Damas Assassinas: Darya Saltykova, a Atormentadora

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Damas Assassinas - Darya Saltykova - Capa
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O texto abaixo foi retirado do livro Lady Killers – Assassinas em Série, lançamento da linha Crime Scene da editora DarkSide Books.

O livro foi traduzido pelo editor do blog Daniel Cruz e pelo colaborador Marcus Santana. Além da tradução, escrevemos o prefácio e um anexo especial com 14 mini-histórias de assassinas em série.

Nos próximos dias, aproveitando o lançamento do livro, o blog O Aprendiz Verde publicará uma série de posts sobre Damas Assassinas – histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram da fama, não se tornaram assuntos de livros, muito menos filmes, e seus crimes ficaram perdidos no tempo. 

Lady Killers – Assassinas em Série está em pré-venda no site da DarkSide.

Lady Killers - DarkSide

Lady Killers – Assassinas em Série


Capítulo 7 – A Atormentadora

Darya Nikolayevna Saltykova gostava do ritual da igreja: a liturgia, o dízimo, as peregrinações regulares. Ela era, de certo modo, uma criatura de hábitos. Previsível. Tique-taque na vida, como um relógio. Uma vez por ano, por exemplo, ela saía da cidade para visitar os relicários sagrados e as catedrais da Igreja Ortodoxa Russa. Em casa, ela mantinha uma prática de tortura quase meditativa, batendo em seus criados por horas e matando os que mais a incomodavam. Até mesmo sua tortura era previsível: ela espancava aqueles que falhavam em limpar apropriadamente a casa. Tique. Taque.

Alguns podem olhar para o comportamento dela e ver o pior tipo de hipocrisia religiosa: fingir-se que é bom enquanto se adora o mal. Mas Darya não via nada de duplicado em seu comportamento. Ela estava apenas agindo de acordo com algo que internalizava: de que ela era legitimamente melhor do que as outras pessoas e, como tal, poderia agir como quisesse. Por que ela deveria apertar suas mãos ensanguentadas e orar por perdão? Ela era uma das que escolhia perdoar – ou não. Ela se sentia tão intocável quanto um deus.

A Jovem Viúva


O mundo de Darya era privilegiado. Ela era uma rica nobre russa, ela era parente de estadistas e príncipes, ela tinha um exército de criados à sua disposição e a lei estava firmemente ao seu lado. Ela poderia esperar ser tratada com dignidade e receber o benefício da dúvida, não importando o que ela fizesse – mesmo que a lei não apoiasse tecnicamente todas as suas ações, seus colegas nobres russos certamente o fariam. Esses aristocratas não gostavam de estabelecer precedentes – como, por exemplo, o arriscado precedente de responsabilizar nobres. Não. Eles gostavam da vida como era: segura para eles e perigosa para todos os outros.

Darya nasceu em março de 1730, a terceira de cinco filhas. Ela se casou bem: seu marido, Gleb Alexandrovich Saltykov, era o capitão do Regimento de Cavalaria da Guarda Imperial Russa. A família Saltykov era famosa e bem relacionada, ligada a um verdadeiro quem é quem de outras famílias nobres: Stroganovs, Tolstoys, Tatishchevs, Shakhovskies, Musin-Pushkins, Golitsyns e Naryshkins. Ao se misturar com futuros estadistas e netos de antigos czaristas, certamente o casamento trouxe consigo uma quantidade considerável de pressão social e até de estresse para Darya. E Darya não era uma mulher educada. Ela nunca aprendeu a ler.

Darya e Saltykov tiveram dois filhos – Theodore e Nicholas – mas o casamento não durou muito, pois Saltykov morreu em 1756. Darya subitamente ficou viúva aos vinte e cinco anos. Podemos imaginar o que ela sentiu, em algum nível, sobrecarregada e abandonada. Ela tinha seus jovens filhos para criar e, de repente, ela estava no comando de duas propriedades muito importantes e grandes. Seu marido morto possuía uma mansão em Moscou na rua Kuznetskaya e uma propriedade de verão na aldeia de Troitskoye. Imediatamente, inesperadamente, ambas eram de Darya.

Quando ela não estava administrando suas novas propriedades, Darya estava fazendo sua peregrinação anual a um ou outro santuário ortodoxo. Ela gostava da cidade de Kiev, famosa por sua arquitetura religiosa, e às vezes ela viajava para ver o adorado ícone Nossa Senhora de Kazan, uma das relíquias mais sagradas de todo o país. O retrato dourado mostrava um close pensativo da Virgem Maria com o pequeno Cristo em pé, solenemente em sua aba.

