Serial Killers: Carl Panzram, mau demais para viver

Ele foi um assassino perverso e desprovido de remorso, um estuprador de crianças, um homem sem alma. Nascido em uma área rural do Minnesota em 1891, iniciou aos oito...
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Carl Panzram

Ele foi um assassino perverso e desprovido de remorso, um estuprador de crianças, um homem sem alma. Nascido em uma área rural do Minnesota em 1891, iniciou aos oito anos de idade uma odisseia de crimes e assassinatos que durou o resto de sua vida. Quando tinha apenas 11 anos, sua família o enviou para um reformatório, um acordo com as autoridades após ele ser pego arrombando uma propriedade. Repetidamente sodomizado e submetido a torturas físicas durante seus dois anos na instituição para jovens delinquentes, seus problemas emocionais se agravaram de forma assustadora. Já na adolescência, ele gostava de causar incêndios apenas pelo prazer de ver prédios em chamas e às vezes fantasiava sobre cometer homicídios atrás de homicídios. Após estuprar e matar um menino de 12 anos em 1922, ele alegremente relembrou seu crime:

“Os miolos dele estavam saindo pelas orelhas quando o deixei. Não me desculpo. Minha consciência não me incomoda. Eu durmo tranquilo e tenho sonhos agradáveis.”

Seu nome era Carl Panzram, um dos mais ferozes e impenitentes serial killers da América. Amargurado por anos de tortura, espancamentos e abuso sexual tanto dentro quanto fora da prisão, Panzram tornou-se um homem cuja maldade o personificou. Ele odiava a todos, incluindo a si mesmo:

“Eu estava tão cheio de ódio que não havia espaço em mim para sentimentos como amor, piedade, bondade, honra ou decência, minha única mágoa é não ter nascido morto ou mesmo nem ter nascido.”

Ele viveu uma existência nômade, cometendo crimes na Europa, Escócia, Estados Unidos, América do Sul e África, onde em certa ocasião matou seis homens de uma só vez e alimentou crocodilos famintos com seus corpos. Passou a maior parte de sua vida caótica em prisões, onde métodos arcaicos de repressão incluíam torturas dos tempos medievais.

Mas quando estava à solta, Panzram trilhou implacavelmente um caminho de assassinatos, estupros e incêndios, uma verdadeira missão de destruição, improvável que algum agente da lei já tivesse visto. Para explicar a sua devassidão, ele disse que seus pais:

“Eram ignorantes, e graças a seus ensinamentos impróprios e ambiente igualmente impróprio, eu fui gradualmente conduzido a uma maneira errada de viver.”

Mas as prisões eram o que Panzram mais odiava. Ao longo de sua vida, ele permaneceu atado e um ciclo sem esperanças de crime e encarceramento. O famoso psicólogo Karl Menninger certa vez descreveu Panzram como um homem “confrontado com o problema do mal em si mesmo e no resto de nós. Eu sempre o tenho em mente como o produto lógico de nosso sistema prisional.”

No dia da sua execução na Penitenciária Federal de Leavenworth em 1930, ele correu alegremente pelos degraus do patíbulo, cuspiu no rosto do carrasco e berrou:

“Anda logo com isso, seu desgraçado! Eu já teria enforcado uma dúzia de homens enquanto você fica aí parado enrolando!””

Esta é a história de um homem que era “ruim demais para viver”. Panzram foi um verdadeiro misantropo, um homem que odiava seres humanos. Ele não pediu desculpas pelo que era e lançou a culpa por seus desvios de conduta diretamente à porta das instituições da sociedade. Não há necessidade de exagerar ou elaborar sobre a vida e crimes de Carl Panzram. A verdade é suficiente.

DarkSide Books

Mau demais para viver


“Por mais terríveis que fossem seus crimes, outros infames serial killers não eram páreo para Panzram em termos de pura fúria obstinada. Trancados em uma cela com Panzram, Ted Bundy, John Wayne Gacy e Jeffrey Dahmer teriam virado mulherzinha.”

[Harold Schechter – Serial Killers: Anatomia do Mal, DarkSide Books, 2013]

Carl Panzram nasceu em 28 de junho de 1891, em uma desolada fazenda no norte de Minnesota. Seus pais eram de ascendência germânica, trabalhavam duro, eram austeros e, como muitos imigrantes daquele tempo, sordidamente pobres. Ademais, Carl tinha cinco irmãos e uma irmã. Ele declararia mais tarde que seus irmãos eram honestos e fazendeiros dedicados, embora as mesmas características não lhe tivessem sido transmitidas.

“Eu fui um animal humano desde que nasci… fui um ladrão e um mentiroso. Quanto mais velho ficava, mais me tornava mau.”

[Carl Panzram]

Quando Carl atingiu a idade de 7 anos, seus pais se separaram. Claro, para pessoas de seu nível econômico, não havia divórcio, tribunais nem pensão alimentícia. Seu pai simplesmente deixou a fazenda certo dia e nunca mais retornou. Como resultado, a família teve de encarar um futuro sombrio. Eles trabalhavam do alvorecer ao pôr do sol na fazenda com um parco retorno de sua labuta. Durante estes primeiros anos, os irmãos de Carl o surravam continuamente por qualquer motivo, não importando o quão insignificante fosse.

“Todos achavam certo me enganar, mentir para mim e sair me chutando sempre que tivessem vontade, e eles tinham vontade regularmente.”

[Carl Panzram]

Carl invadiu a residência de um vizinho quando tinha 11 anos. Ele furtou tudo aquilo em que conseguiu botar as mãos, incluindo um revólver. Ele foi rapidamente descoberto por seus irmãos, que o espancaram até a inconsciência. Carl foi preso pelo crime e, em 1903, enviado para a Minnesota State Training School (Escola de Treinamento do Estado de Minnesota), um reformatório para delinquentes juvenis.


Minnesota State Training School

Localizada na cidade de Red Wing, às margens do Rio Mississippi e ao sul de St. Paul, a Minnesota State Training School continha cerca de 300 rapazes cujas idades variavam de 10 a 20 anos. A população do reformatório estava à mercê de carcereiros e sujeitos a pouca ou nenhuma supervisão externa, uma condição que promovia ou ao menos permitia um nível de abuso que sequer poderia ser imaginado nos dias atuais. O registro de admissões, datado de 11 de outubro de 1903, lista o crime de Panzram como “incorrigível” e o relacionamento de seus pais como “conflituoso”. Quando Carl chegou a Red Wing, ele foi conduzido a um escritório de recepção onde um membro masculino da equipe o examinou. O menino assustado foi inteiramente despido e indagado a respeito de suas práticas sexuais.

“Ele examinou meu pênis e meu ânus, me perguntando se eu já tinha alguma vez cometido fornicação ou sodomia, se esta já me fora cometida ou mesmo se eu já me havia masturbado.”

[Carl Panzram]

Era uma advertência do que estava por vir.

Os internos também recebiam instrução cristã e quando se comportavam mal ou não conseguiam absorver as lições apropriadamente, eram atacados por funcionários furiosos e vingativos. Como Carl havia recebido pouca educação formal quando vivia na fazenda, ele era incapaz de ler muito bem. Por causa disso ele era regularmente espancado.

“Eu posso não ter realizado muito em termos de escolaridade enquanto estava lá, mas aprendi sobre como me tornar um mentiroso de primeira classe… e os princípios da degeneração.”

[Carl Panzram]

Em breve ele desenvolveu um ódio feroz pelos funcionários e para com tudo que estivesse relacionado à religião, que ele via como a causa do seu sofrimento.

“Inicialmente comecei a pensar que aquilo tudo me estava sendo injustamente imposto. A seguir passei a odiar aqueles que abusavam de mim. Então comecei a pensar que teria minha vingança tão logo e por quantas vezes eu pudesse machucar alguém. Qualquer um serviria.”

[Carl Panzram]

Quanto mais espancamentos ele suportava, mais ódio ele acumulava. Ele era surrado com pranchas de madeira, grossas tiras de couro, chicotes e mesmo pás. Mas durante todo aquele tempo Carl planejava sua vingança. Na noite de 7 de julho de 1905, ele preparou um dispositivo simples que iniciou um incêndio após ele deixar o prédio. O fogo rapidamente consumiu a oficina do reformatório, que queimou por completo enquanto Carl deitava em sua cama rindo do espetáculo da doce vingança.

Nos finais de 1905, Panzram estava a caminho de deixar para trás os horrores da Minnesota State Training School. Ele aprendeu a dizer as coisas que os funcionários queriam ouvir e quando se apresentou perante o comitê de condicional, os convenceu que era um rapaz mudado e que havia sido “reformado” pela instituição.

“Eu estava reformado, tudo bem…Quando eu deixei o reformatório de Minnesota eu sabia tudo sobre Jesus e a Bíblia. Sabia que tudo era um monte de besteira. Eu tinha sido ensinado pelos cristãos como ser um hipócrita e tinha aprendido mais sobre furtar, mentir, odiar, incendiar e matar. Eu tinha aprendido que o pênis de um garoto podia ser usado para mais coisas além de urinar e que um ânus podia ser usado para outras finalidades…”

[Carl Panzram]

"Acredita-se que ele se tornará um bom cidadão americano", noticiou o the Evening Times sobre a saída do jovem Carl Panzram. Data: 26/01/1906.

“Panzram ficará em liberdade condicional.” Evening Times.

Naquele inverno, a mãe de Carl, Lizzie Panzram, chegou ao reformatório de Red Wing para levá-lo para casa. Carl havia mudado. Mesmo nunca tendo sido uma criança extrovertida, ele havia se tornado ainda mais reservado, quieto e ensimesmado. Mas sua mãe tinha muitas outras coisas para se preocupar: um dos irmãos de Carl se afogou e a saúde dela era frágil. Ela não tinha tempo para uma criança rebelde que costumava se meter em encrencas. Lizzie pode ter pensado que Carl acabaria resolvendo sozinho seus próprios problemas. Mas mesmo nesta tenra idade ele já sentia um profundo ressentimento em relação à sua mãe.

“Minha mãe era burra demais para me ensinar algo bom… não havia mais amor. No início eu gostava dela e a respeitava. Meus sentimentos gradualmente foram se transformando em desconfiança, desgosto, nojo e a partir daí foi bastante simples se tornarem puro ódio contra ela.”

[Carl Panzram]

Em sua curta vida ele não conhecera nada além de sofrimento, espancamentos e tortura. Sua jovem mente se fixava em coisas das quais a maioria das crianças pouco sabe. O The Evening Times, em publicação [“Panzram ficará em liberdade condicional”] de 26 de janeiro de 1906, noticiou que após o tempo em Red Wing, “Acredita-se que ele se tornará um bom cidadão americano“. 

“Quando saí de lá eu já havia decidido completamente como iria viver minha vida. Eu decidi que iria roubar, queimar, destruir e matar aonde quer que eu fosse e a quem quer que eu pudesse pelo tempo que me restasse de vida.”

[Carl Panzram]

Era janeiro de 1906 e Carl Panzram estava prestes a andar solto pelo mundo.

O início da odisseia criminosa


Aos 13 anos, Panzram estava relegado a trabalhar nos campos da fazenda de sua mãe. Prevendo um triste futuro de trabalho exaustivo e sem retorno financeiro, ele convenceu Lizzie a enviá-lo para outra escola. Lá, em breve se envolveu em uma disputa com um professor que o havia chicoteado em diversas ocasiões. Carl arranjou um revólver e levou para a escola, com o objetivo de matar o professor diante da turma de alunos. Mas a trama falhou quando, durante uma luta corpo a corpo, a arma escorregou de sua calça e caiu ruidosamente no chão da sala de aula. Ele foi então expulso da escola e teve de retornar para a fazenda. Duas semanas depois, ele saltou para um trem de carga e deixou a fazenda em Minnesota para sempre.

“Com 13 anos eu era um sem-teto e logo aprendi a pegar carona em trens de carga.”

[Carl Panzram]

Nos primeiros anos que se seguiram, Carl perambulou pelo centro-oeste americano, dormindo em vagões de carga, viajando debaixo dos trens e fugindo dos policiais ferroviários que, em muitos casos, eram mais perigosos que os próprios criminosos. Ele mendigava para obter alimentos e os furtava sempre que podia. Tornou-se parte da vasta e móvel cultura dos hobos (homens que vagueavam pelos EUA em busca de trabalho, leia também O Assassino do Tronco de Cleveland) e mendigos que povoavam os trilhos das ferrovias americanas naquele tempo. Eram os anos de pré-guerra, uma época de loucuras, atividade frenética e dramáticas mudanças sociais. Foi um período de expansão nos Estados Unidos, um crescente boom financeiro que chegaria a seu abrupto final com o colapso do mercado de ações na famigerada Terça-Feira Negra, em 1929, dando origem à Grande Depressão dos anos 1930. Uma época de ilegalidades, inspiradas pela experiência do National Prohibition Act of 1919, que criou um desrespeito quase universal pela autoridade. Parecia haver criminosos agindo por toda parte. Os trilhos não eram exceção.

Pouco depois de abandonar Minnesota, Carl embarcou clandestinamente em um trem de carga que se dirigia para o oeste de Montana. Deparou-se com quatro homens que estavam abrigados em um vagão carregado com madeira. Eles lhe disseram que poderiam comprar-lhe boas roupas e dar-lhe um lugar quente para dormir. “Mas primeiro queriam que eu fizesse uma coisinha para eles”, Panzram escreveu anos depois. Ele foi estuprado pelos quatro homens.

“Eu chorei, implorei, supliquei por misericórdia, piedade e compaixão, mas não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer que os dissuadisse de seu propósito!”

[Carl Panzram]

Ele escapou com vida, mas o incidente pode ter destruído quaisquer sentimentos de compaixão que eventualmente lhe restavam. Pouco tempo depois, Panzram foi aprisionado em Butte, Montana, por arrombamento e recebeu uma sentença de um ano na Montana State Reform School (Escola Reformatória do Estado de Montana) em Miles City.

