Viktor Burakov: morre na Rússia um dos mais famosos investigadores de polícia do século 20

Faleceu no último dia 21 de julho em Rostov, Rússia, Viktor Vasilievich Burakov, um dos mais famosos detetives de polícia do século passado. Burakov tinha 72 anos e há tempos...
Viktor Burakov - falecimento

Viktor Burakov - capa

Faleceu no último dia 21 de julho em Rostov, Rússia, Viktor Vasilievich Burakov, um dos mais famosos detetives de polícia do século passado. Burakov tinha 72 anos e há tempos lutava contra uma doença. 

Confira abaixo a nota emitida pelo Ministério de Assuntos Internos da região de Rostov sobre o falecimento de Burakov:

A chefia e funcionários da sede regional manifesta condolências pela morte do presidente do conselho de veteranos, o Major-General aposentado da Polícia Viktor Burakov.

O presidente do conselho de veteranos da região de Rostov, o major-general aposentado de polícia Viktor Burakov morreu aos 72 anos após uma longa doença.

Viktor Vasilievich nasceu em 18 de agosto de 1946 na região de Bryansk. Depois de se formar no ano de 1978 na academia de Volvogrado em perícia forense, Viktor voltou à capital de Rostov-on-Don para servir no Departamento de Assuntos Internos. Ele fez parte do grupo investigativo e operacional que deteve o assassino em série Andrei Chikatilo. Em agosto de 1994, Viktor Burakov se tornou o primeiro vice-chefe do departamento de polícia da região de Rostov e, dois anos depois, major-general da milícia [polícia russa]. Colegas de Viktor Vasilievich sempre observaram seu alto nível de profissionalismo, responsabilidade e qualidades morais, bem como um respeito por sua dedicação.

A chefia e os funcionários da Diretoria Principal do Ministério de Assuntos Internos da Rússia, região de Rostov, expressam sinceras condolências aos parentes e amigos de Viktor Vasilievich.

Memória abençoada!

O adeus a Viktor Vasilievich Burakov será realizado em 22 de julho às 10h no Cemitério do Norte, em Roston-on-Don (na sala de despedida).

A lenda russa Viktor Burakov no Museu do Crime de Rostov em frente ao mural destinado ao caso "Estripador da Floresta". Ele faleceu no último dia 21 de julho aos 72 anos.

A lenda russa Viktor Burakov no Museu do Crime de Rostov em frente ao mural destinado ao caso “Estripador da Floresta”. Ele faleceu no último dia 21 de julho aos 72 anos.

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Caçando o estripador da floresta


O mundo de Viktor Burakov mudou em março de 1983 quando o chefão da polícia de Moscou, o Major Mikhail Fetisov, designou-o como chefe da investigação de uma série de assassinatos que assolava a região de Rostov. As vítimas eram terrivelmente mutiladas e tinham os olhos arrancados. Até o final de 1983, vários outros corpos seriam encontrados e as similaridades nos padrões dos ferimentos levou Burakov a suspeitar de que havia um serial killer à solta em Rostov, suspeita que rapidamente foi descartada pelas altas autoridades soviéticas que não admitiam tal possibilidade.

Investigando um assassino astuto, com poucas ferramentas e lutando contra a burocracia do estado soviético, Burakov, contra a vontade de todos, convocou um psiquiatra para traçar um perfil do assassino; foi a primeira vez que uma autoridade soviética consultou um especialista da mente humana na tentativa de capturar um serial killer – algo que seria eternizado oito anos depois em O Silêncio dos Inocentes. Foi também ideia do investigador de polícia colocar policiais disfarçados em pequenas estações de trens enquanto as grandes estações seriam patrulhadas por homens uniformizados. O objetivo era fazer com que o serial killer, que usava o transporte ferroviário soviético como locomoção na caça de suas vítimas, visse os policiais nas grandes estações e fosse procurar vítimas nas pequenas. Em novembro de 1990 a estratégia deu certo e Andrei Romanovich Chikatilo foi preso como “O Estripador da Floresta”.

O serial killer Andrei Chikatilo (à esquerda) durante reconstituição de um de seus crimes. Preso em novembro de 1990, o avô grandalhão não confessou nenhum crime, e foi aí que mais uma vez Burakov entrou em cena.

O serial killer Andrei Romanovich Chikatilo (à esquerda) durante reconstituição de um de seus crimes. Preso em novembro de 1990, o avô grandalhão não confessou nenhum crime, e foi aí que mais uma vez Burakov entrou em cena.

Andrei Chikatilo não foi preso em flagrante, mas por comportamento suspeito. Os investigadores tinham quase cem por cento de certeza de que ele era o assassino em série que há anos aterrorizava a região, mas não tinham como provar. Pela lei soviética, eles poderiam manter Chikatilo preso sem provas por apenas nove dias, então teriam que soltá-lo. Durante nove dias, Chikatilo foi interrogado por policiais com sangue nos olhos, mas não admitiu um crime sequer. No nono dia, Issa Kostoyev, o chefão barra pesada que naquele ponto comandava a investigação, decidiu dar ouvidos a Burakov: chamar o psiquiatra que anos antes havia feito um perfil do assassino. Talvez ele, usando técnicas totalmente diferentes dos policiais cuspidores de fogo, quebrasse Chikatilo psicologicamente. O psiquiatra era Alexander Bukhanovsky.

