobre ele, como resultado daquele escândalo. O Conde estava bastante vulnerável politicamente e era pouco escusável pela virada na sua sorte. Na verdade, ele teve influência direta em sua própria queda.

Nascido em uma família cujas pretensões de prestígio e influência política haviam se estendido por diversas gerações, a única ambição do Conde Jean Baptiste de Sade na juventude parecia ser desfrutar dos privilégios oferecidos à nobreza, sem precisar trabalhar por aquele direito. Apesar da posição periférica de sua família dentro da hierarquia da nobreza francesa, o Conde almejava a vida de um playboy. Um bissexual devasso, ele foi preso uma vez por abordar um agente disfarçado da guarda do rei Luís XV. Embora ele costumasse satisfazer seus desejos homossexuais com prostitutos de rua, as mulheres que ele procurava eram da melhor estirpe. Ele nasceu numa época da história francesa conhecida como Regência, a qual, por causa de sua total depravação, foi comparada ao Império Romano. A Regência foi batizada em homenagem ao Duque de Orleans, sobrinho de Luís XV e regente da França durante o período entre os cinco e 13 anos do rei menino. O regente era conhecido por dar jantares com nobres de todo o país, os quais, após terem comido, se despiam e encenavam textos de vários clássicos eróticos. Sexo grupal, sexo oral e relações homossexuais estavam entre as atividades mais populares após a ceia.

Reconhecendo o fato de que necessitava de alianças políticas para compensar a falta de status de sua própria família, o Conde se aliou ao Príncipe de Condé, cujo próprio filho seria selvagemente atacado por Donatien, filho do Conde. No entanto, ao escolher o Príncipe, Jean Baptiste atrelou sua fortuna a um dos nobres mais desprezados de toda a França, um sério erro de cálculo que resultaria em graves repercussões para o desatento Conde.

Sua falta de visão o levou não apenas a escolher um protetor fraco, mas também a se voltar contra ele e trair o próprio homem a quem devia sua posição. O Príncipe era casado com uma encantadora Princesa alemã, por quem Jean Baptiste ficou imediatamente atraído. Em uma das conspirações mais cínicas da história da libertinagem, o Conde decidiu se casar com uma dama de companhia da princesa, a Srta. Maille de Carman, mãe de Donatien. Ele fez aquilo com o intuito de criar um pretexto para ficar próximo da princesa o tempo inteiro. Mais tarde, ele escreveu:

“Eu disse a ela [a princesa] que havia sacrificado minha segurança material ao me casar com uma garota sem dote com o único propósito de ficar mais próximo dela e obter permissão de vê-la a qualquer hora. Meu casamento me garantiu uma intimidade considerável. Eu podia entrar nos aposentos dela a qualquer momento”.

O que a esposa do Conde de Sade não tinha em dote, ela compensava em status. Foram os contatos dela com a família de Condé que garantiram ao esposo uma vaga de Embaixador na Bavária. No entanto, foi em virtude de sua vida dispendiosa como Embaixador, bem como os vários inimigos que a família Condé cultivou por anos, que o Conde percebeu que sua reputação e carreira corriam sério risco ao retornar à França, após sua prisão. O Príncipe havia morrido em 1740, deixando Jean Baptiste completamente exposto à fúria daqueles que o odiavam, mas não ousavam atacá-lo ou aos seus associados enquanto ele estava vivo. E assim, exatamente como havia tido que confiar no status de outra pessoa para dar legitimidade às próprias pretensões, o Conde de Sade agora se encontrava igualmente dependente de seu próprio filho pela mesma razão. Na mais irônica das reviravoltas, aquele libertino pervertido viu-se na situação improvável de ter que impor a seu filho um padrão puritano de conduta, de modo a melhorar sua sorte no altar. No entanto, o Marquês estava se tornando cada vez mais incontrolável.

Casamento de Conveniência


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“Ele enterra o cano de uma espingarda no cú do rapaz, a arma está carregada com chumbo grosso e ele acaba fodendo o rapaz. Ele puxa o gatilho; a arma e seu pênis descarregam simultaneamente”.

[Marquês de Sade. Os 120 Dias de Sodoma]

Em 1762, dois anos após intensas negociações com inúmeras famílias de nobres, o Conde de Sade pareceu ter encontrado uma pretendente que se adequasse aos propósitos de seu filho. Mais de uma noiva em potencial havia se recusado a se casar com o Marquês, com base em sua reputação de comportamento libertino. Todavia, os pais de Renée-Pelagie de Montreuil, membros da burguesia com poderosos contatos na corte real, foram receptivos à proposta do Conde. Pelagie, como preferia ser chamada, era uma mulher de características simples e intelecto modesto, mas era o dote dela que mais preocupava o Conde. Casando seu filho, ele esperava se livrar de dois fardos de uma só vez: dinheiro e o próprio Marquês. “No que me diz respeito, a melhor coisa neste casamento é que eu me livrarei daquele garoto, que não possui uma boa qualidade sequer, e todas as qualidades ruins”, escreveu o Conde de Sade ao irmão. “Eu não poderia pagar tanto pelo prazer de não ouvir mais notícias dele”.

Donatien tinha seus próprios planos, no entanto. Apaixonado por uma mulher da Provença, ele deixou claro ao pai que não tinha pressa em sair de casa e se casar com uma mulher que sequer conhecia. Aquele romance teve suas próprias complicações, nada menos que o fato de que o Marquês havia contraído um caso de gonorreia, uma calamidade pela qual ele culpava sua amante, que o tinha trocado por outro. “Eu admito que não devo esconder isto [a doença] de meu rival e que esta não será a única confidência que dividirei com ele. Juro, eu seria capaz de todos os horrores possíveis”, ameaçou.

