Perfil Criminal (Parte 3) – Problemas, Descrédito e Atualmente

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Perfil Criminal 3

Perfil Criminal - O Aprendiz Verde - Parte 3

Problemas


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Leia antes:

“Perfil criminal usa características do comportamento do agressor como sua base. Homicídios sexuais, por exemplo, fornecem muita informação sobre a mente e motivação do assassino. Uma nova dimensão é fornecida ao investigador através da técnica do perfil, particularmente em casos onde a motivação subjacente do crime pode ser escondida do mais experiente detetive.”

[FBI – Criminal Profiling, página 11]

Em 2002, durante um período de três semanas, pessoas que viviam ao longo da autoestrada I-95, de Maryland até a Virgínia, foram baleadas e mortas enquanto executavam tarefas mundanas como abastecer o carro. A nação entrou em um frenesi com a ação de um atirador serial e os profilers foram chamados para darem suas opiniões profissionais. Com nenhum comportamento para avaliar exceto a precisão da pontaria, comentaristas de TV estilo Datena opinavam e ofereciam todos os tipos de ideias sobre o homem branco solitário com passado militar dirigindo um caminhão branco ou uma van. Um queridinho da mídia na época – sem experiência nenhuma em perfil criminal – chegou a dizer que o caminhão estaria abandonado em um lago em algum lugar.

Logo ficou claro que o criminoso estava ouvindo o que os comentaristas e a polícia estavam dizendo sobre ele. Ele não atira em crianças – então ele atirou. Ele não atira nos fins de semana – então ele atirou.

McCrary relatou em seu artigo que quando há poucas pistas em um caso, as pessoas podem desenvolver uma visão de túnel, como a de um cavalo com cabresto. No casto do atirador de Washington, as pessoas acreditavam que o criminoso dirigia uma van branca apenas porque uma suposta testemunha relatou ter visto uma van branca na região de um dos crimes. Ninguém tinha certeza disso, mas a mídia e os investigadores se apegaram a ideia de que havia uma van branca envolvida. Eles também acreditaram em um perfil oferecido na televisão de que o atirador era branco (até aquela época, a maioria dos atiradores solitários eram brancos, então o assassino também era). No final, tudo estava errado: a van, a raça e a ideia de que eles poderiam falar abertamente sobre o perfil do UNSUB sem que o mesmo modificasse seu modus operandi de acordo com o que se sabia dele. O atirador acabou por ser uma dupla de homens negros, eles não dirigiam uma van, mas um carro adaptado para assassinatos (um dirigia enquanto o outro se deitava no porta malas e atirava por um furo na traseira do carro) e um deles admitiu que atirou em certas pessoas após ver o chefe da polícia em programas de TV tentando antecipar quais seriam os próximos passos do assassino.

Uma inusitada variedade de crimes mais dados de casos passados ​​que não tinham nenhuma relação com este alimentaram conclusões errôneas. No entanto, todos os cientistas comportamentais sabem que o comportamento humano está cheio de anomalias. Embora fosse razoável dizer que este atirador era branco, isso não eliminava a possibilidade de que ele fosse de outra raça – ou gênero.

Quando, anos depois, o investigador-chefe do caso, Charles Moose, lançou um livro contando os bastidores da investigação, ele relatou que o perfil dos agentes da BSU não tinha nada das alegações dos comentaristas que se apresentavam como profilers na TV. Mas a mídia escolheu o seu lado. No final, a cobertura sensacionalista e sem compromisso dos meios de comunicação deu a impressão de que todos os profilers tinham uma opinião comum, e todos, portanto, estavam errados. Manchetes como, “Profilers estavam completamente errados”, encheram as páginas dos jornais.

"Encarando os Atiradores de Beltway: profilers estavam completamente errados", escreveu o Baltimore Sun em 15 de Dezembro de 2002. Foto: Baltimore Sun.

“Encarando os Atiradores de Beltway: profilers estavam completamente errados”, escreveu o Baltimore Sun em 15 de Dezembro de 2002. Foto: Baltimore Sun.

