Perfil Criminal (Parte 1) – História, Método e Evolução

Os Primórdios da Análise Criminal . “Nós devemos entender como os criminosos pensam e perceber que eles tem uma visão de mundo fundamentalmente diferente das pessoas que são basicamente...
Perfil Criminal - Parte 1

Perfil Criminal - O Aprendiz Verde

Os Primórdios da Análise Criminal


.

“Nós devemos entender como os criminosos pensam e perceber que eles tem uma visão de mundo fundamentalmente diferente das pessoas que são basicamente responsáveis. Suponho que esta compreensão básica, se alguma vez existiu, foi perdida no nevoeiro da especulação teórica e retórica política frequentemente defendida por pessoas que nunca conheceram um criminoso.”

[Stanton E. Samenow]

Em 1888, numa área chamada Whitechapel, no lado oeste de Londres, cinco prostitutas foram assassinadas numa sucessão bastante rápida. O caso foi descrito em uma proliferação de livros, incluindo Jack, o Estripador: O Livro Completo Sobre O Caso (Jack the Ripper: The Complete Casebook, 1975), de Donald Rumbelow. A partir de Whitechapel, a investigação de crimes homicidas tomou um novo rumo. Medidas inovadoras surgiram e o caso lançou inadvertidamente a área de perfis criminais, com base na análise de vítimas e de cena do crime,  na escrivaninha de estudiosos.

A primeira mulher morta foi Mary Ann “Polly” Nichols, de 45 anos. Em 31 de agosto de 1888, ela saiu de casa. Um amigo a viu às 2:30 da manhã, e uma hora depois, ela foi encontrada morta. Sua saia foi puxada até sua cintura, suas pernas estavam separadas e os cortes severos em seu abdômen e garganta pareciam ter sido feitos por uma faca de lâmina longa. A próxima mulher, também, foi retalhada com uma faca. Annie Chapman foi descoberta em 8 de setembro. Seu estômago foi rasgado e seus intestinos puxados para fora. Sua garganta também estava cortada, e sua bexiga e útero haviam sido removidos e levados.

Um bilhete que chegou em 29 de setembro levantou esperanças de uma pista. Com a assinatura “Sinceramente, Jack, o Estripador”, o autor afirmou que “menosprezava putas” e continuaria a matá-las. No final daquele mês, no dia 30 de setembro, houve duas vítimas na mesma noite com gargantas cortadas: Elizabeth Stride e Catherine Eddowes. Essas matanças foram mais ousadas. Eddowes teve os intestinos puxados para fora e colocados sobre o ombro direito, o útero e um rim foram removidos, e o rosto estava estranhamente mutilado.

Após estes quatro assassinatos, uma carta, intitulada “do Inferno”, chegou para o chefe da investigação dos crimes em Whitechapel, fechada, com metade de um rim que possuía a doença de Bright – uma doença da qual Eddowes sofria. O autor da carta indicou que ele havia fritado e comido a outra metade. Ele até mesmo se ofereceu para enviar “a faca sangrenta” num momento mais oportuno, e provocou:

“Pegue-me se puder”.

Foi a última vítima, Mary Kelly, de 24 anos, quem mais sentiu a fúria homicida do psicopata. Em 8 de novembro, ela aparentemente convidou um homem para seu quarto e depois que ele a matou, ele passou cerca de duas horas estripando-a. Ele também esfolou seus peitos e pernas. Seu coração foi removido e desapareceu, pedaços de carne foram cortados de suas pernas e nádegas. Mais de 100 pedaços da vítima foram colhidos no local.

Tentando a todo custo encontrar o assassino, a polícia solicitou uma análise do Dr. Thomas Bond, um cirurgião. Ele havia ajudado na autópsia de Mary Kelly, então tinha uma boa ideia do quão demente esse assassino era. Os investigadores queriam uma descrição específica das feridas e procedimentos, mas Bond ofereceu mais, como atesta documentos datados de 10 de novembro de 1888.

Segundo o cirurgião, os assassinatos escalaram em brutalidade e eram claramente de natureza sexual, com um intenso elemento de raiva contra mulheres ou prostitutas. Com exceção do último, foram limpos, rápidos e na rua, geralmente com a vítima sendo estripada de alguma maneira.

“Todos os cinco assassinatos foram, sem dúvida, cometidos pela mesma mão. Nos quatro primeiros, as gargantas parecem ter sido cortadas da esquerda para a direita. No último caso, devido à mutilação extrema, é impossível dizer em que direção o corte fatal foi feito…”

[Thomas Bond, 10 de Novembro de 1888 – Casebook]

O médico inglês Thomas Bond (1841–1901).

O médico inglês Thomas Bond (1841–1901).

Bond afirmou que todos os cinco foram cometidos por uma única pessoa que era fisicamente forte, calma e ousada. Bond acreditava que o homem fosse calmo e inofensivo na aparência, de meia-idade e bem arrumado, provavelmente vestindo um manto para ocultar os efeitos sangrentos de seus ataques ao ar livre. Ele seria um solitário, sem uma ocupação real, excêntrico e mentalmente instável. Ele poderia até sofrer de uma condição chamada Satyriasis, um desvio sexual. Muito provavelmente, aqueles que o conheciam saberiam que ele não estava bem da cabeça.

De acordo com Brian Innes no Perfil de uma Mente Criminosa (Profile of a Criminal Mind, 2003), Bond acrescentou que ele acreditava que este homem não possuía nenhum conhecimento anatômico – não poderia ser um cirurgião ou até mesmo um açougueiro, mas isso é questionado por Don DeNevi e John Campbell em Dentro da Mente dos Loucos (Into the Minds of Madmen, 2003). Eles citam as anotações de Bond como o indicador de que o assassino tinha grande conhecimento cirúrgico e anatômico. Além disso, Bond acreditava que a oferta de uma recompensa traria pistas de pessoas que conheciam o homem. Ele tinha certeza de que o mesmo homem era o responsável pelo assassinato de uma sexta mulher, Alice McKenzie, cuja autópsia ele também havia realizado.

Apesar dos detalhes deste relatório, Jack, o Estripador nunca foi pego, mas o retrato pintado por Bond do assassino – se estava correto ou não, não sabemos – foi nada mais nada menos do que um primitivo perfil criminal, algo que seria popularizado e ganharia status de pop star exatamente 100 anos depois, com o lançamento de O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris.

Voltando a 1888, dentro de alguns anos, o perfil criminal sairia das mãos de cirurgiões como Thomas Bond e iria para o sofá de psiquiatras criminais.

A Abordagem Psiquiátrica


.

“Ele acredita ser o maior de todos os arquitetos alemães e passa grande parte de seu tempo desenhando novos prédios e planejando o remodelamento de cidades inteiras. Apesar do fato de ter falhado em passar nos exames de admissão na Escola de Arte, ele acredita ser o único juiz competente em todas as matérias da arte. Faz pouca diferença onde seja o campo, economia, assuntos externos, educação, propaganda, filmes, música ou vestidos de mulheres. Em cada e todo campo ele acredita ser a autoridade inquestionável.”

