Serial Killers: As Contemporâneas de Jack – Thekla Popov

Este post é parte da série “As Contemporâneas de Jack”: histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram...

Thekla Popov

Este post é parte da série “As Contemporâneas de Jack”: histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram da fama, não se tornaram assuntos de livros, muito menos filmes; seus crimes ficaram perdidos no tempo e na história, e não fosse o trabalho (tipo old school) de pesquisadores/escritores/jornalistas/entusiastas/etc (como este que aqui escreve), muitos nunca saberiam que um dia elas existiram.

Elas são europeias, elas são assassinas, elas são diabólicas, elas são serial killers. Elas são mulheres!

O assassinato em série nunca foi um fenômeno moderno que pareceu surgir nos anos 1970 com seus representantes máximos vindos dos Estados Unidos: os Bundy’s, Kemper’s, Gacy’s e Berkowitz’s da vida. Serial killers são tão antigos quanto a própria humanidade. É bem verdade que parece haver um ciclo. De tempos em tempos, eles, de repente, surgem. São centenas, milhares deles. E, da mesma forma que surgem, desaparecem nas sombras. Definitivamente hoje não há o número de assassinos em série que experimentamos, por exemplo, nos anos de 1970. Por quê? Não faço a mínima ideia. Claro, podemos especular, mas deixemos isso para outra hora.

Um outro momento em que serial killers infestaram o mundo foi na Europa do final do século 19. E eles não eram homens. Eram mulheres!

O famoso pó branco


No século XIX, uma boa maneira encontrada por mulheres para se livrar de seus maridos era o arsênico. Um médico-legista normalmente não podia dizer com certeza se o veneno estava envolvido em uma morte já que os sintomas – diarreia, vômito, dor abdominal – eram muito parecidos com os de outras doenças. Além disso, ninguém poderia colocar a envenenadora na cena do crime, pois a morte levava horas. Uma envenenadora experiente poderia administrar o veneno gradualmente, pouco a pouco, durante dias ou meses. (Agora sabemos porque Mary Ann Cotton foi tão prolífica!) Essa forma de assassinato era tão eficaz que se tornou o preferido de mulheres. E a coisa ficou tão sem controle que em 1851 autoridades da Inglaterra tentaram aprovar uma lei que proibia mulheres de comprarem arsênico (The Arsenic Act 1851).

Na Inglaterra, durante a maior parte do século, um terço de todos os casos criminais de envenenamento envolveu arsênico, e esse número não variou muito em outros países da Europa. Uma razão para sua popularidade era a sua disponibilidade. Tudo o que você precisava fazer era entrar em uma farmácia e dizer ao farmacêutico que precisava acabar com os ratos da sua casa.

O arsênico é um elemento químico que ocorre naturalmente na terra, e em seu estado bruto não é prejudicial. Por produzir um pigmento verde brilhante, os fabricantes do século XIX o usavam em papéis de parede, pinturas, tecidos e vários outros itens. A substância se torna prejudicial apenas quando é convertido em trióxido de arsênico, popularmente conhecido como “arsênico branco”. Mas, até mesmo, o arsênico branco é benigno em doses baixas. Médicos os prescreviam para asma, tifo, malária, vermes, cólicas menstruais e outros distúrbios. Já assassinas em série empreendedoras como a infame húngara Zsuzsanna Fazekas o prescrevia para outros fins.

Hungria: um ninho de envenenadoras em sériehungria


Tentando dar uma explicação para uma terrível onda de matança perpetuada por uma comunidade de assassinas em série na Hungria do começo do século 20, a escritora Tori Telfer, autora de Lady Killers – Assassinas em Série, disse que:

“Aquela era uma geração de mulheres que jamais recebera nada e não podia esperar nada. Uma geração de mulheres cujos maridos haviam sido levados pela guerra e devolvidos mutilados, desiludidos, violentos, desconfiados e em estado de choque. O veneno não era perfeito, mas pelo menos trazia uma mudança. Algumas daquelas mulheres assassinaram por desespero, como uma cujo marido a espancava com uma corrente. Ela disse ao juiz, desafiadoramente, ‘eu não me sinto nem um pouco culpada; meu marido era um homem muito mau… desde que ele morreu, eu encontrei minha paz’. Algumas mataram para ficar com outros homens, como a mulher que envenenou o marido e casou com o melhor amigo dele. Outras mataram por vingança, como a mulher que envenenou o sogro que a abusava. Outras mais usavam o veneno para adquirir bens materiais, como a mulher que assassinou a mãe para antecipar a herança.”