Na primavera de 1906, Carl Panzram, 14 anos, chegou à instituição. Ele já tinha o corpo de um homem e pesava mais de 80 quilos. Em poucas semanas, ele já havia granjeado reputação como um criminoso nato e os funcionários da prisão prestavam especial atenção ao adolescente desafiador. Um guarda especializou-se em tornar a vida de Panzram um inferno. “Ele continuava a me enervar até que finalmente decidi matá-lo”, escreveu depois. Carl encontrou uma pesada prancha de madeira do lado de fora de uma das oficinas e, em uma noite em que o guarda lhe deu as costas, Panzram bateu forte no topo da cabeça do homem.

“Por causa disso eu apanhei várias vezes e fui trancado e observado mais de perto do que antes.”

[Carl Panzram]

Ele estava cansado da vida na prisão e decidiu fugir, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

Em 1907, Panzram e outro interno, Jimmie Benson, escaparam da Montana State Reform School. Eles conseguiram furtar vários revólveres em uma cidade próxima e seguiram na direção da cidade de Terry.

“Eu fiquei com ele por cerca de um mês, vagueando rumo ao leste, furtando e incendiando tudo o que podíamos. Eu ensinei a ele como botar fogo em uma igreja após furtar o que havia dentro. Nós estivemos muito ocupados com aquilo, roubando e queimando igrejas a cada oportunidade que tínhamos.”

[Carl Panzram]

Ao longo de sua vida, aonde quer que fosse, Panzram roubou e queimou igrejas, um de seus crimes favoritos.

Igrejas tinham um significado especial na mente de Carl Panzram, desde quando ele aprendeu a odiar o cristianismo durante sua estadia em Red Wing.

“Naturalmente, eu agora amo muito a Jesus… sim, eu O amo tanto que adoraria crucificá-Lo de novo!”

[Carl Panzram]

Benson e Panzram seguiram pela estrada até a divisa estadual, atravessando as cidades de Glendive, Crane e Sidney, assaltando pessoas e roubando casas ao longo do caminho. Quando finalmente chegaram em Minnesota Ocidental, eles estavam armados com dois revólveres cada e possuíam centenas de dólares em dinheiro roubado. Então decidiram se separar na cidade de Fargo e seguir caminhos diferentes. Panzram, que havia mudado seu nome para Jefferson Baldwin, seguiu para o oeste, retornando pelo estado e em direção às vastas planícies de Dakota do Norte.

Corte Marcial


Em dezembro de 1907, Panzram chegou à cidade de Helena, Montana, uma cidade grande para a época, mas que havia pouca polícia e as pessoas ainda andavam com seus revólveres na cintura. Povoada por comerciantes de peles canadenses e pescadores ribeirinhos durões, ali não era lugar para adolescentes. Certa noite em uma taverna, Panzram estava bebendo sozinho e ouviu um discurso proferido por um recrutador local do Exército. Mais tarde, na mesma noite, ele mentiu sobre sua idade e se alistou no Exército Americano. Panzram partiu para o campo de treinamento, que naquele tempo se situava no Forte William Henry Harrison, um posto distante no oeste de Montana. Ele foi designado como recruta na Companhia A do 6.º Regimento de Infantaria. Já no seu primeiro dia num uniforme, Panzram foi acusado de insubordinação por recusar-se a cumprir uma tarefa que lhe fora designada. No mês seguinte ele já havia sido preso diversas vezes por vários delitos pequenos. Constantemente bêbado e impossível de controlar, Panzram era incapaz de se adaptar à disciplina militar.

Em abril de 1908, ele irrompeu no prédio da administração e furtou uma quantidade de roupas avaliada em 88,24 dólares. Enquanto tentava desertar com os itens furtados, ele foi apanhado por militares e jogado na paliçada usada como prisão. Ele foi à corte marcial em 20 de abril de 1908, ante um tribunal militar composto por nove oficiais sem qualquer tolerância para com atividade criminal levada a cabo por homens de uniforme. Panzram declarou-se culpado de três acusações relacionadas ao furto.

De acordo com as transcrições daquela corte, Carl foi sentenciado

“a ser exonerado em desonra do serviço militar dos Estados Unidos, com perda de todos os proventos e subsídios que lhe eram devidos, e a ser confinado em regime de trabalhos forçados em local que a autoridade competente pudesse comandar, pelo período de três anos.”

Prisioneiros federais naquela época eram tipicamente enviados ao Forte Leavenworth, Kansas. O futuro Presidente William Howard Taft que, naquele tempo, era o Secretário da Guerra, aprovou a sentença. Não seria a última vez que os caminhos dos dois homens se cruzariam.

Panzram foi acorrentado e levado à estação ferroviária local com um grupo de outros prisioneiros militares. Eles foram trancados a cadeado no interior de um vagão de transporte de gado por guardas armados e sem receber comida nem água por toda a viagem de 1.600 quilômetros. O trem partiu de Helena e seguiu para o sul, adentrando o estado do Wyoming, prosseguindo pelos milharais do Nebraska e, depois, para o leste do Kansas, onde as altas muralhas da Penitenciária Federal de Leavenworth se erguiam das margens lamacentas do Rio Missouri como gigantescas lápides.


A Penitenciária Federal de Leavenworth atualmente

Penitenciária Federal de Leavenworth


A penitenciária Federal de Forte Leavenworth, Kansas, era uma visão assombrosa. Cercada por muralhas de concreto com 12 metros de altura e que penetravam outros seis nas profundezas do solo, era uma verdadeira fortaleza. Situada em uma área de mais de 600 hectares de terra plana e desobstruída, a prisão foi construída originalmente após a Guerra Civil americana para abrigar prisioneiros militares e, embora em uso contínuo desde então, por volta de 1890, a instituição havia se tornado praticamente inútil por falta de verbas e negligência. Um novo plano de construção foi iniciado em 1895 e os trabalhos começaram poucos anos depois. Os internos alojados na antiga unidade dos tempos da Guerra Civil executaram todo o trabalho braçal. A seção principal foi completada pelos presos em meados de 1903. Mais tarde naquele ano, mais de 400 prisioneiros foram transferidos para a nova instalação. Em 1906, dois anos antes da chegada de Panzram, todos os prisioneiros da antiga seção da prisão já haviam sido transferidos com sucesso para as novas instalações.

Em maio de 1908, manietado e com firmes grilhões de ferro em suas pernas, Panzram entrou pela primeira vez nos sombrios confins da Penitenciária Federal de Leavenworth. As autoridades da prisão não sabiam que ele tinha apenas 16 anos, então ele foi tratado como qualquer outro homem. Prisioneiros deviam permanecer em formação todas as manhãs, a despeito do clima. Os guardas exigiam um estrito regime disciplinar e obediência obrigatória. Como muitas outras instituições de seu tempo, um estrito código de silêncio era imposto e se um interno fosse apanhado falando em momento inapropriado, ele era chicoteado e lançado à solitária. Este código de silêncio, criado na Prisão de Auburn, no estado de Nova Iorque, durante o século XIX e mantido por uma legião de reformadores penais por décadas, era um poderoso instrumento de controle usado pelas prisões americanas naquele tempo. Qualquer infração era punida sem delongas.

Panzram sofreu numerosos espancamentos e logo estava desesperado para escapar.

“Eu não fiquei muito lá até tomar a decisão de tentar fugir, mas a sorte estava contra mim.”

[Carl Panzram]

Se não podia fugir, Panzram podia cometer outros atos, decidiu, então, – com sucesso – incendiar uma das oficinas da prisão, causando prejuízos superiores a 100 mil dólares. Embora jamais tenha respondido por este crime, Panzram vivia constantemente encrencado por descumprir uma porção de outras regras da prisão.

Os guardas não viam nenhum problema em torturar prisioneiros, já que era a única maneira que conheciam de manter o controle. Um condenado não podia ficar impune por descumprir as regras. Caso isto acontecesse, iria encorajar mais e mais violações e, por fim, a anarquia. Prisioneiros e guardas viviam sob um frágil pacto de repressão e medo. Todos os guardas sabiam que, se uma revolta ocorresse, eles teriam chances mínimas de sair vivos. O único modo de manter uma população carcerária subjugada era mantê-la de cabeça baixa, puni-la severamente, ser brutal para com aqueles que se rebelassem e fazer exemplo dos que fossem apanhados em falta.

Panzram ficava acorrentado a uma bola de ferro de quase 23 quilos. Ele tinha que carregar este peso sem importar onde estivesse, mesmo quando dormia à noite. Ele foi designado para quebrar rochas em uma pedreira, trabalhando 10 horas por dia, sete dias por semana. Ele cresceu forte e musculoso, imaginando incessantemente o momento que sairia daquela vida. Dia após dia, sua fúria e amargura também cresceram; vivia consumido pelo desejo de vingança, aguardando impacientemente o dia em que poderia vaguear livre outra vez.

“Eu fui libertado daquela prisão em 1910. Eu era o espírito personificado da maldade… bem, eu já era um ovo bem podre antes mesmo de chegar lá. Mas quando eu saí, todo o bem que poderia ter estado em mim havia sido chutado e espancado para fora.”

[Carl Panzram]

Ele foi libertado em agosto daquele ano. Andou para fora, em direção ao ar fresco, convencido de que jamais veria Leavenworth e suas odiadas muralhas novamente. Mas ele estava errado. Vinte anos depois, ele estaria confinado em Leavenworth outra vez. Só que desta vez no corredor da morte.

Mas antes disso ele causaria muita dor.

Fúria Enlouquecida


Após ser libertado de Leavenworth em 1910, Panzram não tinha para onde ir. Ele tinha apenas 19 anos de idade, mas havia despendido uma porção substancial de sua jovem vida em reformatórios e prisões. Em Leavenworth, qualquer ilusão de esperança que ele pudesse ter tido para se tornar um cidadão adulto, maduro e produtivo, foi efetivamente destroçada. Anos de abuso e tortura física cobraram seu preço. Não havia família que se importasse com ele, nenhum verdadeiro lar, nem perspectivas para o futuro. Ele provavelmente jamais desfrutou do toque feminino em sua vida até aquele ponto e nunca evoluiu como um homem em seu caminho natural.

“Tudo o que eu tinha em mente naquele momento era uma forte determinação de desencadear o inferno inteiro sobre todo mundo e de todas as maneiras que eu pudesse.”

[Carl Panzram]

Nos anos seguintes, Panzram vagou pelo Kansas, Texas e Califórnia. Durante este tempo, ele foi preso várias vezes, usando o nome de “Jeff Baldwin”, por vadiagem, arrombamento, incêndio e roubo. Ele escapou de cadeias municipais em Rusk, Texas, e em The Dalles, Oregon.

“Eu incendiava velhos celeiros, galpões, cercas, abrigos contra neve ou qualquer coisa que estivesse ao meu alcance, e quando eu não tinha mais o que queimar, ateava fogo à grama das pradarias, ou árvores, tudo e qualquer coisa.”

[Carl Panzram]

Quando arrombava casas, ele primeiro procurava por armas.

“Eu gastava tudo o que havia poupado em munições. Eu disparava à toa em casas de fazendeiros, nas janelas. Se eu visse vacas ou cavalos nos campos, eu os soltaria.”

[Carl Panzram]

Ele viajou nos trens por vastas distâncias e passou algum tempo em Washington, Idaho, Oregon e Utah, abrindo um caminho de destruição pelo país de uma maneira metódica e incansável, que mantinha a polícia focada em seu rastro, mas sempre um passo atrás. Ele estuprou sem piedade, raramente abandonando uma oportunidade de fazer uma nova vítima.

“A cada vez que eu encontrava alguém com uma aparência ao menos razoável eu o obrigava a erguer as mãos e baixar as calças. Eu não era muito de escolher. Eu trepei em velhos e jovens, altos e baixos, brancos e pretos. Não fazia realmente qualquer diferença para mim, exceto que eram seres humanos.”

[Carl Panzram]

Durante o verão de 1911, como “Jefferson Davis”, Panzram vagueou de cidade em cidade, roubando das pessoas e escapando pelas ferrovias sempre que podia. Em Fresno, Califórnia, ele foi preso por furtar uma bicicleta. Foi então enviado à cadeia municipal por seis meses, mas fugiu apenas 30 dias depois. Ele saltou para um trem de carga que seguia rumo noroeste, levando consigo algumas armas furtadas que havia enterrado nos arredores da cidade antes de ser preso. Enquanto estava em um vagão na companhia de outros dois errantes, ele percebeu outra oportunidade para cometer estupro.

“Eu estava avaliando o mais jovem e de melhor aparência dos dois e imaginando quando deveria puxar meu canhão e dominá-los.”

[Carl Panzram]

Mas um policial ferroviário abriu caminho até o vagão e tentou extorquir dinheiro sob a ameaça de jogá-los para fora do trem. Panzram tinha outras ideias.

“Eu saquei meu canhão e disse a ele que eu era o sujeito que andava pelo mundo fazendo o bem às pessoas.”

[Carl Panzram]

Panzram roubou o relógio e o dinheiro do policial. Então, sob as vistas dos outros dois homens, ele estuprou o policial de arma em riste. Ele então obrigou os outros dois a fazerem o mesmo “usando uma leve persuasão moral e acenando bastante com meu revólver, eles também comeram o ‘Senhor Freio de Trem’.” Panzram jogou todos os homens para fora do trem e seguiu sua viagem rumo ao Oregon, onde ele se tornou um dos muitos trabalhadores sazonais que pulavam pelas bordas do país em busca de trabalho. E quando o trabalho não era encontrado, eles sobreviviam por quaisquer meios disponíveis.