Talvez Darya apreciasse o olhar sério, quase agourento em seus olhos. Talvez ela gostasse do pensamento de um Cristo que nunca sorria. No mínimo, ela provavelmente adorava estar longe de casa, porque assim que voltava, suas responsabilidades se aproximavam dela. Ambas as propriedades em Moscou e Troitskoye vieram com almas. Centenas de almas. E Darya possuía todas elas.

Almas


Darya viveu durante uma época em que a riqueza e influência de um nobre não era eram medidas pela quantidade de terra que ele tinha ou quanto dinheiro possuía, mas quantos servos trabalhavam para ele. Servos eram camponeses russos que viviam e trabalhavam nas terras dos seus proprietários. Eles deviam ao dono das terras trabalho, dinheiro ou uma combinação de ambos, mas eles não eram tecnicamente escravos porque eles, hipoteticamente, podiam economizar para comprar sua liberdade. Você sabe, a maneira como Sísifo poderia, hipoteticamente, montar algum tipo de estrutura para impedir que sua pedra rolasse de volta por toda a eternidade. Criados-servos existiram na Rússia por séculos, mas em meados do século XVIII, a Rússia se aproximava do que se poderia chamar de alta servidão. A posse do servo se transformou em uma forma de consumo conspícuo, e estava totalmente fora de controle. Por exemplo, durante o reinado de Catarina, a Grande, os nobres mais ricos se orgulhavam de suas orquestras de servos e balés de servos.

Mas esta foi uma época constrangedora para a Rússia por conspicuamente consumir milhões de camponeses. Catarina, a Grande, estava prestes a assumir o trono e ela queria mostrar ao mundo que a Rússia era um país iluminado e que ela era uma governante humana e moderna. E ainda assim – os servos! De alguma forma, a questão dos direitos dos servos nunca chegou até os olhos de Catarina em prol de um novo e brilhante país ocidentalizado. Mesmo nos círculos mais liberais, a visão dos servos trabalhando nos jardins e arando os campos era um constante lembrete visual de que nunca foi possível deixar a crueldade humana inteiramente para trás, não importa o quão moderno o mundo tivesse se tornado.

Esses servos eram referidos como “almas” e o poder de um nobre sobre suas almas era praticamente ilimitado. Alguns anos antes do nascimento de Darya, um decreto imperial estabeleceu que os nobres não tinham a obrigação de tratar suas almas como seres humanos, e que “os proprietários nem mesmo devem vender seus camponeses e criados domésticos em famílias, mas um a um, como gado.”

O tempo todo, nobres puniam fisicamente seus servos, muitas vezes usando um chicote russo de couro chamado knout. Isto era considerado mais do que aceitável, embora não fosse permitido aos nobres matar seus servos. Catarina, a Grande, revelou em suas memórias que muitas famílias em Moscou mantinham uma seleção de “colares de ferro, correntes e outros instrumentos de tortura para aqueles que cometem a menor infração.” Ela ficou encabulada com um caso particularmente bizarro: uma nobre idosa mantinha seu cabeleireiro preso em uma jaula no seu quarto, isso porque a nobre mulher não queria que a sociedade soubesse que ela usava cabelos falsos – e o servo era o único que poderia expô-la.

Para piorar, os servos não tinham como se defender sob a lei. As autoridades, sempre paranoicas de uma insurreição assassina, estavam convencidas de que a proteção legal para os servos traria sentimentos de segurança, e sentimentos de segurança levariam à insubordinação. Assim, não só seus senhores poderiam enviá-los para a Sibéria sem um julgamento, como também forçá-los a trabalhar em minas para o resto de suas vidas, e se qualquer servo reclamasse sobre isso para as autoridades, isso por si só era motivo para punição. Mesmo Catarina, a Grande, que se orgulhava de sua humanidade, publicou um decreto imperial dizendo que se qualquer servo tentasse apresentar uma petição contra seu senhor, ele seria chicoteado e transportado para as minas de Nerchinsk para o resto da vida.

Portanto, sendo um servo, sua qualidade de vida dependia quase que inteiramente dos caprichos do seu senhor ou senhora em toda sua estranha, desconfiada e mimada glória. É verdade, houve vários senhores benevolentes na Rússia durante aquele tempo, e seus servos desfrutavam de paz, prosperidade, apoio e copioso tempo livre no qual podia-se cultivar a própria terra. Mas Darya não era um deles. Havia sangue nas paredes e escadas de suas propriedades.

