Serial Killers: As Contemporâneas de Jack – Marie Thérèse Joniaux

Este post é parte da série “As Contemporâneas de Jack”: histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram...

Marie Joniaux

Este post é parte da série “As Contemporâneas de Jack”: histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram da fama, não se tornaram assuntos de livros, muito menos filmes; seus crimes ficaram perdidos no tempo e na história, e não fosse o trabalho (tipo old school) de pesquisadores/escritores/jornalistas/entusiastas/etc (como este que aqui escreve), muitos nunca saberiam que um dia elas existiram.

Elas são europeias, elas são assassinas, elas são diabólicas, elas são serial killers. Elas são mulheres!

O assassinato em série nunca foi um fenômeno moderno que pareceu surgir nos anos 1970 com seus representantes máximos vindos dos Estados Unidos: os Bundy’s, Kemper’s, Gacy’s e Berkowitz’s da vida. Serial killers são tão antigos quanto a própria humanidade. É bem verdade que parece haver um ciclo. De tempos em tempos, eles, de repente, surgem. São centenas, milhares deles. E, da mesma forma que surgem, desaparecem nas sombras. Definitivamente hoje não há o número de assassinos em série que experimentamos, por exemplo, nos anos de 1970. Por quê? Não faço a mínima ideia. Claro, podemos especular, mas deixemos isso para outra hora.

Um outro momento em que serial killers infestaram o mundo foi na Europa do final do século 19. E eles não eram homens. Eram mulheres!

Marie Thérèse Joniaux


Madame Marie Thérèse Joniaux, a segunda esposa de um renomado engenheiro que trabalhava para o governo, era conhecida na sociedade belga como uma mulher bonita e brilhante, com modos encantadores e um afeto pelos prazeres da jogatina. Nascida em Mechelen, no ano de 1844, ela vinha de uma família cujos homens tinham altas posições no exército. Seu pai, Jules-Gustave Ablaÿ, era tenente-general e um dos ajudantes de campo do Rei. Seus tios Omer e Narcisse também eram generais do exército belga.

Crescendo em um ambiente pomposo e farturento, Marie Thérèse, desde muito jovem, tomou gosto pelos bailes de gala e status de celebridade social que seu sobrenome – ela nasceu Maria Teresa Joséphe Ablaÿ – lhe conferia. Seguindo o caminho normal das pedras naqueles tempos para uma moça como ela, Marie Therese olhou pelas frestas à procura do melhor partido, em outras palavras, o homem mais rico disponível no mercado. E ele era Frédéric Faber, um conhecido bibliófilo e historiador. A união veio bem a calhar já que seu pai acabara de falecer e a divisão dos bens entre os seis filhos do velho general não deixou todos satisfeitos. Marie Thérèse, 24 anos, e Frédéric Faber se casaram em 10 de julho de 1869, se mudaram para a capital belga Bruxelas, e menos de dois anos depois tiveram uma filha, Jeanne Faber.

Em pouco tempo Marie Thérèse percebeu que seu marido não era tão rico quanto todos diziam. Além disso, Frédéric Faber era um homem muito simples, apaixonado pela leitura e conhecimento. Ele não precisava de muito para viver. Já sua esposa era o oposto. Apesar da diminuição das economias do casal com o passar do tempo, Marie Thérèse continuava levando uma vida de socialite, circulando entre a elite e promovendo bailes glamorosos onde entravam apenas as famílias mais abastadas.

Com a esposa gastando mais do que devia, o casal teve que se virar, e uma das formas que eles arranjaram de fazer dinheiro foi abrindo a casa da família para qualquer hóspede que quisesse pagar para passar uma noite ou mais. Um dos que se interessou pela hospedaria foi um engenheiro de pontes muito bem de vida chamado Henri Joniaux. O engenheiro recebia um gordo salário do governo da Bélgica e já morava em Bruxelas há algum tempo com esposa e três filhos.

Henri Joniaux conheceu o casal Faber e Thérèse quando sua esposa, Ida Dumon, faleceu. Sozinho e com três filhos, ele viu uma boa oportunidade em morar na casa de um casal cuja mulher poderia dar uma olhada em seus filhos enquanto ele estava fora a trabalho.

Tudo ia bem para todos até Frédéric Faber falecer misteriosamente em 4 de dezembro de 1884. Dois anos depois, seria anunciada à alta sociedade de Bruxelas o casamento entre Henri Joniaux e Marie Thérèse, a encantadora viúva de seu velho amigo e anfitrião Frédéric Faber.

Casa da Morte


Em sua segunda aventura amorosa, aparentemente, a brilhante dama da sociedade teve mais sorte. Eles eram um casal dedicado e o mundo parecia conspirar a favor deles.

Logo após o casamento, Henri Joniaux avançou mais ainda em sua profissão, sendo promovido ao cargo de engenheiro-chefe de obras do governo na Antuérpia, cidade ao norte do país.

