Serial Killers: William Burke & William Hare, Assassinatos em West Port

Roubo de Túmulos: um bom negócio . A curiosidade científica sobre o funcionamento interno do corpo humano levou a inúmeras descobertas médicas. Tais descobertas percorreram nobres caminhos até serem...
William Burke e William Hare

William Burke e William Hare - Assassinatos em West Port

Roubo de Túmulos: um bom negócio


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A curiosidade científica sobre o funcionamento interno do corpo humano levou a inúmeras descobertas médicas. Tais descobertas percorreram nobres caminhos até serem um benefício à sociedade. Mas nem todas. No caminho do conhecimento houve desvios que levaram a crimes e assassinatos.

No início do século 19, a Grã-Bretanha experimentou um grande aumento no número de estudantes que desejavam formação em anatomia; salas de aulas de faculdades de medicina transbordaram sua capacidade nesse período. A maioria das disciplinas poderiam facilmente ser ensinadas dentro de sala de aula, mas aulas de anatomia tinham uma exigência especial: um cadáver.

Até o século 19, as leis da Grã-Bretanha especificavam que os cadáveres que poderiam ser usados para demonstração em salas de aula eram somente aqueles de criminosos executados pelo estado. E o número de execuções era, como escreveu o criminologista amador e escritor da época William Roughead,

“…totalmente inadequado para satisfazer as necessidades crescentes… e os aprendizes a cirurgiões tinham que diligentemente cultivar o solo para fazer a colheita, no que finalmente foi chamado de ‘colheita da Morte’.”

Esse “cultivo” de solo logo se tornou a ocupação regular de vários personagens do submundo e o autor Hugh Douglas escreveu sobre eles:

“Ladrões de túmulos poderiam abrir uma sepultura, remover um corpo e restaurar o solo entre as patrulhas policiais… Parentes do morto poderiam chorar na sepultura no próximo dia, sem saber que seu ente querido estava em alguma aula de anatomia de Edimburgo.”

Ao receber um cadáver de alguém que não era um agente autorizado a transportar cadáveres de criminosos, médicos e seus assistentes, provavelmente, suspeitavam que os corpos fossem roubados, mas geralmente não diziam nada, havia um negócio lucrativo acontecendo, as aulas de anatomia tinham de continuar cheias e receber o pagamento dos diversos alunos interessados em saber o funcionamento do corpo humano era prioridade.

Como bons empreendedores que farejam oportunidades, uma dupla irlandesa desenvolveu um método mais direto para fornecer cadáveres frescos para as escolas de anatomia de Edimburgo em 1828.

William Burke & William Hare


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“Burke tem 36 anos, nasceu na freguesia do Orrey, condado de Tyrone (Irlanda); serviu sete anos no exército, a maior parte desse tempo como servo na Milícia Donegal. Ele se casou em Ballinha, condado de Mayo, enquanto estava no exército, mas deixou sua esposa e dois filhos na Irlanda. Ela não veio para a Escócia com ele. Ele escrevia muitas vezes para ela, mas não obteve resposta. Ele foi para a Escócia para trabalhar no Union Canal, e ficou lá enquanto durou. Ele residiu por cerca de dois anos em Peebles, e trabalhou como operário. Ele trabalhou como tecelão por 18 meses, e como padeiro por cinco meses. Ele aprendeu a consertar sapatos com um homem que ele conheceu em Leith.”

[William Burke, escrevendo sobre si mesmo]

Enquanto esteve morando em Maddiston, Escócia, durante seu trabalho no Canal, Burke conheceu Helen McDougal, uma escocesa divorciada que morava com um namorado e dois filhos. Burke e McDougal deixaram Maddiston juntos após o seu trabalho como operário terminar, ela aparentemente deixou para trás os dois filhos. O casal viajou até Peebles, depois Leith, por fim chegando a Edimburgo, onde trabalharam em fazendas, vendendo roupas velhas e remendando sapatos.

  • O Xará William Hare

William Hare também viajou da Irlanda até a Escócia para trabalhar no Union Canal, embora não se sabe se foi lá que ele conheceu William Burke. Após o fim da obra do Canal, Hare foi para Edimburgo e passou a morar em hotéis baratos em uma área conhecida como West Port, sendo vizinho de um homem chamado Logue e sua esposa Margaret, que também eram irlandeses. Quando Logue morreu em 1826, Hare se engraçou com a viúva Margaret e logo os dois estavam vivendo juntos como marido e mulher e tocando a pensão de Margaret. Diferentemente de Burke, Hare nunca se autodescreveu, mas ele foi descrito em uma edição da Blackwood Magazine em 1829:

“O homem mais brutal já submetido aos meus olhos; em um primeiro olhar parece um idiota. Seu rosto quando sorri – o que ele faz muitas vezes – cai em um buraco medonho do queixo até o osso da bochecha – tudo mergulhado em um mau humor e miséria… um rosto quase deformado de um meliante malicioso… tão absurdamente repugnante que era como se eu estivesse olhando para um réptil.”

Quando Burke e McDougal se mudaram para Edimburgo, eles fixaram residência na mesma West Port e por acaso se encontraram com Margaret, que os convidou para sua pensão e apresentou seu marido. Logo depois, Burke e McDougal se tornaram inquilinos de Margaret e Hare. Os quatro viviam brigando, mas eram ligados pelo gosto do uísque e o desejo de fazer dinheiro fácil – não importando a forma.

A Primeira Mercadoria


Hospedaria Log’s Tanners Close, Edimburgo, Escócia

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Retrato de William Burke feito pelo pintor George Andrew Lutenor em 1829 durante julgamento do serial killer.

Retrato de William Burke feito pelo pintor George Andrew Lutenor em 1829 durante julgamento do serial killer.

Em novembro de 1827, um dos inquilinos de Hare, um velho pensionista do exército chamado Donald, adoeceu e morreu. Hare ficou indignado e raivoso, mas não pela morte do homem, e sim porque Donald faleceu devendo 4 libras de aluguel.

