Crimes Históricos: Joe Hunt e O Clube dos Meninos Bilionários

“Essas são galáxias infinitas que te pertencem. Você pode percorrer o infinito através das intermináveis passagens do cosmos. Melhor ainda, isso pertence a você. Esta é a sua mente.”...
Joe Hunt e o Clube dos Meninos Bilionários

Crimes Históricos - Joe Hunt e o Clube dos Meninos Bilionários

“Essas são galáxias infinitas que te pertencem. Você pode percorrer o infinito através das intermináveis passagens do cosmos. Melhor ainda, isso pertence a você. Esta é a sua mente.”

[Joe Hunt, High School Yearbook. 1977]

Tudo por dinheiro


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Julho de 1984 – Cinco desesperados jovens se encontraram no Villa Motel perto de Belmont, Califórnia, para traçar um plano que eles chamaram de “Projeto Sam”. O que começou como um clube de investimentos se transformou em um pesadelo. Mais tarde, o advogado de defesa de um deles diria que os jovens eram apenas “imaturos“, mas outros os taxaram com um nome que me parece mais apropriado: monstros.

Eles eram Joe Hunt, Dean Karny, Ben Dosti, Jim Pittman e Reza Eslaminia. E o que era o Projeto Sam? De acordo com a confissão de um deles, Dean Karny, o cabeça do grupo, Joe Hunt, organizou o encontro para arquitetar o sequestro de Hedayat Eslaminia, um rico político iraniano exilado nos EUA. Karny, Dosti e Pittman deveriam sequestrar Eslaminia é obrigá-lo a passar seus bens para seu filho, Reza, que fazia parte do grupo. Não se sabe se Reza entendeu todo o plano – já que uma vez que a transação fosse concluída, o pai seria morto -, mas ele queria assumir o controle dos negócios de seu pai, que ele acreditava valer cerca de 30 milhões de dólares. Reza, então, investiria no clube que recentemente o aceitara como membro. Todos deveriam sair ganhando…exceto Hedayat.

O clube era o BBC Consolidated, Inc., criado no início dos anos 80 e popularmente conhecido como o Billionaires Boys Club (Clube dos Meninos Bilionários). De acordo com Randall Sullivan em The Price of Experience (O Preço da Experiência, 1996), o clube era metade uma empresa de investimentos e a outra metade um clube social privado. Mas o clube estava em ruínas e eles estariam acabados se não colocassem as mãos em uma enorme quantia em dinheiro. Então alguém sugeriu o Projeto Sam.

Foi Reza quem sugeriu o plano, como disseram mais tarde aqueles que estavam lá, persuadindo o líder do clube, Joe Hunt, de que o sequestro de seu pai poderia dar certo. Hedayat Eslamina foi ministro de governo no Irã e era amigo de Mohammad Pahlavi, Xá da Pérsia, deposto em 1979 pelo truculento Aiatolá Khomeni. Seu pai, então, tinha muitos inimigos no atual governo iraniano e Reza acreditava que eles poderiam facilmente desviar a culpa para algum grupo desconhecido.

Os olhos de Joe Hunt brilharam com a ideia, ele era o tipo de homem que faria qualquer coisa para ter sucesso e enriquecer. Então tomou a frente no projeto. Depois de encontrar uma “casa segura” para manter o pai de Reza, Joe planejou diversas torturas para fazer com que Hedayat assinasse alguns papéis passando sua fortuna para o filho. Ele ficou tão animado que se autodenominou “o mestre da tortura”, e ele estava ansioso por isso, pelo menos foi o que disse seu parceiro Dean Karny.

Em The Billionaire Boys Club (O Clube dos Meninos Bilionários, 1989) a autora Sue Horton descreve o atrapalhado sequestro ocorrido na noite de 30 de julho de 1984. O livro mais tarde inspirou um famoso filme estrelado por Judd Nelson.

Tire o máximo da situação


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Joe recrutou os membros do clube Dean Karny e Ben Dosti, assim como um ex-guarda de segurança, um homem negro e forte chamado Jim Pittman (também conhecido como Jim Graham). No Villa Motel, Joe e Ben se vestiram com os uniformes marrons da UPS (empresa de correios dos EUA) enquanto Dean envolveu em papel marrom um baú grande o suficiente para caber um homem adulto. Eles colocaram o baú dentro do trailer que Joe pegou emprestado de seu pai e dirigiram até a casa de Hedayat.

Joe preparou clorofórmio para desmaiar o pai de Reza, e uma vez que seus uniformes da UPS os levaram para dentro, eles o usaram em Hedayat. A vítima deu alguns gritos altos, mas em 10 minutos, eles estavam carregando o pesado baú com Hedayat gemendo dentro. Eles logo o colocaram dentro de um caminhão de mudança. Então, dirigiram em um comboio de três carros de San Francisco até à sua base de operações em Los Angeles.

Foi uma noite quente e os sons vindos do interior do baú indicavam que o cativo estava brigando por ar. Usando uma chave de fenda, Dean perfurou várias vezes o baú, mas quando Eslaminia gritou, ele cobriu os buracos novamente. Ele não queria que as pessoas nos outros carros ouvissem.

Em dado momento, eles colocaram o baú de volta no trailer e logo os gritos cessaram. Dean abriu o baú para dar uma olhada e foi atingido por uma explosão de ar quente e fedor de urina. Ele sentiu-se mal, então se virou. Quando Joe insistiu com ele para ver qual a condição do sequestrado, ele abriu o baú novamente. O homem estava babando e sua barriga estava se mexendo, então Dean fechou a tampa. Quando ele voltou a verificar com uma lanterna, Eslaminia parecia estar morto. Ele tomou seu pulso e não sentiu nada.

Ele está morto“, disse Dean a Joe.

Joe Hunt pareceu tranquilo com a notícia. Randall Sullivan revela que a única preocupação dele era não revelar o ocorrido a Reza. Com Eslaminia morto, Joe poderia pensar em algo para aproveitar ainda mais a situação. Ele sempre fazia isso. Essa era a filosofia de sua vida. O que ele não percebeu é que, naquela época, alguns dos membros de seu clube já haviam chegado ao limite com ele e o BBC. Este não foi o primeiro assassinato em que Joe os envolveu.

Mas como um clube de investimento chegou a esse ponto? E quem era Joe Hunt?

Um psicopata


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Joseph Henry Gamsky, mais conhecido como Joe Hunt, foi o segundo filho de Kathy e Larry Gamsky. Ele nasceu no Halloween de 1959 e, ao crescer, ficou claro para seus educadores que ele tinha o QI acima da média. Sullivan escreve que uma professora disse que ele não era apenas o estudante mais brilhante que já havia visto, mas era também maduro e “calmo acima do normal“. Mal sabia ela que estava descrevendo a essência de um psicopata.

Um dos maiores especialistas do mundo na psicopatia, o pesquisador e psicólogo canadense Robert Hare, concluiu através de suas pesquisas ao longo de mais de 30 anos que os psicopatas exibem traços bastante óbvios: decisões tomadas de forma impulsiva, a falta de remorso e empatia, a tendência em racionalizar o que fazem e culpar os outros, o comportamento encantador e manipulador. Joe Hunt cresceria com todas essas “qualidades”, juntamente com uma fluência verbal que beirava o erudito. Ele também era arrogante e narcisista, e ele nunca deixou de aproveitar as oportunidades que apareciam para explorar os outros. Mesmo sem um diagnóstico formal, seu comportamento se encaixa facilmente no protótipo.

Na verdade, todo mundo percebeu que o jovem Joe era bastante competitivo, com um impulso para a perfeição. Ele tinha uma necessidade extrema de aparecer como um homem de sucesso para os outros e ele sempre tinha que ganhar. Mas ele fazia isso da forma que se espera de um psicopata: trapaceando ou mentindo. Ou melhor, ele “racionalizava” uma situação embaraçosa para torná-la diferente para os outros do que realmente era. Esta estratégia tornou-se sua marca registrada e quando ele se propôs a melhorar seu vocabulário, ele acrescentou outra arma: uma grande quantidade de palavras que hipnotizavam as pessoas. Assim, ele se tornou um vendedor talentoso e intimidante. Um perigo.

