As cartas de Ted: a estratégia de mídia do Unabomber

Durante algum tempo, Kaczynski tentou usar a mídia para contar a sua versão da história do Unabomber. Agora, ele também a detesta.
Uma multidão de repórteres espera a chegada de um dos mais notórios criminosos da história americana. O "Unabomber", de uniforme laranja, caminha escoltado até uma corte federal em Helena, Montana, em 4 de Abril de 1996, dia em que foi preso. Elaine Thompson | AP Photo.

Uma multidão de repórteres espera a chegada de um dos mais notórios criminosos da história americana. O “Unabomber”, de uniforme laranja, caminha escoltado até uma corte federal em Helena, Montana, em 4 de Abril de 1996, dia em que foi preso. Elaine Thompson | AP Photo.

De sua cela na prisão, Ted Kaczynski — o Unabomber, que aterrorizou os Estados Unidos na década de 1980 e início de 1990, manteve notáveis correspondências com milhares de pessoas ao redor do mundo. Com a proximidade do vigésimo aniversário de sua prisão, o blog O Aprendiz Verde reproduzirá uma série de artigos publicados pelo Yahoo! News com base em suas cartas e outros textos, armazenados em um arquivo da Universidade de Michigan. Eles lançam uma luz sem precedentes sobre a mente de Kaczynski — gênio, louco e assassino.

De sua cela de prisão em Florence, Colorado, Ted Kaczynski continua a ter vários inimigos declarados: a tecnologia moderna, sua família, seus ex-advogados e uma longa lista de antigos correspondentes que ele acredita que o enganaram de uma forma ou de outra.

Mas nos anos recentes, boa parte da ira de Kaczynski foi direcionada à mídia que, segundo ele, distorceu completamente a história de sua vida e de como ele se tornou o Unabomber.

“O pessoal da mídia deve ser as pessoas mais desonestas e irresponsáveis na face da terra, com a possível exceção dos advogados”, escreveu Kaczynski a um correspondente em novembro de 2002 — expressando o que, para ele, era uma opinião inesperadamente próxima do senso comum (até onde se sabe, ele não tentou matar nenhum jornalista, apesar de uma de suas bombas ter matado Thomas J. Mosser, um executivo de relações públicas de New Jersey. Kaczynski afirmou mais tarde que escolheu Mosser porque ele trabalhava na matriz da Burson-Marsteller, uma empresa de relações públicas que lidou com o vazamento de óleo da Exxon Baldez no Alasca).

Mas o Unabomber nem sempre manifestou total desprezo por jornalistas. Cartas em seu arquivo de documentos pessoais na Coleção Labadie, na Biblioteca da Universidade de Michigan, mostram o quanto Kaczynski se relacionou com a mídia desde os primeiros dias do seu caso e como ele tentou usar jornalistas para expor sua própria narrativa a respeito de si e seus ideais.

Numa cadeia em Montana, apenas alguns dias após sua prisão, Kaczynski, que durante seu reinado de terror conseguiu forçar o The New York Times e o The Washington Post a publicar seu manifesto antitecnologia de 35 mil palavras, rascunhou uma nota à imprensa a seu próprio respeito para enviar a um jornal local, em parte para lidar com a avalanche de correspondências que recebera, mas não conseguiu responder.

Kaczynski em uma de suas primeiras aparições públicas no tribunal. Meticuloso, ele enviou uma carta a seus advogados sugerindo as roupas que deveria usar.

Kaczynski em uma de suas primeiras aparições públicas no tribunal. Meticuloso, ele enviou uma carta a seus advogados sugerindo as roupas que deveria usar.

Ele enviou cartas aos defensores públicos inicialmente designados para seu caso sugerindo as roupas — um blazer sóbrio, nada de gravatas — que ele deveria usar em sua primeira aparição em juízo, para impressionar a massa de câmeras. Mais tarde, ele escreveu a seus advogados sugerindo “vazamentos” à mídia para contrapor as “mentiras” de sua família a seu respeito, incluindo a afirmação de que ele seria mentalmente doente.

