Serial Killers: Dean Corll, o Candy Man

Fugidos? . Para a psicoterapeuta americana Andrea Mathews, a principal causa de adolescentes que fogem de casa é a vergonha. A vergonha da pobreza, a vergonha do abuso, a...
Dean Corll - Candyman - aprendiz verde

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Fugidos?


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Para a psicoterapeuta americana Andrea Mathews, a principal causa de adolescentes que fogem de casa é a vergonha. A vergonha da pobreza, a vergonha do abuso, a vergonha de ter um ou os dois pais viciados, a vergonha de não poder controlar a própria vida etc. Se sentindo emocionalmente, psicologicamente ou espiritualmente preso, ele foge para o desconhecido. Mas, certamente, há uma grande parcela de jovens desaparecidos que não fugiram. Nem todos os pais sabem com segurança que seus filhos desaparecidos não fugiram, mas foram vítimas de um crime. Frequentemente os pais ignoram as tensões, infelicidade e pressões externas que levam um jovem a fugir de casa. Entretanto, há várias situações nas quais os pais são próximos o bastante da vida dos filhos e têm um bom relacionamento com sua prole para ter certeza de que eles não fugiram. Muitas vezes, esta forte certeza é reforçada por outros fatores: quando o jovem desapareceu, não havia evidências de planejamento. O jovem não levou nenhuma roupa, pertences ou dinheiro. Não houve nenhuma grande discussão, castigo ou problemas na escola que pudesse causar desespero. O jovem desapareceu em circunstâncias que não correspondem ao comportamento de um fugido. Por exemplo, o rapaz ou garota pode ter desaparecido ao ir a um clube ou cinema, ou depois de entrar no carro de um estranho. A lista de circunstâncias que depõem contra uma criança que supostamente fugiria é extensa.

Sendo assim, por que é que departamentos de polícia por todo o mundo insistem em presumir que adolescentes desaparecidos simplesmente fugiram, a menos que alguma evidência de crime tenha sido encontrada? Sim, jovens fogem. Na verdade, muitos jovens fogem, não apenas para evitar a responsabilidade por algo que fizeram, ou porque condições reais ou imaginárias em casa ou na escola ficaram insuportáveis, ou por pensar que seus pais não os amam ou se importam com eles, mas às vezes eles fogem para algo ou algum lugar que acreditam ser mais excitante, mais tolerante, mais divertido.

Ainda assim, a história do assassinato em série é assombrada por centenas de casos de jovens e adultos desaparecidos, nos quais as autoridades concluíram que eles decidiram fugir. Por quê? Algumas das razões são que os departamentos de polícia que investigam pessoas desaparecidas não estão preenchidos com oficiais proativos, além disso, a maior parte possui uma equipe pequena e mal remunerada. Pouquíssimos departamentos estão interessados em gastar seus limitados recursos quando não está muito claro que um crime foi cometido, a menos que seja um caso famoso ou, por algum motivo, ganhe destaque na mídia.

Em muitos, muitos casos de assassinatos em série, como o caso dos Assassinatos de Crianças em Atlanta, os Assassinatos Moors na Grã-Bretanha e os crimes de Ted Bundy, Jeffrey Dahmer e John Wayne Gacy, para citar alguns dos casos mais famosos, a lista de vítimas é muito maior do que teria sido se a polícia tivesse simplesmente direcionado seus esforços para separar desaparecimentos suspeitos de jovens de prováveis fugidos.

E o caso abaixo é apenas mais um na imensa lista de serial killers que se tornaram prolíficos devido à ineficiência policial.

Desaparecimentos em série


Houston, Texas | Anos 70

“De coiotes e lobos a linces e leões, criaturas que predam outros animais mais fracos tendem a ser bastante territorialistas, restringindo sua matança a uma área específica de caça. O mesmo vale para a maioria dos serial killers”.

[Harold Schechter. Serial Killers – Anatomia do Mal, DarksideBooks, 2013]

Os adolescentes Jimmy Glass e Danny Yates eram os melhores amigos. Ambos tinham 14 anos e moravam na região de Spring Branch, Houston. Em 13 de dezembro de 1970, os dois estavam em uma igreja chamada Templo Evangélico quando, durante a pregação, levantaram da cadeira e subiram um corredor. Os dois nunca mais foram vistos. Para a polícia, a irmã mais velha de Danny, Cyndi, relatou que uma vez o irmão comentara sobre um homem que ele conheceu e deu a ele cerveja e bilhetes de cinema. Investigadores preencheram relatórios e carimbaram “fugidos de casa” em suas fichas. Os pais protestaram e a polícia foi enfática: eles faziam parte de uma grande parcela de jovens americanos que saíam de casa cruzando o país pedindo carona, sendo parte do “movimento hippie“. Sem nenhuma evidência de algum tipo de crime, nada poderia ser feito.

Jeffrey Konen

Jeffrey Konen.

Três meses antes, em setembro, Jeffrey Alan Konen, 18, que havia sido um dos melhores alunos do ensino médio na St. Thomas High School, uma escola católica particular de Houston, e que estava na Universidade do Texas, saiu de sua cidade Austin em direção a Houston para ver sua namorada. Ele costumava pedir carona, hábito comum na América dos anos 70 [quantos serial killers ianques não aproveitaram de caronas? Gacy, Dahmer, Kearney, a lista é longa], e conseguiu uma até o Galleria, shopping de Houston. A última vez que foi visto, Konen estava procurando outra carona, dessa vez para chegar até a casa de sua namorada.

Quando ele não voltou para casa, os pais de Konen foram até a polícia relatar o seu desaparecimento. Mais uma vez, eles informaram que não poderiam fazer nada. Seus pais, então, fabricaram cartazes e pregaram em cada esquina de Houston e Austin, na esperança de que alguma informação pudesse aparecer. Os dias, semanas e meses se passaram, mas nada de valioso surgiu. 

O shopping Galleria, local onde Jeffrey Konen foi visto pela última vez, em setembro de 1970.

À esquerda Jimmy Glass e à direita (ao meio), com seus irmãos, Danny Yates. Os amigos Glass e Yates desapareceram em dezembro de 1970.

À esquerda Jimmy Glass e à direita (ao meio), com seus irmãos, Danny Yates. Os amigos Glass e Yates desapareceram em dezembro de 1970.

Em janeiro de 1971, os irmãos Donald Waldrop, 15 anos, e Jerry Waldrop, 13, desapareceram após saírem para se divertirem em um boliche. A casa dos irmãos ficava a apenas um quilômetro da igreja Templo Evangélico. Pelos oito meses seguintes, o pai dos garotos acampou na porta da delegacia, e tudo o que ele ouviu foi: “O que você está fazendo aqui? Seus garotos fugiram.”

Em 9 de março, Randell Harvey, 15, foi visto pela última vez andando de bicicleta perto de um posto de gasolina de Houston. 

Em 29 de maio, outros dois amigos, David Hilligiest, 13, e Gregory Malley Winkle, 16, desapareceram após saírem para ir até um clube local. David e Gregory foram vistos entrando dentro de uma Van branca e Gregory chegou a ligar para sua mãe dizendo que estavam nadando em Freeport, uma cidade a cerca de 1h de Houston, banhada pelo mar do Golfo do México. Em uma coincidência sinistra, Winkle era namorado da irmã de Randell Harvey, desaparecido dois meses antes.

A mãe de David Hilligiest segura um cartaz com uma recompensa de mil dólares por informações de David e seu amigo Gregory.

A mãe de David Hilligiest segura um cartaz com uma recompensa de mil dólares por informações de David e seu amigo Gregory.

Em 17 de agosto de 1971, Ruben Watson Haney, 17, deixou sua casa no Heights para ir até o cinema. Ele não chegou a ver o filme, desaparecendo no caminho. No ano seguinte, em 9 de fevereiro de 1972, foi a vez de Willard Branch, Jr., 17, desaparecer sem deixar vestígios. Seu pai, um oficial da polícia de Houston, desesperado pelo sumiço do filho, morreu de ataque cardíaco tempos depois. No mês seguinte, em 24 de março, foi a vez de Frank Aguirre, 18, sumir sem deixar vestígios no Heights. Em 20 de abril, Mark Scott, 17, desapareceu após sair de casa para dar uma volta. Sua mãe Mary e seu irmão mais novo, Jeff, foram até casas de amigos e colegas de escola de Mark, perguntando se eles o haviam visto. Entraram em um carro e percorreram as ruas, espiando os becos e parando em restaurantes. Foram até hospitais enquanto um amigo de família deu queixa de desaparecimento no Departamento de Polícia de Houston.

Poucos dias depois, a família recebeu o que parecia ser um cartão postal de Mark.

“Como vocês estão? Eu estou em Austin por alguns dias. Eu encontrei um bom trabalho. Estou ganhando três dólares por hora”.

Os pais de Mark não acreditaram no bilhete. O garoto era apenas um adolescente do ensino médio que acabara de ganhar uma tão sonhada vespa Honda C70 zero quilômetro. Ele simplesmente saiu para Austin sem dizer uma palavra? Eles ficaram convencidos de que algo terrível havia acontecido. Mark nunca escreveu novamente.

Em 21 de maio de 1972, exatamente um mês após Mark Scott desaparecer, dois amigos, Billy Baulch Jr., 17, e Johnny Delome, 16, desapareceram após saírem de uma loja em Houston. Dias depois, os pais de Billy Baulch receberam uma carta supostamente escrita pelo filho, onde ele afirmava ter encontrado trabalho na cidade de Madisonville. Ele e seu amigo, Johnny Delome, estavam bem lá e eles não deviam ficar preocupados. Como no caso Mark, Billy nunca mais escreveu novamente.

Acima: os irmãos Waldrop; Abaixo: Johnny Delome e Mark Scott. À direita, na foto maior, Randell Harvey.

Acima: os irmãos Waldrop; Abaixo: Johnny Delome e Mark Scott. À direita, na foto maior, Randell Harvey. 

Em uma quarta-feira, 19 de julho de 1972, Steven Sickman, 17, desapareceu após deixar uma festa no Heights, uma região de Houston. A irmã e mãe de Steven deram mais detalhes ao Texas Crime News:

“Steven e eu brigamos e ele veio pedir desculpas, ele disse que levaria os amigos dele e eu até o Astroworld e à praia no dia seguinte. Eu nunca pensei que essa seria a última vez que eu veria meu irmão. Ele saiu no seu Mustang azul que meu pai comprou pra ele. Meu irmão era muito bonito. Ele tinha 1.85m, cabelos pretos, ombros largos e forte como um touro. Após ele desaparecer, nós recebemos uma série de telefonemas, mas a pessoa do outro lado da linha não dizia uma palavra e desligava. Então, nós pensamos ser Steven nos ligando e falávamos para ele voltar para casa, que estava tudo bem”.