“Eu Sou a Minha Própria Patroa”


Darya era obcecada com a limpeza e gostava do chão do jeito que gostava dos seus ícones ortodoxos: imaculado. Ela também era temperamental, e o resultado dessa combinação era más notícias para as mulheres criadas que limpavam a casa. A visão de um chão inapropriadamente limpado ou um lote de roupa suja faria Darya voar em uma raiva perversa. Ela pegaria o pau, rolo de massa ou chicote mais próximo e começaria a bater em qualquer garota que tremesse e fosse a responsável pelo trabalho mal feito.

Por todo o país, nobres chicoteavam seus servos por infrações semelhantes – mas Darya não sabia quando parar. Não demorou muito para que seus vizinhos em Moscou começassem a escutar rumores horríveis sobre os servos de Saltykova: Darya trancava suas criadas em uma cabana vazia e deixava-as dias sem comida; as garotas de Darya tinham manchas de sangue em suas roupas. Os aldeões de Troitskoye também começaram a sussurrar. Alguma coisa estava errada na casa de verão de Darya, disseram eles. Uma vez, eles escutaram que uma carroça que saía da propriedade estava carregando o corpo de uma criada. Quando eles espiaram por dentro, viram que a pele da garota estava esfolada, seu cabelo havia sido arrancado.

Darya Saltykova espancando um de seus servos. Ilustração de P.B. Kurdyumova, retirado do livro "A Grande Reforma" (1910).

Darya Saltykova espancando um de seus servos. Ilustração de P.B. Kurdyumova, retirado do livro “A Grande Reforma” (1910).

Os espancamentos fatais, ou pelo menos a maior parte deles, começaram em 1756, o mesmo ano em que Darya ficou viúva. A primeira queixa oficial contra Darya foi registrada em 1757, e dizia respeito ao assassinato de uma mulher grávida chamada Anisya Grigorieva. Na realidade, foi um duplo assassinato: primeiramente, Darya bateu em Grigorieva com um rolo de massa até Grigorieva sofrer um aborto espontâneo. Então, a religiosa Darya chamou um padre próximo para que desse à mulher moribunda seus últimos ritos, mas Grigorieva morreu antes do padre aparecer. Uma vez que o padre apareceu, ele ficou horrorizado ao olhar o corpo e se recusou a enterrá-lo sem uma inspeção policial.

A polícia chegou, levou o cadáver para o hospital para uma autópsia, e – não fez nada a respeito. A mulher morta tinha um profundo ferimento em seu coração, e toda a extensão das suas costas estava azul e inchada. Claramente, ela não havia morrido de causas naturais. Mas o que eles fariam, prender uma nobre? Que coisa absurda!

Quando o frenético marido de Grigorieva foi adiante e apresentou uma queixa à polícia, Darya descobriu imediatamente. Ela registrou uma contra-acusação pedindo à polícia que não aceitasse o testemunho do marido, ao invés disso, que deviam puni-lo e enviá-lo de volta a ela. Talvez o dinheiro trocou de mãos nesse momento. De qualquer forma, a polícia escutou Darya e não fez nada sobre a queixa do marido. Quando eles devolveram ele para ela, Darya o mandou para o exílio, onde ele logo morreu.

Este poderia ter sido o momento em que Darya pudesse ser levada à justiça. Ela acabara de matar uma mulher grávida, e havia várias testemunhas do crime e das consequências: o marido, um servo que foi obrigado a bater em Grigorieva, outro servo que enterrou o bebê, o padre, a polícia, e o(s) médico(s) que realizaram a autópsia. Se esta queixa tivesse sido devidamente investigada, dezenas – ou possivelmente centenas – de vidas teriam sido salvas. Mas ninguém se incomodou. Afinal, estes eram servos. Nobres já os vendiam “como gado.”

Então Darya matou e matou de novo, confiante em sua inexauribilidade, furiosa com seus servos por cada erro mesquinho, por estarem em seu caminho, por serem sua responsabilidade, por existirem. Se ela fosse um deus, então seus servos eram seus deploráveis brinquedinhos. Ela poderia fazê-los limpar; ela podia fazê-los cozinhar; ela podia fazê-los gritar e sangrar e implorar. Tipicamente, ela forçaria outro servo a começar o espancamento e, então, ela assumiria até que a vítima morresse. Às vezes ela comandava seus servos do sexo masculino a espancar suas esposas ou parentes na frente dela. Em Troitskoye, ela jogou água fervente em uma garota camponesa e depois a espancou até a morte. Os aldeões se lembravam de ver o corpo: a pele escaldada tinha começado a descamar até os ossos.

