Mulheres e Venenos na França do Século XVII

Durante o fim da década de 1660 e início da década de 1670, mortes misteriosas de vários membros da nobreza francesa se sucederam uma após a outra, levando a um escândalo que ficou conhecido como "O Caso dos Venenos", que envolveu indivíduos proeminentes da corte de Luís XIV da França.
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Mulheres e Venenos na França do Seculo XVII

INTRODUÇÃO


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Durante o fim da década de 1660 e início da década de 1670, mortes misteriosas de vários membros da nobreza francesa se sucederam uma após a outra, levando a um escândalo mais conhecido como “O Caso dos Venenos” [L’affaire des Poisons], que envolveu indivíduos proeminentes da corte de Luís XIV da França. O Rei, temendo que a difusão da prática de envenenamento pudesse pôr em risco sua própria segurança e a da família real, designou Nicolas de La Reynie, Tenente Geral da Polícia de Paris, para coordenar a investigação. Em 1679, ele também criou um tribunal especial, conhecido como Câmara Ardente [Chambre Ardente], para julgar os assassinatos. O tribunal operou por três anos, determinando 319 intimações, prendendo 194 indivíduos e sentenciando 36 deles à morte.

Este artigo examina o envolvimento de três mulheres que foram implicadas diretamente no escândalo: a Marquesa de Brinvilliers, cujo julgamento sacudiu a corte real de Luís XIV e cuja decapitação inspirou o imaginário popular; a bruxa Catherine La Voisin, que foi processada e queimada viva por fornecer pós mágicos e poções venenosas a membros da corte real; e finalmente, a Marquesa de Montespan, uma das amantes favoritas de Luís XIV, que supostamente adquiriu pós do amor de La Voisin e participaria de missas negras [ritual cerimonial de satanismo que simula a liturgia da missa cristã], mas cujo envolvimento direto no escândalo jamais foi efetivamente determinado pela Chambre Ardente.

Ao investigar a participação destas três personagens femininas emblemáticas no Caso dos Venenos, este artigo questiona o discurso que circunda gêneros e crimes na história, aprofundando a compreensão das motivações da mulher ao cometer assassinato e as estratégias que ela adota. Ademais, o artigo examina como o sistema legal lidou com os crimes femininos, diferenciou as punições com base em sua classe e posição social e responsabilizou mulheres pelo envenenamento do país, deixando de reconhecer as reais deficiências da monarquia francesa, o declínio do catolicismo e a opressão às mulheres na sociedade patriarcal.

O restante do artigo se organiza da seguinte forma: a Parte I descreve a vida e os crimes cometidos por Marie-Madeleine Marguerite D’Aubray, Marquesa de Brinvilliers, cujo julgamento marcou o verdadeiro início do Caso dos Venenos e suas investigações mais relevantes. A Parte II conta a história da bruxa Catherine Deshayes, Senhora Montvoisin, conhecida como La Voisin, cuja prisão indicou o momento crucial para a revelação do escândalo e a identificação de suas principais participantes. A Parte III examina a instituição e o funcionamento da Chambre Ardente, a comissão criminal especial estabelecida por Luís XIV para investigar e processar os crimes e suspeitos relevantes. A Parte IV retrata a vida, ambição e envolvimento de Françoise Athénaïs de Rochechouart de Montemart, Marquesa de Montespan, no Caso dos Venenos. Finalmente, a Parte V investiga a arte da preparação de venenos e poções do amor na França do Século XVII, a celebração de missas negras e rituais de magia bem como as condições sociais das mulheres e suas subsequentes motivações nos envenenamentos.

I. MARIE-MADELEINE MARGUERITE D’AUBRAY, MARQUESA DE BRINVILLIERS

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Três anos antes do Caso dos Venenos iniciar oficialmente o julgamento da famosa envenenadora em série, Marie-Madeleine Marguerite D’Aubray, Marquesa de Brinvilliers, já havia chocado a corte real de Luís XIV e permeado o imaginário popular. A bem-nascida Marie-Madeleine Marguerite D’Aubray era a mais velha dos cinco filhos de Antoine Dreux d’Aubray, Senhor de Offemont e Villiers, Conselheiro de Estado, Mestre das Petições em 1638, Tenente Civil da cidade de Paris em 1643 e Tenente Geral das Minas da França. Tradicionalmente, sua família havia pertencido à classe da magistratura, que garantia bastante prestígio e ótima reputação na sociedade francesa da época. Em 1651, Marie-Madeleine Marguerite d’Aubray casou-se com Antoine Gobelin, Marquês de Brinvilliers e Barão de Nourar, ingressando assim, com apenas dezessete anos, na imoral aristocracia francesa. Provavelmente, o casamento foi arranjado entre a nobre família d’Aubray e o rico Marquês de Brinvilliers, filho do antigo presidente da Corte de Auditores da França.

Marie-Madeleine Marguerite d’Aubray foi retratada como:

“uma mulher muito atraente. Sua pele era extraordinariamente branca. Seu cabelo era bastante volumoso, do mais profundo castanho. Seus olhos eram azuis. Ela não era alta, mas de corpo muito bem-feito. Sua inteligência era acima da média. Sob certo aspecto, havia tido uma boa educação”.

Por outro lado, o Marquês de Brinvilliers foi descrito como “um homem sem moral. Muito pior, ele era um homem sem personalidade, fraco como água e instável como areia“. Após apenas alguns anos de casamento, a Marquesa de Brinvilliers se acostumou às práticas libertinas da aristocracia francesa, especialmente pelo fato de seu marido não se importar muito com ela, se satisfazendo com sua própria devassidão e jogos reprováveis.

Com efeito, ela se tornou amante de Gaudin de Sante-Croix, um jovem e atraente oficial do exército, de péssima reputação, que o Marquês de Brinvilliers conhecera em 1659, quando eles serviram no mesmo regimento, e de quem se tornara amigo íntimo desde então. O romance entre os dois foi inicialmente tolerado pelo Marquês, até ir de encontro a seus interesses financeiros. De fato, quando Marie de Brinvilliers, a conselho de Gaudin de Sante-Croix, decidiu considerar uma ação de divórcio judicial para separar sua fortuna da de seu marido, que prodigamente dilapidava o patrimônio conjunto deles, um escândalo público veio à tona. Preocupado com a repercussão negativa sobre toda a família d’Aubray, inicialmente dois de seus irmãos e, finalmente seu pai, Antoine Deux d’Aubray, exigiram que Marie de Brinvilliers rompesse o relacionamento com Gaudin de Saint-Croix. Conta-se que:

“como pai, [Dreux d’Aubray] implorou [a sua filha] para que respeitasse a honra de sua família; como magistrado, ameaçou-a com todas as punições a seu alcance”.

