Perfil Criminal (Parte 4) – O Caso Unterweger

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Perfil Criminal 4

Perfil Criminal - Parte 4 - O Caso Jack Unterweger

Traçando um Perfil


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Leia antes:

Quando confrontados com uma série de crimes que podem estar relacionados, investigadores têm algumas decisões a tomar. Leia o texto abaixo e mergulhe no caso. Finja ser um detetive ou psicólogo e tente você mesmo tentar tomar decisões. Este caso não é apenas um ‘quem cometeu’, mas um ‘como-pegá-lo’, e ele começa com dois segmentos separados de investigação. Do ponto de vista do perfil comportamental, este caso tem muitas características interessantes, como por exemplo o fato de até onde um psicopata pode ir manipulando toda uma sociedade, fazendo-a acreditar que ele é uma pessoa mudada e do bem.

Em uma manhã fria de setembro de 1990, o corpo de uma mulher foi encontrado ao longo da margem do rio Vitava, na Tchecoslováquia (atual República Tcheca), perto de Praga. Ela estava deitada de costas, nua, com um par de meias cinzas atadas ao pescoço. Deixada em uma posição sexualmente sugestiva, com as pernas abertas, ela estava coberta de folhas, grama e galhos. Aqueles que a encontraram correram para alertar as autoridades. Em seu dedo estava um anel de ouro.

Autoridades recolheram o corpo para análise e de acordo com as informações disponibilizadas pela polícia em um gráfico, esta vítima foi estrangulada, bem como esfaqueada e espancada. Parecia que ela havia sido morta recentemente, talvez na noite anterior. Havia hematomas por toda parte, sinalizando uma grande luta, mas estranhamente, nenhum sinal de que ela tivesse sido estuprada. Um absorvente interno ainda estava no lugar e os investigadores não encontraram fluidos biológicos no corpo ou na cena. Também não havia identificação em torno da vítima. Eles tiraram suas impressões digitais, mas a menos que ela tivesse um registro criminal ou feito um registro nos sistemas do governo para vaga de emprego, eles não poderiam fornecer sua identidade. Era um assassinato, com certeza.

Para onde ir a partir destas informações?

Pistas


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Uma busca mais ao longo do rio encontrou roupas femininas que pareciam ter o tamanho certo para aquela mulher. Entre esses itens havia uma carteira com um documento de identificação. O nome que estava escrito ali era Blanka Bockova.

Agora que eles sabiam quem ela era e onde morava, investigadores de polícia poderiam tentar recriar as horas antes de sua morte.

A polícia descobriu que a jovem Bockova, 20 anos, trabalhava em um açougue em Praga. Com essa informação, eles poderiam falar com seu empregador e rastrear alguns conhecidos. Isso ajudou a criar um cronograma. Ela trabalhou no estabelecimento em 14 de setembro, um dia antes de seu corpo aparecer. Após o expediente, foi para a badalada Praça Wenceslas para uma bebida e, possivelmente, um programa. De acordo com aqueles que a conheciam, ela gostava de se divertir e conhecer novas pessoas. Ela podia até mesmo sair com um homem aqui e ali, mas não era uma prostituta de profissão.

À medida que a investigação caminhava, os detetives descobriram que os amigos de Bockova beberam em um bar naquela noite de terça-feira até às 23h45 e decidiram voltar para casa, mas Bockova quis ficar. Ela disse que eles podiam ir e que se viraria para arrumar uma condução para casa. Quando saíram, ela estava falando com um homem bem vestido, com cerca de 40 anos de idade, alguém que parecia tranquilo, mas que nenhum deles conhecia. Os amigos dela ofereceram uma descrição vaga, então a polícia não tinha muito para continuar.

Aquela foi a última vez que alguém viu Bockova com vida, então estava claro que ela fora morta algum tempo depois, entre a meia-noite e 7h30 da manhã – quando seu corpo foi descoberto. A polícia precisava encontrar esse homem do bar, mas nenhuma quantidade de questionamentos produziu mais pistas. O homem não era um cliente antigo, ninguém do estabelecimento o conhecia. Eles poderiam identificá-lo caso o achassem, mas ninguém sabia seu nome ou de onde ele era.

Se você fosse um psicólogo(a) forense, criminólogo(a) ou profiler e fosse convidado(a) pela polícia de Praga para ajudar no caso, criando um perfil deste assassino, o que você diria? Pegue um lápis e papel e tente criar um esboço deste criminoso. Faça isso por aí, apenas um exercício simples a partir do que você já aprendeu lendo essa série de textos.

Um Caso Real


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“Quando você educa um psicopata, tudo que você ganha é um psicopata educado”.

[Gregg McCrary]

Cerca de cinco semanas depois do assassinato de Bockova, em Graz, Áustria, cidade a 460 quilômetros de Praga, uma prostituta chamada Brunhilde Masser desapareceu. Ela foi vista pela última vez em 26 de outubro de 1990. Embora a prostituição seja geralmente considerada uma atividade de alto risco, é legal na Áustria e, portanto, vista com menos estigmas do que no Brasil, Estados Unidos e outros países do ocidente. Naqueles cantos, assassinatos sexuais eram raros, e a Áustria calculava em torno de um assassinato de prostitutas por ano na época. Assim, havia motivo de preocupação por esse crime incomum, e essa preocupação aumentou em 5 de dezembro, quando outra prostituta, Heidemarie Hammerer, desapareceu de Bregenz, uma cidade turística austríaca que faz fronteira com a Suíça e a Alemanha.

Tendo estado nesta profissão por uma década, Hammerer era considerada experiente a respeito de clientes perigosos. Por quase um mês, ninguém ouviu falar dela, até que ela resolveu aparecer. Na véspera do Ano Novo, pessoas que caminhavam na floresta em torno de Bregenz se depararam com um corpo completamente vestido. Era Hammerer, ela estava de costas e seu estômago coberto de folhas mortas. Eles alertaram as autoridades.

Em uma rápida olhada, parecia que a vítima havia sido morta e então re-vestida, depois foi arrastada através da floresta. Ela ainda usava suas joias, então roubo não parecia ser um motivo. Suas pernas estavam descobertas e um pedaço de sua camisola foi cortado com um instrumento afiado, tipo uma faca. O pedaço que faltava foi encontrado em sua boca, usado como uma mordaça.

O tempo frio ajudou a preservar os restos mortais, de modo que o patologista determinou que a vítima foi estrangulada com um par de meia-calça, presumivelmente dela. Além disso, havia contusões em seus pulsos, que pareciam a marca de algum tipo de restrição, como algemas ou ligaduras apertadas. Ela tinha contusões em outras áreas de seu corpo também, como se tivesse sido espancada. Nenhuma fluido sexual estava presente sobre ou ao redor do corpo, embora pudesse ter sido lavado pela chuva. A causa da morte foi determinada por asfixia causada por sufocação e estrangulamento.

A única evidência potencial era a presença de várias fibras vermelhas em sua roupa que eram inconsistentes com qualquer coisa que ela usava, e estas foram cuidadosamente coletadas para análise de laboratório. Imediatamente, o Escritório Regional da Polícia Federal Austríaca iniciou uma investigação.