Após autoridades recolherem o corpo do homem, Hare bolou um plano para conseguir o dinheiro que Donald lhe devia. Com a ajuda de Burke, eles foram até o necrotério e tiraram o corpo do velho do caixão e colocaram cascas de árvores para fazer peso. Eles, então, foram até a escola de medicina para vender o corpo e foram orientados a falarem com o professor Robert Knox. Na sala de Knox, Hare e Burke conversaram com seus assistentes que confirmaram interesse no cadáver, pedindo para que lhes trouxessem durante a noite.

Horas depois, Burke e Hare apareceram na madrugada com um grande saco. Três assistentes do professor Knox examinaram o corpo e ofereceram pouco mais do que 7 libras – quase o dobro do aluguel que o velho Donald devia. Burke e Hare concordaram imediatamente com o pagamento – era uma soma considerável para os dois pobres imigrantes irlandeses – e deixaram o local com sorrisos no rosto e discutindo o quão “lucrativo” poderia ser esse negócio, sem esforço e boa recompensa.

“Dr. Knox veio e após a camisa ter sido tirada, olhou o corpo, e falou que ficaria com ele; autorizou Jones [seu assistente] a pagar a eles; ele não fez perguntas sobre como o corpo foi obtido. Jones disse que ficaria contente se visse eles novamente com outro corpo para vender.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

Não muitos dias depois, outro inquilino de Hare, Joseph, adoeceu. Joseph devia dinheiro a Hare e apesar de não estar tão gravemente doente quanto Donald, Hare e Burke discutiram e decidiram que o homem devia morrer. Ele estava com dor e seria uma “boa ação” livrar a pobre alma do sofrimento. Mostrando uma grande simpatia pelo desconforto alheio, Burke e Hare encheram Joseph de uísque até ele cair inconsciente. Em seguida, um deles tapou o nariz e boca da vítima enquanto o outro segurou os braços, impedindo qualquer reação.

A dupla ficou dois dias com o corpo de Joseph até certificarem de que ele não iria mais acordar. Mais 7 libras para o bolso deles. Sem saber, eles tropeçaram em um método infalível de homicídio, já que uma autópsia conduzida pelos alunos de Knox não pode certificar se o homem morrera de doença ou embriaguez, e como não havia marcas incriminatórias no corpo, nenhuma suspeita foi levantada. Eis o modus operandi que a dupla usaria pelos próximos 11 meses.

“O próximo foi um homem chamado Joseph, um moleiro, que estava bastante doente: ele recebeu bebida de Burke e Hare, mas não estava bêbado; ele estava muito doente, deitado na cama, e não podia conversar às vezes… eles concordaram que deveriam sufocá-lo pelo mesmo propósito, e Burke pegou um pequeno travesseiro e colocou sobre a boca de Joseph, e Hare pegou seus braços e pernas. Ele foi vendido da mesma maneira para as mesmas pessoas.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

Querendo continuar com o negócio, Hare e Burke ficaram chateados quando nenhum outro hóspede apresentou algum tipo de doença, assim eles sentiram que era hora de buscar a “mercadoria” do Dr. Knox fora da pensão.

Negócio Lucrativo


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Em fevereiro de 1828, a idosa Abigail Simpson viajou até Edimburgo para recolher o dinheiro de sua pensão. Na cidade, ela conheceu William Hare que a convidou para ir até sua pensão beber alguma coisa antes de fazer seu caminho de volta. Ela concordou e logo Burke e Helen se juntou a ela e a Hare e Margaret, todos beberam até tarde da noite. Ficando escuro e frio, Abigail foi facilmente persuadida a pousar na pensão e partir apenas na manhã seguinte. Entretanto, Burke e Hare tinham outros planos para ela, só que eles estavam tão embriagados que adormeceram.

Na manhã seguinte, Abigail acordou com um forte ressaca e aceitou um pouco mais do remédio de Hare e Burke: uísque. O primeiro gole foi seguido de outro e outro, logo Abigail caiu inconsciente na cama. Ela nem viu quando a dupla a sufocou. Eles colocaram seu corpo em uma cesta e levaram até o Dr. Knox. Pela primeira vez, o professor inspecionou pessoalmente o corpo, observando que ele estava bastante “fresco”, mas não fez perguntas. Ele autorizou o pagamento de 10 libras.

“Abigail Simpson foi assassinada em 12 de Fevereiro de 1828, na manhã do dia. Ela morava em Gilmerton, perto de Edimburgo; tinha uma filha morando lá. Ela costumava vender sal e argila [usada na Escócia do século 19 para brilhar lareiras ou portas]. Ela foi atraída por Hare e sua esposa na tarde de 11 de Fevereiro, e ele deu uísque para ela beber… Hare disse que ele era um homem solteiro, e que casaria com ela, e pegou todo o dinheiro. Eles [Hare e esposa] então pediram para ela ficar à noite, o que ela fez, ela estava tão bêbada que não podia ir para casa; de manhã ela estava vomitando. Eles então deram cerveja preta e uísque para ela, e a fizeram ficar tão bêbada que ela caiu dormindo na cama. Hare, então, colocou as mãos em sua boca e nariz e a sufocou. Eu segurei suas mãos e pés até ela estar morta. Ela não deu muita resistência; e quando foi conveniente, carregamos ela até a sala de dissecação do Dr. Knox na Surgeon’s Square, e pegamos 10 libras por ela.”

[Confissão de William Hare – West Port murders]

O dinheiro saia da mesma forma que entrava nos bolsos de Burke e Hare: fácil. Os dois usavam a quantia ganha principalmente com bebidas, de modo que, tão rápido eles saiam da sala do professor Knox, eles precisavam de procurar por sua próxima vítima.

Não muito tempo depois da morte de Abigail, outro inquilino de Hare, um inglês que vendia jogos, adoeceu. Como os anteriores, Burke e Hare trataram pessoalmente do homem, cuidando para que ele parasse de “sofrer”.