[Walter C. Langer, trecho de um perfil secreto sobre Adolf Hitler, 1942] 

Ao longo do próximo meio século, alguns profissionais de saúde mental fizeram um estudo de assassinos e, em suas obras publicadas, os motivos e origens foram muitas vezes esclarecidos. Vale destacar o trabalho do psiquiatra Karl Berg que questionou o serial killer alemão Peter Kürten na prisão em 1930, após Kuerten ter sido acusado de inúmeras transgressões, incluindo vários assassinatos. “A mais interessante personalidade criminal da história”, citou Berg no excelente Der Sadist (O Sadista, 1931). O Sadista foi um dos primeiros livros a examinar clinicamente – e detalhadamente –  um brutal e sanguinário serial killer. Berg criou um rudimentar perfil dos crimes do psicopata, analisando os documentos de autópsias das vítimas e estando frente a frente com o sádico Peter Kurten. Sua perspectiva é única.

James Melvin Reinhardt, psiquiatra e professor, publicou suas entrevistas com o assassino Charles Starkweather em “The Murderous Trail Of Charles Starkweather” (O Rastro Assassino de Charles Starkweather, 1960).

Charles Starkweather, 19 anos, assassino de 11 pessoas, é levado acorrentado por um delegado após ser condenado a sentar na cadeira elétrica. Data: 24 de maio de 1958, Licoln, Nebraska. (AP Photo/Str)

Charles Starkweather, 19 anos, assassino de 11 pessoas, é levado acorrentado por um delegado após ser condenado a sentar na cadeira elétrica. Data: 24 de maio de 1958, Licoln, Nebraska. (AP Photo/Str)

Esses trabalhos não eram perfis comportamentais, mas tentativas de entender os crimes. No entanto, as detalhadas análises contribuíram com algumas estruturas e ideias para o desenvolvimento de perfis criminais.

Holmes e Holmes, em Perfil de Um Crime Violento (Profiling Violent Crime, 1989), discutem um perfil secreto elaborado pela Secretaria de Serviços Estratégicos (OSS) dos Estados Unidos sobre Adolf Hitler em 1942 (embora, estritamente falando, este não é um “perfil” de um suspeito desconhecido, mas uma análise comportamental finalizando um comportamento já conhecido). O Dr. Walter C. Langer, psicanalista de Nova York, ofereceu uma avaliação de “amplo alcance” com 135 páginas sobre o que Hitler provavelmente era – e o que ele poderia fazer se acreditasse que iria perder a guerra. A OSS queria uma base psicológica para se planejar. Langer usou discursos, uma longa biografia, o livro de Hitler Mein Kampf, e entrevistas com pessoas que haviam conhecido o fuhrer.

O profiler observou que Hitler era meticuloso, convencional e puritano sobre seu corpo. Ele era robusto e se via como um portador de padrões e criador de tendências. Ele tinha fases maníacas e pouco se exercitava. Hitler tinha boa saúde, por isso era improvável que ele morresse de causas naturais, mas sua mente estava se deteriorando. Ele não tentaria fugir para algum país neutro.

Sempre ao atravessar uma sala, Hitler caminhava diagonalmente de um canto a outro, e assobiava uma melodia de marcha. Temia a sífilis, os germes e o luar, e amava cabeças cortadas. Detestava os eruditos e os privilegiados, mas gostava da música clássica, vaudeville e da ópera de Richard Wagner. Ele também gostava dos espetáculos de circo que colocavam pessoas em perigo. Mostrou fortes traços de narcisismo e sadismo, e tendia a falar em monólogos longos ao invés de ter conversas. Tinha dificuldade em estabelecer relações íntimas com alguém. Por ser muito delirante, era possível que suas estruturas psicológicas entrassem em colapso diante da derrota iminente. O cenário mais provável era de que ele tiraria sua própria vida, porque ele havia ameaçado fazer isso antes, embora provavelmente mandasse algum de seus capangas fazer isso por ele.

O perfil antigo mais famoso


.

“Perfil criminal, como o FBI pioneiramente e eu apresento neste livro, pode ser definido como ‘um processo usado para analisar um crime específico ou uma série de crimes com objetivo de desenvolver um retrato comportamental de um transgressor desconhecido.'”

[Gregg McCrary, The Unknown Darkness: Profiling the Predators Among Us]

Mas, talvez, o perfil mais famoso feito por um psiquiatra até aquele ponto tenha sido o desenvolvido pelo psiquiatra freudiano Dr. James Brussel durante os anos 50. Quase todos os livros sobre perfis documentam este caso, em parte porque foi surpreendente, mas também em parte porque fundamentou um ponto de virada histórico para um futuro programa do FBI.

Mais de 30 explosões ocorreram durante as décadas de 1940 e 1950 em Nova Iorque em lugares como o Radio City Music Hall e a Grand Central Station. O perpetrador enviou uma série de cartas raivosas para os jornais, políticos e empresas de serviços públicos locais. Acreditando que havia um “método para sua loucura”, Brussel estudou o material relacionado com os crimes para a polícia e forneceu detalhes sobre a etnicidade do homem, motivação, idade aproximada, apresentação pessoal, situação de vida, nível de paranoia, afiliação religiosa e até mesmo sua maneira típica de vestir – um terno de abotoamento duplo. O homem era um mecânico habilidoso, disse Brussel, e desprezava os outros. Ele já havia trabalhado para a Con Edison, a empresa de serviços públicos para onde as cartas foram enviadas, e seu ressentimento cresceu ao longo do tempo, sem alívio. Ele provavelmente viveria com uma irmã solteira ou tia em Connecticut, New Hampshire ou Maine.

Quando a polícia finalmente localizou George Peter Metesky, em 1957, em Waterbury, Connecticut (graças a uma carta aberta que Brussel publicou no jornal que trazia uma resposta velada), eles o encontraram de robe. A polícia disse-lhe para se vestir e ele voltou a abotoar-se com um terno de abotoamento duplo, como Brussel havia previsto. Ele vivia com duas irmãs solteiras, e tinha a idade, etnia e religião como descrito pelo psiquiatra. Muitos dos outros detalhes do perfil também batiam.

O "Bombeador Maluco" George Metesky e seu terno de abotoamento duplo, detalhe previso no perfil de James Brussel. (AP Photo)

O “Bombeador Maluco” George Metesky e seu terno de abotoamento duplo, detalhe previso no perfil de James Brussel. (AP Photo)

Brussel também traçou o perfil do homem que estava cometendo uma série de assassinatos sexuais na área de Boston entre 1962 e 1964, mas outros também o fizeram e ficou claro, a partir das opiniões profissionais diversas que a área de perfis criminais não era uma ciência exata – nem sequer chegava perto. Homens instruídos contradiziam-se abertamente um ao outro em suas avaliações do Estrangulador de Boston, e a polícia voltava à estaca zero. Brussel escreveu sobre sua abordagem em um livro, que chamou a atenção de Howard Teten, um agente do FBI que estava ensinando um curso de criminologia na Academia Nacional (NA).