E não deu outra

A odisseia de Viktor Burakov, posteriormente aplaudida por autoridades da lei do mundo inteiro – incluindo o FBI – foi brilhantemente retratada no filme Cidadão X (1995).

Viktor Burakov. Nesta que seria sua última entrevista, Burakov fala pela primeira vez sobre as cartas que Andrei Chikatilo escreveu na prisão e dá a sua opinião em vários pontos do caso. A entrevista é parte de um programa especial chamado “30 Mitos Sobre Andrei Chikatilo”.

A última entrevista


Pouco antes de morrer, Burakov deu uma interessante entrevista para o canal do YouTube The Люди. Pela primeira vez ele revelou a existência de dezenas de cartas que Chikatilo escreveu enquanto estava preso e forneceu sua opinião em vários pontos do complexo e histórico caso do assassino em série soviético. Veja abaixo os principais pontos da entrevista.

1. Autoridades soviéticas tentaram esconder a participação de Alexander Bukhanovsky

Burakov deixa claro na entrevista: o psiquiatra Alexander Bukhanovsky foi peça fundamental na resolução do caso. O truculento Issa Kostoyev, em entrevistas posteriores, afirmou que ele foi o primeiro a ouvir uma confissão de Chikatilo, o que não é verdade segundo Burakov.

“Nos primeiros oito dias de detenção Chikatilo não disse nada. Tínhamos mais um dia para obter uma confissão ou teríamos que deixá-lo ir, então eu propus usar a ajuda do psiquiatra Alexander Bukhanovsky. Falei com ele após uma aula e ele levou um caderno de anotações…Kostoyev nega categoricamente o papel de Bukhanovsky no processo. Eu me familiarizei com os 270 volumes do caso e em nenhuma página eu encontrei uma menção a Bukhanovsky ou ao perfil psicológico que ele fez. Tudo [relacionado a ele] foi retirado do processo.”

[Viktor Burakov]

O serial killer Andrei Chikatilo em fotos tiradas no dia em que foi preso. Ao fundo um mapa utilizado pela polícia para traçar os locais dos crimes. Foto: RIA Novosti / Vladimir Vyatkin.

O serial killer Andrei Chikatilo em fotos tiradas no dia em que foi preso. Ao fundo um mapa utilizado pela polícia para traçar os locais dos crimes. Foto: RIA Novosti / Vladimir Vyatkin.

2. As cartas de Chikatilo

Enquanto esteve preso, Chikatilo escreveu 25 cartas por sugestão de um colega de cela. As cartas supostamente teriam como destinatário o seu advogado, mas na verdade eram desviadas para Burakov, outros agentes de polícia e para Bukhanovsky. Eles liam tudo com a intenção de descobrir mais crimes do serial killer e entender sua mente.

“Nas cartas, Chikatilo disse que durante a fome [Holodomor], seu irmão foi comido. Ele descreveu também um episódio em que uma vizinha tentou arrastá-lo para a cama, ele tinha 14 anos, mas não tiveram sucesso, e isso foi um grande estresse pra ele. Ele serviu no exército, tinha dois metros de altura, mas admitiu que tinha problemas no sexo, mais tarde ele começou a contar sobre as circunstâncias de todos os assassinatos.”

[Viktor Burakov]

Chikatilo gostava muito de sua família e se referia à sua esposa com nomes carinhosos, “Querida Fenichka” e “andorinha“, revelou Burakov. Já seu filho Yuri, disse que “amava muito.”

3. A pena de morte foi uma decisão política

Como revelado por nós do Aprendiz Verde em nosso post sobre o caso, o julgamento de Chikatilo foi uma mera formalidade. Ele já estava condenado antes mesmo de pisar no tribunal. Burakov revela em sua última entrevista que “havia uma ordem para fuzilá-lo, os mortos tinham tantos parentes…Foi um momento político.”

Segundo o detetive, Chikatilo “estava mentalmente doente, ele deveria ter sido tratado”. Bukhanovsky, cujo papel na captura do serial killer foi enorme, sequer depôs no julgamento. “A pena de morte veio por pressão externa,” diz o detetive.

Investigador de polícia aponta local onde uma das vítimas de Andrei Chikatilo foi encontrada no Parque dos Aviadores em Rostov. Foto: Foto: RIA Novosti / Vladimir Vyatkin.

Investigador de polícia aponta local onde uma das vítimas de Andrei Chikatilo foi encontrada no Parque dos Aviadores em Rostov. Foto: Foto: RIA Novosti / Vladimir Vyatkin.