Trilhando o seu caminho


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Bastante inteligentes, Joe e seu irmão mais velho entraram em uma prestigiada escola preparatória de Los Angeles, o Harvard Club, com uma bolsa de estudos. Mas havia um problema para Joe, 12 anos na época: a escola era frequentada pela nata da Califórnia, filhos de atores e cineastas de Hollywood, de empresários bilionários e etc. Ele se sentiu rebaixado, afinal, sua família não tinha o dinheiro ou status da dos colegas. Mas ele também era socialmente estranho. Ele se juntou ao clube forense (que faz parte da grade de ensino das escolas americanas, visando melhorar a comunicação oral dos alunos), o que lhe deu uma vida social modesta com os colegas, mas quando falsificou evidências durante um debate, foi expulso. Ele reagiu mal, mas se recuperou.

Joe Hunt brinca com um colega durante os dias na Harvard Club. Foto: 60 Minutes - The Billionaire Boys Club.

Joe Hunt brinca com um colega durante os dias na Harvard Club. Foto: 60 Minutes – The Billionaire Boys Club.

O pai de Joe, Larry, se via como professor dele. Ele queria que seus filhos se tornassem autossuficientes o mais rápido possível. Após Joe abandonar a Universidade do Sul da Califórnia, Larry enviou-o para uma escola de contadores, onde, aos 19 anos de idade, passou no exame de ordem e se tornou um contador. Provavelmente ele foi uma das pessoas mais novas a ser contratada profissionalmente por uma empresa da área, mas ele se gabou afirmando ser a pessoa mais nova em todo o estado da Califórnia a ter passado no exame. No filme baseado no livro de Horton, ele é apresentado como o mais novo de todo o país.

Cooptando pessoas que ele considerava chaves para o seu próprio sucesso, Joe conseguiu impressionar dois colegas dos tempos do Harvard Club, Dean Karny e Ben Dosti. Ele começou a conversar com eles e mencionou a possibilidade de iniciar um clube de investimentos com membros de famílias ricas. Na mente de Joe, pessoas ricas fazendo parte de seu clube era de extrema importância já que isso poderia dar uma boa impressão do clube e ajudar no sucesso do mesmo. Ele descreveu algumas de suas ideias para comercializar commodities de baixo risco. Os rapazes ficaram impressionados. Ele também revelou o desejo de criar uma corporação – com uma atmosfera utópica – baseada nas obras da filósofa russa Ayn Rand, onde cada pessoa faria o que estivesse melhor qualificada para fazer. Mas havia um problema: ele precisava de dinheiro para começar.

Os planos foram temporariamente interrompidos quando, em 1980, seus pais se divorciaram. Joe e Larry mudaram-se para Chicago e Hunt iniciou o seu caminho no mercado financeiro dentro da Chicago Mercantile Exchange. Ele provou-se ser um corretor ousado, impressionando aqueles ao seu redor e conseguindo quase tudo o que queria. Ele convenceu os pais de Dean Karny a investir dinheiro com ele, e eles lhe deram 150 mil dólares.

Ben Dosti no tribunal. Foto: Murder Casebook. Ed. 1992.

Ben Dosti no tribunal. Foto: Murder Casebook. Ed. 1992.

Foi exatamente nessa época que o seu pai mudou de nome, passando a se chamar Ryan Hunt. Joe o seguiu aceitando o novo sobrenome. Mas havia uma diferença: Larry mudou seu nome legalmente, seu filho não.

Em pouco tempo, o jovem eloquente e carismático arregimentou incríveis 14 milhões de dólares, mas perdeu tudo. A desculpa que arranjou para prestar conta com seus investidores foi simples: ele perdeu o dinheiro deles porque os players do mercado financeiro estavam com ciúmes dele devido ao seu sucesso. No filme, ele dispara para todos os lados, culpando da máfia ao Oriente Médio, mas no livro de Horton, os invejosos seriam corretores de uma grande empresa que operava no mercado financeiro. Do ápice à derrocada, sua estadia em Chicago durou dois anos. Então ele voltou para Los Angeles com apenas quatro dólares no bolso, mas assegurou a todos que perderam dinheiro com ele de que, agora, ele tinha um plano infalível para recuperar toda a grana e, claro, ganhar mais. Muitos acreditaram nele.

O que os investidores não sabiam era que devido às suas falcatruas Joe havia sido investigado e suspendido por 10 anos do mercado financeiro. Mas isso não interrompeu Joe Hunt. Ele conhecia as entranhas do sistema e logo cooptou Ben e Dean para ajudá-lo a reunir pessoas para um clube, que ele tinha vontade de chamar de BBC, em homenagem ao Bombay Bicycle Club em Chicago, onde costumava jogar videogames.

Não foi difícil para três jovens, bem vestidos e com o dom da lábia, interessar outros como eles em suas ideias. Afinal, sabemos que a imagem é tudo, e eles eram muito bonitos. Ben e Dean acreditavam em Joe, e Joe os enrolava em sua teia através das palavras. Logo, o clube estava operando, alimentado por investidores ingênuos e manipuláveis. Muitos viam Joe como um jovem acima da média e brilhante, com um futuro certo, o do sucesso, então eles tinham que colar nele. O garoto de apenas 24 anos representava a geração do futuro.

A filosofia do paradoxo


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Joe gostava de persuadir as pessoas dizendo que a vida era melhor vivida e os negócios melhor efetuados se eles seguissem o que Hunt chamou de “filosofia do paradoxo”. Era uma combinação de situação e ética utilitarista: os fins justificavam os meios e eles deveriam fazer o que fosse necessário para se beneficiar. De diferentes perspectivas, o mesmo item ou situação poderia ter qualidades contraditórias: o branco é preto e o preto é branco. Tudo depende de como você olha para isso. Enquanto uma situação lhe trouxesse recompensa, poder-se-ia fazer qualquer coisa. Qualquer coisa.

O grupo central de “meninos”, como chamavam a si mesmos, preparou uma apresentação em 1983 para 30 futuros membros com intuito de mostrar como o clube seria formado. Os princípios centrais do clube, Joe Hunt tirou da ficção científica: as pessoas operariam em “células” compostas por um pequeno número de membros e existiria um “nexo” para a comunicação. Eles proporiam “formas”, ou projetos financeiros, para aprovação por todo o clube, e a forma teria uma “saída”.

O clube deveria ser administrado por níveis específicos de pessoas e os três fundadores – Joe, Ben e Dean – deveriam ser chamados de “Sombras”. Um Sombra – alguém que operava em um reino sombreado entre o preto e branco – era elegível para a liderança porque ele era o que mais compreendia a filosofia do paradoxo além de estar comprometido em protegê-la fazendo o que fosse necessário. Os Sombras seriam juízes no Tribunal do Paradoxo e resolveriam todas as disputas internas.

Quando Joe juntou sua empresa e trouxe mais membros – sempre jovens de famílias ricas ou de nome -, ele lhes deu um teste, que foi posteriormente descrito no tribunal como o seguinte:

“Você mataria alguém, se soubesse que poderia se safar disso, por um milhão de dólares?”

“Não.”

“Você faria isso se fosse uma questão de salvar sua vida?”

“Não.”

“Você mataria alguém se você tivesse que fazer isso para salvar sua mãe?”

“Bem…sim.”

“Então você não pode afirmar que exista uma linha na qual você não cruzaria”.

Se não houvessem morais absolutas, Joe afirmou, era apenas uma questão de acreditar suficientemente na situação para tomar as medidas necessárias.