A encruzilhada do caso do Estrangulador de Boston mostrou-se importante para o futuro do perfil criminal.

A Nova Unidade do FBI


.

“Por volta de 1970, a única maneira de levar minhas teorias adiante era em sala de aula. Eu ensinava o tempo todo. A única coisa que eu podia fazer era escrever minhas teorias sob a forma de um plano de aula. E foi o que eu fiz”. 

[Howard Teten]

Como as taxas de homicídio aumentaram nos anos 50 e 60, juntamente com uma percentagem cada vez maior de assassinatos dos mais estranhos, o FBI, sob a direção de J. Edgar Hoover, recebeu uma ordem de expansão de jurisdição. A área de crimes em série (chamada padrão ou crime repetitivo) precisava de atenção imediata. Assassinos notórios como Ed Gein, Albert DeSalvo, Charles Schmid, John Norman Collins e Harvey Glatman foram apanhados até 1970 e todos foram condenados, ou suspeitos, por numerosos assassinatos. DeNevi e Campbell citam números que indicam que houve cinco serial killers conhecidos durante o período de 1795 a 1850 [uma estimativa baixa], os próximos 50 anos trouxeram 20, outro meio século depois aumentou para 33 e, finalmente, entre 1951 e 1993, eram quase 400 [provavelmente uma estimativa alta]. Algo tinha de ser feito, então uma nova unidade foi formada para assumir esta tarefa.

O primeiro livro que abordou a agora famosa Unidade de Ciência Comportamental do FBI (BSU em inglês) foi Quem Matou Preciosa? (Who Killed Precious?, 1992), de H. Paul Jeffers (esta referência não era por causa do nome da cadela de O Silêncio dos Inocentes, mas de uma prostituta assassinada). Na época, início dos anos 90, de acordo com Jeffers, John Douglas era o chefe da unidade e esta havia mudado de um grupo de curiosos trabalhando em escritórios apertados e com recursos limitados para um departamento de nove membros no Centro Nacional para a Análise de Crimes Violentos.

Jeffers oferece uma visão detalhada de como a BSU passou a fazer parte do FBI. Ele cita um artigo escrito por dois profilers, Robert Hazelwood e Richard Ault, lembrando de que a aplicação da lei até aquele ponto desconfiava da psicologia, mas os investigadores podiam e deviam fazer uso dos avanços nas ciências comportamentais. Ao contrário dos detetives que procuravam pistas físicas na cena do crime, Douglas e sua equipe viam a aparência das cenas dos crimes como sintomas das aberrações únicas dos criminosos. Isso certamente não era como o FBI tradicionalmente trabalhava.

Resumidamente, o FBI foi fundado em 1908, mas foi mal gerido até 1924, quando J. Edgar Hoover foi nomeado seu diretor. Ele permaneceu na posição até sua morte em 1972. Como parte de seu plano, ele montou a Academia de Treinamento do FBI em Washington, DC, em 1935. Eventualmente, se espalhou para a base da Marinha em Quantico, Virgínia. Como a jurisdição do FBI aumentou em variedade e escopo, houve mais demanda de todo o país por seus recursos e a agência se desenvolveu em uma organização de elite de aplicação da lei. A maior atividade ocorreu durante a década de 50 com o programa Os Dez Mais Procurados, e em 1967, eles criaram o Centro Nacional de Informações Criminais (NCIC em inglês), com acesso para agências estaduais e locais. Mas o NCIC não era um banco de dados para crimes não resolvidos. Isto ainda estava por vir.

Na Academia, os instrutores experientes em investigação ofereciam cursos, e um punhado de agentes queria introduzir ideias de psicologia e sociologia. Essa foi a semente inicial para a Unidade de Ciência Comportamental e, uma vez plantada, não tinha como arrancá-la.

A BSU


.

“Se você quer aprender sobre estupradores, como Hazelwood fez, você vai lá para fora e entreviste centenas de estupradores, e foi o que fizemos. E foi esta a ideia por trás do projeto [BSU]. Nós pegamos algum dinheiro da CIA. O FBI não estava interessado em pagar por isso.”

[Richard Ault]

O ex-profiler Robert Ressler, falecido em 2013, chamou a BSU de o último legado positivo de Hoover, embora outros tenham notado que somente com sua morte foi liberado o caminho para uma ênfase real na psicologia. Quando abriu em 1972, a Unidade de Ciência Comportamental foi formada com onze agentes, com Jack Kirsch sendo seu primeiro chefe oficial. DeNevi e Campbell descrevem os passos iniciais (sua história às vezes é imprecisa quando discutem casos, mas é a primeira a oferecer um relato abrangente das personalidades daqueles inovadores que fizeram a BSU o que é hoje) da unidade. Enquanto a BSU oferecia aconselhamento à aplicação da lei local sobre diferentes tipos de crimes, seriam os assassinatos em série que se tornariam seu forte. Kirsch, um ex-coordenador de treinamento policial, serviu por oito meses, seguido por John Pfaff.

Howard Teten. (fbi.gov)

Howard Teten. (fbi.gov)

Howard Teten, também um membro, já havia brincado com a ideia de perfis criminais, e tinha incluído algumas dessas ideias em seu curso da NA, Criminologia Aplicada. Ao se reunir com o Dr. Brussel (e também ter algum sucesso próprio em casos criminais investigados), ele fez do perfil um componente mais central de seu treinamento. Embora Teten discordasse das interpretações freudianas de Brussel, aceitou outros princípios da análise. Com o enérgico Agente Especial Patrick Mullany, que tinha formação em psicologia, Teten projetou um método para analisar criminosos desconhecidos em casos não resolvidos. Ele examinaria as manifestações comportamentais em uma cena de crime para obter evidências de transtornos mentais aberrantes e outros traços de personalidade e, em seguida, usaria essas informações para fazer deduções.

A equipe inicial da BSU selecionou os agentes que pareciam ter um talento para a análise comportamental e, à medida que a demanda de seu tempo e a exposição diária a crimes brutais se tornavam mais intensos, desenvolveram uma forte camaradagem. Com a pressão de maior sofisticação analítica, muitos deles começaram a se especializar. Hazelwood, por exemplo, se concentrou em crimes sexuais sádicos e mortes auto-eróticas, enquanto Dick Lanning se concentrou no abuso infantil, além de investigar supostos abusos em rituais satânicos. Com o sucesso do grupo, vários membros passaram a viajar até jurisdições locais para ensinar, ajudando assim a resolver muitos casos intrigantes.

Entre estes estava um caso de Montana, ocorrido em 1973-74. Com o passar do tempo, a análise pareceu, para a polícia local, ser um fracasso, mas na verdade acabou sendo um sucesso espetacular, embora trágico. Os detalhes estão no livro de DeNevi e Campbell.