Na citação acima, Telfer se refere às Criadoras de Anjos de Nagyrév, horda de serial killers mulheres que durante anos mataram (na mais exagerada das estimativas) cerca de 300 pessoas através do uso sistêmico de arsênico. A principal mulher por trás do “sindicato” de envenenadoras, Zsuzsanna Fazekas, certamente foi um produto daqueles tempos difíceis, mas viver em uma época difícil não é a explicação final do porque episódios como este acontecem, até porque, quase 30 anos antes, outra empreendedora da morte chocou os húngaros e o mundo.

Ilustração de Thekla Popov. Por Mikaelly Silva.

Ilustração de Thekla Popov. Por Mikaelly Silva.

Thekla Popov


“É uma personagem muito notável – destinada a ocupar uma posição única e pitoresca nos anais do crime.”

[The Centaur – 2 de setembro de 1882, página 2]

Histórias de empresas familiares que não deram certo estão na ponta da língua de qualquer palestrante de empreendedorismo por aí. De fato, brigas, ciúmes e picuinhas entre parentes encabeçam a lista de empresas familiares que enfrentam problemas e até mesmo fecham as portas. Agora o que pode ser inédito nesse ramo é uma “empresa” comandada por uma assassina em série ter “quebrado” por baixaria familiar. 

Esse “horror húngaro” começou a tomar forma em junho de 1882 na remota vila de Melencze (ou Melenci, atual Sérvia) com a morte de um abastado camponês local chamado Jocza Kukin. Apesar do velho homem já estar na idade de partir dessa para melhor, nem todos na região acreditavam que Kukin havia falecido de causas naturais. E a desconfiança tinha fundamento. Há dois anos que homens (principalmente) morriam sem parar em Melencze. Em uma hora eles estavam esbanjando saúde e na outra apareciam mortos após passar por grande agonia. Já outros, de repente, caíam na cama para nunca mais levantar, levando semanas e até meses para finalmente padecerem.

Em julho de 1882 Kukin se tornou mais um número na estatística. Rumores começaram a atravessar paredes afirmando que o ancião fora vítima de assassinato. As fofocas se tornaram tão fortes que um inquérito foi aberto pelas autoridades locais, mas um exame post-mortem não revelou nada de anormal em seu cadáver. E a vida continuou em Melencze. Por pouco tempo.

A morte de Kukin estava quase sendo varrida totalmente para debaixo do tapete quando uma mulher [vou chamá-la de X] abriu a boca e fez uma revelação chocante: a mulher do morto, Draga Kukin, assassinou o velho envenenando-o. E mais: foi X quem forneceu a garrafa com um líquido vermelho dentro para Draga. E tem mais outra: foi a mãe de X, uma senhora de 70 anos, quem preparou o veneno e mandou a filha entregar à esposa assassina. Esse era o negócio da mãe dela: fornecer veneno para mulheres que desejavam se livrar de maridos ou parentes inconvenientes. A própria mãe de X se livrava de um ou outro de vez em quando.

Essa empreendedora da morte se chamava Thekla Popov, a “Melhor Amiga da Mulher Casada”.

“Na pequena aldeia de Melencze vivia uma certa bruxa velha. Ela figurou como a ‘Melhor amiga da mulher casada’ e justificou o seu título àquelas que desejavam completar o ciclo de donzela e esposa para uma rápida viuvez. Ela inventou seus venenos e conduziu seus negócios com tanta habilidade que por muito tempo nenhuma suspeita recaiu sobre ela…Sua filha, que era sua única confederada, finalmente brigou com ela e expôs suas práticas horríveis. A exumação dos corpos de suas vítimas confirmou a história.”

[A Weekly Journal of Medical Science, 07/10/1882, página 412]

Em todas as (parcas) fontes disponíveis sobre o caso, o nome de X nunca é descrito. Na época, os jornais se referiram a ela como “filha de Thekla Popov”. Pois bem, a filha de Thekla Popov brigou com sua mãe por causa de uma “propriedade” (herança, o de costume), e a discussão foi tão calorosa que a empresária do veneno teria dito à própria filha: “Um dia eu vou envenenar você também, a menos que você mantenha sua língua.” Conhecendo a mãe que tinha, a filha de Thekla Popov deve ter entendido muito bem o recado e decidiu se vingar, traindo a própria mãe.