Hunt sempre usava abordagens psicológicas, independentemente do que estivesse fazendo. Elas eram importantes quando ele estava em uma conversa com um enófilo ou enganando um investidor sobre onde seus fundos estavam aplicados ou manipulando seus parceiros para fazer o que ele quisesse…

O clube estava em pleno funcionamento mas os parceiros de Joe não tinham salários. Na casa dos 20 anos, a maioria recebia mesadas de seus pais e Joe comprava coisas para eles, pagava jantares e, às vezes, lhes oferecia dinheiro que vinham de seus próprios bolsos. Com seu charme, carisma e presentes, Hunt mantinha controle total sobre eles. Ele era tipo um pai-amigo.

Ele nos hipnotizou“, admitiu mais tarde um dos membros do clube. Hunt era carismático e tinha uma convincente habilidade para contar histórias sobre o seu (falso) sucesso, bem como para delinear os passos seguintes para que esse sucesso continuasse. Os outros se envolveram em seus esquemas e se tornaram emocionalmente dependentes. Hunt incutiu em seus parceiros o desejo pelo materialismo: eles deveriam comprar carros caros, andar com garotas deslumbrantes e viver uma vida de luxo. Perdidos nesse mundo fantasioso, eles concordavam com tudo o que Joe pedisse. Tudo.

Estelionatário Vs. Estelionatário


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Seu sonho final era abrigar todos os seus meninos em um enorme condomínio – a sede suprema daquilo que ele pensava no futuro em ser um dos maiores negócios do mundo (algo parecido com o que fez o psicopata Bernard Madoff nos anos 2000), mas Hunt sabia que para chegar lá ele precisava de muito, mas muito dinheiro. Ele procurou por investimentos e decidiu colocar o BBC no ramo da energia. Ele persuadiu Gene Browning, um biologista, a vender os direitos de uma máquina de atrito que ele chamou de Cyclotron. Eles lhe dariam um salário, uma casa e um carro em troca dos direitos de desenvolver e comercializar a máquina. Browning concordou.

Agora eles precisavam de ainda mais dinheiro, então eles procuraram por pessoas interessadas em investir no desenvolvimento de mais protótipos desta máquina. Hunt ainda fez uma parceria com uma empresa chamada Microgenesis.

Para impressionar potenciais investidores da máquina e novas pessoas para o clube, Hunt alugou um escritório caríssimo e disse a todos que estava fazendo muito, mas muito dinheiro. Ele modelou o BBC de uma forma que a empresa parecia próspera e ocupada. Na realidade, os meninos não tinham muito o que fazer. Nem mesmo Joe estava totalmente empenhado no que ele dizia que fazia. Ao contrário, ele usava tudo o que recebia para pagar o aluguel, dar festas luxuosas e expandir sua frota de carros. Como revelou uma secretária depois, “eles estavam brincando de trabalhar“.

Perdido dentro de seu próprio mundo, Hunt precisava de cada vez mais dinheiro para sustentar aos outros o suposto homem de sucesso que ele era. Uma vida baseada em status social custa montanhas de dinheiro e ele se tornou um verdadeiro animal em busca dele, um predador que não perdia oportunidades e raramente errava o bote.

Estelionatário de carreira, Ron Levin tinha no currículo golpes contra empresas do nível da Panasonic e Thomson. Foto: Reelz Channel.

Estelionatário de carreira, Ron Levin tinha no currículo golpes contra empresas do nível da Panasonic e Thomson. Foto: Reelz Channel.

Um desses botes errados atende pelo nome de Ron Levin. Ron era conhecido como um homem de negócios, muitos negócios. Mas como Hunt, Levin era um camaleão social, um homem bonito e de meia-idade, bem vestido, cuja imagem causava boa impressão. Isso era o que as pessoas viam por fora. O que ele escondia era o fato de ser um ex-presidiário que agora vivia de passar a perna nos outros, um estelionatário. Nas ruas Hunt encontrou um homem como ele e acreditou que teriam um encontro de mentes brilhantes e ele, Joe, obviamente, sairia como vencedor. Mas não, o jovem de vinte e poucos anos não foi páreo para o criminoso que tinha o dobro de sua idade na experiência da enganação. Hunt quis conhecer o homem que diziam ter muito dinheiro para investimentos. Levin concordou em conhecê-lo e ouvi-lo, mas disponibilizar dinheiro para aquele garoto estava fora de cogitação. Joe continuou enganando-o, e até lhe disse que havia pego uma grande quantia em dinheiro de um investidor. Ele até mostrou o cheque. Macaco velho, Levin viu o papel e apenas riu por dentro da ingenuidade do outro investidor.

No entanto, Ron concordou em deixar que Joe se provasse. Ele criou uma linha de crédito de cinco milhões de dólares com uma determinada empresa de investimentos e disse a Hunt: “Se você é bom mesmo, pegue esses milhões e multiplique-o”. O acordo era Joe pegar o dinheiro e investi-lo de forma que a grana rendesse. Se ele conseguisse isso, Hunt teria uma bela porcentagem do rendimento. Nas primeiras semanas, Joe perdeu quatro milhões, mas ele não se deu por vencido. Com algumas dicas de outro corretor de commodities, em sete semanas Hunt transformou os cinco milhões de Levin em 14 milhões.

Joe passou no teste e prometeu aos seus amigos do BBC que metade do lucro ia para o clube, com isso eles esperavam um cheque de mais de quatro milhões de dólares.

Os garotos começaram a celebração arrendando condomínios em um bairro rústico com vista para o Wilshire Boulevard em Beverly Hills. Joe não parava de falar sobre como ele vislumbrava todos vivendo e trabalhando juntos naquele lugar, como uma grande família de jovens milionários. Ele estava eufórico naquela noite. Entre risadas e taças de Champanhe, Hunt era só alegria ao falar sobre quais carros de luxo ele iria comprar para ele e os outros.

Mas no meio de toda essa folia, um dos membros, Dave May, começou a ter dúvidas. Diferentemente dos outros garotos do clube, May era mais centrado e cético, e não parecia tão animado quanto todos. Na verdade, ele não via Joe da mesma forma que os outros. Já seu irmão gêmeo, Tom May, estava completamente enfeitiçado por Hunt e não via a hora de andar num conversível por Beverly Hills com várias mulheres dentro.

Não demorou muito para que Joe começasse a se perguntar o por que do cheque não chegar. Levin não atendia suas chamadas, então ele foi atrás e descobriu que toda a operação esteve apenas no papel. Nunca houve dinheiro. Foi tudo um jogo.

Nos dias seguintes, Hunt descobriu coisas muito piores: Levin o usara para enganar outras pessoas. Ele usou os extratos da conta que disponibilizou a Joe para mostrar a uma empresa de investimentos e obter um empréstimo bastante alto. Um estelionatário enganou outro estelionatário.

Eventualmente, Hunt chegou até Levin e o questionou duramente sobre o ocorrido. Levin respondeu para Joe ter calma. Ele havia usado o dinheiro para comprar um shopping center em Chicago e daria ao BBC uma participação no negócio. Hunt e seus amigos novamente pensaram que estavam bem na fita, mas logo descobriram que não havia nenhum shopping center.

Joe Hunt ficou furioso. Além do ego ferido, agora ele estava com sérios problemas financeiros. Ele teve que encarar seus rapazes e dizer-lhes a verdade. Mas não foi apenas isso. De acordo com declarações que alguns deram mais tarde, Hunt finalizou a conversa afirmando que um dia mataria Ron Levin.

"Para se fazer com Levin". As notas que arruinaram Joe Hunt. Foto: 60 Minutes.

“Para se fazer com Levin”. As notas que arruinaram Joe Hunt. Foto: 60 Minutes.