Embora Donatien ainda não tivesse chegado a Paris, as notícias da sua doença chegaram, aterrorizando seu pai que labutava com os preparativos do casamento, marcado para meados de maio. “Ele ainda é capaz de estragar o acordo”, escreveu ele à irmã. E para complicar ainda mais, a Condessa de Sade apareceu para as festividades, fazendo rara aparição na vida do filho. No entanto, ela recusou-se a ficar em companhia do filho enquanto esteve em Paris. “Meu filho precisa ficar comigo”, reclamou o Conde para o irmão. “A mãe dele não o deseja mais”.

24 horas antes do seu próprio casamento, o Marquês de Sade finalmente cedeu e chegou a Paris. A cerimônia aconteceu em 17 de maio, na Igreja de São Roque. A nova vida com os de Montreuils correu bem para o Marquês, que era atencioso e amável com sua nova esposa, bem como charmoso e gracioso com seus novos parentes. A mãe de Pelagie tinha o título de “Presidente” porque o marido havia sido nomeado para um prestigiado juizado e, após a aposentadoria, manteve o título honorário de Presidente. A “Presidente” era bastante apegada a Donatien e, apesar de ter suspeitas sobre sua fidelidade como marido, ela voluntariamente as deixava de lado na medida em que passava a adorar cada vez mais seu novo genro. Os recém-casados foram morar com os de Montreuil e nos primeiros meses a vida seguiu alegremente, enquanto uma harmonia divertida e afetuosa se estabelecia entre o Marquês e a “Presidente”. A sogra de Donatien também tinha se tornado bastante próxima do tio dele, o Abade, e escreveu-lhe elogiando o jovem e libertino Marquês:

“Ela [filha] jamais ralhará com ele. Ela o amará além de qualquer expectativa. Isso é relativamente simples: ele é amável. Até agora ele a ama imensamente, e ninguém poderia tratá-la melhor”.

Todavia, como a própria “Presidente” acabaria por descobrir, ela havia falado bem e cedo demais do jovem cuja reputação e caráter havia suspeitado nos primeiros dias do casamento. De fato, a verdadeira natureza do Marquês de Sade, seu lado sombrio, que até então ele escondera no labirinto de seu coração, logo viria à tona e forneceria uma base bastante real para as apreensões iniciais da “Presidente”.

Os Vários Escândalos do Marquês


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“Ele obriga o rapaz a assistir sua amante ser mutilada, e comer sua carne, principalmente as nádegas, seios, e coração. Ele tem a opção de comer estas carnes, ou de morrer de fome. Assim que ele os devorar, se assim ele optar por fazer, o libertino inflige várias feridas profundas sobre ele e o deixa para sangrar até a morte; se ele se abstém de comer, então ele morre de fome.”

[Marquês de Sade. Os 120 Dias de Sodoma]

O episódio de Sade com a jovem prostituta foi sua primeira aventura a se tornar objeto de falatório desde seu casamento e o primeiro sinal de que o jovem charmoso que a “Presidente” amara e confiara era na verdade o pervertido sexual que ela temia que ele fosse. Dez dias após o incidente, Sade foi preso pelo inspetor Marais e aprisionado na masmorra de Vincennes, um histórico forte parisiense. Seu pai, que começava a ver seu filho mais amavelmente graças aos elogios e afeto da “Presidente”, ficou furioso. “Uma devassidão escandalosa, a qual ele orquestrou calmamente e sozinho”, esbravejou o Conde, que passara a maior parde de sua vida adulta participando de arrebatadoras orgias. Embora ultrajada, a “Presidente” tentou proteger a filha da natureza do delito de Sade, mesmo que Pelagie estivesse plenamente ciente de que seu marido havia sido preso.

O próprio Sade, estarrecido por ter sido preso por um comportamento que ele julgava ser comum entre os nobres, fez sua expressão mais contrita e implorou pela misericórdia da polícia:

“Este é um favor que ouso pedir-te de joelhos, com lágrimas nos olhos. Sê gentil o bastante para reconciliar-me com uma pessoa amada [Pelagie], a quem fui fraco demais para ofender tão dolorosamente… eu te imploro, meu senhor, não me recuses o privilégio de ver a pessoa mais querida que possuo no mundo. Se ela tivesse a honra de conhecer-te, tu perceberias que a sua conversa… é capaz de trazer de volta ao caminho reto e estreito um miserável que sente inigualável desespero por simplesmente tê-lo abandonado”.

Graças em parte à aparente autenticidade das súplicas de Sade, mas principalmente graças ao lobby da família de Montreuil, Sade foi libertado de Vincennes após três semanas de cárcere. Embora admoestasse severamente o Marquês por sua conduta bizarra, a “Presidente” também reafirmou sua crença de que ele ainda possuía um caráter totalmente redimível e confiável. A esse respeito ela continuaria descobrindo estar errada durante os vários anos seguintes. Na verdade, um ano depois de seu primeiro escândalo, Sade foi flagrado com uma deslumbrante atriz francesa em Paris, a Srta. Colet. A beldade de 18 anos era tão experiente nas artes eróticas que conseguia cobrar um valor de 720 libras francesas, ou cerca de R$ 8 mil reais em valores atuais, por uma noite de “trabalho”. Uma mulher de tão alta estirpe estava além das possibilidades financeiras de Sade, então ele tinha que marcar seus encontros em momentos em que ela não estava com um de seus clientes mais abastados.

O inspetor Marais, o oficial de polícia que prendera Sade após o incidente com Testard em Paris, havia sido encarregado de mantê-lo sob vigilância desde sua libertação de Vincennes. Ele manteve um registro detalhado da frequência e locais de seus encontros com a Srta. Colet, um registro que compartilhava com a “Presidente”, entre outros. Ela confrontou o genro com o conhecimento do caso, e convenceu-o a cessar suas infidelidades. Como no incidente com Testard, os dois concordaram que Pelagie devia continuar ignorando as atividades de Sade com a jovem atriz. Mas o que provavelmente começou como um acordo amigável para manter um ou dois incidentes isolados debaixo do tapete logo se tornou um quid pro quo normalizado, no qual Sade continuava seu comportamento libertino, a “Presidente” invariavelmente descobria cada depravação e os dois conspiravam para manter Pelagie desinformada, de modo que as notícias não abalassem seu emocional frágil. Apesar de um acordo tão duvidoso, a ligação entre os dois permaneceu forte por algum tempo.