Cinco dias depois do corpo de Hammerer ter sido descoberto em Bregenz, andarilhos tropeçaram em um conjunto de restos humanos parcialmente decompostos em uma floresta isolada ao norte de Graz. Eles chamaram a polícia, que chegou rapidamente. O que restou da vítima feminina indicou que ela foi deixada deitada, sem roupa e coberta de folhas. O patologista foi capaz de determinar que ela havia sido esfaqueada e, possivelmente, estrangulada com sua meia-calça, mas o estado avançado de decomposição fez o estrangulamento ser difícil de determinar com certeza. Suas nádegas foram parcialmente comidas por animais e suas roupas, bolsa e outros bens pessoais estavam faltando. No entanto, ela ainda tinha suas joias. A polícia logo identificou a vítima como Brunhilde Masser.

A polícia federal austríaca ligada à região da Estíria assumiu esta investigação, mas não encontraram ninguém que soubesse sobre os últimos clientes de Hammerer ou Masser. Alguém tinha visto um homem com uma jaqueta de couro com ela, mas não o conhecia. Muito rapidamente, os investigadores estavam num beco sem saída. Ninguém tinha visto nada suspeito.

Em Graz, dois meses depois, outra prostituta sumiu. Elfriede Schrempf desapareceu de sua habitual esquina em 7 de março de 1991. Dois dias depois, um homem ligou para a família de Schrempf açoitando-os sobre a profissão da vítima. Ele a mencionou pelo nome, fez comentários ameaçadores e depois desligou. Ele ligou novamente e fez os mesmos comentários, então, não foi mais ouvido.

Obviamente a polícia austríaca não sabia do assassinato de Bockova em Praga, mas mesmo que soubessem, eles não tinham como ligar os casos. O que eles tinham em mãos eram dois assassinatos e um caso de pessoa desaparecida que guardavam semelhanças.

Imagem da polícia austríaca mostra o cadáver de uma das vítimas. Foto: FBI Files.

Imagem da polícia austríaca mostra o cadáver de uma das vítimas. Foto: FBI Files.

Vinculando os Crimes


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“Perfil criminal olha para o indivíduo, a maquiagem psicológica de um indivíduo, em termos do que você vê na cena do crime”.

[Howard Teten]

A família de Elfriede disse à polícia que seu número de telefone não estava listado, mas que Elfriede o carregava com ela. Além das possibilidades improváveis ​​de que amigos próximos ou parentes estavam fazendo uma brincadeira de mau gosto, essa informação forneceu uma boa indicação de que ela tinha algum envolvimento com a pessoa que fazia a chamada, quer ela tenha fugido ou sido vítima de algo pior.

Assim, na conta da polícia, no período de cinco meses – entre Outubro de 1990 e Março de 1991 -, uma mulher foi assassinada em Graz, uma em Bregenz e uma terceira estava desaparecida em Graz. Era possível que eles tivessem um assassino do tipo “nômade”, que viajasse, ou dois assassinos em duas cidades diferentes que coincidentemente guardavam semelhanças em seu modus operandi. A polícia tinha consciência de que precisavam de mais dados e, talvez, só conseguiriam se outro crime acontecesse.

Reportagem de época de revista austríaca mostra vítimas do serial killer.

Reportagem de época de revista austríaca mostra vítimas do serial killer. Foto: Leopold Nekula.

As autoridades locais estavam preocupadas e incertas se esses eventos estavam relacionados. Tudo o que sabiam era que Elfriede Schrempf desaparecera. Não havia pistas reais, apesar do emprenho da polícia nos meses seguintes. Então, assim que a investigação começou a perder força, pessoas que caminhavam em uma área florestal nos arredores de Graz descobriram os restos de um esqueleto, em 5 de outubro. Os restos mortais eram de uma mulher do tamanho exato de Schempf, e ela estava coberta por folhas. As folhas poderiam ser explicadas por ser outono, mas um outro fator surgiu: a única roupa encontrada perto dos restos foi um par de meias. Logo, a vítima foi identificada como Elfriede Schrempf.

Então, em menos de um mês, Silvia Zagler, Sabine Moitzi, Regina Prem e Karin Ergolu desapareceram sem deixar rastro das ruas de Viena, uma terceira cidade austríaca. Todas eram prostitutas. Agora a polícia tinha uma área adicional para patrulhar, mas chega de cenas de crime para encontrar pistas. Esse assassino era astuto.

Pista Inesperada


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“No final, apenas o que importava para ele era controlar pessoas e matá-las”.

[Biography Channel, “Vienna’s Woods Killer”]

Na época, a Áustria não tinham nenhum sistema para ligar crimes e fazer uma análise sofisticada, então, todos chegaram à conclusão de que não havia um serial killer à solta. A conclusão oficial foi baseada principalmente no instinto, enfatizando as diferenças entre os crimes e as cenas dos crimes em vez de pesar as semelhanças.

Em 20 de maio, o corpo de Sabine Moitizi foi descoberto, e três dias depois, alguém encontrou os restos de Karin Ergolu. Ambos os corpos haviam sido despejados em áreas florestadas fora de Viena, deitados de bruços e ambas as vítimas foram estranguladas com um artigo de sua própria roupa. O corpo de Ergolu estava nu, exceto por suas joias e Moitizi usava apenas uma camisa, puxada para cima. O dinheiro de Moitizi estava faltando, mas sua roupa e bolsa foram encontradas a poucos metros do corpo. Ergolu havia sido atingida com uma força contundente no rosto. Sua bolsa e roupas estavam faltando, com exceção de seus sapatos e lingerie, que seu assassino enfiou em sua garganta.

Apesar da conclusão da polícia, a imprensa decidiu que um serial killer estava à solta e um jornal austríaco, em 25 de maio de 1991, o apelidou de “Carteiro de Viena”. Entretanto, os investigadores em Viena resistiam à ideia de que seus assassinatos estavam ligados aos de outras cidades austríacas.

Então, um detetive aposentado apareceu; mudou o jogo e fez uma revelação surpreendente.

Margaret Schaefer, encontrada morta em um bosque da Áustria em 1974. Foto: Poet of Death.

Margaret Schaefer, encontrada morta em um bosque da Áustria em 1974. Foto: Poet of Death.

O ex-investigador August Schenner, com cerca de 70 anos, estava aposentado há cinco anos do Departamento de Investigação Criminal em Salzburgo. Ele estava seguindo a cobertura da mídia sobre os crimes em Viena, Graz e Bregenz, e algo sobre o modus operandi do assassino lembrou-o de um psicopata que ele uma vez havia perseguido, chamado Johann “Jack” Unterweger. Ele ligou para as autoridades para falar a respeito.

Ele relatou que em 1974 investigou dois assassinatos. Em um deles, uma mulher foi estrangulada e deixada em um bosque. A vítima era Margaret Schaefer, 18, amiga de Barbara Scholz, uma prostituta que foi até a polícia e confessou o que acontecera. Ela e Jack Unterweger roubaram a casa de Schaefer e a atraíram para dentro de um carro, levando-a até um bosque. Com um cinto do casaco, Jack amarrou as mãos atrás das costas, espancou Schaefer, tirou suas roupas e exigiu certos atos sexuais. Ela se recusou, então ele bateu em sua cabeça com um cano de aço. Para finalizar, Unterweger usou o sutiã da vítima para estrangulá-la até a morte, deixando seu corpo nu de costas na terra da floresta, coberto com folhas.

