Serial Killers: Lake & Ng, uma dupla do inferno

“Deus fez as mulheres para cozinhar, limpar a casa e fazer sexo. Quando não estão em uso, deviam ser trancafiadas”. Um telefonema estranho Milpitas, Califórnia, Estados Unidos...
Lake e Ng - capa

Lake e NG uma dupla do inferno - capa

“Deus fez as mulheres para cozinhar, limpar a casa e fazer sexo. Quando não estão em uso, deviam ser trancafiadas”.

[Leonard Lake]

Um telefonema estranho


Milpitas, Califórnia, Estados Unidos | 14 de Abril de 1985

Quando Kathleen Allen, 18 anos, estacionou o seu carro no pátio do supermercado onde trabalhava na cidade californiana de Milpitas, em 14 de Abril de 1985, ela não sabia que aquele seria o seu último dia vivendo uma vida comum e livre. Kathy, como era chamada, não estava bem. Seu namorado, Michael Carroll, 23 anos, estava sumido havia dois dias. Um jovem que um dia se envolvera nas coisas erradas da vida, Michael Carroll, que passara algum tempo em uma penitenciária, agora lutava para se endireitar. Ele queria construir uma nova vida e, após um tempo sendo negligenciado devido ao seu passado, conseguiu um emprego como entregador de pizza. Ele morava com um irmão mais velho e namorava Kathy, mas ele queria um lugar para ele e sua amada. 

Eles se falavam várias vezes por dia e dois dias sem notícias deixou Kathy extremamente chateada. Mais tarde naquele dia Kathy recebeu um telefonema estranho e que a amedrontou; um homem que não quis se identificar relatou que Michael estava em sérios apuros. Ele teria feito algo de errado e fugido para Lake Tahoe, localidade nas montanhas da Califórnia distante quase 300 quilômetros. Segundo o homem, Michael estava escondido lá e teria levado um tiro. Se ela pudesse fazer essa viagem, Michael mandaria alguém ir buscá-la no supermercado porque ele queria vê-la. “Michael levou um tiro e pode estar morto“, relatou em angústia Kathy para um colega de trabalho.

Kathy, então, explicou a situação ao seu gerente dizendo que iria até Lake Tahoe. O gerente, preocupado, autorizou a sua saída e deu o seu número de telefone, afirmando a ela para ligar se precisasse de qualquer coisa. Ele a acompanhou até a saída e foi a última pessoa a ver Kathy, atravessando o estacionamento e entrando em um Honda Prelude. De longe, o gerente viu um homem dentro, talvez na casa dos 40 anos. Era por volta das 19h.

Naquela mesma noite, James Baio, amigo de longa data de Kathy, recebeu outro telefonema estranho, mas dessa vez, da própria Kathy. Ela não disse muita coisa, explicou rapidamente a situação do seu namorado, que estava indo de encontro a ele e que não podia falar muito. Ela estava acompanhada de um “cara estranho” que, durante a viagem, começou a falar sobre a vontade de tirar fotos dela. Baio fez Kathy prometer que iria ligar para ele quando chegasse ao seu destino, mas Katherine Allen não ligou e, pior, nunca mais foi vista. 

Chamada de Rotina


São Francisco do Sul, Califórnia, Estados Unidos | 2 de Junho de 1985

Quando o oficial Daniel Wright, da polícia do Sul de San Francisco, respondeu a uma chamada de emergência de roubo em uma região de madeireiras, ele não tinha ideia do que estava prestes a descobrir. Tudo o que ele sabia era de um vendedor que havia testemunhado um homem asiático escondendo um torno de bancada (morsa) dentro de sua jaqueta. Ao ver a cena, esse vendedor pediu a outro funcionário que avisasse a polícia.

Quando Wright chegou ao local, parou ao lado de um Honda Prelude 1980 e foi abordado pelo vendedor e outro homem maior com uma barba. O vendedor apontou para a morsa, que estava no porta-malas aberto do Honda e disse ao policial que vira o homem asiático colocá-la lá antes de fugir.

Wright olhou para o carro e viu outro saco contendo o que parecia ser uma arma de fogo. Depois de uma inspeção mais minuciosa, ele encontrou um revólver .22 carregado e um silenciador. Neste ponto, o homem barbudo aproximou-se de Wright e mostrou-lhe um recibo de venda. “Aqui está o recibo”, disse ele. “Eu paguei pela morsa que meu amigo levou, não há necessidade de polícia”. Sem responder, Wright voltou ao seu carro e usou o rádio para verificar o número da placa do Honda. Enquanto esperava por uma resposta, ele perguntou ao homem barbudo: “A quem pertence este carro?” O homem respondeu: “Lonnie Bond”. “Onde ele está?”, Wright questionou. “No Norte”, disse o homem barbudo.

Honda

O Honda Prelude 1980 estava com a placa de outro carro. Foto: Journey into Evil (2012).

Então, Wright voltou ao rádio e foi informado de que o número da placa do Honda, 838 WFQ, pertencia a um carro Buick registrado em nome de Lonnie Bond, ou seja, o Honda estava com a placa de outro carro. Wright se dirigiu ao homem barbudo e lhe disse que trocar placas era um crime, então pediu a sua identidade. O homem lhe mostrou a carteira de motorista, em nome de Robin Scott Stapley, um residente de San Diego, de 26 anos. Ao ver a carteira, Wright ficou ainda mais suspeito, já que o homem barbudo parecia bem mais velho que a idade indicada no documento.

Wright, então, foi até o Honda e pegou a arma, perguntando ao homem: “Você não sabe que é ilegal carregar uma arma com silenciador?” Em resposta, o homem barbudo disse: “Não é minha, pertence a Lonnie. Eu apenas uso para atirar em latas de cerveja”.

Wright usou o rádio uma segunda vez para verificar o número de série da arma e descobriu que estava registrado no nome de Robin S. Stapley. Ele, então, deu voz de prisão ao homem.

“Você está preso!”

“Pelo que?”

“Possuir uma arma ilegalmente”.

“Eu lhe disse, não é minha”.

“Você diz que você é Stapley, certo? Bem, a arma está registrada em seu nome.”

Após algemar o homem e ler seus direitos, o oficial Wright o trancou na parte traseira da viatura e voltou até o vendedor para obter uma descrição do outro homem, que ele havia visto roubando a morsa.

“Homem asiático, de constituição leve, cerca de vinte e cinco anos, visto pela última vez usando uma jaqueta”.

Depois de providenciar para que o Honda fosse rebocado até o pátio da polícia, Wright levou seu prisioneiro para a delegacia de polícia de São Francisco do Sul, onde foi colocado em uma sala de interrogatório e pedido para esvaziar seus bolsos. Entre suas posses, ele tinha um recibo de viagem em nome de Charles Gunnar.

“Quem é Gunnar?”, Wright perguntou.

Nesse ponto, outro oficial relatou a Wright que o número de identificação do Honda estava em nome de Paul Cosner, que constava no banco de dados de pessoas desaparecidas da polícia de São Francisco – ele havia desaparecido nove meses antes, em novembro de 1984. Quando Wright contou ao homem barbudo sobre essa descoberta, ele ficou pálido e pediu uma caneta, um papel e um copo de água.

“Você vai escrever uma confissão?”, Wright perguntou.

“Não”, o homem respondeu: “Apenas uma nota para minha esposa”.

Depois de pedir que suas algemas fossem tiradas, o homem escreveu uma nota curta e a colocou no bolso da camisa.

“Eu posso entregar isso se quiser”, disse Wright.

O homem então resmungou: “Eu não achei que uma mera morsa pudesse me trazer tanto problema”.

Quando Wright pediu-lhe para repetir o que ele havia dito, o homem continuou.

“O nome do meu amigo é Charlie Chitat Ng, Chitat, pronuncia-se Cheetah e Ng pronuncia-se Ing.”

Ele então disse a Wright que seu nome verdadeiro era Leonard Lake, e que era um fugitivo procurado pelo FBI. Sem dizer mais nada, o homem tirou algo da lapela de sua camisa e colocou na boca. Em segundos, seus olhos se reviraram e ele entrou em convulsão. Wright pediu ajuda e verificou o pulso do homem. Ele estava vivo, mas mal. Mais tarde, a polícia descobriu que ele havia prendido duas cápsulas de cianeto na parte inferior da lapela da camisa.

Enquanto os paramédicos o levavam em uma ambulância até o hospital, Wright se perguntava por que um homem tentaria suicídio por causa de um carro roubado.

Ele logo teria sua resposta. Uma resposta que mais tarde figuraria nos livros de criminologia e psicologia mundo afora.

O bilhete que Leonard Lake escreveu na delegacia antes de engolir duas cápsulas de cianeto.

O bilhete que Leonard Lake escreveu na delegacia antes de engolir duas cápsulas de cianeto.

Queridos,

Eu amo vocês eu perdoo vocês Liberdade é melhor do que todo o resto Me desculpe mãe, Patty e todos. Me desculpe por todo o problema

Com amor Leonard

O Chalé de Wilseyville


“As garotas mais bonitas conseguem os empregos, as melhores oportunidades, os homens mais ricos. Os homens mais bonitos conseguem a mesma coisa. As pessoas ajudam as outras que tem os mais bonitos sorrisos, as melhores personalidades etc. Completamente compreensível, mas nós, dos tipos não tão bonitos, frequentemente ficamos em segundo ou terceiro lugares de tudo. Eu vivo para corrigir isso”.

[Leonard Lake]

Não demorou muito para que a polícia de São Francisco do Sul soubesse que eles tinham mais do que um simples caso de roubo em suas mãos, ainda mais quando descobriram manchas de sangue no banco do passageiro da frente do Honda, um buraco de bala acima dele perto do quebra sol e duas cápsulas de balas sob o assento. Paul Cosner, 39, um vendedor de carros usados e o real proprietário do Honda, desapareceu em 2 de novembro de 1984 depois de ter contado à sua namorada que ia se encontrar com “um cara estranho” para mostrar-lhe o carro. Ele nunca mais foi visto.

Honda Prelude

O anúncio de venda do Honda feito por Paul Cosner. Foi através deste anúncio que Leonard Lake chegou até Cosner interessado no carro. Foto: Journey into Evil (2012).

O carro e os objetos encontrados dentro foram posteriormente levados até São Francisco, já que lá investigadores da Unidade de Pessoas Desaparecidas investigavam o desaparecimento de Paul Cosner há nove meses. Entre os objetos haviam vários cartões de crédito e de banco e outros documentos em nome de Robin Scott Stapley, que haviam sido encontrados no porta-luvas. Telefonemas para a polícia de San Diego revelaram que Stapley era um dos membros fundadores da filial dos “Anjos da Guarda” (Guardian Angels) de San Diego, uma organização nacional formada para proteger civis de ataques criminais e, também, ajudar a polícia. Ele estava desaparecido desde abril de 1985.