Entretanto, até a paciência generosa da sogra de Sade tinha limite. Na primavera de 1765, o Marquês chegou à sua propriedade em La Coste, um castelo medieval a leste de Avignon. Uma mulher, que os locais presumiram ser a esposa dele, o acompanhava. Na verdade, sua admirável companhia era apenas uma amante. Sade estava mais uma vez “tirando férias” de sua esposa e desfrutando da companhia de outra mulher. Sem nenhuma vergonha de desfilar por aí com sua amante, não apenas dividiu sua cama em La Coste com ela, mas deu suntuosas festas no castelo, e convidou membros da nobreza de toda a região para compartilharem da diversão. Frequentemente, o Abade de Sade estava entre a hoste de convidados vistos festejando em La Coste, um homem que sabia muito bem que o “amor de momento” de seu sobrinho não era esposa dele. Isto não impediu o Abade de festejar com naturalidade, e ele não disse uma palavra a respeito da vergonhosa traição pública de seu sobrinho até que as fofocas sobre o assunto ameaçassem envolvê-lo no escândalo. Por fim, foi o próprio Abade quem revelou o segredo de Sade à “Presidente”, cuja fúria por ter sido traída mais uma vez pelo Marquês arruinou o já frágil acordo que eles mantinham. Ela respondeu ao Abade:

“Ele pode ter certeza que mesmo que eu tenha escondido suas folias de sua esposa… de modo a poupá-los de uma separação completa… quando ele estiver em risco por erros e infortúnios ainda piores eu irei firmemente informá-la, e convencê-la de seu destino infeliz”.

Quando o affair parisiense de Sade murchou no inverno, seu affair em La Coste floresceu. Ele retornou ao castelo no verão de 1766 para executar necessárias reformas no forte envelhecido. Para não deixar seu trabalho sem um toque pessoal, Sade também acrescentou uma sala secreta que utilizava para guardar alguns dos seus objevos pornográficos mais escabrosos, e uma biblioteca que ostentava títulos como “A Voluptuosa Vida dos Capuchinhos” e “Contos das Fornicações de Padres e Monges”. Desacompanhado de Pelagie, que permaneceu acamada na casa de seus pais e pranteava por seu filho recentemente natimorto, Sade aparentemente permaneceu casto durante este verão.

Ao fundo, acima do morro, as ruínas do Castelo de La Coste, residência do Marquês de Sade, de 1769 a 1772.

Ao fundo, acima do morro, as ruínas do Castelo de La Coste, residência do Marquês de Sade, de 1765 a 1772.

O pai de Sade, o Conde de Sade, morreu em janeiro de 1767, mas em vez de o Marquês se lançar num prolongado período de luto e castidade, o evento pareceu despertar a libido latente de Donatien. Ele flertou com inúmeras mulheres durante a primavera, mas retornou a La Coste para outro verão de castidade. Pelagie, grávida novamente, deu à luz ao seu primeiro filho, Louis-Marie de Sade, em 27 de agosto de 1767. O Marquês voltou à Paris para ficar com a esposa, e mais uma vez a “Presidente” creu que a natureza de Sade, domada pelo manto da paternidade, finalmente o tornaria o marido fiel e apaixonado que ainda acreditava que ele era capaz de ser.

Entretanto, as esperanças da “Presidente” foram frustradas novamente quando em 4 de abril de 1768, domingo de Páscoa, Sade vitimou outra jovem incauta. Rose Kellor, uma cozinheira viúva e desempregada, foi vista por Sade pedindo esmolas do lado de fora da Igreja dos Petit Pères em Paris. O Marquês se apresentou e ofereceu-lhe dinheiro em troca de serviços “domésticos”. Relutantemente ela concordou, e foi levada a uma casa de campo nos arredores da cidade, enquanto Sade lhe assegurava que a trataria bem. Após entrarem na casa, Sade a levou a um quarto e ordenou que ela tirasse as roupas. Assustada e desconcertada, a jovem perguntou o porquê, ao que Sade respondeu “por diversão”. Ela se despiu totalmente, exceto pela sua camisa, mas isso serviu apenas para enfurecer Sade, que arrancou a roupa do corpo dela. Ele então a atirou na cama, de bruços, e começou a açoitar as nádegas nuas da moça com um “gato de nove caudas”. Insensível aos gritos aterrorizados da mulher, Sade teve um orgasmo, gemendo violentamente.

Depois de levar alguns momentos se recompondo, Sade deixou o quarto. Kellor imediatamente rasgou os lençóis da cama em longas tiras, as quais ela amarrou numa corda comprida. Ela prendeu a corda ao pé da cama e desceu pela janela até o jardim, de onde fugiu em direção a Paris. Camponeses, respondendo aos seus gritos, encontraram a mulher seminua e coberta pelo seu próprio sangue. Ela foi levada à casa do policial local, que por sua vez a levou a um juiz no dia seguinte para colher seu depoimento. O Marquês havia retornado à casa de seus parentes na manhã de domingo, e as notícias de seu ataque já haviam chegado à casa na tarde de segunda. Pela primeira vez em toda sua história de infidelidades, o Marquês não poupou Pelagie dos detalhes de seu encontro sórdido com a Sra. Kellor. Todavia, em vez de ficar escandalizada ou devastada pelo relato, Pelagie começou imediatamente a criar dispositivos legais pelos quais seu marido poderia se proteger das acusações. Seria um papel que ela iria finalmente usurpar completamente da mãe, um papel que de certo modo pode ser comparado à defesa feita por Hillary Clinton às várias escapadas do marido Bill, sendo a mais notável com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. Contudo, foi talvez ao usurpar este papel que Pelagie finalmente causou o rompimento entre a “Presidente” e o Marquês.