Darya matava, principalmente, mulheres, mas ocasionalmente ela se virava a um homem. Um dos seus servos homens, Chrisanthos Andreev, estava encarregado de supervisionar desafortunadas criadas domésticas, e quando Darya se convenceu de que ele estava fazendo o seu trabalho de forma inadequada, ela o espancou e o empurrou para fora das paredes para ficar no frio durante toda uma noite. Na manhã seguinte, Andreev foi trazido de volta, quase congelado, e Darya prendeu um par de pinças em brasas nas orelhas. Então, ela começou a derramar água fervente sobre o seu corpo e, quando ele caiu no chão, ela o chutou e o socou. Quando ela finalmente se satisfez, ela pediu a outro servo homem para arrastar a vítima ensanguentada para longe dela. Tão logo o pobre camponês ficou longe das vistas de Darya, ele morreu.

Continuou e continuou, uma litania de horrores. Darya botou fogo no cabelo de uma mulher e empurrou uma menina de onze anos em uma escada de pedra. Ela alimentava seus servos uma vez por dia, então eles ficavam perpetuamente fracos. Ela pegava troncos de madeira – escondidas em todos os cômodos, destinados para as lareiras – e as usava como porretes improvisados. Os vizinhos a ouviam gritando, “Bata mais!” Quando um dos seus servos homens se atreveu a insultá-la, Darya agarrou seu cabelo e começou a esmagar sua cabeça contra uma parede próxima.

Embora seus cocheiros e criadas escapassem repetidamente e denunciassem assassinatos às autoridades locais, eles eram capturados e levados de volta para Darya, onde eram espancados e algemados, ou até mesmo enviados para o exílio. “Você não vai fazer nada para mim!” Zombou Darya a um cocheiro que tentou denunciá-la. “Não importe o quanto você denuncie ou reclame de mim, as autoridades não farão nada a mim. Eles não me trocarão por você.

Seu destemor não era bravata irracional. Como a morte de Grigorieva provou, o sistema apoiava Darya e, a essa altura, Darya vinha falsificando provas e subornando há anos figuras importantes. Se os padres se recusassem a enterrar uma de suas vítimas, então o superintendente dela, Martian, arquivaria uma documentação falsa sobre a morte, dizendo que a garota morreu repentinamente de doença, não tendo a chance de fazer uma confissão, ou o padre chegou atrasado, ou a garota estava tão doente que não podia falar, tornando uma confissão final impossível. Às vezes, os jornais afirmavam que a vítima fugira, quando, na verdade, ela foi enterrada ali mesmo no cemitério. O jornal que descreveu a morte da menina de onze anos que Darya empurrou escadaria abaixo disse que a menina tinha simplesmente…tropeçado.

Se as queixas chegassem às autoridades, Darya os subornaria. Ela matinha um livro caixa dos presentes que enviava a esses homens poderosos: comida, dinheiro, até mesmo servos. De fato, uma autoridade foi tão complacente que visitava Darya e a ensinava a como lidar com as denúncias que surgiam contra ela. “Se Saltykova não tivesse sido protegida e ajudada por seus protetores, teria havido menos espancamentos e mortes,” disse um de seus cocheiros, que testemunhou as atrocidades acontecendo, sem controle, por anos. Em um ponto, enquanto assistia outra garota sendo espancada até a morte, Darya começou a gritar. “Eu sou a minha própria patroa,” ela esgoelou. “Eu não tenho medo de ninguém.” Essa crença de que ela era superior, inatacável, e até mesmo consagrada pela lei, era parte integrante de seu senso de identidade. Talvez ela tenha matado para provar um simples ponto: que ela podia.

Amor & Pólvora


Hoje, nos cantos escuros da Internet, você pode encontrar pessoas tentando fixar os muitos crimes de Darya em algo meio melodramático, palatável e fácil de entender: um coração partido.

Depois da morte do marido, Darya enamorou-se pelo seu bonito e jovem vizinho Capitão Nikolai Andreyevich Tyutchev, cuja propriedade de Troitskoye encostava na dela. Todos os servos deles sabiam que eles estavam tendo um caso. Mas o amor não durou muito e o casal se separou pouco antes da Quaresma de 1762, quando Darya estava prestes a completar trinta e dois anos.

O capitão não ficou sozinho por muito tempo e Darya ficou muito ofendida com este fato. Ela descobriu que a nova mulher dele não era apenas mais nova do que ela, mas que o capitão estava planejando casar-se com essa bela novata. Darya não aguentou. Ela andou de um lado para o outro, determinada a decretar algum tipo horrível de vingança contra os dois e, finalmente, chegou a um plano demente: ela simplesmente ia explodir os dois.