Receita de Assassinato


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Dean apresentou Joe a um guarda de segurança de nome Jim Graham, embora na realidade seu nome fosse James Pittman Jr. Ele era um negro musculoso que afirmava ter sido um ex-jogador profissional de futebol americano e de ter ganho o campeonato de fisiculturismo na cidade de Delaware em 1977. Ele era de Delaware e cruzou o país até Los Angeles para escapar das acusações de um crime. Eventualmente ele começou a trabalhar no condomínio onde os meninos do BBC andavam. Por ele saber coisas sobre armas e explosivos, foi permitido a ele fazer parte do círculo interno do clube, se tornando chefe de segurança do BBC.

Por volta dessa época, 1984, um dos rapazes descobriu que o grupo estava gastando cerca de 70 mil por mês, mas ele não via essa mesma quantia voltando como receita. Ele percebeu que Joe estava gastando dinheiro confiado a ele pelos investidores em coisas supérfluas. Claramente, as coisas estavam se deteriorando.

Sem esquecer de Ron Levin, Hunt decidiu que o estelionatário devia pagar a ele de uma vez por todas pelo menos parte dos milhões que Hunt achava que Ron devia a ele. Sua decisão foi extrema: ele forçaria Levin a assinar alguns ativos financeiros e depois o mataria. O plano era deixar um contrato da Microgenesis na casa de Levin de forma que seria fácil arranjar um encontro com ele. Hunt falaria sobre um cheque assinado e criou toda uma engenharia de papéis e documentos sobre um excelente acordo financeiro. Esses, também, seriam plantados na casa de Levin. Sendo a pessoa organizada que era, Joe fez uma “receita” de sete páginas, eram coisas que precisavam ser feitas para se chegar ao objetivo final. Sete dos “ingredientes” incluíam:

Jim cava buraco.

Joe chega às 9:00. Deixa Jim entrar.

Execução de acordos.

Fechar persianas.

Tampar a boca.

Algemar.

Matar cão.

O plano ainda consistia na compra de um jantar para Ron como um gesto amigável, de forma que eles pudessem ganhar sua confiança e ter uma reunião. Então, Jim chegaria com uma arma e exigiria um suposto dinheiro que Hunt lhe devia. Hunt diria a Levin que Jim era um matador da máfia e que mataria os dois se Levin não assinasse um cheque bastante gordo. Uma vez que eles conseguissem o cheque, eles fariam as malas de Levin, já que estava programado para ele ir a Nova Iorque no dia seguinte, e o “enviariam” para fora da cidade. Então Jim pegaria um voo para Nova Iorque e usaria os cartões de crédito de Levin nos hotéis para que parecesse que ele realmente tivesse ido para lá.

Na quarta-feira, 6 de junho de 1984, Joe e Jim seguiram esse plano. Fizeram Levin assinar um cheque de uma conta bancária suíça no valor de um milhão e quinhentos mil dólares. Então eles o algemaram e o levaram para o quarto, onde o fizeram deitar de cara para o edredom branco de sua cama. Um dos dois homens atirou em Levin – Pittman confessou ter dado o tiro em uma entrevista em 1993 – e então eles o envolveram no edredom e o levaram para fora enfiando-o no porta-malas de um BMW.

Foi ideia de Hunt levá-lo para Soledad Canyon, uma região meio desértica a cerca de uma hora de Los Angeles. Ele frequentemente gostava de ir lá caçar e percebeu que seria um ótimo local de despejo: qualquer coisa – ou qualquer um – deixado lá nunca seria encontrado.

Dean Karny mais tarde declarou que Joe descreveu o que eles fizeram no cânion com um toque adicional: eles atiraram no cadáver de Levin várias vezes para torná-lo irreconhecível. Durante esta terrível sessão, o cérebro de Levin pulou do crânio e pousou em seu peito – uma conversa que Karny nunca esqueceria. Mas o que mais impressionou Karny foi a maneira como Joe contou isto, como se ele tivesse achado algo engraçado de se assistir.

Após descartar o cadáver de Ron Levin, Jim foi para Nova Iorque enquanto Joe tentou sacar o cheque. Ele deixou o contrato e os documentos na casa de Levin, então se lembrou disso e ligou para o pai do falecido perguntando se podia ir até o apartamento para pegar uns documentos de negócios que ele havia esquecido lá. O pai de Levin negou o pedido, mas aparentemente Joe se sentiu seguro, afinal, eram apenas papéis de negócios, mas o que ele esqueceu – com toda a pressa de se livrar do corpo – foi da “receita”. O papel com os “ingredientes” para um assassinato foi esquecido em meio a papelada.

Castelo de Areia


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Jim Graham teve problemas quando os cartões de crédito de Levin se revelaram sem limite. Ele tentou fugir do hotel de luxo em que estava hospedado no Central Park, mas foi pego e preso. Hunt cruzou o país para resgatá-lo. Enquanto lidava com a burocracia da polícia, ele teve notícias ainda piores: o cheque de Levin foi recusado.

Era hora de uma reunião de emergência no BBC. Referindo-se ao caso Levin como “Mac”, ele confessou tudo o que havia feito a Dean Karny, que ficou atordoado com o que aconteceu, mas ele não fez nada para encorajar Joe a se entregar.

Os dois, então, escolheram os membros que sentiram ser mais confiáveis e divulgaram a mais oito pessoas os fatos sobre o assassinato de Levin. Joe Hunt disse que era “o crime perfeito“.

Pelo menos, era perfeito dentro de seus delírios narcisistas. Preso em seu mundo fantasioso e patológico, mal Joe sabia o que estava se formando ao seu redor entre aqueles que o achavam perigoso.

Os rapazes a quem Joe confessou tudo pareceram suportá-lo, mas secretamente alguns decidiram que o que havia acontecido extrapolava qualquer limite aceitável. Dave May, que não estava na reunião, ficou sabendo o que aconteceu e pediu ajuda do pai, admitindo a ele o quão errado ele estava ao se juntar e confiar em Joe Hunt. Seu pai trouxe um advogado.

O advogado escutou a história e listou algumas coisas: não havia testemunhas, não havia corpo, não havia prova, não havia nenhum relatório de pessoa desaparecida com o nome de Ron Levin e, acima de tudo, Hunt tinha a reputação de mentiroso. Se a coisa toda fosse realmente verdade, eles teriam que obter provas, possivelmente na forma de documentos. Os meninos deveriam voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido, de modo a evitar suspeita por parte de Joe, e tentar arranjar alguma coisa.

Para levantar a moral de todos, Joe deu outra festa de arromba com todo o luxo possível e usou 20 mil dólares para comprar 10 motocicletas idênticas. Os rapazes ficaram impressionados. Olhando para aquelas motos era fácil esquecer que tinham alguns problemas bastante sérios.

Mas a festa durou pouco. O pai de Ron Levin foi até à polícia e deu queixa do desaparecimento de seu filho. Investigando a ficha policial de Levin, a polícia descobriu páginas e páginas de crimes de fraude, roubo e outros golpes. Como não era surpresa um estelionatário desaparecer, eles não deram importância. Por pouco tempo.

Então o BBC encontrou outro alvo.

Próximo Esquema


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Hedayat Eslaminia. Foto: Murder Casebook, Ed. 1992.

Hedayat Eslaminia. Foto: Murder Casebook, Ed. 1992.

Menos de duas semanas após o assassinato de Levin, Reza Eslaminia conheceu os rapazes. Eles o convidaram para uma festa, o que o impressionou e o fez querer se tornar parte do BBC. Ele falou da riqueza do pai pelo comércio do ópio, despertando o interesse de Hunt. Do primeiro encontro até o “Projeto Sam” – esquema de sequestros – foi um pulo. Como Hedayat estava prestes a sair para uma viagem pela Europa, os rapazes tiveram que se apressar. Como fizeram com Ron Levin, eles poderiam usar o fato de que a vítima tinha uma viagem programada para lançar suspeitas do seu desaparecimento à outra pessoa ou grupo de pessoas.