Retrato atribuído a Renée-Pélagie de Montreuil, a esposa do Marquês de Sade.

Retrato atribuído a Renée-Pélagie de Montreuil, esposa do Marquês de Sade.

Graças aos esforços incansáveis da “Presidente” e de Pelagie, Sade cumpriu apenas quatro meses de prisão por seu crime. No entanto, ele descobriu que agora poderia contar com sua própria esposa para auxiliá-lo em sua infinita busca por programas sexuais diversos e elaborados, e um dia pediria a ajuda dela para organizar uma escandalosa orgia de seis semanas em La Coste. Mas esta orgia não foi realizada, contudo, antes de Sade organizar sua própria orgia, que incluía seu criado, Latour, e quatro prostitutas na cidade de Marselha. Este encontro libidinoso, que aconteceu em 27 de julho de 1772, envolveu o consumo de cantárida [bebida afrodisíaca preparada à base do corpo triturado de um besouro de mesmo nome] e uma variedade de situações de ménage à trois, nos quais o Marquês poderia açoitar uma prostituta enquanto masturbava seu criado; fazer amor com uma prostituta enquanto era sodomizado pelo criado; ou sodomizar uma prostituta que estava simultaneamente praticando sexo oral em Latour. Entre os pedidos mais bizarros e espantosos de Sade estava que suas companhias femininas consumissem grande quantidade de seus doces de cantárida: o objetivo dele era lhes dar mais gás para que ele pudesse lhes tirar o fôlego, por assim dizer. Ele também pedia que pudesse chicotear as jovens moças com um instrumento de aparência particularmente violenta, que já estava coberto com o seu próprio sangue. Elas também foram obrigadas a tomar comprimidos que supostamente aumentavam os gases do aparelho digestivo, assim Sade poderia enfiar o rosto nas nádegas das moças enquanto elas peidavam.

Assustadas pela natureza bizarra e brutal de seus pedidos, as mulheres imploraram para que ele as deixasse ir. Elas partiram, mas Sade e Latour logo encontraram outra jovem, chamada Marguerite Coste, para continuar a orgia. Finalmente, Sade dispensou Latour por aquela noite, e foi incapaz de convencer Marguerite a deixar que ele a sodomizasse. Sodomia (coito anal) era um crime na França e ela recusou, mas não antes de consumir uma caixa inteira dos doces de cantárida de Sade. Ela foi embora depois disso, mas pouco depois ficou terrivelmente doente e começou a vomitar os doces. Foi levada a um médico por vizinhos preocupados e depois de medicada foi levada à polícia, onde deu testemunho referente aos pedidos sodomitas do Marquês. O depoimento dela, junto com o das quatro outras prostitutas traumatizadas, era mais do que suficiente para convencer as autoridades a emitir um mandado de prisão para o Marquês e seu criado, Latour. Autoridades policiais chegaram a La Coste pouco depois para prender os dois homens, mas descobriram que eles haviam sido avisados e fugido do castelo para um esconderijo. A cunhada de Sade, a deslumbrante Anne-Prospere, com quem se suspeitava que o Marquês tivesse um caso, os acompanhou. Embora ela tenha retornado para La Coste sem o Marquês, sua ligação com ele e a contínua defesa de Pelagie a seu marido garantiram a ira e inimizade eternas da “Presidente”.

Sade permaneceu foragido por alguns meses, vagando pela Europa. Latour continuou em sua companhia, enquanto Anne-Prospere retornou para sua família na França. Por volta do mês de novembro, Sade, Latour e dois outros criados, Carteron e Martin Queros, estavam entocados em uma vila localizada no estado da Sardenha. Por razões incompreensíveis, Sade, num momento em que as autoridades da Coroa francesa estavam procurando por ele e sua sogra estava determinada a usar toda a influência dela para destruí-lo, decidiu escrever uma carta para a própria esposa. Sade efetivamente ofereceu sua própria cabeça numa bandeja à “Presidente”. Ela aproveitou a oportunidade e, através do ministro francês de Assuntos Exteriores, fez com que as autoridades Sardenhas apreendessem Sade. Eles fizeram isso em 8 de dezembro de 1772, e Sade foi extraditado para a prisão francesa de Miolans. Apesar de seu confinamento ser bastante confortável para um prisioneiro, pela primeira vez na vida Sade foi privado das regalias mais básicas: ele foi proibido de receber visitas e até a sua correspondência era severamente censurada pelas autoridades policiais.

Imediatamente, a mente ardilosa de Sade bolou um plano de fuga. Como de costume, o Marquês empregou sua ferramenta mais comum e engenhosa: sua personalidade encantadora e habilidade de manipular os outros. Após alguns meses de estadia em Miolans, Sade convenceu o carcereiro de que era um criminoso em recuperação, um nobre inofensivo que havia sofrido um lapso momentâneo de razão. Enquanto aquela impressão começava a se gravar mais firmemente na cabeça do carcereiro, ele aumentou as regalias de Sade, permitindo que ele pudesse desfrutar da companhia de outros presos e andar pela área interna do castelo. De modo semelhante, a vigilância sobre o Marquês se tornou mais relaxada, exatamente como o ardiloso libertino previu que aconteceria. Sade havia estabelecido uma reputação irrepreesível como prisioneiro-modelo, que ele finalmente utilizou a seu favor na noite de 30 de abril de 1773.