4. O irmão canibalizado

Andrei Chikatilo nasceu em 1936 no remoto povoado ucraniano de Yabluchne. Três anos depois eclodiria a Segunda Guerra Mundial e seu pai foi para o front. Feito prisioneiro de guerra pelos nazistas, o pai de Chikatilo foi libertado ao final da guerra e novamente feito prisioneiro, dessa vez pelos próprios soviéticos. Libertado, ele voltou para a casa em 1949. Até os 12 anos, Chikatilo sofreu regularmente de incontinência urinária, motivo pelo qual era assediado por sua mãe. Mas o pior para o menino Chikatilo eram as histórias que a mãe contava sobre o seu irmão mais velho, Stepan, que morreu três anos antes dele nascer. Por muito tempo, Chikatilo teve medo de sair de casa, aterrorizado pelas histórias da mãe. Segundo ela, seu irmão Stepan foi comido durante a grande fome ucraniana de 1932-1933. Mais tarde a mídia sensacionalista acabou deturpando a história, adicionando detalhes sangrentos, um deles era do que Stepan poderia ter sido comido pelos próprios pais. Como eles sobreviveram àquela escassez de alimentos? Mas como afirma Burakov na entrevista, a verdade é que a história nunca poderá ser comprovada já que nunca houve documentos comprovando a existência de Stepan. O que também é compreensível já que os ucranianos dos anos 1930 estavam muito mais preocupados em encontrar ratos nos palheiros para comer do que ir a um cartório registrar um bebê [andar com um bebê no braço seria sinônimo de perdê-lo no meio do caminho devido a horda de pessoas esfomeadas].

A escolha em Shakty onde Chikatilo foi professor de 1978 até sua demissão por molestar os alunos em 1981. Foto: wikipedia.org/Nonexys.

A escola em Shakty onde Chikatilo foi professor nos anos 1970. “Ele colocava um aluno no ombro e com a outra mão o acariciava. Então ele começou a passar pelos quartos das meninas à noite, ficando parado na porta por alguns minutos. Espalharam-se rumores de que ele espionava os meninos enquanto eles estavam dormindo. Os outros professores não acreditavam nisso, consideravam uma invenção das crianças para zombar do professor,” diz Burakov. Foto: wikipedia.org/Nonexys.

A ponte Hrushevsky, local onde o corpo da primeira vítima de Chikatilo, Yelena Zakotnova, 12 anos, foi encontrado em 1978. Foto: wikipedia.org/Nonexys.

A ponte Hrushevsky, local onde o corpo da primeira vítima de Chikatilo, Yelena Zakotnova, 12 anos, foi encontrado em 1978. Foto: wikipedia.org/Nonexys.

Irina Belova, moradora de Shakty, foi uma quase vítima de Chikatiilo. Na imagem acima ela dá o seu depoimento durante o julgamento do Estripador da Floresta. Foto: RIA Novosti / Vladimir Vyatkin.

Irina Belova, moradora de Shakty, foi uma quase vítima de Chikatiilo. Na imagem acima ela dá o seu depoimento durante o julgamento do Estripador da Floresta. Foto: RIA Novosti / Vladimir Vyatkin.

5. Chikatilo após os assassinatos

Após os assassinatos, Chikatilo ficava completamente desorientado. Burakov revela na entrevista que perto de onde os corpos eram encontrados, os detetives notaram vários cortes em árvores, algumas com os caules rasgados.

Após os assassinatos, e por algum tempo, Chikatilo não conseguia se orientar. Tal era a forma de excitação que por 10 a 15 minutos ele ficava batendo em árvores com uma faca até se acalmar.

[Viktor Burakov]

6. A execução de Chikatilo

Em 14 de fevereiro de 1994, uma escolta parou em frente a prisão de Novocherkassk. Um dos homens que participaram da ação revelou mais tarde à revista russa Argumenty i Fakty o que ocorreu depois. Chikatilo não sabia e nem acreditava que seria executado. Nas cartas, ele pede até mesmo para ser banido para uma ilha deserta, como Napoleão, citando até mesmo Agatha Christie na tentativa de ter sua pena de morte revista.  Os guardas foram até a sua cela e disseram: “Vamos até Moscou“. Chikatilo andou em silêncio, olhando atentamente os rostos ao seu redor. Fazia frio e o vento fazia um barulho medonho.

Ele foi colocado em um carro e a comitiva partiu para um local não revelado. A viagem durou cerca de uma hora. Nos carros, além do serial killer e policiais, estava presente um promotor de justiça.

A comitiva chegou em uma espécie de bunker. Quando o portão foi aberto, havia um médico, um porteiro e agentes da lei. Eles desceram até o subsolo e Chikatilo entrou em um quarto com alguns móveis antigos. O promotor folheou uma documentação na qual continha o veredito e o decreto para executar Chikatilo assinado pelo presidente russo Boris Yeltsin, então entrou na sala. Lá, ele leu o veredito, então Chikatilo percebeu que ele nunca mais veria a luz do dia.

O assassino em série foi empurrado para uma pequena sala adjacente onde um único tiro de pistola – na parte de trás de sua cabeça – foi ouvido.

Vídeo: Os 30 Mitos Sobre Andrei Chikatilo


Descanse em paz Viktor Burakov.

Leia a história completa do – para muitos – pior serial killer do século 20:

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

Fonte consultada: Съеденный брат и насилие в детстве. Почему засекретили “Дело маньяка Чикатило”? – Life.ru;

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