Pior ainda foi a precipitada aplicação do perfil geográfico [leia também O Assassino da Fazenda dos Porcos], que havia entrado no mundo dos perfis como outra ferramenta de investigação, e que provavelmente era inapropriado para uso no caso. Embora, posteriormente, a ferramenta tenha se provado como uma eficaz maneira de identificar onde um UNSUB vive ou trabalha, o perfil geográfico até então nunca havia sido testado em um caso como dos atiradores de Washington. A ferramenta é indicada para uso em casos onde a área de atuação do UNSUB é restrita, como a um bairro ou região de uma cidade, e não em áreas muito grandes (como era o caso americano). Muitos o ridicularizaram, taxando-o de inútil.

Reportagem do portal Terra sobre os assassinatos em série em Washington, 2002.

Reportagem do portal Terra sobre os assassinatos em série em Washington, 2002.

 

“A polícia deve ter reduzido a uma zona “bastante pequena” a área onde reside o atirador que está aterrorizando os arredores de Washington, com o assassinato de seis pessoas. A afirmação foi feita pela companhia que desenvolveu o sistema de perfil geográfico utilizado pelos investigadores neste caso.

A polícia dos condados de Prince George e Montgomery, no Estado de Maryland, recorreu ao Escritório de Álcool, Tabaco e Armas (ATF), para encontrar o atirador, por meio de um perfil geográfico, uma técnica desenvolvida no Canadá. Este sistema de pesquisa utiliza pontos geográficos relacionados com uma série de delitos para determinar a área de residência mais provável do criminoso e é usado geralmente em casos de assassinato, violação, incêndios e roubos.

O franco-atirador desconhecido feriu gravemente hoje um estudante de 13 anos em Bowie (Maryland), depois que uma tia o deixou na escola.

A Polícia Montada canadense e o Scotland Yard britânica (com dois especialistas cada um), a Polícia de Ontário, a polícia federal alemã PKA, ATF e o próprio Rossmo são os únicos que utilizam o perfil geográfico. Philip MacLaren, vice-presidente de Environmental Criminology Research Inc (ECRI), a única empresa no mundo que vende os sistemas de perfil geográfico, afirmou que o especialista da ATF, trabalhando no caso de Washington, deve ter uma clara idéia de onde o franco-atirador pode ser encontrado.

O chefe de polícia do condado de Montgomery, Charles Moose, onde ocorreu um dos assassinatos, se negou hoje a revelar detalhes sobre o perfil que está sendo utilizado para localizar o atirador. “Não vamos falar sobre isso”, afirmou categoricamente Moose, acrescentando que se trata de “uma ferramenta para ajudar nossos investigadores”.”

[Portal Terra – 7 de outubro de 2002. Perfil geográfico pode ajudar a achar franco-atirador]

O serial killer de Batom Rouge


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Da mesma forma, o perfil criminal teve erros e acertos no caso do serial killer de Baton Rouge, um homem que assassinou pelo menos sete mulheres em Louisiana entre 1992 e 2003. Ao contrário das previsões do FBI de um homem branco desajeitado e abusivo em relação a mulheres, o assassino, Derrick Todd Lee, era negro, gentil,  tinha família e emprego. Entretanto, o que a mídia não relatou é que os policiais locais, e não os profilers, negligenciaram incluir relatos de testemunhas que identificavam um homem negro perto da casa de uma das vítimas. O que eles mostraram aos profilers do FBI que entraram no caso foram os relatos de testemunhas que descreveram um homem branco.

Derrick Todd Lee, ao centro, andando pelo tribunal que o condenou por dois assassinatos. Data: 2004. Foto: Ellis Lucia, NOLA.com | The Times-Picayune) (Ellis Lucia, The Times-Picayune archives)

Derrick Todd Lee, ao centro, andando pelo tribunal que o condenou por dois assassinatos. Data: 2004. Foto: Ellis Lucia, NOLA.com | The Times-Picayune) (Ellis Lucia, The Times-Picayune archives)

Mas enquanto o perfil do assassino de Baton Rouge estava equivocado em alguns pontos, ele acertou em muitos mais. Os profilers acertaram sua idade, seu comportamento dominador, sua força, suas finanças apertadas e seu estilo não ameaçador. A precisão de muitos outros detalhes ainda são desconhecidos. Mas a mídia não informou isso. Eles apenas apontaram os erros, e é isso o que ficou na mente do público.