[Sandy Sickman, Texas Crime News]

“Eu sempre escutava Steven quando ele chegava de noite, mas daquela vez não houve barulho, então eu levantei e fui até seu quarto e depois lá fora olhar seu carro. Quando eu vi que o carro não estava lá, eu me vesti e dirigi pelo bairro procurando por ele. Eu encontrei seu carro estacionado em frente à casa de um amigo na rua Granite, há poucas quadras de distância. Eu retornei para casa e ajudei meu marido a se preparar para ir ao trabalho e voltei até a casa do amigo de Steve onde o carro estava parado. Seus amigos me disseram que ele havia levado eles para uma festa na Ella & W. 34th Street naquela noite, mas Steven não voltou com eles. Entrei em contato com o menino que deu a festa e ele me disse que Steven havia ido embora à meia-noite, caminhando pela rua. Ninguém soube dizer porque ele foi embora. Então, eu telefonei para o Departamento de Polícia de Houston e eles não ajudaram em absolutamente nada e foram extremamente rudes. Eles me disseram que um garoto com 17 já era um adulto e, a menos que eles tivessem um cadáver, não poderiam fazer nada e desligaram o telefone. Eu liguei para eles dezenas de vezes no resto do mês, pedindo por ajuda e eles continuaram a desligar o telefone na minha cara cada vez. Após este tratamento, eu não fui pessoalmente registrar um boletim de desaparecimento já que eles continuavam a me dizer que não havia nada que pudesse ser feito.”

[Erma Sickman, Texas Crime News]

Adolescentes de Houston continuaram a desaparecer durante o ano de 1972. Cerca de um mês após Sickman sumir, em 21 de agosto, Roy Eugene Bunton, 19, desapareceu após sair de casa para ir ao trabalho em uma loja de sapatos que ficava em um shopping da cidade. 

Em 2 de outubro, Wally Jay Simoneaux, 14, deixou sua casa para passar a noite com seu amigo Richard Hembree, 13, que morava a poucas quadras de distância no Heights. Pouco após o anoitecer, um amigo viu os dois garotos dentro de um veículo branco em frente a uma mercearia e foi falar com eles. Nesse momento, um outro garoto se aproximou e disse: “Cai fora!“. Mais tarde naquela noite, o telefone tocou na casa de Simoneaux. Sua mãe atendeu e escutou a palavra “Mãe“, e então a ligação foi cortada. “Querido, onde está você, querido?” Continuou sua mãe, escutando apenas o barulho contínuo da linha que aparentemente caíra. A mãe de Simoneaux ligou para a mãe de Hembree e escutou que os dois garotos não apareceram e não disseram para onde iriam. Ela, então, ligou para a polícia que afirmou que os garotos seriam parados e questionados se fossem vistos nas ruas.

Um mês depois, em 15 de novembro, Richard Kepner, 19, também morador do Heights, desapareceu após sair de casa para fazer uma ligação de um orelhão público para sua noiva.

Steven Sickman e Roy Bunton desapareceram no Heights em julho e agosto de 1972.

Steven Sickman (na foto com seu pai) e Roy Bunton desapareceram no Heights em julho e agosto de 1972.

Steven Sickman e sua irmã, Sandy. Foto: Chron.

Steven Sickman e sua irmã Sandy. Foto: Chron.

O ano de 1973 começou com o desaparecimento de Joseph Allen Lyles, 17. Lyles gostava de patinar em uma conhecida pista em Houston e um dia simplesmente não voltou para casa. Seus pais foram até a polícia e questionaram se um adolescente fugitivo deixaria todas as suas roupas, pertences e dinheiro para trás. Mais uma vez, a polícia local fez pouco caso.

Quatro meses depois, em 4 de junho, William Ray Lawrence, 15, disse a seu pai James Lawrence que sairia para pescar com alguns amigos, os quais ele não citou o nome, e que voltaria no final da semana. Sete dias se passaram até que James recebeu uma carta, assinada por seu filho e datada de 8 de junho. Nela, William dizia que estava procurando emprego na cidade de Austin e que voltaria em meados de agosto.

Menos de duas semanas após William Lawrence sumir, Raymond Blackburn, 20, um jovem casado de Baton Rouge, Louisiana, desapareceu após pedir carona no Heights em direção à sua cidade natal. Em 7 de julho, Homer Louis Garcia, 15, desapareceu após ir até uma auto-escola. Cinco dias depois, John Sellars, 17, que passava pelo Heights de carro vindo da Califórnia, desapareceu. Seu carro foi encontrado abandonado em uma área remota de Houston. Uma semana depois, em 19 de julho, Michael Baulch, 15, saiu de casa para cortar o cabelo e nunca mais voltou. Em mais uma coincidência macabra, Michael era irmão de Billy Baulch Jr., desaparecido no dia 21 de maio do ano anterior. Sua família foi até a polícia, preencheu mais um registro de desaparecimento, mas não obteve retorno da polícia. Seis dias depois, em 25 de julho, mais dois amigos sumiram sem deixar rastros no Heights: Marty Ray Jones, 18, e Charles Cary Cobble, 17. Apesar da idade, Cobble era casado com uma menina de 14 anos, que estava grávida. Os dois amigos foram vistos pela última vez caminhando em uma avenida no Heigths, em companhia de um terceiro adolescente não identificado.

Vítimas de Dean Corll

Em cima: Michael Baulch Jr., Marty Ray Jones, William Ray Lawrence e Joseph Allen Lyles. Em baixo: Homer Garcia, Charles Cobble, Wally Simoneaux e Richard Hembree.

Uma semana depois do desaparecimento de Jones e Cobble, em 3 de agosto, James Stanton Dreymala, 13, saiu de casa para andar na bicicleta que ele mesmo havia construído com peças de bicicletas velhas. Ele era magro e no mês seguinte faria 14 anos. De família religiosa, Dreymala frequentava quase que diariamente a igreja onde gostava de cantar e tocar corneta. “Quando ele me ligou na noite de sexta-feira para me dizer que estava em uma festa, eu fiquei surpreso. Eu disse a ele para estar em casa em 25 minutos. Nós nunca mais vimos ele”, disse seu pai para o Victoria Advocate, em uma reportagem de época.

Reportagem do Houston Chronicle, de dezembro de 2014, mostra o casal Elaine e James Dreymala segurando um papel com fotos do filho desaparecido décadas antes. Foto: Houston Chronicle. Data: 2014.

Na edição 80 da revista Murder in Mind, Marshall Cavendish afirma que 42 adolescentes desapareceram de Houston a partir de 1970. Desaparecimentos, seja de crianças, adolescentes ou adultos é algo comum nas grandes cidades, mas o grande número do pessoas desaparecidas de Houston entre 1970 e 1973 deveria ter chamado a atenção das autoridades. Eles eram todos adolescentes e da mesma região, o Heights. A grande maioria vinha de famílias estruturadas e não tinham perfil para simplesmente fugir de casa.

Três adolescentes; um serial killer; um fim de noite desagradável

Pasadena, região metropolitana de Houston | Madrugada de 8 de Agosto de 1973

Foi certamente por um erro de avaliação que o adolescente Elmer Wayne Henley , 17 anos, levou sua grande amiga Rhonda para a casa de um conhecido chamado Dean Corll. Ele não compreendeu o perigo ao qual exporia a si e seus amigos ao levá-los para lá (ou então acreditou que tinha tudo sob controle). Mas ele a levou, juntamente com outro amigo, e sem o consentimento do dono da casa.

Dean Arnold Corll era um eletricista da Houston Lighting and Power Company – empresa de energia que abastece a cidade de Houston -, mas para a maioria dos amigos de Henley, ele era o “Candy Man” [Homem dos Doces], apelido dado pelos anos em que trabalhou na fábrica de doces que ele e sua mãe possuíam. Corll era conhecido por distribuir doces para as crianças.

Wayne Henley e seu amigo Tim Kerley deixaram a residência de Corll em Pasadena, região metropolitana de Houston, nas primeiras horas de 8 de agosto de 1973, para encontrar Rhonda. Antes disso, durante a noite, Henley havia estado na casa de Rhonda e ouvido o pai da garota, bêbado, gritar com ela. Sabendo que naquela noite Rhonda estava com medo do pai, Wayne prometeu voltar lá para buscá-la.

Com rosto de menina e corpo de mulher, a pequena Rhonda Williams, 15 anos, sofria de graves problemas físicos e traumas emocionais. Sua mãe morreu quando ela era muito jovem e seu pai era um homem autoritário. Para piorar, o seu primeiro namorado, um garoto chamado Frank Aguirre, estava desaparecido havia um ano. Pouco tempo antes, ela torcera o pé em um acidente. Enquanto se recuperava dolorosamente, seu relacionamento com o pai se tornou cada vez mais conturbado e ele proibiu a maioria dos amigos de visitarem-na em casa. Wayne era o único amigo de quem o pai dela gostava.

Naquela noite, assustada com a fúria do pai após ele ter bebido bastante, ela arrumou uma mochila e decidiu sair de casa até que a ressaca passasse. Wayne deixou Tim em uma lavanderia próxima e foi buscar Rhonda. Ela estava amedrontada demais para destrancar a porta do quarto para Wayne, então ele a esperou na janela da casa. Em seguida, os dois encontraram Tim Kerley na lavanderia.

Wayne disse a Rhonda que eles estavam indo até a casa de Corll. Ela não queria ir, mas terminou concordando. Tim deu-lhe uma cerveja.

Os três adolescentes chegaram à casa do Homem dos Doces por volta das 3h da manhã. Rhonda não percebeu que Corll detestou o fato de os garotos levarem uma mulher para a casa dele, mas ela sentiu que havia algo errado. Henley conseguiu dobrar Corll e a festinha recomeçou. Enquanto Corll bebia cerveja e fumava maconha, os garotos beberam um pouco de moonshine [tipo de destilado artesanal, de alto teor alcoólico, cuja fabricação é proibida nos EUA] que o pai de Wayne havia dado a ele. Rhonda fumou um pouco com eles e adormeceu, encostada na parede.

Horas depois, Henley acordou com Corll algemando seus pulsos. Seus tornozelos já haviam sido amarrados. Pelo que conhecia de Corll, Henley concluiu que o seu destino era uma morte torturante e dolorosa. Olhando em volta, ele viu seus dois amigos amarrados com cordas e Tim estava despido. Os lábios deles estavam tampados com fita isolante.

“Eu vou matar todos vocês! Mas primeiro eu vou me divertir”, gritou Corll.

Então Henley negociou com o dono da casa: ele o ajudaria a torturar Tim; Corll poderia violentar o seu amigo e ele, Henley, estupraria Rhonda; depois eles matariam os dois. Após ameaçar Henley com uma pistola calibre .22 e uma faca, Corll achou que a sugestão de Henley era interessante, então cedeu, tirando as algemas e as cordas. Parecia bom para ele. O dono da casa, então, afirmou a Henley que se ele realmente não estuprasse Rhonda, ele teria o mesmo destino de Tim: a cova.

Então o Homem dos Doces, pelado, levou Rhonda e Tim para um dos quartos, onde uma longa “mesa” de tortura os esperava. As mãos de Rhonda e Tim foram algemadas à mesa e seus pés atados com corda. Henley havia convencido Corll a remover a fita de suas bocas.

“Corte as roupas dela!”, disse Corll, dando a Henley uma faca grande.

Henley sussurrou no ouvido de Rhonda, prometendo que não deixaria nada acontecer a ela e que a tiraria dali. Ela lhe pediu que não cortasse a camisa que estava usando porque pertencia a uma amiga, então ele cortou a calça dela, desculpando-se em voz baixa.

Corll tentou estuprar Tim, mas o garoto lutou com todas as forças. Enquanto Corll se deliciava em domar aquela fera adolescente, socando-o no estômago e sussurrando o que ia acontecer a ele, Henley subiu até o banheiro e, ao voltar, pegou a arma que Corll deixara no criado-mudo.