O caso em questão é o sequestro de uma menina de 7 anos. Susan Jaeger sumiu sem deixar rastro durante uma viagem de férias com seus pais. A polícia não encontrou evidências físicas, mas tinha um suspeito para o desaparecimento: David Meirhofer. No entanto, ele era acima de qualquer suspeita, cortês e educado, e ele passou no teste do polígrafo. David era suspeito de assassinar uma jovem mulher na região, e sobre a menina disse não saber nada. A polícia local consultou os profilers num momento em que estavam praticamente desistindo dele, mas a equipe da BSU, que examinou o crime, ficou convencida de que Meirhofer era o cara. Os profilers vieram cerca de um ano após o assassinato. Segundo eles, o sequestrador era jovem, homem branco que matava por gratificação sexual e podia manter partes dos corpos das vítimas como “souvenires”. Após a “consultoria”, ainda levou-se um tempo até, confrontado, Meirhofer confessar o assassinato de Susan, de duas outras crianças e da mulher, Sandra Dykman Smallegan. Assim, Meirhofer se tornou o primeiro serial killer da história a ser pego usando técnicas de perfis criminais. Ele cometeu suicídio pouco tempo depois. 

“Me lembro de Teten e eu passando uma quantidade de tempo enorme neste caso. O caso em si era triste porque envolvia uma menina de sete anos. Era uma família maravilhosa, eles estavam de férias. A criança foi tirada da tenda no meio da noite, ela foi arrastada para fora, sua boneca pequena foi deixada ao lado da tenda. A família era de pessoas maravilhosas, especialmente a mãe, Marietta Yeager. Ela cooperou imensamente na investigação durante todo o tempo. Nós sentamos e, muito devagar e metodicamente, analisamos esse caso e chegamos até uma pessoa que sentimos ser definitivamente o autor do crime. Quando dissemos o nome à polícia local, eles nos falaram: ‘Howard e Pat, nós já demos a este cara pentotal sódico. Ele passou’, o que hoje em dia é algo surpreendente que no passado fosse permitido tomar.  E, então ele disse, ‘Nós investigamos bastante ele, mas não achamos que é o cara.’ Respondemos, ‘Bem, nós achamos que ele é o cara.'”

[Patrick Mullany]

David Meirhofer se tornou o primeiro serial killer a ser pego usando técnicas de perfil criminal. (Billings Gazette)

David Meirhofer se tornou o primeiro serial killer a ser pego usando técnicas de perfil criminal. (Billings Gazette)

Pedidos de consultas começaram a vir de departamentos de polícia de todo os Estados Unidos, assim mais agentes foram treinados. Logo estava formado o Programa de Análise do Crime e Personalidade Criminais. Em 1977, a unidade tinha uma identidade substancial, composta de um propósito de três pontas:

  1. análise da cena do crime; 
  2. perfis; 
  3. análise de cartas ameaçadoras.

Os profilers não investigavam todos os casos de assassinatos em série (e ainda hoje não investigam), mas apenas aqueles em que eram convidados ou que claramente envolviam crimes federais. Mesmo assim, graças aos programas de treinamento do NA, eles fizeram bons contatos com graduados que reconheciam suas habilidades e estavam ansiosos para ter uma perspectiva mais experiente. Muitas jurisdições raramente tinham sequer um homicídio, muito menos uma série deles, de modo que ter profissionais que haviam visto muitos desses crimes e cenas de crimes, disponíveis, era muitas vezes considerado uma benção.

Outro famoso profiler da BSU foi Robert Kenneth Ressler, autor do segundo livro a ser publicado sobre a unidade. Em Quem Luta Com Monstros (Whoever Fights Monsters, 1992) ele descreve sua experiência inicial na BSU. Já John Douglas, que se juntou em 1979 e, eventualmente, tornou-se chefe da BSU, disse que, com o sucesso de seu livro Caçador de Mentes (Mindhunter, 1995), vários outros agentes vieram, desde então, adicionando suas próprias contribuições para o arquivo de materiais sobre a famosa unidade.

Mas quem foram esses caras?

Os Caçadores de Mentes


.

“Howard Teten era muito, muito bom em analisar fotos de cenas de crimes. Ele sentava lá com seu microscópio e ficava olhando com seus grandes óculos para onde o sangue estava subindo ou para onde estava escorrendo na parede e todo esse tipo de coisa. Nós então começamos a ganhar a reputação, então a ideia de que nós estávamos fazendo algo importante nos acertou. Hoje a televisão está cheia desse negócio de CSI, Casos Arquivados ou o que seja. De muitas maneiras era exatamente o que Howard e eu estávamos fazendo. Não é que nós fomos os primeiros na aplicação da lei a fazer isso, mas o que nós fizemos, em última análise, é que nós demos a disciplina. Nós demos uma estrutura real.” 

[Patrick Mullany]

Os primeiros profilers, aqueles que entraram na BSU durante o que muitos chamam de sua “era de ouro”, eram ousados, inovadores e instintivos. Eles sabiam que eles eram pioneiros de um programa que teria de ser nutrido junto e cuidadosamente introduzido para as agências de aplicação da lei que resistiam à mudança – especialmente uma mudança que envolvia uma área que não conheciam ou confiavam. De alguma forma, as personalidades certas se uniram de forma síncrona para produzir o que muitos hoje consideram a grande contribuição do século 20 para entender o comportamento humano mais brutal e extremo. Ao contrário dos técnicos que podiam comparar claramente fibras ou impressões digitais, os profilers estavam avaliando os resultados indiretos de mentes evasivas e às vezes inteligentes.

Quando perguntado quais traços um profiler deve possuir, o ex-BSU Roy Hazelwood (falecido em 2016) teve uma resposta rápida: 

“O senso comum. Outro termo para isso é a inteligência prática. Uma mente aberta – você tem que ser capaz de aceitar sugestões de outras pessoas. O número três é a experiência de vida. O número quatro é a capacidade de isolar seus sentimentos pessoais sobre o crime, o criminoso e a vítima. Número cinco seria uma capacidade de pensar como o agressor pensa – não entrar em sua mente. Tudo que você tem a fazer é raciocinar como ele faz. Você não precisa entrar em sua mente.” 

Roy Hazelwood

Roy Hazelwood em foto de formatura. (Sam Houston State University)

Hoje, o perfil criminal ou comportamental é considerado mais uma arte do que uma ciência, com base em uma combinação de dados analisados ​​e extensiva experiência na aplicação da lei. O método certamente tem seus críticos, mas também pode reivindicar algum sucesso. Como o perfil é baseado em padrões derivados do conhecimento sobre casos passados, assumindo que o comportamento humano tende a mostrar pontos em comum, pode parecer estranhamente exato. Mas também pode dar errado e, às vezes, esse tipo de análise não ajuda em nada. É apenas uma ferramenta entre muitas no trabalho da polícia. É um guia, mas os profilers são rápidos em apontar que a totalidade dos detalhes não são predestinados, e não devem ser tomados, como um evangelho.

Para elaborar um perfil multidimensional, os psicólogos forenses examinam aspectos do crime e da cena do crime (normalmente assassinato, mas outros tipos de crime também), como a arma usada, o tipo de local de morte (ou local de desova, se for diferente), detalhes sobre a vítima, o método de transporte, a hora do dia em que o crime foi cometido e a posição relativa dos itens na cena.