Quando Schenner questionou Unterweger, ele cedeu e confessou. No tribunal, ele se defendeu afirmando que, à medida em que batia em Schaefer, ele imaginava sua mãe na frente dele. Sua raiva era tal que ele não conseguia parar.

O psicólogo forense que o examinou, o Dr. Klaus Jarosch, o diagnosticou como um psicopata sexualmente sadista com tendências narcisistas e histriônicas.

“Ele tende a ter ataques repentinos de raiva e fúria. Suas atividades físicas são extremamente agressivas com perversão sexualmente sádica… Ele é um agressor incorrigível”.

[Klaus Jarosch]

A segunda mulher assassinada era Marcia Horveth, uma prostituta, estrangulada com suas meias e uma gravata. Fita adesiva foi colada em sua boca e seu corpo jogado no lago Salzachsee, perto de Salzburgo. Foi Schenner quem, de fato, encontrou a vítima. Unterweger não foi investigado por este assassinato, já que ele estava preso condenado a prisão perpétua. Convencido de que Unterweger era o responsável, Schenner entrevistou-o, mas foi incapaz de ter sua cooperação. Na verdade, Unterweger foi bastante agressivo em suas recusas.

Enquanto esteve preso, Schenner observou Unterweger, e ele teve a impressão de que o jovem condenado administrava o lugar. Ele tinha algum charme e as pessoas respondiam a ele, incluindo os guardas. Isso era motivo suficiente para suspeitar que, apesar de sua sentença, Unterweger ter, de alguma forma, convencido o sistema judiciário a libertá-lo em condicional. Apesar de ter sido condenado a passar o resto da vida atrás das grades, Schenner descobriu que Unterweger saíra em liberdade condicional em 1990 – poucos meses antes do início dos assassinatos em série: Blanka Bockova em Praga (setembro de 1990) e Brunhilde Masser em Graz (outubro de 1990).

Mas havia mais.

Unterweger não só estava livre como era uma celebridade na Áustria; um aclamado escritor best-seller e queridinho da mídia com diversas aparições em programas de televisão (em um deles participou de uma roda de intelectuais onde discutiram diversos temas).

O queridinho da mídia Jack Unterweger (de branco) em programa na TV austríaca. Foto: Gesichter des Bösen.

O queridinho da mídia Jack Unterweger em programa na TV austríaca. Foto: Gesichter des Bösen.

Quem era Jack?


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“Eu estudei fotografias de cenas de crime, fotografias de autópsias. Lia documentos da autópsia. Então eu sabia tudo sobre ele. Então quando eu ia com toda essa informação, eu sentava lá e deixava um cara como Charles Manson tentar me manipular ou Richard Speck, mas meu objetivo era voltar até Quantico e realmente tentar desenvolver uma ferramenta investigativa, algo que não estava disponível naquela época”.

[John Douglas, Red Dragon John Douglas on Hannibal Lecter]

Nascido em Theresia, Áustria, em 16 de agosto de 1952, filho de uma prostituta, Unterweger foi abandonado e entregue aos cuidados de seu avô. Diversas fontes detalham sua vida, desde o livro (em alemão) de sua defensora Astrid Wagner, Jack Unterweger (2001), passando pelos relatórios da polícia até chegar às várias enciclopédias que se especializaram em assassinos em série. A melhor fonte em uma língua popular (inglês) é o livro de Gregg McCrary, The Unknown Darkness (2004). Unterweger nunca soube quem era seu pai, embora alguns relatos sugerem ter sido um soldado americano. Durante sete anos, o menino morou com seu avô alcoólatra. De temperamento imprevisível, aos 16 anos foi preso pela primeira vez: ele agrediu uma prostituta.

Essa descoberta foi significativa para os investigadores. A raiva contra prostitutas era rara na Áustria, e a mãe de Unterweger fora uma, o que indicava uma raiva mal colocada. Ele começou cedo: roubou carros, estabelecimentos e recebia mercadoria roubada. Ele também forçou uma jovem a se prostituir e pegou o dinheiro – um sinal de degradação das mulheres.

Em 1976, Unterweger foi condenado pelo assassinato de Margaret Schaefer e sentenciado à prisão perpétua. Foi quando as coisas tomaram um rumo inesperado. Analfabeto, ele usou o tempo para aprender a ler e escrever. Em “Serial Killers: Murder Without Mercy” (2011), Nigel Blundell escreve que “em cada oportunidade ele se debruçava sobre os livros. Conhecia os grandes escritores. Ele editou um jornal da prisão e fazia revisão literária. ” Eventualmente, ele passou a escrever poemas, contos e peças que chamaram a atenção do mundo exterior. Em 1984, sua autobiografia da prisão, Fegefeur (Purgatório), virou um best-seller, e seu conto cheio de raiva, “Endstation Zuchthaus” (Prisão de Terminus), ganhou um prêmio literário de prestígio.

“Eu empunhava minha vara de aço entre prostitutas em Hamburgo, Munique e Marselha. Eu tinha inimigos e os conquistei através do meu ódio interno.”

[Jack Unterweger, Fegefeur]

Jack Unterweger.

Jack Unterweger.

Sua biografia começa com uma sensação de desespero existencial.

“Minhas mãos suadas estavam amarradas nas minhas costas com correntes de aço em torno de meus pulsos. A pressão em minhas pernas e costas me faz perceber que minha única fuga é acabar com tudo. Deitado, livre da inconsciência libertadora das ovelhas. Banhado na merda, tremendo. Meus pequenos sonhos miseráveis são um lembrete diário. Olho ansiosamente para a escuridão desconhecida da noite parada lá fora.  Há segurança na escuridão. Eu tento desviar meus pensamentos de me perguntar sobre o tempo. Eu só peço pelo momento imediato, que guarda minhas forças. É noite ainda, tarde da noite, quase amanhecendo”.

[Jack Unterweger, Fegefeur]

Em seus livros, contos e poemas, Unterweger deu a impressão de que era uma vítima. Críticos e reformistas prisionais abraçaram sua honestidade e a maneira como ele confrontou seu passado. Eles o saudaram como um exemplo de como a arte pode redimir um criminoso. Jornalistas contataram-no para entrevistas e não demorou muito para que o apoio aumentasse as chances para libertá-lo. Parecia claro por suas ideias e capacidade de escrever artisticamente que ele havia sido reabilitado. Ele também poderia contribuir para o melhoramento da sociedade. Em 23 de maio de 1990, ele ganhou a liberdade condicional. “Aquela vida agora acabou. Vamos começar a nova vida”, foi o que ele disse à imprensa, segundo Michael Newton em A Enciclopédia De Serial killers

Ângulos de Investigação


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Em sua nova vida, Unterweger tornou-se o queridinho dos intelectuais de Viena. Ele era muito procurado, participando de lançamentos de livros, noites literárias e de estreia. Fizeram um filme sobre o livro Fegefeur, e ele era um convidado frequente de talk shows da televisão. Uma tropa de teatro itinerante apresentou suas peças, convidando-o para as aberturas. Uma figura calma e elegante em ternos brancos, camisas de seda e correntes de ouro, dirigia carros caros com a placa “JACK 1”. Ele era bonito e gregário, um autor com influência, que aparecia regularmente nos bares e discotecas da moda de Viena para paquerar as mulheres.