Naquela noite, o guarda responsável por monitorar a cela de Sade não encontrou nada fora do comum quando viu a chama de uma vela tremulando lá dentro, e não se preocupou em verificar com seus próprios olhos se Sade estava lá dentro. Foi só tarde da noite, quando a vela continuou acesa, que os captores de Sade finalmente resolveram entrar na cela, só para descobrir que ele havia desaparecido. Numa mesa, perto da vela quase completamente derretida, Sade deixou duas cartas para o carcereiro: uma era um inventário detalhado de seus pertences, entre os quais havia vários de grande valor; a outra era uma atrevida declaração de independência da prisão. Nela, Sade teve o cuidado de agradecer aos seus captores pela ótima estadia, e até mesmo tentou livrá-los da culpa assegurando que fora sua própria inteligência, e não a inépcia deles, que havia tornado sua liberdade possível. Por fim, Sade alertou-os que todos os esforços para persegui-lo seriam reprimidos com violência. Com seu típico estilo sádico, ele escreveu:

“Quinze homens montados e bem-armados me aguardam na base do castelo… eles juraram arriscar as próprias vidas a me ver capturado novamente. Eu defenderei minha liberdade mesmo que isto custe minha vida. Eu tenho uma esposa e filhos, que os perseguiriam até a morte se vocês me machucassem”.

Sade passou os 18 meses seguintes em fuga, perambulando pela Europa Ocidental, permanecendo em cidades apenas por algumas noites. Em dezembro de 1774, entretanto, ele criou coragem suficiente para retornar em segredo a La Coste, para reencontrar sua esposa. Como alguém que jamais bancaria o maridinho satisfeito, Sade apresentou a Pelagie seu novo plano. Ele pediu que ela o auxiliasse a organizar sua fantasia sexual mais recente, uma orgia que era chocante até para os padrões sádicos e que finalmente levaria aos eventos que poriam um fim aos seus devaneios carnais.

O Caso das Garotas


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“Ele pula em cima da garota, a morde por toda parte, o clitóris e mamilos da garota são removidos com seus dentes. Ele ruge e grita como um animal feroz, e descarrega enquanto grita. A garota caga, ele come seu cocô no chão.”

[…] Ele fode delicadamente, e enquanto sodomiza, abre o crânio, remove o cérebro, e enche a cavidade com chumbo derretido.”

[Marquês de Sade. Os 120 Dias de Sodoma]

A orgia que Sade tinha em mente para os meses de inverno em La Coste marcou uma terrível e significativa mudança em seus fetiches já brutais. Apesar de ser experiente na arte de capturar as prostitutas mais pobres e indefesas da França, o Marquês havia desenvolvido um desejo sexual por aquelas com ainda menos recursos do que as prostitutas comuns – crianças. Com consentimento e auxílio de Pelagie, Sade contratou seis garotas adolescentes para trabalhar em La Coste, aparentemente como criadas domésticas. Entretanto, a ideia de criadagem de Sade possuía implicações mais sórdidas para aquelas adolescentes. Como uma distração preliminar, Pelagie instruiu seu advogado a não revelar que ela e seu marido eram os contratantes daquelas jovens, e responder a qualquer pergunta sobre o assunto alegando que outro parente distante da família havia feito os contratos.

Outrora uma prisão local, o castelo isolado de La Coste se tornou lugar de tormento e abuso para aquelas seis garotas. Dentro daqueles muros sombrios, chamados por alguns de “laboratório do sadismo”, o Marquês de Sade tinha domínio sobre cada minuto dos dias das garotas. Embora não haja registro oficial dos eventos, não é difícil descobrir através de seus escritos e ações anteriores que tipo de comportamento Sade deve ter mantido, e imposto às suas jovens criadas. Em seus últimos relatos, os personagens foram descritos participando de orgias elaboradas, com um personagem (provavelmente baseado no próprio Sade) dirigindo todas as ações.

Assim deve ter sido durante seis semanas em La Coste. Assistido pela esposa, duas outras criadas adultas e seu criado, Sade reunia suas prisioneiras diariamente para uma mistura de atividades: masturbação, felação, sodomia (tanto hetero quanto homossexual), “trenzinhos” de sodomia e, obviamente, flagelação. Tais atos com crianças, que fariam com que a maioria das pessoas de moral e discernimento se encolhesse de terror, causavam no Marquês uma sensação de êxtase: a dominação física e emocional de outra pessoa e a violenta destruição da inocência juvenil. Este êxtase é retratado por um dos protagonistas de “A Filosofia na Alcova”, escrito por Sade em 1795, que exclama:

“Que delícia corrompê-la, abafar nesse jovem coração todas as sementes de virtude e religião!”

Gravura baseada na obra de Marquês de Sade.

Ilustração do livro “Juliette”, escrito pelo Marquês de Sade e publicado em 1800.

É impossível saber por quanto tempo os bacanais de La Coste teriam durado caso tivessem passado despercebidos. Da forma que aconteceu, a orgia inimaginável de Sade continuou ininterruptamente durante seis semanas, até que os pais de algumas das garotas começaram a fazer perguntas sobre o paradeiro e bem-estar delas. Os moradores do vilarejo começaram a fofocar sobre os acontecimentos em La Coste. Embora fosse lendário por sua devassidão, Sade havia conquistado a afeição e o favor de seus camponeses ao longo dos anos. Contudo, embora a maioria dos moradores do vilarejo fechassem os olhos para o modo como os nobres levavam sua vida, a transgressão de Sade contra as jovens garotas ultrapassou os limites do comportamento aceitável para um nobre. Enquanto os boatos se espalhavam, Donatien e Pelagie conspiravam novamente, dessa vez para silenciar as garotas de modo que elas não revelassem detalhes das últimas seis semanas às autoridades. Uma a uma, elas foram enviadas para conventos locais, onde as freiras inocentes foram instruídas a não dar ouvidos aos delírios das garotas. Uma das garotas foi mandada para ficar com o Abade de Sade. Apesar dos protestos dele, Pelagie deixou claro que caso decidisse não ajudá-los ela possuía informações suficientes sobre as próprias atividades do Abade para que ele tivesse verdadeiros problemas com a lei.