Great Falls Tribune

Gostaria que as pessoas soubessem que grande parte do que elas leem a meu respeito nos jornais é falso. Eu não posso listar todos os erros aqui — se eu tentasse fazer isso, esta carta ficaria longa demais para vocês publicarem. Mas estou percebendo que o padrão de exatidão da imprensa é chocantemente baixo. Quando eu era criança, as pessoas costumavam dizer “não acredite no que lê nos jornais”. Eu jamais percebi o quanto essa afirmação era verdadeira até agora.

Mudando de assunto, gostaria de dizer que tenho sido tratado de forma bastante gentil e atenciosa pela equipe da prisão do Condado de Lewis and Clark, e gostaria de agradecer-lhes publicamente.

[…]

Prezado Senhor,

O programa que você representa se chama “Larry King Live”. Isso significa que suas transmissões são realmente ao vivo? Em outras palavras, se eu lhes desse uma entrevista, ela seria transmitida ao mesmo tempo? Isto é importante para mim porque em uma transmissão ao vivo minhas observações não poderiam ser editadas. Nos poucos casos em que dei informações aos jornalistas, eles escolheram transmitir ou publicar partes que se encaixavam na imagem que eles queriam projetar, e omitiram o resto. Deste modo, eu tenho sido impedido de falar publicamente o que eu quero falar. É por isso que uma oportunidade de fazer observações sem edição me seria bastante atraente.

Devo acrescentar que não pretendo dar nenhuma entrevista na televisão ou rádio num futuro imediato, mas posso querer lhes dar uma posteriormente, se o programa for ao vivo e sem edições.

[…]

Prezados Senhores,

Em relação às cartas sobre psicanálise que apareceram na The New York Review de 24 de fevereiro de 2000, ninguém notou o que possivelmente é o problema mais importante com a psicanálise. Se isto ou aquilo que a psicanálise afirma é verdadeiro ou falso depende do ponto de vista. A Bíblia contém várias verdades históricas e muitas perspectivas astutas sobre a natureza humana, mas não é por isso que as pessoas acreditam na Bíblia. Similarmente, os alquimistas da escola mística podem ter feito muitas observações corretas que foram úteis aos cientistas posteriores, mas as experiências deles não eram sobre aquilo, nem era por isso que eles acreditavam em suas teorias.

O objetivo dos cientistas é formular teorias que prevejam corretamente resultados observáveis. Conceber uma teoria que se fundamenta em testes empíricos satisfaz às necessidades pessoais dos cientistas de várias maneiras, como um sentimento de realização, a aprovação de seus pares e o sucesso de sua carreira. O que distingue a pseudociência da ciência (e eu me refiro aqui à pseudociência real, não o charlatanismo consciente) é que o pseudocientista satisfaz suas necessidades pessoais ao acreditar em uma teoria em vez de testar teorias empiricamente. É o potencial psicológico da teoria em si que atrai os pseudocientistas, não sua capacidade de predizer resultados experimentais. Assim, o compromisso dos pseudocientistas com uma teoria é determinado mais por suas necessidades psicológicas do que pela observação empírica. Neste sentido, a pseudociência se assemelha à religião e muito da filosofia, e difere delas apenas ao tentar se disfarçar com o aspecto de ciência empírica.

Ninguém precisa ler muito sobre psicanálise para para ver que seus métodos são predominantemente de pseudociência, não ciência. Mesmo o linguajar usado deixa isto claro. Por exemplo, Marcia Cavell afirma no quarto parágrafo da carta dela que “a mente não é o mestre em sua própria casa”, e aparentemente ela pensa que esta afirmação possui base científica. Mas em termos científicos esta afirmação não possui sentido algum. É uma expressão de atitude, uma afirmação ideológica, e é característica da ideologia psicanalítica.