“Suas calcinhas iam ao chão quando Jack entrava”, disse um conhecido a um jornal austríaco. “Ele estava pegando toda a Áustria”.

Outra coisa que Unterweger fazia era farejar histórias que o público ansiava por ler. Não demorou muito para que alguém tivesse a ideia de que ele deveria cobrir assassinatos, já que certamente ele conhecia esse assunto como a palma da mão, então ele avidamente perseguiu esses casos, escreveu sobre, e falou deles na televisão, enquanto, também, promovia seus livros.

Na recente série de assassinatos de prostitutas, ele foi atrás dos investigadores querendo saber por que eles ainda não tinham prendido alguém ou oferecido ao público qualquer informação. Ele entrevistou prostitutas nas ruas, escrevendo sobre o “Carteiro” e alertando o público de que seus piores pesadelos eram reais: a Áustria tinha um serial killer. Todos queriam ouvir o que ele tinha a dizer sobre o assunto.

Jack Unterweger.

Jack Unterweger.

Os investigadores tomaram consciência de tudo isso. Entender todo o contexto de vida desse assassino-chamativo-que-virou-escritor-celebridade foi importante, principalmente após ele se tornar um suspeito. Assim, eles instituíram uma discreta vigilância sobre ele para ver exatamente o que Unterweger estava realmente fazendo. Para a decepção de todos, ele não fez nada suspeito. Unterweger tocava o seu negócio, encontrando colegas literários e jantando com várias mulheres, uma diferente para cada dia da semana. Então, em 11 de junho de 1991, três dias após a vigilância, ele voou até Los Angeles, Estados Unidos, para escrever artigos para uma revista austríaca sobre o crime naquela cidade. Fora da Áustria, os investigadores não podiam fazer nada, mas eles sabiam que Unterweger voltaria.

Durante as cinco semanas em que ele esteve em Los Angeles, os assassinatos cessaram. Ernst Geiger, o detetive mais experiente da polícia, de acordo com McCrary, e o número dois na Polícia Federal austríaca, assumiu a investigação. Seu trabalho era construir um caso claro contra Unterweger ou eliminá-lo e seguir em frente. Não seria bom para a polícia, aos olhos do público, se acusassem falsamente uma figura tão popular. Geiger realmente não acreditava que ele era um criminoso mudado com um talento literário, mas ainda assim tudo o que ele tinha eram informações sobre o passado de Unterweger cujas semelhanças ​​com seus casos não resolvidos eram notáveis. Eles já sabiam que ele havia viajado pela Áustria e poderia ser o assassino que procuravam. Agora eles tinham que provar.

Juntando um Caso


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Através de recibos de cartão de crédito em hotéis, restaurantes e agências de aluguel de carros, os investigadores começaram a reconstruir os movimentos de Unterweger. Durante vários meses de trabalho de investigação, eles o encontraram em Graz em outubro, quando Brunhilde Masser foi assassinada e novamente em março, quando Elfriede Schrempf desapareceu. Ele estava em Bregenz em dezembro, quando Heidemarie Hammerer foi levada, e uma testemunha disse que Unterweger se assemelhava ao homem com quem Hammerer fora vista pela última vez. Naquela noite, disse a testemunha, o homem usava uma jaqueta de couro marrom e um lenço de malha vermelha.

Eles também determinaram que Unterweger esteve em Praga no mês de setembro. Contatando autoridades de lá, eles souberam que sua visita coincidia com o assassinato não resolvido de outra mulher, Blanca Bockova. Ela havia sido encontrada na floresta, coberta de terra e folhas, e usando apenas meias. Ela foi estrangulada com uma roupa de baixo, e suas joias tinham sido deixadas no local. A assinatura era clara. Havia vários detalhes muito precisos que correspondiam aos crimes.

Quando as quatro mulheres foram raptadas e assassinadas em Viena, Unterweger também estava lá. Embora nada disso fossem provas contundentes, haviam coincidências suficientes para justificar um interrogatório. Eles ponderaram como esse movimento poderia afetá-lo.

Sob as Luzes


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Em 22 de outubro de 1991, oficiais da lei em Viena questionaram Unterweger sobre os assassinatos austríacos. O entrevistador principal já conhecia seu suspeito, porque como jornalista, Unterweger o tinha questionado sobre a série de assassinatos para um artigo. Os investigadores esperavam que o interesse nele fosse o suficiente para pressioná-lo a confessar, mas enquanto ele admitiu sair com prostitutas, negou conhecer qualquer uma das vítimas. Ele estava familiarizado com as vítimas apenas porque ele era um colunista. Unterweger não tinha álibis e nem os investigadores evidências, então eles tiveram que desistir.

No entanto, Unterweger agora sabia que era um suspeito, assim como seus amigos na mídia. Ele poderia ser mais perigoso e mais cuidadoso. Ele poderia dar um tempo com as mortes, pelo menos por enquanto. Ele escreveu mais artigos sobre o incorreto andamento da investigação, como se estivesse punindo a polícia por questioná-lo. Muitos de seus colegas o apoiavam. McCrary relata que seus amigos e conhecidos acreditavam que Unterweger estava “curado”. Eles tomaram partido e falavam de como ele estava sendo perseguido apenas devido ao seu passado.

Jack Unterweger.

Jack Unterweger.

Nessa época, o marido e o filho desaparecidos de Regina Prem, que tinham números não listados, receberam telefonemas de um homem que alegava ser o assassino. Ele descreveu com precisão o que ela estava usando na noite em que ela desapareceu. Ele era seu executor, disse ele, e Deus lhe ordenou que o fizesse. Ela havia sido deixada em “um lugar de sacrifício” com o rosto “virado para o inferno”. Ele também falou, “Dei a 11 delas a punição que mereciam”. Três meses depois, em janeiro de 1992, o marido de Prem encontrou cinco maços de cigarros vazios da marca que ela gostava enrolados em sua caixa postal. Também havia uma foto de seu filho, que Regina carregava com ela em sua bolsa.

Geiger tornou-se mais agressivo. Ele questionou prostitutas austríacas, que descreveram o desejo de Unterweger de usar algemas durante o sexo. Isso era bastante consistente com o assassino, então a polícia manteve sua vigilância. Com algum esforço, Geiger localizou o BMW que Unterweger tinha comprado após a sua libertação da prisão. Ele tinha vendido, comprando um VW Passat, mas o novo proprietário permitiu que a polícia o vasculhasse. Eles encontraram um fragmento de cabelo, que enviaram para análise.

Manfred Hochmeister, do Institut fur Rechtsmedizin, em Berna, Suíça, encontrou pele suficiente na raiz para realizar uma análise de DNA com a técnica de PCR. Eles compararam com o DNA de cada uma das vítimas e descobriram que combinava com a primeira vítima, Blanka Bockova, de Praga. Aquilo ligava a mulher estrangulada com Jack Unterweger, já que ele dirigira o carro na época.