Cega por vingança, Darya enviou um de seus homens para comprar dois quilos de pólvora, então ela misturou a pólvora com enxofre e embrulhou em tecido de cânhamo. Ela ordenou que seu servo escondesse a mistura inflamável ao redor da casa da nova mulher e esperasse a chegada do capitão. Uma vez que os amantes estivessem no interior da casa, o servo foi instruído a incendiar a casa, explodindo-os em flagrante delito.

Este esquema era muito louco, até mesmo para os mais brutos servos de Darya. O primeiro servo que ela enviou simplesmente se recusou a queimar a casa, então Darya o espancou quando ele voltou. Então, ela o enviou de volta, junto com outro servo, mas eles alegaram que suas tentativas de iniciar o fogo falharam. Frustrada, Darya mudou sua abordagem. Se explodir não estava funcionando, talvez agressão física fosse o caminho. Ela liderou uma nova equipe de servos para esperarem na beira da estrada até que o casal passasse em sua carruagem e, em seguida, saltassem e os espancassem até a morte.

Neste ponto, os servos decidiram que a única maneira de cair fora dessa perturbada fantasia vingativa era secretamente informar o capitão de que Darya estava tramando contra ele. Então eles o fizeram, e o capitão imediatamente se dirigiu à polícia e fez uma queixa contra sua ex.

Darya se manteve serena quando a polícia a questionou sobre isso. “Eu não mandei os camponeses Roman Ivanov e Leontiev atearem fogo na casa da Sra. Panyutina, nem ordenei a outros espancá-los,” respondeu ela friamente. Ela alegou que durante o tempo das supostas tentativas de assassinato, ela estava doente, trancada em sua propriedade em Moscou com um padre. Em outras palavras, ela era uma boa mulher religiosa que nunca sequer sonharia em se vingar de uma única alma, não importando o quão horrivelmente ela a traísse.

Claramente, Darya estava um pouco chateada com o capitão. Mas esse coração partido não era de forma alguma a ferida que a transformou em uma assassina em série depravada. Ela vinha assassinando servos muito antes de que isso acontecesse. O evento simplesmente serve como um gancho para pendurar o chapéu da nossa especulação: que para Darya ser capaz de cometer tais atrocidades, ela deveria ter ficado meio louca por alguma outra coisa.

“Loucura,” na verdade, é uma explicação comum para os crimes de Darya. Quando o povo de Moscou descobriu sobre eles, eles pensaram que ela era louca, e as pessoas de hoje ainda perguntam a mesma coisa. (Certamente todos os assassinos em série da história foram considerados loucos em um ponto ou outro. De que outra forma explicar a violência repetitiva, horrível e praticada?) Mas, em vez de louca, Darya horrivelmente ressoa lógica. O drama com o capitão demonstra sua terrível habilidade de planejar e delinear e racionalizar: ela comprou os materiais corretos, revisou seu plano quando necessário e suavemente negou sua culpa. Até mesmo a lógica por trás dos seus assassinatos-de-servos era bastante consistente. Se um servo não limpasse adequadamente, ele merecia morrer. Os servos eram propriedade dela, e ela podia fazer avaliações de desempenho. Tudo era perfeitamente razoável para Darya.

De qualquer forma, a loucura e a lógica sempre foram primos. O escritor G.K. Chesterton uma vez falou sobre a “teoria exaustiva e lógica do lunático,” dizendo que o louco “não é prejudicado por um senso de humor ou por caridade.” Darya certamente não foi prejudicada pela caridade ou por qualquer coisa. Se ela ocasionalmente queria explodir um ex-namorado, ela não queria saber se ela estava sendo “louca.” Ela simplesmente queria saber se os corpos nus do seu ex-amante e de sua rival estavam assando como porcos em um espeto. Se ela dissesse aos servos para fazerem alguma coisa, ela queria que o ato fosse feito, sem perguntas. Deus no céu! Ninguém estava ouvindo ela?

A Fuga dos Maridos


Ninguém sabia melhor sobre o reinado de terror de Darya do que Yermolai Ilyin, o homem que cuidava dos seus cavalos. Ilyn foi casado três vezes, com três mulheres trabalhadoras, e cada uma delas teve o terrível infortúnio de ser “empregada” de Darya. Elas tinham bonitos nomes: Katerina, Theodosia, Aksinya. E Darya massacrou todas elas.

Darya sabia que Ilyin a odiava pelo que havia feito com suas esposas, mas advertiu-o que se ele tentasse denunciá-la, ela o chicotearia até a morte. Ilyin conhecia-a bem o suficiente para saber que ela não fazia falsas ameaças – mas há tantas crueldades que a psique humana pode suportar. Finalmente, desesperado e imprudente, Olyin decidiu se lançar na misericórdia de um sistema que não se importava se ele ia viver ou morrer.