“Eu uso uma fórmula: ‘Como + Por que = Quem’. Se pudermos responder aos comos e porquês de um crime, geralmente podemos chegar à solução”.

[John Douglas]

Arte & Ciência


.

“Coloque você mesmo na posição do caçador.”

[John Douglas, Mindhunter]

A ideia básica é adquirir um corpo de informação que mostre padrões comuns para uma descrição geral de um UNSUB (sujeito desconhecido em inglês) em termos de hábito, emprego, estado civil, estado mental e traços de personalidade. Ao contrário da crença popular, não é necessário que o agressor seja um criminoso em série. O perfil pode ser feito a partir de uma única cena de crime (como Hazelwood demonstra em O Mal que Os Homens FazemThe Evil That Men Do, 1999) e, como 70 a 75 por cento dos assassinatos são situacionais, o desenvolvimento de uma forma de perfil sem referência a padrões repetidos é útil. Perfis também se desenvolveram para concepção de produtos, bombardeios em série, estupro em série, sequestro e incêndio.

John Douglas

O profiler John Douglas, em programa de 1995 do Biography Channel fala sobre o caso Jack, o Estripador.

O desenvolvimento de um perfil envolve, em primeiro lugar, uma victimologia detalhada. Em outras palavras, o profiler deve aprender fatos significativos sobre a vida das vítimas, especialmente nos dias e horas que antecederam a sua morte. Um cronograma é elaborado para mapear seus movimentos e os investigadores estudam todas as suas comunicações pessoais para saber sinais de onde elas possam ter cruzado caminho com um suspeito viável. É importante conhecer seu estado de espírito e sua saúde mental e história, bem como seu nível de risco (prostitutas correm um risco muito maior, obviamente, do que uma menina em sua própria casa).

Uma vez que os detalhes das vítimas são conhecidos, a metodologia da cena do crime e dos infratores são avaliados quanto à melhor forma de categorizá-lo (ou ela). Com base na ideia de que as pessoas tendem a ser escravas de sua psicologia e inevitavelmente deixam pistas, os profilers podem avaliar se a pessoa é um predador organizado que planejou e organizou um crime ou, em vez disso, cometeu um crime impulsivo de oportunidade, com pouca apreciação pelo o que ele possa ter feito.

John Douglas e Hazelwood escreveram um artigo em 1980, The Lust Murderer (O Assassino de Luxúria), no qual estabeleceram primeiro a distinção entre homicídios organizados e desorganizados. Eles notaram que em um número de casos, havia alguns que pareciam ser bem pensados e outros que eram altamente espontâneos.

“Fui até John e contei-lhe minhas ideias. Então nos sentamos e escrevemos as características de cada tipo. Mas então os membros da Unidade de Ciência Comportamental nos disseram que nunca iria dar certo porque era muito simples. Mas o que aconteceu? [Hoje] vá a qualquer lugar do mundo [na área da] aplicação da lei, e [fale com] criminologistas e profissionais de saúde mental, você vai ouvir que existem duas grandes categorias de assassinos: organizado e desorganizado. Portanto, deu certo.”

[Roy Hazelwood]

Profilers também podem observar se o criminoso usou um veículo, se é criminalmente sofisticado, ou se pode ser escravo de alguma fantasia sexual. Estudam se uma arma foi levada ou retirada; o estado da (s) cena (s) do crime; o tipo de feridas infligidas; os riscos que um criminoso correu; seu método de cometer o crime e controlar a vítima; e provas de que o incidente pode ter sido encenado para parecer algo diferente. Além disso, pode haver indicações de que o agressor não agiu sozinho.

Onde A Análise de Perfil Funciona Melhor


.

“O conceito do perfil trabalha em harmonia com a busca por evidência física. Cientistas do comportamento estão ocupados em suas tentativas para pesquisar e catalogar itens não físicos tais como raiva, ódio, medo e amor. “ 

[FBI – Criminal Profiling, página 36]

Os perfis funcionam melhor quando o ofensor exibe psicopatologia óbvia, como tortura sádica, mutilação pós-morte ou pedofilia. Alguns assassinos deixam uma assinatura – uma manifestação comportamental de um capricho bastante individual da personalidade -, como posicionar o cadáver para exposição humilhante, mordida pós-morte ou amarrar ligaduras com um nó complicado. Isso ajuda a vincular cenas de crimes e pode apontar para outros tipos de comportamentos para procurar.

O que um perfil pode oferecer de útil:

  • faixa etária,
  • identidade racial,
  • ideias sobre o modus operandi,
  • estimativas sobre a situação de vida e nível de educação,
  • padrões de locomoção,
  • a possibilidade de um registro criminal ou psiquiátrico e
  • prováveis ​​traços psicológicos dos criminosos.

Um perfil também pode descrever um cenário de fantasia que impulsiona a pessoa ou até mesmo identificar uma área onde ele ou ela provavelmente reside. Essas descrições se baseiam em deduções sobre o crime específico, a partir do que já se sabe sobre criminosos e desvios.

Os melhores profilers adquiriram seus conhecimentos através da experiência com criminosos e desenvolveram um senso intuitivo sobre certos tipos de crimes. A base de conhecimento é desenvolvida a partir de evidências físicas e não físicas. Geralmente, os profilers empregam teorias psicológicas que fornecem maneiras de detectar deficiências mentais, tais como delírios e traços de hostilidade. Eles também reconhecem padrões de pensamento criminosos, e predizem os defeitos do caráter. Profilers trabalham com dados advindos de pesquisas como, por exemplo, a faixa etária em que criminosos geralmente agem. Um histórico familiar instável também é um fator importante para a criminalidade.

Grande parte dessas informações vieram de casos reais.

Um Caso Antigo: O Vampiro de Sacramento


.

“Perfil criminal é a autópsia psicológica de um assassinato”. 

[Russ Vorpagel]

Richard Trenton Chase, o “Vampiro de Sacramento”, foi rapidamente identificado e apreendido com a ajuda de um perfil psicológico em 1978. Ele havia assassinado uma mulher em sua casa, eviscerando-a e bebendo seu sangue. Foi tão brutal que o FBI foi chamado, e o caso deu aos profilers a chance de mostrarem seu valor. Os agentes Robert Ressler e Russ Vorpagel (uma “lenda” do FBI segundo Ressler) desenvolveram perfis independentes, e ambos escreveram sobre este caso em seus respectivos livros.

Robert Ressler

Robert Ressler.

Ressler oferece uma análise passo-a-passo do método, explicando como ele derivou os traços que listou. Por exemplo, a partir de um estudo psiquiátrico que havia lido, ele concluiu que o agressor era esquelético. Dada à desordem no local, era provável que o UNSUB não tivesse uma profissão ou muita educação – nada que exigisse pensamento organizado e concentração. O perfil era todo derivado da lógica e do conhecimento sobre princípios do comportamento humano. E isso Ressler podia explicar inteiramente a qualquer um que pedisse. O perfil de Vorpagel era similar.