Outro cartão bancário, em nome de Randy Jacobsen, também foi encontrado entre os objetos, assim como uma conta da empresa PG & E em nome de Claralyn Balazs. O endereço mostrado na conta era de uma caixa de correios em Wilseyville, Califórnia, uma região 240 quilômetros a leste de São Francisco, no sopé das montanhas de Sierra Nevada. Após verificações com a PG & E, a polícia descobriu que Balazs era a ex-esposa de Lake e que morava em San Bruno, a poucos quilômetros da região onde Lake havia sido preso.

Na segunda-feira, 3 de junho de 1985, dois detetives da S.F. Pessoas Desaparecidas, Tom Eisenmann e Irene Brunn, foram interrogar Balazs. Quando perguntada sobre o endereço de Wilseyville, Balazs disse à polícia que o lugar era um chalé pertencente a seu pai, perto de San Andreas, no condado de Calaveras. Quando os detetives pediram instruções para chegar até lá, Balazs explicou que o chalé ficava em um local remoto, tão remoto que só poderia ser encontrado por alguém familiarizado com a área. Os detetives então organizaram para Balazs guiá-los no dia seguinte, já que, primeiramente, eles pediram autorização do Departamento de Polícia de Calaveras para realizar uma busca.

No dia seguinte, depois de se encontrar com o xerife da Polícia de Cavaleras, de sobrenome Ballard, Eisenmann, Brunn e outros dois oficiais designados pelo xerife Ballard encontraram Balazs e a mãe de Lake, Gloria Eberling, em um supermercado localizado na Highway 88, a poucos quilômetros do chalé. Quando os detetives perguntaram a Balazs por que ela se atrasou, ela explicou que esteve no chalé antes de encontrá-los. A polícia, então, advertiu-a que, se ela tivesse removido qualquer evidência, ela poderia responder criminalmente por obstrução da justiça. Balazs se desculpou e explicou que havia feito vídeos íntimos com Lake, e com medo do constrangimento, foi lá procurá-los.

Balazs os conduziu até a rodovia Blue Mountain e depois de apenas duas entradas, passaram por uma estrutura de blocos cinza e chegaram ao chalé. Diferentemente do que ela havia dito, foi relativamente fácil encontrar o lugar. Depois de pedir a Balazs para abrir o local, Brunn e o oficial de Calaveras, Varain, realizaram uma busca no interior, enquanto Eisenmann e o outro oficial olhavam ao redor do terreno.

O chalé era composto por dois quartos, uma cozinha e um banheiro. A primeira coisa que Brunn notou ao entrar na sala foram manchas avermelhadas no teto da sala de estar. Em uma parede havia um mural mostrando uma floresta, no meio do mural havia um único buraco de bala de pequeno calibre. Entrando na cozinha, Brunn encontrou outro buraco de bala semelhante no chão. O quarto principal possuía uma cama com quatro colunas, com cabos elétricos ligados a cada uma. Em cada canto da cama, aparafusados no chão, havia ganchos pesados e acima dela, um holofote de 250 watts fixado na parede.

Ao lado da cama havia uma cômoda, dentro, uma variedade de lingeries femininas, muitas das quais estavam sujas, com manchas vermelhas escuras. Indo em direção a cama, Brunn olhou e levantou um canto do colchão. Abaixo estava um segundo colchão, com uma grande mancha do que parecia ser sangue seco. Voltando à sala principal, havia uma televisão e dois equipamentos de duplicação de áudio encontrados pelo oficial Varain. Os números de série haviam sido apagados. Brunn descobriu mais tarde que o equipamento de áudio pertencia a Harvey Dubs, um morador de San Francisco que, com sua esposa e bebê, havia desaparecido em 24 de julho de 1984. A família foi vista pela última vez por um vizinho que os viu falar com dois homens. Esses dois homens haviam ido à casa dos Dubs para conversar sobre o equipamento que Harvey anunciara para venda em um jornal local.

Brunn, então, deixou a propriedade com Varain e dirigiu-se ao Ministério Público do distrito de San Andreas e falou com o promotor John Martin que, depois de ouvir seu relato, concordou que haviam provas suficientes para solicitar um mandado de busca para todo o imóvel. Depois de obter o mandado do juiz Douglas Mewhinney, Brunn e Varain retornaram à propriedade e fizeram um breve interrogatório com Balazs e Eberling, questionando-as sobre sua visita anterior ao chalé. Eberling se recusou a responder a qualquer pergunta e Balazs foi evasiva, afirmando apenas que seus pais haviam comprado o chalé de um “cara gordo”.

Uma descoberta terrível


“É como um filme de terror. Perversos, perversos, perversos”.

[Claud Ballard – Cabin horror unfolds; 25 possibly murdered, Gainesville Sun, 9/06/1985]

Quando terminaram com a ex-mulher e a mãe de Lake, Eisenmann levou Brunn para outra parte do quintal e mostrou-lhe um incinerador com paredes grossas e à prova de fogo, capaz de suportar temperaturas extremas. Suspeitando de que os ocupantes anteriores do chalé estavam, de alguma forma, envolvidos no desaparecimento de várias pessoas, Brunn e Eisenmann decidiram que um exame detalhado de toda a área, incluindo o incinerador e um misterioso bunker de concreto que existia na propriedade, era uma prioridade. Como seu mandado de busca não cobria o bunker, Brunn perguntou a Balazs se ela autorizava uma busca. Ela respondeu ao pedido com raiva, sugerindo que eles conversassem com o parceiro de Lake, Charles Ng.

Brunn, então, pediu mais detalhes sobre Ng. Como resposta, ouviu que ele era um homem asiático que andava com Lake. Quando perguntada se ela havia visto Ng recentemente, Balazs disse aos detetives que o vira no dia anterior. Balazs afirmou que o viu fazendo uma mala, colocando dentro uma arma calibre .22, munições, roupas, uma grande quantidade em dinheiro e dois documentos: uma carteira de motorista da Califórnia e um cartão do Seguro Social, ambos em nome de Mike Kimoto. Ela, então, a pedido de Ng, o levou até o guichê da United Airlines no aeroporto de São Francisco, mas não sabia para onde ele estava indo.

Os detetives pediram a Balazs mais informações sobre Lake e ela disse que ela e Lake se conheceram em uma Feira do Renascimento no condado de Marin e se casaram depois de namorar por um curto período de tempo. Como padrinho, Lake escolheu Charles Gunnar, um amigo de longa data que, com apenas 1,73, pesava quase 180kg, levando Balazs a batizá-lo “o homem gordo”. Pouco depois do casamento, que foi pago por Gunnar, o casal mudou-se para Philo, em Mendocino, onde Lake encontrou trabalho gerenciando um motel. Dentro de um ano, Ng apareceu e foi morar com Lake e sua nova esposa. De acordo com Balazs, Lake e Ng se davam bem, já que ambos eram ex-fuzileiros navais. Em 1982, cinco meses depois da sua chegada, Ng saiu por vários dias e voltou tarde da noite dirigindo uma camionete. Balazs disse aos detetives que, na noite do retorno de Ng, ele e Lake fizeram uma dança estranha no quintal e depois descarregaram algumas caixas da camionete e as guardaram num galpão.

No começo da manhã seguinte, uma equipe do FBI vasculhou a propriedade e prendeu Ng e Lake e os acusou de roubo de armas de uma base militar no Havaí. Lake foi libertado mais tarde ao pagar uma fiança de $ 30 mil, quantia paga pelo amigo Gunnar, enquanto Ng, que ainda era um membro ativo do Corpo de Fuzileiros Navais, foi julgado e condenado a dois anos na prisão de Leavenworth. Não desejando ir para a cadeia, Lake fez planos de fugir e se esconder nas montanhas e pediu a Balazs para ir com ele. Quando ela se recusou, o relacionamento acabou e Lake se mudou sozinho para o chalé.

Embora Balazs tenha falado livremente sobre sua vida com Lake, quando Brunn insistiu por mais detalhes sobre sua relação com Ng, Balazs ficou nervosa e recusou dar permissão aos detetives para entrar no bunker, exigindo falar com um advogado. Pouco depois, Balazs e Eberling foram embora.

Depois de transmitir as informações sobre os movimentos e pseudônimos de Ng para seu departamento, Brunn e Eisenmann deixaram o local para solicitar um alvará de busca adicional para o bunker. Devido às descobertas, foi dado prioridade ao caso e uma força-tarefa foi criada para buscas em toda a propriedade. O chefe da polícia de São Francisco, Cornelius Murphy, autorizou uma unidade de doze homens e o xerife Ballard, do condado de Calaveras, montou uma equipe de cinco homens com o tenente Bob Bunning no comando. O segundo na hierarquia dos detetives de São Francisco, Joseph Lordan, liderou a sua unidade.

Na terça-feira, 4 de junho de 1985, a busca começou. A primeira tarefa foi montar um acampamento de base enquanto um chaveiro foi chamado para destrancar o bunker. Em seguida, realizou-se um exame preliminar da área ao redor do bunker. Era uma área limpa, não muito grande e que parecia ter sido recentemente lavada com água sanitária. Havia também, em meio à terra, o que parecia ser roupas. Prevendo ter encontrado um cemitério clandestino, o xerife Ballard ordenou aos oficiais que concentrassem sua atenção nessas áreas. Enquanto isso, um oficial foi designado para descobrir quem era o dono da propriedade vizinha. Dentro de horas, uma matilha de cães farejadores e seus tutores, um especialista forense e dois patrulheiros adicionais, se juntaram à busca.

Vista aérea do bunker de Leonard Lake. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

Vista aérea mostra investigadores de polícia realizando buscas acima do bunker de Leonard Lake. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

Enquanto Ballard coordenava seu grupo de busca, o oficial que havia sido orientado a contatar o dono da propriedade adjacente veio com informações. Ele descobriu que o dono dessa propriedade, Bo Carter, o qual ele conversou por telefone, havia alugado a sua propriedade. Algumas semanas antes, seus inquilinos, Lonnie Bond, sua esposa Brenda O’Connor e seu filho Lonnie Jr., não pagaram o aluguel, então ele contratou um agente imobiliário e este se dirigiu até a propriedade para cobrar Lonnie Bond. Quando o agente chegou, um homem que se apresentou como Charles Gunnar veio do chalé de Lake e lhe disse que Bond, sua esposa e seu filho haviam partido há dez dias. O agente ainda descobriu que um homem chamado Robin Stapley também morava na propriedade de Carter, juntamente aos Bond. O agente agradeceu e foi embora. Ao passar perto do limite entre as duas propriedades, ele notou que a terra estava mexida, em um formato que parecia covas. O agente imobiliário informou tudo a Carter.

Achando tudo muito estranho, uma semana depois, Bo Carter foi pessoalmente inspecionar sua propriedade. Quando chegou, o mesmo homem, Charles Gunnar, se aproximou e ficou olhando ele inspecionar a casa. Não encontrando nada demais, Carter se despediu de Gunnar e foi embora. Tudo parecia não passar de um calote de Lonnie Bond até Carter, um dia, ligar a televisão e ver a notícia de um homem que tomou cianeto após sua prisão por porte ilegal de arma. A reportagem da TV mostrou a imagem do homem e seu nome. Carter levou um susto. O homem que a TV mostrava, Leonard Lake, era o mesmo homem que se apresentou a ele como Charles Gunnar e o ficou observando inspecionar sua propriedade. Ao ouvir esta história do oficial,  Ballard enviou um grupo de agentes para procurar a área de terra mexida descrita pelo agente imobiliário.