No entanto, em 30 de julho, quando Hunt e companhia pegaram o iraniano, eles estragaram tudo e ele morreu. Joe, Dean e Ben levaram o baú para a casa que haviam alugado, jantaram ao lado dele e falaram sobre o que fazer a seguir. Eles tiraram o corpo do baú, o enrolaram em uma lona e depois descartaram o corpo em Soledad Canyon. Posteriormente, Dean Karny lembrou da imagem que ficou em sua mente do corpo despencando pela colina. Ele sentiu-se mal de ter participado de tudo aquilo.

Joe, com sua filosofia do paradoxo, acreditava que a morte não programada de Hedayat poderia funcionar a seu favor. Eles poderiam forjar a assinatura de Hedayat e ter acesso a algumas de suas contas. Eles fizeram isso e descobriram que Eslaminia exagerou nos “atributos” financeiros de seu pai. A maioria das suas contas bancárias tinham baixos valores ou estavam zeradas. Mas eles não se deram por vencidos.

Sob ordens de Hunt, Ben e Reza Eslaminia se prepararam para ir até a Suíça com um documento forjado que concedia os ativos financeiros de seu pai à Reza. E enquanto trabalhava em seus planos criminosos, Joe não percebeu que as coisas estavam esquentando para o seu lado. A esse ponto, com uma queixa formal de desaparecimento e o depoimento de alguns dos garotos, investigadores de polícia de Los Angeles começaram a trabalhar juntos com alguns deles. Tom uniu forças com seu irmão Dave e alguns outros do BBC e conseguiu alguns documentos incriminatórios.

Tom May, Evan Dicker e Dean Karny

Os membros do BBC Tom May, Evan Dicker e Dean Karny. Foto: 60 Minutes – Billionaire Boys Club.

Mesmo com os documentos, o investigadores que estavam trabalhando com os rapazes sentiram que não tinham o suficiente para uma eventual acusação. O detetive Les Zoeller decidiu, então, vasculhar a casa de Levin para ver se encontrava algum documento que Joe supostamente deixara lá, conforme confessou um dos garotos. O pai de Levin o deixou entrar. Olhando aqui e dali, eles encontraram o contrato da Microgenesis, mas ainda mais interessante foi algo que o pai de Levin havia encontrado anteriormente e guardado em uma gaveta. Eram sete páginas de um bloco amarelo com instruções estranhas – algum tipo de lista. O pai de Levin guardou o bloco e lembrou de mostrar ao detetive, ele não sabia qual o sentido daquilo.

Mas Zoeller sabia. Era claramente a lista de um assassino. Estava lá o nome do principal suspeito, do desaparecido e instruções detalhadas de como um grupo de pessoas se aproximaria de uma terceira com objetivo de matá-la. Agora eles tinham uma evidência importante. Se eles conseguissem ligar a caligrafia a Hunt ou a um de seus amigos, então teriam uma prova-chave.

Zoeller deixou uma mensagem na secretária eletrônica de Tom May dizendo para ele ligar de volta. E como em um roteiro cinematográfico, um desconfiado Joe Hunt apareceu no apartamento de May para procurar alguns documentos que haviam desaparecido do BBC. Ele invadiu o local e escutou a secretária eletrônica, então percebeu que nas trincheiras da selva de Los Angeles escondiam-se traidores. Isso significou apenas uma coisa para ele: guerra.

Joe telefonou e mandou mensagens através de conhecidos, pedindo um encontro com Dave e Tom no armazém onde a máquina do Cyclotron foi construída. Segundo Hunt, ele queria conversar. Cabreiros com ele agora, os irmãos recusaram. Joe os expulsou do BBC e confiscou o documento do carro de Tom, mas ele podia os aceitar de volta caso se encontrassem e resolvessem algumas pendências. A estratégia não deu certo e mais uma vez os irmãos recusaram. Na cabeça deles era preferível perder um carro do que a vida.

De volta aos rapazes em que ele ainda confiava, Joe fez planos de cometer mais crimes – incluindo o assassinato de uma garota – e usá-los para enquadrar os desertores, de forma que os mesmos seriam desacreditados e presos. Em seguida, ele detalhou um plano de usar um caminhão para atropelar os gêmeos May na estrada. Seus inimigos tinham que ser eliminados.

Escutando tais planos macabros, os demais rapazes do BBC começaram a se perguntar sobre Joe. Ele estava ficando louco.

O Início do Fim


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Com o castelo de areia desmoronando, finalmente chegou a hora de Joe enfrentar os investidores. A maioria já estava desconfiada e queriam tirar o dinheiro das contas. Ele convocou uma reunião geral e contou a mais de 70 pessoas boquiabertas que ele não tinha dinheiro algum. Ele ainda teve a coragem de dizer que, em muitos aspectos, eles eram os culpados pelo fiasco financeiro. Ele não tinha nenhuma obrigação legal de pagar qualquer um, mas se eles assinassem um acordo para não processá-lo, ele assinaria papéis para cada um deles contendo um cronograma de reembolso. Era na verdade outro esquema. A maioria dos investidores ficaram tão desesperados com a perda do dinheiro que eles aceitaram fazer qualquer coisa que Hunt pedisse. A esperança é a última que morre e eles ainda acreditavam que podiam recuperar pelo menos uma parte do investimento.

No entanto, mesmo se Hunt quisesse, ele nunca teria tempo hábil para pagar, pois em 28 de setembro ele foi preso. Enquanto Zoeller o questionava, Joe permaneceu completamente calmo e controlado. Ele tirou impressões digitais, e enquanto estava sentado lá, suas impressões foram comparadas com as tiradas do bloco da “receita”. A polícia conseguiu uma que batia perfeitamente.

Mas Zoeller não falou nada. Joe continuou insistindo que ele e Levin um dia foram muito bons amigos, e que ele até vendera um relógio bastante caro a Levin. Hunt o mostrou a Zoeller. Joe tinha um sorriso cínico em seu rosto e realmente estava convencido de que a polícia não tinha nada contra ele. Mas sua soberba desmoronou quando Zoeller lhe mostrou o bloco de sete páginas que ele mesmo havia escrito, contendo todas as malignas instruções já conhecidas. Ele ficou sem palavras e quando voltou a si pediu o direito de chamar um advogado. Alguns segundos após o choque ele se recompôs interiormente e resmungou que ele não sabia nada sobre aquelas páginas. Mas Zoeller percebeu o quanto ele ficou desconfortável.

“Eu peguei a cópia dessas sete páginas de tarefas a se fazer. Eu coloquei na frente dele e disse: ‘O que você tem a me dizer sobre isso?’ E Joe Hunt, que havia sido muito arrogante durante o interrogatório, ficou em silêncio.”

[Les Zoeller]

A digital não era o bastante para deixar Hunt encarcerado, então eles o deixaram ir, o que reafirmou nele a sensação de que a polícia não poderia culpa-lo de absolutamente nada. A primeira coisa que ele fez após sair do interrogatório foi reunir seu grupo principal. Ele ordenou a Dean que preparasse um álibi para ele durante a noite da morte de Levin e ensaiou com sua namorada o que eles falariam em caso de um novo interrogatório. Dean concordou, mas estava cada vez mais nervoso. Ele estava morrendo de medo de ser preso.

Enquanto isso, na Suíça, uma ordem judicial vinda dos Estados Unidos impediu Reza de reivindicar qualquer um dos fundos financeiros do pai. Ele e Ben voltaram para a América, mas a mãe de Ben advertiu que eles não aparecessem em casa já que a polícia estava procurando por eles. Eles adquiriram certidões de nascimento de crianças mortas e assumiram suas identidades, ficando longe da vista de todos.

Karny finalmente confessou tudo a seus pais. Eles contrataram um advogado que conseguiu fazer um acordo: imunidade de qualquer acusação por uma confissão completa implicando todos os outros envolvidos nos dois assassinatos. Karny também mostraria onde estava o corpo de Eslaminia. Embora tudo o que pudessem encontrar fossem ossos, era o suficiente para identificar os restos como sendo os do iraniano desaparecido.