Deer Lodge


Em meados de 1913, enrijecido por anos de bebedeiras, espancamentos, prisões e por viver pelas estradas como um animal, Panzram evoluiu para um criminoso sem alma. Fisicamente robusto, musculoso e de ombros largos, seus cabelos escuros e boa aparência atraíam as mulheres, mas ele jamais demonstrou qualquer interesse pelo sexo oposto. Seus olhos tinham uma aparência estranha e taciturna, que enervava as pessoas, fazendo-as imaginar o que estaria por trás daquele olhar árido e frio. Ao longo de sua jornada através do noroeste, ele foi preso em vários estados sob o nome de “Jack Allen”.

“Com aquele nome eu fui em cana por roubo em ferrovia, agressão e sodomia em The Dalles, no Oregon… Fiquei lá por uns dois ou três meses e então fugi da cadeia.”

[Carl Panzram]

The Dalles era então um rude porto no Rio Columbia onde piratas, jogadores, cuteleiros e foras-da-lei frequentemente se reuniam. Após fugir da cadeia, com uma porção de enfurecidos auxiliares de xerife em seu encalço, Panzram atravessou o Oregon e cruzou a fronteira leste para Idaho.

Ao longo da semana, foi preso novamente por furto e lançado em uma cadeia de Harrison, Idaho. Nessa ocasião ele usava a alcunha de “Jeff Davis”. A prisão era mal administrada e consistia apenas de alguns prédios com celas e um muro. Em sua primeira noite sob custódia, provocou um grande incêndio em um dos prédios e diversos presos escaparam, incluindo ele mesmo. Panzram fugiu rapidamente para o norte, cruzando a famosa reserva florestal de Grove Ancient Cedars e atravessando as Montanhas Bitterroot em direção à Montana ocidental.

Carl Panzram preso e fichado como "Jeff Davis". Foto: Billings Gazette.

Carl Panzram preso e fichado como “Jeff Davis”. Foto: Billings Gazette.

Na pequena cidade de Chinook, Montana, Panzram foi preso como “Jefferson Davis” por arrombamento e recebeu uma sentença de um ano na Prisão Estadual de Montana, que ficava em uma localidade chamada Deer Lodge. Localizada a uns 50 quilômetros ao norte de Butte, em meio às Montanhas Rochosas, a prisão se assemelhava a um castelo medieval. Foi construída em 1895, quando as prisões americanas eram baseadas nos projetos de castelos europeus. Quatro pontiagudos campanários se erguiam majestosamente sobre um sombrio e sinistro complexo que era cercado por grossas muralhas de pedra. Havia torres periodicamente espaçadas ao longo das quatro muralhas e seus cantos. No interior das ditas torres havia guardas armados com fuzis, que mantinham um olho vigilante sobre o enorme pátio, prontos para abrir fogo sobre qualquer prisioneiro que ousasse escapar. De acordo com os registros de admissão do estabelecimento, Panzram foi recebido em Deer Lodge na data de 27 de abril de 1913. Ele declarou como profissões “garçom e condutor”. A prisão hoje está desativada e virou um museu. Abaixo um vídeo institucional sobre o local que um dia abrigou um dos piores assassinos da América.

Enquanto esteve em Deer Lodge, Carl deparou-se com Jimmie Benson, seu antigo colega de cela no reformatório de Montana (Montana State Reform School). Este cumpria uma pena de 10 anos por assalto. Eles planejaram juntos uma fuga, mas, no último instante, Benson foi transferido e não pôde participar. Em 13 de novembro de 1913, Panzram fugiu de Deer Lodge, dirigindo-se para Butte. Mal se passou uma semana e, em uma cidade chamada Three Forks, ele foi preso outra vez por arrombamento, agora usando outro nome falso, “Jeff Rhodes”. Recebeu uma pena adicional de um ano pela fuga e foi novamente conduzido à prisão estadual.

A vida em Deer Lodge seguia lenta e monótona. Com poucos funcionários e mal administrada, existiam poucas oportunidades de trabalho para os internos, que passavam a maior parte do dia em suas celas, deitados em seus beliches ou vagando pelo pátio da prisão.

“Naquele local eu me tornei um predador experiente. Eu iniciava pela manhã com sodomia e seguia com isso o dia todo, às vezes até por metade da noite”.

[Carl Panzram]

Graças a seu tamanho e reputação, ele podia intimidar os demais prisioneiros à submissão. “Eu estava tão ocupado cometendo sodomia que não me sobrava tempo para servir a Jesus, como me haviam ensinado nos reformatórios”, escreveu mais tarde, com seu habitual jeito zombeteiro. Panzram cumpriu integralmente sua pena em Deer Lodge e, em 30 de março de 1915, foi libertado.

“Quando fui sair, o diretor me falou que eu era puro como um lírio e inocente de todo o pecado. Ele me deu cinco dólares, uma muda de roupas e uma passagem para a próxima cidade, dez quilômetros além.”

[Carl Panzram]

Carl Panzram, aos 21 anos, fichado como "Jeff Rhoades". Foto: Montana State Penitentiary.

Carl Panzram, aos 21 anos, fichado como “Jeff Rhoades”. Foto: Montana State Penitentiary.

A Fuga do Oregon


Aonde quer que fosse, Panzram roubava em busca de comida, roupas, dinheiro e armas. Durante uma boa parte da primeira metade de 1915, viajou ao longo do Rio Columbia no noroeste do Pacífico, passando por Washington, Idaho, Nebraska e Dakota do Sul. Panzram era um veterano das ferrovias. Na noite de 1º de junho de 1915, arrombou uma casa na cidade de Astoria, Oregon, tendo furtado roupas e outros artigos que não valiam mais do que uns 20 dólares. Foi preso algum tempo depois ao tentar vender um relógio roubado, tendo sido indiciado por furto de residência e a seguir, ante a promessa do promotor local de pegar leve com ele, se declarou culpado. Mau negócio: agora como “Jefferson Baldwin”, foi condenado e sete anos na Penitenciária Estadual do Oregon, em Salem.

Harry Minto Foto: Oregon.gov.

Harry Minto, diretor da Penitenciária Estadual do Oregon. Foto: Oregon.gov.

Deu entrada na prisão em 24 de junho de 1915, tendo se tornado o interno de número 7390. No registro de admissão ele citou seu local de nascimento como Alabama e sua ocupação como “ladrão”. Na mesma página há a anotação de que ele usava dois outros nomes: Jefferson Davis e Jeff Rhodes. Os guardas imediatamente notaram atitudes ríspidas e não cooperativas do prisioneiro. Mas não estavam preocupados com presos assim. A prisão de Salem era notória em todo o noroeste por punir seus internos com abusos e torturas. O diretor da época era um rude e brutal ex-xerife chamado Harry Minto, o qual acreditava de todo coração que o correto era manter seus internos na linha através do uso extensivo da força. Chicotadas, jatos d’água de alta pressão, espancamentos, imposição de fome e isolamento forçado eram, assim, parte da vida na prisão de Salem.

Minto apoiava o Sistema Auburn, segundo o qual os presos deveriam ser punidos mesmo por dizer uma palavra de modo ou em momento inadequado. Os presos eram frequentemente algemados a paredes e pendurados em traves por horas, às vezes dias. Eram chicoteados com o terrível “Gato de Nove Caudas”, um dispositivo bestial que causava danos horrendos às costas de um homem.

“Eu jurei que jamais cumpriria aqueles sete anos e desafiei o diretor e todos os seus funcionários a me obrigarem. O diretor jurou que eu cumpriria cada maldito dia ou ele mesmo me mataria.”

[Carl Panzram]

O detento 7390, Carl Panzram preso como "Jefferson Baldwin" em 1915.

O detento 7390, Carl Panzram preso como “Jefferson Baldwin” em 1915.

Os problemas começaram quase que de imediato, por violações dos regulamentos, e as punições logo se tornaram rotina. Os registros disciplinares de Panzram mostram que, em 1º de janeiro de 1916, ele foi pendurado durante “10 horas ao dia por dois dias por ‘hammering’ [bater usando o corpo ou algum objeto contra grades, portas, etc], promover distúrbios na cela e xingar um funcionário”. No mês seguinte, em 27 de fevereiro, ele foi novamente pendurado “12 horas à porta por ir a um lugar diferente de onde estava alojado e portar arma perigosa, um bastão ou porrete”. Em seguida foi flagrado com um “Blackjack” (outro tipo de porrete) e jogado nos “calabouços” por três semanas a pão e água.

“Eles nos deixavam pelados e nos acorrentavam a uma porta, então viravam a mangueira de incêndio contra nós até ficarmos pretos e roxos e meio cegos.”

[Carl Panzram]

Mesmo assim, Panzram manteve seu comportamento combativo. Ele provocou vários incêndios destruindo completamente três prédios em diferentes ocasiões. Passou 61 dias na solitária, onde tateou pela escuridão e teve que se alimentar até de baratas. Nos começos de 1917, Panzram auxiliou outro interno, de nome Otto Hooker, a escapar da prisão. Tempos depois, Hooker matou a tiros o diretor Minto quando acidentalmente se deparou com ele em uma cidade próxima. O homicídio deflagrou um grande clamor público, e as condições na Penitenciária Estadual do Oregon ficaram ainda piores.

Otto Hooker. Um dia após matar o diretor Minto, Hooker foi morto em uma troca de tiros e cremado. Suas cinzas retornaram para a Penitenciária Estadual do Oregon. Foto: Oregon.gov.

Otto Hooker. Um dia após matar o diretor Minto, Hooker foi morto em uma troca de tiros e cremado. Suas cinzas retornaram para a Penitenciária Estadual do Oregon. Foto: Oregon.gov.

Na época, setembro de 1917, a reputação de Panzram já era bem conhecida, tanto dentro quanto fora da prisão. Ele já havia tentado escapar diversas vezes, serrando as grades de sua cela. Em 18 de setembro de 1917, finalmente teve sucesso e fugiu do local. Ele então arrombou uma casa na cidade de Tangent, furtando roupas, comida, dinheiro e um revólver calibre .38 carregado. Poucos dias depois, um policial local reconheceu Panzram de um cartaz de procurados e tentou prendê-lo. Panzram sacou sua arma e abriu fogo contra o auxiliar de xerife. “Eu atirei e combati até minha arma ficar vazia de munição e eu vazio de coragem”, diria mais tarde. Mas, sem munição, foi capturado. A caminho da cadeia, Panzram tentou tomar a arma de um policial e uma luta feroz teve lugar no interior da viatura. Os vidros traseiros foram arrancados a coices e vários disparos atravessaram o teto do carro durante a briga pela arma do policial. Panzram acabou apanhando até ficar inconsciente e ensanguentado. Finalmente foi levado de volta a Salem e jogado na solitária. Mas não por muito tempo.

Incrivelmente, em 12 de maio de 1918, Panzram escapou da Penitenciária do Oregon outra vez. Ele cortou as grades de uma janela com uma lâmina de serra e saltou para fora das muralhas da prisão. Enquanto os guardas disparavam freneticamente centenas de tiros contra o condenado em fuga, Panzram chegou aos bosques próximos e sumiu de vista. Mais tarde saltou para um trem de carga que se dirigia para o leste e abandonou o noroeste do Pacífico para sempre. Ele mudou seu nome para John O’Leary e raspou seu bigode. Lenta e metodicamente, ainda arrombando e incendiando igrejas em seu caminho, Panzram dirigiu-se para a Costa Leste.

Morte em City Island


No verão de 1920, Panzram passou um bom tempo na cidade de New Haven, Connecticut. Ele preferia cidades com intensa atividade e muitas pessoas, pois mais pessoas significavam mais alvos e, portanto, mais dinheiro e mais vítimas. Isso também significava que os policiais estavam ocupados; talvez até ocupados demais para se incomodarem com alguém como ele. Carl costumava sair à noite, cruzando as ruas da cidade em busca de um alvo fácil. Quando não estava atacando um bêbado indefeso ou estuprando um garoto bem jovem, ele procurava uma casa para arrombar. Em agosto encontrou uma casa localizada no nº 113 da Whitney Avenue que parecia “recheada” e pronta para ser tomada. Era uma casa de estilo colonial e com três andares, o lar de um aristocrata, esperava. Ele invadiu por uma janela e começou a saquear os quartos. No interior de um grande escaninho, Panzram encontrou uma grande quantidade de joias, títulos e uma pistola semiautomática calibre .45. Os títulos estavam em nome de “William H. Taft”, o mesmo homem que ele julgava tê-lo sentenciado a três anos de prisão em Leavenworth, 1907. Naquele tempo, Taft era o Secretário da Guerra, mas em 1920, Taft era simplesmente ex-presidente dos Estados Unidos e atual catedrático em leis na Universidade de Yale, em New Haven. Após furtar tudo o que podia carregar, Panzram escapou pela mesma janela, ganhando a rua carregando um enorme saco com a pilhagem. Ele acabara de roubar o ex-presidente do seu país.

Ele seguiu para o Lower East Side de Manhattan, onde conseguiu vender a maior parte das joias e títulos furtados. Escreveu mais tarde que “consegui com este roubo cerca de três mil dólares em dinheiro – uma soma bastante elevada para a época, equivalente a mais de 35 mil dólares hoje, em um cálculo bastante conservador – e fiquei com uma parte, incluindo a pistola Colt calibre .45. Com o dinheiro eu comprei um iate, o Akista”. Panzram registrou o barco com o nome de John O’Leary, a alcunha que usava enquanto estava vivendo na área de Nova Iorque. Aproou então até o East River, seguindo para o leste através do Long Island Sound e passando pela costa sul do Bronx, pelas cidades de New Rochelle, Rye e seguindo para a costa rochosa de Connecticut. Ao longo da rota, invadiu dezenas de barcos em seus ancoradouros, furtando bebidas alcoólicas, armas de fogo, suprimentos e qualquer outra coisa em que pudesse pôr as mãos. Um dos barcos era o Barbara II, uma embarcação de 15 metros de propriedade da família Marsilliot, de Norfolk, Virginia. Ele ancorou o Akista no Iate Clube de New Haven, onde se estabeleceu por algum tempo, desfrutando do clima quente, bebendo o então proibido álcool e planejando suas próximas vítimas.