No dia seguinte, o bunker foi aberto. O xerife Ballard, detetives Brunn e Eisenmann e um oficial do Condado de Calaveras, Jim Stenquist, foram os primeiros a entrar. A sala principal era uma área de oficina de 6×3 metros com uma variedade de ferramentas manuais e serras elétricas penduradas em uma parede de compensado ao lado de uma bancada de trabalho. Um olhar mais aguçado nas ferramentas revelou uma substância incrustada seca marrom, possivelmente sangue. Havia também um torno quebrado. Examinando mais a sala, os detetives verificaram que as dimensões pareciam menores que o tamanho do lado de fora e deduziram que poderia existir um cômodo escondido. Eles logo descobriram que a parede de madeira preenchida de ferramentas era na verdade uma porta que levava a uma sala menor. Dentro havia uma cama de casal, uma mesa lateral, livros e uma luminária. Em uma parede havia uma placa de madeira esculpida com a inscrição “Operação Miranda”.

Na parede com ferramentas, investigadores descobriram uma porta secreta que levava a outro cômodo. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

Na parede com ferramentas, investigadores descobriram uma porta secreta que levava a outro cômodo. Na imagem, um policial abrindo a porta. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

A polícia descobriria mais tarde que a expressão foi tirada de um livro chamado “The Collector” (1963), de John Fowles, que foi encontrado na estante de livros. O livro conta a história de um colecionador de borboletas que sequestra uma mulher bonita e a mantém trancada em sua adega, local onde, eventualmente, ela vem a falecer.

Um bilhete encontrado chamou a atenção dos policiais:

REGRAS

1) Eu devo sempre estar pronta pra servir o meu mestre. Eu devo estar limpa, penteada, e estar com a minha cela limpa.

2) Eu nunca devo falar a não ser que me dirijam a palavra. Menos na cama, eu nunca devo olhar para meu mestre no olho, mas devo manter meus olhos para baixo.

3) Eu nunca devo mostrar meu desrespeito, seja verbalmente ou silenciosamente. Eu nunca devo cruzar meus braços ou pernas na frente do meu corpo, ou cerrar meus punhos, e tirando quando comer, devo sempre manter meus lábios separados.

4) Eu devo ser completamente obediente em todas as coisas. Eu devo obedecer imediatamente e sem questionar ou comentar.

5) Eu devo sempre ficar quieta quando estiver trancada em minha cela.

6) Eu devo lembrar e obedecer quaisquer regras adicionais ditas a mim. Eu devo entender que qualquer desobediência, qualquer trabalho, problema, ou aborrecimento causado por mim ao meu mestre será motivo de punição.

Bilhete - Leonard Lake Charles Ng

O bilhete, datilografado, encontrado no bunker. Foto: Journey into Evil (2012).

A sala também continha equipamentos militares, incluindo uniformes, botas e uma vasta gama de armas, incluindo rifles de assalto, espingardas e metralhadoras. No chão, a polícia encontrou um uniforme e um boné de beisebol com as palavras “Dennis Moving Service” bordadas sobre elas.

Em uma estante pregada a uma das paredes, entre livros sobre explosivos e produtos químicos, os policiais encontraram uma pequena janela que parecia ser composta de vários painéis de vidro, possivelmente à prova de som. Em outra prateleira havia um objeto militar, “Starlight” que, inicialmente projetado para atiradores, era capaz de ver objetos em condições de luz extremamente baixas. Em outra parede havia 21 fotografias de jovens mulheres em vários estágios de nudez, a maioria das quais tiradas ao ar livre. Duas das fotos foram tiradas na frente de um papel de parede de um personagem de desenho animado.

A polícia, posteriormente, identificou o papel de parede como sendo o mesmo de uma escola onde Claralyn Balazs trabalhou como assistente de professor. Todas as 21 mulheres foram identificadas e encontradas vivas e bem.

Depois de verificar as medidas do local novamente, os investigadores descobriram outra discrepância, indicando que poderia existir uma terceira sala atrás da pequena janela. O xerife Ballard foi informado, mas se recusou a permitir que os homens continuassem com a busca até os peritos forenses coletarem provas nos dois primeiros cômodos.

A primeira evidência técnica foi uma única impressão digital tirada da janela da estante. Mais tarde, eles encontraram outras impressões digitais sobre a mesma janela. Essas impressões, posteriormente, foram positivamente identificadas como sendo de Leonard Lake e Charles Ng.

À medida que os técnicos continuavam sua análise, peritos do lado de fora encontraram, ao lado da calçada, dois ossos, mas não puderam verificar se eram humanos. Mais tarde, os ossos foram enviados para o Dr. Boyd Stephens, o médico legista chefe de São Francisco, para análise.

No segundo dia de buscas no bunker, a equipe de laboratório, que antes estava trabalhando no chalé, encontrou evidências adicionais: uma bala calibre .22. removida da parede do cômodo principal. No mesmo cômodo, sob as molas da cama, eles encontraram um diário, que descrevia a caça, estupro e assassinatos de várias pessoas. O diário também descrevia como Lake, um paranoico que temia a guerra nuclear, planejava construir uma série de bunkers por todo o país, com suprimentos, armas e escravas sexuais. O diário detalhava ainda mais: Lake usaria suas escravas sexuais para repovoar o mundo.

Às 17 horas do segundo dia, as análises forenses iniciais do bunker foram completadas e Ballard ordenou a Brunn e Eisenmann que continuassem as buscas no interior. Depois de verificar o que parecia ser uma sala selada, Brunn encontrou uma porta secreta atrás de uma estante de livros que levava a um terceiro cômodo, de apenas 1×2 metros quadrados por 1,8 metro de altura. No interior, eles encontraram uma cama estreita, um banheiro químico, um desodorizador para ambientes e um recipiente de água. Havia buracos perfurados na parede, possivelmente para ventilação, mas estavam tampados para evitar a luz.

O terceiro cômodo encontrado no bunker. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

O terceiro cômodo encontrado no bunker. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

Após examinar atentamente ambos os quartos ao mesmo tempo, Brunn e Eisenmann descobriram que a janela de vidro tinha “dois lados”. Havia um botão ao lado que, quando apertado, permitia que os ocupantes da primeira sala ouvissem quaisquer sons vindos do cômodo menor. Eisenmann desligou todas as luzes do bunker e, usando o “Starlight” através da janela, conseguiu ver Brunn claramente no cômodo menor. Eles descobriram o que parecia ser uma “janela de observação para uma cela de reféns“. Quando essa descoberta foi relatada para Ballard, ele saiu do local e retornou ao seu escritório onde fez planos para uma investigação de assassinato em grande escala. Ele incluiu o FBI e os Departamentos Florestais e de Justiça da Califórnia no plano.

Espelho

A janela de vidro encontrada no bunker de Leonard Lake. Foto: Departamento de Polícia do Condado de Calaveras.

No terceiro dia, os investigadores e peritos receberam o precioso auxílio do destacamento especializado de cães e seus tutores da Associação Californiana de Cães de Resgate. Após horas de buscas infrutíferas, Ballard pediu equipamentos pesados para começar a cavar o local. Durante a mesma manhã, os policiais receberam uma visitante inesperada, Gloria Eberling, mãe de Lake. Ela disse a Ballard que apareceu porque estava preocupada com o outro filho, Donald Lake, desaparecido dois anos antes. Brunn, que também estava presente, perguntou a Eberling se a ex-esposa do filho dela, Balazs, tinha pegado qualquer coisa do chalé no dia em que se encontraram. Sim, respondeu a mãe de Lake. Balazs recolheu 12 fitas de vídeo VHS que estavam no cômodo principal. Mais tarde, pressionada, Balazs deu à polícia as 12 fitas que havia tirado da cabana. Como ela anteriormente havia revelado, o conteúdo das fitas mostravam ela e Lake fazendo sexo.

Ballard então perguntou a Eberling se Lake havia melhorado. Após ingerir cianureto, Lake foi levado em estado crítico ao hospital, mas vivo. Por dias seu organismo lutou contra o veneno e agora a mãe dele não tinha boas notícias. Eberling respondeu ao delegado que seu filho havia sido oficialmente declarado com morte cerebral e os médicos a estavam pressionando a desligar os aparelhos que o mantinham vivo.

Para Ballard, o caso estava se tornando um pesadelo. Em mãos ele tinha evidências que sugeriam vários sequestros, estupros e assassinatos. Ele tinha a identidade dos dois principais suspeitos, mas um estava praticamente morto e o outro escondido em algum lugar, possivelmente fora do país. Tudo o que ele podia fazer era coletar provas e esperar a maré virar.

Então, o FBI veio com boas notícias. Charles Ng pegou um voo de São Francisco para Chicago. Uma checagem em seus antecedentes revelou que ele era um imigrante vindo de Hong Kong, tinha irmãs morando nas cidades canadenses de Toronto e Calgary, um tio em Yorkshire, Inglaterra, e amigos ex-fuzileiros navais no Havaí. O FBI estava consciente de que, com dinheiro suficiente, Ng poderia estar em qualquer um dos quatro locais. Para ajudar nas buscas, a Interpol e a Scotland Yard foram avisadas e cartazes com a descrição de NG foram distribuídos por todo o mundo.

Paul Cosner

Uma das possíveis vítimas da dupla Lake e Ng, Paul Cosner, desapareceu em 2 de Novembro de 1984 após sair de casa para mostrar seu Honda Prelude a um suposto comprador. Na imagem, cartaz feito por sua família oferecendo uma recompensa por informações que levassem ao seu paradeiro.

Apenas restos de esqueletos


“Cinco grandes sacos com ossos humanos foram recuperados de uma cabine remota onde alegadamente dois sobrevivencialistas executaram e gravaram em filmes fantasias de tortura sexual, e a macabra descoberta pode fornecer pistas dos desaparecimentos de 25 pessoas”.

[Observer Reporter – Human Bones Found In Isolated Cabin. 11/06/1985]

No quarto dia da buscas, o Dr. Stephens chegou ao local e informou Ballard de que os ossos anteriormente encontrados eram humanos. Pouco depois de sua chegada, outro osso foi encontrado e este parecia ter sido cuidadosamente cortado em ambas as extremidades por uma serra ou ferramenta de corte semelhante. À medida que as escavações progrediam, vários itens foram desenterrados de vários locais. Em uma linha reta de terra que ia do bunker à estrada, local visivelmente mexido, a polícia encontrou uma bolsa de plástico contendo uma carta cujo destinatário era Charles Ng e um recibo em nome de Harvey Dubs. Em seguida, eles descobriram uma camisa com o nome “Scott” bordado. Literalmente, centenas de itens, que tiveram que ser cuidadosamente fotografados e retirados para análise, foram removidos do local.