Joe Hunt foi preso novamente, mas saiu sob fiança. Ele morava com os pais de sua namorada e eles o ajudaram com muitas de suas despesas. Como muitos, os pais da moça estavam enfeitiçados pelo garoto prodígio e o achavam um grande partido para a filha. Mas houve também um interesse. Hunt namorava Lynn Roberts, filha do produtor de Hollywood Bobby Roberts – que trabalhou em Desejo de Matar com Charles Bronson. Ao tomar conhecimento da história escabrosa, Roberts não só abrigou Hunt como colocou sua casa em garantia para assegurar ao juiz que Joe não fugiria. Muitos viram isso como uma espécie de aproximação do produtor que viu naquela história um roteiro de filme – história que realmente foi para as telonas anos depois. Enquanto Hunt estava em liberdade, o promotor de Los Angeles Fred Wapner – filho do famoso Juiz e apresentador de TV Joseph Wapner – apresentou duas denúncias de assassinato. Joe alegou ser indigente e o tribunal designou o advogado Arthur Barens para representá-lo [outras fontes relatam que foi Bobby Roberts quem contratou o advogado]. Seria dois julgamentos separados, então, com a ajuda do assistente Richard Chier, Barens preparou o primeiro caso, o assassinato de Ron Levin. Basicamente, Barens defenderia Hunt no tribunal havendo não haver corpo ou testemunhas. Havia até mesmo uma mulher que alegou ter visto Ron Levin vivo. Como ele era um estelionatário conhecido, provavelmente estava escondido em algum lugar após lesar pessoas e empresas. Para Barens, isso era mais do que suficiente para uma dúvida razoável e ele tinha convicção de que a presunção de inocência poderia livrar seu cliente.

Do outro lado, o promotor Wapner sabia que teria um caso difícil. Seria complicado, mas ele tinha armas pesadas: as sete páginas que eram uma lista óbvia de um assassino; uma testemunha que havia sido o número dois no BBC e a quem Joe confessou o assassinato; e a conhecida falta de caráter de Hunt, conhecido por inúmeros golpes – as dezenas de investidores que confiaram dinheiro a ele através do BBC que o digam. Outro trunfo de Wapner era o fato de Joe nunca ter tentado procurar Levin e fazê-lo aparecer para provar que estava vivo. Ele não fez nenhum esforço. Se a vida de um homem dependesse da presença de outro homem, o primeiro homem não tentaria de todas as formas encontrar o segundo? Hunt não tinha feito nada.

Julgamento


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Joe Hunt, o jovem e carismático líder de um grupo de investimentos conhecido como BBC, escuta as declarações de abertura em seu julgamento de homicídio, em 2 de fevereiro de 1987, em Santa Monica, Califórnia. Hunt foi acusado de assassinar Ron Levin, 42 anos. Foto: AP/Douglas C. Pizac

Joe Hunt, o jovem e carismático líder de um grupo de investimentos conhecido como BBC, escuta as declarações de abertura durante mais um dia de seu julgamento de homicídio, 2 de fevereiro de 1987, em Santa Monica, Califórnia. Hunt foi acusado de assassinar Ron Levin, 42 anos. Foto: AP/Douglas C. Pizac

Dos assassinatos de Levin e Eslaminia até a seleção do júri e início do julgamento – em 13 de novembro de 1986 – levou-se cerca de dois anos e meio, graças às articulações do advogado de Joe para obter mais tempo e atrasar o julgamento.

Nesse meio tempo, em outubro de 1986, houve um incidente bizarro envolvendo Karny. Um jovem de 21 anos chamado Richard Mayer, que trabalhava com bandas de rock, foi encontrado morto em um motel. No quarto a polícia encontrou uma fatura de cartão de crédito assinada por Karny. Ele se tornou suspeito, mas logo foi descartado pela polícia. Na verdade, investigadores suspeitaram de Joe Hunt, que aguardava seu julgamento em liberdade. A coisa toda parecia mais um de seus esquemas malignos. Ele poderia ter assassinado Mayer e plantado documentos de Karny para incriminá-lo. Dessa forma ele tiraria o ex-amigo do caminho. Karny iria testemunhar contra ele, então se Karny fosse preso ou acusado de assassinato, seu testemunho no tribunal causaria no mínimo dúvidas. Mas Karny tinha um álibi e a polícia o descartou. Da mesma forma, detetives não conseguiram ligar Hunt ao crime. Até os dias de hoje, o assassinato de Richard Mayer permanece sem solução (nos anos seguintes, estranhamente Joe Hunt continuou a trabalhar com seus advogados para tentar provar a culpa de Karny).

Quando o julgamento começou, Barens prometeu ao júri que eles ouviriam toda a verdadeira história do próprio Joe Hunt, ele explicaria tudo. Isto aumentou o suspense para os procedimentos e Hunt a todo momento escrevia notas ao seu advogado. Quando Karny sentou na cadeira das testemunhas, Joe o olhou friamente e depois desviou o olhar. Apesar da tentativa de intimidação, Dean Karny acabou por ser uma testemunha efetiva. Horton o descreve como vazio e assombrado, claramente perturbado por seu envolvimento com Joe Hunt. Mas apesar de tudo ele contou sua história com grande articulação. A defesa teve muito trabalho tentando desacreditá-lo, “um canalha inacreditável”, bradou Barens aos jurados. Enquanto isso Joe agia de maneira educada, um verdadeiro gentleman no tribunal.

A principal questão era se Levin estava vivo ou morto. Sua mãe afirmou que ele sempre ligava, não importasse onde estivesse, mas desde 6 de junho de 1984 ela não tinha notícias dele. Mas Levin também era um estelionatário procurado pela polícia por aplicar golpes, então não era difícil acreditar que ele poderia ter fugido de Los Angeles para evitar ser preso. O advogado citou detalhadamente dois casos ingleses do século 17 em que pessoas condenadas por assassinato foram executadas e as pessoas que supostamente foram mortas reapareceram depois.

“Este é um caso no qual o governo busca pela penalidade final: morte. Vocês devem ser perguntar se Ron Levin está de fato morto. Se ele está morto, vocês devem se perguntar: Ele foi assassinado? […] Ele morria de medo de voltar para a cadeia. O que ele fez? Desapareceu.”

[Arthur Barens]

Quando foi a vez do promotor Wapner, ele não teve certeza se o júri estava com ele. Ele disse que a evidência do bloco de sete páginas “inescapavelmente” apontava para a conclusão de que Hunt e seu guarda-costas, James Pittman, assassinaram Levin. Ainda segundo Wapner, Hunt culpou Levin pelas falhas financeiras do clube a partir do momento em que Levin enganou Joe com a conta de commodities no valor de 5 milhões.

“Vocês podem imaginar o quão louco um estelionatário fica quando é enganado?”

[Fred Wapner]

Ainda citando o bloco de sete páginas, Wapner comparou o comportamento de Hunt no julgamento (a todo momento escrevendo listas em blocos de papel para orientar seu advogado) – “Ele era um fazedor de listas compulsivo. Ele está sentado em frente a vocês à dois meses e meio fazendo listas”.

Joe Hunt durante seu julgamento em Foto: AP.

Joe Hunt durante seu julgamento em 1986. Foto: Corbis.

Todos aguardavam o momento em que Joe Hunt assumiria a posição em sua própria defesa. Sua namorada, Brooke Roberts, bem-criada e credível, contou uma história totalmente diferente da contada por Dean Karny, o que gerou dúvidas no júri e nos presentes. O que Hunt aumentaria – ou eliminaria – da sua situação?

Para a surpresa de todos, a defesa não interrogou Hunt.

Então o júri se retirou para deliberar. Após dois dias e meio, em 22 de abril de 1987, eles chegaram a um veredicto.