Apesar da pressão de sua família, Marie de Brinvilliers se recusou a cumprir as exigências do pai e resolutamente continuou o romance com Sainte-Croix. Sua resistência finalmente levou Dreux d’Aubray à medida extrema de requerer ao Rei um mandado de prisão, ou lettre de cachet, contra Gaudin de Sainte-Croix. Em 1663, o cavalheiro Gaudin de Saint-Croix foi preso publicamente em nome do Rei e imediatamente transferido para a fortaleza-prisão de Bastilha, em Paris. Tal insulto público não poderia ser perdoado pela Marquesa ou por seu amante. Durante seus três meses sob custódia, Gaudin de Saint-Croix tornou-se amigo do prisioneiro italiano Exili, que havia se juntado a várias famílias reais, sido acusado de inúmeros crimes, e desta forma, era temido por cada corte europeia da época. Iniciado na prática do envenenamento por seu companheiro, Gaudin de Saint-Creux colocou sua habilidade em prática assim que foi libertado da prisão.

Ele realmente se tornou um destilador magistral e entrou no lucrativo negócio dos venenos. Sob sua tutela, Marie de Brinvilliers começou a conduzir experiências com venenos letais testando-os em seus próprios criados e pacientes do Hotel de Dieu, o grande hospital público. Como uma das várias damas da nobreza parisiense que voluntariamente visitava os doentes no hospital, a Marquesa de Brinvilliers tinha permissão para perambular pelos corredores sem ser importunada. A história diz que ela oferecia doces, biscoitos e vinho para seus pacientes desafortunados, que invariavelmente morriam pouco depois. Ainda furiosa com a própria família e desejando se apropriar de toda a sua fortuna, ela finalmente envenenou o pai em 1666 e seus dois irmãos em 1670. Os crimes não foram detectados; as autópsias indicaram que Antoine Dreux d’Aubray morrera de causas naturais, e seus dois filhos de “humores malignos“.

Contudo, em 1672, após a morte de Gaudin de Saint-Croix, que provavelmente ocorreu durante um de seus experimentos letais, um estojo contendo cartas incriminadoras e evidências conclusivas contra Marie de Brinvilliers foi descoberto pela polícia. Ela imediatamente fugiu para Londres e mais tarde para a Holanda. Finalmente, em 1675, ela foi presa em um convento em Liège (Bélgica) e transportada de volta à França. Durante o julgamento, Marie de Brinvilliers teve a assistência de um advogado negada, e consequentemente teve que se defender sozinha. A Marquesa se recusava teimosamente a admitir que havia envenenado seu pai e seus dois irmãos, mesmo quando o tribunal lhe implorou:

você provavelmente se encontra no fim de sua vida. Eu te imploro que reflita seriamente sobre sua conduta perversa, que trouxe sobre você não apenas a reprovação de sua família, mas de todos que fizeram parte de sua vida diabólica“.

Em seu discurso de defesa, a Marquesa de Brinvilliers proclamou sua inocência e acusou seu ex-amante, Gaudin de Saint-Croix, de tê-la enganado “porque, sob uma aparência bondosa e sábia, escondia uma das almas mais negras e detestáveis de todo o mundo“. Sua atitude insolente irritou os juízes, que finalmente julgaram-na culpada de acordo com a seguinte sentença:

“Ela está condenada a realizar a ‘amende honorable’ (ou penitência pública) diante do portão principal da igreja catedral de Paris, para onde será levada em um tumbrel [carroça de duas rodas utilizada na França para conduzir condenados], de pés descalços, uma corda ao redor do pescoço, e segurando nas mãos uma tocha pesando duas libras [aproximadamente 900g]. Lá, de joelhos, ela declarará que perversamente, e por motivo de vingança, e com o intuito de possuir suas propriedades, ela envenenou seu pai e seus dois irmãos, e atentou contra a vida de sua irmã. Daí, ela será conduzida à Place de Greve, para ter sua cabeça decepada sobre o cadafalso. Então seu corpo será queimado, e suas cinzas jogadas ao vento. Antes da execução ela será submetida ao ‘questionamento’, ordinário e extraordinário, para compeli-la a revelar o nome de seus cúmplices. Quaisquer bens que ela tenha herdado com a morte de seu pai, irmãos e irmã, serão tirados dela, e todas as suas propriedades confiscadas”.

Pouco antes de enfrentar a dolorosa tortura com água, a Marquesa de Brinvilliers finalmente confessou ter envenenado seu pai e seus dois irmãos, bem como ter tentado envenenar sua cunhada e seu marido várias vezes. “Quem teria acreditado em algo assim vindo desta mulher de família nobre e respeitável, de uma delicada criaturinha tal como esta, com sua aparente disposição gentil?”, perguntou Nicolas Gabriel de La Reynie, recém-apontado chefe da polícia de Paris.

Apesar disso, a Senhora de Brinvilliers admitiu ter cometido os crimes mais graves “por ambição de sua família e seus filhos”, e para assegurar para si e seus filhos a fortuna familiar que seu pai, por sua vez, havia destinado inteiramente a seus herdeiros homens. Portanto, com a intenção de garantir que seus filhos pudessem receber a educação e a posição social que mereciam, a Marquesa de Brinvilliers resolutamente decidira envenenar seu pai e irmãos. Um de seus contemporâneos narrou seu esquema obstinado para matar o pai e o marido:

“Levou seis meses para que ela eliminasse o pai… a todo o seu carinho e afeto, sua única resposta era dobrar a dosagem… ela frequentemente tentava envenenar o marido, também, para se tornar livre para se casar com Saint-Croix; mas este último, que não queria nada com uma mulher tão perversa, dava ao marido antídoto… de modo que, após cinco ou seis doses de veneno, e cinco ou seis doses de antídoto – envenenado e curado, tropeçando num vai-e-vem entre a vida e a morte, de alguma forma o pobre homem conseguiu sobreviver!”

Apesar de sua confissão, Marie de Brinvilliers não foi poupada da tortura com água. “Eles devem estar planejando afogar-me naquelas tinas!”, exclamou. “Pequena como sou, jamais conseguiria engolir aquelas quantidades!”. O julgamento dela incluiu vinte e duas sessões no período de dois meses e meio, ao fim das quais a única evidência incontroversa contra ela foi sua própria confissão, que ela alegou ter sido feita em um estado de delírio febril. Marie de Brinvilliers foi decapitada publicamente e queimada numa pilha de madeira em 16 de julho de 1676. Considerada uma criminosa devassa até o dia de sua execução, depois ela se tornou uma mártir para a população. Um de seus contemporâneos observou que em sua decapitação:

Paris jamais tinha visto tal multidão de pessoas. A cidade jamais havia estado em tamanha polvorosa, tão atenta a um espetáculo… no dia seguinte, as pessoas remexiam as cinzas por ossos de La Brinvilliers“.

Seu caso de homicídio revelou que o envenenamento era a causa sombria de várias mortes misteriosas que haviam ocorrido na elite da sociedade francesa. De fato, pouco antes de sua execução, ela exclamou:

“entre tantos culpados, devo eu ser a única a ser condenada à morte?… [além do mais] metade das pessoas na cidade estão envolvidas neste tipo de coisa, e eu poderia arruiná-las se falasse”.

Madame de Brinvilliers sendo forçada a ingerir água antes de ser decapitada em 1676. Ela foi condenada por envenenar vários membros de sua família. Foto: Stefano Bianchetti/Corbis.

Madame de Brinvilliers sendo forçada a ingerir água antes de ser decapitada em 1676. Ela foi condenada por envenenar vários membros de sua família. Foto: Stefano Bianchetti/Corbis.