Somente no quinto dia os primeiros esqueletos foram encontrados. Os restos esqueléticos de duas pessoas pareciam estar completos, mas os ossos haviam sido cortados em secções e queimados. Ironicamente, às 8h da manhã, no mesmo dia em que as primeiras vítimas eram encontradas, os médicos do Hospital Kaiser Permanente desligaram os aparelhos que mantinham vivo Leonard Lake. Morria o homem e com ele os segredos de crimes que até então a polícia sequer tinha dimensão.

Horas depois, um galão de 20 litros fechado foi descoberto. Dentro dele havia um talão de cheques em nome de Robin Scott Stapley, joias, cartões de crédito, carteiras de motorista, carteiras e três fitas de vídeo. Duas estavam sem identificação, a terceira estava escrito “M. Ladies Kathy / Brenda”. Os dois primeiros vídeos mostravam Lake e Balazs em um jantar de Ação de Graças. Em um deles, havia ainda uma filmagem de Lake sentado em uma cadeira e falando sobre sua fantasia suprema: sequestrar uma mulher e escravizá-la. Já o terceiro vídeo deixou os policiais perturbados. As filmagens mostravam uma mulher jovem, Katherine Allen, em uma cadeira. Ela depois é forçada a fazer strip-tease enquanto é provocada por dois homens, Lake e Ng. Em outra parte do vídeo, Ng é visto molestando Kathy em uma cama enquanto Lake tira fotografias.

A jovem foi identificada como Katherine Allen, de 18 anos, funcionária de um supermercado de Milpitas, cidade no Condado de Santa Clara. Ela foi levada até o bunker por Lake, que lhe enganou dizendo que seu namorado havia sido baleado. A polícia revelou mais tarde que o namorado de Allen, um ex-traficante de drogas chamado Michael Sean Carroll, foi colega de cela de Ng em Leavenworth.

Tortura Psicológica


Ao entrar no Honda Prelude com Leonard Lake na noite de 14 de Abril de 1985, Kathy não sabia que passaria por horrores indescritíveis antes de finalmente ter sua vida ceifada.

Horas depois, ela se encontraria em circunstâncias terríveis dentro de uma construção fechada, incapaz de ligar ou contatar alguém. Colocada sentada em um sofá marrom, algemada, Kathy, talvez em um estado de choque ou sem ter a real noção do perigo que corria, manteve uma expressão dormente enquanto era filmada. Atrás da câmera podia-se ouvir apenas a voz do Diabo:

“Mike devia a gente. Ele não podia pagar. Nós, agora, vamos te dar uma chance, Kathy, e esta é provavelmente a última chance que daremos a você. Você pode ir conosco, você pode cooperar conosco, você pode fazer com boa vontade tudo que nós pedirmos para fazer, e em aproximadamente trinta dias, se você quiser uma data para escrever no seu calendário, 15 de maio, nós iremos drogar você, vendar você e fazer outras coisas para ter certeza que você não saberá onde vai estar ou onde estará indo, e então levaremos você de volta para a cidade e você poderá ir embora. O que você vai dizer eu não estou nem aí. Meu nome você não sabe. O nome dele é Charlie [referindo-se a um outro homem que apareceu no quarto]. Você não sabe onde está […]

[…] Se você não cooperar com nós […] provavelmente vamos meter uma bala na sua cabeça, levar você e enterrar você na mesma área em que enterramos Michael […] Enquanto você estiver aqui, você nos dará informações sobre o irmão de Michael, contas bancárias, para quem precisamos escrever para fazer as coisas corretas. Nós provavelmente vamos fazer você escrever algumas cartas para o cara, o irmão dele, dizendo a ele qualquer merda de história sobre você e Michael se mudando para Timbuktu, e que ele arranjou um emprego fazendo isso ou aquilo e coisas do tipo […] Enquanto você estiver aqui nós manteremos você ocupada. Você vai lavar para nós, limpar para nós, cozinhar para nós, você irá foder com nós. Esta é a sua escolha em poucas palavras. Não é muito uma escolha, ao menos que você queira morrer […]

[…] Nós estamos apenas preocupados com nós mesmos. Filhos da puta egoístas, talvez. Você provavelmente irá pensar nos piores nomes para nós nas próximas semanas. Mas é o que é. Nas últimas 24 horas estivemos cansados, nervosos, um pouco fora de si, talvez. Nós esperamos que você faça alguma coisa. Acredite em mim, nós dois precisamos. Se você ir conosco, cooperar conosco, nós seremos tão bons quanto podemos dentro dos limites de manter você prisioneira. Se você não ir conosco, nós provavelmente iremos jogar você na cama, amarrar você, estuprar você, atirar em você e enterrar você. Me desculpe senhorita, o tempo acabou. Faça a sua escolha.

[…] Michael tinha alguma mulher pagando um boquete pra ele em algum motel. De novo, isto foi o que ele me disse. Se é verdade ou não, eu não sei. Ele poderia estar mentindo para nós […] Certo. Talvez ele apenas tivesse uma boca grande. Ele achou que estava nos impressionando. Não estava. Ele nos enojava. Você tem as chaves das algemas? [ele pergunta para Charlie] Hum-hum [afirma Charlie]. Levante-se Kathy. Se estivermos sendo indelicados nos perdoe. Fique de pé. Dispa para nós. Nós queremos ver o que pegamos. Tire a sua blusa. Tire o seu sutiã.

[Após, com muita vergonha, Kathy tirar a blusa e o sutiã, Charlie pergunta] O que você está pensando? Tirar a calcinha dela também?

Claro, nós vamos levá-la até o chuveiro. [então Charlie pergunta] Eu devo ir também?

Oh, você quer tomar uma ducha com ela? Se você quiser. Sente-se Kathy. 

Ela é muito obediente [comenta Charlie]. Muito obediente, Charlie […] Se você criar problemas, de qualquer tipo, você pode, bem, morrer. Mantenha-se nua por favor.

[Leonard Lake]

A gravação continua por mais alguns segundos até o momento em que os três vão para o banheiro. Mas a tortura não havia terminado. A fita continha mais duas gravações dos últimas dias de vida de Kathleen.

Outra jovem que aparece na mesma fita é chamada de Brenda. Ela é filmada implorando por informações sobre o seu bebê, e Lake responde: “Seu bebê está dormindo profundamente, como uma pedra“. Posteriormente, quando Brenda cede às constantes provocações e ameaça, ela concorda em cooperar. Nos minutos finais, ela é vista tomando banho com os dois homens.

Ela era Brenda O’Connor, de 19 anos, vizinha de Lake e inquilina de Bo Carter. O marido dela, Lonnie Bond, e seu bebê, Lonnie Jr., foram assassinados por Lake e Ng antes da gravação da fita.

A família Bond, Lonnie, Brenda e Lonnie Jr. eram inquilinos de Bo Carter e vizinhos de Leonard Lake. Pai e filho foram mortos e Brenda sequestrada e mantida em cárcere privado; ela foi torturada, estuprada e assassinada. Uma das fitas VHS desenterradas da propriedade mostra Lake e Ng ameaçando Brenda antes de cortar suas roupas. Foto: Die For Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng/Leonard Lake Torture Murders.

A família Bond, Lonnie, Brenda e Lonnie Jr. eram inquilinos de Bo Carter e vizinhos de Leonard Lake. Pai e filho foram mortos e Brenda sequestrada e mantida em cárcere privado; ela foi torturada, estuprada e assassinada. Uma das fitas VHS desenterradas da propriedade mostra Lake e Ng ameaçando Brenda antes de cortar suas roupas. Foto: Die For Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng/Leonard Lake Torture Murders.

As buscas continuam


As horas seguintes foram de mais descobertas: a metade de um crânio, outro balde de plástico contendo itens pessoais e um corpo completo, embora queimado. Ao final do dia, foram descobertos mais quatro corpos, incluindo o de uma criança. Dois eram do sexo feminino e o outro de um homem negro. Outro recipiente de plástico e um longo tubo de metal, de 30cm de diâmetro, também foram desenterrados. Dentro do recipiente, a polícia encontrou $1.863 dólares, mais carteiras e cartões de crédito. O tubo continha um rifle semiautomático Colt AR-15. Em outra área onde havia um monte de terra recém-escavada, pouco distante do chalé, outros dois corpos foram encontrados; ambas as vítimas foram mortas com um único tiro na cabeça com uma arma de calibre pequeno. Nos dias que se seguiram, em busca por mais corpos, o bunker foi completamente demolido.

Reportagem da Folha de São Paulo de 12 de Junho de 1985 fala sobre a descoberta dos crimes de Leonard Lake e Charles Ng. Foto: Folha de São Paulo.

Reportagem da Folha de São Paulo de 12 de Junho de 1985 fala sobre a descoberta dos crimes de Leonard Lake e Charles Ng. Foto: Folha de São Paulo.

Na medida em que as buscas diminuíam, os restos mortais se fixaram na descoberta dos corpos de sete homens, três mulheres, dois bebês e quarenta e cinco quilos de fragmentos de ossos, além de numerosas quantidades de objetos pertencentes aos falecidos. Ao todo, a polícia encontrou evidências que apontavam por volta de 25 pessoas assassinadas dentro ou ao redor da propriedade de Wilseyville, mas o número oficial nunca pôde ser corretamente apontado devido ao fato do estado dos restos mortais encontrados. A maioria havia sido cortado, queimado e espalhado pelo terreno, tornando a identificação extremamente difícil.