Em direção ao esquecimento


A declaração de X obviamente levou à prisão de sua mãe e de Draga Kukin. As duas mulheres, no entanto, negaram veementemente as acusações. Mas como numa peça de Shakespeare – onde paredes tem ouvidos e espíritos obscuros te bisbilhotam para denunciá-lo – o juiz do caso, ardilosamente engenhoso (e eticamente errado), espiou pela fechadura e escutou nas sombras uma conversa entre as duas mulheres. Entre outras coisas ele ouviu a viúva do camponês dizer:

“Bem, eu sou jovem e bonita. Ele era velho e feio. Por que ele não deveria morrer?”

Depois de escutar a conversa das madames ele teve poucas dúvidas sobre suas culpas. Estranhas descobertas logo foram feitas, mostrando que Thekla Popov era o centro de um vasto e complexo negócio de assassinatos que envolvia toda a comunidade.

Ela não provocava suspeitas porque as drogas que ela administrava agiam devagar, embora eficazes, e seus efeitos estimulavam os sintomas de [alguma] doença. Mesmo agora que os corpos de algumas de suas vítimas foram exumados, eles não mostram sinais de envenenamento, embora os estômagos estejam comidos…As pessoas dizem que ela tinha seus agentes e emissários, cujo negócio era manter a ‘conexão’, e deve ter sido um espetáculo horrível e macabro para se ver, [ela] sentada em sua poltrona dia a dia recebendo seus clientes em horário comercial e dando-lhes conselhos diabólicos e a ajuda que eles procuravam.

[Alexandria Gazette, Volume 83, Número 212. 08/09/1882]

A clientela de Thekla Popov era composta em sua maioria por mulheres casadas de sua vila e vilas vizinhas. Ansiosas para se livrarem de seus maridos que teimosamente não morriam de causas naturais, essas mulheres tinham no “escritório” de Thekla os recursos necessários para suas vontades. Popov vendia suas garrafas a preços de 50 a 100 florins (moeda da época) e instruía detalhadamente a forma de uso. Não raras vezes aparecia alguma jovem, adolescente, querendo dar uma olhada nos produtos da velha empreendedora. Eram meninas que tinham brigado com os namorados ou que, por inveja, raiva ou ciúmes, decidiam matá-los (ou outras meninas rivais no coração do pretendente).

O caso Popov é um exemplo de como mulheres serial killers agem. O modus operandi da mulher comumente difere do modus operandi do homem, em regra geral a grande maioria dos homicidas masculinos executam desconhecidos enquanto as mulheres costumam matar pessoas próximas (como as esposas que matam seus maridos, enfermeiras que assassinam seus pacientes). Homens utilizam maioritariamente a força, e frequentemente as mortes são por estrangulamento, esfaqueamento, disparos e espancamento. Já as mulheres, em sua grande maioria, optam por veneno e suas motivações principais são sentimentos de vingança e razões financeiras. No entanto, embora a literatura nos apresente estas conclusões, existem sempre exceções à regra.

Harold Schechter (2013) faz referência aos tipos de atrocidades cometidas por serial killers homens, que tipicamente envolvem violação, esquartejamento, mutilação, – indiscutíveis paralelos entre a tipologia de violência – fálica, predadora, descomedida. Serial killers homens, em regra geral, sentem prazer na brutalidade, enquanto as mulheres teriam a tendência para uma “grotesca e sádica paródia de intimidade e amor”, conduzindo com “ternura” suas vítimas à morte, o que não significa, de todo, que sejam menos depravadas do que os homicidas em série masculinos.


A vila de Melencze (ou Melenci), Sérvia

O julgamento de Thekla Popov foi adiado por várias semanas devido às exumações. Quando finalmente começou, o principal testemunho foi o de sua filha, que reafirmou tudo o que havia dito anteriormente, adicionando que presenciou Draga Kukin despejando o líquido vermelho comprado de sua mãe no café do seu marido. Reportagens da época revelam que até 100 mulheres estiveram envolvidas no esquema de compra de venenos e assassinato, o que coloca essa sororidade no topo do que alguns chamam de “Sindicatos de Matadoras-de-Maridos” – grupos compostos por mulheres que matam maridos. O mais conhecido desses “sindicatos” são as Criadoras de Anjos de Nagyrév. E por falar em Nagyrév, um pensamento se faz presente. Em nosso texto sobre esse caso escrevemos:

Pouco se sabe sobre Fazekas antes de 1911, quando do nada ela apareceu na vila de Nagyrév. Ela era uma mulher de meia-idade, uma viúva em suas próprias palavras. Ninguém nunca soube o que exatamente aconteceu com seu marido.