Paris estava ansioso para descobrir o nome de seus cúmplices e fornecedores, bem como o segredo dos venenos e antídotos que ela havia usado. “É de interesse público… que os crimes de Madame Brinvilliers terminem com ela, e que ela faça uma declaração que nos ajude a impedir a continuação do uso de veneno”, anunciou o Presidente do Parlamento Francês, Lamoignon. Contudo, ela não traiu seus comparsas e admitiu ter usado apenas arsênico, vitriol e veneno de sapo, e leite como antídoto. Entretanto, aqueles a quem ela fez menção foram mais tarde implicados no escândalo maior do Caso dos Venenos, que afetou a corte real de Luís XIV e envolveu alguns de seus cortesões mais próximos.

II. CATHERINE DESHAYES, SENHORA MONTVOISIN, CONHECIDA COMO LA VOISIN

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A morte da Marquesa de Brinvilliers foi seguida pela prisão de diversos alquimistas, contrabandistas e envenenadores, dando crédito à sua advertência final. Temendo que a difusão da prática de envenenamento pudesse pôr em risco a segurança da família real e dos membros da corte real, o Rei Luís XIV designou Nicolas de La Reynie, Tenente Geral de Polícia de Paris, para coordenar a investigação. Nos laboratórios dos magos e alquimistas presos, a polícia encontrou fornalhas, fórceps, minerais mágicos, como enxofre e mercúrio, bem como venenos letais tais como arsênico, ácido nítrico, e cloreto de mercúrio. La Reynie logo desvendou o inimaginável mundo negro da bruxaria parisiense, descobrindo “frascos, tinas, jarras, garrafas e pacotes, cristais, poções e misturas”, e caldeirões com:

“sombra mortal da noite (beladona), luva das bruxas (dedaleira), raiz de mandrágora, pó de cantárida, de sapo, morcego e víbora, gordura de homens enforcados, pedaços de unhas, lascas de ossos, amostras de sangue humano, excrementos, urina, [e] sêmen”.

Em 1679, o Caso dos Venenos despontou dramaticamente com a prisão da bruxa e envenenadora em série Catherine Deshayes, Senhora Montvoisin, conhecida como La Voisin. Nascida em 1640, na França, de uma mulher pobre que provavelmente era também uma feiticeira, Catherine Deshayes foi introduzida nas artes mágicas em tenra idade. Ela casou-se com Antoine Montvoisin, cujos negócios na rota da seda e em joalheria o levaram à falência. Como resultado, seu marido passou a beber pesadamente e violentamente descontar suas frustrações sobre ela. Tendo que sustentar a ele e seus inúmeros filhos, ela provavelmente ingressou no negócio criminoso, porém lucrativo, de abortos e preparação de venenos. Seu casamento era tão infeliz que ela nunca escondeu suas intenções de se livrar do marido; na verdade, ela atentou várias vezes contra a vida dele, sem sucesso. Em determinado evento, Montvoisin manteve vários romances com outros magos e alquimistas, entre eles Le Sage, que mais tarde também seria pego no Caso dos Venenos.

Auto-retrato da bruxa e serial killer La Voisin cercada por figuras demoníacas. Estimativas afirmam que ela matou entre 1.000 e 2.500 pessoas.

Auto-retrato da bruxa e serial killer La Voisin cercada por figuras demoníacas. Estimativas afirmam que ela matou entre 1.000 e 2.500 pessoas.

La Voisin era uma alta sacerdotisa de congregações cristãs em Paris e uma adoradora devota, que afirmava que seus poderes ocultos eram um dom divino. Seus clientes, que geralmente pertenciam à alta sociedade francesa, eram provavelmente tranquilizados por tal devoção religiosa em relação à suas práticas mágicas. Um de seus contemporâneos, o Marquês de la Reviere, notou que La Voisin:

“era cheia de segredinhos deliciosos para as damas… pelos quais os cavalheiros era gratos… [ela] podia fazer com que os seios de uma dama se tornassem mais fartos ou sua boca mais pequena, e ela sabia exatamente o que fazer por uma garota que se metesse em apuros”.

Montvoisin recebia seus clientes em uma pequena sala escondida nos fundos do jardim de sua casa, localizada em Ville-Neuve, uma região afastada ao norte dos arredores de Paris. Durante o fim dos anos 1660 e o começo dos anos 1670, diversas mortes misteriosas de membros influentes da nobreza se seguiram uma após a outra. Quando em 1676 a Marquesa de Brinvilliers, acusada de impiedosamente envenenar seu pai e dois irmãos, foi finalmente presa e processada, ela revelou que a maioria dos indivíduos que conhecia, “pessoas de qualidade”, estavam igualmente implicados em crimes semelhantes.

Catherine La Voisin foi presa em 12 de março de 1679, quando deixava uma missa em sua paróquia, Notre-Dame de Bonne Nouvelle, em Paris. A busca em seus pertences revelou toda sorte de pós mágicos, poções venenosas, objetos sacrílegos, “Grimoires ou livros negros (manuais para satanistas e necromantes, o ABC do Abracadabra), vestimentas e parafernália sacerdotal, uma cruz, incenso, velas negras; um misterioso forno no pavilhão de um jardim, recendendo a maus e perniciosos fumos; fragmentos de ossos de bebês humanos entre as cinzas” bem como uma longa lista de seus clientes. Ela foi acusada de ter tentado envenenar seu marido diversas vezes sob instigação de seu amante, Le Sage, e de ter realizado abortos por um preço, enterrando os bebês prematuros no jardim.

Em 17 de março de 1679, quando Le Sage também foi preso, ele deu a Nicolas de La Reynie relatos detalhados sobre o negócio de La Voisin com abortos, tráfico de venenos e seus clientes. Ele revelou que um pequeno forno estava escondido na casa onde os ossos eram queimados se o corpo do bebê fosse grande demais para enterrá-lo em uma cova do jardim. Ela negou tudo, esclarecendo que o forno era utilizado para assar suas “petits pastes” (tortinhas) e que “as únicas drogas que seriam encontradas em sua casa seriam purgantes para uso pessoal e de sua família“.

Acusações posteriores contra Montvoisin vieram de outras prisioneiras, alegando que seu segredo para “esvaziar” clientes grávidas consistia em injetar um líquido letal com uma seringa:

La Reynie – Qual o segredo dela para esvaziar mulheres ou moças que engravidam?

Le Sage – Sim, é basicamente água, e tudo depende da forma que a seringa é usada.

La Reynie – Até que estágio da gravidez ela consegue fazer isto?

Le Sage – A qualquer tempo, especialmente quando elas são pessoas de qualidade, que devem preservar sua honra e não desejam que aquilo se torne público. Enquanto ela puder sentir o bebê se mexendo antes de usar seu remédio, ela fará o bebê sair e o batizará. Então, ela própria leva o bebê em uma caixa para o coveiro, a quem ela entrega uma moeda de trinta centavos, para que ele o sepulte em um canto do cemitério, sem contar ao padre ou a qualquer outro.