As vítimas que puderam ser identificadas ou ligadas à dupla de serial killers foram:

Kathleen AllenKathleen E. Allen, 18 anos, de San Jose; ela aparece em uma das fitas de vídeo encontradas na propriedade; segundo a polícia, seu último salário foi enviado para um endereço perto do chalé de Leonard Lake; na imagem à esquerda, foto tirada por Leonard Lake, mostra sua feição resignada, sua última imagem conhecida antes de ser assassinada. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders (2000);

Michael CarrollMichael S. Carroll, 23 anos, de Milpitas; Ng conheceu Carroll na cadeia em Leavenworth quando cumpriu pena pelo roubo de armamento militar em uma base do Havaí; Carroll estava preso por tráfico de drogas e era namorado de Kathleen Allen; Carroll é mencionado em uma das fitas de vídeo de Lake;  após sair da cadeia, Carroll começou a trabalhar como empregador de pizza; sua carteira de motorista foi uma das centenas de objetos encontrados na propriedade; provavelmente, Carroll foi morto para que Lake e Ng pudessem extorquir o seu irmão;  Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders (2000);

Charles GunnarCharles Gunnar, 36 anos, o “homem gordo”; ex-carteiro e professor de teatro em Morgan Hill; a data do assassinato de Gunnar é desconhecida, provavelmente abril ou maio de 1983; ele era o melhor amigo de Lake e foi padrinho de casamento do serial killer; eles se conheceram no início dos anos 70 quando Lake se mudou com sua primeira esposa, Karen, para San Jose, em 1971; nas costas do amigo, Lake o ridicularizava, chamando-o de “baleia orca”; quando Gunnar se separou de sua esposa, em 30 de Novembro de 1982, Lake confessou a uma namorada que certas pessoas “deveriam ser apagadas do mundo“, como, por exemplo, seu amigo Gunnar; 

Donald LakeDonald Lake, 32 anos, de San Bruno; visto pela última vez em abril de 1983; ele era irmão de Leonard Lake; Claralyn Balazs, ex-esposa do serial killer, revelou à polícia que seu ex-marido enxergava seu irmão mais novo como “uma sanguessuga” por receber ajuda financeira do governo;  já uma ex-namorada revelou que Lake o considerava um “sujeito estúpido“; Lake também achava que Donald havia recebido melhores cuidados na infância por parte de sua mãe; resumindo: Leonard Lake odiava seu irmão;

Jeffrey GeraldJeffrey Gerald, 25 anos, de São Francisco; atlético e musculoso, trabalhou com Ng na Dennis Moving Company; era guitarrista de uma banda chamada Crash and Burn gostava de surfar nos fins de semana; ele desapareceu em fevereiro de 1985 após dizer à família que sairia para ajudar um colega de trabalho a se mudar; sua guitarra e amplificadores desapareceram junto com ele; uma amiga de Gerald reconheceu a voz de Ng em sua secretária eletrônica combinando a mudança, pela qual Gerald receberia $100 dólares; Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders (2000);

Cliff ParenteauCliff Peranteau, 24 anos, nascido na Filadélfia, Pensilvânia; foi Cliff quem recomendou Ng ao seu patrão na empresa de mudanças Dennis Moving Company; além de conseguir um emprego para o “amigo”, foi Cliff quem também apresentou Ng a outro trabalhador da empresa: Jeffrey Gerald; Cliff morava com sua namorada e desapareceu em janeiro de 1985 após discutir com Ng; o comportamento do asiático, conhecido pelas chantagens, irritou vários colegas; frases suas como “Papai morre, mamãe chora, bebê frita“, não eram bem digeridas; analisando os crimes, a frase é uma clara referência aos assassinatos da família Dubs e Bond;

Paul CosnerPaul Cosner, 40 anos, nascido em Reynoldsburg, Ohio; era o proprietário do Honda Prelude; vendedor de carros usados em São Francisco, Cosner tinha o sonho de se tornar escritor; e foi em busca desse sonho que ele passou a vender alguns bens; ele visto pela última vez em 2 de novembro de 1984 quando saiu para mostrar o seu carro a um potencial comprador, descrito por ele como “estranho”; Leonard Lake foi preso com o carro de Cosner em 2 de Junho de 1985, o mesmo carro usado para pegar Kathleen Allen no supermercado onde trabalhava;

Brenda o'connorBrenda O’Connor, 19, Lonnie Bond, 27, Lonnie Bond Jr., 2 anos; desaparecidos desde maio de 1985 quando falharam em pagar o aluguel do rancho onde viviam; eles eram vizinhos de Lake e Brenda aparece em uma das fitas de vídeo com uma arma apontada para a cabeça e sendo obrigada a atos sexuais; quando sua namorada Brenda engravidou, Lonnie pensou em tirá-la da agitação da cidade grande; eventualmente ele descobriu um lugar bucólico nas montanhas de Sierra Nevada, alugando a propriedade de Bo Carter, que era vizinha ao bunker dos horrores de Leonard Lake;

Robin StapleyRobin Scott Stapley, 26 anos; por ironia do destino, Stapley trabalhava ajudando pessoas, tirando crianças da rua, aconselhando bandidos a saírem da vida do crime etc; Stapley era casado e tinha um bebê; ao ser preso em 2 de junho de 1985, Leonard Lake se apresentou como sendo Stapley, mostrando a carteira de motorista da vítima ao policial, que desconfiou já que a foto era de alguém bem mais novo; Stapley conheceu Lonnie Bond durante uma escalada nas montanhas de Sierra Nevada e ambos ficaram muito amigos; Stapley passou a frequentar a casa nas montanhas dos Bond;

Harvey Dubs, 29 anos, Deborah Dubs, 33 anos, e Sean Dubs, 1 ano e quatro meses; a família Dubs foi vista pela última vez em 25 de julho de 1984; Harvey, Deborah e Sean foram sequestrados e mortos depois de Ng e Lake irem até a casa deles por causa de um videocassete que Harvey Dubs anunciou para venda; o equipamento foi encontrado no chalé de Lake;

Harvey Dubs, 29 anos, Deborah Dubs, 33 anos, e Sean Dubs, 1 ano e quatro meses; a família Dubs foi vista pela última vez em 25 de julho de 1984; Harvey, Deborah e Sean foram sequestrados e mortos depois de Ng e Lake irem até a casa deles por causa de um equipamento que Harvey Dubs anunciou para venda; o equipamento foi encontrado no chalé de Lake.

Randy JacobsonRandy Jacobsen, 34 anos, desempregado; sua experiência na guerra do Vietnã o deixou desiludido com o mundo; incapaz de endireitar sua vida após ser dispensado do exército, caiu nas drogas e álcool; em 1980, ele foi de carona da Geórgia até a Califórnia para esquecer os seus demônios, se estabelecendo em São Francisco onde conheceu Leonard Lake, que frequentava as ruas da cidade em busca de jovens mulheres para tirar fotos ou, quem sabe, fazer parte de sua “Operação Miranda”; em junho de 1984, Jacobsen desapareceu após negociar com Lake uma Van que havia adquirido;

Don GuilettiDonald Giulietti [foto], um DJ de São Francisco assassinado a tiros em julho de 1984 por um homem asiático com as mesmas características de Charles Ng;

Jeffrey D. Askren, 30 anos, de Sunnyvale; desapareceu em abril de 1984; seu carro Honda foi encontrado dias depois na área de West Point, Condado de Calaveras, ao lado da casa de Lake;

Thomas D. Myers, 25 anos, de Saratoga; foi ligado ao caso quando a polícia encontrou um pedaço de sua carteira de identidade entre os itens desenterrados do terreno de Lake; entretanto, os parentes de Myers nunca puderam ser localizados e a polícia nunca conseguiu provar sua existência;

Dois restos mortais pertencentes a homens negros encontrados no terreno de Lake nunca puderam ser identificados. A polícia também colocou na conta da dupla o desaparecimento de três andarilhos que sumiram após se encontrar com Lake ou Ng.

Edição 876 da Revista Veja trouxe uma matéria sobre os horrores descobertos em Foto: Revista Veja.

Edição 876 da Revista Veja trouxe uma matéria sobre os horrores descobertos em Wilseyville. Foto: Revista Veja.

Uma dupla mortífera


“No início dos anos 80, um autoproclamado sobrevivencialista chamado Leonard Lake – cujo desejo mais ardente era raptar mulheres e mantê-las como escravas sexuais – uniu forças com um simpático e sádico asiático chamado Charles Ng. Juntos – em um bunker de concreto especialmente projetado e equipado, construído em um terreno arborizado nas remotas colinas de Sierra Nevada, no norte da Califórnia – eles puseram em prática suas depravadas fantasias e estupraram, torturaram e mataram uma série de prisioneiras enquanto gravavam as atrocidades em vídeo.”

[Harold Schechter – Serial Killers: Anamotia do Mal]

Enquanto o xerife Ballard e sua equipe trabalhavam doze horas por dia para descobrir os terríveis segredos do terreno da morte em Wilseyville, o FBI buscava informações adicionais sobre uma das pessoas que se acreditava serem responsáveis pela carnificina, Charles Chitat Ng.

  • Charles Chitat Ng

Eles sabiam que Ng nasceu em Hong Kong, em 24 de dezembro de 1961. Filho de um empresário rico, ele teve todas as oportunidades que o dinheiro podia oferecer, mas Charlie, como era chamado, parecia ter nascido com a personalidade voltada para a delinquência. Rebelde desde criança, ele foi expulso de várias escolas por roubar e provocar incêndios. Vandalismo e espancamentos de outros meninos na rua eram comuns. Aos 10 anos, sem sabe o que fazer com o filho, seus pais o levaram em um psicólogo, sem sucesso. Temendo pelo futuro do filho e lutando para que se endireitasse, seu pai o enviou para um internato na Inglaterra, na cidade de Yorkshire, onde ele ficou sob a proteção de seu tio, que era um professor na escola. Mas depois de pouco tempo, Charles foi pego roubando de outros estudantes e de uma loja de departamentos e, mais uma vez, foi expulso. Seu tio também chegou ao limite com o sobrinho. Em uma visita à Inglaterra, Oi Ping, mãe de Ng,
descobriu que o filho estava a mercê da própria sorte e questionou o irmão do marido que apenas revelou que queria o garoto longe da sua casa.

Ele retornou a Hong Kong até que, com 18 anos, obteve um visto de estudante para estudar nos Estados Unidos. Ele entrou na Faculdade Notre Dame, em Belmont, Califórnia. Obviamente, a dura vida de um estudante universitário não era para ele e Charles desistiu depois de apenas um semestre. No mesmo ano, em outubro de 1979, ele foi acusado de omissão de socorro em um acidente de trânsito. Mais tarde, ele foi condenado a prestar trabalho voluntário e a pagar os danos do acidente. Pouco depois, e embora não fosse um cidadão americano, Ng se alistou nos fuzileiros navais. Com uma identidade falsa, ele enganou os militares dizendo a todos que era nascido em Bloomfield, Indiana.

O adolescente Charles Ng. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

O adolescente Charles Ng. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Em 1981, Ng foi promovido ao cargo de “Cabo de Lança”. No entanto, sua carreira militar terminou pouco depois, quando ele e três cúmplices roubaram armas militares de um arsenal na base marinha de Kaneohe, no Havaí. Um mês depois, ele foi identificado e preso pelos militares e trancado numa cela. Mas poucos dias depois ele conseguiu fugir, indo em direção a Califórnia. E na terra das oportunidades ele cruzou o seu caminho com um homem igualmente mau: Leonard Lake.

Não se sabe como os dois se encontraram. Charlotte Greig, em “Evil Serial Killers: In the Minds of Monsters” (2005), revela que Ng entrou em contato com Lake após ler um anúncio de Lake em uma revista de sobrevivência. Certo mesmo é que os dois pareceram se dar bem e Ng se mudou para a casa onde moravam Lake e sua esposa Balazs.

Mas a estadia não durou muito tempo. O FBI estava na cola de Ng devido à sua fuga do presídio militar no Havaí. Eventualmente, o FBI chegou até Ng e o prendeu. Lake, com medo, e mesmo não tendo nada a ver com o roubo, se refugiou em seu chalé nas montanhas. Lake não tinha nada a ver com o roubo, mas ele tinha um passado nebuloso e talvez por isso se escondeu após o FBI bater em sua porta à procura do seu novo amigo. Nessa época, acredita-se que ele já havia assassinado várias pessoas, incluindo seu irmão Donald e o seu melhor amigo Gunnar.