O rosto de Corll transbordou em ódio quando ele viu a arma apontada para si mesmo. “Me mate, Wayne”, desafiou ele. “Me mate!”. Henley recuou quando Corll avançou sobre ele. “Você não vai fazer isso!”, gritou Corll para o adolescente apavorado.

Uma história estranha


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“Talvez Dean estivesse me considerando como sua próxima vítima. Mas nós o apagamos. Ele tinha essa inteligência, elegância, boa vestimenta. Ele me escutava e ele me explicava as coisas.”

[Wayne Henley]

Por volta das 8h30 daquela manhã de quarta-feira, o departamento de polícia de Pasadena, Texas, recebeu o telefonema de um Wayne Henley histérico. O policial A. B. Jamison correu para o endereço, no número 2020 da Lamar Drive, em uma casa de madeira verde e branca. Três adolescentes, dois garotos e uma garota, aguardavam em frente.

Um dos garotos, um jovem esguio e tímido com cabelo castanho claro e um cavanhaque ralo, se adiantou e identificou-se como Wayne Henley. Ele conduziu o policial para dentro, onde o corpo de Corll jazia no chão.

Corll era um homem grande e musculoso com mais de 1,80m e pesando aproximadamente 90kg. Seu cabelo castanho escuro, grisalho nas têmporas, estava penteado em pequenas ondas. Seus documentos indicavam seu nome como Dean Arnold Corll, um eletricista de 33 anos da Houston Lighting and Power. Corll havia sido baleado seis vezes, com projéteis alojados no peito, ombros e cabeça. Seu corpo foi levado para o necrotério, já os três adolescentes até a delegacia para interrogatório.

Àquela altura, os investigadores haviam chegado para examinar a pouco mobiliada cena do crime, uma das mais interessantes que eles já haviam visto. O quarto mereceu atenção especial, por parecer ter sido preparado para um propósito específico.

Folhas de plástico cobriam o carpete para protegê-lo de respingos de sangue. Os lençóis da única cama de solteiro estavam emaranhados e bagunçados. O mais sinistro era a grossa e longa mesa de madeira com várias fileiras de algemas, cordas e cordões amarrados. No chão estava uma faca tipo baioneta, um enorme pênis de borracha, fita adesiva, tubos de vidro e lubrificante.

 A estranha mesa de madeira, com cordas e algemas. Seria uma mesa de tortura? Foto: Departamento de Polícia de Pasadena.

A estranha mesa de madeira, com cordas e algemas. Seria uma mesa de tortura? Foto: Departamento de Polícia de Pasadena.

Em um galpão nos fundos havia uma caixa de madeira, com buracos e algumas mechas de cabelo dentro.

Os vizinhos disseram que a casa pertencera ao pai de Dean Corll, Arnold, também eletricista, que havia deixado o filho ficar com a casa ao se mudar. Dean cuidava da residência e jamais fez nada que despertasse suspeitas nos vizinhos, naquele bairro de classe média.

Na delegacia, os investigadores começaram a ouvir as bizarras histórias dos adolescentes. Primeiro Tim Kerley contou que Henley lhe disse algo estranho: “se você não fosse meu amigo, eu teria conseguido quinze dólares por você”. Então, Henley confessou que Corll era um homossexual e pedófilo que lhe pagava para levar adolescentes até ele. E mais: Corll os matava e enterrava numa garagem de barcos.

Os detetives receberam esta “revelação” com cautela, afinal, o rapaz havia acabado de matar um homem e seria normal ele demonizá-lo para tentar diminuir sua culpa. Quando o pai e a madrasta de Dean Corll conversaram com a polícia, uma história diferente surgiu. Eles disseram que a história contada pelos adolescentes era mentirosa, Dean não era homossexual ou uma pessoa violenta. Na verdade, Corll adorava crianças e sempre havia sido generoso com elas. Aqueles adolescentes haviam se aproveitado da hospitalidade de seu filho, e então, alucinados pelas drogas, o mataram em sua própria casa.

Mas a polícia encontrou um aparato de tortura sexual na casa de Corll, então a versão dos pais dele não foi engolida de imediato. Os investigadores ficaram mais interessados em ouvir a confissão de Elmer Wayne Henley e em saber quem Dean Corll realmente era: um psicopata sexual ou uma vítima de jovens perversos e drogados?

Vítima ou agressor?


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“Era como uma luxúria por sangue. Dean fazia esses movimentos curtos e bruscos; ele começava a fumar um cigarro, o que ele geralmente nunca fazia; e ele dizia que precisava de um novo garoto”.

[Wayne Henley]

A polícia revirou o passado de Dean, e os primeiros resultados sugeriam que o homem de 33 anos era na verdade uma vítima e não o monstro pintado por Henley. Este sentimento foi alimentado por comentários como este:

“Todos os meus amigos o conheciam, e os amigos dos meus amigos o conheciam, e eles nunca pensaram nada de mau dele… eles sempre acharam que Dean era um cara legal. Ele me ajudava; ele os ajudava, em qualquer coisa”.

Então veio uma antiga namorada, Betty Hawkins, uma mulher divorciada com dois filhos. Ela conhecia Dean e o namorou por aproximadamente cinco anos. Ela só disse coisas boas a seu respeito:

“Dean foi um dos homens mais gentis que já conheci. Se ele tivesse algo e alguém precisasse, ele lhe daria. Até onde eu sei, ele não tinha nenhum hobby especial, exceto ajudar outras pessoas. Aquele cara deve ter tido umas 15 TVs nos últimos cinco anos. Cada vez que eu virava as costas, a TV tinha desaparecido. Alguém aparecia dizendo que precisava de uma e ele lhe daria.

Ele me fez sentir que eu era alguém, e a grande maioria dos homens pareciam querer que eu me sentisse muito inferior a eles, e tudo que eles queriam era me levar para a cama. Em cinco anos, Dean e eu jamais fizemos sexo. Às vezes ele me abraçava e me beijava. Houve vezes em que nos aproximamos, mas jamais fizemos. Ele acreditava que você precisava ser casado. Não existem muitos assim.

Ele dizia coisas como ‘sabe, eu andei pensando ultimamente que eu deveria me resolver e casar’. Mas de repente, ele mudava de ideia. E depois ele dizia que não podia sustentar um casamento. E eu dizia ‘bem, eu posso trabalhar, você sabe’. Mas ele dizia ‘Nem pensar. Se nós casarmos, você não vai trabalhar. Definitivamente’.”

Até mesmo na força policial, o papo era positivo em relação a Corll. Um investigador que foi seu colega de classe no ensino médio e casou-se com uma prima dele, relatou que Dean era “uma pessoa tranquila, bem educada, preparada e atenciosa”. “Ele nem mesmo tinha temperamento“, relatou outro. Já um homem que alugou um apartamento para Corll, disse que “ele foi o melhor inquilino que eu já tive”.

Gregory Malley Winkle

Quando criança, Gregory Malley Winkle trabalhou para Dean Corll. Anos depois, aos 16, ele desapareceria misteriosamente.

No que diz respeito à sua reputação no bairro, Dean era um cavalheiro perfeito. Eles viam o carinho de Corll para com as crianças como algo vindo de uma alma boa. Certa vez, uma criança chamada Gregory Malley Winkle disse à sua mãe, Selma, que ele tinha recebido alguns dólares por varrer o chão de uma fábrica. Sua mãe foi pessoalmente verificar a fábrica e ficou tão encantada por Corll que deixou seu filho menor de idade trabalhar em tempo parcial na fábrica.

Mas ninguém adorava mais Corll do que sua mãe Mary, conhecida no Heights tanto por suas habilidades empresariais quanto pelo seu amor por casamentos. Ele era o seu filho perfeito.

Mas então veio algumas pessoas com informações que sugeriam um quadro diferente. Um homossexual que se chamava “Guy” alegou que Corll o abordou sexualmente num banheiro público. “Eu definitivamente não estava interessado”, disse Guy. “Tornamo-nos amigos muito próximos”. Ele disse que Corll era extremamente gentil e amável com ele, mas que em sua casa possuía um quarto ao qual Guy não tinha acesso. “Jamais te levarei lá”, teria dito Corll.

Guy afirmou que Corll criticava bares e balneários abertamente gays. Havia uma barreira imposta pelo próprio Dean entre si mesmo e um estilo de vida manifestamente gay.

“Ele era uma espécie de nuvem mística; ele simplesmente estava ali. Parecia que ele tinha outra vida para onde ia e eu não era parte dela, e eu nunca quis me adentrar em seus outros domínios. Ele parecia erguer uma barreira e queria que eu permanecesse de um lado. Os demais aspectos da sua vida eram um tabu. Eu sabia que ele tinha um amigo chamado Wayne, mas sempre que eu encontrava os amigos dele, ele meio que os afastava… ele nunca quis que eu os conhecesse”.

Corll era afligido pelas ansiedades que deram origem ao ditado “ninguém te ama quando você é velho e gay”. Dentro da subcultura que, possivelmente, intensifica a angústia da cultura ocidental ao priorizar juventude e aparência, Guy via Corll como alguém pouco autoconfiante:

“Ele se sentia como um rejeitado, especialmente em relação à sua idade. Ele era supersensível a respeito de sua idade, sua aparência, se aparentava juventude, se talvez tivesse feito algo errado com o cabelo. Ele sempre queria elogios ou críticas construtivas. Algumas vezes ele seria totalmente infantil, indisciplinado e louco. Ele queria estar com a turma jovem; ele demonstrava isso com suas atitudes. Quando alguém está na casa dos 35 anos, você não o quer vadiando numa lagoa. Você não o quer tirando os sapatos, enrolando a bainha das calças e saltitando pela rua.”

Ainda segundo Guy, Corll falou sobre ir embora de Houston e se mudar para algum lugar onde ninguém o conhecesse, como o México ou a América do Sul. No período em que foram amigos, Guy jamais viu qualquer sinal de violência.

Escutando tais afirmações, a polícia se encontrou numa encruzilhada, afinal, Dean Corll era uma vítima ou não?

Dean Corll, na foto para o livro de lembranças do ensino médio. Foto: Chron.

Dean Corll, na foto para o livro de lembranças do ensino médio. Data desconhecida. Foto: Chron.

Candyman: O Homem do Doce


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“Dean levantou-se e o vi mudar para uma pessoa diferente. Havia alguém dentro dele e não era ele. Era um espírito do inferno”.

[Tim Kerley]

Dean Corll nasceu em 24 de dezembro de 1939, em Fort Wayne, Indiana, filho de Arnold e Mary Corll. O casamento de Arnold e Mary não era feliz, e quando Dean tinha seis anos seus pais se divorciaram, deixando Mary sozinha para criar Dean e o segundo filho do casal, Stanley. Tempos depois, Arnold e Mary resolveram reatar o casamento e se mudaram para Houston, em 1950. O choque de personalidades fez com que os dois se separassem novamente. Em 1953, Mary encontrou um novo par, um vendedor chamado West, que vivia com a filha de um casamento anterior.

Neste ponto da juventude, Dean, beirando os 15 anos, foi diagnosticado com sopro no coração, o que arruinou qualquer plano esportivo. Em vez disso, Dean estudou música e se tornou trombonista na banda da escola. Suas notas eram medianas, mas ele sempre foi organizado e comportado.