La Sage também afirmou que a maior parte dos clientes de La Voisin pertenciam à comitiva real, e mesmo a esposa do Marquês de Montespan, uma das amantes favoritas de Luís XIV, havia comprado pós do amor com ela. Catherine La Voisin inicialmente argumentou que “nada além de bálsamos de beleza e loções para a pele” era procurado por seus clientes.

Em resposta às alegações contra a Senhora de Montespan, o Rei solicitou a La Reynie:

“continuar com o interrogatório de certos prisioneiros… [e] proceder tão rápido quanto possível com estes interrogatórios, mas realizar a transcrição destas respostas em volumes separados, e manter estes volumes separados dos registros oficiais do restante da investigação”.

De fato, os interrogatórios de La Sage e outros informantes contendo alegações contra a Marquesa de Montespan foram escrupulosamente removidos do dossiê do julgamento, jamais tendo sido remetidos aos juízes da Câmara para análise, em vez disso foram entregues exclusivamente nas mãos confiáveis de La Reynie.

Finalmente, Catherine La Voisin admitiu que alguns de seus clientes eram realmente membros proeminentes da nobreza, mas negou firmemente ter servido a Marquesa de Montespan ou mesmo tê-la conhecido. Durante seu último interrogatório, quando foi submetida a tortura, ela admitiu que:

“Paris está cheia desta sorte de coisa e há um número incontável de pessoas envolvidas neste negócio maligno”.

Contudo, em relação a seus clientes, ela confessou apenas que:

“um grande número de pessoas de todo tipo de posição e condição se dirigiam a ela para encomendar a morte ou descobrir os meios de matar várias pessoas”.

Mas se recusou a fornecer mais nomes. Catherine La Voisin foi queimada na estaca em 1680. Espectadores da sua execução relataram que:

“cinco ou seis vezes ela afastou a palha, mas finalmente as chamas saltaram, a envolveram, e a visão dela desapareceu… então, temos a morte da Senhora Voisin, notória por seus crimes e impiedade”.

III. A CHAMBRE ARDENTE


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O testemunho de La Voisin e seus cúmplices revelou uma conspiração clandestina contra a monarquia. O Tenente La Reynie recomendou que o Rei estabelecesse uma comissão especial para investigar e punir os casos. Apesar do alto custo para criar um tribunal criminal desta natureza e os potenciais efeitos negativos na reputação de sua corte, Luís XIV concordou com a proposta e, em 1679, estabeleceu a Chambre Ardente. Aparentemente, o Rei decidiu criar a comissão criminal especial para impedir um grande acúmulo de processos criminais e um longo atraso na investigação e processamento dos autores. Por outro lado, de acordo com alguns historiadores, Luís XIV e seus delegados resolveram designar um tribunal especial para lidar com os casos com o intuito de esconder as atividades ilícitas de membros proeminentes da comitiva real.

Treze magistrados da Suprema Corte de Paris foram designados para servir na Chambre Ardente. Eles eram responsáveis por investigar e processar os indivíduos “acusados de envolvimento em magia negra e na composição, distribuição e administração de venenos” Deve-se notar que, de acordo com o ordenamento criminal datado de 1670, “magia” e “venenos” eram considerados crimes capitais e eram listados entre os crimes sob competência direta dos juízes reais, incluindo traição, sacrilégio, heresia, desobediência às ordens do Rei ou de seus oficiais, rebelião, contrabando, falsificação, estupro e aborto.

A nova comissão contratou um escrivão que ficou responsável por registrar os encontros dos juízes, bem como os interrogatórios dos prisioneiros; alguns médicos e farmacêuticos para corroborar evidências e fornecer laudos; um promotor geral, que ficou responsável por oferecer as denúncias, buscando a condenação, e requerendo a pena; e, finalmente, alguns relatores, incluindo La Reynie, que ficaram encarregados de liderar as investigações e enviar relatórios relevantes aos magistrados do tribunal. Relatos históricos descrevem a comissão especial como segue:

“A Chambre era uma produção de luxo no gênero do teatro de justiça do Século XVII. Seus procedimentos eram segredo de estado, seus membros sentavam aos julgamentos no porão do Arsenal, as janelas cobertas com cortinas negras, a única luz fornecida por tochas ardentes. Estas tochas deram ao tribunal seu nome informal, a Chambre Ardente, ou Câmara Ardente”.

A comissão seguia o procedimento padrão, de acordo com o qual La Reynie era responsável por identificar os suspeitos e então enviar um pedido de autorização expressa do Rei para efetuar as prisões. Uma vez que Luís XIV assinasse o mandado, La Reynie poderia ordenar a captura dos suspeitos e sua detenção nas prisões da Bastilha, Chatelet, ou no forte de Vincennes. Após os interrogatórios iniciais, uma investigação preliminar oficial poderia ser autorizada pelo promotor geral, permitindo a La Reynie conduzir mais interrogatórios de suspeitos e testemunhas, tomar depoimentos e coletar evidências. Descobertas de tais investigações preliminares eram relatadas aos magistrados da Chambre, que decidiriam se os suspeitos deveriam ser mantidos em custódia ou libertados.

Se o acusado permanecesse preso, uma segunda investigação era conduzida por La Reynie. Após sua conclusão, o promotor geral podia pedir o indiciamento e os juízes, por sua vez, interrogariam o suspeito e então marcariam o julgamento. Sua sentença era definitiva, e apenas o Rei poderia mudar o veredito. Os magistrados poderiam rejeitar a denúncia e liberar o acusado ou soltar o suspeito sem retirar todas as acusações. Como alternativa, os magistrados também podiam libertar o acusado e manter o caso em aberto, para o caso de novas evidências serem apresentadas. Finalmente, em caso de condenação, os juízes podiam multar, banir ou sentenciar o acusado à morte, bem como impedi-lo de exercer funções, testemunhar em juízo ou escrever um testamento.

Se o réu fosse considerado culpado por um crime capital, os juízes poderiam ordenar que o condenado fosse submetido a tortura antes da execução, de modo a obter uma confissão ou descobrir o nome de seus cúmplices. De acordo com as leis reais, nos crimes capitais, prisioneiros poderiam passar por tortura mesmo antes de um veredito de culpa ter sido dado, no caso de sérias suspeitas, prova próxima ou meia-prova de culpa. Evidência escrita, o depoimento de duas testemunhas e o depoimento de uma testemunha ocular do crime equivaliam a prova próxima ou meia-prova. A confissão do acusado, obtida sob tortura, combinada com proximidade ou meia-prova constituía evidência conclusiva de culpa. Assim, a tortura era administrada para corroborar evidências, e “para saber a verdade da boca [do acusado]”.

Entretanto, de acordo com o ordenamento criminal datado de 1670, um prisioneiro poderia ser torturado apenas uma vez, a menos que novas evidências fossem apresentadas, por não mais que oitenta e cinco minutos. Sob tortura, não podiam ser feitas perguntas sugestivas ao acusado, e sua confissão deveria ser confirmada espontaneamente nas vinte e quatro horas seguintes. Os suspeitos poderiam ser submetidos a tortura ordinária ou extraordinária. Os dois métodos principais utilizados eram a tortura da bota e a tortura por água, que têm sido descritos como segue:

[Na tortura da bota] os pés e pernas do prisioneiro são colocados num molde de madeira e “moedas” ou cunhas (quatro para a ordinária e mais quatro para a extraordinária) eram enfiadas nas laterais da bota, fazendo com que o molde apertasse e esmagasse os ossos do prisioneiro.