Após cumprir sua pena em Leavenworth e sair em junho de 1984, Ng voltou para a Califórnia e se mudou para o chalé de Lake em Wilseyville. Ele deveria ter sido deportado, mas como ninguém sabia que ele era chinês, Ng permaneceu em solo americano.

A investigação final do FBI apontou que a dupla Lake & Ng começou a agir um mês depois de se reencontrarem. Em julho de 1984, Donald Giuletti, um DJ de São Francisco, e seu colega de quarto, Richard Carrazza, foram baleados por um homem asiático que entrou em seu apartamento para roubar. Giuletti morreu, mas Carrazza sobreviveu e identificou Charles Ng como o atirador. A arma usada para balear os dois foi encontrada em Wilseyville.

  • Leonard Thomas Lake

O FBI também compilou um dossiê sobre Leonard Lake – uma tarefa feita de bom grado pelos ocupadíssimos membros da Unidade de Ciência Comportamental. Ao contrário de seu parceiro mais novo, Lake não pôde desfrutar dos melhores colégios e oportunidades. Ele nasceu em São Francisco, em 29 de outubro de 1945, de pais que não toleravam um ao outro e viviam brigando. Seu nascimento não aliviou em nada o conflito doméstico e o pequeno Lake deve ter sentido na pele o que é ser mau amado: antes dos seis anos, ele pingou de casa em casa de parentes até se fixar na casa de seus avós. De acordo com declarações de amigos e parentes, Lake nunca conseguiu superar seus sentimentos de rejeição e abandono.

Com 19 anos, Lake saiu de casa e se alistou nos fuzileiros navais, onde recebeu treinamento como operador de radar. Após seu treinamento especializado, ele foi enviado para Da Nang, no Vietnã. De acordo com seus registros médicos, Lake foi hospitalizado durante sua primeira missão por “exibir reações psicóticas incipientes“. Seus superiores não consideraram sua condição séria e, após ser tratado, retornou à sua unidade para terminar a missão. Uma segunda missão durou poucos meses e foi interrompida quando Lake foi diagnosticado com “problemas médicos não especificados“, retornando à Base Marinha de El Toro, no Condado de Orange. No total, ele serviu sete anos, ganhando quatro medalhas por honra ao mérito e boa conduta. Ele foi dispensado por motivos médicos e foi morar em San Jose, Califórnia. 

Pouco depois de sua dispensa, ele foi internado em um hospital para veteranos na cidade de Oakland, sendo tratado por “neurose histérica” e “esquizofrenia“. Ele se gabava a todos de ter matado dezenas de pessoas e disse que o trabalho mais difícil na guerra era o de ensacar cadáveres.

Enquanto ainda servia com os fuzileiros navais, Lake  casou-se com Karen Lee Meinersman e a moça logo percebeu a mente pervertida que o seu marido tinha. Ele fazia comentários sobre vender o corpo da esposa para amigos na Marinha e posteriormente comentou sobre ela virar uma prostituta. Ele era controlador e tinha sempre que dominá-la, chegando ao ponto dele chamá-la de “escrava” e pedir a ela que se referisse a ele como “mestre”. Eventualmente, Karen chegou ao limite com as fantasias sexuais doentias do marido. Coisas que ela nunca havia pensado em fazer, como dançar em boates de strip-tease, sexo a três, bondage e sadomasoquismo, começaram a ser uma rotina.  Quando ela percebeu que o apetite sexual do marido estava além de onde ela podia ir; quando as torturas psicológicas eram insuportáveis, Karen o deixou. Uma das irmãs de Lake, Janet, revelou que essa foi a única vez que viu o irmão chorar. O divórcio pode ter sido a semente do ódio de Leonard contra as mulheres. Começando com sua mãe, crescendo com Karen e culminando com as dezenas de namoradas e amantes que viriam nos anos seguintes.

Leonard Lake e Sir Lancelot, um bode que ele usava em feiras para ganhar um trocado tirando fotos com as pessoas. Mas o principal objetivo era fazer propostas indecentes a garotas que se aproximavam interessadas em tirar uma foto com o animal. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Leonard Lake e Sir Lancelot, uma cabra que ele usava em feiras para ganhar um trocado tirando fotos com as pessoas. Mas o principal objetivo era fazer propostas indecentes a garotas que se aproximavam interessadas em tirar uma foto com o animal. Foi assim que ele conheceu sua segunda esposa. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Após o divórcio, Lake frequentou por pouco tempo a Universidade Estadual de San Jose. Depois de abandonar a faculdade, em 1976, ele conheceu Claralyn Balazs em uma feira onde costumava trabalhar cobrando quem quisesse tirar fotografias com uma cabra que ele havia enfeitado para parecer um unicórnio. Em 1981, Lake e Balazs se mudaram para um pequeno povoado (com não mais do que 300 habitantes) chamado Philo, no condado de Mendocino, no norte da Califórnia. Enquanto morou em Philo, o casal viveu em uma fazenda que Leonard plantava maconha. De acordo com conhecidos, nessa época que Lake se tornou delirante e converteu seu rancho em um “recinto de treinamento de sobrevivência” e abasteceu-o com armas e suprimentos para afastar o “cerco” que ele acreditava estar chegando.

O casal se separou tempos depois quando Balazs chegou ao seu limite com as fantasias sexuais doentias de seu marido – e também por não querer mudar com ele para o meio do mato.

Edição 876 da Revista Veja trouxe uma matéria sobre os horrores descobertos em Wilseyville. Foto: Revista Veja.

Edição 876 da Revista Veja trouxe uma matéria sobre os horrores descobertos em Wilseyville. Foto: Revista Veja.

O Homem mais Procurado do Mundo


“Um advogado que conheceu Ng, 24, disse que ele acreditava ser a reencarnação de um ‘Guerreiro Ninja’ – um tipo de assassino japonês – e queria se tornar um soldado da fortuna”.

[Observer Reporter – More Bone Pieces Found At House. 14/06/1985]

Passo a passo, o FBI conseguiu traçar os movimentos de Ng depois dele deixar São Francisco. No dia em que Claralyn Balazs o levou ao aeroporto, o dia em que o simples roubo de uma morsa levou à descoberta da dupla, 2 de junho, ele foi visto embarcando em um voo da American Airlines para Chicago. Ao chegar lá, ele se hospedou no Chateau Hotel com o nome de Mike Kimoto. Ele ficou por lá durante quatro dias; se encontrou com um amigo desconhecido e viajou para Detroit, então seguiu para a fronteira com o Canadá, cruzando-a sozinho. Uma busca em seu apartamento revelou várias armas e objetos supostamente pertencentes às vítimas, bem como um recibo de pagamento da Dennis Moving Company – uma empresa de mudança.

Embora Charles Ng tenha sumido do mapa e permanecido nas sombras por mais de um mês, sua compulsão em roubar foi o que levou à sua ruína. No sábado, 6 de julho de 1985, dois seguranças de uma loja da Hudson Bay (uma das maiores lojas de departamentos canadenses), em Calgary, Canadá, se aproximaram de Ng após ele ter tentado sair da loja com vários itens de supermercado escondidos em uma mochila. Quando o confrontaram, Ng puxou uma arma e os ameaçou. Seguiu-se uma briga curta, durante a qual, um dos seguranças foi baleado na mão, antes que Ng fosse dominado e levado sob custódia. Mais tarde, ele foi autuado na delegacia de polícia metropolitana de Calgary por roubo, tentativa de roubo, posse de uma arma de fogo e tentativa de assassinato.

Os homens que prenderam Ng seguram um jornal mostrando sua captura. O segurança Sean Doyle levou um tiro na mão durante a prisão.

Os homens que prenderam Ng seguram um jornal mostrando sua captura. O segurança Sean Doyle levou um tiro na mão durante a prisão.

Quando Charles Ng se preparava para enfrentar os tribunais canadenses, as notícias de sua prisão chegaram à força-tarefa de Calaveras. Mas os sorrisos dos americanos logo deram lugar ao desânimo quando John Cosbie, Ministro da Justiça do Canadá, anunciou que não extraditaria nenhum prisioneiro que pudesse receber a pena de morte nos EUA. O anúncio foi feito com base em um tratado de extradição, de 1976, dos EUA-Canadá, que dava direito aos canadenses de extraditar ou não criminosos que pudessem vir a receber a pena de morte nos Estados Unidos.

Depois do choque inicial e não digerir por completo a recusa do governo canadense, dois detetives de São Francisco viajaram até Calgary para interrogar Ng em sua cela. Ele revelou que Lake foi o responsável pela maioria dos assassinatos, mas admitiu ter ajudado a descartar o corpo de Paul Cosner. Após o interrogatório, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos fez uma nova tentativa de extraditar Ng, sem sucesso. Ele estava prestes a ser julgado pelos crimes cometidos em solo canadense e, mais tarde, julgado e condenado, pegou quatro anos e meio de prisão.

Reportagem da Folha de São Paulo de 7 de agosto de 1985 fala sobre a prisão de Charles Ng. Foto: Folha de São Paulo.

Reportagem da Folha de São Paulo de 7 de agosto de 1985 fala sobre a prisão de Charles Ng. Foto: Folha de São Paulo.

Quando Ng começou a cumprir sua sentença, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos iniciou o que se tornaria uma longa e prolongada batalha para extraditá-lo. O processo durou quase seis anos e, prevendo que uma hora ou outra o governo canadense cederia, Ng passou a maior parte do seu tempo encarcerado estudando as leis americanas. Durante os processos de extradição, advogados americanos apresentaram vários desenhos feitos por Ng, desenhos os quais mostravam detalhes dos assassinatos de Wilseyville. Segundo os advogados, somente alguém com um conhecimento íntimo dos assassinatos poderia produzir cenas tão fiéis. Além do mais, os canadenses não iam querer na rua um sádico assassino acusado de atrocidades tão abomináveis que fizeram muitos policiais calejados revirarem o estômago. Era melhor livrar-se dele extraditando-o.

Após dezenas de recursos e audiências aparentemente intermináveis, o governo canadense finalmente concordou com o pedido do governo americano e extraditou Charles Ng, em 26 de setembro de 1991. Ng foi levado para a base da força aérea de McClellan e de lá para a prisão de Folsom, em Sacramento, onde aguardou julgamento pelas acusações feitas anos antes, em 1985 – 12 assassinatos.

Charles Ng é fotografado deixando o Canadá entrando em um avião que o levaria direto para a Califórnia. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Charles Ng é fotografado deixando o Canadá entrando em um avião que o levou direto para a Califórnia. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Charles Ng é fichado pela polícia dos Estados Unidos após, finalmente, ser extraditado.

Charles Ng é fichado pela polícia dos Estados Unidos após, finalmente, ser extraditado. Ele foi direto para a Prisão do Estado de Folsom.