“O próximo foi um inglês, nativo de Cheshire, um inquilino de Hare. Eles o mataram da mesma maneira que os outros. Ele estava doente com icterícia. Ele era muito alto; tinha cabelos pretos, bigodes castanhos misturados com cabelos brancos. Ele costumava vender madeiras em Edimburgo; tinha por volta de 40 anos de idade. Não sabiam seu nome. Vendido ao Dr. Knox por dez libras.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

Embora Burke e Hare mais tarde jurassem que Margaret e Helen não sabiam dos assassinatos, a próxima “mercadoria” coloca um ponto de interrogação nesta questão. Um dia Margaret encontrou uma idosa nas ruas de Edimburgo e a levou para a pensão, onde ela ofereceu uísque à senhora. Segundo Margaret, ela ofereceu uma cama à mulher mas ela se recusou a ir, preferindo a bebida. Depois de três tentativas, finalmente a mulher foi descansar na cama. Minutos depois Burke e Hare já estavam batendo na porta da sala do professor Knox com mais uma entrega fresquinha.

“A próxima foi uma mulher idosa que dormiu uma noite na pensão de Hare, mas não sabiam seu nome. Ela foi assassinada da mesma maneira; vendida ao Dr. Knox por 10 libras. A mulher foi levada até a casa pela Senhora Hare na parte da manhã, vinda da rua, quando Hare estava trabalhando nos barcos do canal. A Senhora Hare deu a ela uísque e a colocou para dormir por três vezes. Por fim, ela estava tão bêbada que caiu no sono; e quando Hare chegou para seu almoço, fez sua parte colocando suas mãos em sua boca e nariz; quando ele voltou à noite ela estava morta. Burke, nesta hora, estava fazendo sapatos; então Hare e Burke tiraram as roupas dela, e colocaram o corpo em uma caixa. Levaram ela para Knox naquela noite.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

Mary & Janet


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Retrato de William Hare feito pelo pintor George Andrew Lutenor em 1829 durante julgamento do serial killer.

Retrato de William Hare feito pelo pintor George Andrew Lutenor em 1829 durante julgamento do serial killer.

Na manhã de 9 de abril de 1828, as prostitutas de West Port Mary Paterson e Janet Brown, ambas de 18 anos, começaram seu dia indo até uma taberna local. Enquanto consumiam suas primeiras doses de uísques do dia, elas conheceram William Burke, que as convidou a ir para sua casa almoçar. Mary prontamente concordou, com Janet levando um tempo para decidir se aceitava o convite daquele desconhecido. Logo, os três foram até a casa do irmão de Burke, onde almoçaram e beberam mais. Mary adormeceu sentada na cadeira e Burke convidou Janet para acompanhá-lo até outra taberna para beberem mais. Janet não ficou embriagada e Burke levou-a de volta para a casa de seu irmão, oferecendo mais bebida à moça até o momento em que os dois foram surpreendidos por Helen, que gritou com o marido e a jovem prostituta. Uma discussão se seguiu e Burke expulsou a esposa da casa – enquanto isso Mary continuava a dormir com o rosto em cima da mesa.

Chateada com o incidente, Janet foi embora, sob protestos de Burke, que fez de tudo para que ela ficasse. Janet disse que voltaria depois que Helen parasse de xingá-la – a esposa de Burke estava possessa do lado de fora, gritando e xingando a moça. Mas em vez de ir para casa, Janet parou na pensão da Sra. Lawrie, local que ela e Mary já dormira várias vezes. Janet disse a Lawrie sobre o ocorrido e a senhora ficou bastante preocupada com a segurança de Mary, e disse a ela e a um funcionário da pensão para voltar imediatamente até a casa e buscar Mary.

Na casa do irmão de Burke, Janet encontrou apenas Hare, Margaret e Helen. Eles lhe disseram que Mary havia saído com Burke, mas que logo voltaria. Janet pediu para que o funcionário de Lawrie voltasse para a pensão e se sentou para esperar sua amiga.

Chegando na pensão da Sra. Lawrie, seu servo lhe disse o que havia acontecido, e a dona do lugar ficou ainda mais nervosa, ordenando que ele voltasse e trouxesse de uma vez por todas Mary e Janet. Obedientemente ele voltou e trouxe Janet. Pela terceira vez Janet evitou o terrível destino que já se abatera sobre sua amiga Mary.

“A próxima foi Margaret Paterson que foi assassinada na casa do irmão de Burke em Canongate, no último mês de abril, por Burke e Hare na manhã. Ela foi colocada em uma caixa e carregada até as salas de dissecação do Dr. Knox na tarde do mesmo dia – e ganharam 8 libras por seu corpo. Ela tinha metade de um centavo, que carregava em sua mão. Foi declarado que Paterson havia morrido apenas quatro horas antes de ser levada até a sala de dissecação de Knox; mas ela não foi dissecada na hora; ela foi mantida três meses antes de ser dissecada… Ela estava quente quando Burke cortou seu cabelo; um dos estudantes deu um par de tesouras para este propósito.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

O assassinato de Mary Paterson foi o mais arriscado que a dupla Burke e Hare cometeu. Quando eles levaram o corpo para o professor Knox, vários de seus estudantes homens a reconheceram, provavelmente eles já haviam estado com ela pagando por seus serviços. Burke e Hare optaram por ficar em silêncio sobre como conseguiram aquele corpo e posteriormente o porteiro do professor Knox afirmou que o corpo da jovem era tão bom que “muitos estudantes fizeram desenhos dele, um deles está em minha posse.”

Janet continuaria a caminhar pelas escuras ruas de Edimburgo a procura de sua amiga Mary. Sem sucesso.

Família & Conhecidos


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O dinheiro arrecadado com Mary Paterson logo acabou, mas oportunidades apareciam a todo momento.

Em seu trabalho honesto como sapateiro, Burke ocasionalmente comprava couro de uma mendiga chamada Effie. Uma manhã ela apareceu vendendo alguns retalhos de pano e Burke, gentil como era, convidou-a para se aquecer e beber dentro da pensão. Após vários goles, Effie adormeceu e a dupla ficou 10 libras mais rica naquela noite.

O Dr. Knox. Quadro pintado por David O. Hil e Robert A. Data: 1843. Foto: National Galleries Scotland.

O Dr. Knox. Quadro pintado por David O. Hil e Robert A. Data: 1843. Foto: National Galleries Scotland.