No final dos anos 50, sua mãe começou a fazer doces de noz-pecã. Dean ajudava catando nozes e entregando os doces de sua mãe. O autor John K. Gurwell, em seu livro “Mass Murder in Houston” [Assassinato em Massa em Houston, em tradução livre], fala sobre Dean:

“Este foi o tema central e recorrente em todas as descrições de Dean Corll ao longo dos anos. Ele fez o que lhe disseram para fazer, tudo que pediam para fazer e sempre era educado. Ele era bastante compreensivo e afetuoso, especialmente com crianças. Ele jamais desafiou sua mãe”.

Dean ajudou sua mãe em seu negócio de doces da época em que se formou no ensino médio, em 1958, até 1960, quando foi para Indianapolis cuidar da avó viúva. Quando Corll voltou a Houston em 1962, Mary havia montado uma fábrica de doces em sua casa e transformado a garagem em um depósito. Dean se tornou o seu braço direito e vivia em um quarto acima da garagem. Ele fazia doces à noite, já que durante o dia trabalhava na Houston Lighting and Power.

Em 1964, Dean foi convocado, mas dispensado do exército um ano depois por ser arrimo de família. Ele voltou para ajudar sua mãe a manter vivo o negócio dos doces. Neste meio tempo, Mary havia decidido se divorciar do segundo marido e precisava mais do que nunca da ajuda do filho. Dean mantinha um bom relacionamento com o pai, que havia casado novamente e vivia em uma casa na Lamar Drive, em Pasadena, cidade conurbada a Houston.

Dean Corll, sua mãe Mary e seu irmão Stanley. Data desconhecida. Foto: Chron.

Dean Corll, sua mãe Mary e seu irmão Stanley. Data desconhecida. Foto: Chron.

A empresa de doces se mudou para a West 22nd Street, perto da Helms Elementary School, na região de Houston Heights. Dean convidava todas as crianças locais para ganhar doces e se tornou conhecido como o Homem do Doce.

Nesse meio tempo, Mary conheceu seu terceiro marido, um membro da marinha mercante, mas esta união terminou em 1968 após poucos anos. A fábrica foi fechada e Mary, querendo respirar novos ares, se mudou para o Colorado, onde começou outro negócio de doces. Com a loja de doces fora de sua vida, Dean se voltou para o outro ramo da família, o de eletricistas. Ele estava se especializando na área quando foi morto pelo adolescente Wayne Henley, em agosto de 1973.

Mas parece que Dean mantinha uma vida secreta. E ela cobrou o seu preço. Sua família percebeu os sinais de desgaste emocional sem, entretanto, compreender as causas. Em depoimento à polícia, Mary afirmou que Dean estava bastante depressivo alguns dias antes de sua morte e falou sobre estar com problemas. Ele também falou em suicídio, mas depois pareceu ter se livrado daquela sombra e planejou visitá-la no Colorado. Houve até conversas sobre casamento com Betty Hawkins. O pai de Dean e sua madrasta também tinham conhecimento das suas variações de humor e se preocupavam com a presença de algumas pessoas na casa de Dean, agindo de forma suspeita. Eles realmente estavam preocupados e acreditavam que Dean estava sendo ameaçado por alguém perigoso.

Wayne & David


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“Eu nunca vou esquecer uma mãe que veio até a sala de notícias em uma tarde de sábado. Eu havia descoberto a identidade de um hobo [sem teto; pessoa que viaja a esmo à procura de trabalho], e ela começou a implorar, quase de maneira histérica, para eu ajudá-la a encontrar o seu filho.”

[Tom Kennedy, ex-repórter do Houston Post]

A possibilidade de que Dean Corll, um homossexual reprimido, tivesse se tornado vítima de jovens viciados e inescrupulosos ou de outros que pudessem ter se aproveitado de sua generosidade foi investigada. Contudo, a investigação mostrou que os únicos amigos próximos que Dean tinha eram Elmer Wayne e David Brooks, e nenhum deles, ao menos aparentemente, parecia um provável candidato a assassinar o homem mais velho.

Wayne HenleyNascido em 9 de maio de 1956, em Houston, Wayne Henley era um jovem de apenas 17 anos e cheio de espinhas, que abandonara a escola e tinha problemas com bebida. Ele era produto de um lar destroçado e provia o sustento de sua mãe e três irmãos – seu pai era um abusador que enchia a cara de álcool e batia na esposa e filhos. Ele saiu de casa quando Henley tinha 14 anos, então o adolescente passou a sustentar a casa. Trabalhando dia e noite, havia pouco ou nenhum tempo para a educação. Antes de abandonar a escola, aos 15 anos, ele conheceu David Brooks, um ano mais velho, e os dois se tornaram amigos bastante próximos, frequentando piscinas públicas, fumando maconha e cheirando spray acrílico. Henley tentou se alistar no exército, mas foi rejeitado por ter abandonado o ensino médio e carecia de instrução suficiente para ser admitido. De suas saídas com Brooks, Henley tomou conhecimento que seu amigo passava bastante tempo na companhia de um homem mais velho: Dean Corll.

David Owen Brooks

David Owen Brooks nasceu em Beaumont, Texas, em 1955. Como Wayne Henley e Dean Corll, ele era fruto de um lar desfeito. Seus pais se divorciaram em 1960, quando David tinha apenas cinco anos. Ele passava parte do tempo em Houston com seu pai e o resto com a mãe em Beaumont. Em meados dos anos 60, quando tinha 10 ou 11 anos, Brooks descobriu a fábrica de doces de Corll, que ficava de frente a uma escola primária. Ele adorou Corll, um cara mais velho que não o chamava de mariquinhas, como o seu pai. Tempos mais tarde ele confessaria que Corll foi o primeiro adulto que ele conheceu e que “não tirava onda com a minha cara“. Mas Corll não era um anjo. Ele se aproximou de Brooks, uma criança, para extravasar seus desejos mais obscuros. Ele persuadiu o inocente Brooks a abaixar sua cueca e fez sexo oral nele. Como citado, David aceitou tal relação porque Dean se tornou sua figura paterna, cuidando dele, dando dinheiro a ele quando precisava e deixando ele ficar em sua casa quando brigava com o pai. “Um homem como Corll pode ter uma influência muito grande sobre um garoto jovem e inseguro”, relatou mais tarde o advogado de David, Jim Skelton. Apesar do divórcio dos pais, David tinha um futuro promissor como estudante, tirando notas excelentes na escola primária. Então, no ensino médio, suas notas despencaram. Por volta dessa época, ele começou a andar com seu conhecido de infância, Dean Corll. Brooks tinha tanto apego a Corll que abandonou o ensino médio só para passar o tempo livre com ele. Foi David Brooks quem apresentou seu amigo de idade, Wayne Henley, ao “tiozão” boa praça Dean Corll.

David, Wayne e Dean frequentemente eram vistos juntos na casa de Dean, passeando na van dele ou encontrando outros garotos nos vários lugares que frequentavam. O autor Jack Olsen, em seu livro “The Man With the Candy” [O Homem com os Doces, em tradução livre], descreveu a situação:

“Corll e os dois garotos formavam um trio improvável; no começo dos anos 70, ele era trintão e os garotos estavam na metade da adolescência. Eles pareciam não ter nada em comum… para a maioria das pessoas no Heights, o estranho trio era visto apenas como um falcão é visto às vezes na mata: em uma silhueta rápida, ou como uma sombra oculta, passando rapidamente. Individualmente, Corll, Henley e Brooks eram discretos; eles eram considerados perdedores, zeros à esquerda na sociedade adolescente. Como um trio, o velho princípio matemático se aplicava: zero vezes zero é igual a zero”.

Então a polícia chegou à uma conclusãoDean Corll era um trintão, homossexual reprimido, que parecia não ter vivido os prazeres da adolescência – provavelmente por ser gay em uma época (e local) conservadora. Em dado momento ele conheceu os adolescentes Henley e Brooks e o trio passou a andar junto, se tornando uma relação comensal onde Henley e Brooks ganhavam dinheiro de Corll em troca de garotos trazidos pela dupla adolescente para uma noite de diversão com o dono da casa. Mais do que isso, Henley e Brooks se tornaram “assistentes” de Corll. Em que sentido? Dean tinha um sensacional Plymouth GTX, carro que Henley e Brooks usavam (às vezes era uma Van branca) para atrair outros adolescentes como eles para um passeio e uma esticada na casa de Corll para beberem cerveja. Depois de levar os garotos para a casa de Dean, Henley e Brooks ajudavam Corll em seus desejos sádicos: despir as vítimas, amordaçarem-nos, amarrarem suas mãos e pernas e algemá-los na mesa de tortura. Mais do que estupro e tortura, os garotos eram brutalmente assassinados pelo trio. Muitas vezes eles obrigavam as vítimas a escreverem cartas para os pais ou até mesmo ligar para eles, afirmando que voltariam em breve.

As primeiras vítimas


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“Eu não podia simplesmente ir embora. Se eu não estivesse por perto, eu sabia que Dean iria atrás de um dos meus irmãos pequenos, pois ele gostava deles.”

[Wayne Henley]

Como citado no início do post, existe uma característica comum em inúmeros casos de assassinatos em série mundo afora: o de pessoas, principalmente adolescentes, desaparecerem e a polícia concluir que eles simplesmente fugiram de casa. Assim aconteceu no caso Dean Corll em Houston no começo dos anos 70. A cidade estava crescendo rapidamente e simplesmente não haviam policiais suficientes para manter as taxas de criminalidade sob controle. Pessoas desaparecidas eram algo menosprezado, especialmente se a pessoa fosse um jovem de um bairro complicado. O Heights era um desses bairros, uma velha região da cidade que tivera o seu apogeu no final do século XIX, mas que agora estava velha e abandonada após a Segunda Guerra.

Uma enorme tragédia se iniciou silenciosamente no Heights em 29 de maio de 1971. David Hilligiest, 13 anos, e seu amigo Gregory Malley Winkle, 16 anos, não voltaram de um passeio à piscina da vizinhança. De acordo com o autor Jack Olsen, a polícia informou aos Hilligiest que:

“Os tempos tinham mudado. Garotos estavam fugindo dos melhores lares, e disseram que teriam que listar David na classificação de fugidos. Não, não haveria uma busca oficial pela criança, mas se ele fosse visto durante o horário escolar, seria detido e interrogado. Era tudo que a lei permitia”.

Um fugido não era um criminoso. Os pais de Malley fizeram um esforço hercúleo para descobrir o que acontecera aos garotos. Naquela noite, a Sra. Winkel recebeu uma ligação muito estranha de Malley pouco antes da meia-noite. Quando ela indagou onde ele estava, houve uma longa pausa.

“Estamos em Freeport, mãe. Eu liguei para te avisar onde estou”.

Ela ficou muito brava por ele estar a 96 quilômetros de Houston e perguntou o que ele estava fazendo e com quem estava. Ele lhe contou que estava nadando com alguns garotos, mas que eles o deixariam em casa depois. No dia seguinte, ela soube que Malley e David tinham sido vistos numa van branca, mas nenhum de seus amigos sabia o que lhes tinha acontecido.

Os Hilligiest dirigiram até Freeport para procurar os garotos, distribuíram panfletos, ofereceram uma recompensa e até contrataram um detetive particular com seus parcos recursos, mas não houve resultado.