Mais Pistas


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A confirmação do DNA foi útil para obter um mandado de busca no apartamento do suspeito em Viena. Quando os investigadores chegaram, ele não estava em casa, mas a suspeita sobre ele inspirou uma busca abrangente. Eles descobriram um menu e recibos de um restaurante de frutos do mar em Malibu, Califórnia, bem como fotografias de Unterweger posando com mulheres do Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD). Eles também encontraram uma jaqueta de couro marrom e um lenço de malha vermelha, que eles confiscaram do apartamento. Todos esses itens forneceram mais pistas.

Geiger entrou em contato com o LAPD. O contato com Praga rendeu frutos e poderia render também nos Estados Unidos. Até o momento, eles só podiam obter provas circunstanciais contra o suspeito, e  quanto mais evidências circunstanciais eles tiverem, melhor. Geiger perguntou sobre assassinatos não resolvidos na cidade e descobriu que as autoridades em Los Angeles estavam investigando três assassinatos aparentemente vinculados.

Geiger pressionou por detalhes e cada um confirmou suas suspeitas: todas as vítimas eram prostitutas, todas foram deixadas ao relento, todas estranguladas com seus sutiãs e todas tinham sido mortas durante o tempo em que Unterweger estivera na cidade. Na verdade, os policiais de lá sabiam sobre ele. Os detetives Jim Harper e Fred Miller descobriram que Unterweger fora até o LAPD pedir por uma escolta da polícia para as partes barra pesadas da cidade. Ele se apresentou como um jornalista europeu e disse que estava trabalhando em um artigo sobre prostituição em Los Angeles, então ele precisava saber onde essas mulheres poderiam ser encontradas.

Jack Unterwegger

Jack Unterwegger

Usando os recibos recuperados de hospedagens de Unterweger, Gieger descobriu que os lugares onde cada vítima foi vista pela última vez eram perto de um dos hotéis baratos em que Unterweger tinha ficado. Agora, pela primeira vez, o LAPD tinha um suspeito viável e Geiger tinha ainda mais informações de apoio. Ele também descobriu que Unterweger realmente publicou um artigo sobre prostituição. “A vida real em L.A.”, escreveu ele, “é dominada por uma dura luta pela sobrevivência, pelos sonhos quebrados de milhares de pessoas que vêm à cidade e um número igual que sai, às vezes mortos”.

Na Suíça, segundo relatos da imprensa, analistas da Universidade de Berne tinham terminado o exame na jaqueta de couro e no lenço vermelho confiscados do apartamento de Unterweger. Fibras desses itens eram consistentes com aquelas encontradas no corpo de Heidemarie Hammerer. Ninguém poderia identificar definitivamente o cachecol como a fonte de origem, mas também não poderia ser eliminado. No entanto, isso permitiu Geiger dar mais um passo e obter um mandado de prisão.

No entanto, quando a polícia chegou ao apartamento de Unterweger, ele havia sumido. Eles procuraram em torno de Viena, conversando com seus associados. Reunindo as histórias, eles souberam que Unterweger havia saído de férias com sua namorada, Bianca Mrak. Ela era uma jovem bonita e esguia de 18 anos, que tinha conhecido ele em um bar, onde trabalhava como garçonete. Sua atenção a lisonjeou e ela logo foi morar com ele. Agora ela também tinha sumido.

Fugitivos


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Os amigos de Unterweger o alertaram do interesse policial. Eles também o avisaram sobre as notícias que enchiam as páginas dos jornais anunciando sua iminente prisão. Ele, então, ficou o mais longe que podia da Áustria. Unterweger e Mrak foram para os Estados Unidos, onde, na alfândega, mentiu sobre ter um passado limpo. Ao longo das semanas ele telefonou para jornais austríacos insistindo que estava sendo enganado, pedindo ajuda a seus amigos da mídia. As autoridades descobriram que a mãe de Mrak estava enviando dinheiro através de transferências bancárias. Eles entraram em contato com ela e ela concordou que se soubesse algo do casal fugitivo, entraria em contato.

Mas Unterweger ofereceu um acordo: prometeu retornar e responder as perguntas se os mandados de prisão fossem retirados. Ele acreditava que podia provar sua inocência. Quando ele e Mrak se estabeleceram em Miami, Unterweger escreveu uma carta em sua defesa para os oficiais austríacos, explicando isso. Ele queria que fosse publicado nos jornais também, então, mesmo que a polícia não acreditasse nele, o público leria sobre seu apelo e decidiria sobre sua inocência.

“Meu voo não foi e não é uma confissão. É um tipo diferente de desespero. Eu estava indo bem, talvez bem demais – e o destino decidiu punir-me mais uma vez pela minha dívida do passado. Mas no momento, eu ainda tenho algo a dizer. Se um funcionário justo e neutro da justiça determinar que o mandado contra mim é injusto, estou pronto para me colocar à disposição desta pessoa.”

[Parte da carta de Jack Unterweger]

Ele fez vários telefonemas para que esta carta fosse publicada. Uma revista, Erfolg, ofereceu-lhe dinheiro pela história de sua fuga. Ele concordou em fazê-lo e deu-lhes um endereço. De acordo com fontes alemãs, ele também pediu alguns medicamentos para a tireoide. Um jornalista perguntou se ele estava forçando Mrak a ir com ele, então ele deixou que ela falasse por si mesma. Ela pegou o telefone e disse que estava viajando com Unterweger porque ela queria e eles estavam se divertindo.

Bianca Mrak.

Bianca Mrak.

Para todos, Unterweger disse a mesma coisa. Ele tinha um álibi para cada um dos assassinatos que a polícia estava tentando jogar nele. Por exemplo, ele disse que havia pessoas que jurariam que ele estava numa leitura na noite em que uma mulher havia desaparecido. Em outra, ele nem sequer estava na cidade, e em três outras, ele estava sozinho em casa. O que se dizia dele, insistia Unterweger, era uma “história controlada” que se originou em Graz; em outras palavras, a polícia estava inventando as coisas. Eles o haviam escolhido como um bode expiatório porque estavam chateados com sua liberdade condicional e tinham a intenção de mandá-lo de volta à prisão. Até que ele pudesse ter uma audiência justa, e não uma que o enquadraria, ele permaneceria em fuga. Em um ponto ele era desafiador: não ia voltar para a prisão.

Fim da Estrada


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Mrak ligou para sua mãe para enviar algum dinheiro, fornecendo um endereço em Miami, e a Sra. Mrak informou à polícia. Eles transmitiram essas informações à Interpol, que alertou funcionários dos EUA. Três agentes federais e um agente do Departamento de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo mantiveram vigilância em um escritório da Western Union em South Beach. Com uma fotografia de Unterweger em mãos, eles esperaram sua aproximação. Como Unterweger havia mentido à alfândega, eles tinham a causa para a apreensão. Este episódio é recriado no programa FBI Files dedicado a este caso.