Tendo levado tantos corpos ao professor Knox sem levantar suspeitas sobre si mesmos, Burke e Hare, principalmente Burke, ficaram mais ousados e passaram a correr mais riscos. Nas ruas em uma manhã, Burke encontrou dois policiais arrastando uma mulher bêbada até a prisão. Corajoso, Burke disse aos policiais que conhecia a mulher, sabia até mesmo onde ela morava, e que iria levá-la para casa e cuidar devidamente dela. Mais 10 libras para a dupla naquela noite.

Em junho de 1828, Burke encontrou um idoso vagando pelas ruas e o atraiu com a promessa de uísque. Eles estavam caminhando até a casa de Burke quando uma idosa e um garoto pediram por informações sobre a direção de uma rua. A mulher explicou que o garoto era seu neto e ele era surdo, os dois não eram de Edimburgo, por isso não estavam familiarizados com a cidade. “Ora, mas eu sei exatamente onde fica essa rua!”, exclamou o serial killer. Burke abandonou o velho (que o amaldiçoou pelo resto da vida por perder o uísque prometido) e prometeu levar a senhora e o rapaz até a rua citada, mas por que não passar antes em sua casa para descansar e tomar um uísque 0-800?

A mulher logo ficou embriagada com a abundância de “refrescos” oferecidos por Burke. Enquanto isso, seu neto surdo (registros da época o descrevem com retardo mental) fazia companhia para Margaret e Helen em outra sala, o que ele não sabia era que sua avó estava sendo assassinada pela dupla, usando seu tradicional método. Então eles começaram a se perguntar o que fazer com o garoto. Por ser jovem, eles acharam que a criança não tomaria tanto uísque; mesmo se tomasse, talvez não cairia inconsciente facilmente. Mas Burke e Hare também não poderiam deixá-lo ir embora, já que o garoto poderia contatar a polícia. Quando o menino ficou cada vez mais preocupado com a ausência de sua avó, Burke o matou jogando-o no chão e quebrando seu pescoço com o joelho (embora mais tarde ele afirmasse que o garoto foi sufocado).

Ambos os corpos foram colocados em um barril e o professor Knox pagou 8 libras por cada um.

“Em Junho último, uma mulher idosa e um menino retardado, seu neto, de Glasgow, se encontraram com Hare e ambos foram assassinados à noite quando a mulher estava na cama. Burke e Hare assassinaram ela da mesma maneira que fizeram com os outros. Eles tiraram a roupa de cama, as roupas dela, e a deitaram na cama, então colocaram o lençol por cima dela; e então eles foram até o garoto e o levaram até o quarto, e o assassinaram, colocando-o ao lado de sua avó. Os corpos ficaram lá por uma hora; eles, então, colocaram-nos em um barril. O barril estava perfeitamente seco; não havia salmoura nele. Eles carregaram [o barril com os corpos] até o estábulo, então colocaram o barril na carroça de Hare, então o cavalo de Hare os levou, mas o cavalo não conseguiu arrastar a carroça na Meal Market, então eles chamaram um ajudante com um carrinho e colocaram o barril nele. Hare, Burke e o ajudante foram até a Surgeon’s Square. Quando chegaram na sala de dissecação do Dr. Knox, Burke carregava o barril em seus braços. Os estudantes tiveram muito trabalho para tirá-los para fora. Eles receberam 18 libras por ambos… O cavalo que empacou quando levava os corpos foi levado até uma mata e eles atiraram nele.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

Ainda em junho, Burke fez uma breve pausa do “trabalho” para visitar alguns parentes de Helen. Em sua confissão posterior, Burke afirmou que antes de sua partida, Margaret sugeriu o assassinato de Helen, no que ele recusou. Provavelmente por esta razão, e também por ter descoberto que Hare “trabalhou” sozinho durante sua viagem, Burke e Helen saíram da pensão e se estabeleceram nas proximidades, logo após o retorno de suas “férias”. Hare havia matado uma mulher bêbada que encontrara na rua e recebido 8 libras pelo corpo, o que deixou Burke irritado.

Mas embora vivendo separadamente, os dois homens continuaram sua sociedade. Uma lavadeira de sobrenome Ostler foi a próxima vítima. Logo depois, Ann McDougal, parente de Helen, apareceu em Edimburgo para visitar o casal e foi despachada pela dupla, embora Burke cordialmente pedisse a Hare para tomar “parte” naquele assassinato já que Ann era uma “parente distante” de sua esposa. McDougal rendeu mais 10 libras a eles.

“Ann McDougal, prima do ex-marido de Helen. Ela era uma jovem mulher, casada, e foi visitá-los. Hare e Burke deram uísque até ela ficar bêbada, e quando ela estava na cama dormindo, Burke disse a Hare que tinha muito a ver com ela, já que ela era uma amiga distante… Hare a matou parando sua respiração, e Burke o acompanhou da mesma maneira como os outros. Um dos assistentes do Dr. Knox, Paterson, deu um bonito baú para colocá-la dentro.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

A velha prostituta Mary Haldane foi a próxima vítima. Ela conheceu Hare nas ruas de Edimburgo e aceitou seu convite para tomar uma dose em sua casa. Burke se juntou a eles e Mary bebeu até adormecer. Ela foi morta rapidamente.

Mas a dupla não contava com a filha de Haldane, Peggy, que havia visto sua mãe na companhia de Hare e bateu na pensão perguntando onde sua mãe estava. Margaret e Helen atenderam a moça e negaram copiosamente que qualquer prostituta tenha sequer pisado ali. Peggy endureceu e Hare apareceu para dizer que sua mãe havia estado ali sim, mas foi embora. Peggy continuou com suas perguntas e Hare pediu para que ela entrasse, não seria melhor os dois conversarem tomando um uísque? Burke chegou e rapidamente a moça se juntou a sua mãe nas aulas de anatomia do professor Knox.

“Uma jovem mulher, filha da Senhora Haldane, de nome Peggy Haldane, foi alcoolizada e dormiu, sendo assassinada por Burke de manhã. Hare não teve participação neste. Ela foi levada para o Dr. Knox à tarde em uma caixa, e recebeu 8 libras por ela. [Segundo autópsia do Dr. Knox] Ela estava tão bêbada na hora que ele pensava que Peggy não sentiu sua morte, não tentou resistir. Ela e sua mãe tinham hábitos negligentes, e bebiam muito. Este foi o único assassinato que Burke cometeu sozinho, mas Hare estava conectado.”