Um dos amigos de David, Wayne Henley, apareceu na casa dos Hilligiest se oferecendo para afixar os cartazes que os pais tinham impresso. Os filhos mais novos dos Henley brincavam com os irmãos mais novos de David.

Alguns meses depois, em 17 de agosto, Ruben Watson, de 17 anos, ganhou dinheiro da avó para ir ao cinema e disse à mãe que a veria quando ela voltasse do trabalho, às 19h30, mas nunca fez isso.

Dez meses depois, em 24 de março de 1972, o namorado de Rhonda, Frank Aguirre, terminou seu turno no Long John Silver’s restaurant e disse à mãe que estaria em casa às 22h. Ele também ligou para Rhonda e disse que estava a caminho da casa dela. Ela esperou do lado de fora, mas ele não apareceu. Ela foi até a esquina e percebeu que o carro de Frank tinha sumido. Rhonda voltou para casa e continuou esperando, mas ele nunca chegou. Em vez disso, ele desapareceu.

Meses depois, quando Rhonda e alguns de seus amigos estavam no Long John Silver’s depois da escola, Wayne Henley entrou no restaurante procurando por Rhonda. Ele a levou para um canto e lhe disse para parar de achar que Frank voltaria. Wayne lhe contou que Frank havia se metido em alguns problemas com gente barra-pesada e que eles o tinham levado. Wayne disse que não podia contar mais do que aquilo, porque tinha medo daquelas pessoas e estava se arriscando ao falar com ela sobre Frank. Então Wayne deixou o restaurante e entrou na van de Dean Corll.

O adolescente Wayne Henley (ao fundo) e Dean Corll. Foto: Houston Press.

O adolescente Wayne Henley (ao fundo) e Dean Corll. Foto: Houston Press.

Sem vestígios


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“Eu não sei se eu iria cumprimentá-lo e dizer ‘Obrigado’ ou descer o cacete nele”.

[Tim Kerley, sobre Wayne Henley ter salvo sua vida ao atirar em Dean Corll]

Quatro amigos do mesmo bairro desapareceram sem deixar vestígios. Suas famílias e amigos sabiam que eles não haviam fugido, mas e a polícia? Para eles aquilo era outra história. Eles foram considerados fugidos e aquele foi o fim do envolvimento das autoridades.

Mas para as famílias do Heights não terminou aí. Em 21 de maio de 1972, Johnny Delome, de 16 anos, desapareceu juntamente com seu amigo de 17 anos, Billy Baulch. Três dias depois do desaparecimento, o Sr. Baulch recebeu uma carta de Madisonville, Texas, a 112 quilômetros de Houston:

“Querida mamãe e papai, me desculpem por fazer isso, mas Johnny e eu encontramos um emprego melhor trabalhando com carga e descarga de caminhões de Houston a Washington e voltaremos em três ou quatro semanas. Daqui a uma semana eu mandarei dinheiro para ajudar você e a mamãe. Com amor, Billy”.

Os Baulch não ficaram aliviados ao ler a carta. Embora o endereço no envelope tivesse a caligrafia de Billy, a carta em si havia sido escrita para parecer com a caligrafia de Billy ou ele havia sido coagido a escrevê-la. Porém, mais sinistro do que aquilo, era o fato de o Sr. Baulch, que era caminhoneiro, saber que não existia um emprego como aquele descrito na carta.

A família de Johnny também recebeu uma carta semelhante cuja caligrafia acreditava ser de Johnny, mas a ortografia era tão perfeita que eles souberam que ele não fizera aquilo sozinho.

A polícia não foi de grande ajuda, então os Baulch tentaram procurar pistas por contra própria. Enquanto eles recapitulavam incidentes suspeitos no passado do filho, eles lembraram que David Brooks havia dado a Billy algumas drogas, fato que eles reportaram à polícia. Eles também recordaram que Dean Corll, amigo de Brooks, costumava com frequência receber Billy e outros jovens do bairro em sua casa.

Quando a Sra. Baulch perguntou a Billy o que ele e os outros garotos faziam por horas na casa de Dean Corll, ele lhe disse:

“Nós ouvimos música e assistimos televisão, e Dean nos mostra coisas. Uma vez ele nos mostrou as algemas dele. Estávamos lá com alguns outros garotos, David Brooks e mais alguém, e eles começaram a brincar com as algemas e as colocaram em um dos garotos, e Dean não conseguia achar a chave. Parecia que ele nunca acharia a chave para retirá-las”.

Quando o pai de Billy soube disso, ele ficou bastante contrariado.

“Não é normal um homem daquela idade ficar brincando com garotos jovens”.

Os Baulch começaram a procurar o Homem do Doce. Quando o encontraram, Dean Corll foi educado e respeitoso, mas disse não ter ideia de onde Billy e Johnny estavam ou teriam ido.

De forma quase inacreditável, variações desta história se repetiram por quase um ano até agosto de 1973. Ainda assim, ninguém compreendeu a magnitude da tragédia que se desenrolava. Isto é, até Wayne Henley descarregar um revólver em Dean Corll e levar a polícia até a garagem de barcos.

Um dia após Wayne Henley descarregar um revólver em Dean Corll, a polícia escava uma garagem de barcos alugada pelo Homem do Doce a procura de corpos. Data: 9 de Agosto de 1973. Foto: Greg Smith/Houston Post.

Um dia após Wayne Henley descarregar um revólver em Dean Corll, a polícia escava uma garagem de barcos alugada pelo Homem do Doce a procura de corpos. Data: 9 de Agosto de 1973. Foto: Greg Smith/Houston Post.

A garagem de barcos


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“A polícia de Houston desenterrou ontem mais quatro corpos, o que eleva para 23 o número de jovens assassinados depois de torturados por um maníaco sexual de 34 anos e dois amigos seus, um de 17 e outro de 18 anos”.

[Jornal do Brasil, 11 de Agosto de 1973]

Wayne Henley alegou que Corll havia assassinado vários garotos e enterrado três deles em uma garagem de barcos distante vários quilômetros de Houston. No fim da tarde, ele guiou os policiais (e alguns presos de bom comportamento) para uma rua chamada “Silver Bell”, até uma garagem de barcos de nome “Southwest Boat Storage”. A garagem de Dean era o número 11. O autor John K. Gurwell descreveu a cena:

“A garagem não tinha janelas, e os oficiais se moveram lentamente enquanto acostumavam os olhos à escuridão do interior. Dois carpetes desbotados cobriam o chão de terra, estendendo-se da entrada por 3,5 metros. Um era verde, o outro azul. Do lado de dentro, à esquerda, havia uma enorme caixa de papelão vazia. A carcaça meio desmontada de um carro, coberta por uma lona, estava no fundo à direita… atrás do barril no canto estava um saco plástico, e dentro dele um saco de cal vazio”.

No calor ardente de agosto, os presos que a polícia levou para a escavação encontraram uma camada de cal. O suor escorria pela pele dos presidiários enquanto eles cavavam a camada branca de cal. Alguns centímetros depois, emergiu um cobertor plástico, que envolvia o corpo despido de um garoto de aproximadamente 13 anos.

“É minha culpa”, choramingou Wayne para os investigadores.

Não posso deixar de me sentir culpado, é como se eu mesmo tivesse matado esses garotos. Eu causei a morte deles. Eu os levei direto para Dean”.

Abaixo do primeiro corpo havia um esqueleto. Então, quando eles cavaram à direita da primeira cova, os corpos de mais dois adolescentes foram encontrados. Um havia sido baleado e o outro estrangulado.

A proprietária do lugar, Mayme Meynier, contou à polícia como Dean Corll parecia ser uma ótima pessoa. Ele usou a garagem por quase três anos e a visitava várias vezes por semana. Embora ela não soubesse o que havia lá dentro, Corll lhe disse que precisava alugar um espaço adicional, por estar “quase cheio“.

À medida em que os corpos eram revelados, a imprensa tomou conhecimento da descoberta e compareceu em massa. À meia noite, cadáveres de oito vítimas já haviam sido recuperados. Jack Olsen capturou o horror da polícia em uma frase:

“Todos eles tinham visto a morte, mas nenhum havia presenciado a transfiguração por atacado de jovens brincalhões em sacos fedorentos de carniça”.

No final do primeiro dia, os Hilligiest, a Sra. Winkle e outros pais entenderam o porquê de seus filhos terem desaparecido misteriosamente.

Reportagem do Jornal do Brasil. Data: 11 de Agosto de 1973.

Reportagem do Jornal do Brasil. Data: 11 de Agosto de 1973.

A confissão de dois adolescentes


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“O primeiro assassinato que eu lembro aconteceu quando Dean estava morando em Yorktown. Tinha dois garotos lá e eu fui embora antes deles serem mortos. Mas Dean me disse que os havia matado. Eu não sei onde eles foram enterrados ou quais eram seus nomes… O primeiro assassinato que eu lembro estar presente foi na 6363 San Felipe. O garoto era Ruben Haney [Watson]. Dean e eu fomos os únicos envolvidos neste. Mas Dean o matou. Eu estava apenas presente quando aconteceu.

Eu também lembro de dois garotos que foram mortos no prédio Place One em Mangum. Eles eram irmãos e o pai deles trabalhava ao lado, em uma construção. Eu estava presente quando Dean os matou estrangulando-os, mas novamente eu não participei. Eu acredito que estava presente quando eles foram enterrados, mas eu não lembro onde eles foram enterrados. […] Eu me lembro de um garoto que foi assassinado em Columbia na casa de Dean. Isto foi antes de Wayne Henley [antes de Wayne Henley se juntar a eles]. Dean manteve esse garoto vivo por quatro dias antes de matá-lo. Eu não lembro seu nome, mas nós o pegamos na Eleventh and Rutland. Eu lembro que eu ajudei a enterrá-lo também, mas não me lembro onde. Eu realmente me entristeci por Dean ter matado este garoto porque ele realmente gostava dele […]

Foi por volta da época em que morávamos na Columbia Street que Wayne Henley se envolveu. Wayne tomou parte na questão de pegar garotos e depois teve papel ativo nos assassinatos. Wayne parecia gostar de causar dor e ficou especialmente sádico em Schuler [rua onde Dean Corll morou e matou garotos]. A maioria dos assassinatos que ocorreram após Wayne aparecer envolveu nós três […] Eu estava presente quando Mark Scott foi morto no endereço da rua Schuler. Mark tinha uma faca e tentou pegar Dean. Ele balançou a faca e rasgou a camiseta de Dean, riscando sua pele. Ele tinha uma mão amarrada na mesa e Dean agarrou a mão com a faca. Wayne correu e pegou o revólver, e Mark apenas cedeu. Wayne o matou, acho que estrangulado. Mark foi enterrado na praia ou na garagem de barcos […]

Foi em Schuler que Wayne e Dean tentaram me pegar e matar. Eu implorei para Dean não me matar e ele me deixou ir […] No total, eu acho que tem entre 20 e 30 garotos assassinados e todos eles estão enterrados em três lugares diferentes. Eu estive presente e ajudei a enterrar vários deles, mas não todos. A maioria foi enterrada na garagem de barcos. Três ou quatro estão enterrados em Sam Rayburn […] O terceiro local é a praia em High Island […] Eu me arrependo de que isto tenha acontecido e sinto muito pelos familiares dos meninos.”