Em abril de 1762, Ilyin e seu amigo servo Savely Martynov apareceram na cidade de São Petersburgo, prontos para denunciar Darya. Eles levavam uma carta contendo uma acusação quase que inconcebível: que nos últimos seis anos, Darya havia matado mais de uma centena de pessoas. Os dois estavam convencidos de que se apenas conseguissem entregar a carta nas mãos da recém empossada imperatriz, Catarina, a Grande, ela faria algo a respeito.

Era uma missão suicida – mas funcionou. A história deles soou escandalosa o bastante para chamar a atenção das autoridades de São Petersburgo, que a encaminhou ao Conselho de Justiça junto com uma nota pedindo ao conselho que começasse uma investigação sobre a vida de Darya Nikolayevna Saltykova – a mulher nobre, a mãe, a viúva de um homem bom, a respeitável frequentadora da igreja.

“Eu Não Sei de Nada; Eu não Fiz Nada”


Se Darya explodia em raiva devido aos seus ex-amantes e chãos impuros, nós só podemos imaginar sua ira quando descobriu que dois de seus servos haviam conseguido fazer com que as autoridades se virassem contra ela. Mas ela não podia fazer cumprir suas ameaças de espancá-los até a morte, porque o grande olho da Imperatriz Catarina estava lentamente se virando contra ela, e a vida como ela conhecia estava prestes a mudar para sempre.

De certa forma, este caso surgiu no momento certo para Catarina, a Grande. Veja, Catarina estava tentando mostrar ao mundo que esta era uma nova era para a Rússia – uma era humana e iluminada, quando ter sangue nobre não era mais uma desculpa para fazer o que desse na telha – e então ela precisava dar o exemplo de alguém. Porque perante a lei, todos eram iguais!

Bem, mais ou menos. A verdade era que Catarina também estava sob muita pressão para lidar diplomaticamente com o caso. Como Darya pertencia a uma família de prestígio, outros aristocratas estavam particularmente interessados nesta, ham ham, situação infeliz. Eles queriam ter certeza de que Catarina não estabelecesse quaisquer precedentes que pudessem se voltar contra eles. (Certamente eles, também, tinham sangue em suas mãos: servos cujos espancamentos haviam indo longe demais, histórias de subornos e enterros apressados.) Ainda assim, as acusações contra Darya eram muito sérias para Catarina varrer pra debaixo do tapete com uma piscadela pelas famílias mais nobres de Moscou. Até agora, o número de mortes atribuídas a Darya havia disparado para 138. Goste ou não, o Conselho de Justiça estava lidando com um dos piores assassinos em série da história, homem ou mulher.

Devido ao interesse pessoal de Catarina no caso, a investigação contra Darya foi incrivelmente metódica. Este não foi o julgamento semi-obscuro de Báthory: os investigadores conversaram com centenas de testemunhas, tanto em Moscou quanto em Troitskoye, cuidadosamente confirmando e reconfirmando cada alegação contra a nobre mulher. Essas testemunhas eram tão bem informadas e precisas em suas confissões quanto um investigador poderia desejar. Elas se lembravam dos nomes dos camponeses mortos e as datas em que cada um deles morreu; elas corroboraram cada história um do outro. Se a menor sobra de dúvida fosse lançada sobre qualquer testemunha – depoimentos contraditórios, suspeitas sobre a veracidade da testemunha ou fatos que não podiam ser provados – o Conselho de Justiça interpretava esse caso em particular a favor de Darya. Eles também descartaram múltiplos casos por falta de provas. A posição de Darya sobre as 138 mortes foi curta e doce: “Eu não sei de nada; Eu não fiz nada,” disse ela, repetidamente.

Apesar de tudo isso, o Conselho ainda a considerou culpada de trinta e oito assassinatos, e suspeita no assassinato de outras vinte e seis pessoas. Entretanto, o fato de que Darya se recusou a confessar, causou grande ansiedade em Catarina, e sua preocupação é demonstrada em um grande número de cartas que escreveu sobre o caso. A princípio, Catarina desaprovou veemente a tortura – escrevendo, a famosa “Todas as punições pelas quais o corpo humano pode ser mutilado são barbarismo,” – mas ela queria que Darya admitisse pelo menos alguma coisa. Em um ponto, ela escreveu ao Conselho:

Explique a Saltykova que os testemunhos e os fatos do caso significam que a tortura oficial terá que ser realizada se, francamente, ela não confessar seu envolvimento nos crimes. Portanto, envie-lhe um sacerdote e faça-o acompanhá-la e exortá-la por um mês. E se ela não se arrepender, então prepare-a para a tortura.”