[West Port murders – The Library of the University of California]

O desaparecimento de Mary Haldane causou suspeita, já que ela era uma figura bastante conhecida do bairro. Muitos sentiram sua falta, mas Burke e Hare se safaram.

Daft Jamie


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O adolescente James Wilson, conhecido como “Daft Jamie”, era um rapaz bastante conhecido em West Port.   Ele costumava entreter crianças nas ruas com jogos de enigma e piadas e pessoas que pudessem lhe oferecer abrigo – embora frequentemente ele visitasse sua mãe viúva. Suas únicas posses eram uma caixa e uma colher de madeira que possuía sete furos, os quais Jamie usava como calendário para contar o dia da semana.

No início de outubro de 1828, Jamie caminhava pelas ruas, procurando por sua mãe, quando Hare se aproximou dizendo que sabia onde ela estava. O serial killer o convidou para ir até sua casa enquanto ela não aparecesse. Burke estava numa taberna próxima e viu os dois, observando Hare “levando o pobre Jamie como um cordeiro bobo até o matadouro e como uma ovelha aos tosquiadores.” [Outras fontes citam Helen pegando o garoto na rua e o levando até a pensão]

Margaret chamou Burke na taberna e ele, Hare e Margaret tentaram convencer Jamie a tomar umas doses de uísque. O rapaz bebeu apenas uma pequena quantidade e se recusou a tomar mais, mas estava com muito sono e cambaleou até uma cama. Burke e Hare tentaram seu método tradicional de assassinato, mas Jamie era forte e lutou com os dois, o suficiente para fazer Hare levar um grande tombo. Eventualmente a dupla dominou Jamie. Naquela noite, os dois homens receberam 10 libras pelo corpo.

Suspeitas cresceram rapidamente já que a mãe do garoto começou uma grande peregrinação pela região à procura de seu filho. Além disso, vários estudantes reconheceram Jamie, pelo seu rosto e através de uma conhecida deformidade em seu pé. O professor Knox negou que aquele corpo fosse Jamie, e começou a dissecá-lo rapidamente, começando pelo rosto e pé.

Vítimas de Burke & Hare: Mary Paterson, Daft Jamie e Margaret Docherty. Imagens: Notable British Trials Series, Wm Hodge & Co, 1921.

Vítimas de Burke & Hare: Mary Paterson, Daft Jamie e Margaret Docherty. Imagens: Notable British Trials Series, Wm Hodge & Co, 1921.

Dias das Bruxas de 1828: O Fim da Linha Para a Dupla Homicida


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Na manhã do Dia das Bruxas, Burke estava tomando seu uísque diário em sua taberna preferida quando uma senhora entrou e começou a falar com o dono do estabelecimento. Notando que ela tinha ascendência irlandesa, Burke ofereceu a ela uma dose e a mulher sentou com ele, dizendo se chamar Mary Docherty, de Innisowen. Burke disse que sua mãe tinha o sobrenome Docherty e que talvez os dois fossem parentes. Estabelecendo essa proximidade, ele facilmente persuadiu a mulher a ir até sua casa.

A visitante foi alegremente recebida por Helen e por um casal, James e Ann Gray, que estavam hospedados com Burke e Helen. O serial killer convenceu Docherty a pousar com eles, e arranjou para que os Grays passassem a noite na pensão de Hare. Mas antes, todos beberam em celebração ao Halloween, havia muito uísque e os Grays, depois de muita cachaça, foram embora, deixando o caminho livre para Burke.

A festividade continuou, mas em dado momento vizinhos escutaram uma discussão vinda do quarto de Helen e Burke. Por volta da meia noite, um transeunte ia passando pela rua quando escutou dois homens discutindo e uma voz de mulher gritando “Assassinato! Chame a polícia, tem um assassinato aqui!”. O homem correu pela rua mas não encontrou nenhum policial. Voltando ao local, a testemunha não viu mais nada, tudo estava em silêncio. Acreditando que tudo não passara de bebedeira, ele foi embora.

Na manhã seguinte, os Grays voltaram para o café da manhã e perceberam que Mary Docherty não estava mais lá. Eles perguntaram sobre ela e Helen disse a eles que haviam expulsado a velha senhora por ela “tomar liberdades” com Burke. Mais tarde, Ann Gray passou perto de uma cama para pegar algumas meias que ela havia deixado para trás, neste momento, Burke deu um grito e nervosamente ordenou que ela ficasse longe daquela cama. Pouco depois, Ann Gray teve que pegar algumas batatas e novamente passou perto da cama, e novamente foi repreendida por Burke. Quando momentaneamente os Grays ficaram sozinhos na pensão, eles decidiram ver o que aquela cama tinha que Burke não os queria próximos; eles levantaram o colchão e viram o corpo sem vida de uma mulher idosa. Após a descoberta o casal deu no pé, mas foram pegos na porta por Helen. Indignado, James Gray perguntou o que ela sabia sobre o corpo debaixo de uma das camas. Helen entrou em pânico e pediu-lhes para não dizer nada, oferecendo 10 libras por semana caso eles ficassem calados. A tentativa de suborno enfureceu ainda mais os Grays, “você trouxe a desgraça para sua família”, disse James. Então os Grays foram embora.

Helen contou o ocorrido a Margaret e ambas rapidamente correram até seus maridos. Elas foram rápidas o suficiente já que quando a polícia chegou, não havia ninguém na casa, mas um vizinho relatou que havia visto dois homens saindo pouco antes do local carregando uma grande cesta. Burke e Helen retornaram logo depois, pegando os policiais ainda na rua, e falsamente perguntando o que estava acontecendo. A polícia levou os dois para a delegacia e questionou-os separadamente sobre a velha senhora que havia estado na pensão na noite anterior. Burke, sentindo-se confiante que o seu álibi e o de Helen os salvaria, relatou que a Sra. Docherty deixou a pensão às 7h daquela manhã. Helen também disse que a mulher havia ido embora às sete horas, mas não da manhã, da noite. As 12h de discrepância fez a polícia suspeitar e a manter os dois para mais questionamentos. Fora da delegacia, uma pista levou detetives à sala de aula do Dr. Knox, onde o corpo de Docherty foi encontrado e positivamente identificado por James Gray.