[Trecho da confissão de David Brooks. Retirado do livro The Man with Candy, de Jack Olsen. Páginas 159 a 162]

No dia seguinte, de posse de oito corpos, a polícia interrogou Wayne Henley novamente. A coisa estava séria demais e eles queriam a história completa. Inicialmente, Wayne disse não ter envolvimento nos assassinatos, mas que era uma testemunha das atrocidades que Corll cometera. Quando ele soube que David Brooks havia confessado, então ele revelou seu total envolvimento.

Emergiu-se, então, uma terrível história de traição, tortura, mutilação e assassinato. Wayne finalmente admitiu que tomara parte no sadismo e homicídio, bem como na busca por novas vítimas para Corll.

Em suas confissões, Henley e Brooks mencionaram os nomes de muitos dos adolescentes que eles ajudaram a matar, vários dos quais eram amigos, incluindo o amigo de infância Mark Scott. Eles admitiram ter ajudado Corll a carregar os corpos até seu carro ou van e cavado os buracos onde enterraram várias vítimas. Em uma manhã, Brooks confessou, ele e Henley passaram várias horas pescando no reservatório Sam Rayburn antes de tirar um cadáver da van de Corll, cavar um buraco e enterrá-lo.

As vítimas em potencial precisavam ser jovens e bonitas. Corll, Henley e Brooks os recrutariam individualmente ou em trio. Eles planejavam festas regulares com álcool e maconha. O mais assustador era que Henley e Brooks recrutavam seus amigos, amigos de infância e de longa data, sabendo muito bem que estes amigos seriam torturados e mortos. Alguns dos garotos haviam sido castrados; outros tiveram o pênis mutilado por Corll a mordidas; já outros foram espancados até a morte. 

Mas as torturas variavam. Corll podia começar puxando os cabelos púbicos dos garotos, um a um, arrancando com uma pinça, se deleitando com os gritos de dor das vítimas. Então ele enfiava uma fina vara de vidro pela uretra do pênis ou colava um grande retângulo de borracha no reto da vítima.

“Dean fodia todos eles e às vezes os chupava e fazia eles chuparem ele. Então os matava”.

[Wayne Henley]

“Dirigindo com Corll uma tarde, Henley viu um adolescente de cabelos longos, perguntou a ele se ele queria fumar maconha, e logo o garoto estava no carro. Eles foram até o apartamento de Corll, então Henley foi embora. No dia seguinte, Corll deu $200 dólares a Henley. ‘Um dia ou dois depois eu descobri que Dean matou o garoto’, disse Henley em sua confissão. ‘Descobri que Dean comeu o cu dele e depois o matou’.”

[Texas Montlhy, The Lost Boys]

Uma das técnicas para subjugar os adolescentes, Henley descreveu como “o jogo das algemas”. Era a mesma “técnica” usada pelo palhaço assassino John Wayne Gacy, que seria preso cinco anos depois em Chicago, também por matar adolescentes. Foi essa a estratégia usada contra Frank Aguirre, o namorado de Rhonda e amigo de longa data de Henley. “Vamos ver quem consegue algemar as mãos e tirar sozinho?” Quando Aguirre colocou as algemas, Corll o arrastou até o quarto e, de acordo com Henley, “teve a sua diversão com ele“. Após Aguirre ser estrangulado, Corll, Brooks e Henley o enterraram na praia em High Island. Mais uma vez, os “assistentes” receberam um punhado de dólares como recompensa.

No final do segundo dia de investigação, a contagem de corpos subiu para 17. Tanto Henley quanto Brooks foram instruídos a fazer uma lista de cada garoto do qual se recordavam. Henley, que nunca parava de falar, contou à polícia que vários garotos foram enterrados perto de Lake Sam Rayburn e na praia de High Island. Uma viagem foi imediatamente planejada para estes locais. Vários corpos foram descobertos rapidamente, mas como era tarde, as escavações tiveram que esperar o dia seguinte.

Reportagem do Jornal do Brasil. Data: 11 de Agosto de 1973.

Reportagem do Jornal do Brasil. Data: 11 de Agosto de 1973.

Reportagem da Folha de São Paulo sobre o caso. Data: 12 de Agosto de 1973.

Reportagem da Folha de São Paulo sobre o caso. Data: 12 de Agosto de 1973.

O caso, obviamente, tomou de assalto não apenas a mídia americana como a de todo o mundo. Do Brasil à União Soviética. Do Japão ao Vaticano. Em seu jornal diário, L’Osservatore Romano, o Vaticano escreveu que os crimes em Houston pertenciam ao “domínio do demônio“. Já o Izvestia, principal jornal do governo da Rússia soviética, cutucou, afirmando que os crimes aconteceram devido à “indiferença e burocracia assassina” presentes no mundo capitalista.

Nos dias seguintes, 17 corpos foram encontrados na garagem de barcos e antes de a investigação ser concluída, os corpos de 27 garotos haviam sido desenterrados, tornando-se o maior caso de homicídio em série da história americana até então, batendo o recorde existente de 25 vítimas de Juan Corona [no total, Corll assassinou 28 garotos – um dos corpos nunca foi encontrado]. O infame número de Dean Corll seria batido cinco anos depois pelo Palhaço Assassino John Wayne GacyAlguns dos corpos estavam cobertos com uma camada de cal e envoltos em plástico transparente. Outros não eram mais do que pedaços de carne putrefato. Alguns ainda tinham fita adesiva em suas bocas, outros cordas de nylon enroladas nos pescoços ou furos de bala na cabeça. Um dos garotos foi enterrado em posição fetal.

Algumas das vítimas mais recentes foram rapidamente identificadas. Um dos encontrados na garagem de barcos, Marty Jones, que havia sido assassinado no final de julho de 1973, era primo do detetive Karl Siebeneicher, da homicídios de Houston. Devastado pela morte de Jones, Siebeneicher cometeria suicídio quatro anos depois. Outros corpos só foram identificados porque continham o cartão do seguro social ou carteira de motorista. Jimmy Glass foi reduzido a um esqueleto, e sua família o identificou porque sua jaqueta de couro também foi enterrada com o corpo. Já outros corpos só foram identificados décadas depois através do DNA.  

Wayne Henley, sentado e com as mãos na cabeça, é questionado pelo detetive Karl Siebeneicher em frente a garagem de barcos. Foto: David Nance, Houston Chronicle.

Wayne Henley, sentado e com as mãos na cabeça, é questionado pelo detetive Karl Siebeneicher em frente a garagem de barcos. Foto: David Nance, Houston Chronicle.

Presidiário cava na garagem de barcos à procura de corpos. No carrinho de mão, o crânio da décima vítima desenterrada. Data: 9 de Agosto de 1973. Foto: Chron.

Presidiário cava na garagem de barcos à procura de corpos. No carrinho de mão, o crânio da décima vítima desenterrada. Data: 9 de Agosto de 1973. Foto: AP.

A terra cavada revela um cadáver envolto em saco plástico. Foto: tapatalk.

A terra cavada revela um cadáver envolto em saco plástico. Foto: tapatalk.

Os restos mortais de Joseph Lyles, desenterrado da garagem de barcos. Foto: tapalk.

Os restos mortais de uma das vítimas, desenterrado da garagem de barcos. Foto: tapalk.

Wayne Henley e David Brooks em High Island durante buscas por mais corpos. Foto: Corbis.

Mais Vítimas

“Alguns serial killers se dedicam a trabalhos tão contrastantes com suas naturezas perversas que beiram o grotesco. Um caso marcante foi o de Dean Corll, assassino sexual de Houston, Texas. Corll, que parecia um cruzamento bizarro de Willy Wonka com o Marquês de Sade, trabalhava na fábrica de doces da mãe. Amado pelas crianças da vizinhança por distribuir guloseimas, era chamado de ‘Homem dos Doces’.”

[Harold Schechter, Serial Killers – Anatomia do Mal. DarkSide Books, 2013]

Foram apenas 28 garotos? Um dos corpos encontrados em High Island foi identificado como Jeffrey Konen, um universitário da Universidade do Texas que morava em Austin. No caso Konen, Corll não teve a ajuda de seus cúmplices. Se Corll matou sozinho, não seria provável que tivesse abatido outros por conta própria? Quem garante que ele começou a matar apenas depois dos 30? De 1968 a 1970, milhares de pessoas desaparecidas de Houston tiveram seus familiares preenchendo registros no Departamento de Polícia de Houston, centenas delas eram adolescentes. Estudiosos do caso Corll afirmam que vários desses adolescentes desaparecidos sumiram porque cruzaram seu caminho com o de Corll.

O quintal da casa de Corll em Pasadena foi escavado, assim como buscas foram realizadas na antiga fábrica de doces de sua mãe. Antigos funcionários da fábrica lembram que Corll sempre cavava atrás da fábrica, onde posteriormente ele cimentou. Testemunhas também afirmaram que durante muito tempo viram Corll cavar em uma região onde posteriormente foi construído um estacionamento. Mas apenas uma semana após a descoberta dos primeiros corpos, as autoridades cancelaram as escavações. O xerife do Condado de Chambers, que supervisionou as escavações em High Island, disse, sem dar maiores explicações, que ele decidiu parar as buscas por conta própria. A não ser que ele recebesse informações concretas sobre a localização de covas, ele não iria perder o seu tempo. Aparentemente, ele não considerou o fato de que Brooks e Henley passaram a andar com Corll apenas em 1970; Corll poderia muito bem ter começado sua onda de matança muito antes. Larry Earls, que na época era um jovem detetive da homicídios, disse ao Texas Monthly em 2011 que “Isso sempre me incomodou. Henley e Brooks nos disseram que eles acreditavam existir mais corpos e que poderiam nos dar dicas de outros lugares para cavar, mas nos disseram não“.

Bob Wright, repórter de rádio em Houston na época, relatou, também ao Texas Monthly, que um detetive que trabalhou no caso lhe disse que as escavações foram interrompidas no momento em que a contagem de corpos ultrapassou o recorde de Juan Corona. Políticos, empresários, a maçonaria e outros poderosos teriam feito pressão para parar as buscas, pois estavam preocupados com o quão alto poderia ser o número de vítimas – isso arruinaria a reputação da cidade, podendo prejudicar os negócios. Superar o recorde do californiano Juan Corona em um ou dois corpos era até aceitável, mas seria humilhante e desastroso para todos se esse número passasse de 40 ou 50.

“Superou o sepultamento em massa total de Juan Corona em 1971, então, inexplicavelmente, as buscas foram terminadas”

[Serial Killer Quarterly – Katherine Ramsland]

Justiça


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“Ele apontou [a arma] para Dean e disse: ‘Não posso aguentar mais. Eu não posso deixar você matar todos os meus amigos’. E ele atirou nele. Qualquer que fosse o demônio em Wayne, ainda havia algo de bom nele, e finalmente o bem ganhou. Wayne salvou a minha vida, e ele salvou a vida de Tim também. Wayne matou o diabo”.

[Rhonda Williams]

Wayne Henley fez justiça com Dean Corll em 8 de agosto de 1973, quando atirou no serial killer em legítima defesa. Em “Serial Killer Quarterly Vol.1 No.2 – Partners in Crime“, Katherine Ramsland revela que após ser desafiado por Corll a matá-lo, Henley engoliu seco, pensou por alguns segundos, mirou bem na cabeça de Corll e disparou um tiro que atingiu a sua testa. O serial killer se afastou um pouco e, como aqueles vilões de filmes de terror, começou a andar para frente novamente. Em choque pelo o que estava vendo, Henley lembrou de uma antiga lição de seu guru: se você quer matar alguém a tiros, continue atirando até ele cair no chão. Então Henley atirou mais duas vezes, atingindo o ombro esquerdo de Corll, que cambaleou para trás, se virou e passou pela porta em direção ao corredor. Henley atirou mais três vezes, atingindo-o nas costas.