O que se perdeu no frenesi midiático foi o fato de que perfis são apenas ferramentas, e eles são tão bons quanto as informações que eles recebem. Perfis também são baseados na análise de casos passados ​​que são semelhantes ao que está sob investigação. Se a maioria dos assassinos em série do passado foram homens brancos, é razoável sugerir que um UNSUB atual provavelmente será um homem branco. Com mais dados sobre serial killers mulheres, negros, hispânicos etc. no futuro, o leque de possibilidades se tornará mais flexível e consequentemente mais confiável. Até esse momento, enquanto a maioria dos serial killers catalogados são homens brancos, a análise de probabilidade em um determinado perfil ainda favorecerá um homem branco. Probabilidade sempre tem uma margem de erro e qualquer outra abordagem é apenas adivinhação.

Não muito tempo depois, jornalistas descobriram que a lenda John Douglas havia errado em algo no caso do Assassino do Green River que poderia ter feito a diferença na investigação – talvez até salvo vidas. Depois que Gary Ridgway foi pego em 2001 e confessou 48 assassinatos, ele disse que havia enviado uma carta anônima ao jornal em 1984, no meio de sua longa matança. Na época, Douglas concluiu que era algo amador e não tinha nenhuma conexão com os assassinatos. Apesar dele acertar em várias outras coisas, foi somente esse erro que chegou às manchetes.

"Ex-profiler do FBI admite ter ignorado carta de Ridgway", escreveu o Seattle PI em Novembro de 2003.

“Ex-profiler do FBI admite ter ignorado carta de Ridgway”, escreveu o Seattle PI em Novembro de 2003.

“Em 1984, quando Gary Ridgway escreveu uma carta anônima ao Seattle PI, foi a única vez que ele se aventurou a se comunicar através da mídia. Mas na época, um profiler do FBI disse que o autor da carta não era o assassino. Agora o profiler, John Douglas, reconhece que ele estava errado, mas diz que uma análise da carta hoje poderia não produzir qualquer resultado positivo”.

[Seattle PI, 26 de Novembro de 2003]

O Terrorista do Antraz


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Uma semana após os ataques terroristas do 11 de setembro, um terrorista espalhou o terror nos Estados Unido ao matar cinco pessoas e ferir 17 outras enviando correspondências com a bactéria Bacillus anthracis. Como nos casos de serial killers, o FBI entrou em cena e desenvolveu um perfil de como o perpetrador poderia ser. Apesar de um suspeito em potencial, o microbiologista e pesquisador militar de doenças infecciosas Bruce Edward Ivins, o terrorista nunca foi capturado  e Lawrence Sellin, um conhecido militar de carreira, escreveu um texto mordaz descrevendo como o perfil criminal não ajudara em nada a capturar o criminoso e, indo além, ofereceu uma alternativa diferente ao método usado pelo FBI. Como o criminoso nunca foi pego, sua alternativa nunca pode ser comprovada, assim como não se sabe se os profilers do FBI estavam errados.

“O mais concreto resultado dos esforços do FBI foi uma ação judicial contra o governo dos Estados Unidos… Infelizmente, aceitar essa alternativa torna o perfil e seu investimento irrelevantes. ”

[Lawrence Selling, Outside View: FBI behind the anthrax curve]

A pressa para julgar algo é inevitável quando a demanda é grande e a visibilidade pública é alta, mas é assim que os erros são cometidos. Em qualquer caso, aqueles que usam esse método de análise comportamental sabem que não podem prever todos os possíveis tipos de comportamentos ou traços humanos a partir do que se obtêm da cena de um crime. No entanto, com cenas de crime adicionais e mais evidências comportamentais, os perfis evoluem, assim como o método em si.