Ressler pensava que o UNSUB fosse um assassino desorganizado em oposição a um organizado, com pistas que apontavam para a possibilidade de psicose paranoica. O criminoso claramente não havia planejado o crime e fez pouco para esconder ou destruir provas. Deixou marcas de pegadas e impressões digitais, e provavelmente caminhou ao redor sem perceber o sangue em suas roupas. Em outras palavras, ele pouco pensou nas consequências. Seu domicílio seria tão desleixado quanto o lugar que ele havia saqueado, e sua capacidade mental era provavelmente baixa. Isso significava que ele provavelmente não dirigia um carro, indicando que ele morava na vizinhança dos crimes. Ele era branco, 25 ou 27 anos, magro, subnutrido, vivia sozinho, e provavelmente tinha provas que apontavam para o crime em sua casa. Ele devia estar desempregado e recebia benefício do governo.

Todas essas conclusões derivavam de informações já conhecidas, como por exemplo, a de que crimes tendem a ser intrarraciais; específicos de uma certa faixa etária; e semelhantes a outras pessoas com uma doença mental baseada na paranoia. Pelo o que Ressler sabia, também era provável que esse criminoso matasse novamente e continuasse matando até que ele fosse pego. Eles tinham que trabalhar rápido. E uma pista importante veio de um morador da região.

“Sabe, é meio estranho, mas alguns cachorros e gatos foram mortos no bairro na época dos assassinatos”, disse um homem a Ressler e Vorpagel. Os olhos dos profilers brilharam. O comentário não significou nada para a polícia de Sacramento, mas tudo para os agentes do FBI. Ao contrário do que pensava a polícia local, o caso envolvia um serial killer, afirmaram categoricamente os profilers.

Três dias após o primeiro homicídio, o assassino atacou novamente, desta vez matando três pessoas em sua casa, incluindo um homem e uma criança. Ele sequestrou um bebê e roubou o carro da família, mas depois o abandonou em plena luz do dia. Isso sugeria uma mente inconsciente, desassossegada, e isso oferecia mais informações para refinar o perfil. Ressler e Vorpagel tinham certeza de que ele vivia perto de ambas as cenas. De posse do perfil, a polícia saiu às ruas: “Você conhece alguém que se parece com esta descrição?”, eles perguntaram. Em poucas horas, um morador local deu a dica: “Sim. Esse cara parece Richard. Recentemente ele pediu o meu cachorro porque ele disse que gostava de cães.” Outro vizinho adicionou: “Eu acho que é ele porque nós nunca víamos de novo os cães e gatos que ele pegava”.

A polícia encontrou Richard Chase morando a menos de um quarteirão de onde o carro foi abandonado. Sua aparência era o que se esperava e ele sofria de delírios paranoicos. Ele tinha exatamente 27 anos, o que surpreendeu a polícia. Partes de corpos, coleiras de animais vazias e um liquidificador manchado de sangue foram encontrados em seu apartamento. Ele morava sozinho, estava desempregado e tinha um histórico de internamento psiquiátrico. Ele havia sido libertado apenas meses antes de começar a matar. O perfil de Ressler e Vorpagel era extremamente acurado.

A prisão de Chase parou uma série de possíveis outros assassinatos, que aparentemente, a partir de marcas em seu calendário, estavam planejados naquele ano: mais 44 vítimas.

O serial killer Richard Chase (ao centro) durante audiência no tribunal de Sacramento em 1979. (AP Photo)

O serial killer Richard Chase (ao centro) durante audiência no tribunal de Sacramento em 1979. (AP Photo)

Vorpagel enfrentou este serial killer na sala de interrogatório e Chase admitiu que havia cometido os assassinatos, mas não fizera nada de errado. Ele estava salvando a própria vida, porque seu sangue estava se transformando em areia e ele precisava do sangue das vítimas para impedir este processo. Falar com alguém como Chase ajudou a confirmar o que os profilers pensavam, e foram casos como esse que deram a Ressler uma ideia.

As Entrevistas nas Prisões


.

“Estão escondidos na obscura mente de assassinos e masoquistas, assassinos sexuais e sadistas, um padrão, uma fotografia, um plano predeterminado de pilhagem, paixão e perversão? A resposta na maioria dos casos é sim. E nosso trabalho como profilers é se concentrar em indivíduos cujos traços de personalidade se assemelham aos traços de outros que foram condenados por cometer crimes semelhantes àqueles que estamos analisando.”

[Russel Vorpagel, 1982]

Enquanto viajava ensinando às jurisdições locais este método de análise comportamental, Ressler pensou que poderia ser uma boa ideia visitar algumas das prisões locais para conversar com criminosos perigosos. Os profilers estavam fazendo perfis de criminosos desconhecidos, mas seria útil se eles pudessem falar com criminosos conhecidos e descobrir mais sobre seus motivos e seus crimes. Se a BSU pudesse elaborar um protocolo de perguntas a fazer e obter respostas detalhadas, eles poderiam começar um banco de dados de informações sobre traços e comportamentos que esses homens compartilhavam em comum. 

“Em 1978, eu sugeri a ideia de melhorar nossas potencialidades instrutivas conduzindo uma pesquisa detalhada com personalidades criminosas violentas. Sugeri que entrássemos nas prisões e entrevistássemos criminosos violentos para obter um melhor controle sobre eles e formular uma base para o perfil criminal. Inicialmente, fui eu e meu parceiro que fizemos isso enquanto estávamos em viagens para fins de ensino. Se eu estivesse na Califórnia, eu entraria em contato com o agente que era nosso coordenador de treinamento e marcaria entrevistas em prisões locais com pessoas como Charles Manson ou Sirhan Sirhan.”

[Robert Ressler]

John Douglas e Robert Ressler escreveram sobre essas visitas em seus livros.

“Se você quer entender o artista, observe o seu trabalho”.

[John Douglas, Mindhunter]

Inicialmente, eles contataram diferentes tipos de criminosos, desde assassinos em massa até assassinos comuns e, também, assassinos em série. H. Paul Jeffers entra em detalhes extensos sobre este aspecto do programa. Ele deixa claro que a equipe não queria fazer perguntas que os psiquiatras pudessem ter usado durante as avaliações nas prisões. Eles estavam interessados ​​na aplicação da lei e não na psicanálise. Foram coletados dados de 118 vítimas, incluindo algumas que sobreviveram a uma tentativa de assassinato. Após muito trabalho, a equipe desenvolveu uma rotina de questionário que cobria os aspectos mais significativos dos crimes. O objetivo era coletar informações sobre como os assassinatos foram planejados e cometidos, o que os assassinos fizeram e pensaram depois, que tipo de fantasias tiveram e o que fizeram antes do próximo incidente (quando relevante).

William Heirens e Outros


.

“O perfil criminal é uma ferramenta na caixa de ferramentas do investigador.”