Catarina realmente não pretendia que Darya fosse torturada, mas ela esperava que a ideia de tortura fosse assustá-la ao ponto em que reconhecesse os seus crimes. “Mostre a ela a câmara de tortura,” Catarina escreveu, “para que ela saiba o que a espera. Dê a ela uma última chance de admissão e arrependimento.” Ao mesmo tempo, Catarina estava ansiosamente relembrando as autoridades que não importava o que acontecesse, Darya não deveria ser prejudicada. Estabelecer um precedente de tortura ou executar membros da aristocracia era profundamente impopular e muito arriscado. “Observe cuidadosamente que é desnecessário haver derramamento de sangue,” escreveu ela, “e todos os envolvidos nestes crimes serão devidamente questionados, e todos os fatos serão coletados e registrados. Depois disso, dê tudo para mim.”

Darya nunca confessou nada.

Ilustração da tortura de Darya Saltykova. Foto: Russian Times.

Ilustração da tortura de Darya Saltykova. Foto: Russian Times.

“Uma Alma Completamente Sem Deus”


Aqui está o decreto que damos ao nosso Senado,” proferiu o veredito imperial de Catarina em 2 de outubro de 1768.

Tendo considerado o relatório que nos foi fornecido pelo Senado sobre os crimes cometidos pela desumana viúva Darya, a filha de Nicholas, nós concluímos que ela não merece ser chamada de ser humano, já que ela é realmente pior do que as mais famosas assassinas, extremamente insensível e cruel, incapaz de refrear sua raiva.”

O decreto expunha sua punição: Primeiro, Darya seria levada a um andaime na praça central de Moscou, onde ela iria ouvir a sentença do Conselho de Justiça, que deveria ser lida sem mencionar qualquer nome da família de Darya ou nome do seu marido – apagando sua identidade como um ser humano social, efetivamente quebrando todos os laços familiares que ela tinha com o mundo. Então, ela seria trancada debaixo da terra pelo resto de sua vida.

Durante os anos da investigação, Darya se tornou infame. Agora havia rumores loucos circulando por Moscou de que ela era uma canibal, e as pessoas estavam morrendo de vontade de ver pessoalmente essa notória assassina. Catarina encorajou o espetáculo enviando convites para todas as casas nobres, exigindo que todos fossem assistir ao castigo de Darya. Essa também foi uma ameaça velada: ela estava alertando os nobres que seus abusos de poder tinham consequências reais. Afinal de contas, havia um Iluminismo chegando. Eles não poderiam mais escapar de qualquer coisa.

Dezoito de outubro foi um domingo, e a primeira neve da estação caiu em Moscou, mas isso não impediu a multidão de pessoas de ir até a Praça Vermelha para boquiabertas olharem a “viúva desumana.” Ao meio-dia, Darya foi levada para fora e amarrada a um mastro. Uma placa estava pendurada em seu pescoço: O ATORMENTADOR E O ASSASSINO. Um guarda permaneceu ao lado dela enquanto sua sentença era lida em voz alta. Um espectador fascinado teria reportado que os olhos de Darya “não eram deste mundo.” Após uma hora, ela foi levada algemada.

A punição de Darya não foi sangrenta, mas foi longa e terrivelmente isolada. Ela foi colocada em uma cela subterrânea de prisão chamada câmara de arrependimento, acessada apenas por uma freira e um guarda zelador. Nem um único feixe de luz era permitido para dentro, exceto por uma vela durante as refeições. Ela sentou-se assim, em total escuridão, por onze anos. Além de comer e beber, ela tinha apenas uma atividade: todo domingo, era permitido a ela sentar sob um túnel de ventilação que levava a uma igreja local, assim ela podia escutar a liturgia.

O que Darya pensava, domingo após domingo, quando ela ouvia o padre rezar, “Oh Deus sagrado, que do nada trouxe todas as coisas à existência, que criou o homem à Tua própria imagem e semelhança, e o adornou com cada dom Teu?” Darya sentia alguma coisa pelos corpos que havia destruído, criados nesta “imagem e semelhança?” Quando a liturgia tocava no pecado e no mal e na necessidade de santificação, ela pensava sobre si mesma? Ou ela simplesmente sentou lá na escuridão, sob o túnel de ventilação, com a mente distante e as pupilas sobrenaturais dilatadas pela falta de luz?