Ainda no Jogo


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“Serial killers tem uma doença. Se um médico descobre que seu novo paciente primeiramente mostrou sinais de fadiga crescente, então ao dormir a noite veio a taquicardia e finalmente visão embaçada, o próximo passo lógico é testar o paciente para alguma disfunção na tireoide. Se um profiler descobre que um adolescente faz xixi na cama, brinca com fósforos e tortura animais, ele pode prever um potencial futuro para homicídios sociopáticos. Não é mágica, é lógica.”

[Russel Vorpagel, Profile of a Murder]

O perfil hoje não é uma ferramenta restrita ao FBI, psicólogos com especialidade em comportamento criminal e alguns criminologistas desenvolvem suas próprias ideias sobre o assunto, e até mesmo seus próprios métodos.

Psicólogos podem se tornar profilers, mas para eles o campo é mais empreendedor. Não há no jornal vagas de emprego do tipo “Polícia Civil procura profiler”. Psicólogos têm de ir à procura de oportunidades. Normalmente, alguém interessado em ir para área forense terá que obter um diploma em psicologia clínica e, em seguida, fazer um estágio em uma prisão ou hospital forense (ou algum outro ambiente forense). Nos Estados Unidos, embora programas tenham sido desenvolvidos para oferecer doutorados em psicologia forense, eles ainda são fortemente baseados em perspectivas clínicas, com cursos de psicologia anormal e avaliação da personalidade. Estudantes de psicologia forense que querem se tornar profilers podem trabalhar com vítimas de abuso, delinquentes juvenis ou criminosos adultos, desenvolvendo experiência com o sistema legal e contatos entre agências policiais.

Uma vez que alcançarem um relacionamento de confiança, podem então ser chamados como consultores em crimes ou em cenas de crimes (como é o caso da brasileira Ilana Casoy – apesar dela não ser psicóloga). Quanto mais visibilidade um psicólogo consultor obtém, e quanto mais sucesso ele ou ela tiver, mais sua reputação irá crescer, fazendo com que, provavelmente, autoridades policiais busquem por assistência. Após se aposentar do FBI e até sua morte em 2013, Robert Ressler trabalhou com psicólogos para esse fim em sua empresa de consultoria, assim como Gregg McCrary.

Quer os profissionais entrem neste campo através da aplicação da lei ou consultoria psicológica, eles ainda devem aprender/saber as regras. Eles precisam entender o processo de investigação e os métodos utilizados para determinar se uma morte é um suicídio, acidente ou homicídio, assim como precisam entender as nuances da encenação de um crime e a forma como a mente de um criminoso, demente ou psicopata funciona. Thomas Quick é um ótimo exemplo de como um homem com severos problemas psicológicos conseguiu enganar toda uma junta de psiquiatras, psicólogos e agentes da lei. Quem tem interesse na área também deve reconhecer que às vezes há alegações falsas (aqui mais uma vez entra Thomas Quick). Eles precisam saber como entrevistar diferentes tipos de pessoas, desde famílias de vítimas até estupradores, pedófilos e assassinos. O entendimento da aplicação da lei se baseia em seu próprio vocabulário e não no jargão psicológico, e os profissionais precisam entender sobre a coleta de evidências e o protocolo dos tribunais.

Além de aprender sobre psicologia, profilers também devem aprender a lógica de análise da cena de um crime e o trabalho do médico legista na determinação da causa e forma da morte de alguém. Eles devem esquecer o que a mídia ou o cinema dizem sobre a função de um profiler, e eles devem abster-se de tentar se tornar um detetive. Acima de tudo, profilers precisam saber como trabalhar com uma equipe de pesquisadores com um objetivo em comum.

Quando o trabalho se torna estressante, como pode acontecer em qualquer área da psicologia clínica, os praticantes precisam saber quando obter ajuda, e geralmente é uma boa ideia fazer como o FBI faz – ter um sistema de apoio ao estresse. Olhar para cenas de crimes e fotos de autópsias pode ser assustador, às vezes, e a consciência do que as pessoas fazem umas às outras pode ser dolorida, mesmo para profissionais que veem isso o tempo todo.