[Robert Ressler]

Entre os entrevistados estava William Heirens, que em 1945 e 1946 cometeu três assassinatos em Chicago, época em que Ressler ainda era uma criança. Heirens ficou famoso por escrever com batom avisos para que fosse pego antes que matasse outra vez.

“Meu pai trabalhou para o Chicago Tribune, e ele trazia para casa o jornal. Eu tinha ouvido que havia um assassino solto em Chicago que estava matando mulheres e deixando escritos na parede. Foi um caso clássico e eu comecei a acompanhá-lo.”

[Robert Ressler]

Heirens estava em um presídio em Vienna, sul de Illinois, e um dia Ressler foi lá.

“Foi estranho porque muitas crianças tinham seus heróis no esporte ou coisas assim e eu queria encontrar este serial killer. Eu contei a ele que havia acompanhado seu caso. Ele era cerca de nove anos mais velho do que eu e foi um tipo de surpresa que, de certa forma, ele tinha um fã. Então, eu pedi a ele para participar de nossa pesquisa.”

[Robert Ressler]

Outros criminosos que participaram do programa foram Edward Kemper, de San José, que havia assassinado oito meninas, sua mãe e sua amiga; Jerry Brudos, que matou e mutilou várias mulheres no Oregon; Richard Speck, que havia abatido oito enfermeiras que moravam juntas em uma única noite; e John Wayne Gacy, que havia matado 33 rapazes e enterrando a maioria deles no porão de sua casa. Outros criminosos que não eram assassinos também foram entrevistados, como Gary Trapnell, sequestrador de aviões e assaltante. No entanto, o banco de dados foi principalmente para a coleta de informações sobre o assassinato em série.

Ed Kemper sendo entrevistado por John Douglas. (Mindhunters)

Ed Kemper sendo entrevistado por John Douglas. (Mindhunters)

Refinando os Métodos


.

“Nossas entrevistas com os assassinos deixaram claro a importância da fantasia no planejamento do descarte do corpo da vítima. Este é o ponto onde o assassino pode primeiro vir a enfrentar a realidade do que ele fez. Aqui, nós perguntamos o que foi feito com o corpo; como o agressor deixou a cena; o que, se positivo, ele tirou do corpo ou levou da cena do crime; e o que ele pensou e sentiu durante este tempo. Nós perguntamos aos agressores o que eles fizeram logo após o assassinato. Eles trocaram de roupa? Saíram para comer? Dormiram? Tiveram uma noite com amigos? Nós queríamos saber seus pensamentos e sentimentos em relação ao crime, se eles sonhavam a respeito, se voltavam à cena do crime, assistiam ao funeral, lia a respeito nos jornais. Eles conversaram com a polícia ou ajudaram na busca do corpo?”

[John Douglas, Mindhunters]

À medida em que avançavam, os profilers continuavam refinando seus métodos. Às vezes, eles precisavam ser criativos para obter as informações que procuravam. Eles logo aprenderam sobre os problemas com auto-relatos, quando alguns dos homens se gabavam de atos brutais, ou aqueles que eram psicopatas e faziam joguinhos e até mentiam. No entanto, estes eram os homens que estavam lá quando o crime foi cometido, a única testemunha viva, na maioria dos casos – e eram eles que podiam contar a história, então havia mais vantagens do que desvantagens nessas entrevistas.

Para obter o maior número de informação possível, os profilers geralmente faziam uma extensa pesquisa sobre o entrevistado antes de falar com ele. Dessa forma, eles mostravam um respeito que o assassino poderia desfrutar, bem como saber quando sua história se desviava dos fatos conhecidos. Apesar da brutalidade de muitos dos crimes, os agentes perceberam que era importante transmitir interesse sem fazer julgamento.

O estudo inicial, que visava incluir 100 condenados, compilou dados de apenas 36, mas ainda assim provou ser útil. Depois disso, as entrevistas continuaram e outros agentes se envolveram. Ressler estimou que ele fizera mais de 100, e ele descreveu sobre essa experiência, com John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer, em I Have Lived in the Monster (Eu vivi dentro do Monstro, 1997). Gregg McCrary, que se juntou à unidade em 1985, acrescentou ao banco de dados entrevistas como a que descreveu em The Unknown Darkness (A Escuridão Desconhecida, 2004) com o bombardeiro serial e gênio falsificador, Mark Hoffman.

Quando tudo foi dito e feito, a partir desta amostra de entrevistados, os pesquisadores juntaram informações estatísticas que foram úteis para o desenvolvimento de perfis no final dos anos 80. Um terço dos criminosos eram brancos, quase a metade tinha um dos pais desaparecido da casa à medida em que cresciam (geralmente o pai), três quartos relataram ter tido um pai frio ou negligente, a maioria tinha histórico psiquiátrico, bem como uma história de empregos instáveis, o QI médio era normal, três quartos tinham parafilias e a mesma porcentagem relatou algum tipo de abuso físico ou psicológico. A amostra era muito pequena para tirar conclusões significativas, mas foi um bom começo.

Anos mais tarde, Roy Hazelwood também desenvolveu um estudo, com Janet Warren, das esposas e namoradas de assassinos sádicos, cujos resultados ele publicou na terceira edição de Aspectos Práticos da Investigação do Estupro (Practical Aspects of Rape Investigation, 2008). Alguns deles também eram assassinos em série e suas histórias contribuíram com novos conhecimentos para o banco de dados.

Mesmo antes do estudo inicial ser concluído, aconteceu algo que colocou o perfil criminal no mapa.

O caso que colocou a BSU no radar


“Eu estava em Nova Iorque, falando sobre perfil de personalidade criminal para a polícia local. Eu já havia dado esta palestra centenas de vezes e podia falar a respeito no piloto automático. De repente, eu estava consciente que estava falando, mas eu travei, comecei a suar frio e a pensar: ‘Porra, como vou conseguir suportar todos esses casos?’ Eu tinha acabado de terminar com o caso Wayne Williams dos assassinatos de crianças em Atlanta e os assassinatos raciais Calibre .22 em Buffalo. Então fui chamado para o caso do Assassino da Trilha em São Franciso. Ao mesmo tempo eu estava sendo consultado pela Scotland Yard na investigação do Estripador de Yorkshire na Inglaterra. E eu estava voltando para o Alasca, trabalhando no caso de Robert Hansen, onde um padeiro de Anchorage estava pegando prostitutas, voando com elas para as montanhas, e as caçando. E eu ainda tinha que voar para Seattle na semana seguinte para aconselhar a força tarefa do Assassino do Green River em um caso que se delineava como um dos maiores assassinos seriais da história americana.”

[John Douglas, Mindhunter, Prefácio]

O que os profilers precisavam era de um caso para demonstrar com sucesso sua refinada técnica e que atraísse a atenção do público. O Vampiro de Sacramento foi interessante, mas aquela ameaça aconteceu no quintal dos profilers e foi contida rapidamente. Mas agora com ligações vindas de todo o país, era provável que eles encontrassem uma boa oportunidade, e foi isso o que aconteceu: uma série de mortes em Atlanta, Geórgia, que estava sendo nacionalmente noticiada.