Horrível Darya. Ela interiorizou as condições da servidão tão profundamente que talvez ela realmente acreditasse que era virtuosa aos olhos de Deus por dispor dessas almas monstruosas, indignas, subumanas. Todo o seu mundo disse a ela que ela era superior: ela observava as orquestras de servos, suspirou sob os balés de servos; ela viu que os servos eram punidos até mesmo por tentar criticar seus senhores. Mesmo em sua amada igreja, ela provavelmente nunca foi ensinada que a servidão era errada. Um guia pastoral publicado em 1776 “virtualmente ignorou a existência da servidão.” O historiador Richard Pipes soletrou ainda mais vigorosamente ao falar da igreja russa: “Nenhum ramo do cristianismo mostrou uma indiferença tão insensível à injustiça social e política.” O silêncio dos padres teria dito tudo: esses servos não são nada para nós. Nada para Deus. Nada.

E assim Darya simplesmente carregou essa mentalidade ao extremo lógico: se os servos não eram nada, e eles eram formas de vida menores do que ela, se ela era a valiosa – sustentada pela lei, mimada pela igreja – então ela poderia fazer o que quisesse com eles. Ela se sentiu no direito ao trabalho deles, ao sangue deles e, talvez, até mesmo no direito sobre as suas próprias almas.

Mas ela não matou todos eles, é claro. Ela não era realmente um deus.

E assim, enquanto ela se perdia no subsolo, os camponeses que sobreviveram a ela começaram a chamá-la de Saltychikha – um apelido sem significado real, mas uma pequena rebelião sociolinguística. Os aristocratas nunca se referiam uns aos outros com diminutivos assim, então a própria existência desse apelido indica que foi dado a ela pelos servos. “Saltychikha” sugeria uma mulher simples da aldeia, alguém que era um pouco rude. Darya teria ficado chocada ao ouvir seu nome nobre tão alterado. O fato de o apelido ter permanecido – até mesmo aparecendo um século depois na introdução de Guerra e Paz – foi uma pequena vitória para as almas.

Saltykova torturando sua última vítima. Cartão postal de B.N. Pchelina, 1920.

Saltykova torturando sua última vítima. Cartão postal de B.N. Pchelina, 1920.

Em 1779, Darya foi transferida para uma câmara esculpida em rocha com uma pequena janela gradeada. Há rumores de que ela dormia com um dos guardas e deu à luz a uma criança, mas ela teria quase cinquenta anos naquele ponto. Moscou não tinha se esquecido dela – eles a chamavam de o “monstro da humanidade,” a “alma completamente sem deus” – e crianças curiosas às vezes espreitavam através da janela para ter um vislumbre da abominável Saltychikha. Quando eles o faziam, ela rosnava e cuspia neles – confirmando rumores de sua brutalidade, e convencendo a todos de que ela ainda não havia se arrependido dos seus crimes. Até onde sabemos, ela nunca o fez.

Ela permaneceu presa por um total de trinta e três anos, até sua morte em 27 de novembro de 1801. A conselheira estadual a visitou uma vez em sua velhice – curiosa, talvez, se a nobreza poderia permanecer nobre depois de tantas décadas debaixo da terra. Ela notou que Darya tinha ficado robusta e que “todos os movimentos dela agora revelavam que ela havia enlouquecido.” Depois de anos tropeçando na escuridão, ela não era mais a sua própria patroa.

Darkside-Lady-Killers-CapaTítulo: Lady Killers – Assassinas em Série

Autor: Tori Telfer

Lançamento: 24 de Janeiro de 2019

Especificações: 384 páginas, capa dura

Descrição: Inspirado na coluna homônima da escritora Tori Telfer no site Jezebel.com, Lady Killers: Assassinas em Série é um dossiê de histórias sobre assassinas em série e seus crimes ao longo dos últimos séculos, e o material perfeito para você mergulhar fundo em suas mentes. Com um texto informativo e espirituoso, a autora recapitula a vida de catorze mulheres com apetite para destruição, suas atrocidades e o legado de dor deixado por cada uma delas. Além de Darya Salatykova, Tori Telfer conta as histórias de Erzsébet Báthory, Nannie Doss, Lizzie Halliday, Elizabeth Ridgeway, Raya e Sakina, Mary Ann Cotton, Oum-El-Hassen, Tillie Klimek, Alice Kyteler, Kate Bender, As Criadoras de Anjos de Nagyrév e Marie-Madeleine, a Marquesa de Brinvilliers. O anexo especial do Aprendiz Verde inclui as mini-histórias de Gesina Gottfried, Maria Swanenburg, Hélène Jegado, Marianna Skublinska, Dagmar Overbye, Leonarda Cianciulli, Delfina e Maria de Jesús, Waltraud Wagner, Dorothea Puente, Aileen Wuornos, Heloísa Gonçalves, Juliana Barraza, Irina Gaidamachuk e Tamara Samsonova.

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

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