Na sua estadia em Lower East Side, Manhattan, Panzram notou hordas de marujos deixados na costa por seus barcos, ancorados no East River. Ele percebeu que muitos deles procuravam trabalho em cargueiros e barcos locais. Era uma época de intensa atividade naval, a era dos navios de cruzeiro, quando as viagens internacionais eram majoritariamente feitas por mar. Enquanto vagueava pelas estreitas ruas do East Village, ele elaborou um novo esquema de roubo e assassinato.

“Então me dei conta de que seria um bom plano contratar alguns marinheiros como meus empregados, levá-los para o meu iate, embebedá-los, cometer-lhes sodomia, roubá-los e então matá-los. Foi o que fiz.”

[Carl Panzram]

Por muitas semanas, ele descia para as vizinhanças da South Street e escolhia uma ou duas vítimas. Panzram lhes dizia que havia trabalho em seu iate e precisava de ajuda no convés. Ele lhes prometia qualquer coisa apenas para tê-los a bordo do Akista, que estava ancorado perto de City Island, ao pé da Carroll Street. Permaneceu lá por todo o verão de 1920.

City Island é um pequeno pedaço de terra com cerca de cinco quilômetros quadrados adiante do Bronx. Em 1920, City Island era uma isolada comunidade marítima de barcos pesqueiros, manufatores de velas navais e residentes interessados apenas em cuidar de suas próprias vidas. No início a maioria das pessoas pouca atenção prestou ao “Capitão John O’Leary”, o estranho de pouca conversa que vinha à costa somente para comprar suprimentos e parecia ter uma nova tripulação a cada semana.


Carroll Street

“A cada dia ou dois eu ia a New York e ficava ali pela 25 South Street, avaliando os marujos”, revelou Panzram. Quando ele os convencia a ir a bordo de seu iate, eles trabalhavam por talvez um único dia.

“Nós jantávamos e bebíamos vinho, e quando eles estavam bêbados o suficiente, iam para a cama. Quando estavam adormecidos eu pegava a minha pistola .45, a que furtei da casa do Sr. Taft, e estourava-lhes os miolos”.

[Carl Panzram]

Ele então amarrava uma rocha a cada corpo e os colocava em seu bote. Remava então para leste, rumo a Long Island Sound, nas proximidades do Execution Lighthouse, assim chamado porque, durante a Revolução, as tropas britânicas acorrentavam colonos rebeldes aos rochedos e esperavam pela maré crescente, a qual afogava os infortunados prisioneiros. Lá, a uns 90 metros do Farol, Panzram lançava suas vítimas ao mar.

“Ainda estão lá, dez deles. Eu trabalhei naquele esquema por umas três semanas. Meu barco estava cheio de coisas roubadas.”

[Carl Panzram]

Mas os moradores de City Island logo começaram a suspeitar do Akista e seu capitão. Panzram percebeu que tinha que mudar de ares. Então navegou pela costa de New Jersey levando seus dois últimos “tripulantes” até alcançar Long Beach Island, onde ele pretendia matar ambos. No fim de agosto de 1920, ocorreu um forte vendaval e o Akista despedaçou-se contra os rochedos. Panzram nadou para a costa e por pouco não morreu.

Os outros dois marujos conseguiram chegar às praias do Brigantine Inlet logo ao norte de Atlantic City. “Aonde eles foram parar eu não sei e não me importo”, Panzram disse mais tarde. Eles rapidamente desapareceram nas fazendas de Jersey, nunca tendo se dado conta do quão sortudos foram por escapar da morte certa pela arma de um ex-presidente.

Chacina na Baía de Lobito


Em 1921, Panzram cumpriu seis meses na cadeia de Bridgeport, Connecticut, por roubo e posse de arma de fogo carregada. Ao ser libertado, juntou-se a um sindicato de trabalhadores marítimos que estava envolvido em uma greve. Elementos radicais do sindicato se envolveram em uma violenta briga com os não grevistas, e Panzram terminou sendo preso outra vez, agora por se envolver em um tiroteio com a polícia. Ele saiu sob fiança e imediatamente sumiu de vista, embarcando clandestinamente em um navio que desembarcou em Angola, na época colônia de Portugal na costa ocidental da África.

Em solo africano, Carl conseguiu um emprego de capataz junto à Sinclair Oil Company, em uma plataforma de extração de petróleo. Na época, a indústria petrolífera americana estava envolvida em uma expedição exploratória na África em busca de novas fontes de óleo. Na cidade costeira de Luanda, Panzram estuprou e matou um menino de 11 anos. “Um crioulinho de uns 11 ou 12 anos apareceu rebolando”, disse. Panzram atraiu o menino para as terras da Sinclair Oil Company, onde o atacou sexualmente e, a seguir, o matou, esmagando sua cabeça com uma pedra. “Eu o deixei lá, mas primeiro lhe cometi sodomia e então o matei”, Panzram escreveu em sua confissão. “Seus miolos estavam saindo pelas orelhas quando o deixei e ele não teria como estar mais morto.”

Após mais este homicídio, Panzram voltou para a baía angolana de Lobito, na costa do Atlântico, onde passou várias semanas em uma vila de pescadores. Na época, várias crianças apareceram mortas na vila e logo os moradores suspeitaram de Panzram, mas isso jamais pôde ser provado. Semanas depois, ele contratou seis nativos para conduzi-lo à selva do vizinho Congo com a alegada finalidade de caçar crocodilos, que alcançavam elevados preços entre os especuladores europeus. Os nativos concordaram, mas exigiram uma parte dos lucros. Eles remaram pelas águas em direção a selva, sem a menor suspeita do que Panzram tinha em mente. 

Enquanto desciam o rio, Panzram inesperadamente abriu fogo e matou todos os seis homens.

“Para alguém de inteligência mediana, matar seis de uma vez só parece uma façanha quase impossível… foi muito mais fácil para mim matar aqueles seis crioulos do que apenas um dos garotos que matei depois e alguns deles tinham apenas 11 ou 12 anos.”

[Carl Panzram]

Carl os alvejou pelas costas, um a um. Enquanto jaziam na canoa ensanguentada, Panzram abriu fogo outra vez, agora na nuca de cada nativo. Ele então lançou os cadáveres aos famintos crocodilos e remou de volta para a Baía de Lobito. Ao aportar o bote, ele se deu conta de que teria de cair fora já que “dezenas de pessoas em Lobito tinham me visto contratar aqueles homens e a canoa.”

Ele seguiu para o norte até o Rio Congo, rumo a um lugar chamado Point Banana (no Congo), acabando por serpentear pela costa do lugar. Espalhou o terror assaltando fazendeiros e saqueando o que visse pela frente, obtendo dinheiro suficiente para comprar uma passagem para as Ilhas Canárias. No arquipélago espanhol, chegou falido e, sem conseguir encontrar alguém que valesse a pena assaltar, imediatamente embarcou como clandestino em um navio para Lisboa, Portugal. Mas, ao chegar à cidade, ele descobriu que as autoridades locais já sabiam de sua onda de crimes na África e estavam a sua procura. Escondeu-se então em outro navio que ia para os Estados Unidos e, no verão de 1922, ele estava à sua velha casa.

Em 7 de julho de 1897 o veleiro Akista foi fotografado (provavelmente) na costa de Connecticut, no Riverside Yacht Club. Vinte e três anos depois ele seria roubado por Carl Panzram. Foto: Library of Congress.

Em 7 de julho de 1897 o veleiro Akista foi fotografado (provavelmente) na costa de Connecticut, no Riverside Yacht Club. Vinte e três anos depois ele seria roubado por Carl Panzram. Foto: Library of Congress.

Neste ponto da sua vida, Carl Panzram estava maravilhado com a facilidade de matar um ser humano. Não demorou para que ele aliasse o útil ao agradável: Por que não se tornar um assassino profissional, matando por dinheiro? Da África ele trouxe a arma que havia usado nos homicídios do Congo. Em 1922, Carl adaptou à pistola um silenciador feito pela famosa empresa Maxim Silent Firearms Co., de Hartford, Connecticut. Mas, ao disparar mais tarde, para testar, considerou que a arma ainda fazia muito barulho, o que o desapontou.

“Se aquela arma de grosso calibre e seu silenciador tivessem simplesmente funcionado como eu esperava, eu teria entrado no mercado dos homicídios em escala atacadista.”

[Carl Panzram]

Mas sua vida de crimes e violência o obrigava a se manter continuamente em movimento, jamais permanecendo por muito tempo em um lugar. Ele sabia que a polícia estava sempre em seu encalço, nunca muito para trás e pronta para prendê-lo por qualquer um dos seus inúmeros delitos, não importa se cometido meses ou anos antes. Carl aprendeu cedo a mudar de nome, e com frequência, e jamais confidenciar a ninguém qualquer detalhe sobre sua vida pregressa. Tão logo cometia um crime, Panzram imediatamente abandonava a área, fosse embarcando em um trem para fora da cidade, como clandestino em um cargueiro ou mesmo de carona em um caminhão que estivesse passando. Sempre em fuga, de olho na retaguarda, vivendo sempre em paranoia de ter um “tira” na esquina ao lado, pronto para capturá-lo; esta era sua vida. E mesmo assim, sabendo que podia estar a minutos de ser apanhado e consumido por um ódio que a maioria de nós jamais entenderá, seguia matando.

Um Assassinato em Salem


Poucos dias após voltar aos Estados Unidos, Panzram se dirigiu ao escritório da alfândega na cidade de Nova Iorque, onde renovou sua licença de capitão e recuperou os documentos de seu iate, o Akista, destruído dois anos antes. Ele planejava furtar um outro barco e renomeá-lo como Akista. Ele começou sua busca nos estaleiros e ancoradouros da região em torno de Nova Iorque e seguiu até a costa de Connecticut. Não demorou muito para chegar ao porto marítimo de Providence, Rhode Island, mas ainda sem conseguir encontrar uma embarcação com características similares às do Akista. Prosseguiu para o norte pela Boston Road até Boston, e acabou chegando à cidade de Salem, Massachusetts, famosa por seus julgamentos de bruxas no século XVII. Lá, na quente tarde de 18 de julho de 1922, seu caminho cruzou com o de um menino de 12 anos de idade, que caminhava sozinho na parte oeste da cidade.

“Você descobrirá que tenho consistentemente seguido uma ideia ao longo da minha vida. Eu caçava os fracos, os inofensivos e os incautos.”

[Carl Panzram]

O nome do menino era George Henry McMahon. Ele morava na rua Boston Street, 65, em Salem. George havia passado a maior parte do dia em um restaurante dos arredores até que a proprietária, Sra. Margaret Lyons, lhe deu uma incumbência.

“Ali pelas 14:15 eu o mandei ao armazém A&P para comprar leite, entregando-lhe 15 centavos”, ela diria mais tarde perante a corte. O pequeno George deixou o restaurante e andou pela Boston Street. Cerca de uma hora depois, outra vizinha, a Sra. Margaret Crean, avistou George caminhando rua acima com um estranho. “Na tarde de 18 de julho, sentada à janela da minha casa, eu vi um garoto e um homem seguindo rua acima. O homem estava vestido com traje azul e usava um boné”, revelou Margaret. O homem era Carl Panzram.

“O nome do garoto eu não sabia. Ele me disse que tinha onze anos… carregava um cesto ou balde na mão. Me falou que estava indo até o armazém cumprir uma tarefa. Disse que sua tia gerenciava o estabelecimento. Eu lhe perguntei se ele gostaria de ganhar cinquenta centavos. Ele disse que sim.”

[Carl Panzram]

Panzram caminhou com McMahon até o armazém, que ficava perto e, lá dentro, teve a frieza de conversar com a balconista. Alguns minutos depois, Panzram convenceu a criança a dar um passeio de bonde. Desceram do veículo em uma área deserta da cidade, a cerca de um quilômetro e meio de onde haviam embarcado.

“Eu o agarrei pelo braço e disse que ia matá-lo. Permaneci com o garoto por umas três horas. Durante este tempo, cometi sodomia nele seis vezes e, então, o matei esmagando sua cabeça com uma pedra… eu enfiei por sua garganta abaixo várias folhas de papel que arranquei de uma revista.”

[Carl Panzram]

Ele então cobriu o corpo com galhos de árvore e correu para longe da cidade. “Eu o deixei caído lá, com seus miolos saindo pelas orelhas”, confessou. Mas enquanto fugia pela floresta onde havia abandonado o corpo de McMahon, dois moradores de Salem passaram por ele, e notaram o estranho, que carregava o que parecia ser um jornal e se afastava a passos rápidos. Ele parecia nervoso e um pouco agitado. Mas as duas testemunhas seguiram seu caminho.

Imediatamente após o assassinato, Panzram retornou a Nova Iorque. O corpo de McMahon foi encontrado três dias depois, em 21 de julho. A polícia de Salem e comunidades da região formaram grupos de busca e detiveram todos os estranhos que podiam. Diversos homens, incluindo um pedófilo local que já havia atacado várias crianças de Salem, foram presos como suspeitos. O horrendo crime foi manchete por várias semanas, mas permaneceria sem solução por muitos anos, até um dia em 1928, no qual aquelas mesmas duas testemunhas iriam ver Panzram outra vez enquanto ele estava sob custódia por outro assassinato em Washington, D.C.

Eles não tiveram nenhum problema em identificá-lo como o homem que haviam visto naquela sufocante tarde de 18 de julho de 1922, a apenas poucos metros de onde o maltratado corpo de George Henry McMahon foi encontrado.

A famosa pintura de Carl Panzram de Joe Coleman feita em 1993. Coleman posteriormente recriou a vida de Carl através de desenhos. Na pintura acima, Panzram em destaque, e na parte inferior (à esqueda) o famoso psicólogo Karl Menninger, que entrevistou e publicou um livro sobre Carl; e (à direita) o único policial que Panzram nunca quis matar: Henry Lesser. Foto: joecoleman.com.

A famosa pintura de Carl Panzram de Joe Coleman feita em 1993. Coleman posteriormente recriou a vida de Carl através de desenhos. Na pintura acima, Panzram em destaque, e na parte inferior (à esquerda) o famoso psicólogo Karl Menninger, que entrevistou e publicou um livro sobre Carl; e (à direita) o único policial que Panzram nunca quis matar: Henry Lesser. Foto: joecoleman.com.

O Pirata do Rio


Após deixar Salem, Massachusetts, Panzram retornou à região do Condado de Westchester e prosseguiu em sua busca por um barco. No começo de 1923, alugou um apartamento no bairro Yonkers, Nova Iorque, usando um de seus nomes falsos, John O’Leary. Conseguiu emprego como vigia na Abeeco Mill Company, na Avenida Yonkers 220, e alegou ter encontrado um garoto chamado George Walosin, 15 anos, enquanto trabalhava no moinho. “Eu comecei a ensinar-lhe a fina arte da sodomia, mas descobri que ele já sabia tudo a respeito e gostava bastante”, escreveu depois.

No começo do verão de 1923, Panzram deu um jeito de retornar a Providence, Rhode Island, onde ele furtou um dos muitos veleiros das diversas marinas em torno da baía. Ele era um marinheiro habilidoso que havia navegado pelos mares de uma dezena de países e em todos os tipos de condições meteorológicas. O barco era de excelente fabricação, medindo cerca de 11,5 metros e dotado dos melhores equipamentos disponíveis na época. Zarpou rumo a Long Island Sound, uma área que ele conhecia bem e onde se sentia à vontade. Panzram manteve o barco atracado em New Haven durante semanas saindo apenas à noite, cruzando as ruas em busca de vítimas para roubar e estuprar. Nas semanas que se seguiram, invadiu barcos e residências em Connecticut. Ele furtava joias, dinheiro, armas e roupas. Nas proximidades de Premium Point, na cidade de New Rochelle, estado de Nova Iorque, ele invadiu um grande iate que estava ancorado a uma certa distância da costa e furtou um revólver calibre .38 que achou na cozinha da embarcação. Ao checar os documentos a bordo, descobriu que o proprietário era nada menos que o comissário de polícia de New Rochelle.

Em junho de 1923, zarpou novamente pelo Rio Hudson rumo a Yonkers, onde ancorou para passar a noite. Lá, reencontrou George Walosin e prometeu ao garoto que ele poderia trabalhar no barco durante sua viagem rio acima. Na segunda-feira, 25 de junho de 1923, o veleiro zarpou do Yonkers rumo ao norte, para Peekskill, e mais tarde, na mesma noite, Panzram sodomizou o garoto.

Eles navegaram 80 quilômetros rio acima até Kingston, onde Panzram atracou o iate em uma pequena baía do Rio Hudson. Ele rapidamente repintou o casco e alterou o nome na popa. Então aventurou-se em terra e visitou os pontos de encontro locais, em busca de um comprador. Logo um homem jovem concordou em ir a bordo para inspecionar a embarcação. Panzram levou o potencial comprador a bordo do iate na noite de 27 de junho, quando beberam juntos. Mas o suposto comprador tinha outras ideias em mente. “Ele tentou me dar uma paulada, mas eu já suspeitava de suas intenções e estava pronto para ele”, Panzram disse. Ele atirou duas vezes na cabeça do sujeito, usando o mesmo revólver que havia furtado do barco do comissário de polícia. Então amarrou um peso de metal ao cadáver e o lançou pela borda. “Até onde eu sei ele ainda está lá”, Panzram confessou mais tarde.

Na manhã seguinte, Panzram e seu passageiro, George Walsoin, que havia testemunhado o homicídio, partiram da baía, seguindo rio abaixo. Ancoraram naquele mesmo dia em Poughkeepsie. Panzram foi à terra e furtou uma quantidade de redes de pesca avaliada em mais de mil dólares. Zarparam novamente e cruzaram o rio até Newburgh. Após lançarem âncora, George escapuliu do barco e nadou para a costa. Ele conseguiu retornar a Yonkers no dia seguinte e contou à polícia que havia sido agredido sexualmente por Panzram.

A polícia do Yonkers emitiu um alerta para as autoridades das cidades ao longo do Rio Hudson, informando sobre o “Capitão John O’Leary”, que estaria navegando rio abaixo em um iate de 11,5 metros. Os policiais ainda não sabiam que o barco havia sido furtado em Providence. Enquanto isso, Panzram chegava até o vilarejo de Nyack. Ele guardou o veleiro no Peterson’s Boat Yard e foi para a cama. Mas os policiais de Nyack estavam alertas e, na manhã de 29 de junho de 1923, entraram no iate e prenderam Panzram. Ele foi acusado de sodomia, arrombamento e assalto. No dia seguinte, os detetives John Fitzpatrick e Charles Ward, do Yonkers, subiram o rio em um barco municipal a motor para apanhá-lo. Carl foi levado de volta e ficou detido na cadeia municipal do Yonkers, aguardando para ser apresentado à corte. Em sua ficha de prisão, “O’Leary” declarou que sua ocupação era “marinheiro”. Disse ser natural de Nevada e declarou sua idade em 40 anos.

Na noite de 2 de julho de 1923, ele tentou fugir da prisão municipal na companhia de outro preso, Fred Federoff. Eles tentaram extrair as grades das janelas para fora de seus quadros, usando parte de uma cama para escavar na alvenaria, mas foram apanhados quando os guardas fizeram uma inspeção de rotina nas celas. “Como resultado da tentativa de fuga por parte de um dos cinco homens presos na cadeia municipal, John O’Leary, alegadamente pirata do rio, se encontra em confinamento solitário em uma cela” disse em reportagem o jornal Yonkers Statesman em 3 de julho.

Panzram voltou-se então para seu advogado. “Eu tinha um defensor, o Sr. Cashin. Lhe falei que o barco valia cinco ou dez mil dólares e que daria a ele junto com os documentos se me tirasse da cadeia”, disse. O advogado obteve a fiança e poucos dias depois Panzram estava solto. Nunca mais voltou. Quando o crédulo Sr. Cashin foi registrar o barco em seu nome, descobriu que era furtado, tendo sido imediatamente confiscado pela polícia, e o advogado perdeu o dinheiro depositado para a fiança de seu cliente assassino e estuprador.

Carl Panzram fichado ao longo dos anos. Foto: A Journal of Murder.

Carl Panzram fichado ao longo dos anos. Foto: A Journal of Murder.

Assassinato em New London


Depois de Panzram fugir sob fiança em Yonkers, ele retornou a familiar paisagem do sul de Connecticut. Ele tinha um sólido conhecimento da área costeira e esperanças de botar as mãos em outra embarcação. Se experiências passadas fossem de alguma utilidade, sua expectativa seria a de furtar um barco em poucos dias e zarpar para a América do Sul. Ele seguiu para a cidade de New Haven, onde rapidamente assaltou vários homens na rua em busca de dinheiro para se alimentar.

Então, viajou para o leste, rumo a New London. Na noite de 9 de agosto de 1923, enquanto vasculhava a área em busca de uma nova vítima, Panzram deparou-se com um menino pedindo esmolas. Ele puxou a faca para a criança aterrorizada e a arrastou para um bosque nas proximidades. Panzram sodomizou o menino com a faca em sua garganta.

“O nome desse garoto eu não sei, mas ele era um judeu e me disse que morava no Brooklyn, Nova Iorque, onde seu tio era policial naquele tempo”, revelou Panzram. Carl aterrorizou o jovem prisioneiro enquanto o cutucava com a faca. Ante os rogos e soluços da criança por misericórdia, ele a sodomizou novamente. Panzram escreveu mais tarde que de todos os seus assassinatos, aquele foi o que mais lhe deu prazer. Então tirou o cinto da calça da pequena vítima e a estrangulou com seus poderosos braços.

“Eu cometi um pouquinho mais de sodomia nele também. Abandonei o corpo do menino morto do lado direito da estrada, com seu cinto ainda amarrado ao pescoço.”

[Carl Panzram]

Ele abandonou o corpo no meio de algumas moitas e voltou para a rua.

A noite ainda estava no começo e as pessoas estavam em atividade. Carros velozes e caminhões passaram por ele, mas ninguém prestou atenção. O cadáver do menino, que jamais foi conclusivamente identificado, ficou escondido nas moitas por dois dias. Em 11 de agosto, um residente local que ia a pé para o trabalho percebeu roupas rasgadas atiradas sobre o capim. Ao investigar, o homem encontrou o cadáver do menino, já em decomposição e parcialmente devorado por animais.

Em 6 de outubro de 1928, Panzram confessou este assassinato e escreveu uma carta ao chefe de polícia de New London, Connecticut, na qual disse: “Se há algo mais que o senhor deseja saber a respeito do caso que eu possa lhe dizer, o farei.” Ao pé desta carta, Panzram desculpou-se pela falta de detalhes sobre alguns dos seus assassinatos. “Eu matei uma porção de gente em diferentes lugares e alguns dos fatos me fogem à memória”, explicou.

Depois do assassinato, Panzram pegou carona em um lento trem cargueiro que seguia em direção a Manhattan. No Lower East Side, onde capitães de navios recrutavam homens para seus cargueiros, ele ficava em torno das sombrias tavernas procurando trabalho. Conseguiu um emprego como zelador de banheiros no U.S. Grant, navio de transporte do Exército Americano que estava de partida para a China, em uma semana. Mas antes que o navio deixasse o porto, Panzram se embebedou a bordo e arranjou uma tremenda briga com outros tripulantes e foi expulso do navio. Carl, então, se dirigiu à Estação Grand Central, onde pegou um trem para Connecticut. Faminto e sem dinheiro, Carl resolveu saltar do vagão no vilarejo de Larchmont, Nova Iorque, em busca de alguém para assaltar.


A Chatsworth Avenue, em Larchmont. Em 1923, Panzram perambulou pela avenida em busca de alguém para roubar

Um machado de aspecto assassino


Larchmont era um vilarejo calmo e bem administrado, na costa sul do Condado de Westchester, a alguns quilômetros da divisa com Connecticut e distante cerca de duas horas da cidade de Nova Iorque. Durante os anos 1920, era famosa pelo seu litoral e por clubes de campo exclusivos, onde a classe alta de Nova Iorque se reunia nos fins de semana. Eles podiam assistir corridas de iate ou ir às compras nas lojas do vilarejo, um mundo totalmente diferente do ritmo frenético das ruas abarrotadas e duras de Manhattan. Panzram já estivera em Larchmont antes. Em junho de 1923, ele furtou um barco da marina de Larchmont, pertencente ao Dr. Charles Paine. O barco foi encontrado pouco depois, na costa de New Rochelle; Panzram perdeu o controle do leme e arrebentou a embarcação contra as pedras.

Na noite de 26 de agosto de 1923, Panzram arrombou a estação ferroviária de Larchmont, na Chatsworth Avenue. Usando um machado que encontrou do lado de fora, ele quebrou uma janela grande e se serpenteou para dentro. Ele encontrou dezenas de malas, pertencentes aos passageiros do trem do dia seguinte. Enquanto remexia a bagagem um policial de Larchmont, Richard Grube, que fazia sua ronda noturna, apareceu. “Eu olhei através de várias janelas e o vi ajoelhado em frente ao fogão da estação com uma mala aberta em frente a ele, e o rendi com uma arma“, contou Grube aos jornalistas. Mas Panzram não hesitou. O jornal The Portchester Daily Item descreveu o que aconteceu a seguir:

“John O’Leary, um gigante em altura e armado com um machado de aspecto assassino. O oficial imediatamente se atracou com O’Leary e após uma luta feroz no escuro, o desarmou e lhe deu voz de prisão.”

Carl foi levado à delegacia na Boston Road, onde se identificou como John O’Leary. Após confessar arrombamentos anteriores, ele foi acusado de três furtos adicionais. Na manhã seguinte, no tribunal do vilarejo, o juiz estipulou uma multa de cinco mil dólares e reenviou Panzram para a prisão do condado, onde aguardaria julgamento.

Na prisão, Panzram contou aos policiais que era um prisioneiro foragido do Oregon, onde cumpria uma pena de 17 anos por atirar em um policial. Panzram disse um monte de coisas. Talvez coisas demais. Alguns policiais o apelidaram de “falastrão”, um homem que confessava crimes que não havia cometido somente para ser transferido para outro lugar.

Mas por via das dúvidas a polícia de Larchmont enviou telegramas ao Oregon. Em 29 de agosto, William Hynes, Chefe de Polícia de Larchmont, recebeu uma resposta de Johnson Smith, Diretor da Penitenciária Estadual do Oregon:

Jeff Baldwin é um dos mais procurados do Oregon, seu caso é notório e atraiu considerável atenção por toda a Costa do Pacífico, estamos bastante ansiosos para enviar um oficial para buscá-lo tão breve quanto possível.”

No Oregon, Panzram era conhecido como “Jeff Baldwin” e ainda tinha mais de 14 anos de sentença a cumprir. Havia até mesmo uma recompensa de quinhentos dólares por sua captura, a qual Panzram tentou receber pela própria prisão. O’Leary disse à polícia daqui que dado o fato de ele ter voluntariamente fornecido toda a informação de sua fuga da prisão, ele gostaria de requerer os US$ 500 para si,” noticiou o The Standard Star.

Em 30 de setembro de 1923, o The Evening Star noticiou que "John O'Leary" foi descartado como suspeito de esfaquear uma mulher chamada Dorothy Kauffman.

Em 30 de setembro de 1923, o The Evening Star noticiou que “John O’Leary” foi descartado como suspeito de esfaquear uma mulher chamada Dorothy Kauffman.