Em Mindhunter, Douglas conta como ele e Hazelwood foram os representantes da BSU neste caso.

De 1979 a 1981, alguém estava matando a juventude negra de Atlanta. Mais de 25 homens negros, alguns com apenas nove anos, foram estrangulados, espancados ou asfixiados. Para a polícia local, todas as pistas potenciais se transformaram em becos sem saída. A única pista real era a presença, em vários dos corpos, de fios de tecido. Alguns também continham fios que peritos determinaram ser pelos de cães. Douglas e Hazelwood, que chegaram depois de vários dos assassinatos, andaram pelo bairro onde as vítimas haviam vivido e concluíram que aqueles não eram crimes raciais; eles deduziram que o assassino era negro. “Para andar naquele bairro, o cara devia ser negro, um branco seria facilmente notado. Para dar carona a alguma criança ou levar alguém para longe dali, o cara devia ser negro”, cita Douglas em um artigo do Baltimore Sun em 1991. Eles também indicaram que a próxima vítima provavelmente seria despejada no Rio Chatahoochee, uma vez que esse era o padrão.

Google Street View: Ponte James Jackson Parkway, rio Chatahoochee, local onde no começo dos anos 80 vários corpos de jovens negros foram descartados por um serial killer.

A polícia montou uma vigília, e em 22 de maio de 1981, essa estratégia pareceu ter funcionado. Nas primeiras horas da manhã, a patrulha de vigilância ouviu um barulho alto. Alguém havia jogado algo grande no rio. Na ponte James Jackson Parkway, eles viram um furgão branco da Chevrolet, e quando eles o pararam, o motorista se identificou como Wayne Williams, 23 anos, negro, fotógrafo e promotor de música. Os policiais o questionaram, mas quando ele disse que havia jogado um pouco de lixo, eles o deixaram ir.

Dois dias depois, a polícia encontrou o corpo de Nathaniel Cater, de 27 anos. Ele havia sido asfixiado, aproximadamente, 48 horas antes. Uma única fibra de tapete amarelo-verde foi encontrada em seu cabelo. A polícia conseguiu um mandado de busca para a casa e o carro de Wayne Williams, e a busca trouxe uma prova valiosa: os pisos da casa de Williams estavam cobertos com tapetes amarelos e ele também tinha um cachorro. Comparações entre as amostras retiradas das vítimas mostraram ser consistentes com o tapete de Williams. Três testes de polígrafos separados indicaram falhas por parte do suspeito.

A acusação baseou-se apenas em dois dos 28 casos suspeitos de assassinato – o do rio, Nathaniel Cater, e outro encontrado na mesma área um mês antes, Jimmy Ray Payne. Uma única fibra de náilon foi encontrada em seus shorts, e era compatível com o carpete do carro de Williams. A acusação também introduziu como evidência as fibras encontradas nos corpos de dez das outras vítimas, que também coincidiam com as do carro ou casa de Williams. No total, havia 28 tipos de fibras ligadas a Williams. Além disso, várias testemunhas se apresentaram e reconheceram a ligação dele com algumas das vítimas.

Wayne Williams (centro) aos 16 anos com amigos no porão da casa de seu pai em Dixie Hills, 1971. Seu pai, Homer, montou um estúdio para o filho no porão pois acreditava que ele tinha futuro na música. Oito anos depois, uma série de 28 assassinatos de crianças e jovens negros começou. (Boyd Lewis)

Wayne Williams (centro) aos 16 anos com amigos no porão da casa de seu pai em Dixie Hills, 1971. Seu pai, Homer, montou um estúdio para o filho no porão pois acreditava que ele tinha futuro na música. Oito anos depois, uma série de 28 assassinatos de crianças e jovens negros começou. (Boyd Lewis)

John Douglas atuou como consultor no julgamento de Williams em 1981, prevendo o comportamento do suspeito a certas estratégias. Em Mindhunter, Douglas registra o momento em que Williams perde o controle e grita dizendo que ele não se encaixava no perfil do FBI. Douglas também previu que Williams tentaria se impor e controlar o processo – e até mesmo que ele fingiria estar doente em um dia. “Era a vitrine para ele”, diz Douglas.

Depois de apenas 12 horas, o júri retornou com um veredicto de culpa contra Williams, com duas sentenças de prisão perpétua. “Isso foi bom para o nosso programa”, Jeffers cita o que Douglas disse depois. “Provamos que um perfil psicológico pode ajudar a condenar um assassino”.

Mas não era o suficiente desenvolver perfis de assassinos. A carga de trabalho estava crescendo rapidamente e a necessidade de um banco de dados computadorizado estava cada vez mais se fazendo necessário.

Fontes Consultadas


.

[1] Pinizzotto, A. J. , & Finkel, N. J. (1990). Criminal personality profiling: An outcome and process study. Law and Human Behavior, 14, 215-233.

[2] Kocsis, R. N., Irwin, H. J., Hayes, A. F., & Nunn, R. (2000). Expertise in psychological profiling: A comparative assessment. Journal of Interpersonal Violence, 15, 311-331.

[3] A Psychological Analysis of Adolph Hitler – His Life and Legend. Walter C. Langer Office of Strategic Services -Washington, D.C.

[4] Baltimore Sun – The FBI’s John Douglas spends his days profiling criminals, 11 de março de 1991. Disponível em: http://articles.baltimoresun.com/1991-03-11/features/1991070079_1_serial-killers-killer-ted-bundy-douglas

[5] Citizen X, HBO Home Video, 2000. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TMVEvD_hq7M

[6] Casebook. Disponível em casebook.org

[7] Criminal Profiling, FBI. Disponível em vault.fbi.gov

[8] Russell Vorpagel, 1998. Profiles in Murder: An FBI Legend Dissects Killers and Their Crimes 

[9] Mccrary, Gregg. Philpin, John. Are criminal profiles a reliable way to find serial killers? – CQ Researcher – Congressional Quarterly

[10] Blog o Aprendiz Verde – Robert Ressler, o homem que entendia serial killers

[11] Gregg O. McCrary – The Unknown Darkness Profiling the Predators Among Us, 2004

[12] Nigel Blundell – Serial Killers: Murder Without Mercy, 2011

[13] Michael Newton – A Enciclopédia De Serial killers, 2000

[14] The FBI Files: Season 2 – Ep 14 “Killer Abroad” – Discovery Channel

[15] Stephen Giannangelo – The Psychopathology of Serial Murder, 1996

Colaboração de:


.

Sheeza

Curta O Aprendiz Verde No Facebook

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
DarkSide Books

RELACIONADOS

Dupla Identidade – Bruno Gagliasso

Glória Perez

Ilana Casoy

OAV TV

OAV TV

Queremos Você!

Queremos Você!

Siga-nos no Twitter

Siga-nos no Facebook!

21 Anos de Arquivo-X

20 Anos da Execução de Andrei Chikatilo

20 Anos da Execução de John Wayne Gacy

O nascimento de um serial killer

Categories

Contribua com O Aprendiz Verde!

Bate-Papo

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers