Serial Killers: Andrew Cunanan, na trilha da loucura

Dançando com o serial killer Miami Beach, Flórida, Estados Unidos | 11 de Julho de 1997 A menos de seis minutos a pé da praia e descendo a Washington...
Andrew Cunanan - Aprendiz Verde

ANDREW CUNANAN - capa

Dançando com o serial killer


Miami Beach, Flórida, Estados Unidos | 11 de Julho de 1997

A menos de seis minutos a pé da praia e descendo a Washington Avenue está o Twist, uma das mais famosas boates gays de South Beach, o fervilhante point de hormônios de Miami. Homens musculosos se misturam com patinadores loiros e meninas de trajes pequenos, uma combinação mais do que perfeita para o sol escaldante e o vento fresco de uma das mais famosas praias da América. Paqueras com caras de Lamborghinis e Ferraris e troca de olhares entre os corpos esculturais, o dia só perde mesmo para a noite agitada e cheia de glamour e testosterona dos inúmeros points da cidade. Tem para todos os gostos.

E no número 1057 da Washington Avenue está um dos points mais quentes para os homossexuais do leste americano. Conhecido no mundo inteiro pela música, atendimento e, principalmente, agitação, o Twist possui sete bares, cada um com decoração única, e uma pista de dança mais do que disputada.

E foi para o Twist que um jovem de West Palm Beach, cidade vizinha a Miami, decidiu ir se divertir na noite de sexta-feira, 11 de julho de 1997. O cabeleireiro Brad gostava do Twist. Ele costumava frequentar a boate nos fins de semana e no dia 11 de julho conheceu um rapaz que se apresentou como Andy. Brad achou Andy lindo – um moreno magro, 1.76 de altura, de sorriso encantador, cativante e feições latinas. Em pouco tempos os dois estavam dançando juntos ao som da estridente música do Twist. E quanto mais Andy se aproximava, mais Brad se sentia atraído. Em dado momento, Brad se viu possuído pelas mãos nervosas daquele homem que não tinha vergonha nenhuma em puxar, agarrar, apertar e passar a mão por todo o corpo de Brad. Quando Brad fez a famosa (e clichê) pergunta (que rola em 11 de 10 paqueras) “com o que você trabalha?”, Andy, às gargalhadas, respondeu, “Eu sou um serial killer!” Brad ficou sem entender, principalmente quando Andy desapareceu na multidão.

Andy era um cara que já havia sido notado no Twist nas últimas semanas. Gary Mantos, um bartender da boate, trocou algumas palavras com ele certa noite. Para Mantos, Andy disse ser natural de San Diego, Califórnia, mas que atualmente vivia na maior cidade brasileira, São Paulo. Um investidor de banco que vinha para a América passar as férias e curtir o que a terra do Tio Sam tinha de melhor. Mantos lembra-se de Andy dando em cima de um homem mais velho no bar e do seu comportamento: ele agia como se quisesse chamar a atenção. Para outros bartenders, aquele jovem que do nada começou a frequentar o Twist parecia ser um garoto de programa.

Na mesma noite em que deu uns amassos na pista de dança em Brad, Andy deu em cima de outro frequentador da boate, Carlos Vidal. Quando aquele jovem apareceu pedindo um cigarro e um copo d’água, Vidal teve a impressão de já tê-lo visto em algum lugar. Andy era bastante familiar. Após uma breve conversa, Andy saiu, mas Vidal ficou com ele na cabeça. “Eu conheço ele de algum lugar?” Após muito tempo pensando sobre Andy, Vidal o viu voltando ao ambiente do bar. Nesse momento ele brincou com um amigo: “Aquele provavelmente é o serial killer. Eu o vi nas notícias da TV.” Incomodado com o pensamento, Vidal decidiu ir embora do Twist, mas sem antes avisar o gerente do lugar, Frank Scottolini, sobre suas suspeitas. “Eu acho que você tem um serial killer aqui. Aquele cara que vi é o serial killer,” disse ele ao gerente. Scottolini já havia visto Andy na casa antes, mas não prestou muita atenção nele.

Na noite seguinte, lá estava novamente Andy no Twist. Ele passou por Scottolini, que o reconheceu e lembrou das palavras de Vidal. Por um momento, Scottolini sentiu um frio na espinha. À medida em que Andrew se distanciava, o gerente, como por instinto, comentou com amigos: “Lá vai o serial killer gay“. Então voltou-se aos seus afazeres, acreditando que tudo não passava de um mal entendido. Na verdade, Scottolini entrou em negação consigo mesmo, “um serial killer na minha boate? Não pode ser possível!”

“Eu descartei isso, como se isso não pudesse ser verdade.”

[Frank Scottolini, citado em Vulgar Favors, página 410]

Os últimos dias de uma celebridade


O ano de 1997 foi um espectro de emoções para o maior estilista do mundo, o italiano Gianni Versace. Após décadas de trabalho duro com seus irmãos Santo e Donatella, o estilista que vestia as mulheres mais poderosas do mundo – da Princesa Diana às estrelas de Hollywood – estava a um passo de colocar a sua empresa, a Gianni Versace S.p.A, em Wall Street. “Um valor colossal estimado em $1.4 bilhão“, escreveu o Financial Times da Inglaterra. O processo, entretanto, não era simples. Entrar no mercado de ações era tão grande quanto as dores de cabeça advindas do processo – burocracia de auditorias e mais auditorias e perguntas e mais perguntas do fisco; contratos e mais contratos; advogados, contadores, economistas etc etc.

Era seu irmão Santo quem diretamente lidava com a burocracia empresarial, mas desde que Gianni era o cérebro por trás dos produtos da empresa, ele tinha que estar diretamente envolvido na maior negociação da Gianni Versace S.p.A. Ao mesmo tempo, Gianni esgotava suas energias no que realmente gostava de fazer: moda. O negócio dependia quase que exclusivamente da criatividade e mística de Versace, e ele dedicava toda sua saúde mental e física em seu trabalho. Tal obsessão cobrou o seu preço. Em 1994, o estilista cedeu a uma misteriosa doença nunca revelada. Dois anos depois, recuperado, ele voltou para encontrar sua irmã Donatella como um dos grandes nomes da moda mundial e a estilista-chefe da Gianni Versace S.p.A. Os dois tinham estilos diferentes e discutiam muito, principalmente em relação às modelos escolhidas para os desfiles. Versace amava a cor escura de Naomi Campbell. Já Donatella tinha uma queda pela novata Karen Elson.

O estilista italiano Gianni Versace e as modelos Karen Mulder, Linda Evangelista e Carla Bruni, que mais tarde se tornaria uma famosa cantora e primeira dama da França. Foto: Getty Images.

O estilista italiano Gianni Versace rodeado pelas modelos Karen Mulder, Linda Evangelista e Carla Bruni – Burni mais tarde se tornaria uma famosa cantora e primeira dama da França. Foto: Getty Images.

Giannni Versace, Naomi Campbell - uma das poucas super modelos da história - e Carla Bruni durante uma premiação em 1992. Foto: HuffPost.

Giannni Versace, Naomi Campbell – uma das poucas super modelos da história – e Carla Bruni durante uma premiação em 1992. Foto: HuffPost.

Na cansativa turnê da coleção de 1997, os ânimos entre os irmãos chegaram ao ápice em um desfile em Paris, o último da turnê. “Eu pensei que eles iam se matar. Eu tive que sair do quarto“, revelou o então marido de Donatella, Paul Beck, em uma entrevista para a Vanity Fair.

“Gianni não gostou do seu jeito de cavalo de andar [Karen Olson], e se enfureceu com Donatella por ter sugerido a garota no centro das atenções. Então, ele a substituiu por Naomi. Ele olhou orgulhoso ao ver Naomi andando no vestido de noiva…Elson explodiu em um ataque de lágrimas enquanto Donatella tinha um olhar morto no rosto. A decisão de Gianni mostrou que ele não confiava nela em decisões importantes.”

[Paul Beck]

Veja no vídeo abaixo os melhores momentos deste desfile. As duas primeiras modelos são Naomi Campbell e Karen Elson. Campbell aparece aos 1m14s com o famigerado vestido de noiva que, originalmente, seria vestido por Karen Olson. Ao final, Gianni Versace aparece para cumprimentar as modelos e a plateia.

A atriz Demi Moore foi uma das celebridades que prestigiou o desfile em Paris. Foto: Pierre Vauthey/Sygma/Sygma via Getty Images.

A atriz Demi Moore foi uma das celebridades que prestigiou o desfile em Paris. Foto: Pierre Vauthey/Sygma/Sygma via Getty Images.

Como dois profissionais em seu auge e com visões diferentes, e pelo fato de serem irmãos, ambos tinham abertura um com o outro para falarem o que dava na telha sem medo de retaliação. Como revelaria Donatella mais tarde, ela se via como a única pessoa no mundo com coragem de contrariar Gianni, pois ninguém era capaz de questionar o maior estilista do mundo.

Por essas e outras, quando tudo isso acabou, Gianni Versace voou diretamente para sua estonteante mansão em Miami Beach, Flórida. Tudo o que ele queria era paz, descanso, um pouco de diversão e sol. Ele adorava o sol de Miami e adorava a agitação do lugar. Dentro de casa ele poderia desfrutar de um merecido descanso à beira de sua enorme piscina, bebendo com o seu namorado Antonio ou com amigos dos mais diversos – de um simples serviçal à maior estrela de Hollywood ou música. Se ele quisesse um pouco de diversão, poderia sair à noite e frequentar os inúmeros bares e restaurantes da região.

E foi isso o que ele fez no dia 11 de julho de 1997.

Gianni Versace, seu namorado Antonio e um amigo saíram para comer uma pizza em um restaurante na avenida Washington chamando Bang. O restaurante era um dos preferidos do estilista e era gerido por um amigo italiano. Os três relaxaram comendo e bebendo, e saíram cedo do lugar. Poucas quadras abaixo, um certo Andy se divertia na boate Twist.

Dois dias depois, Gianni resolveu sair novamente de sua mansão e foi até o cinema assistir ao filme de ficção científica Contato, estrelado por Jodie Foster. No dia 14, uma segunda-feira, Gianni permaneceu no conforto de sua mansão – construída em 1930 e chamada de Casa Casuarina.

Na manhã do dia 15 de julho de 1997, Gianni Versace saiu de casa e caminhou três quadras até o News Cafe. Ele gostava do café da manhã de lá; comprou cinco revistas e voltou caminhando para casa. Era por volta das 8h40.

Chegando no portão de sua casa, Versace notou uma jovem mulher que o olhava com admiração. Ela era Merisha Colakovic, que passava no momento e reconheceu o rei da moda. Versace, assim como Sylvester Stallone e Madonna, era uma das atrações da cidade. Muitas pessoas passavam em frente à sua mansão na esperança de ver de perto a celebridade. E Colakovic ficou em êxtase, principalmente quando Versace olhou para ela e sorriu. Então ele colocou a chave na fechadura do seu portão para adentrar em sua casa.

Ele nunca chegou a entrar.

DarkSide Books

Desejos Distorcidos


“Um homem que fez de sua vida uma série de histórias e segredos, pode ter levado o maior dos segredos com ele. O segredo do por quê.”

[Andrew Cunanan: The Versace Killer – Biography Channel]

De boa aparência, com uma boa conversa, suave e erudito, Andrew Phillip Cunanan tinha o que era necessário para colocar o mundo aos seus pés. Aos 21 anos, sua mente brilhante tinha fluência em sete idiomas e, apesar da idade, sua rede de amigos era das mais invejáveis: homens mais velhos e bem sucedidos que poderiam ajudá-lo no que fosse necessário. Mais ainda, ele poderia recitar durante horas sobre as melhores grifes de roupas e, se quisesse, enganar os mais sofisticados da sociedade ou roubar a atenção de uma sala com seu maneirismo maquiavélico e certa indiferença. Ele era homossexual e tinha orgulho disso. Sua orientação sexual nunca foi problema para ele e, diferentemente de, por exemplo, Jeffrey Dahmer, sua atração por pessoas do mesmo sexo nunca o atormentou. Ele apenas desdenhava daqueles que não entendiam sua preferência sexual. Nada parecia incomodar Andrew Cunanan. Nada.

Mas lá embaixo, nos confins de sua existência, havia uma bomba-relógio em contagem regressiva para levá-lo até as chamas do inferno. Quando esta bomba explodiu, foi como um vulcão em erupção, expelindo sangue de todos os cantos. Enquanto a lava descia desgovernada, dizimou de um pacato zelador de cemitério ao maior estilista do mundo.

Devido à sua aparente normalidade externa, quando os seus demônios interiores resolveram sair da toca, a polícia teve pouco tempo para entendê-lo, encontrá-lo e detê-lo antes que matasse novamente. Os bancos de dados da polícia não tinham nada dele, nem uma foto, nem uma impressão digital; Cunanan nunca havia sido preso. Ele se encaixava no perfil do simples cidadão comum, mas seus crimes foram um atentado contra a sociedade. Pornográfico, às vezes bruto, seu mundo imoral alimentava sua luxúria, satisfazendo seu próprio apetite e o de parceiros dispostos a curtir uma aventura sadomasoquista movida a tiras de couro. Mas nas ruas, sob a luz do sol, quem o via não enxergava nada além de charme.

“Por duas décadas, temos sido inundados com narrativas sobre serial killers…que invariavelmente expõem a patologia completa de um dado canalha e nos assegura que há ‘sinais a serem observados,’ que se nós apenas prestarmos atenção no início, a sociedade pode se prevenir de homicidas em série e tipos relacionados. Curiosamente, Cunanan não experimentou os primeiros traumas ou manifestou o comportamento infantil notório que especialistas identificam como típico do serial killer. Mais curiosamente, na vida adulta, ele tinha um parafuso solto o suficiente para que as pessoas notassem, e muitas vezes achassem divertido.”

[Gary Indiana, Three Month Fever]

Os primeiros anos de Andrew não foram domesticamente felizes, mas estão muito longe dos experimentados por muitos psicopatas e futuros assassinos. A vida em casa oscilava entre agradar uma mãe amorosa e muito religiosa e aceitar as exigências de um pai. Este último, um disciplinador, mas muito longe do sadismo e maldade de muitos papais de futuros serial killers. Houve cenas de violência que ocasionalmente o afastaram de sua família, mas nada incomum às centenas de milhares de famílias mundo afora.

Na vida social, Andrew gostava da companhia de amigos, que comumente o achavam um cara extrovertido e boa praça. Ele tinha um QI de 147 [o FBI cita 160] e todos sabiam disso. Seus caprichos eram sempre tolerados e considerados resultados inquietos de um garoto que sempre estava um passo à frente da maioria. Quando se formou no colegial, cada estudante foi pedido para se descrever em uma única citação, para ser colocada no anuário. Andrew escolheu uma que hoje podemos enxergar como um aviso, mas, na época, fez seus colegas apenas rirem. Era apenas mais uma de Cunanan. Sua citação foi uma dita pelo rei Luiz XV.

“Apres moi, le deluge.” – Depois de nós o dilúvio.

Maureen Orth, premiada jornalista que seguiu de perto a onda assustadora de assassinatos de Cunanan, atribuiu sua queda à sua autoindulgência e um sentimento de cólera.

“Não importa o quanto Andrew Cunanan tivesse, ele sempre queria mais – mais drogas, mais sexo bizarro, o melhor vinho. De alguma forma, ele passou a acreditar que essas coisas eram direitos. Espreitando logo abaixo do charme, estava se formando uma sinistra psicose, ajudada pelos hábitos de Andrew de assistir pornografia violenta e ingestão de metanfetamina, cocaína e várias outras drogas tão prevalentes nos círculos gays de hoje – mas que não são falados.”

[Maureen Orth]

Cunanan não deixou nenhum diário para trás, nenhum bilhete ou carta. Nunca confessou seus demônios a um amigo. Tudo o que as pessoas viam era um rosto bonito e uma personalidade vencedora. Mas como um vulcão que dá sinais até explodir em fúria, é certo que Andrew experimentou por anos seus pensamentos inadequados até que não pode mais aguentar.

O Pequeno Andrew


“Seu senso de superioridade era sua característica definitiva.”

[Gary Bong, amigo de Andrew Cunanan no ensino fundamental]

No momento em que Andrew Philip Cunanan nasceu em 31 de agosto de 1969, seus pais estavam com o casamento abalado. O charmoso Modesto Cunanan, por quem Mary Anne Shilacci havia se apaixonado, que parecia tão elegante em suas vestimentas brancas da Marinha e gostava de ostentar um bigode estilo Errol Flynn, se revelara não ser o parceiro apaixonado que fora antes do casamento. Os dois se casaram na cidade naval de San Diego, Califórnia, e seus primeiros anos foram tranquilos. Após o nascimento do primeiro filho, Christopher, em 1961, o casal começou a ter as primeiras desavenças. Nascido nas Filipinas, Modesto era um membro dos fuzileiros navais que serviu no Vietnã e, após a guerra, permaneceu na marinha trabalhando em um hospital. Longe de casa, Modesto passou a alimentar pensamentos de infidelidade da esposa; quando o segundo bebê do casal nasceu, Elena, em 1963, ele alegou que a criança não era dele. Mesmo assim, a família seguiu para Long Beach, Califórnia, depois Nova Iorque e, de lá, voltaram à Califórnia – de cidades com bases navais para outra. Em 1967, o terceiro bebê, Regina, nasceu. Quando Andrew veio ao mundo em 1969, eles viviam em San Diego.

De acordo com Maureen Orth, autora do excelente livro sobre o caso, “Vulgar Favors” (2000) (Favores Vulgares, em tradução literal), Mary Anne não foi capaz de cuidar adequadamente do seu caçula por estar sob tratamento médico para depressão. Nascida na Itália e uma católica devota, as acusações de infidelidade de seu marido cobraram o seu preço. Modesto, por sua vez, tinha um orgulho egoísta pelo fato de estar cuidando sozinho da criança. Andrew, ele dizia a todos, “nunca chorava“.

A infância de Andrew não teve componentes melodramáticos ou situações das quais os pesadelos são feitos (e comum à vida de inúmeros serial killers: abusos, violência etc). Vizinhos que os conheceram não lembram de nenhuma situação estranha ou comportamento que os fizessem julgá-los uma família disfuncional. Aparentemente, os Cunanan eram felizes; alegremente, eles costumavam se juntar no carro da família para ir ao shopping, ao parquinho mais próximo ou ao McDonald’s. Quando Andrew tinha quatro anos, seu avô Schillaci, pai de Mary Anne, morreu e deixou uma herança para a filha, que sabiamente investiu em um novo lar na bela e bucólica Bonita, uma pequena cidade no Condado de San Diego, há apenas 13 minutos da Baía de San Diego, de frente ao Oceano Pacífico. Em Bonita, Andrew, que crescia bonito devido à mistura asiática e europeia, com a cor de sua mãe e os traços filipinos de seu pai, tinha os brinquedos que a maioria das crianças de sua época tinham e brincava com os jogos da incipiente indústria dos games. 

Mary Anne e seus filhos. Andrew é o menorzinho, no meio, ao lado da mãe e do irmão mais velho.

Mary Anne e seus filhos. Andrew é o menorzinho, no meio, ao lado da mãe e do irmão mais velho.

Com o passar dos anos, os desentendimentos entre marido e mulher tornaram-se mais crônicos, e isso incomodou bastante Andrew. A voz alta de seu pai e os gritos estridentes da mãe o cortavam como uma faca. Mas ele tinha um remédio para isso: retirava-se para o quarto no andar de cima, onde as páginas de histórias em quadrinhos e romances de aventuras levavam-no a outros mundos mais felizes, fantasiosos e estáveis. Ou, às vezes, ele simplesmente aumentava o volume da televisão do seu quarto para abafar o barulho dos cômodos de baixo. Andrew adorava rir e os episódios de sua comédia favorita, Mork & Mindy, o ajudavam a esquecer o quão negativo o mundo real às vezes poderia ser.

Ele raramente se queixava quando sua mãe forçava ele e os irmãos a sair da cama aos domingos de manhã para acompanhá-la à missa, nem mostrava sinais de uma rebelião adormecida quando pediam para limpar seu quarto e a ajudar a arrumar a cozinha depois do jantar.

Andrew Cunanan aos 9 anos. Foto: ABC News.

Andrew Cunanan aos 9 anos. Foto: ABC News.

Mas Andrew não era um robô. Foi uma época de aprendizado para ele, crescendo com a disciplina e observando tudo aquilo, moldando pouco a pouco a sua personalidade. Mentalmente, ele absorvia sua vida doméstica em Bonita do mesmo modo que um filhote de lobo aprende a viver na vida selvagem ao observar sua mãe. Ele percebeu que sua mãe temia o seu pai, e entendeu a austera autoridade que Modesto exercia sobre a família. Olhando em retrospectiva, Andrew deve ter engolido os bons e os maus dias, talvez se preocupando apenas em viver a vida de criança como qualquer outra no mundo.

O escritor Wensley Clarkson, em Death at Every Stop [2013] (Morte em Cada Parada, em tradução literal), supõe que a reação interior instintiva de Andrew à sua criação moldou o homem. O autor especula que Andrew passou a ficar amargurado sobre tudo o que envolvia o conceito de família, acreditando que, assim como ele, todos eram infelizes. Ele cresceu com a ideia de que seria sempre solteiro. Andrew parecia não querer repetir a história de seus pais. Mas lá no fundo, Andrew passou a viver em um mundo imaginário. Em algum momento, seu mundo colorido ruiu, então ele se encarregou de se tornar, por assim dizer, seu próprio herói, mais impenetrável do que o Batman. E que melhor maneira de erradicar a tristeza doméstica do que recriar aqueles ao seu redor também como heróis? Não mais pais briguentos, mas defensores solidários de sua singular cruzada. Andrew começou a se gabar para amigos o quão rico, corajoso e cuidadoso seu pai era. Ele citava histórias, uma após a outra, para seus amigos, de como o pai lhe comprou isso e aquilo.

Andrew Cunanan e seu pai. Foto: Mirror.

Andrew Cunanan e seu pai. Foto: Mirror.

Inicialmente, seus amigos achavam graça de suas imaginações e sonhos, mas os contos se tornaram tão constantes e inacreditáveis que Andrew ganhou a reputação de um Jaca Paladium [personagem do extinto programa TV Colosso, conhecido por suas mentiras surreais]. A escola em que ele estudava em Bonita ria dele pelas costas. “Andrew mentia com tanta frequência e compartimentalizava tanto sua vida que ninguém podia ver sua vida como uma continuidade“, diz Maureen Orth. Cunanan deve ter sentido o ceticismo dos colegas, então, para comprovar suas próprias falsidades, ele fez de tudo para mostrar o quanto seus pais eram amorosos. Uma vez, ele convenceu a mãe a levar um almoço de lagosta quente para ele durante a hora do almoço, de modo que ele pudesse saboreá-lo na frente de todos, enquanto o resto das crianças se contentava com manteiga de amendoim e geleia.

Nesse meio tempo, Modesto Cunanan se aposentou da Marinha, obtendo um diploma em administração. Antiquado e em busca de uma imagem, Modesto fez um curso de corretor de bolsa de valores e acabou ganhando um certificado para trabalhar na área. Como parte do show, ele levava o filho favorito, Andrew, nas melhores lojas de roupas da cidade e vestia-o com roupas de grife. O menino adorava isso. Etiquetado dos pés à cabeça, ele passeava pelos corredores da escola se exibindo, e a melhor parte disso era que ele não precisava inventar história, era só os seus colegas olharem para ele para verem a cara da riqueza.

Suas roupas engomadinhas chamavam a atenção dos seus amigos que vestiam jeans. Eles sussurravam pelas costas que ele era gay. Talvez ele tenha ouvido os rumores, mas se ouviu, certamente deu de ombros. A imagem contava mais do que tudo porque trazia consigo uma identidade que ele achava necessária para apagar a confusão de não ser ninguém. Seu esnobismo visivelmente lhe dava uma base, embora falsa, talvez iniciado através das lições de seu pai de que ele deveria ser alguém na vida. Foi a única coisa que ele aprendeu com seu pai e que levou a sério, embora de maneira distorcida.

Andrew Cunanan e seu pai Modesto Cunanan. Foto: ABC News.

Andrew Cunanan e seu pai Modesto Cunanan. Foto: ABC News.

Quando ele tinha 12 anos de idade, suas roupas e comportamento já eram uma esquisitice em Bonita e seus pais o matricularam na sofisticada Bishop School na cidade vizinha de San Diego.

Jaquetas da Ivy League, gravatas e calças de pregas cinzas eram a norma em Bishop School e Andrew ostentava o visual clássico como um deus grego em eterna aprendizagem. Havia até um Clube de Cavalheiros (Gentlemen’s Club). A mensalidade em 1981 era de sete mil dólares anuais, uma amostra de que aquele lugar não era para principiantes.

Brilhante e falante, Andrew se destacou na Bishop. Internamente, no entanto, o adolescente se sentia estranho, nada de anormal tendo em vista este período da vida, que é cercado de incertezas e dúvidas sobre tudo. Por trás da crescente imagem de festeiro, algo em Andrew parecia não se encaixar. Ele se sentia confuso sobre seus sentimentos em relação aos meninos e meninas de sua classe. Wensley Clarkson afirma em seu livro que algumas das garotas (agressivas) o assustavam, e assim ele cada vez mais ia se distanciando do sexo oposto, comparando-as à sua mãe adorada. Nenhuma delas correspondia a ela. Ele se sentia cada vez mais atraído pelos adolescentes mais fracos e tranquilos da escola, e muitos deles eram do sexo masculino. As conclusões de Clarkson podem, no entanto, não serem precisas. Em vários documentários e reportagens sobre Cunanan fica claro que ele fez amigas e experimentou o sexo oposto, mas não era o que ele gostava. Ele gostava de meninos e tinha interesse em estar rodeado de meninos.

O Mundo de Andrew


“No ensino médio, Andrew tinha uma inteligência rápida, era aberto, tinha ambição…e uma espécie de desejo pela vida. Mas ele estava viciado nas potencialmente explosivas veias subterrâneas da escuridão. Uma dessas veias foi a inveja. Andrew secretamente invejava a riqueza e estilos de vida de seus colegas de classe.”

[Vulgar Favors, página 40]

Nos poucos livros existentes a contar sua história, Andrew Cunanan teria experimentado seu primeiro encontro homossexual quando estava no início da adolescência. Ele gostou; sua libido gostou; na verdade, ele achou mais tentador do que as poucas vezes em que acariciou uma garota atrás das arquibancadas da escola em Bonita. Estranhamente, ele abria a boca para todo mundo sobre como acabara de fazer sexo com um garoto no banheiro ou de ter dado uns amassos em outro atrás dos muros. Seus colegas de sala, a princípio, pensavam que ele estava inventando tudo. Ele descrevia seus sentimentos e relações íntimas tão abertamente que, depois de um tempo, Andrew tornou-se uma piada entre seus colegas de classe que diziam uns para os outros para “tomar cuidado” com aquele garoto, Cunanan, no banheiro depois das aulas de educação física. Ele se gabava de seus encontros com uma fanfarronice que parecia uma forma dele se sentir superior.

Como ele não se importava com suas inclinações sexuais, os garotos do colégio que, em outros casos, pegavam no pé de outros afeminados, deixavam Andrew em paz. Quando ele cruzava seus caminhos, eles o consideravam uma curiosidade agradável. Todo mundo ficava feliz em tolerar Andrew porque ele era um pouco como o bobo da corte. Ele era tão descaradamente gay que impedia qualquer um de se ofender.

Aos 15 anos, Andrew tinha um corpo mais forte do que a maioria dos meninos de sua idade e uma experiência muito além de seus colegas. Com sua aparência morena e comportamento desinibido, já nessa idade ele saia e bebia nos mais populares bares gays de San Diego.

Andrew Cunanan, aos 18 anos em 1987, na foto tirada para o anuário da Bishop High School. Foto: ABC News.

Andrew Cunanan, aos 18 anos em 1987, na foto tirada para o anuário da Bishop High School. Abertamente homossexual, Andrew começou a frequentar a noite gay de San Diego ainda adolescente. Aos 18 já era um camaleão social. Foto: ABC News.

Mas em sua superfície, Andrew estava cheio de máscaras. Tinha muita coisa em Andrew Cunanan que Andrew Cunanan não gostava. Biógrafos revelam que seus problemas internos o martelavam de forma que ele passou a pensar em substitutos para aliviar ou esconder o que sentia. Então ele se reinventou como alguém importante. Glamour tornou-se a palavra-chave. Ele queria ser glamouroso. Mas em sua mente, preenchida pelos estereótipos da sociedade, ele não tinha pedigree para isso. Em primeiro lugar, Andrew não gostava de sua ascendência filipina, os olhos meios puxados e a cor da pele característicos dos asiáticos, então “melhorou” isso. Ele passou a se apresentar como um latino, um descendente direto do sexy e famoso Antônio Banderas, que no final dos anos 1980 e década de 1990 foi um dos astros mais badalados e desejados (tanto por mulheres quanto por homens) do cinema americano. Nos bares, Cunanan era conhecido como Andrew DaSilva ou David Morales. Um camaleão, ele mudava de rosto e aparência usando um par de óculos da moda ou um corte de cabelo, ou através da transformação de um Clark Kent de terno para um surfista de camiseta regata. Mesmo que ele fosse a Personalidade A na noite de sexta-feira, ele poderia ser a Personalidade B no mesmo local no sábado. Aqueles que passavam horas com ele no bar uma noite não o reconheceriam no dia seguinte, tal a forma como ele mudava sua aparência e comportamento.

Andrew Cunanan

Andrew Cunanan.

Terminada as aulas na Bishop, Andrew se matriculou na Universidade da Califórnia para estudar história, mas as noitadas nos bares gays prejudicaram sua vida universitária. A faculdade era o desejo de seus pais, não dele, e a única direção que ele gostava de ir era a de camas de garotos.

Mas até mesmo os bíceps definidos e os sorrisos com covinhas dos meninos bonitos acabaram se tornando secundários às estratégicas ferramentas de sucesso que Andrew começou a observar e a empregar. Ouvindo e observando o comportamento dos homossexuais mais populares da sua idade, ele logo percebeu que os membros mais procurados da comunidade gay, os que ele achava mais espertos, eram capazes de vender seus corpos aos homens mais velhos, mais maduros e endinheirados que frequentavam os cafés e bares. A maioria desses homens levava vidas secretas, vidas duplas que esposa e filhos em casa ou parceiros de negócios no trabalho não tinham conhecimento. Esses eram os caras que pagavam bem por prazeres secretos. Estes eram os homens do dinheiro, os executivos das empresas, os arquitetos e os advogados, os corretores de imóveis e os políticos.

“Pilares da comunidade” com dinheiro, e eles distribuíam sem dor no bolso mimos à espécimes bonitos e jovens como Andrew Cunanan, que em troca satisfaziam suas fantasias eróticas mais profundas e distorcidas.

Esses homens não faziam muitas perguntas, nem ofereciam muita informação sobre suas vidas. Andrew se tornou um garoto de programa; eles sabiam e ele sabia. Devido à sua jovialidade, beleza e exoticidade, Andrew tinha a agenda cheia, por isso, sabia do seu valor e isso refletia no preço cobrado. Ele não procurava encontros de uma noite só com os mais ricos, aventuras era algo para os trabalhadores da construção civil, policiais e musculosos de academia que queriam uma diversão. Dinheiro que brotava da fonte, esses deviam ser regados e cultivados.

Andrew frequentava clubes e bares com vários amantes mais velhos. Deles ele conseguia coisas: de um carro de 30 mil dólares à cartões de crédito sem limites. Ele gostava da vida boa e fácil, das festas e dos aconchegantes refúgios nos apartamentos da cidade em que seus amantes o mantinham, junto com seus segredos. Eles levavam Andrew para os eventos da sociedade, onde era apresentado como “secretário particular” ou “associado”. Andrew conheceu os poderosos da cidade, as celebridades. Ele aprendeu a conversa, a caminhada, os estilos. E aprendeu a guardar segredos, a sete chaves.

Modesto e Mary Anne Cunanan não tinham ideia da homossexualidade do filho. Eles perguntavam a Andrew de onde ele tirava suas roupas novas, seus relógios caros e onde passava as noites. Andrew nunca teve um emprego, e ele sempre mentia ou ignorava as perguntas dos pais. Em dado momento, pareceu não haver mais dúvidas onde ele passava as noites, mas problemas familiares permitiram a Andrew levar uma vida errante sem se preocupar com seus pais pegando no pé.

Andrew Cunanan, vestido de padre, ao lado de uma amiga no ensino médio.

Andrew Cunanan, vestido de padre, ao lado de uma amiga no ensino médio.

Andrew Cunanan, aos 16/17 anos, em 1986, com amigos de colégio.

Andrew Cunanan, aos 16/17 anos, em 1986, com amigos de colégio.

Andrew Cunanan durante festa no ensino médio. Data: 1986.

Andrew Cunanan, 17 anos, durante festa no ensino médio. Data: 1986.

Andrew Cunanan durante festa no ensino médio. Data: 1986.

Andrew Cunanan, 17 anos, durante festa no ensino médio. Data: 1986.

A Derrocada dos Cunanan


“Meu filho é um coroinha. Ele não é um serial killer ou um homossexual. Ele é inocente. Ele não é um homossexual. Ele teve uma criação católica e era um coroinha. Eu não acredito no que a polícia americana disse que ele fez.”

[Modesto Cunanan, Chicago Tribune]

Modesto se mostrou bastante incompetente em sua profissão no mercado de ações, ficando cada vez mais desanimado. Durante dois anos ele foi demitido de agência em agência. Da última vez, para piorar, foi acusado de peculato, acusado de desviar US$ 106 mil dólares da agência. Com medo de ser preso, não demorou muito para que ele sumisse de Bonita, fugindo para sua terra natal, as Filipinas, em 1988.

Sua fuga deixou Mary Anne sem renda. Ela foi forçada a vender sua casa e se mudar para um lugar menor na parte pobre da cidade. Seus filhos mais velhos ajudavam no que podiam. Andrew estava sempre em casa, mas as conversas ficavam mais e mais desagradáveis. Sua mãe passou a questioná-lo a respeito de rumores sobre sua vida sexual desregrada e, pior, as pessoas falavam dele relacionando com homens. Em uma das estadias de Andrew, Mary Anne finalmente colocou o filho contra a parede ao revelar que o havia visto aos beijos com um homem em San Diego. Uma discussão se iniciou, com ofensas trocadas entre mãe e filho. Andrew perdeu a cabeça e empurrou-a com força contra uma parede. Mary Anne deslocou um ombro no impacto e Andrew se sentiu culpado, pedindo desculpas à mãe que, atordoada, não pareceu ouvi-lo. Ele foi embora e decidiu viajar até as Filipinas para encontrar o pai, uma viagem para acalmar todos os demônios e obter conselhos do seu mentor.

Andrew Cunanan, seu professor Otto Mower, e o colega de classe Mathew Rifat, posam para uma foto na Bishop High School.

Andrew Cunanan, seu professor Otto Mower, e o colega de classe Mathew Rifat, posam para uma foto na Bishop High School.

A visita às Filipinas foi curta e desastrosa. Andrew, então aos 19 anos, ficou horrorizado ao descobrir que seu pai morava numa cabana na completa miséria: ruas não pavimentadas, esgoto a céu aberto, ruas cheias de lixo, com galinhas soltas correndo à vontade, podre e decadente. Em desespero, ele largou o pai e tentou passar o máximo de tempo possível longe daquele mundo que para ele mais parecia o inferno. Ele não tinha dinheiro para nada, muito menos para uma passagem de volta, então passou a vagar pelo distrito da luz vermelha de Manila, sozinho, buscando dinheiro fácil para voltar aos Estados Unidos. Ele se vendeu todas as noites, não importando se os homens estivessem imundos, sem tomar banho a dias. Para dar mais tesão, alguns deles pediam que Andrew se vestisse de mulher. Pela grana, ele fazia. Finalmente, com dinheiro suficiente ganho através dos programas, ele comprou uma passagem só de ida para São Francisco. Não se sabe se ele se despediu de seu pai.

“Quando Andrew viu a terrível pobreza na qual seu pai estava vivendo, uma loucura tomou conta de sua mente. Eu acho que neste ponto, se Andrew tivesse aceitado que seu pai era uma fraude, e pensado: ‘Bem, a vida é assim’. Ele teria voltado à América e aprendido com a experiência. Ele poderia ter feito algo interessante em sua vida. Mas ao invés disso, ele voltou e continuou com suas mentiras, dizendo às pessoas como seu pai era rico e mantendo essa pretensão. Essa viagem foi o ponto de ruptura em seu cérebro. Não havia como voltar atrás.”

[Vanity Fair]

Em terras americanas Cunanan voltou ao seu ambiente predileto. A noite de São Francisco proporcionou o enxague bucal que ele precisava para limpar o mau hálito das Filipinas. Lá, ele perambulou pelo mais famoso bairro gay do mundo, o Castro, uma pequena Las Vegas para a comunidade LGBT. Sua variedade de cafés, boates, bistrôs, bares e saunas atendia a todos os gostos da vida homossexual. Lugares badalados da época incluíam o The Badlands, San Marcus e o Midnight Star. Sob o disfarce de um sem número de personas, Andrew descobriu que o que mais fazia sucesso era o jovem sofisticado Tenente da Marinha Drew Cummings.

Andrew Cunanan. Data da foto desconhecida.

Andrew Cunanan. Data da foto desconhecida. Foto: ABC News.

Celebridades


“Andrew Cunanan sempre quis ser um wanna-be [nota: designação para alguém que busca ser o que não é]. Ele queria estar naqueles círculos. Ele queria ficar por aí com os ricos e famosos. Ele queria estar nos Hamptons com o pessoal do David Geffen. Ele queria ser famoso.”

[Vulgar Favors – página 295]

Obs.: David Geffen – magnata da indústria musical e fundador da Geffen Records, gravadora que produziu discos de Elton John, Aerosmith, Guns N’ Roses, Nirvana, dentre outros.

A descoberta de São Francisco foi como se Andrew tivesse ganho na loteria. Ele encontrou muito mais do que procurava no Castro. O garotão de vinte e poucos anos, alto, moreno, de beleza exótica, chamou a atenção de quarentões e cinquentões muito, mas muito ricos. Ele fez amizade com um advogado chamado Eli Gould, um homem de muitas conexões sociais que apresentou a Andrew um mundo que ele ansiava a muito tempo: o mundo do glamour. De uma hora para outra o garoto que há pouco tempo atrás se esgueirava nos esgotos das Filipinas estava agora frente a frente com estrelas de Hollywood, supermodelos e celebridades internacionais. Tão próximos que ele podia sentar na mesma mesa de café.

Uma das celebridades milionárias que ele conheceu foi o rei da moda italiana Gianni Versace, um homem que a partir daquele momento estaria ligado a Andrew para o resto da vida. Versace era gay e era gentil e, segundo muitas testemunhas, conheceu Andrew em uma festa pós-ópera na popular boate gay Colossus. Acredita-se que Versace, ao se encontrar com Andrew na festa, o confundiu com alguém que ele havia conhecido no exterior. (Bom, por outro lado, esse método de abordagem é bastante comum no mundo da paquera. Não te conheço de algum lugar?) Naturalmente, Andrew continuou com a história.

“O estilista entrou [na boate] com uma comitiva…que rapidamente o apresentou a algumas pessoas. Após cerca de quinze minutos de bate-papo e hordas de jovens ansiosos para conhecê-lo, Versace começou a inspecionar o lugar. Ele notou Andrew de pé com Eli, levantou a cabeça e caminhou na direção deles. ‘Eu te conheço’, perguntou ele a Andrew. ‘Lago di Como, não foi?’ Versace se referia à casa que ele possuía no Lago Como, perto da fronteira com a Suíça…Andrew ficou boquiaberto e Eli não podia acreditar no que via. ‘Isso mesmo’, Andrew respondeu. ‘Obrigado por se lembrar, senhor Versace.'”

[Maureen Orth, Vulgar Favors]

Podemos dizer que este foi o momento máximo da vida do jovem Andrew Cunanan. Por mais que ele tivesse relacionado com grandes executivos, Versace era um animal diferente: famosíssimo, uma celebridade que andava com Madona e Elton John, um multimilionário cujo dinheiro era tanto que fazia os mais ricos amantes de Cunanan de San Diego parecerem seus carregadores de taco de golfe. Foi um dos pontos mais brilhantes da vida de Cunanan. Uma daquelas noites em que você sai e tudo dá certo, com direito a uma paquera com o crush perfeito.

Mas essa vida perfeita de Facebook foi apenas um dos lados que ele descobriu em São Francisco. No outro extremo do espectro, Andrew desceu no abismo da pornografia gráfica e violenta. Era a depravação obscura e profunda do sadomasoquismo e erotismo tão proeminente no início da década de 90 na paisagem gay da Califórnia. Sem se importar com dinheiro, Andrew e seus amantes desceram até os labirintos de orgias, couro e correntes. Os jogos que eles jogavam incluíam chicotadas, esganamentos e outros fetiches violentos; as “vítimas” eram os jovens celestiais como Andrew que se deixavam manipular de várias maneiras pervertidas.

Cunanan participou de várias filmagens, algumas das quais ainda são vendidas no submundo pornográfico da América. Ele rapidamente se tornou o escravo sexual perfeito desse mundo. Andrew não se importava, ele gostava do status, pois de fato encontrava excitação em humilhação e dor.

“Em uma das cenas mais perturbadoras, ele foi fisicamente torturado por uma gangue de homens em uma cena de estupro em massa que mesmo os mais endurecidos amigos de Cunanan acharam difícil de assistir.”

[Death at Every Stop]

Como um Dorian Gray da vida real, a promiscuidade pareceu transbordar até a superfície de sua personalidade. Um Caliban feio ameaçava desfigurar as feições bonitas de Andrew Cunanan. Um lado mais sombrio e vingativo emergiu a partir daí. Ele mudou de atitude. Se antes ele não se importava em ser o brinquedinho dispensável de figurões, agora ele não via a mínima graça. Em retrospecto, conhecidos lembram de como, de repente, ele ficou agressivo, falando e agindo de forma agressiva. Ele passou a agir de forma realmente desagradável, comportamentos que podemos comparar com maldade. Em Vulgar Favors, Maureen Orth revela o encontro de Tim Schwager, um jovem de 26 anos, com Cunanan. Ambos se conheceram em uma boate gay e apesar de Tim não ter se sentido atraído por Andrew, ele lembra de como o rapaz tinha um papo prepotente sobre ter amigos poderosos e do cinema. Tim não se deixou levar pelo papo e não tinha interesse sexual em Andrew, então Cunanan o atraiu até um quarto e colocou drogas em sua bebida. “Eu estremeço ao pensar em como ele poderia ter me matado a qualquer momento durante as horas em que estive drogado e inconsciente“, relata Tim em Vulgar Favors. Mas o que Tim nunca esqueceu foi do sorriso sarcástico de Andrew, a primeira coisa que ele viu quando acordou. (Notamos aqui que Andrew passou a usar da mesma estratégia de outro serial killer de seu tempo: Jeffrey Dahmer).

As celebridades Lisa Kudrow, Madonna, Hugh Grant, Elizabeth Hurley, Tom Cruise.

As celebridades Lisa Kudrow, Madonna, Hugh Grant, Elizabeth Hurley e Tom Cruise.

  • Lisa Kudrow

Não havia dúvidas de que seu comportamento havia mudado. Em abril de 1997, Andrew literalmente emparedou a estrela da televisão Lisa Kudrow, insistindo que ela lhe conseguisse um teste. A maneira como Andrew a abordou, assim como o seu olhar, assustaram a atriz da série Friends.

“Ele tinha esse olhar selvagem em seus olhos, e ficava falando e falando, e falava sobre ele mesmo! Ele me disse o quão grande ele poderia ser como ator e me deu nomes após nomes [de celebridades que ele supostamente conhecia]. Eu fiquei totalmente desconfortável. Eu fiquei pensando em qualquer coisa para falar para sair dele. E quando ninguém veio ao meu socorro, eu decidi dizer que tinha que ir ao banheiro. Eu só queria dar o fora dali.”

[Lisa Kudrow]

Quando Lisa desapareceu de vista, Andrew caminhou com veemência por todos os lados, fornecendo aos outros convidados sua avaliação sobre ela. “Uma vaca!”, rosnava.

  • Madonna, Hugh Grant, Elizabeth Hurley

Em outra festa ele conheceu Madonna, mas a cantora desdenhou dele como se ele fosse ninguém, o que, naquele mundo, ele realmente era. Egocêntrico e narcisista, Andrew certamente deve ter ficado enlouquecido com o tratamento recebido de uma grande estrela (como no caso de Lisa Kudrow). Cunanan vivia no mundo da fantasia, acreditando que pessoas comuns alçadas ao estrelato da fama como Lisa e Madonna deveriam tratá-lo igualmente, assim como Versace um dia o tratou [em um mundo utópico isso aconteceria, mas sabemos das vaidades do ser humano, principalmente de uma celebridade]. Em outra festa ele foi apresentado à modelo-atriz Elizabeth Hurley, que também o ignorou. Este encontro deixou-o particularmente irritado já que ela era namorada do ator inglês Hught Grant, que Andrew também já havia conhecido em uma festa – Cunanan foi reprovado em um teste para o filme Nine Months estrelado por Grant.

  • Tom Cruise

Enquanto Andrew corria de festa em festa desesperado pela atenção de uma estrela, em seu interior sombrio ele elegeu uma preferida: o astro Tom Cruise. Ele transformou o seu quarto em um santuário dedicado ao ator. Era comum a amigos próximos Andrew destilar o seu veneno contra a atriz Nicole Kidman, esposa de Cruise na época, amaldiçoando-a porque ela tinha Cruise em sua cama, algo que ele provavelmente nunca teria.

“Andrew queria ser Tom Cruise e muitas vezes o imitava. Ele ia a Hollywood, frequentava os melhores lugares e dirigia uma BMW alugada na esperança de encontrar seu herói. Ele tinha uma vasta coleção de jaquetas de couro, mas sua favorita era uma jaqueta de bombeiro que parecia exatamente aquela que Cruise vestiu em Top Gun. Andrew se olhava no espelho e imitava os personagens que Tom interpretava nos filmes. Ele realmente acreditava que um dia ele e Tom ficariam juntos. Ele o desejava sexualmente e tinha sua própria maneira de comparar os outros caras com Cruise. Isso é o quão louco isso chegou. Se alguém dizia a ele sobre como um cara na rua era bonito, ele dizia: ‘Ah, ele é bonito, mas ele não é Tom Cruise. Nenhum cara é tão bonito quanto o meu Tom’.”

[Michael O’Brien, amigo de Andrew Cunanan – The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, FX]

Todos que conheciam Andrew concordavam. Em algum ponto ao longo do seu rio pessoal de emoções, um remo caiu da canoa.

Andrew Cunanan, ao fundo, e um amigo durante uma noitada. Foto: Getty Images.

Andrew Cunanan, ao fundo, e um amigo durante uma noitada. Foto: Getty Images.

Trail & Madson


“Os anos de mentira patológica, combinados com o habitual uso de metanfetamina e um vício em pornografia violenta, deixaram Andrew perigosamente desequilibrado sob todas as camadas da pretensão laqueada.”

[Vulgar Favors, página 225]

Há algo que pode explicar a repentina mudança de comportamento de Andrew. Ele estava tendo sintomas associados à AIDS. Cunanan fez testes no início de 1997, mas nunca voltou para pegar o resultado, talvez convencido que de fato contraíra a doença. Impulsos sombrios que provavelmente ele tivera por toda vida cada vez mais se inflamavam. Ele também se incomodava com o fato de que, no mundo gay, aqueles que estavam na casa dos 30 eram considerados velhos. Andrew estava prestes a completar 28 anos. (Aqui, mais uma vez, podemos fazer uma comparação a outro serial killer homossexual, Dean Corll, que também ficou paranoico com o fato de ficar velho). Desanimado e depressivo, Andrew ficou desleixado. Sua aparência piorou consideravelmente. Seu cabelo, geralmente bem cortado e aparado, ficou longo e despenteado. Ele engordou 13 quilos. Antes bem vestido, Andrew agora parecia não se importar com a etiqueta da calça ou estampa da camisa. O escritor da revista Time, Richard Lacayo, em seu artigo de época Tagged for Murder, revela:

“(Andrew) estava tomando os analgésicos que às vezes ele vendia para ganhar dinheiro, adicionando vodka ao seu habitual suco de oxicocos.”

Tais analgésicos incluíam os controlados Demerol, Vicodin, Xanax e o perigosíssimo Percocet.

Andrew Cunanan chegou ao fundo do poço em 1997: abuso de remédios controlados, sintomas de uma doença fatal, desilusão com o mundo glamoroso das celebridades, a idade chegando. E quanto mais ele se movia no chão lamacento do poço, mais ele afundava. Ele foi abandonado por seus amantes ricos (ou simplesmente parou de vê-los, não se sabe ao certo).  Como consequência, os cartões de crédito que ele possuía foram cancelados por seus sugar daddys.

Mas havia algo pior.

Andrew estava enlouquecido de ciúmes. Isso porque seu ex-namorado e melhor amigo, Jeff Trail estava se encontrando com David Madson, outro ex-namorado de Cunanan – este, citados por muitos, como o grande amor de sua vida.

Jeff Trail era um jovem estagiário da Marinha quando Andrew, então aos 23 anos, o conheceu em 1992. Natural de DeKalb, Illinois, o jovem Trail, de cabelos claros e pinta de garotão, vinha de uma respeitável família. Na época em que conheceu Andrew, ele era um recém-chegado da Academia de Treinamento Naval dos EUA, em Annapolis, e estava servindo no USS Gridley, ancorado no Porto de San Diego. Gay, Trail tinha um namoro secreto com um colega oficial, separando-se dele quando conheceu Cunanan, engatando um namoro com ele. Os dois se viam com bastante frequência. Cansado das restrições da vida militar, Trail pediu dispensa e começou a trabalhar em um serviço administrativo em uma fábrica de Minneapolis, Minnesota. Quando isto aconteceu e Trail mudou de San Diego para Minneapolis, Cunanan ficou triste pelo rompimento, mas prometeu visita-lo regularmente. Em uma dessas visitas, ele convidou outro amante que morava na cidade para se juntar a ele e Trail em um almoço, David Madson.

Cunanan conheceu David Madson em novembro de 1995 em São Francisco.

“Em uma sexta-feira à noite, no restaurante ‘sem nome’ na Market Street, entrada do Castro, Andrew estava jantando…quando notou um loiro bonito sozinho no bar. Ele imediatamente foi até ele e ofereceu uma bebida. O loiro, cujo nome era David Madson, era definitivamente o tipo de Andrew – aparência formal, não muito alto, com profundos olhos azuis. Um arquiteto de Minneapolis, ele estava em São Francisco por alguns dias a negócios.”

[Vulgar Favors – página 160]

Dois anos depois, ao visitar Trail em Minneapolis, Cunanan convidou Madson para se juntar aos dois em um almoço. Durante o encontro, o arquiteto soube que Trail era novo na cidade e prometeu apresentá-lo a pessoas que poderiam ajuda-lo profissionalmente. Talvez Andrew tenha sentido algo a mais na conversa ou tudo foi apenas mal interpretado por ele. O fato é que isso irritou profundamente Cunanan, que tinha um sentimento de posse em relação aos dois homens [mesmo não tendo nada oficial com eles, apenas uma amizade surgida de um antigo namoro]. Ele não gostou nada da possibilidade de que ambos pudessem se tornar íntimos.

Mas não era apenas isso. Trail e Madson eram homens totalmente diferentes dele. Enquanto Andrew viveu uma vida distorcida baseada em objetivos supérfluos, Trail e Madson trilharam o caminho inverso, se tornando tudo o que Andrew não poderia ser. Profissionalmente, ambos estavam estáveis, progredindo pouco a pouco enquanto Andrew permaneceu estagnado, ou melhor, regredindo (28 anos e totalmente dependente da boa vontade de homens mais velhos). Em Death at Every Stop, Clarkson diz que “Ele sentiu ciúmes porque ambos pareciam ter uma vida muito melhor do que a dele. (Também) as famílias de Madson e Trail pareciam ter aceito sua sexualidade. Ele dolorosamente desejava que o mesmo pudesse ser dito dele“.

O que começou como um almoço entre amigos terminaria em tragédia. Era o começo do fim de Andrew Cunanan.

Jeff Trail e David Madson. Foto: CBS News.

Jeff Trail e David Madson. Foto: CBS News.

De volta à Califórnia, Andrew Cunanan sentiu-se cada vez mais corroído por seu ciúme doentio, até o ponto em que, no final de abril de 1997, algo violento o dominou. Ele telefonou para Trail e acusou-o de estar saindo com Madson. Trail negou que estivesse tendo um caso, mas Andrew não acreditou, insistindo que ele estava mentindo. Palavras duras seguiram-se de ambos lados e antes de desligar o telefone, Andrew gritou: “Eu vou matar você!”

Naquela noite, em um bar, Cunanan disse a um amigo: “Eu vou embora por um tempo. Preciso terminar alguns negócios“. Então comprou uma passagem aérea para Minessota.

David Madson foi buscá-lo no aeroporto municipal de Minneapolis em 26 de abril de 1997, e o levou de volta a seu loft em uma parte sofisticada da cidade. Ele prometeu acabar com as suspeitas de Andrew de uma vez por todas convidando Jeff Trail ao seu apartamento, um encontro que tinha como objetivo acabar de uma vez por todas com as suspeitas de Andrew de que eles estavam tendo um caso. Amigos da Califórnia, ao saber do destino de Cunanan, ligaram para Madson para avisá-lo para ter cuidado: nos últimos tempos Andrew estava muito estranho. Mas o tranquilo Madson respondeu: “Bem, acho que ele precisa de um amigo e acho que está tentando endireitar sua vida. Ele só precisa de alguém“.

Quando Trail entrou no apartamento de Madson na noite seguinte, havia tensão no ar. Foi a primeira vez que ele falou com Andrew desde a acalorada discussão telefônica. E cara a cara a conversa não foi diferente. Em poucos minutos, Andrew e Trail começaram a se insultar e, apesar das tentativas de mediação de Madson, os argumentos se tornaram violentos. Por volta das 21h45, moradores do prédio começaram a se perguntar sobre a gritaria vinda do habitualmente silencioso apartamento acima.

Os xingamentos verbais passaram para agressão física e Madson entrou em pânico quando Andrew correu para a gaveta da cozinha e pegou um martelo. Antes que qualquer um dos homens pudesse reagir, Cunanan bateu com toda a força na cabeça de Trail mais de uma vez. Sangue espirrou pela sala e no assassino à medida em que Trail, como uma boneca de pano surrada, caía no chão.

Atordoado com o que havia testemunhado, a mente de Madson congelou. Ele provavelmente entrou em um estado de choque. Com medo ou em um estado mental onde o raciocínio sumiu (ou os dois), Madson se viu ajudando Andrew a enrolar o cadáver no tapete persa que cobria o chão da sala de estar. Por dois dias, a vítima permaneceu esticada no tapete no canto da sala atrás do sofá enquanto os outros dois homens planejavam o próximo movimento. Moradores do prédio relataram mais tarde que, durante esse tempo, viram Madson e Cunanan indo e vindo como se nada fora do comum tivesse ocorrido. “O rosto de David parecia manchado, como se ele tivesse chorado. Ele estava despenteado. Andrew estava gesticulando e falando sem parar,” revela Ginger Beck, moradora do primeiro andar, em Vulgar Favors.

O corpo de Jeff Trail enrolado no tapete persa de David Madson. Cunanan deu ao todo, 27 marteladas na cabeça, rosto e tronco de Trail. Foto: ABC News.

O corpo de Jeff Trail enrolado no tapete persa de David Madson. Cunanan deu, ao todo, 27 marteladas na cabeça, rosto e tronco de Trail. Foto: ABC News.

Depois de faltar ao trabalho por dias, um colega telefonou para ele. Não recebendo resposta e preocupado, o colega pediu para que o síndico do prédio verificasse o apartamento de Madson. Vizinhos também já comentavam entre si a ausência de Madson e se juntaram ao síndico. Quando eles adentraram no apartamento após várias batidas na porta, descobriram manchas de sangue no chão e nas paredes, e o cadáver de Jeff Trail enfiado no tapete. O assassino e seu súbito cúmplice, sabendo que o assassinato fora descoberto, saíram de Minneapolis no Jeep Cherokee vermelho de Madson. No bolso da jaqueta de Andrew havia uma pistola calibre .40 de propriedade de Jeff Trail. O cilindro estava carregado com pelo menos três balas. Em outro bolso, Andrew carregava as outras sete.

“Nós suspeitamos imediatamente que era um incidente gay. O síndico sabia que ele era gay. Nós assumimos que era o corpo de Madson… Ele não apareceu no trabalho. Era ele.”

[Sargento Bob Tichich, Vulgar Favors, página 230]

A polícia foi chamada e encontrou a mochila de Andrew no apartamento de Madson. Dentro havia artigos de identificação que imediatamente nomearam o assassino, bem como um coldre, uma caixa de cartuchos vazios, vídeos pornográficos e esteroides. De início, todos acreditaram que o corpo enrolado no tapete era de Madson. Quando eles descobriram a real identidade do cadáver, eles se dirigiram até o apartamento de Jeff Trail para realizar buscas que pudessem dar uma luz na investigação, mas tudo o que encontraram foi uma mensagem em sua secretária eletrônica. Eles ouviram a arrepiante voz de Andrew Cunanan convidando Jeff para o loft de David Madson para conversar sobre certas “coisas”.

Enquanto isso, Cunanan e Madson rasgavam a Highway 35 na direção do Canadá. A viagem e a matança estava longe de terminar e Andrew pode ter sentido que ele não tinha mais escapatória. Aquela aventura assassina pode ter engatilhado uma sensação de bem-estar que sua alma diabólica ansiava, mas que nunca havia encontrado. Foi agradável libertar tanta hostilidade. Quarenta e cinco quilômetros ao norte de Minneapolis, em uma estrada rural que leva a Duluth, Andrew encostou o Jeep de Madson na beira da estrada e disparou três vezes no amigo. Ele jogou o corpo para fora do carro. Um dos olhos pulou para fora do globo ocular com o tiro, o outro ficou aberto, como se encarasse Andrew com incredulidade pelo tratamento recebido: Madson, que uma vez teve um caso com Andrew e que o recebia toda vez que o amigo precisava, agora era morto como um animal e jogado para os urubus. Sem cerimônia.

“Eu acho que ele provavelmente foi pego de surpresa. Ele tinha esses ferimentos defensivos no dedo mínimo esquerdo e no punho direito. Ele foi baleado no olho direito e na bochecha direita e nas costas entre as omoplatas – a bala ficou alojada no seu peito. O corpo parecia fresco. O olho esquerdo parecia úmido.”

[Sargento Todd Rivard, Vulgar Favors, página 250]

Miglin


“A cena do crime em si estava imaculada, com pouco sangue, exceto o corpo no chão, e um pouco de espirro na parede perto da porta de serviço. Entretanto, o assassinato de Lee Miglin foi horrivelmente brutal – o mais depravado de todos os crimes de Andrew Cunanan.”

[Vulgar Favors, página 274]

Ninguém sabe quando e onde Andrew Cunanan e sua próxima vítima se conheceram, isto é, se eles já se conheciam antes da noite de 3 de maio de 1997. Mas, naquele dia, menos de uma semana depois que ele deixou David Madson morto em uma fazenda do Minnesota, ele trucidou outra pessoa inocente em uma fúria demoníaca. A vítima era Lee Miglin, um bem-sucedido empresário da indústria civil de 72 anos de idade e morador de Chicago.

Miglin foi criado na pequena cidade de Danville, Illinois, por pais lituanos que dedicaram a vida ao trabalho duro. Ele começou por baixo, como operário, e, em 1956, aos 31 anos, conseguiu um emprego como corretor na equipe do magnata Arthur Rubloff. Pouco tempo depois ele abriu sua própria empresa com o sócio J. Paul Beitler, se tornando um dos melhores do estado do Illinois na construção de prédios empresariais e comerciais.

“(Miglin e Betler) construíram o Chicago Bar Association Building e o Madison Plaza de 45 andares, a sede mundial da Hyatt Corporation. O próprio Miglin construiu a sede mundial da National Can e desenvolveu grande parte do parque industrial perto do Aeroporto de O’Hare. No seu auge, a Miglin-Beitler administrava mais de trinta e dois milhões de metros quadrados de outros edifícios em todo o Meio-Oeste.”

[Vulgar Favors, página 261]

O sucesso profissional e os milhares de dólares ganhos, entretanto, não mudaram o homem de origem humilde. Todos que o conheciam relataram sua simplicidade e respeito para com todos.

“Lee era um cara ótimo, doce e gentil. Muito discreto. Ele nunca foi do tipo que se gabava, nem era egocêntrico,” revelou em uma matéria do Chicago Tribune o arquiteto Stanley Tigerman, que trabalhou com Miglin na construção do Chicago Bar Association.

A esposa de Lee, Marilyn, era (e ainda é) uma conhecida apresentadora do canal Home Shopping Network – HSN. Como o marido, Marilyn era uma empresária bem-sucedida e milionária, com um império avaliado em $50 milhões de dólares. As mulheres americanas usam sua linha de cosméticos e perfumes, que ela vende no ar. Ainda hoje, aos 80 anos, Marilyn Miglin é sucesso na HSN e as mulheres de Chicago frequentam seu salão de maquiagem. (Abaixo, Marilyn Miglin e seu programa de venda de cosméticos e perfumes na HSN).

Os Miglins faziam parte da alta sociedade de Chicago e eram conhecidos filantropos. Eles tinham um casal de filhos, Duke Miglin, ator de filmes conhecido por seu papel em Air Force One (ele abandonaria a carreira logo após a morte do pai) e Marlena Miglin. Os Miglins residiam em uma área nobre e antiga ao norte de Chicago e vizinhos os achavam amigáveis e gentis.

O casal de milionários Lee Miglin e sua esposa Marilyn. Ele era um magnata da indústria civil e ela dona de uma rede de cosméticos. Foto: Chicago Tribune.

O casal de milionários Lee Miglin e sua esposa Marilyn. Ele era um magnata da indústria civil e ela dona de uma rede de cosméticos. Foto: Chicago Tribune.

Na noite de sábado, 3 de maio de 1997, Marilyn estava fora da cidade em uma viagem de negócios. Lee foi visto em frente à sua casa por um vizinho no início da noite. Ele estava sozinho. Acredita-se que Andrew Cunanan estava circulando pela região e, talvez induzido por drogas, liberou seu ódio interno borbulhante na primeira pessoa que viu: Lee Miglin. Talvez ele tenha se aproximado do empresário para obter alguma informação ou o parou para pedir um favor. Seja o que for, o que se seguiu foi medonho.

Ele levou Miglin, provavelmente sob a mira da arma que portava, até a garagem da casa do empresário. Lá, Andrew amarrou os pulsos da vítima, cobriu o seu rosto com fita adesiva (deixando apenas um espaço para o nariz) e, em seguida, submeteu-o a uma série de torturas diretamente tiradas do seu filme snuff favorito, Target for Torture – esmurrando-o, chutando-o, dando tesouradas no peito da vítima usando uma tesoura de poda de jardim ao mesmo tempo em que abafava os gritos. Enquanto Miglin agonizava, Andrew começou lentamente a fatiar sua garganta com uma serra. Não satisfeito, ele quebrou o tórax da vítima jogando sacos de cimento em cima.

“Lee Miglin foi encontrado deitado de costas completamente vestido…Revistas pornográficas gays foram deixadas não muito longe. O zíper do jeans de Miglin estava aberto, com os trilhos do lado esquerdo faltando, mas não havia sinal de abuso sexual… Miglin foi cortado várias vezes no pescoço e esfaqueado várias vezes no peito – duas facadas de cinco centímetros de profundidade penetraram seu coração… Havia mais de duas dúzias de golpes causando hematomas ou lacerações em sua cabeça, rosto e queixo…Usando a lâmina de um arco de serra…Andrew quase decapitou Lee Miglin com um corte irregular de dezenove centímetros por cinco centímetros de profundidade que serpenteava a parte de trás do pescoço até a garganta…Andrew também jogou dois sacos de cimento no topo do peito de Miglin fraturando todas as suas costelas. Então, ele cobriu o corpo com sacos de lixo…Os sacos de cimento foram encontrados ao lado do cadáver. Havia uma maciça hemorragia interna, mas apesar de toda brutalidade, nenhuma ferida defensiva foi encontrada…Finalmente, o assassinato de Miglin poderia ter envolvido elementos de sadismo sexual, talvez alguma forma de realização de fantasia. Certamente o rosto mascarado de Miglin se assemelhava às máscaras de látex com as quais Andrew parecia tão intrigado ao assistir pornografia S&M, as máscaras que ele gostava tanto durante o sexo violento.”

[Vulgar Favors, páginas 274, 275 e 276]

Celebrando seu sucesso em livrar o mundo de outro ser humano, Andrew saiu da garagem e entrou na casa de Miglin. Lá dentro, se serviu de sanduíches, uma maçã e um copo de suco de laranja da geladeira, assistiu a alguns vídeos caseiros e depois dormiu na cama de casal dos Miglin. Ele não tinha pressa. Seus demônios estavam calmos após o massacre. De manhã, ele roubou algumas moedas de ouro que encontrou na casa e deixou Chicago no Lexus verde e imaculado de Miglin.

Andrew Cunanan em um amigo. Data: 1994.

Andrew Cunanan e um amigo. Data: 1994. Foto: Zeeland Sygma.

Ainda hoje há muita discussão se Andrew conhecia ou não Miglin. “Por quê Cunanan iria até Chicago, encontraria Miglin, e o torturaria sem motivo?”, questionou um dos investigadores do caso, Todd Rivard. Já Gregg McCrary, uma das lendas da Unidade de Ciência Comportamental do FBI, adicionou que “é altamente provável que Cunanan conhecesse Miglin. Ou ele conhecia Miglin ou o seu filho. A ideia de que ele apenas o pegou na rua, o perseguiu, torturou e o matou é bizarro, não é o cenário mais provável.” O mesmo pensa o FBI. Em 2014, a polícia federal americana divulgou (mesmo com várias partes censuradas) seus documentos sobre a investigação dos assassinatos de Andrew Cunanan. Para o FBI, Cunanan acreditava ter sido infectado pelo vírus da AIDS e decidiu se vingar dos amantes. Nos arquivos, há um interrogatório com um garoto de programa que anunciava seus serviços em uma revista de Chicago. Ele descreveu que uma vez foi contratado por Miglin e Cunanan para fazer sexo a três. Já amigos de Cunanan descreveram aos federais como ele se gabava de conhecer uma família rica e poderosa de Chicago. Se isso for a verdade, que ambos se conheciam, isso poderia explicar a tranquilidade de Cunanan em permanecer na casa de Miglin mesmo após tê-lo matado. Além disso, a casa de Miglin ficava em uma área nobre longe do centro de Chicago, um local que alguém novo na cidade não chegaria sem conhecer.

Por outro lado, muitos acreditam que Miglin estava no lugar e hora errados. “Eu posso dizer a vocês sem medo de errar que não encontramos nenhuma ligação entre Andrew Cunanan e ninguém da família Miglin,” disse Matt Rodriguez, superintendente da polícia de Chicago, em julho de 1997. Em 2017, após 20 anos em silêncio, Duke Miglin deu uma entrevista para a ABC e falou sobre as desconfianças de que seu pai era gay, e até dele mesmo, que foi acusado por muitos de ser o verdadeiro alvo – um amante de Cunanan. “É muito difícil. Meu pai não viu meus filhos, ele não conheceu minha esposa…Não havia essa coisa deles se conhecerem. Um monte de coisas falsas foram trazidas e elas são muito dolorosas, para mim pessoalmente, e houve ataques a mim também que eu realmente não gostei. E ainda não gosto.”

“Eu acho que Andrew Cunanan era o mal personificado. Foi um frenesi naquele momento, e os rumores foram ainda piores, tentando ligar Lee Miglin a Andrew Cunanan.”

[Mark Jarasek, Vice-Presidente da empresa Miglin-Beitler]

“Alguns dos seus crimes foram simplesmente crimes de oportunidade. Eu nunca vi qualquer evidência viável de que os dois tivessem um relacionamento. Andrew era absolutamente um cara mal e estava fora de controle”

[Robert Milan, Promotor de Justiça]

Andrew não fez absolutamente nenhum esforço em Chicago para esconder sua identidade. Ao contrário, ele provocou. Quando a polícia descobriu o Jeep Cherokee de David Madson estacionado a alguns quarteirões de distância da casa de Miglin, o banco da frente estava coberto com fotografias suas como se estivesse desafiando a polícia a pegá-lo.

O FBI entrou no caso e, como Andrew usou o telefone do Lexus, os agentes federais conseguiram rastrear seus movimentos. Eles descobriram que ele estava na direção da Filadélfia, então alertaram a polícia local, rotulando-o de “armado e perigoso”. Viaturas cruzaram as estradas principais, secundárias e as vias expressas por toda a Filadélfia, mas Andrew Cunanan era um fantasma, que apenas deixava corpos para trás.

Dentro do carro, Cunanan ouvia as notícias no rádio sobre o seu nome. Percebendo seu erro com o telefone, ele o jogou pela janela, e desapareceu como pó jogado no ar.

FBI e as polícias estaduais ficaram confusos. Como eles o perderam? Para onde ele foi? Eles tinham esquadrões de homens e procuraram por todos os lugares menos um – um lugar onde ninguém procuraria por uma pessoa viva. Um cemitério.

O adolescente Andrew Cunanan, em uma de suas imagens mais famosas, posa para uma foto de anuário para o ensino médio. Foto: Rex Features.

O adolescente Andrew Cunanan, em uma de suas imagens mais famosas, posa para uma foto de anuário para o ensino médio. Essa foto foi escolhida pela turma com a legenda: “O mais provável a ser lembrado”. Foto: Rex Features.

Reese


“Se você não consegue se comunicar com o mundo através da criação, você pode comunicar através da destruição. E é assim que um jovem muito inteligente, genuinamente inteligente, que nunca machucou ninguém acabou fazendo essa coisa horrível, muito horrível. O processo parece muito mais próximo da radicalização e terrorismo do que com a patologia de um serial killer.”

[Tom Rob Smith, roteirista de The Assassination of Gianni Versace, da FX, e escritor de Child 44]

O Cemitério Finn’s Point, em Pennsville, Nova Jersey (há apenas 60 quilômetros da Filadélfia), tem mais de cem anos. Em seu interior estão soldados da Guerra Civil americana, dos dois lados, soldados da União e soldados Confederados – que morreram presos em um campo de prisioneiros de guerra próximo. Foi nesse terreno onde descansam aqueles que mataram e morreram violentamente que Andrew Cunanan se escondeu e descansou um pouco antes de prosseguir. Não havia local mais apropriado para ele.

Cunanan possivelmente ouviu no rádio que era um dos homens mais procurado dos Estados Unidos. A polícia sabia o seu nome e o carro que dirigia, então, de imediato, ele precisava de um novo carro. É conjetura escrever sobre o que Andrew pensava ou deixava de pensar. Muitas publicações sobre ele fazem suposições sobre. Mas, sabendo de toda história, é correto dizer que ele raciocinou cada passo, pensando sempre à frente, tentando ao máximo minimizar seus erros com objetivo de continuar em sua missão homicida. E se ele precisasse matar alguém para isso, ele faria. Circulando pelo cemitério, ele avistou uma picape Chevrolet vermelha estacionada do lado de fora do que parecia ser uma casa de caseiro afastada da estrada. O local é realmente ermo, tão afastado de tudo que você não verá imagens do Google Street View. Um lugar solitário. Andrew não precisou pensar muito para perceber que naquela imensa região só havia duas pessoas, ele e o dono daquela picape. Ele foi até lá e bateu na porta.

No interior, William Reese ouviu a batida, desligou a estação evangélica que estava ouvindo e foi em direção a porta. Ele estaria morto em um minuto.

Reese, 45 anos, era um ex-eletricista que deixou o emprego para cuidar do cemitério que ele tanto amava. Um entusiasta de história e fundador de um grupo local de encenação da Guerra Civil, ele adorava vagar pelo seu território e contemplar as velhas e históricas sepulturas; para ele, cada uma contava uma história. E ele não estava errado. Em cada uma delas havia uma pessoa que um dia viveu e morreu, deixando para os vivos uma história de vida – boa ou ruim. E enquanto ele cortava e regava os gramados, aparava os galhos das árvores e mantinha seu lugar imaculado, sua imaginação vagava. Era um homem que amava o seu trabalho. Nunca fumou ou bebeu. Ele era quieto, nunca incomodou ninguém, e sempre estava disposto a ajudar quem precisasse. Na manhã de 9 de maio de 1997, Reese se despediu da esposa e do filho Troy, de 13 anos, em sua casa em Deerfield Township, há 45 minutos de carro do cemitério, prometendo estar de volta para o jantar.

O que Andrew Cunanan disse a Reese quando este abriu a porta? Um copo d’água? Uma informação? Ou Reese abriu a porta e deu de cara com o cano de uma pistola?

“Este foi simplesmente um assassinato a sangue frio e cruel. Ele o colocou de joelhos no chão e atirou na parte de trás da cabeça.”

[Tom Cannavo, Sargento da Polícia de Nova Jersey]

“A autópsia ocorreu no sábado. O médico legista concluiu que William Reese morreu de um único ferimento à bala na cabeça com perfurações do crânio, cérebro e rosto, aspiração de sangue e sangramento massivo…O FBI rapidamente concluiu que William Reese não tinha conexão alguma com Andrew Cunanan, ao contrário, foi vítima de um crime de oportunidade.”

[Vulgar Favors, página 327]

O FBI ficou perplexo. “Pela primeira vez desde a busca por Patty Hearst, o bureau teve que distribuir informações sobre o assassino sem as impressões digitais“, observou Wensley Clarkson. Todos os cartazes de procura-se mostravam os vários rostos de Andrew Cunanan, o que demonstrava sua personalidade de camaleão. Mas o que realmente assustava a polícia, além de sua indefinição, era que ninguém sabia para onde ele estava indo ou quando atacaria. A única certeza era que Andrew Cunanan atacaria novamente. Em 12 de junho, Andrew Cunanan foi colocado na lista dos 10 homens mais procurados da América.

Pouco mais de um mês depois de se juntar à investigação, o FBI, trabalhando em conjunto com o programa televisivo America's Most Wanted, colocou Cunanan na lista dos 10 homens mais procurados dos Estados Unidos. Foto: FBI.gov.

Pouco mais de um mês depois de se juntar à investigação, o FBI, trabalhando em conjunto com o programa televisivo America’s Most Wanted, colocou Cunanan na lista dos 10 homens mais procurados dos Estados Unidos. Foto: FBI.gov.

Quando o corpo de William Reese foi sepultado no folclórico cemitério que ele cuidava, membros de seu grupo da Guerra Civil, a 14ª Brooklyn Society, deram-lhe uma salva de tiros. A viúva Rebecca olhou para cima com lágrimas nos olhos, sussurrando: “Ele teria adorado“.

Mas era óbvio em todos os rostos presentes, mesmo no do reverendo metodista que conduziu as palavras no enterro, que a despedida teria sido muito mais doce se aqueles seis canhões tivessem disparado contra Andrew Cunanan.

Um fugitivo diferente


A nação estava perguntando, o FBI estava perguntando, sua família estava perguntando, seus amigos estavam perguntando: O que motivava Andrew Cunanan? A Unidade de Ciência Comportamental do FBI ficou em alvoroço, assim como os lendários caçadores de mentes aposentados, Robert Ressler, John Douglas, Pat Mullany…Um “spree killer”, disse Ressler ao The New York Times, afirmando que suas características homicidas se assemelhavam mais a um assassino relâmpago do que a um assassino em série. Em São Francisco, a comunidade gay também não tinha outro assunto: as ações do monstro eram derivadas do ciúme doentio ou da possibilidade de ele ser HIV positivo?

Essas eram as duas principais suposições que autoridades da lei e a imprensa tinham sem evidências concretas. Apesar de suposições, ambas eram as únicas lógicas a partir do que se tinha.

Ele tinha alguma coisa pessoal contra suas vítimas? Esta era uma questão ainda mais insustentável. O FBI tentou propor uma teoria baseada em assassinatos individuais como parte de uma matança contínua. Talvez, os especialistas ponderaram, Jeff Trail pode tê-lo infectado com o vírus da AIDS. Mas por que matar Madson?

As primeiras suspeitas davam conta de que Madson foi eliminado porque testemunhou o assassinato de Trail, uma queima de arquivo. Mas essas suspeitas perderam a credibilidade quando Andrew começou, propositalmente, a deixar simbólicas pistas para trás – como fotos, roupas, documentos, cartões -, como se quisesse que a polícia soubesse quem ele era. Quanto a Miglin, ele pareceu estar no lugar e hora errados, se tornando uma cobaia de alguma fantasia doentia e encorajada por um filme de tortura igualmente doentio. Reese? Provavelmente não mais do que alguém com algo que um assassino em fuga desesperadamente precisava: um carro.

Já o assassinato seguinte não deixou muitas dúvidas: ele foi premeditado. Os anteriores podem ter sido impulsivos e ajudado-o a cristalizar sua coragem e aperfeiçoar suas habilidades homicidas. Isso se conclui pelo fato dele ter escolhido como destino pós-Reese um local de brilho e diversão, de surf e areia, a fervilhante Miami Beach. Seu alvo nesta cidade era Rei. À beira-mar, Andrew ficou parado, como se estivesse esperando. Mas ele não ficou muito tempo nas sombras e nem se escondeu atrás de cortinas fechadas, observando pelas frestas. Por mais estranho que pareça, um dos homens mais procurados dos Estados Unidos fez quase nada para se esconder. Ao contrário, e não menos estranho, ele vagou à vontade pelo ar fresco de Miami, se misturando tranquilo e calmo na multidão, noite e dia, por mais de dois meses, sem ser detectado.

Ele andava como qualquer outro pelas areias fofas das praias abarrotadas de testosterona e estrogênio, no calçadão perambulava pelos spas da moda, de vez em quando almoçando em restaurantes muito bem iluminados e relaxando sob um guarda-sol de uma mesa de café. Miami Beach, como descreveu Richard Lacayo em seu artigo da revista Time, “é um laboratório de gratificação instantânea, cheio de boates e patinadores, caras musculosos com os deltoides parecidos com os tanques de gasolina de uma Harley“. Neste lugar, Andrew apareceu para desestressar após deixar um rastro de ódio. Sem se importar, ele observava os carros da polícia dirigirem nas ruas e passarem por ele sem suspeitarem de nada.

A camionete vermelha de William Reese estacionada em uma garagem de Miami. O veículo só seria descoberto meses depois de Cunanan chegar à cidade. Foto: Miami Police Department.

A camionete vermelha de William Reese estacionada em uma garagem de Miami. O veículo só seria descoberto meses depois de Cunanan chegar à cidade. Foto: Miami Police Department.

Andrew Cunanan chegou em Miami Beach em 10 de maio de 1997, estacionou a camionete roubada de Reese em uma garagem pública e caminhou até uma pousada que possivelmente vira enquanto dirigia pela cidade. Sem malas ou objetos pessoais, ele se registrou no Normandy Plaza Hotel. Queridinho  das estrelas de cinema da década de 1940, o Normandy não envelheceu bem. Na década de 1970, já era um ponto de dormitório barato para caminhoneiros e transeuntes, seja para passar a noite ou ficar por longos períodos. Seus quartos eram limpos e o serviço condizente com o atual status do hotel. E foi neste lugar que Andrew ficou a maior parte do tempo em que esteve em Miami. Ele optou pelo plano mensal, ficando em um quarto no terceiro andar, o 322, por US$ 690/mês. Para jantar, ele geralmente se dirigia a um restaurante italiano próximo.


Normandy Plaza Hotel atualmente

Ser um procurado pela justiça não impediu visitas ocasionais a points gay, lugares como o famoso The Twist, uma boate totalmente dedicada ao público gay. Ele era corajoso, não tinha medo da polícia e enfrentava qualquer suspeita para frequentar a noite, seduzir homens e levá-los até o seu quarto de hotel. Como por instinto, ele usava disfarces. Um deles era Andy. “Andrew disse a um bartender do Twist que vivia em São Paulo, Brasil, mas que, originalmente, nasceu em San Diego, Califórnia, e que Miami o lembrava a Los Angeles dos anos 1980,” revela Maureen Orth, em Vulgar Favors. Às vezes, ele raspava as pernas e usava roupas femininas para excitar alguns homens que gostavam do travestimento. Por impulso, ele raspou a cabeça, e até usou um moicano por algum tempo. À luz do dia, Cunanan usava um par de óculos de sol e um boné, calça cáqui ou shorts brancos, se misturando naturalmente entre os adoradores do sol.

Com o passar das semanas, a mídia foi se cansando do assunto Andrew Cunanan, quase que esquecendo-o completamente. Então ele ficou mais ousado. Andrew se tornou um visitante assíduo, sem nenhum disfarce, nas quadras de tênis [esporte de homens mais velhos endinheirados] durante o dia e nos bistrôs à noite.

Mas os pensamentos malignos em seu cérebro nunca pararam. O germe que jazia ali se alimentava e continuava a crescer. Embora sempre em guarda, pois sabia que todos queriam a sua cabeça, ele sonhava com a sua próxima conquista, a qual sabia que o FBI não estava preparado. Sua conquista final. A joia máxima da coroa. Nas tardes, ele passeava pela 11th Street e fazia uma pausa a um quarteirão do oceano, em frente à fachada renascentista de uma enorme mansão, local super conhecido em Miami, palco de festas com estrelas de Hollywood e da música.  Havia um homem que ele queria matar e tudo o que ele queria era ter um vislumbre dele. E esse homem era simplesmente o dono desta mansão.

A pistola de Jeff Trail que Andrew Cunanan usou em sua missão homicida. Foto: Chicago County Sheriff's Office.

A pistola de Jeff Trail que Andrew Cunanan usou em sua missão homicida. Foto: Chicago County Sheriff’s Office.

Versace


“Eu fui notificado pelo FBI de que Cunanan conversou com algum bartender, questionando-o sobre os hábitos de ‘Stallone e Madonna’ em Miami.”

[Sylvester Stallone – DEAD MEN TELL NO TALES, Time, 2001]

Em 1997, o nome Gianni Versace era sinônimo de glamour, brilho e sucesso. Nascido na pobreza, em Calábria, Itália, Versace trouxe um novo conceito de moda aplicado à sensualidade feminina, chamando à atenção de estilistas em todo o mundo. Com um estilo erótico, ele foi amado e odiado. Os que o amavam se tornavam discípulos leais, já os detratores faziam de tudo para promovê-lo como uma fraude – estes últimos se deram mal. Seus detratores e feministas que desprezavam seus cortes e couros fizeram atrair ainda mais atenção e cobiça pelo seu trabalho.

“Versace franzia o nariz para aqueles que diziam que sua moda era o auge do mau gosto, como muitos fizeram quando ele mostrou sua coleção sadomasoquista em um grande desfile de moda. Seus couros cravejados e estampados de flores cativaram tanto quanto chocaram. Em meados da década de 1990, o selo Versace dominava o mundo do design de moda. Em 1995, a Versace tinha lucros de US$ 900 milhões por ano.”

[Wensley Clarkson, Death at Every Stop]

Estrelas de cinema, realeza e ícones do rock usavam suas peças únicas nos maiores bailes de gala. Se Gisele Bundchen reina hoje na elite das top models, deve muito a Versace. Foi ele quem criou a “categoria” das modelos de elite, transformando Cindy Crawford, Naomi Campbell e Janice Dickinson de simples modelos a verdadeiras estrelas da moda, multimilionárias e com status de celebridade, comparável aos mais famosos atores de Hollywood ou popstars e rockstars da música. Muitas dessas celebridades, como a princesa Diana, eram seus amigos íntimos.

Donatella Versace, Elton John e Gianni Versace. Grandes amigos, Gianni Versace viajaria em agosto de 1997 para a Europa para passar alguns dias com seu amigo Elton John. Foto: AP.

Donatella Versace, Elton John e Gianni Versace. Grandes amigos, Gianni Versace viajaria em agosto de 1997 para a Europa para passar alguns dias com seu amigo Elton John. “É uma tragédia, estou tão triste. Era um dos meus melhores amigos…ele estava vindo para Nice, em agosto, para ficar comigo. Eu ainda tenho a sua passagem comigo,disse Elton John na época para a Associated Press. Foto: AP.

Nesta foto de 1996, Gianni Versace se abaixa para beijar sua amiga Madonna, que foi prestigiá-lo em sua coleção de inverno. Foto: Pierre Vauthey/Sygma/Sygma via Getty Images.

Nesta foto de 1996, Gianni Versace se abaixa para beijar sua amiga Madonna, que foi prestigiá-lo em sua coleção de inverno. Foto: Pierre Vauthey/Sygma/Sygma via Getty Images.

Em 1990, Sylvester Stallone prestigiou Versace na abertura de sua boutique em Nova Iorque. Em 1995, o ator posou com a mega modelo alemã Claudia Schiffer para uma campanha do estilista. Em Vulgar Favors, Maureen Orth revela que Versace tinha uma queda pelo ator americano, chegando a enviar vários presentes a ele. Foto: Ron Galella/WireImage.

Em 1990, Sylvester Stallone prestigiou Versace na abertura de sua boutique em Nova Iorque. Em 1995, o ator posou com a mega modelo alemã Claudia Schiffer para uma campanha do estilista. Em Vulgar Favors, Maureen Orth revela que Versace tinha uma queda pelo ator americano, chegando a enviar vários presentes a ele. Foto: Ron Galella/WireImage.

A editora-chefe da revista Vogue, Gianni Versace e o cantor britânico Bryan Ferry (fundador da excelente banda de rock Roxy Music, mas mais conhecido por seu hit internacional Slave to Love) em um desfile do estilista em 1994. Foto: Richard Young/Rex/Shutterstoc.

A editora-chefe da revista Vogue, Gianni Versace e o cantor britânico Bryan Ferry (fundador da excelente banda de rock Roxy Music, mas mais conhecido por seu hit internacional Slave to Love) em um desfile do estilista em 1994. Foto: Richard Young/Rex/Shutterstoc.

Versace havia acabado de concluir uma turnê de desfiles altamente bem-sucedida na Europa quando ele e sua comitiva de promoters e guarda-costas chegaram a Miami Beach em 12 de julho de 1997. Desgastado por uma agenda agitada, Versace planejava “acalmar minha vida e aproveitar mais minha privacidade“, como disse a um parceiro de negócios. Ele tinha 50 anos e desejava um tempo de inatividade para descansar.

Andrew Cunanan o procurou nos bares e boates gays de alto padrão que Versace costumava frequentar quando queria se divertir ou beber. Versace gostava do The Twist, o KGB Club ou o Liquid. Todas as manhãs, a polícia posteriormente supôs, Andrew andava pelas calçadas entre o portão de ferro da mansão Versace, na 11th Street, até a Ocean Drive, onde, no News Cafe, a celebridade da moda costumava tomar seu café gourmet favorito. Nestas andanças, Versace geralmente estava sozinho.

“Na sexta-feira [11 de julho], Versace, Antonio [namorado de Versace] e um amigo comeram uma pizza no Bang, um restaurante na Washington Avenue de propriedade de um italiano que Versace gostava. Eles relaxaram e foram embora cedo…Há poucas quadras abaixo na rua, Andrew estava no Twist…Andrew dançou com um cabeleireiro chamado Brad, de West Palm Beach…Na pista de dança, disse Brad, Andrew passou suas mãos nele todo, agarrando e esfregando nele. Quando Brad perguntou a ele o que ele fazia, Andrew alegremente disse, ‘Eu sou um assassino em série.’ Ele sorriu e disse a Brad que na verdade era um investidor financeiro. Então ele desapareceu na multidão.”

[Vulgar Favors, página 409]

Quatro dias depois, na manhã de 15 de julho de 1997, Andrew finalmente avistou Versace. Como um predador da selva, ele o observou e o seguiu. O que exatamente Andrew Cunanan tinha contra Gianni Versace ainda hoje é um mistério. Uma teoria nos arquivos do FBI diz que Versace certa vez recusou Andrew para um trabalho de modelo.

Maureen Orth dá mais detalhes sobre o que aconteceu naquela sombria manhã de 15 de julho de 1997.

“VERSACE PERDEU A CONSCIÊNCIA instantaneamente, seu cérebro morto, embora seu coração continuasse a palpitar e fosse espancado pelos paramédicos que o levaram às pressas ao Hospital Memorial Jackson em Miami. Andrew chegou por trás, segurando a pistola semiautomática calibre .40 de Jeff Trail, apontando o cano para o pescoço de Versace, logo atrás de sua orelha e bochecha esquerdas A primeira bala destruiu a base do cérebro de Versace, fraturando o seu crânio e rasgando a parte superior de sua medula espinhal e pescoço. Andrew estava tão perto de seu alvo que a bala produziu um efeito pontiagudo – uma tatuagem de pólvora queimada do tamanho da metade de uma nota de dinheiro – no pescoço de Versace. A bala transpassou o pescoço de Versace e atingiu uma das grades de metal do portão. A bala se partiu e partículas de metal voadoras atingiram o olho de um pombo. O pássaro morreu na hora e foi encontrado de costas na frente da mansão.”

[Vulgar Favors, página 412]

Versace não foi o único ser vivo a ser morto por Cunanan. Na imagem, o pombo atingido pela mesma bala que matou o estilista italiano. Foto: Miami Beach Police Department.

Versace não foi o único ser vivo a ser morto por Cunanan. Na imagem, o pombo atingido pela mesma bala que matou o estilista italiano. Foto: Miami Beach Police Department.

“Após o primeiro tiro, a cabeça de Versace virou levemente, os olhos abertos. Ele recebeu um segundo tiro no lado direito do rosto ao lado do nariz. Disparado ainda mais de perto, aquela bala se alojou em sua cabeça e rachou o topo do seu crânio. Versace imediatamente caiu nos degraus em uma poça de sangue. Mersiha Colakovic [testemunha que passava no momento] ficou congelada na calçada em horror – ela vira a coisa toda a menos de nove metros de distância. Exibindo um sangue frio de gelar os ossos, Cunanan caminhou calmamente pela Ocean Drive. Colakovic lembrou que o andar dele era estranho, como o Pato Donald, com os pés virados. Quase que de imediato, a porta da frente da Casa Casuarina se abriu. Antonio foi o primeiro a chegar a Versace. ‘Não! Não!’ ele gritou. Lazaro Quintana, que morava perto e apareceu para jogar tênis com Antonio, viu Colakovic na frente da casa. ‘O que aconteceu?’ Ela simplesmente apontou para Andrew, neste ponto na metade do quarteirão à frente, indo em direção à rua Twelfth. Correndo em direção a ele, Quintana gritou, ‘Seu desgraçado!’ Andrew sequer pareceu perturbado. Virou à esquerda para a rua Twelfth e depois para um beco da Ocean Court, que levava diretamente à garagem onde a camionete de William Reese estava estacionada havia mais de um mês. Três garis viram Quintana perseguindo Andrew. Quintana os avisou que Andrew tinha uma arma, momento em que o assassino levantou a mão e apontou a arma para ele. Quintana, então, desistiu da perseguição.”

[Vulgar Favors, página 412-13-14]

Investigador de polícia olha para as manchas de sangue na escadaria da mansão do estilista Gianni Versace. É possível ver a sandália de Versace, no segundo degrau. Foto: Robert Sullivan/AFP/Getty Images.

Investigador de polícia olha para as manchas de sangue na escadaria da mansão do estilista Gianni Versace. É possível ver a sandália de Versace, no segundo degrau. Foto: Robert Sullivan/AFP/Getty Images.

Gianni Versace é levado às pressas para o hospital, onde já chegou morto. Foto: ABC News.

Gianni Versace é levado às pressas para o hospital, onde já chegou morto. Foto: ABC News.

Tão Perto, Tão Longe


“Andrew Cunanan assassinou múltiplos indivíduos em um período de vários meses, separados por um período de resfriamento emocional, o que faz ele se encaixar na definição de assassino em série.”

[FBI]

A imprensa foi a loucura com o assassinato de Gianni Versace. Gary Indiana, autor de Three Month Fever ­(1999) – A Febre de Três Meses, em tradução literal -, “O assassino, largamente ignorado quando deixou rastros de corpos de Minnesota a Nova Jersey, tornou-se, abruptamente, um ícone diabólico no circo americano de celebridades, e virtualmente qualquer fragmento de informação sobre ele, verdadeiras, falsas ou intermediárias, foram relatadas sem fôlego como fatos ao longo de todo o espectro de provedores de notícias. A vida de Cunanan foi transformada…em uma narrativa exagerada com o veneno dos tabloides: sexo degradante, tráfico de drogas, prostituição etc...”

A mídia passou a cobrir o caso com o entusiasmo de urubus que sobrevoam uma carcaça, cada passo do Departamento de Polícia de Miami Beach e do FBI foi seguido com os olhos bem abertos, pressionando-os por resultados imediatos. Maureen Orth chama a perseguição de “comparável à caçada ao assassino de Martin Luther King, James Earl Ray“. Centenas de agentes do FBI viajaram até Miami e a polícia local abandonou todas as outras prioridades.

Todos os movimentos das autoridades estavam sob escrutínio e todos os erros escarnecidos. Na enormidade do que aconteceu, a morte inacreditável e sem sentido de uma celebridade em seu auge criativo e profissional e o que estava acontecendo, o fracasso em encontrar Andrew Cunanan, a desinformação e troca de acusações. A bomba explodiu e não havia como negar que erros ridículos aconteceram durante a investigação. Erros simples que se não tivessem acontecido poderiam ter salvo Versace.

Andrew Cunanan não passou totalmente desapercebido por Miami Beach. Teve gente que o reconheceu, e tal informação chegou até os ouvidos da polícia, mas os cidadãos de Miami nunca foram alertados. Quando esta informação foi divulgada, a cidade revoltou-se, especialmente os membros da comunidade gay, cujo círculo o assassino transitava. Por que ninguém foi avisado permanece um mistério.

Na verdade, Cunanan chegou perto de ser capturado apenas quatro dias antes do assassinato de Versace“, informou Richard Lacayo em seu artigo da Time. “Um funcionário de uma lanchonete, G. Kenneth Brown, reconheceu o homem que encomendava um sanduíche de atum como Cunanan. Brown levou o pedido de volta para a cozinha e se esgueirou até o telefone para ligar para o 911“. A polícia foi até o local, mas Cunanan já havia sumido.

A picape Chevrolet de William Reese, que Andrew dirigiu de Nova Jersey até Miami e deixou em uma garagem pública perto do seu hotel, permaneceu sem identificação mesmo após o assassinato de Versace. Ela permaneceu lá, intocada, por mais de dois meses. A mídia exigiu saber por que a polícia não investigou um veículo obviamente abandonado e por que eles não checaram todas as garagens, todos os becos e vielas, principalmente depois que a presença de Cunanan na cidade havia sido estabelecida.

Mas de todos os erros, provavelmente o mais inacreditável deles tenha sido uma falha que ocorreu no departamento de polícia de Miami. Um erro que, certamente, custou a vida não só de Versace, mas também de Andrew Cunanan. Em 7 de julho, oito dias antes do assassinato do estilista, Andrew se viu sem dinheiro. Ele se dirigiu até a loja de penhores Cash on the Beach para vender uma das moedas de ouro que havia roubado da casa de Lee Miglin em Chicago. O balconista lhe pagou US$ 200 pela moeda. A concretização da venda dependia, entretanto, que Andrew apresentasse duas formas de identificação, uma assinatura e uma comprovação de residência atual, sem as quais ele não poderia, se quisesse o dinheiro, mentir. Ele pensou, foi embora, mas voltou com a documentação, assinando seu nome verdadeiro e fornecendo como seu endereço de residência o Normandy Plaza Hotel. Por lei, o formulário foi enviado por fax para o Departamento de Polícia de Miami Beach. A razão para esse procedimento era simples. Com tal informação, policiais poderiam cruzar os nomes de cada transação com nomes de pessoas procuradas pela lei. No entanto, o formulário enviado pelo Cash on the Beach no dia 8 de julho ficou parado na mesa de um investigador que estava de férias. Após a morte de Versace, revirando os papéis, policiais descobriram o dito cujo em cima da mesa do Sr. Férias. Se o departamento fosse organizado (ou o que é provável, tivesse mão de obra suficiente para a montanha de trabalho), certamente o papel teria chegado até a mesa de outro policial.

Clarkson cita esse e vários outros como a “comédia dos erros”. E ela continuou. Após a morte de Versace e da descoberta do papel enviado pelo Cash on the Beach, uma equipe da SWAT invadiu o Normandy Plaza e vasculhou o quarto onde Andrew estaria hospedado. Eles encontraram apenas cômodos vazios. Estranho. Dois dias depois, o hotel percebeu que errou, dando ao FBI o número do quarto errado. Desta vez, a lei invadiu o quarto 322 para encontrar vários objetos de Cunanan, mas, como todos esperavam, o proprietário dos objetos havia desaparecido há muito tempo.

Maureen Orth elogia a agressividade do FBI em sua busca por Andrew, mas ressalta que o esforço não foi suficiente. Ela determina o que pode ter sido uma causa importante por trás das falhas. Em Vulgar Favors ela explica:

“Eu encontrei negação em todo o país sobre o uso disseminado de drogas e de outras estruturas destinadas a fomentar tal uso, tanto na comunidade gay quanto na parte do aparato judiciário-legal, que parece desconfortável com a ideia de abordar certos assuntos por medo de ser acusado de assédio aos gays. Se o FBI estivesse mais familiarizado com o mundo gay do sul da Flórida, por exemplo, Andrew Cunanan, um criminoso da lista dos dez mais procurados, nunca teria sido capaz de viver livremente no Normandy Plaza Hotel por quase dois meses ou de deixar uma picape vermelha roubada em um estacionamento por semanas a fio. O que se viu foi uma caçada nacional que custou milhões e produziu pouco resultado.”

Ela continua citando o agente do FBI, Kevin Rickert, da força-tarefa, que lhe disse: “Não houve muitos momentos de sucesso na investigação, porque nunca estivemos realmente próximos dele. Nunca o alcançamos.”

Claro, Rickert fala metaforicamente porque o FBI de fato encontrou seu homem em 23 de julho de 1997, oito dias depois dele matar o rei da moda. Naquela tarde, um caseiro português, Fernando Carreira, fazia suas rondas rotineiras ao longo do exclusivo Indian Creek Canal quando parou para verificar uma casa flutuante de propriedade do milionário alemão Torsten Reineck, que estava em viagem a Las Vegas. O zelador notou a porta da residência entreaberta e, junto com a esposa, decidiu investigar. De início, nada parecia fora de lugar na espaçosa sala de estar, mas aos poucos ele foi percebendo que alguém estava dormindo lá dentro. “Alguém dormiu aqui“, disse ele para a esposa. Enquanto ele inspecionava o local, um som ensurdecedor partiu do quarto de dormir no segundo andar. “Foi um barulho muito grande e eu saí correndo,” disse Fernando, que pensou que alguém havia atirado nele e errado. Ele e sua apavorada esposa correram para fora e se esconderam atrás de umas árvores.

Em poucos minutos a casa flutuante estava cercada. Quatrocentos policiais, incluindo a SWAT, e agentes do FBI tomaram posição no cais, enquanto atiradores de elite se posicionaram nas janelas do complexo de apartamentos ao redor; barcos policiais circulavam e helicópteros pairavam a poucos centímetros do teto. Então começou o impasse. Durante três horas o FBI se aproximou centímetro por centímetro, armado para matar, se necessário. Por algum motivo, instinto, talvez, eles acreditavam que Andrew Phillip Cunanan estava naquela casa flutuante.

“Os postes e antenas nos caminhões-satélites, parecendo pirulitos gigantes, pontilhavam o céu. Emissoras de TV locais estavam transmitindo tudo ao vivo em inglês e espanhol, e a polícia transformou uma brigada de incêndio do outro lado da rua em uma central de comando. ‘O lugar parecia um filme. O FBI apareceu com computadores, havia helicópteros de TV,’ lembra o investigador Paul Marcus.”

[Vulgar Favors, página 481]

Ironicamente, muitos nos Estados Unidos saiam de suas casas para assistir à sessão de estreia de Air Force One, filme com Harrison Ford no papel principal e que trazia Duke Miglin, filho de uma das vítimas de Andrew Cunanan. Nas transmissões ao vivo, o circo midiático, ciente de que o homem escondido naquela casa poderia ser o homem mais procurado do país, alternava imagens da cena policial com a do pomposo funeral de Gianni Versace ocorrido um dia antes na histórica Catedral Duomo, em Milão. A Princesa Diana, que morreria um mês depois em um acidente automobilístico, participou do funeral, sentando-se ao lado de dois outros amigos de Versace, os cantores Elton John e Sting. E era a imagem das duas estrelas, principalmente, que as emissoras americanas mostravam ao mesmo tempo em que cortavam para a casa de barcos, com closes generosos nas jaquetas andantes com as iniciais FBI.

Policiais se aproximam da casa flutuante em cujo interior acreditava-se estar Andrew Cunanan. Foto: ABC News.

Policiais se aproximam da casa flutuante em cujo interior acreditava-se estar Andrew Cunanan. Foto: ABC News.

Após o suspeito não responder às exigências constantes do megafone para sair com as mãos para cima, a ordem para atacar foi dada às 20h15.

Atirando granadas de gás para dentro das janelas, os agentes invadiram o local esperando ser recebidos a balas no melhor estilo Ma Baker. Mas tudo estava calmo.

Depois que os quartos inferiores foram declarados limpos, os agentes subiram, dedos nervosos em suas automáticas. No topo das escadas eles se espalharam. Silêncio…Nada…Ninguém. Quando já estavam quase acreditando que não havia ninguém lá dentro, que o alarme do português Fernando pudesse ter sido falso, eles encontraram um corpo na cama do milionário alemão.

Andrew Phillip Cunanan, 27 anos, estava sereno, como se estivesse em sono profundo, com a cabeça virada para a direita. Na mão direita, repousando sobre o corpo, estava a pistola Golden Saber de Jeff Trail. O cérebro que um dia abrigou pensamentos escuros e sombrios agora estava morto. Cunanan deu um tiro com o cano do revólver dentro da boca. Sangue escorria por seus ouvidos, nariz e boca. O travesseiro estava encharcado de sangue.

Seria este o fim de um conto horrível que transformou um jovem perturbado em um dos maiores enigmas da criminologia?

O funeral de Gianni Versace

Filmagem da polícia mostra a arma ainda na mão direita de Andrew Cunanan. Foto: Inside houseboat Andrew Cunanan hid in.

Filmagem da polícia mostra a arma ainda na mão direita de Andrew Cunanan. Foto: Inside houseboat Andrew Cunanan hid in.

Perita retira as impressões digitais de Andrew Cunanan. Foto: Miami Police Department.

Perita retira as impressões digitais de Andrew Cunanan. Ele cometeu suicídio em 23 de julho de 1997, oito dias após matar Gianni Versace. Foto: Miami Police Department.

Agentes do FBI retiram o corpo de Andrew Cunanan da casa flutuante. Foto: Reuters.Agentes do FBI retiram o corpo de Andrew Cunanan da casa flutuante. Foto: Reuters.

Agentes do FBI retiram o corpo de Andrew Cunanan da casa flutuante. Foto: Reuters.

Reportagem de época da Folha de São Paulo sobre a morte de Andrew Cunanan.

Reportagem de época da Folha de São Paulo sobre a morte de Andrew Cunanan.

Por quê?


Andrew Cunanan morreu deixando para trás um silêncio sobrenatural e inquieto. Como um pesadelo real demais para desaparecer com o amanhecer, sua morte não produziu aleluias, nem heróis e, definitivamente, nenhuma sabedoria. Às vezes, as causas dos pesadelos podem ser rastreadas; geralmente elas são. Mas o que motivou os sonhos infernais de Andrew Phillip Cunanan? E indo mais a fundo, será que ele mesmo sabia?

O livro Death at Every Stop de Wesley Clarkson conclui com um excelente resumo, citando as opiniões de psiquiatras e criminologistas, sobre o que poderia ter provocado Cunanan. Muitos deles concordam que ele não se encaixa no padrão de “spree killer” ou “serial killer”. A seguir estão algumas opiniões [presentes no livro e em outras fontes] que não apenas examinam um possível motivo, mas ajudam a iluminar a psique de Andrew Cunanan.

“Se você der uma olhada na dinâmica do assassinato (de Versace), ele estava basicamente matando a pessoa que ele nunca poderia ser… Muitas pessoas que fazem isso sentem uma sensação de superioridade sobre a polícia. A polícia era basicamente impotente para ele. Ao fazer isso, ele não só conseguiu validar sua própria superioridade, como conseguiu fazer uma declaração”.

[Vernon Geberth, autor de Practical Homicide Investigation]

“O mundo deve saber duas coisas após o assassinato de Gianni Versace. Primeiro, eles devem saber quem Versace era. E, segundo, eles devem saber que seu assassino foi Andrew Cunanan. Era isso o que Andrew queria. ‘Olhe para mim. Eu posso pegar qualquer um.'”

[Candice DeLong, ex-profiler do FBI]

“O horrível florescimento e autodestruição de um jovem psicopata em alta-velocidade…Ninguém conhecia o nome Sirhan Sirhan até ele matar Robert Kennedy. Ninguém conhecia Mark David Chapman até ele matar John Lennon. Destruindo uma figura desta magnitude, ele estará ligado a esta figura por toda eternidade.”

[Reid Melony, psicólogo forense da University of California, San Diego]

“Ele achava que era imune ou impermeável à captura. A maioria dos serial killers é muito mais discreto, cuidadosos em esconder os corpos. Ele era como o Unabomber, que continuava enviando mais cartas.”

[Eric Hickey, professor de criminologia na California State University]

“Como regra geral, assassinos em série não vão atrás de celebridades. A maioria dos assassinos em série ataca prostitutas e pessoas de rua e mulheres idosas que vivem sozinhas ou crianças pequenas, alvos convencionais. A maioria dos serial killers nunca usaria uma arma de fogo.”

[Jack Levin, professor de criminologia na Northeastern University]

“Estamos diante de um novo tipo de assassino e essa é uma das razões pelas quais há tantas perguntas não respondidas. Não há comparação entre Cunanan e qualquer outro modelo que temos. Ele não é um assassino em série, nem um spree killer, e certamente não é um assassino em massa…Se alguém não se encaixa, então talvez devêssemos começar a nos livrar das caixas.”

[Helen Morrison, psiquiatra forense]

“Ele tinha relações com vários homens jovens e um o deixou. Ele estava tendo problemas financeiros. Todas essas dinâmicas estavam pressionando esse cara. Sendo egocêntrico e narcisista, ele tinha um estresse especial. E eu suspeito que esse cara provavelmente tinha contraído Aids.”

[Robert Ressler, ex-agente do FBI e especialista em serial killers]

“Ele era um completo camaleão…uma múltipla personalidade. Ele certamente tinha múltiplas aparências.”

[Paul Salkin, psiquiatra]

“Este é um homem que não tem superego e nem consciência, e não tem mecanismos internos para impedi-lo de alcançar qualquer tipo de necessidade narcisista. Ao matar uma celebridade, ele pode alcançar uma maior fama. No centro disso está a necessidade dele ser uma celebridade.”

[Rami Mosseri, psicoterapeuta da Jewish Board of Family and Children Services]

“Ele amava David Madson muito, muito mesmo…[Após o rompimento] David não queria mais nada com ele. David era a vida de Andrew. Ele disse muitas, muitas vezes que, por David, largaria tudo para se mudar para Minneapolis. Eu acho que essa onda de matança realmente, por mais estranho que pareça, começou como uma história de amor. Eu acho que David Madson veio para simbolizar toda a rejeição que Cunanan teve naqueles últimos anos.”

[Erik Greenman, amigo de Cunanan]

Andrew Cunanan e David Madson. Reprodução Internet.

Andrew Cunanan e David Madson. Reprodução Internet.

“Eu basicamente conclui que ele tinha um alter ego, e quando ele matou Jeff Trail, ele se virou para isso. Não era mais ele. E foi aí que o caminho ficou mais claro para ele.”

[Lee Urness, agente do FBI que liderou a busca por Cunanan]

“Ele foi abandonado pelo seu último sugar daddy. Ele estava perdendo suas proezas entre seus pares. Ele ficou desleixado e perdeu a aparência, e a estrela começou a desaparecer…Madson e Cunanan eram completamente diferentes. Madson tinha uma carreira estabelecida…[Após a morte de Trail] Ele não era mais Andrew Cunanan o gigolô. Ele era Andrew Cunanan o spree killer. Este cara que provou sangue, amou, e foi emponderado por isso.”

[Donna Brant, editora do America Most Wanted]

Nesta foto de 1994, Andrew Cunanan (à direita) aparece com um de seus suggar daddy's, Norman Blachford, à esquerda. Foto: Dateline.

Nesta foto de 1994, Andrew Cunanan (à direita) aparece com um de seus sugar daddy’s, Norman Blachford, à esquerda. No final de 1996, Cunanan chantageou Norman dizendo que ia embora se ele não lhe desse uma Mercedes. Norman, então, dispensou Cunanan. Esta rejeição de seu último sugar daddy foi um dos estopins para o que viria a seguir. Foto: Dateline.

“Eu acho que quando Andrew Cunanan matou Lee Miglin, ele agiu como se estivesse em uma fantasia sexual. Ele não tinha que fazer o que fez, amarrá-lo da maneira que fez, deixá-lo indefeso. Quando um sádico deixa sua vítima indefesa, isso aumenta sua experiência. É algo que os desperta. Dominação e controle é tudo.”

[Candice DeLong, ex-profiler do FBI]

“Através de entrevistas com vários amigos e associados, as características e/ou traços a seguir, de Andrew Cunanan, foram estabelecidos:

  • Tinha um riso bastante alto e desagradável;
  • Adorava viver um estilo de vida abastado;
  • Atormentava amigos/associados por suporte financeiro;
  • É abertamente homossexual;
  • Aberto ao aspecto sadomasoquista do sexo de forma agressiva;
  • É muito arrogante em relação a si mesmo e em relação a si mesmo como superior a outras pessoas;
  • Gosta de se vestir com jaquetas de couro bastante caras;
  • Usava relógios muito caros;
  • Preferia jovens e bonitos homens loiros para relacionamentos pessoais, mas se associava a homens mais velhos, de 50 a 70 anos, para obter dinheiro e favores;
  • Gostava de dirigir veículos esportivos/caros alugados;
  • É descrito como um mentiroso patológico;
  • É descrito como um baladeiro; e o centro das atividades sociais na comunidade gay.

Reportadamente, Cunanan tem um QI de 160 e foi descrito como muito inteligente. No passado, Cunanan reportadamente usou metanfetamina, cocaína e crack, e também abusou de álcool.”

[Arquivos do FBI sobre Andrew Cunanan, páginas 75-76]

Seria antiético (e arriscado) enquadrar Andrew Cunanan como psicopata, uma vez que não houve a possibilidade de diagnostico, muito embora ele apresentasse uma serie de características tipicamente associadas à esta perturbação, como por exemplo: ausência de empatia, procura de estímulos, impulsividade, hostilidade, conduta sexual promíscua, necessidade de status social,  egocentrismo e falta de autocrítica. A componente sádica, que ficou evidente no homicídio de Miglin, poderia também ser um indicativo. 

Entretanto, talvez o mais interessante a se citar são algumas considerações a respeito do comportamento suicida e a sua relação com a psicopatia. As definições clássicas retratam o psicopata como um sujeito que não se espera uma conduta autolesiva, como o suicídio. Embora a escassez emocional característica do psicopata pareça imunizá-lo do suicídio, existem, na literatura empírica, dados que correlacionam traços de desinibição e impulsividade com comportamento autolesivo.

Em regra geral, quando pensamos sobre o suicídio, deparamo-nos com o desespero em acabar com o sofrimento, o suicida não quer efetivamente morrer, porém, esta é a única forma de livrar-se da sua insuportável dor. Quando se trata do suicídio de um psicopata, claramente a motivação não é a mesma, ele somente o fará em última instancia, como no caso Cunanan, antes de ser capturado, como uma forma de manter o controle da situação até o final. Sobre essa questão, leia o post O suicídio entre os serial killers.

O legado que Andrew Cunanan deixou é sangrento e amargo e nos diz que pesadelos vivem entre nós, esperando sorrateiramente que a porta que divide o mundo dos sonhos e o nosso mundo real fique entreaberta para escapar. Uma das melhores descrições de Andrew Cunanan vem da jornalista Maureen Orth.

“Em um esforço para evitar a humilhação de sua própria e fracassada vida, Andrew Cunanan, que desperdiçou seus dons e viveu resolutamente na superfície, revidou. Alimentado por drogas e cheio de raiva, sua ruína não mitigada também o levou a destruir os outros, incluindo a única pessoa ele provavelmente amava. Com exceção de William Reese, cada uma das vítimas de Andrew Cunanan – Jeff Trail, David Madson, Lee Miglin e Gianni Versace – era como um pedaço de si mesmo. No final, Andrew Cunanan foi um triste testemunho da aspiração vulgar e não realizada. O menininho que queria uma casa grande com vista para o mar morreu caçado na água com uma arma como seu último companheiro.”

[Maureen Orth, finalizando o excelente Vulgar Favors, página 523]

Ressaca


Os pais de Andrew Cunanan nunca aceitaram as conclusões da polícia sobre o filho. Até os últimos dias de sua vida, Mary Anne culpou uma conspiração da máfia pelas mortes. Seu filho Andrew até poderia estar envolvido, mas teria sido usado por bandidos da pesada. Já seu pai Modesto, na época, foi encontrado nas Filipinas pela mídia como atesta este vídeo da Associated Press. Ele também nunca acreditou que seu filho fosse o que todos diziam: homossexual e assassino. Em 1999, ele voou para os Estados Unidos, deu uma entrevista para a CNN e se juntou a um cineasta para rodar um documentário que contaria “a verdade” sobre o caso, mas o documentário nunca chegou a ser produzido e o paradeiro de Modesto Cunanan hoje é desconhecido. Mary Anne faleceu em 2012. Mãe e filho estão sepultados lado a lado no cemitério Holy Cross, em San Diego. Com exceção de uma entrevista para a ABC News em 1997, os irmãos de Cunanan nunca quiseram falar publicamente sobre o caso.

No início deste ano (2018), a antológica série da FX American Crime Story levou ao ar uma temporada com 9 episódios intitulada “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story“. A temporada segue a onda assassina de Cunanan. A série foi uma das grandes vencedores do Emmy 2018, levando três estatuetas, incluindo a de “Melhor Série Limitada”. Imperdível!

Após a morte do irmão, Donatella Versace assumiu o posto de estilista chefe da Gianni Versace S.p.A., e Santo Versace o CEO. Em testamento, Gianni Versace deixou 50% de todo o seu império para a sobrinha Allegra que, em 2004, ao completar 18 anos, assumiu o controle da empresa. A companhia tem um valor de mercado atual de mais de três bilhões de reais e possui mais de 1500 funcionários pelo mundo.

Informações:


Andrew-CunananNome: Andrew Phillip Cunanan

Nascimento: 31 de agosto de 1969 | National City, Califórnia, EUA

Morte: 23 de julho de 1997 [27 anos] | Miami Beach, Flórida, EUA

Causa da morte: Suicídio por arma de fogo [tiro na boca]

Acusação: Assassinatos em série

Vítimas: 5 confirmadas

Características: Infância comum, sem nenhum tipo de abuso [era o filho preferido de seu pai]; estudou nos melhores colégios; homossexual; QI alto; mentiroso patológico; tinha delírios de grandeza; mudava de aparência de acordo com seu estado emocional e a situação; promíscuo com interesse em sexo selvagem e sadomasoquista; viciado em drogas; invejoso, possessivo e vingativo;

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

Fontes consultadas: [1] Vulgar Favors- Andrew Cunanan, Gianni Versace, and the Largest Failed Manhunt in U.S. History, Maureen Orth. 13 de junho de 2000. Edição do Kindle; [2] Death at Every Stop: The True Story of Alleged Gay Serial Killer Andrew Cunanan the Man Accused of Murdering Designer Versace – Wensley Clarkson. 1 de setembro de 1997. Edição do Kindle;  [3] The Anatomy of Motive – John Douglas e Mark Olshaker, 2000; [4] Versace’s Killer Targeted Lisa Kudrow! Inside His Sick Obsession With The Actress – Radar Online; [5] ‘No guy is as cute as my Tom’: Versace’s serial killer was ‘obsessed’ with Tom Cruise – Express; [6] Serial Killers Part 6: Andrew Cunanan Murders a Fashion Icon – FBI.gov; [7] Arquivos de Andrew Cunanan no FBI Vault; [8] The Mysterious Death Of Lee MiglinChicago Tribune. 6/5/1997; [9] Where Is Marilyn Miglin In 2018? ‘The Assassination Of Gianni Versace’ Shows A Dark Moment In The Businesswoman’s Life – Bustle; [10] Marilyn Miglin’s Wiki: The Entrepreneur Who Survived a Tragedy & Became a Model Citizen – Earn The Necklace; [11] Phantom Was Everyone and Nowhere – The Washington Post. 24 de julho de 1997; [12] Inside the mind of the serial killer who murdered Gianni Versace – ABC News. 7 de julho de 2017; [13] 20 years later: Cunanan, Versace and celebrity culture – San Diego Union Tribune. 24 de julho de 2017; [14] Charge: Sicklerville man sought sex with 13-year-old – Courier Post. 11 de dezembro de 2017; [15] Letters to Troy – NBC News. 28 de abril de 2017; [16] Who was Gianni Versace’s killer, Andrew Cunanan, Part I e II – ABC News, disponível no YouTube;

Com colaboração de:


Sheeza

Rochele Kothe
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