O que se seguiu foi simplesmente um dos mais difíceis e caros processos penais da história dos Estados Unidos, superando até mesmo o caso O.J. Simpson. Ng usou toda brecha possível para adiar os processos de julgamento contra ele.

O local para ele enfrentar o júri seria San Andreas, mas Ng apresentou várias ações contra o estado da Califórnia; eram queixas formais que iam desde maus tratos e comida ruim até uma medicação que ele supostamente tomou para evitar enjoos durante uma viagem de 80 quilômetros até um tribunal, deixando-o sonolento e incapaz de participar com coerência. Ele ganhou muito tempo também demitindo, de tempos em tempos, seus advogados. Ng chegou a processá-los em $ 1 milhão por incompetência. Ele chegou a pedir para representar a si mesmo no tribunal, mas depois desistiu.

As táticas para atrasar o julgamento continuaram quando os advogados de Ng solicitaram que o julgamento fosse transferido de San Andreas, no Condado de Calaveras, para em algum lugar do Condado de Orange. Eles diziam que Ng não seria justamente julgado já que, de acordo com uma pesquisa encomendada por eles, 95% dos residentes do Condado de Calaveras acreditavam que Charles Ng era culpado dos assassinatos de Wilseyville. Estes e outros movimentos chegaram até o Tribunal Supremo da Califórnia até que, finalmente, em 8 de abril de 1994, um juiz de San Andreas deferiu o pedido e ordenou que o julgamento fosse realizado em Santa Ana, no Condado de Orange. Esta ação causou novos atrasos quando as autoridades do Condado de Orange se opuseram ao pedido, alegando que o condado estava praticamente falido e era incapaz de arcar com os custos de um julgamento de tamanha magnitude. A questão foi finalmente resolvida quando o estado da Califórnia concordou em pagar os custos incorridos.

Parecia tudo certo, mas Ng sabia como jogar. Ele seguia demitindo seus advogados, contratando novos e estes pedindo novos adiamentos para poderem estudar e preparar o caso. Em algum ponto deste estressante processo, em uma das audiências, e por ser considerado “altamente perigoso“, Ng foi colocado em uma pequena jaula, que posteriormente foi retirada quando um magistrado federal descreveu seu uso como “bárbaro“.

O sádico asiático em um local mais do que apropriado para ele: uma jaula. Foto: Charles Ng é fotografado deixando o Canadá entrando em um avião que o levaria direto para a Califórnia. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

O sádico asiático em um local mais do que apropriado para ele: uma jaula. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Antes de finalmente ser julgado, Ng apareceu diante de seis juízes diferentes em um caso que acumulou mais de seis toneladas de evidências e outros documentos legais a um custo aproximado de $10 milhões de dólares.

Enfim, o julgamento do sádico


“Em um assustador presságio das horríveis evidências que serão apresentadas, o aguardado julgamento do assassino em massa [sic] Charles Ng começou segunda-feira com trechos de vídeos caseiros mostrando Ng e um parceiro ameaçando matar duas mulheres se elas não aceitassem se tornarem suas escravas sexuais”.

[Los Angeles Times – Gruesome Video Opens Trial of Accused Mass Murderer Ng. 27/10/1998]

Em outubro de 1998, após treze anos de atrasos e argumentos legais intermináveis, o julgamento de Charles Chitat Ng começou. “Um campo de matança“, “um cemitério em massa“, disparou a promotora Sharlene Honnaka, sobre o bunker, em suas palavras iniciais.

Nos meses que se seguiram, o júri, a mídia e as famílias e amigos das vítimas, ouviriam a promotora pública Honnaka descrever como Leonard Lake e Charles Ng selecionavam e sequestravam suas vítimas antes de levá-las a Wilseyville, onde eram sadicamente torturadas, estupradas e assassinadas. Para não deixar dúvidas, Honnaka apresentou os vídeos que foram encontrados no local e que claramente mostravam Ng e Lake torturando e abusando de Katherine Allen e Brenda O’Connor. As evidências, incluindo objetos roubados e fotografias, também foram apresentadas, vinculando os dois homens às vítimas. Honnaka também tentou mostrar trechos dos diários de Lake como prova, mas o juiz John J. Ryan recusou a admiti-las, afirmando que os textos não tinham relevância para o caso. Parte do registro militar de Lake também foi retido.

Tudo por causa da morsa. Imagem exibida no julgamento de Charles Ng mostra a morsa que o asiático tentou roubar em 2 de junho de 1985. O roubo mal sucedido levou às terríveis descobertas de Wilseyville. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Tudo por causa da morsa. Imagem exibida no julgamento de Charles Ng mostra a morsa que o asiático tentou roubar em 2 de junho de 1985. O roubo mal sucedido levou às terríveis descobertas de Wilseyville. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no tribunal mostra fragmentos de ossos encontrados na propriedade de Lake. No total, 45 quilos de fragmentos de ossos foram retirados do local. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no tribunal mostra fragmentos de ossos encontrados na propriedade de Lake. No total, 45 quilos de fragmentos de ossos foram retirados da sua propriedade. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

A defesa fez o seu trabalho, alegando que Ng foi um cúmplice involuntário sob o domínio do perigoso e demente Lake, o verdadeiro responsável pelos assassinatos. A defesa argumentou que Lake era um “homem mentalmente perturbado” e que nutria um “profundo ódio pelas mulheres“. Ng, segundo eles, não matou ninguém e mal participou dos atos sexuais. Ng, disse seus advogados, sempre foi um jovem dependente, em busca de direção. O psiquiatra da defesa Stuart Grassian testemunhou que Ng sofria de transtorno de personalidade dependente, mas suas falas foram ofuscadas quando admitiu não ter visto as fitas que mostravam Ng participando ativamente dos crimes. Já o psicólogo clínico Abraham Nevod, também convocado pela defesa, concordou com o diagnóstico de Grassian, opinando que o comportamento de Ng nas fitas indicava uma tentativa dele “espelhar” e agradar Lake. Guardas de prisões onde Ng esteve, dois xerifes, um funcionário de uma penitenciária e um agente de condicional testemunharam que Ng sempre foi um preso modelo. Antigos amigos do exército disseram que ele era calado e tinha bom comportamento.

Imagem exibida no julgamento mostra um dos cadáveres encontrados na propriedade. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no julgamento mostra um dos cadáveres encontrados na propriedade. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no julgamento mostra um dos cadáveres encontrados na propriedade. O cadáver foi enterrado com um objeto popularmente conhecido como "mordaça com bola", o que significa que ele foi utilizado na tortura da vítima. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no julgamento mostra um dos cadáveres encontrados na propriedade. O cadáver foi enterrado com um objeto popularmente conhecido como “mordaça com bola”, o que significa que ele foi utilizado na tortura da vítima. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no tribunal mostra um cadáver que foi enterrado com algemas. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

Imagem exibida no tribunal mostra um cadáver que foi enterrado com algemas. Foto: Die for Me: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Murders.

O momento comovente ocorreu quando os pais do serial killer testemunharam sobre sua infância difícil, expressando profundo remorso e vergonha pelo comportamento do filho.

Seu pai, Kenneth Ng, 69 anos na época, culpou a si mesmo pelo comportamento do filho.

Eu não sei como dizer como nosso filho Charles se envolveu nessa coisa. Eu não sei o que dizer a vocês, pessoas boas. Eu tentei endireitá-lo. Infelizmente, eu [fiz] da maneira errada. Eu [pensei] que isso [fosse] normal. Mas agora eu sei o quanto errado eu estava. Eu batia nele. Até minha esposa tentou me parar. Minha sogra também me pedia para parar. A mídia está em todo lugar descrevendo Charles como um monstro. Claro, nossa família se sente muito mal. Nossa família está profundamente envergonhada, e nós sentimos muito. Eu espero vê-lo na cela, ao invés de morto”.

[Kenneth Ng, 20 de Abril de 1999]

A promotoria retrucou os psicólogos, dizendo que Ng parecia bem animado nos estupros e não hesitou ou pareceu incomodado ao cortar o sutiã de Brenda ao mesmo tempo em que dizia: “Você pode chorar como o resto deles, mas isso não vai te trazer nada de bom. Nós temos o coração frio“. Em dado momento, Ng complicou a si mesmo quando insistiu em tomar a palavra e se defender, um movimento que permitiu a promotoria apresentar provas adicionais, incluindo uma foto dele em sua cela mostrando desenhos incriminatórios na parede atrás dele ao lado de uma frase que dizia:

Sem morte, sem emoção. Sem arma, sem diversão“.

Segundo a promotoria, os restos de ossos encontrados na propriedade indicavam o assassinato em série de mais de 25 pessoas, muitas das vítimas seriam mendigos e andarilhos que foram contratados por Lake ou Ng para ajudar na construção do bunker e, ao final do dia ou semana de trabalho, eram mortos.

Finalmente, depois de oito longos meses, quando todas as evidências foram apresentadas, o júri se retirou para definir um veredito. Dentro de horas eles retornaram. O júri de Santa Ana apontou Charles Chitat Ng culpado do assassinato de seis homens, três mulheres e dois bebês. A décima segunda acusação, do assassinato de Paul Cosner, foi abandonada por falta de provas.

O juiz John J. Ryan seguiu a recomendação do júri e sentenciou Ng a morte. Veja o vídeo abaixo:

Loucura a Dois


Eles nunca me pegarão vivo“.

[Leonard Lake]

A queda de braço entre Ng e a justiça americana não terminou com a sua condenação. Ele e seus advogados apresentaram recursos contra a “dureza” da sentença. Ng parecia caçoar do sistema legal dos Estados Unidos. Mesmo que houvesse evidências claras contra ele, como o homem que testemunhou que ele assassinou um DJ de São Francisco e filmagens em vídeo claras dele participando na tortura e estupro de duas vítimas que posteriormente foram assassinadas, Ng parecia animado em estar brincando com fogo. Tudo isso, no entanto, tirou o foco da verdadeira discussão: O que levou ele e Leonard Lake a cometerem atos tão extremos? Por que eles sequestravam, estupravam, torturavam e matavam suas vítimas, incluindo amigos e familiares? Por que filmavam?

Um deles cometeu suicídio levando para a tumba seus mais sombrios segredos. O outro nunca abriu a boca, afirmando até hoje ser inocente. O que podemos fazer, então, é apenas especular.

Lake e Ng eram capazes de cometer crimes como indivíduos, mas atos extremos não aconteceram até que eles se conhecessem e começassem a alimentar os desejos sados-sexuais um do outro, infligindo dor e morte a terceiros. A situação pode ser um exemplo do que os psicólogos criminais chamam de Gestalt – “o todo é maior do que a soma das suas partes“.

Leonard Lake tinha a fantasia de construir um bunker de sobrevivência e manter presas jovens mulheres para lhes servir de sexo durante uma catástrofe nuclear. Lake deixou claro suas ideias em um bilhete encontrado pela polícia e em gravações de fitas.