Panzram percebeu que suas perspectivas de futuro eram limitadas. Ele sabia que o Oregon ansiava por ele, por isso só havia duas saídas: a melhor escapar, a pior enfrentar décadas na prisão. Durante sua última viagem à cidade de Kingston e à região do Alto Hudson, ele cometeu numerosos arrombamentos e roubos, alguns dos quais ninguém tinha conhecimento. Enquanto estava na prisão de Larchmont, Panzram escreveu uma carta a um misterioso “John Romero”, de Beacon, Nova Iorque, cidade que ficava exatamente do outro lado do rio em Newburgh, onde George Walosin pulou do barco.

“Esta provavelmente será a última vez que terá notícias minhas. Eu espero ir para a cadeia pelo resto da minha vida, então você sabe que não tenho nada a perder. Jamais contei nada a ninguém sobre você, mas tenha em mente que se eu falasse e contasse o que sei, eu posso e irei te colocar na cadeia por um longo tempo.”

Panzram exigiu que Romero lhe enviasse cinquenta dólares, em contrapartida ele esqueceria tudo que sabia. Carl disse que o barco se perdera, mas Romero “ainda pode ganhar dinheiro com o negócio de Newburgh” e assinou a carta como “Capitão John K. O’Leary”. O dinheiro nunca chegou e a polícia jamais encontrou Romero.

Poucas semanas depois, ele foi denunciado perante o júri por arrombamento em Larchmont.

Eu imediatamente percebi que seria condenado, então rapidamente procurei o promotor e fiz um acordo com ele,” afirmou depois. O acordo era o seguinte: Panzram receberia uma pena mais branda em troca de uma declaração de culpa. Mas não foi o que aconteceu. “Eu cumpri minha parte do acordo, mas ele não. Eu me declarei culpado e imediatamente condenado à pena máxima, cinco anos. Fui imediatamente mandado para Sing Sing.”

Mas Carl não permaneceu lá muito tempo. Homens como Panzram, criminosos calejados e difíceis de controlar, eram comumente enviados para a Clinton Prison, no norte do estado, onde ficavam isolados da população carcerária comum e a mercê de um grupo incomum de guardas acostumados a lidar com detentos hostis.

Na imagem, a confissão digitalizada do famoso manuscrito "Em toda minha vida eu matei 21 seres humanos..." de Carl Panzram. Foto: San Diego State University.

Na imagem, a confissão digitalizada do famoso manuscrito “Em toda minha vida eu matei 21 seres humanos…” de Carl Panzram. Foto: San Diego State University.

Dannemora: a porta do inferno


Prisões americanas durante a primeira parte do século XX eram lugares horríveis para se estar, até mesmo por curtos períodos. As condições em algumas instituições eram insuportáveis e inóspitas. Mais do que isso, eram bárbaras. Lugares como Sing Sing em Nova Iorque, os infames campos de tortura da Flórida, e as facções criminosas que dominavam e matavam no sistema carcerário da Geórgia exemplificavam o generalizado abuso ocorrido nas prisões dos EUA. Não havia um padrão nacional, unificado, de como tratar, reabilitar ou cuidar dos presos. O conceito de punição e segregação, apesar de jamais aprovado e raramente estudado, era largamente aceito no sistema penal. Na maioria das vezes, ficava a cargo dos diretores formular e aplicar uma política viável de conduta para com os detentos. Em algumas prisões, isto podia ser uma coisa boa. Em outras, podia ser algo muito ruim. As prisões eram reinos autônomos dos diretores, que frequentemente recorriam a espancamentos, açoitamentos, confinamento solitário e até mesmo tortura para controlar sua população carcerária. A Clinton Prison, no norte do estado de Nova Iorque, era um desses lugares, conhecida como Dannemora, a Porta do Inferno, um lugar sem volta e a instituição prisional mais brutal e repressiva dos Estados Unidos.

E para esta prisão que um dos assassinos mais brutais e sem alma da história americana foi levado.

Panzram chegou em Dannemora, a apenas 16 quilômetros da fronteira canadense, em outubro de 1923. Como em muitas penitenciárias da época, os guardas portavam bastões com ponta de aço, que eram usados para cutucar e às vezes bater nos presos até que eles se acalmassem. Panzram foi despido, e todos os seus pertences foram confiscados. Não havia conversa com aqueles guardas e nenhum desrespeito dos condenados era tolerado. A equipe de Dannemora era única. Muitos dos guardas vinham de várias gerações de carcereiros, a maioria franco-canadenses, que cresceram e ainda viviam na região. Como resultado, os métodos de supervisão e a atitude para com os presos eram transmitidos a cada geração e perpetuados por décadas de repressão e abuso. A vida era brutalmente difícil para os detentos, que trabalhavam sob o jugo esmagador de sucessivas gerações de guardas. Sob a perspectiva deles, os condenados eram animais que mereciam o tratamento mais severo possível. Muitos dos prisioneiros sofriam colapsos mentais. E o destino dos que se quebravam psicologicamente não era menos pior: eles eram transportados pelo pátio e jogados no Hospital Estadual para os Criminalmente Insanos, cujos corredores eram abarrotados de presos dementes e esquecidos, perdidos em um mar de burocracia e espantosa negligência. Literalmente, era a última parada antes do inferno.

Mas Carl Panzram era um animal diferente.


A prisão de Dannemora atualmente

Em poucas semanas, Panzram montou uma bomba para queimar as oficinas. Mas alguns guardas encontraram o dispositivo e o desativaram. Mais tarde, ele tentou matar um dos guardas atacando-o enquanto ele dormia numa cadeira. “Eu o acertei na nuca com um porrete de quatro quilos“, afirmou depois, “mas ele ficou bem bonzinho e me deixou em paz depois disso.” O trabalho na cadeia era extenso, duro e bastante tedioso. A comida era um caldo gorduroso, imprópria até para consumo animal. Panzram fez a primeira tentativa de fuga depois de poucos meses. Ele subiu um dos muros da prisão e imediatamente caiu de uma altura de nove metros sobre uma calçada de concreto. Ele quebrou as duas pernas e tornozelos. Sua coluna também foi severamente danificada. Ele não recebeu cuidados médicos por estes ferimentos. Ao contrário, foi levado a uma cela e jogado no chão.

“Eu fui atirado numa cela sem nenhum cuidado médico ou cirúrgico. Meus ossos quebrados não foram colocados no lugar. Não colocaram gesso nas minhas pernas ou tornozelos… o médico nunca se aproximou de mim e ninguém tinha autorização para me ajudar… ao fim de 14 meses de agonia constante eu fui levado ao hospital, onde fui operado pelas minhas lesões e tive um testículo removido.”

[Carl Panzram]

Mas, mesmo assim, ele não mudou seu comportamento. Pouco depois da operação, Panzram foi pego sodomizando outro detento. Ele foi jogado na solitária, onde era praticamente ignorado pela equipe da prisão:

“Por vários meses eu sofri em agonia. Sempre com dores, nunca uma resposta civilizada de ninguém, sempre resmungos ou xingamentos ou mentiras, promessas hipócritas que jamais eram cumpridas. Rastejando como uma cobra com a coluna fraturada, fervendo de ódio e desejo por vingança, cinco anos neste tipo de vida. Os dois últimos anos e quatro meses confinado em isolamento, sem nada para fazer a não ser meditar… eu odiava a todos que via.”

[Carl Panzram]

Quando saiu daquele inferno, Panzram estava pior (se é que isso seria possível). Mas antes disso, consumido pelo ódio na solitária, ele passou a desenvolver planos elaborados com o intuito de matar o máximo de pessoas que pudesse. Ele planejou explodir o túnel de uma ferrovia no momento em que um trem estivesse passando e lançar gás venenoso nele. Ele também planejou dinamitar uma ponte em Nova Iorque e então roubar os mortos e feridos enquanto eles agonizavam no chão. O famoso Canal do Panamá teria o mesmo destino, se Panzram tivesse sorte. Mas sua trama mais elaborada, a qual ele tinha certeza de que mataria mais pessoas, era o seu plano de envenenar o suprimento de água e matar todos os residentes do vilarejo de Dannemora. “Por fim, eu pensei num jeito de matar a cidade inteira: homens, mulheres, crianças, e até mesmo gatos e cachorros“, escreveu depois. Ele pretendia jogar uma enorme quantidade de arsênico em um manancial que alimentava o reservatório.

Em julho de 1928, após cumprir cinco longos anos, Panzram foi libertado de Dannemora. Aleijado permanentemente pela falta de cuidados médicos e perdido nas profundezas da loucura, ele foi solto no mundo novamente.

Um monstro ferido nas ruas


Depois de sua soltura, Panzram estava consumido pela vingança pelo modo como fora tratado em Dannemora. Em duas semanas, ele cometeu uma dezena de arrombamentos e matou ao menos um homem durante um assalto em Baltimore, Maryland. Quando foi preso novamente e enviado à capital, Washington, a visão de Panzram era aterradora. Era 1,83m e 90kg de músculos, maldade e um ódio ardente por qualquer coisa humana. Ele tinha uma tatuagem com uma grande âncora no antebraço esquerdo, outra âncora com uma águia e a cabeça de um homem chinês no antebraço direito, e duas águias em seu peito musculoso com as palavras LIBERDADE e JUSTIÇA tatuadas sob as asas. Seus olhos eram de um cinza metálico e ele usava um bigode grosso e negro que cobria seu lábio superior, dando ao rosto a aparência de eterna zombaria. No registro, ele forneceu seu verdadeiro nome pela primeira vez em anos.

Durante seus primeiros dias na cadeia da capital, ele fez diversos comentários sobre ter matado crianças, que foram ouvidos e levados a sério pelos guardas. Pesquisas foram feitas com autoridades da lei de outros estados, e a notícia recebida de vários lugares era a de que ele era um homem procurado.

Naquela época, havia um guarda novato de 26 anos, filho de um imigrante judeu, que tinha sido contratado naquele ano. Seu nome era Henry Lesser. Enquanto Panzram era fichado, Lesser perguntou-lhe qual seu crime.

O que eu faço é corrigir pessoas”, respondeu Panzram sem sorrir. Ao longo das semanas seguintes, o jovem guarda prestou atenção no homem esquisito que raramente falava com alguém. Sendo alguém que jamais ficava muito tempo no mesmo lugar, Panzram tentou fugir escavando lentamente o concreto ao redor das barras de ferro da janela de sua cela. Mas um dos outros prisioneiros avisou ao diretor. Panzram foi removido de sua cela e levado para uma área isolada. Ele foi algemado a um grosso poste de madeira e uma corda foi amarrada às algemas. Então os guardas o içaram de modo que apenas as pontas de seus dedos tocassem o chão e seus braços estivessem levantados acima dos ombros. Ele foi deixado naquela posição durante um dia e meio. Ele amaldiçoou os próprios pais por terem-no dado à luz e gritou que mataria a todos se tivesse a chance. Os guardas o espancaram até ele perder a consciência e o deixaram preso ao poste por toda a noite. Em algum momento da noite, Panzram confessou o assassinato de vários garotos jovens e disse aos guardas como tinha se deliciado com aquilo.

Logo a notícia se espalhou e a imprensa divulgou a história de um assassino sádico na penitenciária local que estava confessando inúmeros homicídios. O The Washington Post noticiou em 28 de outubro de 1928 que Panzram confessara o assassinato de Alexandrer Luszzock, um entregador de jornal de 14 anos, no mês de agosto e, também, o de Henry McMahon, 12 anos, em New Salem, Connecticut. A cada dia que passava, Panzram falava mais e mais.

“Se isso não for o bastante, eu lhes darei muito mais. Eu estive pelo mundo inteiro e vi de tudo com exceção do inferno, e acho que o verei em breve.”

[Carl Panzram]

Por alguma razão, o carcereiro Henry Lesser se apiedou do homem furioso que todo mundo odiava. Ele fez amizade com Panzram ao lhe dar um dólar para comprar cigarros e comida extra. Este ato de gentileza significou muito pra Panzram, que estava desacostumado ao menor gesto de compaixão. Os dois homens se tornaram amigos e confidentes. Logo, Panzram concordou em escrever a história de sua vida para Lesser. E a partir dali, ao longo das semanas seguintes, enquanto Lesser fornecia lápis e papel, Panzram escrevia os detalhes de sua vida de ódio, depravação e assassinato.

Carl Panzram, fotografado pela última vez nos registros policiais. Data: 2 de setembro de 1928.

Carl Panzram, fotografado pela penúltima vez nos registros policiais. Data: 2 de setembro de 1928.

A Confissão


A lenda da psiquiatria, o Dr. Karl Menninger, afirmaria mais tarde que o manuscrito “realiza uma sólida autoanálise da qual o prisioneiro não poupa a si mesmo nem a sociedade… ninguém consegue ler o manuscrito na íntegra sem um choque emocional.” Começando pela fazenda na zona rural de Minnesota onde nasceu, Panzram conta a brutal história de sua vida. Da época em que foi mandado para a Minnesota State Training School em Red Wing, 1903, até sua chegada à prisão de Washington, D.C., houve milhares de crimes, dezenas de assassinatos e uma vida dedicada apenas à destruição.

“Todos os meus comparsas, todos os que me rodeavam, a atmosfera de mentiras, traição, brutalidade, degeneração, hipocrisia, tudo de mau e nada de bom. Por que eu sou o que sou? Eu vou dizer o porquê. Eu não me transformei no que sou. Os outros me transformaram.’

[Carl Panzram]

Em sua extraordinária confissão de duas mil palavras, Panzram deu detalhes de seus assassinatos, os quais foram confirmados posteriormente pelas autoridades. Ele forneceu datas, horários e lugares onde os crimes ocorreram, bem como seu histórico de prisões, que era extenso. Obviamente, no período de 1900 a 1930, a comunicação entre autoridades policiais não era tão sofisticada quanto hoje. Os criminosos frequentemente conseguiam evitar mandados de prisão simplesmente mudando de nome e ficando de boca fechada. Panzram aprendeu cedo este truque, e foi preso sob vários nomes, incluindo Jefferson Baldwin (1915), Jeffrey Rhodes (1919), John King (1920) e John O’Leary (1923).