Psicólogos acadêmicos também podem fornecer apoio à investigação e o FBI contratou-os para se tornarem parte dos programas do NCAVC. Mesmo fora do FBI, psicólogos que acreditam que o perfil comportamental deve ter uma base mais científica e uma metodologia padrão, têm projetado estudos para refinar o método. Por exemplo, dois estudos, um em 1990 [1] e outro em 2000 [2], colocaram profilers treinados contra outros grupos para determinar se eles se saíam melhor em casos de amostra. O primeiro estudo indicou que não, entretanto, o montante de casos era pequeno demais para ser significativo em qualquer aspecto. O segundo estudo mostrou que os profilers tinham uma vantagem neste método, embora, nos resultados, houvesse grande variabilidade entre eles. Em outras palavras, alguns profilers são excelentes, enquanto outros, mesmo com treinamento, não são melhores do que uma pessoa comum.

Mesmo assim, até o momento, nenhum estudo realmente provou nada de uma forma ou de outra. Resta para os futuros pesquisadores fornecer ao programa uma sólida base científica ou permitir que ele seja o que os primeiros praticantes disseram ser: uma arte, baseada na experiência, que pode ser útil quando usada no contexto correto.

A BSU Hoje


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“A cena do crime se torna parte do assassino”.

[Ted Bundy, em entrevista a John Douglas]

O Agente Especial Mark A. Hilts, chefe da Unidade de Análise Comportamental do FBI até agosto de 2016, começou em 1981 como oficial do Departamento de Polícia de Plano, Texas. “Começar no andar térreo com cenas de crime e investigação criminal foi muito benéfico”. Hilts então se juntou ao FBI e por sete anos serviu na divisão de Miami.

Eu fui parar numa força-tarefa de crimes violentos lá, e nós trabalhamos em sequestros, extorsões, raptos e fugitivos violentos, durante o qual me interessei nos programas do Centro Nacional de Análise de Crimes Violentos e tornei-me coordenador do NCAVC na divisão de Miami. Cada um de nossos 56 escritórios de campo tem pelo menos um Coordenador de NCAVC atuando. Os coordenadores são a ligação principal com os escritórios de campo e com a aplicação da lei local e estadual. Eles estão trabalhando com as autoridades locais todos os dias, de modo que estão em uma posição de saber quando há algo que valha a pena nós darmos uma olhada. Os coordenadores são a nossa linha de frente”.

[Mark A. Hilts]

Em Miami, Hilts se envolveu na investigação do assassino em série conhecido como Tamiami Trail Strangler (O Estrangulador da Trilha Tamiami). O caso começou em setembro de 1994 com o assassinato do garoto de programa crossdresser Lazaro Comesana. Outras cinco mortes se seguiram até junho de 1995 quando Rory Enrique Conde, um colombiano que morava ao longo da autoestrada Tamiami Trail, foi preso. Conde deixou um desenho em uma vítima indicando que aquele era o seu terceiro assassinato, o que ajudou o FBI a ligar os crimes. “Depois que a terceira vítima foi morta, eu recebi um telefonema de alguém que me conhecia da Metro Dade [delegacia do condado de Dade]. Passei os próximos meses trabalhando com eles, e, com meu papel de coordenador do NCAVC, interagindo com a unidade em Quantico”. O assassinato final ocorreu em Janeiro, mas demorou mais cinco meses antes que o estrangulador cometesse um erro. Ele prendeu uma mulher com fita isolante e a deixou em sua casa, mas ela conseguiu chamar a atenção de um vizinho e Conde foi preso. Em 1999, ele foi condenado pelo sexto assassinato, e em 2001 se declarou culpado dos outros cinco.

Por volta dessa época, Hilts se candidatou a uma posição nas Unidades de Abdução de Crianças e de Serial Killer, e com base em sua experiência de Miami, ele conseguiu o emprego, juntando-se a onze outros agentes designados apenas para se concentrar em tais casos.