Em um vídeo de Outubro de 1983, um obeso e calvo Lake é visto sentado tranquilamente em uma cadeira de balanço e falando à câmera de como “estes são tempos difíceis“, acrescentando que, com as guerras devastando diferentes partes do mundo, ter salas secretas e protegidas por concreto e aço são “investimentos muito seguros“. Mas ele acrescenta o real objetivo por trás de tudo:

“Eu sou realista. Eu não sou particularmente atraente para as mulheres… Mesmo assim, sou muito ativo sexualmente… O que eu quero é uma parceira do sexo feminino. Alguém que eu possa trancar em uma sala depois de estar saciado.”

Aparentemente, naquela época, Lake ainda não havia colocado em prática seu plano, já que ele conclui suas palavras no vídeo de forma ameaçadora: “A partir de agora, eu vou tentar… Será interessante ver até onde essa fita e eu vamos“.

Lake chamou seu plano de “Operação Miranda”. Uma vez que o mundo tivesse sido destruído, ele sairia de seu bunker e repovoaria o planeta usando suas escravas sexuais, um pensamento delirante parecido com o de Charles Manson.

Lake já havia matado duas pessoas – seu irmão Donald e seu melhor amigo Gunnar para roubar-lhes o dinheiro e financiar a construção do bunker – quando conheceu Ng (a polícia suspeita de outros assassinatos, como o de andarilhos e mendigos que ajudaram na construção do bunker, mas nunca pôde provar). O bunker já estava construído e obviamente o asiático não tomou parte nisso e, muito menos, tinha a mente delirante, mas ele tinha uma coisa que casou perfeitamente com Lake: Ng era mau. Seu lado homicida e perverso estava adormecido e foi ligado quando passou a conviver com Lake.

Juntos, essa dupla do inferno matou entre 11 e 30 pessoas. Eles claramente não tinham a “paciência” de outro lunático que cometeu um crime parecido: Gary Heidnik. Na verdade, Lake e Heidnik compartilhavam traços comuns, mas a raiz de seus delírios se diferia em profundidade. Enquanto Heidnik estava completamente absorto em seu mundo fantasioso, mantendo vivas suas cativas mesmo elas o desobedecendo (claro que a base de pancadas, mas sem intenção de matá-las), Lake estava mais preocupado em manter relações sexuais. Se Heidnik queria literalmente construir uma fábrica de bebês, Lake queria subjugar, estuprar e torturar mulheres. Daí advinha o seu real prazer.

Lake e Ng poderiam ter tido um longo reinado de horror não fosse o vício do asiático em roubar coisas. Eles não são diferentes de outras duplas do inferno como Henry Lee Lucas e Ottis Toole ou Mario Furlan e Wolfgang Abel. Quando homens como esses se encontram, geralmente um leva o outro ao assassinato. No entanto, isso não significa que a outra pessoa é um passageiro passivo. A maioria das duplas de serial killers consistem de uma pessoa dominante que se associa a um cúmplice igualmente entusiasmado ou a alguém que, por falta de alguma coisa em seu próprio caráter, é facilmente contaminado pela loucura homicida.

Leonard Lake em suas próprias palavras


Eu sou realista. Eu tenho 38 anos, um pouco gorducho, sem muito cabelo e perdendo o resto que tenho. Particularmente, eu não sou atraente para as mulheres. Os imãs tradicionais – o dinheiro, a posição, o poder – eu não tenho. Ainda assim eu sou muito ativo sexualmente, e ainda me sinto bastante atraído por um tipo particular de mulher cuja maioria, por definição, é totalmente desinteressada em mim.

Velho sujo, pervertido. Eu me sinto atraído por jovens mulheres, até mesmo por jovens de 12 anos, embora com certeza 18 a 22 seja a faixa de idade ideal e que mais me interessa. Eu gosto de mulheres magras, bonitas é claro, pequenas, seios pequenos, cabelos compridos. E, tal mulher, em virtude de sua juventude, sua atratividade… simplesmente tem melhores opções. Não há nenhuma razão em particular para este tipo de mulher se interessar por mim.

Mas há mais do que isso. É difícil explicar a minha personalidade em 25 palavras ou menos, mas eu, de fato, sou um solitário, eu gosto da paz, da tranquilidade, da solidão, eu adoro ser eu mesmo. E embora todos os meus relacionamentos com mulheres no passado tenham sido sexualmente um sucesso, socialmente todos falharam. Eu passei por dois divórcios, inúmeras mulheres, 50, 55, eu esqueci exatamente o número, eu contei recentemente. Eu receio que no final das contas eu seja apenas um pateta sexista.

Eu adoro usar as mulheres e, é claro, mulheres particularmente não estão interessadas em serem usadas. Eu certamente curto o sexo. Eu obviamente gosto do domínio crescente em uma mulher e do uso do corpo dela. Mas eu, particularmente, não me interesso pela identidade, pelo ego, por todas as coisas que um homem deveria estar interessado para complementar as necessidades femininas.

Agora eu posso fingir essas emoções, e eu posso fingi-las muito bem. No passado, eu tive muito sucesso em atrair mulheres interessantes e atraentes simplesmente porque eu mentia bem em atender às necessidades e requisitos delas.

Então, momentaneamente, eu tinha o que queria e elas achavam que tinham o que queriam. Mas a longo prazo eu não quero me incomodar [mais].

O que eu quero é uma parceira do sexo feminino. Eu quero poder usar uma mulher sempre e quando eu quiser. E quando eu estiver cansado ou saciado ou aborrecido ou não interessado, eu simplesmente quero jogá-la, trancá-la em um pequeno quarto para tirá-la da minha vista, da minha vida e, assim, evitar de fazer o que sempre fui obrigado a fazer, entreter, divertir ou satisfazer um determinado capricho ou necessidade emocional da mulher ou da namorada.

Tal arranjo, é claro, não é apenas descaradamente sexista, mas totalmente ilegal. Não há dúvida sobre isso. Isso viola todos os direitos humanos e blá blá blá, blá blá blá. Para poupar a posteridade do meu conceito de moralidade do de outras pessoas, eu estou explicando a minha moralidade, o que eu sinto, o que eu quero. E a partir deste momento vou tentar e fazer isso”.

[Leonard Lake]

Apesar da paranoia de Lake em relação a uma guerra nuclear mundial e de seu bizarro plano de repovoamento do mundo através de escravas sexuais, suas palavras deixam claro que ele entendia os conceitos de moralidade e tinha plena sabedoria do que era certo e errado. Assim são psicopatas. Eles entendem que suas atitudes são erradas e que podem prejudicar terceiros, mas isso simplesmente não importa para eles. Psicopatas colocam suas necessidades acima dos direitos dos outros. Para conseguir um objetivo, psicopatas podem chegar ao extremo: matar pessoas. Foi o que fez Joe Hunt. Foi o que fez Leonard Lake. No caso Lake, primeiramente matando seu próprio irmão e o seu melhor amigo para roubar-lhes o dinheiro e financiar sua Operação Miranda; depois matando mulheres, seus cônjuges e filhos, apenas para satisfazer suas necessidades sexuais.

Um outro aspecto da sua personalidade é o sadismo. O termo “sádico” tem origem com o Marquês de Sade (1740-1814) em decurso de suas obras. Referenciar Sade aqui é muito mais do que representativo, uma vez que a descrição desta parafilia é ancorada essencialmente no conceito Sadiano de excitação sexual, na conexão entre o êxtase e delito.

Vale lembrar que a violência perpetrada por um sádico não é a expressão de algo instintivo e/ou impulsivo; é, na verdade, um ato premeditado e extremamente ligado à fantasia erótica. O sofrimento da vítima desencadeia no agressor a satisfação sexual de forma ascendente, aumentando na medida em que avança com as agressões. Os atos sádicos tendem a aumentar com o passar do tempo e são potencialmente perigosos se, em concomitância à esta parafilia, estiver associado o transtorno de personalidade antissocial – o que parece ser o caso de Leonard Lake.

Vídeo – As Fitas de Leonard Lake


Abaixo disponibilizamos algumas das gravações de Leonard Lake, incluindo imagens da fita “M. Ladies Kathy / Brenda”.

  • Minuto 0 ao 14: Monólogo de Leonard Lake;
  • Minuto 14 ao 25: Filmagens da construção do Bunker;
  • Minuto 25 ao 28: Tortura psicológica de Katherine Allen e Brenda O’Connor;
  • Minuto 28 ao 30: Filmagens de Claralyn Balazs, segunda esposa de Lake;
  • Minuto 30 ao 32: Imagens de arquivo da Polícia do Condado de Calaveras;
  • Minuto 32 ao 33: Reportagem de época da TV americana.

Fontes consultadas: [1] Don Lasseter – DIE FOR ME: The Terrifying True Story of the Charles Ng & Leonard Lake Torture Muders (2000); [2] Harold Schechet – Serial Killers, Anatomia do Mal (2013); [3]
Gruesome Video Opens Trial of Accused Mass Murderer Ng – Los Angeles Times. 27/10/1998; [4] ALVES, S. M. (1995) Crimes sexuais. Coimbra. Livraria Almedina; [5] EIGUER, A. (1999) Pequeno tratado das perversões morais. Lisboa. Climepsi Editores; [6] As Jury Meets to Decide His Fate, Ng Expects Death – Los Angeles Times. 12/04/1999; [7] Videos Continue in Ng Prosecution – Los Angeles Times. 29/10/1998; [8] Ng Murder Trial Opens With Chilling Videos – Los Angeles Times. 27/10/1998; [9] Human Bones Found In Isolated Cabin – Observer Reporter. 11/06/1985; [10] Mass murderer can represent self – Lodi News Sentinel. 18/05/1998; [11] More Bone Pieces Found At House – Observer Reporter. 14/06/1985; [12] Cabin horror unfolds; 25 possibly murdered – Gainesville Sun. 9/06/1985; [13] Journey Into Evil (2012) – Serial Killers Leonard Lake & Charles Ng Documentary; [14] Dateline 2017 Leonard Lake And Charles Ng;

Colaboração de:


Sheeza

Veronyca Veras
Revisão

Rochele Kothe
Contribuição texto

Joao
Tradução – Vídeo

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"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
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  • Jaque

    Meu estomago revirou , embrulhou diversar vezes lendo o artigo, nem consigo ver o video, Meu Deus como pode ter gente doente assim.

  • EJR

    Senhores, mais uma narrativa perfeita sobre dois sujeitos que deveriam parar na cadeira elétrica. Publiquei outros cometários há anos no Site sugerindo a vcs um texto sobre o Serial Killer Zodíaco. Mas, entendo vcs. Há muito material por aí desse tipo de assassino e que, infelizmente, se multiplicam por todo o mundo. Fiquei impressionado com caso q assistir a pouco no ID. Mais uma sugestão(rs) pra vcs de um cara dos EUA chamado James Mitchell “Mike” DeBardeleben. O cara estava sendo procurado por falsificar dólares em 1982 e terminaram achando um serial killer metódico, que mudava de identidade e conseguia escapar, além de gravar em fitas K7 suas atrocidades com as mulheres. EUA realmente o país dos serial killers.

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