Mas não foi apenas sobre a própria vida que ele escreveu. Panzram tinha algumas opiniões a respeito do sistema de justiça criminal e o poder da sociedade sobre os indivíduos.

“Todos vocês policiais, juízes, promotores, diretores de prisões, médicos, Comissões Nacionais de Crime e escritores estão trabalhando para descobrir e curar a causa e efeito do crime. Com todo este conhecimento e poder em suas mãos, não conseguiram nada além de piorar as condições.”

[Carl Panzram]

Ele atribuiu a culpa da criminalidade à sociedade, que ele afirmou se perpetuar produzindo mais criminosos.

“Eu tenho 36 anos e fui um criminoso por toda a minha vida. Eu tenho 11 condenações penais contra mim. Eu passei 20 anos da minha vida em cadeias, reformatórios e prisões. Eu sei o porquê de ser um criminoso.”

[Carl Panzram]

Ele atribuiu a responsabilidade dos seus atos violentos a todos que o torturaram e castigaram. “O poder faz as regras” foi a única regra que Carl aprendeu e ele carregou essa crença consigo por todo lugar. “Na minha vida eu infringi cada lei que foi criada pelos homens e por Deus”, afirmou, “e se qualquer um tivesse criado mais delas, eu alegremente as teria violado também.”

Página após página, Panzram descreveu sua odisseia de estupro e assassinato, que se espalhou por vários continentes. Ele não se arrependia de nenhum deles. Panzram jamais foi inibido por sentimento de culpa ou remorso. Ele via o crime e a violência como forma de se vingar do mundo. Não importava se as pessoas que ele atacava não fossem as causadoras da sua dor. Alguém, qualquer um, tinha que pagar.

O carcereiro Heny Lesser durante entrevista para a TV em 1979.

O carcereiro Henry Lesser durante entrevista para a TV em 1979. Após fazer amizade com Panzram, Lesser encorajou-o a escrever a história de sua vida. Os manuscritos foram doados por Lesser à Universidade do Estado de San Diego.

Panzram, mesmo sendo um criminoso, jamais se acostumou ao ambiente da prisão. Apesar de seu longo tempo em penitenciárias por todo o país, ele era incapaz de se submeter às regras institucionais ou obedecer a ordens de guardas. Mesmo sabedor de que a tortura física frequentemente era resultado de infrações do tipo, Panzram não cooperava e era violento. Após sua tentativa de fuga e de ter sido algemado a um poste, ele atacou três guardas quando foi removido de sua cela, a ponto de “ser necessário golpeá-lo com um cassetete em defesa dos três oficiais.” Mais uma vez ele foi algemado ao poste. Como resultado, o relatório oficial dizia: “O prisioneiro chamou o Comandante de ‘filho da puta desgraçado’ e afirmou que gostaria de acertar o capitão na nuca.” Por isso ele recebeu mais punição.

Ruim ou não, a lenta e pesada roda da justiça estava girando para Carl Panzram.

No final do mesmo mês, em 29 de outubro, um mandado de prisão para ele chegou à cadeia de Washington. Era uma denúncia de homicídio na Filadélfia pelo “assassinato de Alexander Uszacke, por asfixia e estrangulamento em 26 de julho de 1928, na Point House Road.”

O Departamento de Polícia de Salem, no estado de Massachusetts, também foi informado da prisão de Panzram e sua extensa confissão. Durante sua estadia na prisão de Washington, a polícia de Salem levou duas testemunhas da morte de George Henry McMahon em 1922 para reconhecer Panzram. Ambas o reconheceram positivamente como a pessoa que viram na noite em que o garoto de 12 anos foi assassinado. A Oregon State Penitentiary contatou a polícia de Washington e reforçou que Panzram não deveria ser libertado já que ele ainda tinha contas a acertar com o estado do Oregon.

No começo de 1929, Panzram finalmente percebeu que daquela vez não deixaria a prisão. Ele escreveu uma carta para o promotor de Salem, Massachusetts, falando sobre o assassinato de McMahon. No chocante texto, Panzram repetiu sua confissão relativa ao crime:

“Eu fiz uma confissão completa deste assassinato, de McMahon… você enviou várias testemunhas de Salem para me identificarem, o que foi feito por elas. Eu não altero minha confissão original de forma alguma. Eu cometi aquele assassinato. Eu sou o único culpado… Eu não só cometi aquele homicídio como 21 outros e eu te asseguro aqui e agora que se eu estivesse livre e tivesse oportunidade, certamente liquidaria outros 22!”

[Carl Panzram]

Seu julgamento pelos crimes de arrombamento e furto começou em 12 de novembro de 1928. Panzram atuou ridiculamente como seu próprio advogado e frequentemente aterrorizou o júri, composto por nove homens e três mulheres, com seu comportamento combativo e imprevisível. Quando uma testemunha de Baltimore, Joseph Czerwinski, depôs contra ele, Panzram levantou-se para fazer uma pergunta.

Você me conhece?” ele perguntou, enquanto se aproximava a centímetros do rosto do homem. “Dê uma boa olhada em mim!”, sussurrou. Enquanto a testemunha apavorada olhava aqueles olhos cinzentos, Panzram deslizou os dedos pelo pescoço, fazendo o gesto de uma garganta sendo cortada. A mensagem era clara: “É isto que vai lhe acontecer!”

No final do julgamento, Panzram subiu à bancada e não só admitiu o arrombamento, como afirmou que ele permaneceu intencionalmente na casa por várias horas, esperando que os proprietários voltassem para que ele pudesse matá-los. Em 12 de novembro de 1928, ele foi condenado por todas as acusações. O juiz Walter McCoy o sentenciou a penas de 15 anos pela primeira acusação e 10 anos pela segunda, a serem cumpridas consecutivamente. Panzram teria que passar 25 anos na Prisão Federal de Leavenworth, Texas. Ao ouvir a sentença, o rosto de Panzram se transformou em um sorriso largo e diabólico.

“Visite-me!”, disse ele ao juiz.

Fúria


No dia de sua chegada em Leavenworth, em 1º de fevereiro de 1929, Panzram foi levado ao encontro do diretor T. B. White. Acorrentado, com sua musculatura volumosa aparente mesmo sob o uniforme da prisão, Panzram ainda era fisicamente um tipo impressionante. Sua presença era fascinante; uma aura maligna que advertia as pessoas a se manterem longe dele. Enquanto o diretor lia as regras da instituição, Panzram permaneceu calado em frente à mesa com um ar de indiferença. Quando o diretor terminou, o prisioneiro olhou para ele direto nos olhos e disse “Eu vou matar o primeiro cara que me encher o saco.” O diretor chamou os guardas e Panzram, o detento nº 31614, foi movido para sua cela.

O detento número 31614, Carl Panzram, ao ser fichado em Leavenworth.

O detento número 31614, Carl Panzram, ao ser fichado em Leavenworth. “Eu vou matar o primeiro que me encher o saco,” ameaçou ele ao chegar.

Carl era considerado psicótico demais para ser mantido junto aos presos comuns. Em uma carta manuscrita para o diretor e datada de 26 de março de 1929, Panzram pediu um tipo diferente de trabalho e escreveu: “eu quero este trabalho porque vou cumprir uma longa pena, sou velho e chato, e quero ficar sozinho. Sou um aleijado e não gosto do trabalho que tenho agora, ficar de pé com meus tornozelos quebrados me incomoda. Sinceramente, Carl Panzram, nº 31614.”

Robert G. Warnke. Foto: Federal Bureay of Prisons.

Robert G. Warnke. Foto: Federal Bureau of Prisons.

Ele foi designado para a lavanderia, onde poderia trabalhar o dia inteiro sozinho separando e lavando os uniformes dos detentos. Ali, ele podia se isolar e ter pouco contato com humanos. Seu supervisor era Robert Warnke, um homem baixo e meio calvo conhecido por punir prisioneiros pelas mínimas infrações. Violação de regras era um assunto sério em Leavenworth. As punições incluíam solitária, revogação da concessão e privilégios na biblioteca e às vezes tortura. Warnke, um empregado civil e, portanto, livre da pressão que os detentos sofriam, usava seu cargo de supervisão para esbanjar poder. Desde o começo, Panzram teve problemas com Warnke. Em várias ocasiões, Panzram foi advertido por infrações, que o faziam ser mandado à solitária por algum tempo. Da última vez em que foi libertado de lá, Panzram disse aos outros prisioneiros para ficarem longe de Warnke, pois ele morreria em breve. Quando ele escreveu novamente a seu amigo Lesser, Carl disse que um novo trabalho estava a caminho. “Estou preparando tudo para uma mudança,” escreveu. “Não vai demorar muito.”

Em 20 de junho de 1929, Panzram trabalhava na lavanderia fazendo a sua usual tarefa. Encostada à porta estava uma barra de ferro de 1,2m usada como suporte para as caixas de madeira que eram transportadas. Sem uma palavra, ele pegou a pesada barra e se aproximou de Warnke, que estava mexendo com uma papelada. Panzram levantou a barra acima dos ombros largos e acertou em cheio a cabeça do homem. O crânio de Warnke foi destruído. “Aqui tem mais uma para você, seu filho da puta!“, gritou. Quando a vítima caiu no chão, Panzram continuou golpeando a cabeça da vítima com a barra, espalhando sangue e pedaços do cérebro por toda a sala. Havia outros detentos na lavanderia naquele dia, e eles permaneceram imóveis e horrorizados enquanto Panzram massacrava Warnke. Os homens tentaram fugir, mas Panzram decidiu que uma vez que tinha matado um homem, devia matar os outros também. Ele atacou um dos detentos num canto e conseguiu quebrar o braço do homem antes que ele conseguisse fugir. Os outros presos tentaram desesperadamente deixar o local, mas a porta estava trancada. Todos eles começaram a gritar por ajuda enquanto Panzram os perseguia pela sala, gritando, xingando, sacudindo a pesada barra de ferro, quebrando ossos, mesas, luzes, destruindo a mobília e  fazendo os aterrorizados detentos subirem pelas paredes para fugir da besta enfurecida.

Um alarme geral soou na prisão e dezenas de guardas armados com submetralhadoras e rifles de grosso calibre correram para a lavanderia. Os guardas olharam através das barras da sala e viram um Panzram lunático, segurando a barra de ferro de nove quilos como um taco de beisebol, suas roupas rasgadas e coberto de sangue fresco da cabeça aos pés.

Eu acabei de matar Warnke”, disse calmamente aos guardas. “Deixem-me entrar!” Eles recusaram até que ele largou a barra. “Oh,” disse ele estranhamente, “acho que é meu dia de sorte!” A barra caiu no chão ruidosamente e os guardas abriram cuidadosamente a porta. Panzram caminhou silenciosamente até sua cela sem dizer uma palavra e sentou na cama.

"Panzram Killed a Boy in New London" [Panzram Mata Menino em New London] noticiou o The Lewiston Daily Syn em 26 de outubro de 1928. Já o Lewiston Evening Journal, em 3 de Novembro de 1928, noticiou: "Panzram Gives Slaying Account" [Panzram Fornece Descrição de Assassinato].

“Panzram Killed a Boy in New London” [Panzram Mata Menino em New London] noticiou o The Lewiston Daily Sun em 26 de outubro de 1928. Já o Lewiston Evening Journal, em 3 de Novembro de 1928, noticiou: “Panzram Gives Slaying Account” [Panzram Fornece Descrição de Assassinato].

O Julgamento


Na época do início do julgamento, Panzram era bem conhecido nos círculos policiais, e os rumores de sua compulsão por estuprar e matar crianças já eram lenda. Sua história já havia aparecido em dezenas de jornais, incluindo o The Topeka Times, The Boston Globe e o The Philadelphia Inquirer. Em março de 1929, ele escreveu uma carta para o vice-diretor: “eu compreendo que há várias acusações contra mim. Diversas por homicídio e uma por ser um condenado fugitivo do Oregon. Você poderia me dizer, por favor, quantos mandados de prisão existem contra mim, de onde são e quais as acusações?” Em 16 de abril de 1930, o The Chicago Evening American noticiou: “Apesar do fato de se gabar de ter matado vinte e três pessoas – e que gostaria de matar milhares e depois cometer suicídio – Panzram é são o bastante para diferenciar o certo do errado.” Autoridades em Salem, Filadélfia, e New Haven estavam trabalhando ativamente para prepararem processos contra Carl enquanto ele permanecia na solitária de Leavenworth.

Ao longo deste período, Panzram manteve sua correspondência com Lesser e escreveu uma série de cartas sobre sua vida em Leavenworth. Ele reclamava com frequência da falta de material de leitura, mas elogiou a qualidade da comida. Ele disse que estar na prisão o fazia se sentir mais “humano” e menos como o animal que ele acreditava ser. Quando chegou em Leavenworth, ele percebeu que seria espancado e abusado, então decidiu que não seria espancado à toa. Ele imediatamente tentou fugir e foi pego. Ele se tornou hostil e não cooperava com os guardas. Contudo, desta vez, não havia surras.

“Ninguém encosta a mão em mim. Ninguém comete nenhum tipo de abuso… eu tenho tentado compreender isso e cheguei à conclusão de que se no começo eu tivesse sido tratado como sou agora, haveria muito menos pessoas… roubadas, estupradas e mortas.”

[Carl Panzram]

Quando o julgamento começou, em 14 de abril de 1930, pelo assassinato de Warnke, Panzram estava desafiador e relutante. Ele chegou ao tribunal às 9h30, mancando. Seu passo vacilante era uma lembrança eterna do “tratamento médico” recebido anos antes nas masmorras de Dannemora.

Você possui advogado?”, perguntou o juiz Hopkins na manhã das declarações iniciais.