Zsuzsanna Fazekas foi a Thekla Popov de Nagyrév. E aqui faço uma especulação. Fazekas não era daquela região da Hungria e chegou em Nagyrév em 1911, uma mulher de meia-idade, sem marido e que logo abriu sua empresa de venda de venenos para mulheres insatisfeitas no casamento. Fazekas não poderia ter sido uma das envenenadoras de Melencze? Com a prisão de Thekla Popov e a descoberta dos assassinatos em série, Fazekas pode ter fugido e perambulado pela Hungria, chegando até Nagyrév em 1911 e tomado para si o papel que foi de Popov em Melencze. 

Voltando a 1882, 35 assassinatos foram confirmados e atribuídos a Thekla Popov. Nos cadáveres de 30 outras vítimas não foram encontrados vestígios de arsênico, apesar de vários indícios e fortes suspeitas.

E então Thekla Popov desapareceu.

Na virada do século 20 a Europa pareceu viver uma infestação sem precedentes de mulheres serial killers. E é tão estranho notar que praticamente a maioria se perdeu no tempo. Não conhecemos seus crimes. Não sabemos seus nomes. Enquanto os meninos Jack, o Estripador, H.H. Holmes, Henri Landru e dezenas de outros tiveram seus nomes perpetuados para todo o sempre, mulheres como Esther Sarac, Julia Higbee, Amelia Winters, Sophie von Mesko, Frau Kernaez, Stojsits Kurjakow, Rosalie Schneider, Eva Micsik, só para citar algumas, se perderam na escuridão do tempo. Só para conferência, todas essas meninas citadas são contemporâneas de Jack, o Estripador. Mas, por algum motivo, apenas o sociopata londrino ganhou as páginas dos jornais e o passaporte para o futuro.

O que aconteceu com Thekla Popov? Ela foi condenada? Foi executada? Morreu na prisão? Fugiu? Obteve perdão? Não se sabe. Da mesma forma que essa assassina em série apareceu para o mundo através de uma única fonte, a qual foi reproduzida com uma ou outra modificação por jornais do ocidente, ela desapareceu sem merecer que algum repórter se importasse com o seu destino. Ninguém mais escreveu sobre ela ou sobre suas vítimas. Até mesmo pesquisas em húngaro não me retornaram nada. Talvez um pouco mais de sua história esteja em algum papel mofado dentro de uma caixa de papelão em alguma biblioteca de Budapeste. 

Mais sobre esta série:

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

Fontes consultadas: [1] “Husband Poisoning By Wholesale. – Horrible Revelations” – The Centaur. 2/09/1882; [2] HUSBAND-POISONING IN HUNGARY – The New York Times. 10/09/1882; [3] The Inheritor’s Powder: A Tale of Arsenic, Murder, and the New Forensic Science – Sandra Hempel. Norton, 2013; [4] Wholesale Husband-Poisoning – The Medical News. A Weekly Journal of Medical Science, Philadelphia, Pa., 7/10/1882, p. 412; [5] The Husband Poisonere – Alexandria Gazette, Volume 83, Número 212. 08/09/1882; [6] Schechter, Harold. Serial Killers – Anatomia do Mal. DarkSide Books, 2013;

Com colaboração de:


Rochele Kothe
Contribuição texto

Mikaelly Silva
Ilustração Thekla Popov

Curta O Aprendiz Verde No Facebook

"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." (Platão)
Deixe o seu comentario:
DarkSide Books

RELACIONADOS

Receba nosso conteúdo por e-mail!

Digite o seu endereço de e-mail:

OAV TV

OAV TV

Queremos você!

Queremos Você!

O Aprendiz Verde no WhatsApp!

OAV no Whatsapp

Siga-nos no Twitter

As últimas notícias

Categorias

× Receba nosso conteúdo no WP