[Na tortura por água] o prisioneiro é estendido nu sobre um banco colocado sob seu lombo, com os pés e mãos atados e puxados em direções opostas. Ele é então forçado a engolir quatro coquemards (um coquemard equivalia a aproximadamente três quartilhos) [quase 4 litros] de água, que distendia o estômago até um quase rompimento e afogamento do prisioneiro. No extraordinário, o prisioneiro é colocado de costas sobre um banco ainda mais alto, causando grande distensão do estômago, e era forçado a beber mais quatro jarros de água.

La Reynie e a nova comissão tinham total confiança de Luís XIV para desvendar os meandros do tráfico de venenos, independente do prestígio e posição das pessoas envolvidas. Em suas anotações pessoais, La Reynie descreveu as ordens claras que os juízes e ele próprio tinham recebido do Rei:

Sua Majestade deseja que, para o bem de todos nós, penetremos o mais fundo possível no comércio infeliz de venenos para exterminá-lo pela raiz, se tal fosse possível; ele ordenou que nós exercêssemos escrupulosa justiça, sem considerar pessoas, condições ou sexo, e Sua Majestade nos disse isto em alto e bom som, e ao mesmo tempo com tão boa vontade, que é impossível duvidar de suas intenções neste sentido.

Por outro lado, membros da nobreza resistiam às atividades da comissão especial, protestando que:

Não há justificativa para a imprudência da Câmara em expedir mandados com tão pouco fundamento contra oficiais da Coroa… este caso escandaloso deve estar aterrorizando toda a Europa, e aqueles que lerem esta história alguns séculos depois terão piedade das vítimas de acusações tão infundadas.

O Caso dos Venenos se tornou tão infame e famoso ao mesmo tempo que nos séculos seguintes foi tema de peças de teatro, histórias em quadrinhos e filmes no cinema. Na imagem uma reportagem de 1977 sobre a novela "L’affaire des poisons", que trazia Pierre Santini no papel do Rei Luís XIV e Marie France Santon no papel da bruxa sanguinária La Voisin.

O Caso dos Venenos se tornou tão infame e famoso ao mesmo tempo que nos séculos seguintes foi tema de peças de teatro, histórias em quadrinhos e filmes no cinema. Na imagem acima uma reportagem de 1977 sobre a novela “L’affaire des poisons”, que trazia Pierre Santini no papel do Rei Luís XIV e Marie France Santon no papel da bruxa sanguinária La Voisin.

Em 1680, os casos levados à Chambre Ardente incluíam não apenas o tráfico de venenos e as misteriosas mortes supostamente ligadas a ele, mas também casos de sacrilégio, bruxaria e profanação. De fato, também sob tais acusações, La Voisin foi interrogada uma última vez em 22 de fevereiro. Ela foi submetida ao tormento da tortura da bota na esperança de arrancar dela uma confissão sobre o fornecimento de pós e poções venenosas a membros importantes da corte real, incluindo a Senhora de Montespan. Como a Marquesa de Brinvilliers, Catherine La Voisin negou as acusações e apenas:

“Por desencargo de consciência, ela afirmou que um grande número de pessoas de todos os tipos e condições vinham até ela pedir ajuda para matar um grande número de outras pessoas… e que a devassidão é a raiz de todo este mal”.

Como no caso de La Voisin, durante o Século XVII na França apenas alguns prisioneiros que enfrentavam as agonias da tortura realmente terminavam por confessar seus crimes, demonstrando assim a ineficácia de tal meio de obter a verdade ou corroborar evidências.

A Chambre Ardente foi dissolvida em 21 de julho de 1682, depois de operar por quase três anos com uma interrupção de aproximadamente sete meses, entre 30 de setembro de 1680 e 19 de maio de 1681. A comissão criminal especial denunciou 442 indivíduos, expediu 319 mandados de prisão, realizou 104 julgamentos, incluindo 36 sentenças de morte, 5 de prisão perpétua, 23 de banimento, inúmeras libertações, e várias decisões de prisão em mosteiros e hospitais. Aproximadamente 60 indivíduos, que não puderam ser julgados por questões de Estado, foram aprisionados até a morte em Belle-lle, Salces, Salins e outros fortes.

IV. FRANÇOISE ATHÉNAÏS DE ROCHECHOUART DE MONTEMART, MARQUESA DE MONTESPAN

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Françoise Athénaïs de Rochechouart de Montemart, Marquesa de Montespan, era uma das amantes favoritas de Luís XIV, Rei da França, e acabou pessoalmente envolvida no escândalo infame do Caso dos Venenos, que levou vários casos de envenenamento à justiça. Nascida em 5 de outubro de 1640 em Château de Lussac, ela pertencia a uma das mais antigas e ilustres famílias da França. Seu pai era o Marquês de Lussac, Senhor de Vivonne, Duque de Montemart, Príncipe de Tonnay-Charente, Primeiro Cavalheiro dos aposentos do Rei, Cavaleiro da Ordem do Espírito Santo e Conselheiro de Estado, possuindo diversos títulos de prestígio na corte real de Luís XIII; sua mãe era dama de companhia da Rainha Anne da Áustria. Françoise Athénaïs estudou no Convento de Santa Maria em Saintes e, em 1661, ingressou na corte real como dama de honra da cunhada do Rei, a Princesa Henrietta Anne da Inglaterra, que recentemente se casara com o Duque de Orleans.

Sua beleza soberana foi registrada por Primi Visconti, o Conde de Saint-Mayol, em suas memórias:

“ela era de altura mediana e de boas proporções… seus cabelos eram loiros, e seus olhos eram de azul celeste. Seu nariz era adunco mas delicadamente formado, sua boca pequena de um vermelho vivo; seus dentes eram excessivamente belos – em suma, sua face era de absoluta perfeição!”.

Outros, todavia, expressaram algumas ressalvas, descrevendo-a como:

“uma beleza completa, mas ainda assim, de alguma forma, não totalmente atraente”.

Motivada por sua ambição e grandes aspirações, Françoise Athénaïs logo pôs os olhos em Luís XIV: “ela tinha planos para o coração do Rei, e começou a pô-los em prática desde o dia em que chegou à corte”, observou outra cortesã. Na realidade, ela não era excepcional porque “toda mulher no reino nascia com a ambição de se tornar amante do Rei!”.

Retrato da Marquesa de Montespan, pintado na segunda metade do século XVII. Quadro atualmente está exposto em um museu de Versalhes, França.

Retrato da Marquesa de Montespan, pintado na segunda metade do século XVII. Quadro atualmente está exposto em um museu de Versalhes, França.