Margaret e William Hare logo se juntaram a Burke e Helen na prisão, e a polícia lentamente começou a desmascarar a dupla de serial killers e a desvendar os vários desaparecimentos de pessoas de West Port durante os 11 meses anteriores.

Fim de Jogo


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Os dias que se seguiram ao Halloween incluíram uma autópsia em Mary Docherty,  questionamentos dos vizinhos de Burke e Hare, e múltiplas entrevistas com os quatro acusados, com cada um contando histórias diferentes. Seus contos variavam de declarações de nunca terem visto ou conhecido Docherty até a fala de Burke de que um estranho homem (o qual ele nomeou ser William Hare) aparecendo em sua casa – com um grande cesto nas costas – para pegar os sapatos consertados. Mas a própria esposa de Burke – sem saber – desmentiu o marido. Em sua confissão ela não citou Hare como um “estranho” ou apresentou os mesmos álibis.

Em 6 de novembro, um jornal de Edimburgo noticiou “rumores de indivíduos que desapareceram nos últimos tempos, incluindo um rapaz retardado chamado Daft Jamie…”. Esta reportagem chamou a atenção de Janet Brown, que foi até a polícia identificar peças de roupas que investigadores encontraram na casa de Burke.

As pessoas ficaram indignadas e clamaram por justiça contra os dois casais e também o Dr. Knox. O promotor, no entanto, tinha um dilema sobre como e quem processar. Como não havia nenhuma testemunha ocular dos assassinatos, todo o caso dependia de evidências circunstanciais que, incluindo o testemunho dos Gray’s e a identificação de Janet das roupas de Mary Paterson, eram fracas. Ele também suspeitava que Helen e Margaret eram cúmplices e que nenhuma delas testemunharia contra seus homens.

Após um mês de investigações, sob o pressuposto de que Burke havia sido o líder da dupla, um acordo foi feito: William Hare receberia imunidade se ele testemunhasse contra Burke e Helen. Hare concordou na hora. Assim, Burke e Helen foram acusados do assassinato de Mary Docherty (Burke também foi acusado dos assassinatos de Daft Jamie e Mary Paterson), e seu julgamento começou na véspera do Natal.

A acusação trouxe suas principais testemunhas, Hare e Margaret, que testemunharam que Burke e Helen eram os atores principais nos crimes. Outras testemunhas alegaram ter visto as vítimas na companhia de Burke ou Helen pouco antes de desaparecerem.

Em defesa, os advogados de Burke tentaram minimizar seu papel nos assassinatos – e o advogado de Helen sugeriu que ela, aterrorizada ao presenciar a morte de Docherty, gritou “Assassinato!” na noite de Halloween, ouvido por um transeunte.

Na manhã de Natal, o júri deliberou por apenas cinquenta minutos e veio com os veredictos: Burke era culpado e Helen inocente. Ao ouvir a notícia, Burke, emocionado, abraçou Helen, dizendo, “Você escapou por um triz!” O juiz David Boyle, finalizou:

“Seu corpo deve ser publicamente dissecado e anatomizado. E, confio, se é um costume preservar esqueletos, o seu será preservado para que a posteridade possa lembrar de seus atrozes crimes.

Enquanto aguardava pela execução, Burke cobrava seis centavos das pessoas que queriam desenhá-lo.

William Burke foi executado pouco mais de um mês depois, em 28 de Janeiro de 1829. No mês entre sua sentença e execução, ele deu duas detalhadas confissões. Em ambas ele citou 16 assassinatos que ele e/ou Hare cometeram (embora ele se confunda na ordem dos crimes). Vinte e cinco mil pessoas assistiram seu enforcamento, o grande evento daquele ano. “A ansiedade do público pela execução de Burke era tão grande que na madrugada de quarta-feira pessoas de vários distritos distantes já estavam na multidão”, relatou John Miller em “An Account of the Life of William Burke”. Enquanto ele subia o andaime, a multidão gritava para que Hare e o Dr. Knox se juntassem a ele na forca.

Em 1 de Fevereiro, seu corpo foi publicamente dissecado pelo professor de anatomia Alexander Monro no teatro da universidade local. Durante o procedimento que durou duas horas, Monro mergulhou sua caneta no sangue de Burke e escreveu:

“Isto foi escrito com o sangue de William Burke, que foi enforcado em Edimburgo em 28 de Jan. de 1829 pelo assassinato da Senhora Campbell ou Docherty. O sangue foi tirado de sua cabeça em 1 de Fev. de 1829.”

O esqueleto de Burke foi doado ao Museu de Anatomia da Escola de Medicina de Edimburgo, onde permanece até hoje. A máscara da morte feita de seu rosto e um livro feito com sua pele podem ser vistos no Museu de Anatomia da cidade.

O pequeno livro feito com a pele do serial killer William Burke. Está escrito: "LIVRO DE BOLSO DA PELE DE BURKE". Foto: Huffpost.

O pequeno livro feito com a pele do serial killer William Burke. Está escrito: “LIVRO DE BOLSO DA PELE DE BURKE”. Foto: Huffpost.

O assustador esqueleto do serial killer William Burke está em exibição no Museu de Anatomia de Edimburgo. À esquerda, o molde da cabeça do assassino feito na época e o Dr. Gordon Findlater, responsável pelo museu. Foto: PA.

O assustador esqueleto do serial killer William Burke está em exibição no Museu de Anatomia de Edimburgo. À esquerda, o molde da cabeça do assassino feito na época e o Dr. Gordon Findlater, responsável pelo museu. Foto: PA.

Em 2015, pela primeira vez em quase 200 anos, a nota escrita pelo Dr. Monro com o sangue da cabeça de William Hare foi mostrada em público. Foto: swns.com.

Em 2015, pela primeira vez em quase 200 anos, a nota escrita pelo Dr. Monro com o sangue da cabeça de William Hare foi mostrada em público. Na imagem também é possível ver como era o rosto do serial killer, pelo molde de sua cabeça. Foto: swns.com.