Aos 26 anos, Joe Hunt ouviu quando os jurados disseram que o achavam culpado de assassinato em primeiro grau. Eles também encontraram circunstâncias especiais no caso, que na Califórnia o tornaria elegível para a pena de morte.

Após ouvir o veredicto, Joe olhou de volta para Brooke e sua família e deu de ombros. Foi a única emoção que demonstrou. Após o julgamento, ele deu algumas declarações. Uma delas era que a coisa toda era uma “tragédia“. Ele disse que Ron Levin estava vivo e seria encontrado um dia. O veredicto foi “uma dessas circunstâncias infelizes de erro composto“. O que ele faria agora era o que ele fazia de melhor: “manter meu queixo erguido“.

“Isto é uma tragédia porque Ron Levin está vivo, e eu acredito que ele será encontrado nos próximos anos. Pelo menos ele não morreu pelas minhas mãos naquela noite em particular. Minha única responsabilidade agora é manter meu queixo erguido. Isto é o que eu faço de melhor.”

[Joe Hunt]

Após a fase de sentença do julgamento, Joe foi condenado a prisão perpétua sem possibilidade de pedir liberdade condicional. Ele imediatamente começou a estudar o seu caso e aprender tudo o que podia para usar em seu apelo. Em março de 1988, ele apareceu no 60 Minutes com Ed Bradley [vídeo legendado no final do post] e deu uma explicação complicada para tudo, incluindo o bloco de sete páginas. Nada disso apontava para assassinato, ele disse, e estava confiante de que acabaria por ser libertado.

Jim Pittman. Foto: Murder Casebook, Ed. 1992.

Jim Pittman. Foto: Murder Casebook, Ed. 1992.

Já Jim Pittman teve mais sorte. Ele foi julgado duas vezes pelo assassinato de Ron Levin e inocentado nas duas ocasiões. Dois júris foram incapazes de chegar a uma conclusão sobre sua participação no assassinato. Na época, ele se declarou culpado, mas como a promotoria não conseguiu estabelecer qual a sua real participação, as acusações foram descartadas. Em 1993, em uma entrevista para o programa “A Current Affair“, Pittman admitiu pela primeira vez ter sido o homem que puxou o gatilho, matando Ron Levin a mando de Joe Hunt. Segundo ele, Hunt queria matar o estelionatário porque “Levin foi a primeira pessoa a fazer Joe parecer um idiota na frente do resto dos caras“. Ele ainda confessou que eles atiraram cerca de 70 vezes no cadáver de Levin para desfigurá-lo de modo que, se encontrado, ninguém pudesse reconhecê-lo. Nos anos seguintes ele trabalhou como motorista em Santa Monica, Califórnia, vindo a falecer em março de 1997 de falência múltipla dos rins.

“Joe me pediu para ajudá-lo. Joe balançou a cabeça e esse foi o sinal para fazer o que eu tinha que fazer. Eu atirei nele uma vez na parte de trás da cabeça e ele morreu na hora. Então nós embrulhamos Ron Levin de forma bastante rápida em um edredom.”

[Jim Pittman]

O Final da História


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Reza e Ben foram presos quando a polícia descobriu a certidão de nascimento falsa de Reza. Eles foram julgados pelo sequestro e assassinato do pai de Reza, com base principalmente no depoimento de Dean Karny. Ben afirmou que não fazia parte do “Projeto Sam”. Segundo ele, o próprio Joe Hunt o descartara na época por achar que ele não era confiável. Já Reza Eslaminia afirmou não saber nada sobre o plano.

O júri os considerou culpados (com Reza sendo inocentado da acusação de saber que seu pai seria assassinado). Uma nota dele em sua agenda indicou que certamente Reza sabia do sequestro.

Ambos os jovens foram condenados à prisão perpétua sem liberdade condicional. Eles apelaram logo após, sem sucesso.

Reza Eslaminia olha para sua mãe após pegar a perpétua. Data: 1988. Foto: AP.

Reza Eslaminia olha para sua mãe após pegar a perpétua. Data: 1988. Foto: AP.

Em 1992, Joe Hunt voltou ao tribunal para ser julgado pelo sequestro e assassinato de Hedayat Eslaminia. Os custos aos contribuintes americanos por suas inúmeras petições e documentos somaram cerca de dois milhões de dólares. Joe afirmou ter passado nove mil horas se preparando para o julgamento. Ele solicitou ao tribunal o direito de ler documentos que a CIA havia retirado da casa de Eslaminia. Joe afirmou ter certeza de que nos papéis haviam evidências de que outras pessoas ou grupo de pessoas queriam o iraniano morto, mas o tribunal negou seu pedido, confirmando a diretriz da CIA de não divulgar material sensível. Mesmo assim, Hunt fez um excelente trabalho defendendo a si mesmo, jogando toda a culpa no “lobo em pele de cordeiro” Dean Karny. O júri ficou hipnotizado por ele, de forma que as acusações contra Joe foram descartadas. Hunt nunca sairia mesmo da prisão, uma condenação a mais ou a menos não faria a menor diferença. Ao final dos trabalhos, Hunt disse que nunca iria desistir até estar livre. Cerca de um ano depois, em 10 de abril de 1993, Joe Hunt se casou com uma admiradora na penitenciária de Folsom. Tammy Gandolfo disse sim a Joe e virou Tammy Hunt. Em uma entrevista ao Daily News na época, Tammy afirmou que Joe agora era um homem mudado: “Aquilo era quem ele era no passado. Ele era muito novo, muito determinado. Ele queria ter sucesso”.

As acusações no caso Eslaminia também foram retiradas contra Jim Pittman.

Em 1998, o Tribunal de Apelação do Nono Circuito dos Estados Unidos reverteu as condenações de Reza e Ben, que na época eram companheiros de cela na Penitenciária Estadual de Folsom. Baseado em um erro durante o julgamento, o caso foi revisado. O Tribunal de Apelação julgou inadmissível uma gravação em fita usada pela promotoria. Dessa forma, após 10 anos presos, Reza e Ben foram soltos. Ben encontrou Deus e se tornou um importante pastor da Harvest Bible Chapel. Já Reza…

Reza Eslaminia - preso

Reza Eslaminia fichado pela polícia em 2012. Foto: AP.

Reza continuou na mira da justiça. Durante os três anos seguintes ele lutou para não ser extraditado ao Irã e conviveu com os movimentos de promotores americanos que queriam julgá-lo e condená-lo novamente. Eventualmente os promotores desistiram e Eslaminia passou a viver tranquilamente. Mas por pouco tempo. Em 2012, trabalhando como motorista de táxi, Eslaminia perdeu o controle do carro atropelando e matando Edmond Ralph Capalla, 39, em São Francisco. A polícia o prendeu e o soltou. Meses depois, autoridades da cidade confirmaram através de uma investigação que Eslaminia foi imprudente e o acusou de homicídio. Uma ordem de prisão foi expedida, mas Reza desapareceu do mapa. Ele ainda é procurado pela polícia da Califórnia.

Dean Karny, que recebeu imunidade total para testemunhar contra os colegas, recebeu uma nova identidade e durante anos fez parte do programa de proteção a testemunha. Como parte de seu acordo com o Ministério Público, ele estudou Direito e recebeu uma licença do estado para seguir carreira como advogado.

Os outros membros do BBC recomeçaram suas vidas e alguns deles se tornaram bem-sucedidos. Um até se tornou um colecionador de murderabilia do BBC. Mas apesar do recomeço e tempo passado, é improvável que algum deles esquecerá do encontro com um homem que, quer queira ou não, pode ser chamado de um gênio psicopata. Sim ou não, a incansável tentativa de Joe Hunt de manter seu caso em evidência ao longo dos anos certamente é um fardo em suas vidas. Ele afirmou ser um personagem da vida real “preso em um trabalho de ficção“. Ele quer que o mundo saiba quem é o verdadeiro Joe Hunt.