Contudo, em 1663, Françoise Athénaïs concordou em se casar com Louis Henri de Pardaillan de Gondrin, Marquês de Montespan, que era o irmão mais novo de seu antigo noivo, tragicamente morto em um duelo no ano anterior. O prometido na verdade era incapaz de trazer qualquer fortuna ou prestígio para sua noiva. De linhagem nobre e antiga, a família Montespan possuía inúmeras propriedades e castelos pelos campos da França, mas os rendimentos das terras eram insuficientes para custear as despesas com a manutenção das propriedades e suportar o estilo de vida extravagante dos Montespan. Desta forma, o casal recém-formado logo se viu sobrecarregado pelas dívidas do Marquês, incluindo notas promissórias, assim como joias e outros bens dados como garantia para assegurar as hipotecas e os juros exorbitantes. O casamento finalmente ruiu logo após o nascimento do segundo filho.

Desiludida pela falta de ambição e com a grosseria de seu marido, Françoise Athénaïs de Montespan ansiava por retornar ao palácio real e retomar seus antigos planos. Quando finalmente, e novamente, foi convocada de volta à corte como uma das damas de companhia da Rainha Marie Thérèse, em 1665, ela abandonou a família sem muito arrependimento. Tão logo chegou à corte, seu objetivo principal foi atrair a atenção do jovem monarca, Luís XIV, em princípio com pouco sucesso. Primi Visconti, com efeito, registrou que:

“Bela como era, e graciosa, de respostas e gracejos rápidos, ela não chamou de início a atenção do Rei. Ele até chegou ao ponto de, um dia, à mesa com o Monsieur seu irmão, a zombar dos esforços dela para atrai-lo. ‘Ela se esforça bastante’, ele teria dito, ‘mas não estou interessado'”.

Similarmente, outra cortesã mais tarde contou:

“o Rei não suportava a Senhora de Montespan, a princípio, e censurou o Monsieur e a Rainha por manterem-na constantemente em sua companhia, embora mais tarde tenha se apaixonado perdidamente pela moça”.

De fato, apenas um ano após seu retorno à corte, as fortes ambições de Françoise Athénaïs de Montespan foram recompensadas. Ela conseguiu ganhar o afeto de Luís XIV, se aproveitando da gravidez simultânea da Rainha e da amante favorita do Rei, Louise de La Vallière. Sua estratégia ousada foi registrada por outro cortesão, o Marquês de La Fare:

“A Senhora de Montespan havia começado a pensar nele e foi astuta o bastante para fazer duas coisas ao mesmo tempo: primeiro, ela deu à Rainha uma extraordinária impressão de virtuosidade ao receber com ela a comunhão toda semana; depois, ela se insinuou de modo tão bem-sucedido que caiu nas graças de La Vallière e constantemente era vista em sua companhia. Por estes meios, ela conseguia estar constantemente na comitiva do Rei, e empregou todos os esforços para agradá-lo, no que obteve bastante êxito, sendo generosamente dotada de inteligência e charme, em contraste com La Valière, que infelizmente não tinha tais qualidades”.

No final de 1666, o Duque de Enghien, Príncipe da família Condé, relatou em carta à Rainha da Polônia que:

“[o Rei] aparentemente afeiçoou-se [pela Senhora de Montespan] e, para dizer a verdade, ela merece tal interesse, pois é impossível possuir mais beleza e inteligência que ela!”.

O primeiro encontro adúltero entre Luís XIV e a Marquesa de Montespan ocorreu durante uma expedição ao campo de batalha em Flandres, contra os princípios da educação e prática católica de Françoise Athénaïs. O relacionamento apaixonado se desenvolveu rapidamente enquanto o Rei passou a visitar “A Senhora de Montespan, todos os dias… em particular, indo vê-la em seus aposentos, que se localizavam exatamente sobre os da Rainha”. Outra cortesã observou que Luís XIV “estava de considerável bom humor“, e que a Senhora de Montespan “era a companhia mais alegre que se poderia imaginar quando saía com o casal real… constantemente tagarelando e rindo com o Rei”. Enquanto isso, após lamentáveis tentativas de tirar vantagem financeira do relacionamento do Rei e Françoise Athénaïs, o Marquês de Montespan foi finalmente confinado em suas propriedades na zona rural, longe da corte real e da companhia da esposa.

A separação deles foi finalmente regularizada em 1670, quando a Senhora de Montespan acionou o Tribunal de Chatelet em Paris para obter o “desquite” e separação de corpos de seu marido, bem como “recuperar seu dote entre as propriedades comuns – com base em crueldade e improvidência“. O tribunal decidiu em favor da Marquesa de Montespan, ordenando a seu esposo que devolvesse o dote e pagasse à sua esposa uma pensão anual. Na prática, contudo, tendo obtido legalmente sua liberdade, a Marquesa providenciou para que tanto seu dote quanto a pensão fossem destinados a seus filhos. Com efeito, relatos contemporâneos informam que:

“Jamais foi intenção dela… naquela separação que havia buscado, trazer ruína à casa de… seu marido; nem prejudicar os interesses de seus filhos. Ao contrário, ela desejava contribuir tanto quanto possível para o esplendor da casa Montespan, e assegurar que a educação das aludidas crianças fosse de um padrão consistente com sua posição”.

Entretanto, nenhuma das crianças conviveu muito com a mãe. Na verdade, sua filha morreu com apenas dez anos, e seu filho lamentou jamais ter visto a mãe antes dos catorze anos.

Por outro lado, durante seu longo romance com Luís XIV, ela lhe deu oito filhos, que foram reconhecidos e, assim, integrados à linhagem real. Agindo como uma patrocinadora iluminista de arte e cercando-se de seus protegidos, entre eles Racine, Molière e La Fontaine, Françoise Athénaïs de Montespan ganhou tanta influência e respeito no palácio real que frequentemente era identificada como “a segunda esposa do Rei”, ou mesmo “a verdadeira Rainha da França“. Realmente era reconhecida pelos membros da nobreza francesa como tendo:

qualidades incomuns, grandeza de alma e leveza de espírito… ela pensava além do presente… e também considerava as opiniões futuras”.

Além do seu gosto e paixão pelas artes, alguns contemporâneos argumentaram que a Senhora de Montespan possuía uma ambição ardente de governar e exercer influência política sobre os assuntos da monarquia.

Em 1671, Louise de La Vallière, que permanecia, ao menos nominalmente, como amante “favorita” do Rei, adoeceu de maneira inexplicável. Ao recobrar a consciência após alguns dias, ela abriu os olhos e viu em volta da cama “médicos de um lado… padres do outro; uns, desesperados por [sua] vida; outros, por [sua] alma“. Acreditava-se que ela havia sido misteriosamente envenenada. Duas bruxas, que estavam sendo julgadas à época perante o Tribunal de Chatelet, indicaram que Françoise Athénaïs de Montespan era responsável pelo crime. O caso jamais se tornou público, e quaisquer suspeitas sobre a Marquesa de Montespan foram rapidamente dissipadas e esquecidas. Contudo, após o êxito na condenação da Marquesa de Brinvilliers em 1676, que foi considerada culpada por ter cruelmente envenenado seu pai e seus dois irmãos, a prática do envenenamento foi finalmente reconhecida como um instrumento mortal largamente utilizado pela alta sociedade, e, assim, uma clara ameaça à segurança da família real. De fato, durante seu julgamento, a Marquesa de Brinvilliers revelou que:

“metade das pessoas que conheço – pessoas distintas – estão envolvidas nesta sorte de coisa… e eu poderia arrastá-las todas comigo, se eu decidisse falar”.