Embora nenhuma providência legal tenha sida tomada imediatamente contra Sade, a orgia havia desencadeado uma série de eventos que levariam à sua última prisão. A “Presidente”, que havia jurado vingar a honra de sua família, tão profundamente maculada pelo Marquês, pôs o inspetor Marais de volta ao caso. Ela continuou a se preocupar com o apoio inabalável da filha ao Marquês e o afeto que ela mesma tinha por ele, escrevendo a um amigo:

“Jamais espere ouvir uma reclamação dela. Ela se permitiria ser picada em pedaços em vez de admitir que ele poderia fazer-lhe mal. Quando ele está em seu castelo com ela, ele se acha tão poderoso, tão seguro, e ele se permite todos os tipos de excesso”.

As atividades de Sade não tinham nada a ver com as de um homem que era procurado pelas autoridades por fugir da prisão. Na verdade, era imensa sua arrogância, sua crença inabalável que, como membro da nobreza, ele poderia viver da maneira que desejasse, que seu senso moral superava qualquer lei que regia a moralidade e a conduta. Esta ilusão foi dissipada quando, em julho de 1775, autoridades policiais cercaram La Coste numa tentativa de detê-lo e aprisioná-lo. Sade escapou por um triz, escondendo-se nas calhas da propriedade, e concluiu que La Coste não era mais um refúgio seguro para ele. Ele fugiu para a Itália, acompanhado por Carteron. No entanto, o Marquês não estava mais seguro em solo estrangeiro do que havia estado em casa. A “Presidente” certificou-se de que o fervoroso inspetor Marais monitorasse cada passo dele. Entre 1775 e 1777, Sade ia e voltava da França para a Itália, aproveitando a companhia de várias amantes, e participando nos eventos culturais da Itália como qualquer outro turista curioso.

Contudo, como havia sido por toda a vida, a arrogância de Sade e sua autoconfiança ilimitada foram sua ruína. No final de 1776, Sade retornou a La Coste, acompanhado de várias jovens mulheres selecionadas para ele por ninguém menos que um membro do clero local, um tal Padre Durand. No entanto, os acontecimentos degringolaram rapidamente: quando as notícias de seus feitos chegarm ao mosteiro, o Padre Durand foi imediatamente dispensado de suas funções. Enquanto isso, o pai de uma das jovens moças torturada e estuprada por Sade atacou La Coste com o objetivo de se vingar do Marquês. Uma discussão começou, durante a qual a pistola do homem disparou. Embora o cartucho estivesse vazio, a possibilidade de ser assassinado dentro de sua própria casa fez com que Donatien finalmente desse mais atenção à sua complicada posição judicial dentro da sociedade Francesa.

No que se mostraria um grave erro de avaliação, Sade concluiu que era hora de fazer as pazes com a família da esposa e com a Corte Real. Contra as recomendações de seu advogado, ele se dirigiu a Paris. Pelagie o seguiu em um cortejo separado e os dois foram para quartos distintos após a chegada. A habilidade de Sade em prever logicamente o resultado de tal jornada devia estar seriamente comprometida, pois sua sogra não possuía nenhuma intenção de perdoá-lo. Pelo contrário, ela havia planejado sua prisão por anos, um fato que o próprio Sade conhecia bem. Assim, o Marquês não deve ter ficado surpreso quando, ao abrir a porta de seu apartamento, em 13 de fevereiro de 1777, ele encontrou o inspetor Marais segurando um mandado de prisão, assinado pelo próprio Rei Luís XVI. Ao fim do dia, o Marquês de Sade era novamente um prisioneiro, encarcerado atrás dos muros do Castelo de Vincennes, na cela 11.

O Verdadeiro Marquês: símbolos e psicologia


Gravura de Donatien Alphonse François, Marquês de Sade. Mary Evans / Rue des Archives.

Gravura de Donatien Alphonse François, Marquês de Sade. Mary Evans / Rue des Archives.

“Antigamente, adorava foder bundas e bocas muito jovens; seu último progresso consiste em subtrair o coração de uma moça bonita, alargar o buraco que o órgão ocupava, foder o orifício quente, substituir o coração por aquele mar de sangue e esperma, costurar a ferida, e abandonar a moça a seu destino, sem ajuda de espécie alguma.”

[Marquês de Sade. Os 120 Dias de Sodoma]

O Marquês de Sade ficou preso durante 13 longos anos. Ele foi transferido para uma variedade de prisões durante este período, com seu último destino sendo a infame Bastilha, de onde as forças da Revolução Francesa o libertariam no fim dos anos 1780. Durante seu cárcere, sua aparência física se deteriorou severamente, e ele deixou seu confinamento como um miserável e autoindulgente, sem meios imediatos de sobrevivência. Entretanto, Sade, como seu pai, era experiente na arte de ser um camaleão social. Consequentemente, ele conseguiu criar relacionamentos com aqueles que poderiam ajudá-lo até sua morte, em dezembro de 1814, aos 74 anos. Ele também manteve um cargo eletivo em um dos recém-formados distritos revolucionários de Paris. Por estas e outras maneiras, o Marquês conseguiu manter comida na sua mesa e um teto sobre a cabeça, que dificilmente estavam à altura dos padrões nobres com os quais ele cresceu tão acostumado na juventude.

Apesar das diversas mudanças em sua situação e apesar de suas limitações físicas, uma das características imutáveis do caráter de Sade era sua libido, sua imaginação sexual. Durante o seu período de aprisionamento, ele passava o tempo idealizando as fantasias mais violentamente pornográficas que se possa imaginar, transformando-as em livros, que publicaria no período que se seguiu à sua libertação. Seus maiores trabalhos incluem “Os 120 dias de Sodoma” (1785), “Justine” (1791) (ou “Os Infortúnios da Virtude”), “A Filosofia na Alcova” (1795), entre outros. Prevendo uma furiosa repercussão social contra seu conteúdo, Sade astutamente publicou seus trabalhos usando um pseudônimo, e realmente os críticos literários condenaram seus escritos pelas gerações seguintes. Cópias de seus textos permaneceram geralmente indisponíveis, e onde podiam ser encontradas, geralmente eram mantidas guardadas à chave, apenas para adultos.