A nota escrita com o sangue de William Burke. Foto: Telegraph.

A nota escrita com o sangue de William Burke. Foto: Telegraph.

  • Helen

Ao ser libertada, Helen voltou para a casa que morou com Burke, onde uma multidão enfurecida a esperava. A polícia teve muito trabalho para salvá-la do linchamento. Ela deixou a Escócia, indo morar em Newcastle, Inglaterra, mas notícias dos assassinatos cruzaram as fronteiras e mais uma vez a polícia teve de agir para protegê-la dos justiceiros daquela cidade. Após Newcastle, não se sabe realmente o que foi feito dela, embora algumas conversas diziam que ela mudara para a Austrália, vindo a falecer por lá em 1868.

  • Margaret

Margaret Hare também desapareceu. Após sua libertação, ela escapou da multidão enfurecida em Glasgow e Greenock, e acredita-se ter voltado para a Irlanda.

  • Hare

William Hare foi libertado após a execução de seu comparsa, no começo de fevereiro de 1829. Ele foi mantido preso para sua própris segurança e, ao sair, não se encontrou com Margaret.  Ele seguiu até a cidade de Dumfries, onde foi reconhecido e levado pela polícia até a prisão para não ser linchado. Uma multidão tentou invadir o local e Hare conseguiu escapar pelos fundos. A polícia o orientou a cruzar a fronteira até a Inglaterra. A última vez que alguém o viu foi no sul da cidade inglesa de Carlisle, embora um conto popular, mais tarde disseminado, conta que ele foi cegado por uma multidão que o jogou em um poço para morrer. Ele teria sobrevivido e se tornado um mendigo nas ruas de Londres. De qualquer forma, após o avistamento em Carlisle, não houve mais notícias confiáveis sobre ele e seu destino é desconhecido.

  • Knox

O Dr. Knox, inocentado por Burke no julgamento, tentou continuar em Edimburgo, e nunca comentou sobre os crimes, mantendo silêncio sobre se ele tinha ou não suspeitas de que Burke e Hare supria suas aulas com corpos frescos adquiridos de assassinatos. Eventualmente, multidões raivosas gritavam de frente sua casa e nos corredores da sala de aula, mas ele continuou ensinando anatomia até o número de estudantes, que não queriam estudar com um homem associado com Burke e Hare, cair drasticamente. Aos poucos ele foi sendo excluído por seus colegas de faculdade. Por duas vezes Knox se candidatou à vagas ociosas na escola de medicina da Universidade de Edimburgo, mas foi rejeitado ambas as vezes. Em 1848, foi excluído da Sociedade Real de Edimburgo. Ele finalmente se mudou para Londres onde, em 1856, conseguiu um emprego no Hospital do Câncer, como anatomista, vindo a falecer em 1862.

Ainda hoje, as pessoas de Edimburgo acreditam que ele teve participação nas mortes.

O Legado


.

Burke e Hare permaneceram vivos nas culturas escocesa e inglesa, se tornando conhecidos mundialmente. Ironicamente, com o passar dos anos, a história da dupla se tornou uma espécie de lenda, com muitos acreditando que eles eram apenas profanadores de túmulos. Na verdade, nunca houve nenhuma prova que os ligasse a qualquer roubo de cadáveres em cemitérios. Em suas confissões, Burke relatou 16 assassinatos, negando o engajamento no crime de profanação.

Dramatizações dos assassinatos de West Port se tornaram comuns nas casas de shows britânicas do século 19 e início do século 20, assim como em espetáculos teatrais de rua. Em 1930, o escritor escocês James Bridie dramatizou o caso Burke e Hare em The Anatomist, que a BBC transformou em um filme para a TV em 1980. E por falar em filmes, obras como The Body Snatcher (1945), The Greed of William Hart (1948), The Flesh and the Fiends (1960) e The Doctor and the Devils (1985), retrataram a história da dupla de serial killers com variados graus de precisão.

Burke e Hare também inspiraram escritores de ficção, de Robert Louis Stevenson e seu The Body Snatcher (1884) ao aclamado The Dress Lodger, de Sheri Holman, publicado mais de 100 anos depois, em 1999.

Os crimes mudaram até mesmo a língua inglesa. Embora não comumente usado hoje, o verbo “to burke” significa assassinar alguém por maneira violenta ou por sufocamento.

E finalmente, os assassinatos de West Port se tornaram parte do folclore e cultura locais. Ameaças de que Burke e Hare virão visitá-los à noite são, até hoje, usados por alguns pais escoceses para disciplinar seus filhos (qualquer semelhança com o nosso homem do saco não é mera coincidência). Até mesmo uma rima, que ficou bastante conhecida no século 19, surgiu:

“Pela porta e escada abaixo,

Na casa com Burke e Hare.

Burke é o assassino, Hare o ladrão,

Knox, o garoto que compra o bife.

Serial Killers & Dinheiro


.

As motivações dos serial killers são bastante variadas e, nesse sentido, eles podem ser classificados. Ganho material ou um confortável estilo de vida são os principais motivos de assassinos que visam lucro/conforto, e este tipo de assassino é, talvez, o mais antigo, reconhecido e menos complicado tipo de serial killer. Ao contrário dos assassinos de luxúria hedonistas como Jeffrey Dahmer ou Andrei Chikatilo, que são motivados pelo sexo, estes predadores buscam principalmente ganhos financeiros e uma qualidade de vida melhor por meio do ato de matar.

Segundo Peter Vronsky em “The Method and Madness of Monsters” (2004), eles eram mais comuns em séculos passados, durante épocas de desordem e anarquia ao redor do mundo, quando as instituições de justiça eram fracas e o valor da vida era mais baixo do que hoje. Piratas, ladrões homicidas, viúvas negras e barbas azuis são exemplos de assassinos de ganho/lucro hedonistas ao longo dos séculos. Aparentemente, assassinatos em série por dinheiro não são tão “atraentes” quanto os outros motivos, talvez por isso pouco ouvimos falar a respeito. Um assassino em série canibal ou esquartejador é mais “interessante” para a mídia do que um que matou por dinheiro. Ainda assim, e segundo a psicóloga forense Joni E. Johnston, um quarto dos serial killers são motivados por dinheiro. Essa estatística aumenta consideravelmente se falarmos em serial killers mulheres: quase 50% delas matam por “bufunfa”.