Após a decapitação da Marquesa de Brinvilliers, várias prisões pelo mesmo crime se seguiram, uma após a outra. Entre os prisioneiros condenados à pena capital estava La Voisin. Durante seu julgamento, ela revelou que muitos dos seus clientes pertenciam ao alto escalão da nobreza francesa. Após a morte dela, outras bruxas que estavam presas em Vincennes, e particularmente sua filha, Marie Monvoisin, afirmaram que Françoise Athénaïs de Montespan visitara regularmente La Voisin para comprar seus “pós mágicos”. Marie Montvoisin explicitamente acusou a Marquesa de Montespan de ter usado tais poções para conservar o amor do Rei, lembrando que:

“cada vez… em que ela receava que o afeto do Rei estava diminuindo, ela avisava minha mãe disso, para que ela pudesse levar um remédio. Minha mãe, assim, realizou rituais sobre esses pós destinados ao Rei. Eram pós de amor”.

Marie Montvoisin também acusou Françoise Athénaïs de Montespan de ter participado de missas negras realizadas em 1667 e 1668, que pretendiam invocar ajuda de Satã para obter o favor e o afeto do Rei. Ela contou que três ou quatro bebês recém-nascidos foram sacrificados em nome dos desejos da Marquesa de Montespan. O sacerdote que realizou as missas, que também estava preso, confirmou tais acusações, recordando que, durante as cerimônias negras, a Marquesa de Montespan recitou o seguinte:

“Eu peço a amizade do Rei… [e] que a Rainha se torne estéril e que o Rei abandone sua mesa e seu leito por mim; que eu possa obter dele tudo que eu desejo para mim…; que o Rei abandone La Vallière e não lhe dirija mais o olhar, e assim, tendo sido rejeitada a Rainha, eu possa desposar o Rei”.

Retrato do Rei Luís XIV, por Charles Le Brun, pintado em 1655.

Retrato do Rei Luís XIV, por Charles Le Brun, pintado em 1655.

Alegações adicionais de que a Marquesa de Montespan conspirara para envenenar Luís XIV também foram feitas. Contudo, a Chambre Ardente nunca confirmou de forma conclusiva o envolvimento direto de Françoise Athénaïs de Montespan no Caso dos Venenos. Em 1691, não mais a favorita do Rei, ela se retirou para o convento de Filles de Saint Joseph [Irmãs de São José], em Paris, onde viveu seus últimos anos em dor e solidão. A Marquesa de Montespan morreu em 1707, levando consigo os mistérios sem solução.

Acreditava-se que a arte dos venenos havia se originado na Itália e de lá migrado para a França. Supostamente, quando Catarina de Médici casou-se com Henrique II da França em 1553, ela trouxe a farmacopeia renascentista dos venenos e necromancia consigo para seu novo reino. Aparentemente, durante seu reinado, ela encorajou o estudo e a prática das ciências ocultas e da magia negra, apoiando astrólogos, necromantes e pesquisadores da toxicologia. Devido às dificuldades em identificar substâncias venenosas em cadáveres durante a autópsia, naquela época, os venenos representavam uma arma assustadoramente letal que ultrapassava o conhecimento humano comum e burlava os sistemas legais existentes. A impossibilidade de determinar de forma satisfatória se veneno havia sido a causa da morte significava que muitos crimes ficavam impunes e os prováveis envenenadores permaneciam intocados.

Por exemplo, com arsênico, o veneno mais comum a ser utilizado durante os séculos XVI e XVII, descrito como branco como açúcar, insípido e inodoro, “o envenenador conseguia não levantar suspeitas na ingênua comunidade médica, e usualmente se declarava que vítima sucumbira a uma doença debilitante“. Outro veneno comum à época era “acqua toffana” ou “eau de cymbalaire“, uma simples variação de arsênico com a adição de cantáridas saturadas com álcool. Vendido como veneno de rato, arsênico era fácil de adquirir em qualquer mercearia francesa. Em pó, era administrado com a comida, misturada com molhos e outros condimentos. Em forma líquida – sua forma bem mais tóxica – era misturado ao vinho.

As poções venenosas usadas na França durante os séculos XVI e XVII eram preparadas essencialmente sacrificando um animal com uma dose de arsênico e destilando seus fluidos, combinando assim a virulência do veneno com os componentes putrefatos da carniça. Sob tortura, a Marquesa de Brinvilliers também confessou ter manufaturado suas drogas com arsênico, ácido sulfúrico e líquidos de cadáveres animais decompostos. Um diagnóstico dos sintomas de envenenamento fugia do conhecimento médico da época. De fato, o famoso cirurgião Jean Devaux admitiu,

“o método para impedir que alguém seja envenenado é muito difícil de determinar. Os perversos envenenadores e perfumistas, que secretamente manufaturam seus venenos, conduzem suas traições e crimes tão sutilmente que enganam os homens mais experientes”.

Àquela época, o único meio de investigar se a vítima havia ou não sido envenenada era administrar os resíduos da comida ou bebida suspeita a um pássaro ou outro animal doméstico. A morte do bicho era tida como evidência conclusiva de que o crime havia sido cometido pelo suspeito. Por outro lado, se o animal não morresse, a investigação era abandonada. A falta de conhecimento sobre substâncias tóxicas e seus efeitos também se devia à relutância de médicos e cientistas em divulgar informações relacionadas à preparação das poções venenosas usadas nos séculos anteriores. O famoso cirurgião francês Ambroise Paré de fato declarou que:

“eu não desejo tomar a pena em minhas mãos para escrever sobre eles e auxiliar as intenções maliciosas de traidores, de perversos usuais, de perfumistas, executores e envenenadores”.

A Marquesa de Montespan. Galeria de Figuras Históricas George S. Stuart.

A Marquesa de Montespan. Galeria de Figuras Históricas George S. Stuart.

Feiticeiros e magos que produziam poções venenosas viviam geralmente nos subúrbios de Paris, escapando assim do controle governamental e das autoridades legais. Tais comunidades, incluindo a de Ville-Nueve, onde La Voisin residia, possuíam residências a preços acessíveis com quintais murados, onde seus moradores podiam agir sem serem perturbados. Contudo, sua fama e atividades maldosas eram bem conhecidas de seus pares e vizinhos, bem como cortesões e membros distintos da sociedade parisiense. De fato, as investigações conduzidas por La Reynie revelaram o quão poderosos e interconectados eram os envenenadores, necromantes e feiticeiros. Eles confiavam uns nos outros para seu suprimento de venenos, bem como para indicações de clientes, dependendo se o comprador desejava venenos, pós de amor, ou outro tipo de serviços, como aborto. Eles aparentavam manter seu negócio de forma bastante profissional, exigindo que seus clientes assinassem recibos prometendo pagamento por seus serviços.