“Apenas masoquistas podem gostar disso”.

[The Telegraph, sobre 120 dias de Sodoma. Top 15 most depressing books]

Manuscritos originais de "120 Dias de Sodoma". Maurice Heine — Paris : Par S&C.

Manuscritos originais de “120 Dias de Sodoma”. Maurice Heine — Paris : Par S&C.

Contudo, o século 20 assistiu à emergência de estudiosos e críticos que desejaram apaixonadamente dissecar e defender o valor do trabalho do Marquês, talvez fazendo de Donatien um dos únicos e verdadeiros criminosos da história a ser inocentado e celebrado como legítimo intelectual e filósofo. Em um ensaio de 1951, chamado “Faut-il Bruler Sade (“É Preciso Queimar Sade?”), Simone de Beauvoir identifica Sade como um precursor de Freud, com uma compreensão intuitiva da natureza do coração humano.

“Observe-se, por exemplo, que em 1795 Sade escreve: ‘O ato do gozo convém ser uma paixão que subordina a si todas as outras, porém que ao mesmo tempo as reúne’. Não apenas na primeira parte deste texto Sade pressente o que se chamou o ‘pansexualismo’ de Freud, senão que faz do erotismo a mola real das condutas humanas; na segunda parte, propõe… que a sexualidade está carregada de significações que a ultrapassam. A libido está em toda parte e é sempre muito mais do que ela mesma: Sade, indubitavelmente, pressentiu esta grande verdade. As “perversões”, que o vulgo considera monstruosidades morais ou taras fisiológicas, sabe ele que envolvem o que hoje se chamaria uma intencionalidade. Ele compreendeu também que nossos gostos são motivados, não pelas qualidades intrínsecas do objeto, mas pela relação que este mantém com o indivíduo. Numa passagem da novela Justine tenta explicar a coprofilia: sua resposta é balbuciante, mas o que indica — utilizando canhestramente a noção de imaginação — é que a verdade de uma coisa reside não na sua presença bruta, mas no sentido que ela revestiu para nós no decorrer de nossa experiência singular. Intuições como estas autorizam-nos a saudar em Sade um precursor da psicanálise”.

São precisamente essas perversões, o fascínio de Sade e sua compreensão das entranhas da psique humana, que o autor Thomas Moore disseca em seu tratado sobre os trabalhos do Marquês, “Dark Eros: The Imagination of Sadism” [“Eros Sombrio: A Imaginação do Sadismo”, em tradução livre]. Embora não defenda o comportamento pessoal de Sade, Moore defende a literatura do Marquês sob um ponto de vista psicoanalítico, salientando que, assim como existe um valor inerente à compreensão e o encorajamento dos impulsos mais nobres da humanidade, existe igual valor à compreensão, e talvez certo encorajamento, das tendências mais obscuras da psique:

“A atmosfera repulsiva que o cerca [Sade] é como o fedor sulfúrico do demônio. Seria uma caricatura infernal sentir um cheiro de rosas quando Satã aparece. Meu propósito, assim, ao me voltar para Sade é encontrar esta consciência sombria, procurar uma imagem repulsiva apropriada à amplificação destes sonhos e fantasias e obras de arte que revelam uma estética submundana e uma realidade psicologicamente sombria”.

Representações repulsivas são abundantes no mundo literário do Marquês de Sade. Moore possui um tesouro de representações pervertidas de interações entre seres humanos, bem como entre indivíduos consigo mesmos. Perversões são usadas aqui não para descrever algo que é perverso ou imoral, mas uma imagem oposta, uma ação que por sua natureza está diametralmente em conflito com as normas e costumes da sociedade polida. Por exemplo, Moore menciona como Sade “perverte” a imagem tradicional do amor criada pela sociedade. Para muitos, o amor é a única emoção verdadeira, ou um estado de existência. Ele é colocado num pedestal e reverenciado como aspiração universal de toda a humanidade. E embora haja várias formas de amor, ele é frequentemente homogeneizado com propósitos comerciais; sua imagem é engrandecida, e até mesmo trivializada na cultura popular através de músicas, programas de TV e cartões. O resultado principal é a criação do mito do amor como doce, indolor, barato e disponível em qualquer TV, em qualquer disco ou loja de departamento.

Em seu trabalho, Sade se dedica a transformar esta noção. Para a mente sádica, o amor é algo frequentemente inacessível, amargo e conquistado somente após doloroso esforço. A noção sádica de amor é algo que não pode ser conseguido até que alguém alcance total autoconhecimento e isto, por sua vez, não pode ser conseguido até que a pessoa esteja disposta a enfrentar todas as terríveis imagens e realidades que guardamos dentro de nós. O amor sádico é a busca de Eros, o deus grego do amor, aquele a quem nossas almas anseiam por se unir, aquele que fornece à alma inspiração e desejo. Embora a maioria dessas inspirações inclua o desejo de estar financeiramente estável, ser bem-sucedido em determinado ramo profissional, ser um bom pai ou cônjuge, Moore postula que há validade no argumento de Sade que sempre há dois lados de uma moeda:

“A princípio pode parecer estranho alegar que as questões doentias e assustadoras que Sade apresenta tenham algo a ver com desejo, mas este é o valor da sua abordagem – revelar as agitações do amor em lugares onde ele parece estar ausente”.

De forma geral, este é o argumento de Sade, que apesar de todo o esplendor e êxtase associados ao amor, também há dor, solidão e ânsia, cujo valor é igual ao que a sociedade alega ser desejável no amor. Para Sade, estas coisas são inúteis a não ser que estejamos dispostos a aceitar e experimentar o lado feio do amor também:

“Apesar de o amor poder ser criativo, ele também é destrutivo e entrópico. Se a maior parte da literatura destaca as dores e os prazeres do amor, Sade volta suas atenções para seus objetos sombrios”.