No final dos anos 80, a Unidade de Ciência do Comportamento mudou seu nome para Unidade de Apoio à Investigação em Ciências do Comportamento. Em 1994, o nome foi reduzido para Unidade de Apoio à Investigação. Por volta da mesma época, a diretoria do FBI criou as Unidades de Abdução de Crianças e de Serial Killer, assim, pela primeira vez, havia uma unidade específica para estudo de assassinos em série.

Isso durou cerca de três anos. Em seguida, evoluiu-se novamente para Unidade de Análise Comportamental, no Oeste e Leste [Bau leste e BAU oeste]. As unidades foram divididas geograficamente, a leste e oeste do rio Mississipi, cada uma fazendo a mesma coisa em áreas diferentes. Então, em 1999, baseado na Lei de Proteção da Criança contra Predadores Sexuais, de 1998, o FBI criou o Centro de Recursos de Investigação de Assassinatos em Série e Abdução de Crianças (CASMIRC em inglês). O CASMIRC se tornou uma entidade de treinamento e pesquisa que apoiava as BAUs. E assim ficaram as coisas até o 11 de setembro. Então passamos a nos envolver mais nas responsabilidades de combate ao terrorismo. [A BSU hoje é composta da] Unidade de Análise do Comportamento 1 [análise do terrorismo e da ameaça], Unidade de Análise do Comportamento 2 [crimes contra adultos], Unidade de Análise do Comportamento 3 [crimes contra crianças] e a Unidade VICAP, que se separou da Unidade de Avaliação Profissional e Comportamental. Nos organizando por tipos de crimes, em vez de geograficamente, pudemos desenvolver uma concentração de pessoal em cada unidade que possui treinamento especializado e experiência em suas áreas de responsabilidade”.

[Mark A. Hilts]

Uma vez que um agente é selecionado em uma das unidades de análise comportamental, eles passam por um programa de 16 semanas em sala de aula, ensinado por agentes e profissionais externos. A grade inicia-se com psicologia básica e depois vai para temas específicos. Nas últimas semanas os alunos entram nas especialidades de tipos específicos de crimes. O curso envolve assuntos como:

  • Psicologia básica;
  • Psicologia criminal;
  • Ciência forense;
  • Recuperação do corpo;
  • Análise de Investigações Criminais;
  • Investigação da morte;
  • Avaliação de ameaça;
  • Declaração/análise de documentos;
  • Crimes contra crianças;
  • Rapto e homicídio de crianças;
  • Vitimização sexual de crianças/problemas com a Internet;
  • Procedimentos de entrevistas e interrogatórios;
  • Assassinato em série.

Sobre o status atual do que os agentes do BAU-2 fazem, Hilts afirma que seu objetivo é o mesmo que sempre foi: “Nós somos simplesmente uma das ferramentas na caixa de ferramentas. Em alguns casos, nós desempenhamos um papel maior do que em outros na resolução do caso”. Na época em que esteve a frente, Hilts supervisionava sete agentes, e como no Brasil, trabalho é o que não faltava. Trabalhar em vários casos ao mesmo tempo era e é uma realidade. “Alguns podem ser casos de assassinato em série que trabalhamos durante meses, com diversas viagens e alguns podem envolver apenas uma consulta sobre a estratégia de entrevista com um criminoso identificado”. Seu trabalho incluia ainda dar consultoria em casos internacionais, bem como ajudar outros países a criar suas próprias unidades comportamentais.

Ao lidar com a mídia, Hilts concorda que há mal-entendidos para resolver.

“O interesse do público em perfis tem sido entrelaçado com um interesse em assassinato em série. Com a descrição televisiva do perfil como algo misterioso e diferente, isso se tornou a imagem do que é. Algumas pessoas na mídia – e também na aplicação da lei – não fazem a conexão que isso não é a realidade. São muitos tipos diferentes de serial killers e muitas motivações diferentes. Quando eu estou envolvido em um caso, vejo uma parte do meu trabalho como sendo para educar. O público recebe a impressão de representações ficcionais como Hannibal Lecter e acham que serial killers são mais inteligentes do que o resto de nós e têm recursos ilimitados. Pessoas estão procurando esse tipo de indivíduo e isso não é o que a maioria dos assassinos em série são.