Eventualmente, Unterweger e Mrak se aproximaram. Mesmo magricelo, ele parecia comum para os agentes, mas as vívidas tatuagens da prisão em seus braços o entregavam. Mrak entrou no prédio para pegar o dinheiro enquanto Unterweger esperou do lado de fora. Quando Mrak voltou, eles começaram a andar e os agentes saíram atrás deles. Unterweger, sempre alerta, percebeu e saiu correndo. Um agente foi até o encontro de Mrak, enquanto os outros correram atrás de Unterweger. Ele correu para um restaurante e saiu pela porta dos fundos, mas os agentes o encurralaram no estacionamento. Unterweger desistiu e eles o algemaram, colocaram-no em um carro e o levaram para o centro de Miami.

Quando foi dito a ele que a acusação apenas se referia à sua entrada ilegal no país, Unterweger tornou-se bastante receptivo, brincando com os oficiais e assegurando que iria colocá-los em seu próximo livro. Ele não tinha ideia do que o esperava. Finalmente, um dos oficiais mencionou os assassinatos na Áustria e Unterweger ficou sem palavras. Ele começou a soluçar.

Mrak levou o agente que a pegou até onde ela e Unterweger estavam hospedados. A busca em seu quarto alugado revelou o diário de viagens de Unterweger. Ficou claro que ele estava ponderando o assassinato de Mrak. O diário foi confiscado como prova potencial e Unterweger ficou detido para aguardar a extradição. No entanto, não ficou claro se ele ia para a Califórnia ou para a Áustria. Parecia preferir a primeira. Os detetives do LAPD chegaram para interrogá-lo, mas apenas como um truque. Parecia ser do interesse da polícia encaminhá-lo para seu país natal. Eles decidiram assustá-lo para que tomasse essa decisão – principalmente após descobrirem que os assassinatos em L.A. seriam difíceis de ligar a ele.

Os detetives americanos obtiveram um mandado e retiraram amostras de tecido e, em seguida, extraíram o sangue de Unterweger, também tomando amostras de pelos e saliva para testes de DNA. Seu DNA correspondia ao encontrado no sêmen de uma das vítimas em L.A., mas ela também tinha sêmen de outros seis homens, de modo que a evidência se tornou inútil (apesar de nas entrelinhas estar claro que foi ele o assassino). Infelizmente, não havia secreção nas outras duas prostitutas. O restante das evidências consistia em recibos, obtidos de Geiger, para hotéis perto de onde as mulheres assassinadas tinham sido vistas pela última vez.

Unterweger percebeu sua relativa vantagem, então quando os Estados Unidos o liberou para retornar à Áustria, ele lutou contra a deportação. Os detetives Miller e Harper, querendo assustá-lo, disseram que se fosse processado na Califórnia ele enfrentaria a possibilidade da câmara de gás. Ele rapidamente concordou em ser deportado. Apesar das autoridades austríacas quererem a sua cabeça, Unterweger ainda tinha a opinião pública ao lado, e as evidências físicas que a polícia tinha pareciam ser frágeis. Ele acreditava que poderia sair dessa. Bem humorado, ele foi deportado em 28 de maio de 1992.

Unterwegger foi tema de diversas reportagens da mídia austríaca em 1992. Foto: Revista Profil.

Unterwegger foi tema de diversas reportagens da mídia austríaca em 1992. Foto: Revista Profil.

Enquanto esteve detido, Unterweger deu entrevistas livremente. Ele afirmou que estava completamente reabilitado e na edição da revista Profil de outubro de 1992, ele questionou:

“Eu seria tão estúpido e tão louco de durante a fase mais sortuda da minha vida, em que fiz produções de teatro, desempenhei um papel no palco, organizei um passeio, e fiz muitas amizades maravilhosas, matar alguém a cada semana, no meio disso tudo?”

Ele também manteve um diário na prisão, onde descrevia seus pensamentos e sua poesia – a maioria sobre o tempo que ele esteve livre. Ele escreveu cartas para a imprensa insistindo em sua inocência. Ele poderia provar isso, disse, embora não oferecesse nada.

Então um ano depois do desaparecimento, no final da primavera, foram encontradas partes de um esqueleto. Eram os restos de Regina Prem, a mulher cujo marido tinha recebido os telefonemas assustadores. Ela foi deixada em um bosque, o que era consistente com os outros casos, mas nenhuma roupa ou joias foram encontrados, e depois de um período tão longo exposto relento, a causa da morte não podia ser determinada.

O próximo passo deste caso foi o julgamento.

A Compulsão de um Assassino


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“Nós continuamos a ser assombrados com o medo de que pessoas continuarão a lembrar deste assassino, até mesmo o glorificando, pelo massacre de nossas crianças”.

[Familiares de vítimas de Danny Rolling – The Psychopathology of Serial Murder, Stephen Giannangelo]

Em The Psychopathology of Serial Murder (Psicopatologia do Assassinato em Série, 1996), o agente especial do FBI Stephen Giannangelo descreve a matriz de fatores envolvidos na compreensão de serial killers. Ele indica que serial killers, como um grupo, mostram sintomas de muitas síndromes psicológicas diferentes. Entretanto, ainda não existe um único conjunto de critérios de diagnóstico para colocá-los em uma categoria separada. Muitos deles têm uma história de negligência ou abuso, bem como uma onipresente inadequação de identidade e medo de não ter controle, mas sempre há exceções. No entanto, em assassinos motivados por sexo, cujos comportamentos como sadismo e fetichismo estão presentes, pode haver uma orientação sexual disfuncional. “A motivação sexual desviante”, diz ele, “claramente tem um impacto sobre a psicologia do assassino”.

Ele passa a descrever os fatores envolvidos nos comportamentos compulsivos, desde o primeiro assassinato até o ciclo de ação e necessidade que evolui para um comportamento no qual os assassinos se sentem confortáveis. Eles também podem crescer viciados. Serial killers ficam animados quando conseguem matar, e se eles não forem pegos, crescem confiantes de que podem fazer isso de novo.

A erotização do ato o reforça e transforma-se em uma obsessão que o consome. “A compulsão e o ritual da matança retém sua importância”, afirma Giannangelo, e o nível de intensidade diminuirá com cada novo incidente. Assim, como acontece com qualquer vício, a necessidade cresce mais forte, empurrando um assassino para agir com mais frequência e com mais brutalidade à medida em que tenta reviver a adrenalina da primeira morte. Em geral, ele não vai parar até que seja parado por alguma força diferente da sua própria vontade.

Jack Unterweger se encaixava no perfil do assassino compulsivo. A polícia sabia que tinham que detê-lo, então eles pediram por ajuda.

A BSU entra no caso


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Ernst Geiger entrou em contato com um escritório do FBI em Viena e, por meio deles, explicou o que precisava para Gregg McCrary na BSU em Quantico, Virgínia. McCrary detalha sua reunião e seu envolvimento no resto do caso em The Unknown Darkness. Geiger chamou Thomas Mueller, Chefe do Serviço de Psicologia Criminal do Ministério Federal do Interior, para ir com ele até os Estados Unidos, e durante duas semanas, eles aprenderam como a BSU trabalhava em tais casos. O perfil não foi envolvido, uma vez que o caso já tinha um suspeito em potencial preso, mas a análise de investigação criminal era relevante para vincular os casos. Ela mostrou como tudo se encaixava em todos os casos de assassinato, de tal forma que ficou claro que o mesmo assassino matou todas aquelas mulheres.