Em Antuérpia, o casal comprou uma bela casa na número 33 da Rue de Nerviens, onde viviam e se entretiam luxuosamente. Entretanto, o primeiro casamento de Joniaux o deixou com muitas hipotecas e dívidas. Casar com Marie Thérèse também não o ajudou em nada e logo o engenheiro se viu tendo que vender imóveis para pagar o estilo de vida exuberante da esposa. Mesmo quando as coisas começaram a ir de mal a pior, Marie Thérèse não desceu do salto. Gastando cada vez mais e percebendo que o marido não podia mais sustentá-la da forma como ela julgava merecer, Marie Thérèse resolveu agir por conta própria, de início tentando conseguir dinheiro de forma honesta.

Algumas fontes citam que ela viajava a Bruxelas e Spa [cidade no leste belga], e lá tentava seduzir homens endinheirados. Quando seu marido ficou sabendo dos rumores, ela negou veemente. Ele acreditou. Com o tempo, Marie Thérèse entrou em uma espiral de endividamento, recorrendo a agiotas, muitas vezes por quantias irrisórias. Em 11 de maio de 1888, três meses antes de Jack, o Estripador iniciar sua carnificina na Inglaterra, Marie Thérèse pegou emprestado de sua sogra 30 mil francos belgas. Para conseguir a grana, a socialite da Antuérpia escreveu centenas de cartas dizendo, entre outras coisas, que “nós teremos uma catástrofe se você não fizer alguma coisa“. Essa “catástrofe” seria o suicídio do marido, por “desgosto” da situação. A sogra, claro, enviou rapidamente a dinheirama com medo do filho tirar a própria vida. Henri Joniaux, obviamente, não sabia de nada.

Os trinta mil francos belgas acabaram rapidamente: o dinheiro serviu para Marie Thérèse pagar os agiotas mais violentos. Em 1 de junho de 1888 ela penhorou algumas joias de prata por 140 francos. Em 31 de agosto, ela perdeu um relógio e um broche do marido que estavam penhorados. Nesse mesmo dia, Jack, o Estripador retalhava a prostituta Polly Nichols na Buck’s Row [hoje Durward Street] em Whitechapel. A perda dos objetos do marido e a virulência dos agiotas fez Marie Thérèse mudar suas atenções para a própria família, pegando dinheiro emprestado de quem quer que fosse. Ela tentou chantagear o filho de seu cunhado, Lionel, que foi encontrado morto à beira de um lago em Lubbeek, em 26 de outubro de 1890.

Em janeiro de 1892, sua filha, Jeanne Faber, se casou com Oswald Mertens. Marie Thérèse Joniaux não podia imaginar um casamento sem luxo. Sem dinheiro, ela fez dois seguros de vida em nome de sua irmã, Leónie, no valor de 70 mil francos belgas, com duas seguradoras diferentes. Ela fez tudo às escondidas, sem dizer nada a ninguém. Para ajudar nos preparativos do casamento da sobrinha, Leónie mudou-se para a casa da irmã na Antuérpia e por lá ficou mais algum tempo, o suficiente para morrer. Subitamente, sua saúde começou a degringolar. Os médicos suspeitaram de tifo. Ela faleceu em 24 de fevereiro de 1892. Em abril e março Marie Thérèse recebeu o dinheiro do seguro de vida da irmã. Para comemorar a entrada do dinheiro, ela viajou de férias para Mônaco e Itália, vivendo os prazeres da vida enquanto o restante da família sofria o luto da precoce morte de Léonie.

No final de 1892, Marie Thérèse estava novamente em ruínas, então veio outra morte. Em março de 1893, o tio de Marie Thérèse, Jacques Van de Kerkhove, 64, foi visitá-la e caiu doente após tomar um café preparado pela sobrinha. Ele se sentiu muito mal após o café e foi se deitar, falecendo às 11h da manhã seguinte. Os médicos suspeitaram de acidente vascular cerebral e ele foi sepultado sob comoção. Para seu desgosto, o tio deixou cada centavo de sua fortuna para uma certa mademoiselle chamada Julienne van Wesmael. “Um imoral“, teria dito Marie Thérèse ao seu marido a respeito do tio.

Em 4 de fevereiro de 1894, um de seus irmãos, Alfred, que ela não via desde a adolescência, foi atraído até Antuérpia. Ele havia perdido o seu emprego em Paris e Marie Thérèse prometeu ajudá-lo. Ela se ofereceu para pagar uma pensão ao irmão em troca de um seguro de vida no valor de 100 mil francos belgas, dos quais ela seria a única beneficiária. Parecia bom para Alfred até ele conseguir se restabelecer em sua terra natal. Marie Thérèse entrou em contato com uma seguradora de Paris, mas as condições não a satisfizeram. Por fim, ela contratou o seguro de uma empresa inglesa chamada Gresham, que tinha um escritório na Antuérpia. Em 17 de fevereiro de 1894, o seguro foi realizado, e na noite do dia 5 de março de 1894 seu irmão Alfred faleceu.