Nós olhamos individualmente para os fatos de cada caso. Não existe uma única resposta ou fórmula que se adapta a todos os casos. Não temos um modelo que se adapta a cada serial killer. O que é apropriado é lidar com serial killers de forma multidisciplinar, com a aplicação da lei junto de especialistas nos mundos acadêmico e de saúde mental. Nós tentamos examinar todos os aspectos dos serial killers, de como eles cometem seus crimes, aos fatores de desenvolvimento que influenciaram seu comportamento violento. Existem muitas teorias diferentes sobre o desenvolvimento de um serial killer. É um desequilíbrio biológico, ambiental, químico? Seus cérebros funcionam de forma diferente? A resposta, eu acredito, é que não há nenhuma única resposta. Não seremos capazes de olhar para um fator e dizer que isso é o que cria um serial killer”.

[Mark A. Hilts]

Sobre o futuro do que a BAU pode fazer a respeito do assassinato em série:

“Não é apenas um problema de aplicação da lei. Certamente, a polícia tem a responsabilidade de pegá-los, mas precisamos olhar além. Nós temos um grupo conselheiro de pesquisa formado por especialistas de fora, do mundo acadêmico, com quem nos encontramos com regularidade como parte de nosso programa. O nosso programa de pesquisa apoia o nosso esforço operacional e nós estamos criando estudos empíricos de casos fechados e resolvidos, bem como entrevistas com criminosos encarcerados. Em cada tipo de crime que estamos envolvidos operacionalmente, temos algum tipo de projeto de pesquisa acompanhando.

Ao longo dos últimos anos, também organizamos vários simpósios internacionais sobre diferentes temas, como violência escolar, violência doméstica, violência no local de trabalho e exploração sexual de crianças. Reunimos especialistas multidisciplinares e falamos sobre os pontos comuns, o que sabemos e o que ainda precisamos saber em todas essas áreas. Estamos fazendo a mesma coisa na área do assassinato em série”.


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Fontes Consultadas


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[1] Pinizzotto, A. J. , & Finkel, N. J. (1990). Criminal personality profiling: An outcome and process study. Law and Human Behavior, 14, 215-233.

[2] Kocsis, R. N., Irwin, H. J., Hayes, A. F., & Nunn, R. (2000). Expertise in psychological profiling: A comparative assessment. Journal of Interpersonal Violence, 15, 311-331.

[3] A Psychological Analysis of Adolph Hitler – His Life and Legend. Walter C. Langer Office of Strategic Services -Washington, D.C.

[4] Baltimore Sun – The FBI’s John Douglas spends his days profiling criminals, 11 de março de 1991. Disponível em: http://articles.baltimoresun.com/1991-03-11/features/1991070079_1_serial-killers-killer-ted-bundy-douglas

[5] Citizen X, HBO Home Video, 2000. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TMVEvD_hq7M

[6] Casebook. Disponível em casebook.org

[7] Criminal Profiling, FBI. Disponível em vault.fbi.gov

[8] Russell Vorpagel, 1998. Profiles in Murder: An FBI Legend Dissects Killers and Their Crimes 

[9] Mccrary, Gregg. Philpin, John. Are criminal profiles a reliable way to find serial killers? – CQ Researcher – Congressional Quarterly

[10] Blog o Aprendiz Verde – Robert Ressler, o homem que entendia serial killers

[11] Gregg O. McCrary – The Unknown Darkness Profiling the Predators Among Us, 2004

[12] Nigel Blundell – Serial Killers: Murder Without Mercy, 2011

[13] Michael Newton – A Enciclopédia De Serial killers, 2000

[14] The FBI Files: Season 2 – Ep 14 “Killer Abroad” – Discovery Channel

[15] Stephen Giannangelo – The Psychopathology of Serial Murder, 1996

Colaboração de:


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Sheeza
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