Não, e eu não quero um!”, respondeu Panzram. Hopkins advertiu que o réu tinha direito constitucional de ser representado e deveria fazer uso dos serviços de um advogado, que lhe seria designado gratuitamente. Panzram respondeu xingando o juiz em voz alta. Quando indagado sobre uma declaração, ele levantou e zombou dos presentes.

Eu me declaro inocente! Agora vocês se virem e provem que sou culpado, entenderam?”, afirmou. O promotor chamou uma procissão de testemunhas. Compareceram o diretor T. B. White, que também levou a arma do crime para o tribunal, cinco guardas de Leavenworth e dez prisioneiros. Vários detentos testemunharam ter visto Panzram esmagar repetidamente o crânio de sua vítima indefesa com uma barra de ferro, mesmo enquanto Warnke já estava morto no chão da prisão. Durante os depoimentos, Panzram permaneceu na cadeira sorrindo para as testemunhas. O júri levou apenas 45 minutos para chegar a um veredito. Sem nenhuma surpresa, Panzram foi condenado por homicídio, sem recomendação de clemência. Hopkins o mandou de volta para Leavenworth até o “quinto dia de setembro de mil novecentos e trinta, quando entre seis e nove horas da manhã você deverá ser levado a algum local adequado dentro dos limites da penitenciária e enforcado até a morte.” Panzram parecia aliviado, quase feliz. Um enorme sorriso surgiu em seu rosto enquanto ele lentamente se levantava da cadeira.

Eu certamente quero agradecê-lo, meritíssimo, apenas permita-me pôr as mãos em seu pescoço por 60 segundos e você jamais sentará em outra cadeira como juiz!”, disse ele para uma audiência chocada. Panzram permaneceu ereto, sua camisa desabotoada no colarinho, expondo parcialmente a enorme tatuagem em seu peito largo, seus braços fortes esticados contra as algemas de ferro enquanto seu rosto se retorcia em um riso de escárnio. Os U.S. Marshals [unidade de polícia federal dos Estados Unidos] rodearam Panzram, enquanto ele xingava o júri, e o arrastaram para fora do tribunal. Quando os jurados deixaram o salão, eles ainda conseguiam ouvir sua risada enlouquecida reverberando pelas paredes.

A Recompensa Pelo Pecado


Durante os anos 1920, uma família de educadores e intelectuais, liderada pelo Dr. Karl Menninger, graduado em Harvard e um dos pioneiros da psicologia moderna, estava construindo sua reputação em uma clínica médica na cidade de Topeka, Kansas. Menninger era um dos muitos fascinados pelos conceitos de psicanálise criados por Sigmund Freud. Em 1930, ele já estava envolvido na pesquisa do tema quando soube do caso Panzram e seu ódio completo pela humanidade. Durante o julgamento, o tribunal requisitou o diagnóstico de Menninger sobre a sanidade do réu. Na manhã de 15 de abril, em um pequeno escritório dentro do tribunal de Topeka, um encontro entre os dois homens foi arranjado, sob supervisão judicial.

A primeira-dama dos Estados Unidos Eleanor Roosevelt e o Dr. Karl Menninger em encontro na cidade de Topeka, Kansas, em 1959. Foto: U.S. National Archives and Records Administration.

A ex-primeira-dama dos Estados Unidos Eleanor Roosevelt e o Dr. Karl Menninger em encontro na cidade de Topeka, Kansas, em 1959. Foto: U.S. National Archives and Records Administration.

Panzram foi levado à sala às 8h30. Correntes grossas e pesadas estavam presas aos seus braços e mãos, uma rígida barra de ferro presa aos dois tornozelos. Ele só conseguia dar meio passo por vez. Três guardas federais rodeavam o prisioneiro. Panzram sentou na cadeira, carrancudo, e fitou o Dr. Menninger.

Bom dia, Sr. Panzram,” disse o Dr. Menninger. O prisioneiro desdenhou do médico e virou a cabeça sem dizer uma palavra. Ao contrário, Carl olhou em volta, avaliando suas chances de fuga, e o Dr. Menninger teve o sentimento de que, se houvesse oportunidade, Panzram mataria a todos na sala só para sair pela porta. Suas correntes tilintavam enquanto ele se remexia na cadeira e os guardas se aproximavam um pouco mais.

Eu quero ser enforcado e não desejo nenhuma interferência sua ou do seu tipo imundo”, disse ele. “Eu mais do que qualquer um conheço o mundo e a natureza essencialmente diabólica do homem, e não banco o hipócrita. Me orgulho de ter matado alguns e me arrependo de não ter matado mais!”

O Dr. Menninger tentou fazer Panzram falar sobre sua vida, mas ele se recusou e ficava mais irritado e impaciente a cada minuto.

Estou dizendo que sou responsável e culpado, e quanto mais cedo eles me enforcarem melhor será e mais grato eu ficarei. Então não tente interferir nisso!” A entrevista estava terminada, e Panzram capengou em direção à porta.

No dia seguinte, em 16 de abril, Menninger escreveu uma carta ao diretor T. B. White. Nela, pediu para entrevistar Panzram novamente “para propósitos puramente científicos, eu gostaria de analisar o caso de Carl Panzram mais detalhadamente. O caso dele é extraordinário, como você sabe, e estou bastante interessado em descobrir quais eram as evidências anteriores de sua instabilidade mental.”

Mas o diretor White se recusou a conceder acesso. Como era de se esperar, Menninger atribuiu a hostilidade do Panzram adulto ao tratamento recebido na infância na Minnesota State Reform School em Red Wing. O psicólogo reconheceu o dano psicológico causado a Panzram nos primeiros anos e mais tarde, quando escreveu sobre o caso, afirmou “que as injustiças cometidas sobre uma criança despertam nela insuportáveis reações de retaliação, que a criança pode reprimir e adiar, mas que cedo ou tarde aparecem de uma forma ou de outra, que a recompensa pelo pecado é a morte, que o assassinato gera suicídio, que matar é simplesmente ser morto.”

Silenciando a Fúria


Man Against HimselfPanzram tinha uma ideia vívida do porquê ele ser do jeito que era. Quando o Dr. Menninger escreveu novamente sobre o caso, ele fez a seguinte observação: “eu jamais vi um indivíduo cujos impulsos destrutivos fossem tão completamente aceitos e reconhecidos pelo seu ego consciente,” disse ele em Man Against Himself [Homem Contra Si Mesmo, em tradução livre] (1938). Devido aos abusos da sua primeira infância e torturas físicas dentro das prisões americanas, não era surpresa que Panzram tenha se tornado um criminoso.

“Não é natural que eu tenha absorvido estas coisas e me tornado o que sou hoje, um ser humano traiçoeiro, degenerado, brutal, selvagem, desprovido de qualquer sentimento decente… sem consciência, moral, piedade, compaixão, princípios ou qualquer traço bom? Por que eu sou o que sou?”

[Carl Panzram]

Seus escritos mostram um homem de alguma inteligência e introspecção, uma auto-revelação que poucos assassinos adquirem, apesar dos anos de reflexão dentro da cela.

Diferentemente de Jeffrey Dahmer e Ted Bundy, Carl Panzram não era um sádico sexual ou um assassino lascivo na definição clássica. Ele era simplesmente um assassino impenitente cujas motivações foram inflamadas por atos de tortura e abuso sexual nos primeiros anos. Talvez em algum momento da história tudo pudesse ter sido diferente. Talvez ele pudesse ter sido alguém diferente do que foi. Ninguém jamais saberá. Mas este rosário de crimes é realmente assombroso. E ainda assim, em meio à morte e destruição, não é impossível enxergar um brilho tímido de compreensão. Não se trata de perdão, claro, mas apenas o reconhecimento dos ventos que produziram a tempestade. Talvez ele fosse apenas um homem que devolveu tudo que recebeu da vida. A lembrança de uma era violenta onde os tempos eram difíceis e as prisões da América instituições repressivas e brutais, que não ensinavam nada além de sobrevivência [nada muito diferente de hoje em alguns lugares do mundo].

Quando ele estava preso em Washington, D.C., investigadores o interrogaram sobre o assassinato de McMahon em Salem, Massachusetts. Um dos detetives perguntou qual o sentido de matar uma criança indefesa. Panzram o encarou com o olhar frio e morto de um tubarão faminto.

“Eu odeio a porra da raça humana inteira, eu desabafo matando pessoas.”

[Carl Panzram]

Este poderia ter sido seu epitáfio.

No dia de sua execução, quando os guardas e o diretor chegaram até sua cela para pegá-lo, Carl Panzram vociferou: “Tem algum carola de merda aqui? Tira eles daqui! Não me importo de ser enforcado, mas não preciso de nenhum hipócrita por perto! Bota eles pra correr, diretor, ou você vai ter um trabalho infernal pra me tirar desta cela.”  Os clérigos foram escoltados para fora. Panzram disparou para o pátio e berrou “Buu!” e a multidão pulou para trás assustada. Do nada ele virou e deu uma cusparada no capitão da guarda. “Gostaria de dizer alguma coisa?,” perguntou o carrasco. “Sim,” respondeu ameaçadoramente Panzram. 

“Anda logo com isso, seu desgraçado! Eu já teria enforcado uma dúzia de homens enquanto você fica aí parado enrolando!”

Ele está enterrado no corredor 6, túmulo 24, para sempre nas sombras dos muros ameaçadores da prisão de Leavenworth. Na lápide, até pouco tempo atrás, ainda havia o número 31614.

“Em toda minha vida eu matei 21 seres humanos. Eu cometi centenas de arrombamentos, furtos, roubos, incêndios e por último, mas não menos importante, eu cometi sodomia em mais de 1000 seres humanos. Por todas essas coisas eu não tenho o mínimo de arrependimento. Eu não tenho consciência então isso não me preocupa. Eu não acredito no homem, Deus ou diabo. Eu odeio toda a maldita raça humana, incluindo eu mesmo.”

[Carl Panzram]

A sepultura de Carl Panzram. A placa com o nome de Carl Panzram foi roubada por vândalos. Ele está enterrado entre os túmulos de C.Fair 5-20-1925 e Martin Grahm 12-2-1933. Foto: Find a Grave.

A sepultura de Carl Panzram. A placa com o nome de Carl Panzram foi roubada por vândalos. Ele está enterrado entre os túmulos de C.Fair 5-20-1925 e Martin Grahm 12-2-1933. Foto: Find a Grave.

“Gostaria que soubessem por que faço isso. Não tive escolha em relação a vir pra este mundo, e em quase todos os 38 anos que vivi nele tive muito pouco que fazer e a dizer sobre como deveria viver minha vida. As pessoas me levaram a fazer tudo que já fiz. Agora chegou a hora em que eu me recuso a ser levado mais além. Hoje eu vivo. Amanhã irei pro túmulo. Além disso, nenhum homem pode me levar. Estou sem dúvida satisfeito de deixar este mundo asqueroso e as pessoas asquerosas deste mundo. Mas de todas as pessoas asquerosas neste mundo, acredito que eu sou a mais asquerosa de todas. Hoje estou sujo, mas amanhã serei apenas sujeira.”

[Carl Panzram]

Informações:


Carl Panzram - perfilNome: Carl Panzram

Nascimento: 18 de Junho de 1892 | East Grand Forks, Minnesota, Estdos Unidos

Morte: 5 de Setembro de 1930 (38 anos) | Leavenworth, Kansas

Acusações: assassinatos em série, sodomia, roubos e assaltos

Vítimas: 5 confirmadas | confessou 22 assassinatos

Julgamento: 14 de abril de 1930 | condenado à morte por enforcamento pelo assassinato de Robert Warnke

Obs.: Carl Panzram dedicou sua vida ao crime. Ele tinha 11 anos quando cometeu seu primeiro crime (conhecido) ao invadir a casa de um vizinho e roubar tudo o que podia. Pelos 27 anos seguintes deixou um rastro de destruição pelos Estados Unidos, chegando, inclusive, a cometer assassinatos em outros continentes. Acesse toda a documentação de época de um dos mais notórios assassinos da história neste link.

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

Fontes consultadas: [1] Killer: A Journal of Murder – Thomas E. Gaddis e James O. Long; [2] “Charge O’Leary With Attempt to Break City Jail”, Nyack Evening Journal, 6 de julho de 1923; [3] “Convict Claims $500 Reward By Giving Up Self”, The Standard Star, 28 de agosto de 1923; [4] “Escaped Convict Arrested Monday at Railroad Station”, Larchmont Times, 30 de agosto de 1923; [5] “Ex-Convict Gloats Telling of Boys Fiendish Murders”, 27 de outubro de 1928, Washington Post; [6]“Federal Jury Votes Hanging in Kansas”, New York Times, 17 de abril de 1930; [7] Frasier, David (1970). Murder Cases of the 20th Century; [8] Friedman, Lawrence M. Crime and Punishment in American History; [9] Menninger, Karl A. (1938) Man Against Himself; [10] “John O’Leary of Nevada Comes Here With Gun”. The Daily Advocate. Stamford, Conn., 27 de outubro de 1920; [11] “Owner of Boat Held as Thief”. Yonkers Herald, 30 de julho de 1923; [12] “Panzram Goes to Gallows Cursing Race, Including Himself”, 7 de setembro de 1930, The Sunday Star; [13] “Richard Grube of Portchester Foils Robbery at Larchmont”. Portchester Daily Item, 28 de agosto de 1923; [14] Penned By An American Psychopath – San Diego State University; [15] Carl Panzram: Diary of a Monster – New York Daily News; [16] Carl Panzram – Billings Gazette; [17] Guide to the Carl Panzram Papers – Online Archive of California; [18] The Inside Described In Con’s Own Words – The Summer Daily Item, 30 de dezembro de 1970; [19] As Cartas de Carl Panzram – rohan.sdsu.edu; [20] As Cartas de Carl Panzram [2] – rohan.sdsu.edu; [22]John Doe near New Haven found August 1923” – Ancestry.com;

Com colaboração de:


Marcus Santana

Veronyca Veras
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