Inicialmente, McCrary trabalhou apenas nos crimes e detalhes das cenas dos crimes, sem acesso a informações sobre o suspeito. Ele colocou tudo sob perspectiva, olhou para características de mudança ou escalada, assim ele poderia preencher detalhadamente os formulários necessários para cada assassinato e inseri-los no banco de dados VICAP. McCrary sabia que se esse assassino fosse o responsável por todos os onze assassinatos, ele era raro. Assassinos em série podem atravessar uma fronteira e viajar por estados ou países, como o caso mostrou, mas isso não era comum. Um bom advogado de defesa poderia facilmente encontrar um especialista para dizer que os assassinatos eram obra de vários assassinos. No entanto, McCrary viu um padrão.

“Tivemos uma vitimologia e uma maneira de disposição semelhantes. A maioria dessas mulheres eram prostitutas e foram deixadas ao relento, com ramos ou folhagens colocadas sobre elas. Não tínhamos nenhum sêmen sobre ou na [maioria] desses corpos. A causa da morte, para aquelas em que poderíamos dizer, foi estrangulamento, mas alguns corpos estavam muito decompostos para ter uma certeza. A maioria tinha hematomas de retenção em seus braços e pulsos. Ninguém as viu entrar em um carro, então este ofensor foi cuidadoso. Houve uma ausência de qualquer indicação de agressão sexual. O traço de evidência era quase nulo, e ele parecia ter um MO calculado. Era esperto e organizado”.

[Gregg McCrary – The Unknown Darkness]

Naquela época, a base de dados VICAP continha de dez a doze mil casos de homicídios resolvidos e não resolvidos. Eles usaram quinze critérios cruzados de referência para a pesquisa, e eles acabaram combinando os onze uns com os outros, além de um ocorrido na Califórnia, mas neste último o assassino já havia sido condenado. “Em outras palavras,” McCrary relata em seu livro, “seria altamente incomum ter mais de um cara engajando-se neste tipo específico de comportamento durante este mesmo período de tempo.” Quem havia feito um provavelmente fizera o resto.

Quando construíram a linha do tempo de Unterweger e dos assassinatos, e compararam seu modus operandi com o assassinato de Margaret Schaefer e os outros, houve uma combinação. Acrescente-se a isso uma análise feita no Laboratório de Crime de Los Angeles pelo criminalista Lynn Herold sobre os nós feitos ​​para amarrar as ligaduras usadas para estrangular as três prostitutas em L.A. Era um nó complicado e combinava com os nós das meias-calças encontradas ​​em muitas das vítimas na Áustria. A análise comportamental pareceu ser muito forte, embora tais características não tivessem peso no tribunal.

Um ponto interessante no caso Unterweger é o fato de que ele não era o primeiro criminoso condenado a “nascer de novo” com a arte. Como ele, outros no passado pareceram recuperados aos olhos do público, mas voltaram aos seus velhos hábitos.

Os Erros dos Intelectuais


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Jack Abbott

Jack Henry Abbott Foto: David Hankschuh/AP.

Jack Abbot tornou-se uma celebridade com o livro que ele escreveu na prisão, In the Belly of the Beast (Na Barriga da Fera, 1981), que se tornou um best-seller e recebeu um grande apoio dos intelectuais da América. O livro se originou a partir de uma série de cartas que Abbot escreveu ao jornalista e escritor Norman Mailer durante os anos 70, e Mailer o ajudou a publicar a coleção. Mailer e seus amigos intelectuais, então, começaram a defender a liberação de Abbott, afirmando que ele era um “escritor poderoso e importante”.

Em 1981, Abbot saiu da prisão e, como Unterweger, recebeu vários convites para jantares e programas de televisão. Ele foi celebrado como um homem reabilitado, graças à sua capacidade de recanalizar seus pensamentos para a forma mais espiritual da literatura. No entanto, todos ignoravam o fato de que ele havia dedicado o livro ao psicopata Carl Panzram, um estuprador e assassino múltiplo, desprovido de remórsio, que odiava a humanidade e se descrevera como o “espírito personificado da maldade “. Panzram nunca hesitou em violar ou matar quando a vontade o atingia. Conta-se que uma vez ele levou seis homens africanos em um safari, matou todos e jogou-os no rio para os crocodilos. Por que Abbott o admirava não se sabe, mas isso era uma boa indicação de seus próprios pensamentos.

Abbott decepcionou seus partidários quando, seis semanas após sair em liberdade, esfaqueou Richard Adnan, um garçom de 22 anos, até à morte. Ele chamou o assassinato de “necessário” e disse publicamente que Adnan não tinha muito talento.. Em outras palavras, esse “gigante literário” não tinha nenhuma preocupação com a vida de outra pessoa. A arte não o havia reabilitado nem lhe dera elevados sentimentos espirituais.

Gary Gilmore

Gary Gilmore.

Gary Gilmore, encarcerado ao longo de sua adolescência por uma série de roubos de carros e arrombamentos, mostrou verdadeiro talento com a arte. Seus desenhos e esboços ganharam competições, assim recebeu a liberdade condicional para frequentar a escola da arte em Eugene, Oregon. A esperança era, de acordo com seu irmão Mikal Gilmore em Shot in the Heart (2001), que ele redirecionaria suas energias antissociais para algo gratificante e produtivo.

Infelizmente, a ideia de que a arte poderia substituir anos de raiva, má referência de um pai vigarista e seu inadequado senso de autoestima, era excessivamente idealista. Não só Gilmore não se inscreveu para as aulas, como se armou, ficou bêbado e assaltou uma loja. Isso o mandou de volta à prisão. Anos mais tarde, ele recebeu a liberdade condicional novamente, então matou dois homens em dois dias e foi encarcerado novamente. Sentenciado à morte em 1976, ele acabou executado por um pelotão de fuzilamento no ano seguinte.

Edgar Smith

Edgar Smith.

Edgar Smith era um assassino condenado no corredor da morte. Seu caso é descrito em Lustmord: The Writings and Artifacts of Murderers (Lustmord: Os Escritos e Artefatos dos Assassinos, 1996), editado por Brian King. Smith se correspondeu com o escritor William F. Buckley durante um período de sete anos e conseguiu convencê-lo de que era um homem inocente preso erroneamente. Seu crime envolveu a violação e o assassinato de uma menina de 15 anos em 1957 em Nova Jersey. Buckley ajudou Smith a escrever e publicar Brief Against Death (1968). Com o patrocínio de Buckley, Smith recebeu a liberdade em 1971 de um juiz que acreditou em sua reabilitação. Smith apareceu na televisão com Buckley naquele dia e tornou-se membro da Mensa, uma organização que apenas pessoas com QI de gênio podem entrar. Cinco anos depois, ele atacou uma jovem na Califórnia. Ela escapou, entregando-o, e Smith pediu ajuda a Buckley, mas o escritor o entregou ao FBI. Ele então confessou ter cometido o assassinato pelo qual fora condenado anteriormente. Sua história inteira havia sido uma mentira.

Aqueles que lidam com assassinos diariamente sabem seus truques, assim, um assassino que conseguiu pavimentar o seu caminho para fora da prisão e convencer outros de que era agora um bom rapaz não os surpreendiam. A tarefa, no entanto, era educar um júri nas nuances da psicopatia.