“Corll fez um barulho esquisito, bateu na parede e escorregou para o chão. Henley olhou para ele, atordoado. O Homem dos Doces – seu mentor e amigo – estava morto. Seu corpo nu ficou esparramado no corredor. “

[Serial Killer Quarterly – Katherine Ramsland]

O corpo de Dean Corll perto de uma parede. Ele foi morto com seis tiros pelo adolescente Wayne Henley na madrugada de 8 de agosto de 1987. Foto: Pasadena Police Department.

O corpo de Dean Corll perto de uma parede. Ele foi morto com seis tiros pelo adolescente Wayne Henley na madrugada de 8 de agosto de 1973. Foto: Pasadena Police Department.

Segundo Wayne e David Brooks, eles já cogitavam matar Corll porque tinham medo dele e de que tivesse ficado louco. Eles se consideravam vítimas em potencial e temiam não perceber a tempo de escapar. Além disso, Dean estava agindo estranhamente e eles receavam que sua crescente necessidade por novas vítimas, assim como sua selvageria nos últimos assassinatos, significasse uma ameaça à segurança deles. E, no final, estavam certos, pois Henley, seu amigo Tim, e sua amiga Rhonda, quase se tornaram a vigésima nona, trigésima e trigésima primeira vítimas do serial killer.

Apesar de confessarem participação na tortura e assassinato de inúmeras vítimas, nem Henley nem Brooks eram candidatos prováveis para as recém-definidas regras da pena capital no Texas. A legislação não previa que o homicídio cometido durante qualquer conduta seria punido com a morte, apenas em caso de sequestro, roubo, arrombamento, estupro e incêndio.

Os 12 jurados que indiciaram Henley e Brooks por assassinato publicaram um documento explosivo criticando a polícia e o promotor da cidade, afirmando que a investigação deles deixou gargalos. Alguns dos jurados estavam tão ultrajados que eles mesmo conduziram investigações por conta própria, dirigindo por Houston, entrevistando testemunhas e tentando encontrar pistas de outros locais de desova usados por Corll.

Wayne Henley durante audiências para o seu julgamento.

Wayne Henley durante audiências para o seu julgamento.

Em 1974, Wayne Henley foi condenado por homicídio nas mortes de seis garotos e foi sentenciado a seis penas consecutivas de 99 anos. Em 1975, David Brooks foi condenado por homicídio na morte de um garoto de 15 anos e sentenciado à prisão perpétua. Dois adolescentes que não tinham 18 anos direito com seus destinos traçados para o resto de suas vidas.

Pela lei, a cada três anos eles se apresentam para uma audiência de liberdade condicional. Os pais de Mark Scott, que foi assassinado na série de homicídios, enterrado em High Island, e cujos restos mortais nunca foram encontrados, compareceram a cada audiência para garantir que o conselho de liberdade condicional nunca os liberte.

Wayne Henley se dedicou à arte na prisão e pinta flores e outros temas não violentos. O oferecimento de suas pinturas e outros itens pessoais no eBay causou uma onda de protestos na cidade de Houston e em outros lugares. Diferentemente de outros estados, o Texas não tem uma lei como “O Filho de Sam”, que impede criminosos de lucrarem com livros, pinturas e outros objetos que se tornam populares por causa de sua notoriedade criminal.

História sem fim


A ressaca do caso Corll foi enorme. O governador do Texas na época, Dolph Briscoe, apelou para todos os adolescentes fugidos do estado que contactassem seus pais para deixá-los saber que estavam “vivos e bem“. Já um jovem senador do Minnesota, Walter Mondale, pediu para o Congresso disponibilizar $30 milhões de dólares durante três anos para construir um sistema nacional de casas de apoio para adolescentes fugidos, de modo que eles tivessem um lugar seguro para dormir, diminuindo as chances de terminarem nas mãos de assassinos como Corll. Já na Califórnia, quando um senador conservador descobriu que um texto sobre educação sexual usado nas escolas do estado – Human Sexuality -, escrito por um psicólogo da Universidade de Houston, foi encontrado entre os pertences de Corll, ele escreveu para o governador (e futuro presidente) Ronald Reagan, pedindo para que o livro fosse banido das escolas da Califórnia, em parte porque sugeria que a homossexualidade não era um comportamento anormal. “Talvez você devesse fazer uma viagem ao Texas. Pergunte aos familiares dos 27 garotos se engajar em expressões sexuais incomuns deve ser considerado anormal“, escreveu ele.

Em Houston, nos diversos bairros da cidade, líderes comunitários, afirmando que seria possível que “outros pervertidos sexuais” estivessem operando na cidade, circularam petições pedindo para que a prefeitura impusesse um toque de recolher à noite para adolescentes. O que eles esqueceram: a maioria das vítimas de Corll foram pegas durante o dia. Os homossexuais também tiveram uma vida dura. Numa ação completamente amadora, o xerife da cidade, acreditando estar trabalhando para evitar novos crimes do tipo, ordenou que policiais frequentassem bares gays e fossem linha dura. “Eles achavam que todos nós éramos molestadores de crianças e assassinos“, relatou Ray Hill, um dos primeiros ativistas gays de Houston e um dos mais famosos dos Estados Unidos.

  • Tim

Tim Kerley tornou-se um adulto rancoroso e alcoólatra. Durante 35 anos ele se manteve em silêncio, não comentando sobre o caso nem mesmo com a sua família. Mas em 2008 ele deu a sua única entrevista após o ocorrido para o Eyewitness News de Houston: “Houve uma batalha entre o bem e o mal naquele quarto. E o bem venceu. Talvez as famílias das vítimas tenham algum alento. Nós o pegamos. Você sabe, ele está morto. Ele está morto e o outro na penitenciária para sempre”, disse ele. Seis meses após a entrevista, em março de 2009, deprimido e viciado em álcool, Kerley faleceu aos 55 anos de ataque cardíaco.

  • Rhonda

Após a noite de horrores na casa de Corll, Rhonda foi renegada pelo pai, “Você envergonhou a família e nunca mais voltará para casa“, disse ele para ela quando Rhonda ainda estava na delegacia. Um juiz de uma corte juvenil mudou seu sobrenome (de Williams para Griffin), a enviou para uma nova escola e a orientou a nunca mais falar sobre a fatídica noite. Funcionou por um tempo, mas os pensamentos sobre o ocorrido nunca foram embora e ela passou a frequentar cemitérios para colocar a cabeça no lugar – a tranquilidade do lugar a acalma. Quarenta anos depois, Rhonda rompeu o silêncio e deu uma entrevista para o Houston Press. Falou sobre sua infância difícil, sobre o seu primeiro namorado, Frank Aguirre, uma das vítimas de Corll, e alguém que ela nunca esqueceu, além dos eventos na casa de Corll. Em 2005, Rhonda visitou Wayne na prisão pela primeira vez. Ela fez perguntas que a mãe de Wayne não gostou, “Eu disse a ela, ao invés de questionar Wayne e criar problemas, por que ela não pensa sobre a sua vida, sobre a vida que ela teve, e como a vida dela foi salva por ele. Então deixe-o em paz“, disse Mary Henley na reportagem do Houston Press. Atualmente, Rhonda mora no Colorado.

Rhonda Williams. Data: 10/2014. Foto: Houston Press.

Rhonda Williams. Data: 10/2014. Foto: Houston Press.

  • Wayne

Wayne Henley tem hoje 61 anos e continua preso no Texas. Sua próxima audiência de liberdade condicional acontecerá em outubro de 2025. Em 1994, sob sugestão de um vendedor de arte de Louisiana, Henley começou a pintar como hobby. “Tudo o que eu peço é que olhem meu trabalho primeiro, pode ser a minha única contribuição para a sociedade“, disse Henley após uma exibição dos seus quadros ter sido organizada e depois cancelada. Em 1997, uma galeria de Houston exibiu os seus quadros, o que causou fúria nos familiares das vítimas. Em 2016, Henley foi notícia novamente após ter criado uma página no Facebook.

Wayne Henley, dando uma entrevista na prisão em 2008.

Wayne Henley, dando uma entrevista na prisão em 2008.

  • David

Encarcerado desde 1975, já teve sua liberdade condicional negada 21 vezes. No início de 2018, ele novamente será elegível para sair da cadeia, o que provavelmente nunca ocorrerá. Diferentemente de Wayne Henley, Brooks se tornou um recluso na prisão, não aceitando dar nenhuma entrevista.

  • o único sem nome

Várias das 28 vítimas de Corll foram identificadas apenas décadas depois devido aos avanços do DNA. Roy Eugene Bunton desapareceu em 1971 e nunca foi ligado ao caso. Em 2009, sua irmã entrou em contato com as autoridades de Houston e disse acreditar que ele era uma das vítimas ainda não identificadas. Revisando o caso, o médico-legista de Houston descobriu um erro terrível: o corpo que em 1973 havia sido identificado como sendo de Michael Baulch, na verdade era o de Bunton. A confirmação final veio com exames de DNA feitos em 2011. Em 2008, o DNA identificou os restos mortais de Randell Harvey, sumido em 1971. Ele morreu com um tiro no olho disparado por Henley. Em 2009, outra identificação positiva foi feita para os restos mortais de Joseph Lyles, cujo esqueleto foi descoberto em High Island em 1983. Em setembro de 2010, análises de DNA confirmaram a identificação de Michael Baulch, que erroneamente havia sido identificado como o segundo corpo desenterrado da garagem de barcos. Outro erro aconteceu na identificação de Steven Sickman. Inicialmente, os restos mortais de Sickman, retirados da garagem de barcos, foram identificados como sendo de Mark Scott, entretanto, Wayne Henley garantiu que Mark Scott foi enterrado em High Island em “posição fetal, com a cabeça para cima“. Novos exames em 2011 confirmaram o erro. Quarenta e quatro anos depois, apenas um dos 27 corpos, desenterrado de Sam Rayburn, permanece sem identificação. Essa vítima é conhecida como “Menino da Roupa de Natação” e está listada no Instituto Médico Legal de Houston com a identificação ML73-3356. Seus restos mortais foram enterrados pelas autoridades do Texas em novembro de 2009. 

O "Menino da Roupa de Natação" foi enterrado em 12 de Novembro de 2009 em um cemitério de Houston. Ele é a única vítima ainda não identificada (dos 27 desenterrados). Especialistas fizeram um retrato-falado do adolescente e a imagem foi colocada ao lado do pequeno caixão com o que sobrou do seu corpo. Foto: Michael Paulsen, Houston Chronicle.

O “Menino da Roupa de Natação” foi enterrado em 12 de Novembro de 2009 em um cemitério de Houston. Ele é a única vítima ainda não identificada (dos 27 desenterrados). Especialistas fizeram um retrato-falado do adolescente e a imagem foi colocada ao lado do pequeno caixão com o que sobrou do seu corpo. Foto: Michael Paulsen, Houston Chronicle.

  • 29ª vítima?