Embora existam certas semelhanças entre este tipo de assassino em série e matadores de aluguel (ou assassino profissional), ambos são categorias distintas e separadas. Significativamente, serial killers que matam por dinheiro ou conforto não são profissionais, eles não são contratados para matar, ao contrário, selecionam seus próprios alvos; eles não recebem pagamentos de terceiros por cometer assassinato. Em vez disso, eles cometem um assassinato em resposta a uma necessidade emocional de conforto ou segurança. Em contraste, assassinos profissionais matam porque é a sua “profissão”. Da mesma forma que um açougueiro vende carne e um técnico em computação conserta computadores, matadores de aluguel matam pessoas. É um trabalho. Assassinos de aluguel servem a terceiros, serial killers que matam por dinheiro servem a si mesmos.

Lucro é considerado um motivo quando um serial killer sistematicamente mata por dinheiro ou durante o andamento de um crime (como fraude ou roubo – com objetivo do lucro). Embora haja casos de duplas de serial killers e até mesmo famílias serial killers, a maioria desse tipo de homicida em série trabalha sozinho. Ao contrário de outros serial killers, eles tendem a matar pessoas que conhecem: amigos, colegas de trabalho, famílias, até mesmo aquele conhecido de longa data que mora em sua hospedaria.

Exemplos infames incluem a viúva negra Blanche Taylor Moore (matava seus maridos por dinheiro), H.H. Holmes (pegava apólices de seguros de seus hóspedes assassinados); o húngaro Béla Kiss (que casava com mulheres apenas para matá-las e tomar suas posses); “empreendedores” da morte como Burke & Hare incluem a também húngara Zsuzsanna Fazekas, que criou um rentável negócio ao fornecer arsênico a assassinas em série de um vilarejo, e a francesa Catherine “La Voisin” Deshayes, matadora de bebês para seus rituais de ganhos, além de abastecer as damas da alta sociedade francesa com venenos.

Serial Killers que matam por dinheiro ao longo dos séculos:

Serial Killers que matam por dinheiro ao longo dos séculos: Catherine Deshayes (século 18), Zsuzsanna Fazekas e Béla Kiss (século 20).

Engana-se, porém, quem acha que esses assassinos motivados pelo lucro são menos psicopatas que seus colegas sexualmente pervertidos. Segundo Harold Schechter, em “Serial Killers – Anatomia do Mal”, “ao conceber e realizar suas atrocidades, eles agem de forma racional, ardilosa, muitas vezes demonstrando um alto nível de inteligência. Eles também não possuem consciência, remorso ou capacidade de demonstrar empatia. Para eles, os outros seres humanos são simplesmente objetos a ser manipulados, destruídos e descartados para seus próprios fins narcisistas.”

Ou seja, não é apenas por dinheiro. Em primeiro lugar, tais assassinos não ganham lá essas coisas com seus atos. Existe na história criminal um serial killer que ficou milionário matando pessoas? Não. Muitos deles poderiam ganhar muito mais se trabalhassem honestamente, mas ao contrário, escolhem o caminho do crime hediondo.

Em adição, muitas das maneiras que as vítimas são mortas sugerem que o lucro foi apenas UM dos motivos – mas não o ÚNICO. Violência, tortura e sadismo muitas vezes estão ligados a eles. H.H. Holmes, por exemplo, prendia suas vítimas inocentes em uma câmara de tortura e se deliciava ao vê-las morrendo aos poucos. Algumas viúvas negras e envenenadoras em série sentem um mórbido prazer ao administrar doses de venenos às suas vítimas ao mesmo tempo em que cuidam delas – um sinistro prazer de controle da morte.

Em síntese, assassinos em série matam por sexo, emoção, vingança, dinheiro… Por um lado, olhar para o motivo de um serial killer pode nos dar uma visão sobre que tipo de pessoa está a mercê desses assassinos, assim como a possível forma como ele ou ela irá fazer. Por outro lado, o motivo óbvio nem sempre é o único. Serial killers que matam para obter lucro podem começar seus crimes apenas com o dinheiro em mente, mas isso pode descambar, viciando-os em recompensas psicológicas que podem levá-los a caminhos muito mais obscuros e assustadores – e sem volta.

Informações:


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Burke & HareNomes: William Burke e William Hare

Nascimentos: Burke (Orrey, Condado de Tyrone , Irlanda, 1792) | Hare (Província de Ulster, Irlanda, 1792)

Vítimas: 16 confirmadas

Método: Sufocamento

Captura: 1 de Novembro de 1828

Período: Novembro de 1827 a Outubro de 1828

Local: Edimburgo, Escócia

Situação: William Burke foi julgado e condenado à morte por enforcamento, sendo executado em 28 de janeiro de 1829. William Hare fez um acordo com a promotoria, atuando na acusação de seu parceiro Burke. Libertado da cadeia em 5 de fevereiro de 1829, imigrou em direção à Inglaterra, não sendo mais visto. Conversas da época apontam que ele pode ter virado um mendigo na Oxford Street (Londres) ou viajado para a Irlanda ou América – e vivido por mais 40 anos – ou até mesmo cegado por colegas de trabalho que o reconheceram. 

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  • disqus_AqwVwvk1Vs

    Nesse post você fala que existem serial killers que matam por dinheiro mas no texto seu sobre matadores de aluguel você falou que eles não serial killers mesmo fazendo as mesmas coisas.

    • Eles não fazem a mesma coisa. Na Criminologia, para você caracterizar um assassino, não basta apenas olhar para o ato principal (que é o de matar) e para o motivo. No caso de serial killers e matadores de aluguel, eles compartilham características em comum, como matar pessoas e o assassinato ser em eventos separados, mas a simbologia do crime é completamente diferente, desde o padrão de vítimas ao modus operandi e assinatura – no caso do serial killer há uma individualização do crime, ao contrário do matador de aluguel. Coloquei uma estrofe no texto acima falando um pouco sobre as diferenças, mas um texto completo pode ser lido no exemplo que citou.

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