Os mais sombrios destes objetos são excrementos fecais, que Sade defende que consumamos com prazer (sem trocadilhos), escrevendo:

“Nenhum hábito é mais fácil de ser adquirido do que o de saborear merda; coma uma, deliciosa, coma outra, ambas jamais terão o mesmo sabor, mas todos são sutis e o efeito é parecido com o de uma azeitona”.

A imagem literal que Sade evoca é provavelmente mais repreensível que qualquer outra na história da literatura. Entretanto, é na interpretação das propostas absurdas de Sade que Moore enxerga maior significado. Comer fezes representa um figurativo extremo, o extremo do espectro do comportamento humano, que representa o ápice do êxtase e da autorrealização. Em poucas palavras, a verdadeira liberdade, a habilidade de ser plenamente si mesmo, não pode ser experimentada até que alguém tenha coragem para se conhecer e sofrer aquela que é a pior circunstância possível para alguém, viajar para ambos os extremos daquele espectro e experimentar ambos igualmente. Como escreve Moore, “o amor possui seu componente excremental, e este, ao mesmo tempo em que a dieta mais saudável, precisa ser consumido”.

Para Moore, o que o trabalho de Sade definitivamente traz à luz é o “eu sombrio” que existe dentro de cada indivíduo. Esta parte do “eu” é mantida nas sombras da nossa própria existência por forças e regras exteriores. Motivados pelo medo de que nossa verdadeira natureza seja rejeitada pela sociedade, nós forçamos nossa existência a se conformar com expectativas que não são de nossa criação. Apesar desse status de pária, este lado do “eu” luta para encontrar uma válvula de escape para sua expressão, para obter legitimidade em um cenário polido onde ela não pode ser conseguida.

De muitas maneiras, Sade foi um surpreendente pensador moderno. Ele desprezava a noção de que mulheres serviam apenas para procriação e celebrou seu potencial orgástico. Seu desnudamento da misoginia institucional fez dele um herói paradoxal para algumas feministas. Angela Carter escreveu um livro sobre ele chamado “The Sadeian Woman”, onde cita um Sade libertário capaz de explicitar o status quo das relações homem-mulher.

Noções de Sade sobre o não controle da violência esbarra nos dias atuais. A ascensão do bullying na Internet confirma seus pensamentos mais pessimistas sobre o verniz da civilidade pública.

Uma crítica importante de Sade é que ele, a fim de chegar às suas conclusões, levou tudo ao extremo. A psique humana não é totalmente escurecida nem esclarecida, mas uma planície em que ambas as partes se misturam. Sade deixou um legado brutal e sublime. Ele é um enigma: por um lado, era um homem de elevada autoimportância com um brutal temperamento sexual, por outro um homem apaixonado e dedicado à defesa do indivíduo, possuidor de uma profunda compreensão das complexidades da psique humana. Como tratar a memória dele deve ressoar através dos séculos: devemos queimá-lo ou celebrá-lo?

Fontes consultadas: [1] 103 Contos de Fadas, Angela Carter. Companhia das Letras, 2007; [2] Serial Killers – Anatomia do Mal, Harold Schechter. DarkSide Books, 2013; [3] 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade. Supervert, 2002; [4] The Life and Times of the Marquis de Sade Geocities.com; [5] Gorer, Geoffrey (1962). The Life and Ideas of the Marquis de Sade. New York: W. W. Norton & Company; [6] Infortúnios da Virtude, Os. Marquês de Sade. Iluminuras, 2009; [7] Crimes do Amor, Os. 2008; [8] Who was the Marquis de Sade really? Suzi Feay. The Telegraph. 2 dez 2014; [9] Marquis de Sade: rebel, pervert, rapist…hero? John Lichfield. The Independent. Nov. 2014; [10] Who’s afraid of the Marquis de Sade? Jason Farago. BBC Culture. Out. 2014;

Esta matéria teve colaboração de:

Marcus Santana

Marina Ferezim
Revisão

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
  • Anjo

    Tomara que esteja queimando no inverno esse filha da puta!

    • O Governador

      lol

  • Anjo

    Como assim celebrar??? esse desgraçado torturou muita gente. A humanidade não precisa dele assim como nao precisa do hitler.

  • mIMI

    Sadismo não é e nunca foi algo normal. Uma pessoa que se excita com a dor alheia não é mentalmente normal, mesmo que haja ‘consentimento’ (1o que é difícil dizer quando realmente consentiu e, se há uma ‘concordância mútua’ os 2 (ou +) devem ser dementes). É absurdo como a sociedade banaliza isso. Essas pessoas fazem muito mais do que os olhos da justiça podem ver. Pessoas normais acham ridículas situações que envolvem isso (é totalmente desnecessário!), e sequer conseguem ‘ir adiante’ se um dia quiser tentar. Quem trabalha com a área de proteção à criança ou à família sabe como não é incomum, abusos, inclusive, de irmãos pequenos, pais com filhos, mulheres com filhos, crianças com animais, etc. A sexualidade é algo que deve ser desmistificado, mas tudo tem um limite, o sofrimento alheio, de seres reais de forma alguma pode ser banalizado. Se ela se torna algo principal da vida da pessoa, como a nossa mídia ama propagar, e a todo custo, não há normalidade, tal qual se vê com esse psocopata.
    Ainda se a pessoa sabe distinguir o real de sua imaginação, aí sim ela é saudável, mas quem põe em prática tem problemas. E muitas vezes extrapola. Esse cara é um merda, só é ‘celebrado’ até hoje porque tem uma grande parte da sociedade com poder que quer, de alguma maneira, legitimar o que faz. Se quiserem legitimar, até em lixo tóxico se pode dizer que tem ‘alguma utilidade’, mas até quando isso é realmente legítimo?

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