Jack na Caixa


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O julgamento começou em junho de 1994, em Graz, Áustria. Sendo um cidadão austríaco, Unterweger poderia ser julgado pelos três assassinatos em Los Angeles e o de Praga, ao lado dos sete na Áustria. Suas muitas acusações não haviam diminuído o apoio do público e ele continuou a procurar entrevistas para se gabar de como ele iria sair vitorioso.

O detetive Jim Harper voou de Los Angeles para expor os casos da América, assim como Lynn Herold, do laboratório criminal, para testemunhar sobre os nós. Gregg McCrary estava lá para falar do sistema VICAP, os padrões comportamentais únicos que ligavam todos os crimes e como esses comportamentos associavam os crimes ao primeiro assassinato de Unterweger, em 1974. Junto a tudo isso, a acusação tinha um relatório psiquiátrico sobre a sádica natureza criminal de Unterweger. Provas incluíam o cabelo de Blanka Bockova encontrado no carro de Unterweger; numerosas fibras vermelhas do corpo de Brunhilde Massar, que eram consistentes com fibras do lenço vermelho de Unterweger; e o testemunho de ex-associados e namoradas que haviam sido enganados.

Os advogados de Unterweger desconheciam o perfil criminal ou as técnicas do FBI e fizeram perguntas que só fortaleceram o caso para a promotoria. Eles tentaram mostrar a irracionalidade do comportamento de Unterweger – ele teve sucesso como jornalista e teve sucesso com as mulheres, então por que ele se prejudicaria tanto e por que precisaria de uma prostituta? Essas perguntas poderiam ser facilmente respondidas por alguém familiarizado com as compulsões e fetiches envolvidos no assassinato em série, principalmente por McCrary, um caçador de mentes. Geralmente, racionalidade não é a questão. Nem sexo disponível. Matar era um vício obscuro.

Unterweger, sempre bem vestido, discutiu seu próprio caso perante o júri. Ele tinha certeza de que seu charme e boa aparência o desviaria das evidências. Ele pediu ao júri para não julgá-lo sobre ações passadas. Ele admitiu que havia sido um “rato… um criminoso primitivo que grunhia em vez de conversar… um mentiroso inveterado.” Unterweger “consumia mulheres, em vez de amá-las”. Mas ele havia mudado, estava reabilitado. Claramente eles podiam ver isso por si mesmos em seu terno impecável e aparência refinada. Ele não era mais aquele homem das cavernas. Unterweger era um homem de meia-idade de gostos e talento refinados, não mais um jovem delinquente. Se dirigindo ao júri, ele disse:

“Eu estou contando com a sua absolvição, porque eu não sou o culpado. Sua decisão afetará não só a mim, mas o assassino real, que está rindo triunfante”.

[Jack Unterweger]

O julgamento durou dois meses e meio e a imprensa começou a mudar sua opinião à medida que o tempo passava. As coisas pareciam ruins para Unterweger. Ele não conseguia corroborar as evidências, como prometido, e a mídia notou isso. Talvez o criminoso reabilitado não fosse quem ele dizia ser, afinal.

Jack Unterweger foi considerado culpado de nove acusações de assassinato – a vítima de Praga, as três vítimas de Los Angeles e cinco na Áustria. As outras duas vítimas austríacas estavam com os corpos muito decompostos para estabelecer uma causa definitiva de morte, então ele foi absolvido desses. O tribunal imediatamente condenou o réu à prisão perpétua.

Isso foi um duro golpe para um homem arrogante que havia assegurado a todos e a si mesmo que nunca mais passaria um dia na prisão. Assassinos em série muitas vezes têm problemas com o controle e Unterweger não foi exceção. Arrogante e desafiador até o fim, cumpriu sua promessa da única maneira que lhe restava: quando os guardas não estavam olhando, usou a corda do macacão da prisão para se enforcar. A perícia não teve dúvidas: era o mesmo nó que ele usara em suas vítimas. E ele estava certo. Unterweger nunca mais passou um dia na prisão. Como Israel Keyes, ele experimentou o controle mesmo quando estava completamente acuado e dominado.

Astrid Wagner, uma colega de Unterweger, escreveu vários livros sobre o caso. Sua avaliação foi que tanto a mídia quanto a polícia foram pressionados para fazer essa história acontecer. Os meios de comunicação estavam sempre à procura de histórias sobre sexo e crime, enquanto a polícia tinha de fechar um número de casos. Unterweger tinha uma personalidade fascinante, o que o tornava um alvo fácil. Ele era um bode expiatório. Wagner também culpou o mau estado do sistema jurídico austríaco pela condenação de Unterweger, alegando que era injusto e que as provas apresentadas eram frágeis demais para servir no tribunal.

Positivamente, o legado de Unterweger fez a Áustria criar um sistema nos mesmos moldes do VICAP do FBI, com Geiger e Mueller tomando a frente. Mueller, inclusive, foi trabalhar com Robert Ressler nos anos 2000, na empresa de consultoria do caçador de mentes. Autoridades austríacas ficaram impressionadas com a forma de como a aplicação da lei se tornou mais eficiente em levar assassinos à justiça.

Quanto a Jack Unterweger, ele era um criminoso raro e inteligente, e seu caso demonstra o que McCrary gosta de dizer:

“Quando você educa um psicopata, tudo o que você ganha é um psicopata educado”.


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Fontes Consultadas


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[1] Pinizzotto, A. J. , & Finkel, N. J. (1990). Criminal personality profiling: An outcome and process study. Law and Human Behavior, 14, 215-233.

[2] Kocsis, R. N., Irwin, H. J., Hayes, A. F., & Nunn, R. (2000). Expertise in psychological profiling: A comparative assessment. Journal of Interpersonal Violence, 15, 311-331.

[3] A Psychological Analysis of Adolph Hitler – His Life and Legend. Walter C. Langer Office of Strategic Services -Washington, D.C.

[4] Baltimore Sun – The FBI’s John Douglas spends his days profiling criminals, 11 de março de 1991. Disponível em: http://articles.baltimoresun.com/1991-03-11/features/1991070079_1_serial-killers-killer-ted-bundy-douglas

[5] Citizen X, HBO Home Video, 2000. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TMVEvD_hq7M

[6] Casebook. Disponível em casebook.org

[7] Criminal Profiling, FBI. Disponível em vault.fbi.gov

[8] Russell Vorpagel, 1998. Profiles in Murder: An FBI Legend Dissects Killers and Their Crimes 

[9] Mccrary, Gregg. Philpin, John. Are criminal profiles a reliable way to find serial killers? – CQ Researcher – Congressional Quarterly

[10] Blog o Aprendiz Verde – Robert Ressler, o homem que entendia serial killers

[11] Gregg O. McCrary – The Unknown Darkness Profiling the Predators Among Us, 2004

[12] Nigel Blundell – Serial Killers: Murder Without Mercy, 2011

[13] Michael Newton – A Enciclopédia De Serial killers, 2000

[14] The FBI Files: Season 2 – Ep 14 “Killer Abroad” – Discovery Channel

[15] Stephen Giannangelo – The Psychopathology of Serial Murder, 1996

Colaboração de:


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Sheeza

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