Joe Hunt foi tema da famosa revista criminal Casebook em 1992.

Joe Hunt foi tema da famosa revista criminal Murder Casebook em 1992.

O legado fatal de Joe Hunt


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Em novembro de 1987, a NBC levou ao ar um filme-minissérie para a TV com mais de três horas de duração. O filme foca no julgamento de Joe Hunt e de outros garotos do BBC enquanto examina a história através de flashbacks. Sem dúvidas é um dos grandes produtos cinematográficos para a TV baseados em crimes reais, rivalizando com Citizen X (que conta a história do serial killer soviético Andrei Chikatilo). A NBC usou vários nomes da história real no filme, incluindo o de Joe Hunt. Vários dos rapazes do BBC foram pagos como consultores técnicos. O filme foi indicado a quatro prêmios Emmys e a dois Globos de Ouro. The Billionaires Boys Club pode ser visto no Youtube.

Na época, Joe Hunt tentou impedir que a NBC exibisse a minissérie, citando o fato de que sua condenação pelo assassinato de Ron Levin estava sendo revista. Exibir o filme poderia diminuir suas chances de reverter a decisão além de prejudicar o júri do próximo julgamento – a morte de Hedayat Eslaminia. Seus recursos foram negados e a emissora exibiu no final de 1987 o filme que prontamente se tornou um dos mais vistos da década. O filme se tornou tão popular que a história inspiraria, dois anos depois, um dos mais brutais e conhecidos crimes americanos.

Em julho de 1989, em Los Angeles, os irmãos Erik e Jospeh Menendez, 18 e 21, assistiram a mais uma transmissão de The Billionaire Boys Club. Erik era fã do filme e imaginou o que ele e o irmão poderiam fazer se conseguissem colocar a as mãos no dinheiro dos pais. Talvez eles fizessem como Joe Hunt, comprariam carros caros, colocariam garotas dentro e desceriam a costa da Califórnia como dois bon vivants, desfrutando do que a vida tinha de melhor. O que eles pareceram não ter enxergado é que no final da história Hunt se deu muito mal. Os irmãos bolaram um plano para matar os pais, Jose e Mary Menendez, baseado no assassinato de Eslaminia. Eles fariam parecer que sequestradores pegaram seus pais e sumiram com eles, matando-os logo em seguida. Eles achavam que o pai provavelmente tinha inimigos do outro lado do país então eles poderiam culpar a máfia. Como a polícia poderia investigar isso?

Em uma noite, eles chegaram em casa com duas espingardas calibre 12. Quando Mary e Jose adormeceram na sala de sua mansão em Beverly Hills, Joseph deu o primeiro tiro na parte de trás da cabeça do pai. Erik teria que matar a mãe, mas hesitou e ela tentou correr, sendo atingida na perna por Joseph. Ela caiu entre o sofá e a mesa de café. Ele voltou para o carro para recarregar a arma. Enquanto isso Erik atirou na mãe várias vezes, atingindo o braço e peito, espalhando pedaços do braço ao redor da sala. Ela agonizou e continuou a rastejar no chão até ser acertada várias vezes na cabeça. O pai Jose levou seis tiros. A mãe Mary dez.

Os irmãos fizeram uma chamada para o 911 informando que intrusos entraram dentro da casa e assassinaram seus pais. Para a polícia, eles sugeriram a máfia. A polícia ficou intrigada com o crime, mas o trabalho de investigação foi facilitado pelos próprios irmãos: como um dia fez o ídolo deles Joe Hunt, eles começaram a ostentar uma vida de luxo, gastando mais de um milhão de dólares em apenas seis meses. Um comprou um Porsche, o outro um Mercedes Benz, andavam com relógios Rolex no pulso e viajaram o mundo. Isso, claro, chamou a atenção dos investigadores. Eles descobriram que os irmãos compraram duas espingardas calibre 12 dois dias antes do crime usando identidades falsas. A prova final veio quando a polícia apreendeu fitas de terapia de Erik em que ele confessou ao psicólogo ter matado os pais. No julgamento, o psicólogo testemunhou que os irmãos se inspiraram no filme.

O filme foi bastante discutido durante o primeiro julgamento dos irmãos, que resultou em um júri dividido. O segundo, no entanto, foi bem diferente. Em 1995, Joseph e Erik foram condenados à prisão perpétua.

Como Joe Hunt, a busca pelo estilo de vida que eles acreditavam lhes pertencer, assim como a arrogância e o narcisismo, os entregou. E assim como Joe Hunt, o que eles esperavam ganhar com os assassinatos foi muito diferente do que eles obtiveram. Curiosidade: Erik também se casou na prisão com uma admiradora chamada Tammi.

Joe Hunt é o epítome daquilo que conhecemos como psicopata. A maioria dos psicopatas não transformam suas vítimas em comida, como Leonarda Cianciulli, ou comem seu coração, como Jeffrey Dahmer. Ao contrário, eles estão entre nós no mercado de trabalho ou dentro de casa. Hunt é uma exceção, já que ele foi um psicopata que cruzou a linha para o assassinato, mas sua história nos dá uma noção do porquê o mundo está do jeito que está: líderes mundiais preocupados em se armar, entrar em guerras; empresários sonegadores e inescrupulosos; políticos que não pensam duas vezes em desviar dinheiro público da saúde (desencadeando a morte de inúmeras pessoas) ou educação para enriquecimento ilícito e etc. Psicopatas podem nunca cometer homicídios, mas certamente deixarão um rastro de ilegalidades e danos por onde passam. Eles tem o ego inflado e se acham no direito de estar no topo da cadeia alimentar. Joe Hunt achava isso e criou uma empresa para ele ser o Presidente, aquele que todos deviam olhar de baixo para cima. Quando essas pessoas, trilhando um caminho tortuoso, chegam ao poder, seja em empresas privadas ou públicas, governos ou igrejas, o estrago é inevitável. Que o diga, por exemplo, a Enron.

Joe Hunt continua mais vivo do que nunca, prova disso é o remake – com Kevin Space (House of Cards, 7 – Os Sete Pecados Capitais) – do filme de 1987 Billionaires Boys Club que estreará nos Estados Unidos no final do ano (2017).  

60 Minutes – Entrevista com Joe Hunt


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Fontes consultadas: [1] Fast Cars, Armani Suits, Pretty Women: How the ‘Billionaire Boys Club’ Led to Murder – People Magazine. 13, 08, 2016; [2] Leader of Billionaire Boys Club Convicted of Murder – L.A. Times. 23, 04, 1987; [3] Club Chief’s Murder Case Near California Jury – The New York Times. 15, 04, 1987; [4] Saga of Fast-Track Group Told at Trial – The Washington Post. 07, 02, 1987; [5] Billionaire Boys Club Bodyguard Admits Slaying in TV Interview – L.A. Times. 21, 05, 1993; [6] Two ‘Boys Club’ Members Get Life Terms for Murder – L.A. Times. 11, 05, 1988; [7] Manhunt for ‘Billionaire Boys Club’ member suspected in deadly hit-and-run – Daily Mail. 14, 05, 2013; [8] Last Billionaire Boys Club Case Dismissed; Star Witness Uncooperative – L.A. Times. 07, 11, 2000; [9] Charges In Famed Death Dropped / Victim’s son accused in `billionaire’ slaying – SFGate. 7, 11, 2000; [10] Obituary – The News Journal – Wilmington, Delaware. 14, 03, 1997; [11] Daily News – Wife of Billionaire Boys Club Leader Still Stands By Her Man. Disponível em The Free Library; [12] Billionaire Boys Club. NBC. 1987

Este texto teve colaboração de:


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Sheeza

Marcus Santana
Vídeo: legenda e tradução

Rochele Kothe
Contribuição texto

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
  • Jaque

    Já estava ansiosa por um artigo novo , sou fã incondicional do trabalho de vc..excelente mais uma vez rs.

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