Uma vez que não li nada publicado sobre psicanálise nas últimas duas décadas, não estou em condições de afirmar se a psicanálise ainda é uma pseudociência nos dias de hoje. Mas seria uma surpresa se o campo tivesse mudado de um modo fundamental o suficiente para se tornar uma ciência genuína.

Presumo que os comentários acima expostos encontrarão considerável resistência entre os que acreditam na psicanálise — e eu uso aqui a palavra “resistência” no sentido psicanalítico. Parafraseando Mortimer Ostow (quarto parágrafo de sua carta), “um psicanalista sabe o porquê de acreditar na psicanálise? É comum responder a esta pergunta com raciocínios, mas raciocínio não é razão”.

[Trechos de cartas escritas por Ted Kaczynski a diferentes veículos de mídia]

Página codificada encontrada entre os pertences de Ted Kaczynski. A mensagem foi decodificada pelo FBI e conteria confissões e discussões sobre os crimes do Unabomber.

Página codificada encontrada entre os pertences de Ted Kaczynski. A mensagem foi decodificada pelo FBI e conteria confissões e discussões sobre os crimes do Unabomber.

Quase ao mesmo tempo em que foi publicamente identificado como o Unabomber e preso, Kaczynski foi inundado com pedidos de entrevista de grandes nomes do jornalismo, incluindo Diane Sawyer da ABC e a âncora do Yahoo News Global Katie Couric, que naquela época (em 1999) era apresentadora do programa “Today”, da NBC. Centenas de páginas de cartas mostram que Kaczynski recebeu pedidos de todos os grandes programas de entrevistas, incluindo o “Larry King Live”, da CNN, “60 Minutes” e “Dateline”, da NBC. Enquanto isso, jornalistas dos maiores jornais do país lhe escreviam, pedindo o seu lado da história do Unabomber. Ele não respondeu.

Em 1998, ele recebeu até mesmo um pedido de entrevista de um produtor do “The Roseanne Show”. “Se você sabe algo sobre Roseanne [Barr], deve saber que ela é uma não-conformista e raramente faz o que a sociedade espera dela”, escreveu o produtor. “Creio que você e ela definitvamente ‘se darão bem’, e a conversa definitivamente seria interessante e satisfatória para ambos”. Kaczynski não respondeu.

No ano seguinte, ele deu o que seria sua única grande entrevista: uma conversa com Stephen Dubner, que mais tarde foi coautor do livro “Freakonomics” [lançado no Brasil com o título “Freakonomics – O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta”, na qual Kaczynski fala sobre seu irmão, David. Mas de acordo com suas cartas, Kaczynski achou que a matéria, que foi publicada na revista Time, era “desastrosa” por causa do tratamento simpático dado a David, que forneceu a informação que levou à sua prisão.

Alguns meses depois, Kaczynski concedeu uma entrevista a Joy Richards, uma correspondente com quem ele posteriormente desenvolveria um romance, na esperança de apresentar sua história com total controle editorial. Ele mais tarde ofereceu a matéria à Playboy, que recusou a oferta, e a Jann Wenner, da Rolling Stone, que trocou cartas com Kaczynski demonstrando interesse em uma entrevista, mas com um escritor escolhido pela revista. Kaczynski acabou desistindo das negociações.

Ao longo dos anos, Kaczynski tem escrito cartas a editoras de publicações incluindo a The New Yorker e a The New York Review of Books — que responderam com cartas cartas padronizadas de rejeição. E ele ocasionalmente troca cartas com jornalistas, mas recusa a maioria dos pedidos de entrevistas, mencionando sua raiva do artigo de 1999 da Time. Ele não respondeu a uma carta solicitando uma entrevista para esta série.

Eu nunca mais considerarei, por um momento que seja, a possibilidade de confiar em um jornalista reconhecido.

[Ted Kaczynski, 2003]


Esta matéria teve colaboração de:

Marcus Santana
Texto

Marina Ferezim
Revisão

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