Com o intuito de acrescentar encantos ou feitiços malignos às suas poções e para solicitar favores sobrenaturais para seus clientes, os feiticeiros contratavam sacerdotes para celebrar rituais de magia ou missas negras. Por exemplo, conforme testemunhou a filha de La Voisin, a Senhora de Montespan também participou em missas sacrílegas para cair nas graças do Rei ou lançar feitiços diabólicos sobre suas rivais. Em seus interrogatórios, contidos no caderno de La Reynie, ela deu uma descrição detalhada de algumas dessas cerimônias:

“Um altar foi erguido no quarto de minha mãe… a cruz posicionada, as velas acesas… uma moça estava estendida, completamente despida, em um colchão, suas pernas pendendo de uma ponta, a cabeça pendendo da outra, apoiada sobre um travesseiro que havia sido posto sobre uma cadeira virada… uma veste de linho estava dobrada sobre a sua barriga… o cálice repousava sobre sua púbis… a Senhora de Montespan chegou às dez da noite, e não foi embora até a meia-noite… Em uma [outra] das missas da Senhora de Montespan, eu vi minha mãe trazer um bebê… obviamente prematuro… e pô-lo em uma bacia sobre a qual [o sacerdote] cortou sua garganta, derramando o sangue no cálice… onde ele consagrou o sangue e a hóstia… dizendo os nomes da Senhora de Montespan e do Rei no momento do ofertório… o corpo do bebê foi incinerado no forno do jardim, e as entranhas levadas no dia seguinte por minha mãe… para destilação, juntamente com o sangue e a hóstia consagrada… tudo isto foi posto em um frasco de vidro que a Senhora de Montespan veio buscar, posteriormente, e levou embora.

Para dizer a verdade, missas negras representavam um desvio contrário às práticas e sacramentos da Igreja Católica. Obviamente, as distinções entre bruxaria, superstição e doutrinas religiosas ainda eram bastante confusas durante o Século XVII na França. Por exemplo, feiticeiros e magos usavam cruzes e amuletos para proteger-se e garantir saúde e prosperidade a seus clientes. De acordo com seus manuais de magia, fórmulas religiosas tinham que ser invocadas para assegurar segurança e escapar da punição. Feiticeiras ensinavam invocações similares conjurando o poder dos espíritos sagrados para auspícios e vitória de seus próprios clientes.

A coexistência entre sagrado e profano em tais fórmulas revela o quão confusa era a distinção entre práticas religiosas e supersticiosas naquela época. Com efeito, a Igreja Católica havia feito campanhas contra os pecados da superstição e da idolatria no Século XV, identificando práticas de magia, ornamentos de feitiçaria e cartas de adivinhação como formas e objetos de profanação. Teólogos católicos advertiam que “aqueles que dão crédito a sonhos, vidência, adivinhação, e tais ilusões supersticiosas” estavam agindo em violação às leis de Deus. Assim, sob os preceitos da Igreja Católica “aqueles que estão envolvidos com magia e adivinhação ou que depositam sua confiança em presságios cometem um crime terrível e são excomungados”. Por outro lado, o Caso dos Venenos representou um esforço secular para erradicar da França o submundo da magia, que pretendia corromper e destruir o Cristianismo.

Com efeito, na época, mulheres frequentemente recorriam a venenos, pós de amor e magia negra para pôr fim a abusos domésticos e dependência financeira. As agressões físicas e verbais cometidas contra esposas ficavam ocultas atrás de portas fechadas e pela privacidade relativa às questões de família. Violência contra mulheres e crianças era regularmente empregada por homens no âmbito familiar para controlá-los e corrigir suas faltas. Desde o Século XV na Europa, punições severas e duras represálias eram encorajadas tanto “por palavras como por pancadas” sobre qualquer esposa desobediente para restabelecer a harmonia doméstica. A punição conjugal não deveria ser realizada com base no amor ao poder, mas como um senso supremo de dever. Entrelaçada com a doutrina feudal de coverture [estado no qual a mulher casada estaria sobre proteção e autoridade de seu marido], que restringia os direitos legais e econômicos das mulheres sob a proteção e tutela de seus maridos, a disciplina marital terminava por abranger abuso íntimo e um desequilíbrio nas relações de gênero.

Desta forma, muitas mulheres utilizavam magia amorosa para obter segurança financeira e “ter a completa certeza de possuírem os espíritos, os corações, e os bens” de seus maridos. Poções de amor eram frequentemente uma combinação de sangue menstrual, a afrodisíaca mosca espanhola [ou cantárida], e ervas naturais como verbena. Se os feitiços de amor se mostrassem inadequados para atingir seus objetivos, as mulheres subsequentemente recorriam a poções venenosas e magia negra. Algumas delas se apaixonavam e desejavam se casar novamente, cientes de que um segundo casamento não poderia ser celebrado sem o término do anterior. Mesmo para membras da aristocracia e de famílias ricas e poderosas, as chances de conseguir um divórcio eram bastante reduzidas. Além disso, mesmo que as mulheres obtivessem um divórcio, elas geralmente seriam proibidas de se casar de novo.

Assim, envenenar seus maridos parecia um meio viável para mulheres colocarem fim a casamentos infelizes e abusivos, bem como obter o controle das finanças e do patrimônio familiar. Considerando as condições desiguais e subservientes das mulheres durante a França do Século XVII, tanto legal quando financeiramente, não surpreende que o veneno tenha se tornado tão largamente empregado para se insurgirem contra a autoridade e abusos paternais ou maritais. Num cenário como esse, o Caso dos Venenos finalmente revelou o submundo francês da magia sacrílega, dos crimes passionais premeditados e da resistência feminina ao patriarcado e à subordinação social.

CONCLUSÃO


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A investigação do Caso dos Venenos revelou um submundo de magia na corte real de Luís XIV e, mais geralmente, na aristocracia francesa do século dezessete. Este artigo apresentou uma análise do escândalo examinando as vidas, casamentos, documentos judiciais e as diferentes motivações da Marquesa de Brinvilliers, La Voisin, e Madame de Montespan em usar venenos e engajar em atividades criminais, respectivamente.

O artigo também investigou as respostas do sistema legal francês para tais crimes baseadas na classe social e posição das mulheres implicadas no comércio de venenos e magia negra. Finalmente, o artigo reflete no que o Caso dos Venenos ultimamente significa em termos de imperfeições da monarquia francesa, as tensões em seu corpo político, a decadência dos costumes e morais do catolicismo, e as decisões que as mulheres fizeram para engajar no envenenamento como uma forma de resistência patriarcal, abuso doméstico, e subordinação legal e financeira.

Mais sobre mulheres envenenadoras:

Benedetta Faedi DuramyArtigo: Women and Poisons in 17th Century France

Autora: Benedetta Faedi Duramy

Atuação: Professora de Direito na Golden Gate University School of Law

Educação: [1] LLB, University of Rome La Sapienza, Summa cum Laude [2] LLM, London School of Economics and Political Sciences [3] JSD, Stanford Law School [4] MA, Political Science, University of Florence

Livros: [1] International Perspectives and Empirical Findings on Child Participation (com Tali Gal), (Oxford University Press, 2015).
[2] 
Gender and Violence in Haiti: Women’s Path from Victims to Agents, (Rutgers University Press, 2014). Leia uma sinopse deste livro (em inglês) aqui.

Tradução por:

Marcus Santana

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