Em fevereiro de 2012, uma foto foi disponibilizada pela polícia de Houston de uma possível vítima desconhecida de Corll. A foto polaroid colorida foi encontrada nos pertences de Wayne Henley, que foram guardados dentro de caixotes por sua família e colocados em um ônibus abandonado em 1973. Fazendo pesquisas para um filme, os produtores tiveram autorização de Henley e de sua mãe e remexeram os caixotes, descobrindo a foto de um adolescente loiro, aterrorizado e com as mãos algemadas. Perguntado, Henley disse não ter ideia de quem seja o garoto, mas que possivelmente foi ele ou Corll quem tirou a foto já que ele comprou a câmera polaroid em 1972, com o dinheiro ganho do serial killer através dos crimes. Até os dias de hoje, o garoto da foto permanece desconhecido.

A vigésima nona vítima de Dean Corll? A foto do garoto aterrorizado foi encontrada nos pertences de Wayne Henley em 2012. Foto: ABC News.

A vigésima nona vítima de Dean Corll? A foto do garoto aterrorizado foi encontrada nos pertences de Wayne Henley em 2012. Foto: ABC News.

  • a família Corll

O pai de Dean Corll, Arnold, faleceu aos 85 anos em 5 de abril de 2001. Já sua mãe, Mary, faleceu aos 94 anos em 31 de maio de 2010. Seu irmão mais novo, Stanley, tem hoje 75 anos e seu paradeiro é desconhecido. Eles nunca falaram sobre os crimes da “ovelha negra” da família e sumiram após a tempestade que se seguiu à descoberta dos assassinatos em série, o que é compreensível, afinal, imagina um ente querido tão próximo morrer de forma tão repentina e ser acusado de atos tão atrozes? 

Folie a Deux


.

“Eu vou ser honesto com você, era importante Dean gostar de mim. Ele era gentil”.

[Wayne Henley]

Como grande parte dos serial killers, Dean Corll tinha interesse em um perfil específico de vítimas: adolescentes homens. Ele não estava interessado em torturar, mutilar e matar mulheres, por isso, quando seu cúmplice Henley levou uma jovem menina até ele, Corll pode ter se sentido, de alguma maneira, traído. A partir do que se sabe de como a parceria funcionava, Henley quebrou o acordo habitual sem a permissão de Corll. Como relata o ex-agente do FBI John Douglas em seu livro Mindhunter, “controle” é uma das palavras centrais quando falamos em serial killers. E com Dean não é diferente. Ele devia se sentir sempre no comando, por isso tinha um adolescente sob sua asa, de fácil manipulação e dominação, para fazer o que ele queria e quando ele queria. Então, quando Henley pensou e agiu independentemente, levando uma mulher até Dean, o mesmo pode ter se sentido ultrajado e confuso, aquilo diminuía o seu controle sobre a situação. Ele sabia como agir quando Henley trazia garotos. E agora, o que fazer com essa garota? E ele ficou tão ultrajado que quando os adolescentes caíram no sono após a bebedeira e uso de drogas, ele amarrou os três e certamente os mataria não fosse a perspicácia e frieza de Henley para sair daquela situação.

Na casa dos 30 anos, ao se aproximar de adolescentes, dando festas em sua casa, pagando bebidas e dando agrados, Dean poderia regredir para sua adolescência perdida. Não há evidências de que ele fosse um “adolescente de 30 anos”, imaturo, ao contrário, sua aproximação de adolescentes provavelmente era um esforço para estar perto de algo que ele ansiava: a juventude. “Ninguém te ama quando você é velho e gay“, disse Corll ao seu amigo Guy. Apesar de ser novo na idade, Corll parecia ser afligido pelo tempo (quem atinge os 30 sabe que após essa marca os aniversários parecem ocorrer a cada seis meses). Além disso, um adolescente é muito mais vulnerável e facilmente manipulado, o que dava a Dean um nível de controle que ele não poderia experimentar com pessoas da sua idade.

“No final, nós simplesmente não sabemos o que levou Corll passar de um filho agradável de uma mulher que tocava um negócio de doces a um completo monstro. Ou talvez ele nunca tenha sido esse filho agradável. Talvez ele sempre tenha matado. Talvez ele tenha tido outros cúmplices antes de Henley e Brooks, e ele os matou juntamente com outros garotos e os enterrou em um cemitério nunca encontrado. Então recrutou Henley e Brooks e começou tudo de novo. O que me impressiona é que ele é pouco conhecido. Ele era tão viciado e malévolo e, sejamos honestos, um dos assassinos mais brilhantes que já existiu nos Estados Unidos. Recebi um e-mail de um amigo outro dia, um escritor, que disse que Corll foi muito pior do que o imaginário Hannibal Lecter. Eu não pude deixar de concordar”.

[Skip Hollandsworth – autor de “Lost Boys”, em entrevista ao Texas Monthly]

Final

A parte mais espantosa do caso Dean Corll talvez seja o esquecimento. Embora dois livros sobre os assassinatos tenham sido publicados (e sumidos das prateleiras rapidamente, sendo encontrados hoje apenas na Internet – viva a Internet!), estranhamente o caso foi jogado no limbo. Talvez seja porque Dean Corll não viveu para dar uma entrevista assustadora ou porque tudo o que sobrou dele foram apenas algumas fotografias em preto e branco. A “concorrência” também pode ter sido desleal já que o público e a mídia ficaram fixados com os psicopatas que vieram a seguir, como John Wayne Gacy, Ted Bundy e David Berkowitz. Ainda hoje no Heights, onde duas gerações pós-Corll já brotaram, quase nada se sabe sobre o serial killer e seus dois assistentes. Não há placas ou um memorial para honrar os meninos assassinados. Uma reportagem do Texas Monthly afirma que muitos residentes acreditam que o caso é apenas uma lenda urbana bizarra, nascida de um tempo estranho e durante um governo estranho (muitos citam o presidente da época, Nixon, como psicopata).

Mas não, o homem que oferecia balinhas às crianças do Heights (quem nunca ouviu essa história da mãe quando criança?) para pegá-las quando estivessem maiores não é uma lenda urbana. Dean Corll não matou apenas 27 meninos, ele destruiu toda uma geração.

“Muitas, muitas vezes, ela [Ima Glass, mãe de Jimmy Glass] via um adolescente pedindo carona do outro lado da rodovia e gritava, ‘É Jimmy! Volte, volte!’, e para manter a paz, meu pai dava a volta, todas as vezes. Então um dia ela pegou uma arma e arrastou a minha irmã mais nova Pamela para o quarto. Quando a SWAT chegou, ela atirou no chão e gritou, ‘Eles não vão roubar Pamela de mim como fizeram com Jimmy!’ Nós pegamos o revólver dela e a internamos em um hospital psiquiátrico. Ela nunca mais foi a mesma, nem mesmo o resto de nós. Dean Corll não matou apenas 27 meninos. Ele matou 27 famílias”.

[Willie Glass, irmã de Jimmy Glass]

Vídeo: “Mamãe, eu matei o Dean”


Informações


.

Dean CorllNome: Dean Arnold Corll

Conhecido por: O Homem dos Doces, O Flautista de Hamelin

Nascimento: 24 de dezembro de 1939 – Fort Wayne, Indiana

Morte: 8 de agosto de 1973 – Pasadena, Texas

Acusação: assassinatos em série

Vítimas: 28 confirmadas

Período: 1970 a 1973

Local: Houston, Texas, Estados Unidos

Obs.: Dean Corll foi assassinado aos 33 anos por um de seus cúmplices

Fontes: [1] Texas Monthly – The Lost Boys. 4, abr, 2011; [2] Geberth, Vernon J. “Homosexual Serial Murder Investigation,” Practical Homicide Investigation Volume 43, nº 6, Junho 1995; [3] Gurwell, John K. Mass Murder in Houston. Cordovan Press, Houston. 1974; [4] Olsen, Jack, The Man with the Candy. Simon and Schuster. 1974; [5] Archives of the Houston Chronicle and Houston Post; [6] Sister identifies teen in morgue 12 years. Associated Press. 5/07/1985; [7] Houston Chron Archives – The horror remains/20 years later, memories of Dean Corll haunt survivor. 08/08/1993; [8] 29th Mass Murder Victim Named – Texas Crime News. Disponível em: houstonmassmurders.net/uploads/2/3/7/5/23755361/texas_crime_news_april_2012.pdf; [9] 2 Bodies Identified Brothers – Waycross Journal-Herald. 10/10/1973; [10] After decades, another serial killer victim identified – Chron. 1/12/2011; [11] Relative of long-lost murder victim: ‘We pretty much lost hope’ – Chron. 31/08/2015; [12] Remains draw more questions on ’70s Corll killings – Chron. 18/09/2010; [13] The Widown Hopes Slay Suspect Gets Worst – The Pittsburgh Press. 18/01/1974; [14] Small Comfort for Families – The Victoria Advocate. 13/02/1974; [15] “Dean Corll”. Murder in Mind. Marshall Cavendish (80). 1999; [16] The Last Kid on the Block – Elmer Wayne Henley feels many things, remorse not among them. Texas Monthly. 04/1976. Volume/Edição 4; [17] Surviving a serial killer. ABC13. 8/08/2008; [18] 40 years after death, victim of serial killer is laid to rest – Houston Chronicle. 12/11/2009; [19] After decades, another serial killer victim identified – Houston Chronicle. 1/12/2011; [20] The Houston Mass Murders: What Really Happened – Texas Monthly. 04/2011; [21] Cathy Scott, Katherine Ramsland, Carol Anne Davis, Kim Cresswell, Robert J Hoshowsky, Curtis Yateman, Aaron Elliott, Anthony Servante. Serial Killer Quarterly Vol.1 No.2 – Partners in Crime;

Com colaboração de:


Marcus Santana

Veronyca Veras
Revisão

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Deixe o seu comentario:
  • Deivid

    Existe algum filme dele?

    • – “Freak Out” (2003) – vagamente baseado no caso, o filme foca na noite em que Corll foi assassinado;
      – “In a Madman’s World” (2014) – baseado na vida de Wayne Henley antes, durante e após seu envolvimento com Corll e Brooks.

      • Deivid

        Obrigado, pena que a maioria dos filmes de assassinos em série não captam a verdadeira essência deles, não sei se o pessoal da produção já assistiu ”In the Light of the Moon” do Ed Gein, e ”The Gray Man” do Albert Fish, o do Gein tem no Youtube, e conta bem a história dele. Tem também aquele do Dhamer de 2002.

  • Jaque

    Mais uma vez impecável, eu realmente nunca tinha ouvido falar dele, nem em sites que listam serial killers desse nipe. Muito triste mais pela ineficiência das autoridades, se dessem a real importância no primeiro desaparecimento, teriam chegado aos culpados, evitariam tantas mortes.

  • Cristiano Silveira

    Parabéns pelo excelente texto, não conhecia o caso mas fiquei impressionado com tudo o que aconteceu.
    Vocês fizeram um trabalho impressionante, muito bom mesmo!

  • Carolina

    Parabéns pela matéria excelente, mais uma vez vocês superaram! E sobre o Candy Man: outro caso bizarro pouco conhecido. É assustador pensar o quanto existe lobo em pele de cordeiro por aí e o quão pouco conhecemos quem está ao nosso lado. Enfim, acho que essa história daria uma ótima série criminal.

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