A irmã, o irmão e um tio sucumbiram misteriosamente após visitarem Marie Thérèse. Até mesmo seus piores inimigos simpatizaram com ela. Mas ela deve ter congelado a espinha com o sussurro ao pé do ouvido do agente funerário da cidade:

Eu não creio, madame, que qualquer outro membro de vossa família vá visitar a senhora.”

Infelizmente para a dama da Antuérpia, a opinião era compartilhada por outra pessoa poderosa da cidade: um alto funcionário da Gresham.

O dinheiro do seguro foi retido e a empresa notificou as autoridades belgas sobre a suspeita deles: jogo sujo da madame. Três cadáveres foram exumados e grandes quantidades de morfina e atropina foram encontrados nos três. Escândalo total. Marie Thérèse foi presa e acusada de algo inimaginável até os dias de hoje: matar os irmãos e o tio.

Ilustração de época do julgamento de Marie-Thérèse Joniaux-Ablay.

Ilustração de época do julgamento de Marie-Thérèse Joniaux-Ablay.

O Julgamento


O julgamento, presidido pelo juiz Eugène Hayoit de Termicourt, começou em 7 de janeiro de 1895. Quase 300 testemunhas foram ouvidas. Ficou claro no julgamento, pelos depoimentos, que dias antes de cada morte Marie comprara grandes quantidades de morfina e atropina. Tais substâncias, ministradas em excesso, levam o indivíduo à morte.

Quando a acusação foi lida, Marie Thérèse deu de ombros. “Você envenenou seus três parentes. Você nega isso?“, perguntou o juiz. “Absolutamente,” respondeu a acusada. O juiz continuou:

“E, no entanto, as mortes coincidem de maneira notável com os períodos em que você precisava de grandes somas de dinheiro.”

Indiferente, Marie Thérèse respondeu com uma habitual prepotência.

“Convém a você dizer isso”.

Em outro dia do julgamento, o juiz disse a ela que, durante um interrogatório, sua sogra revelou que ela tinha um “buraco” no cérebro e que, com certeza, um dia ou outro ela acreditava que a nora cometeria algum crime. Em certo ponto, ela foi chamada de a “nova Brinvillier”, em alusão à famosa envenenadora em série francesa.

Apesar das provas esmagadoras e das investidas do juiz, Marie Thérèse seguiu firme e corajosa, conseguindo se desviar das acusações com uma incrível habilidade, tanto que as pessoas que acompanhavam o julgamento chegaram a sentir simpatia por ela.

“Tem sido uma guerra do destino comigo por quinze anos. Eu joguei, eu peguei dinheiro emprestado, eu procurei aliviar de todas as maneiras as esmagadoras dívidas que eu contraí, mas não sou uma assassina!”

[Marie-Thérèse Joniaux]

Mas ficou provado, sem sombra de dúvida, que a bela madame Joniaux, que adorava a jogatina, que fora flagrada trapaceando no jogo de cartas em círculos privados, que passou pessoas para trás em Spa, que levantou suspeitas em Mônaco, pegou dinheiro emprestado de muitos sob falsos pretextos, obtendo joias de alguém em um dia e penhorando-as no outro. Sem saída, ela voltou-se para os seguros de vida, atraindo para a morte aqueles que mais confiavam nela.

Quando a sentença de morte foi anunciada, Marie Thérèse se desesperou, mas foi confortada por um agente da lei: “Coragem, madame. Essa sentença não será executada. Não guilhotinamos mais mulheres na Bélgica.”

Não terá guilhotina? O que então eles farão comigo?“, ela questionou.

“Trabalho braçal pelo resto de sua vida.”

Marie Thérèse passou os 28 anos seguintes encarcerada, um local mais do que apropriado para uma mulher que estava fora do controle. Matar entes queridos para sustentar um estilo de vida mostra o quão distorcida era sua mente. Ela faleceu aos 79 anos, na cadeia, em 1923.

Marie-Thérèse Joniaux apostou em mesas de jogos com a carta da morte em sua manga, como um trunfo, mas a lei tinha a última jogada: um ás repleto de punições. O jogo da morte que ela jogou raramente é uma indulgência ocasional. Quando uma vez realizada com sucesso, se torna um hábito.

Mais sobre esta série:

Fontes consultadas: [1] Found Guilty of Poisoning Her Brother, Sister and Uncle. – End Of A Famous Trial – For Months It Has Consumed the Time of the Belgian Assize Courts – Mme. Joniaux Killed Her Relatives to Obtain Life Insurance – No Excitement at the Verdict – Jury Out less than An Hour – The Washington Times (D.C.), 3 de Fevereiro de 1895, p.1; [2] Geo. R. Sims, The Second Madame Joniaux: The Death Gamble – Lloyd’s Weekly News (London, England), 17 de Março de 1909, p. 15; [3] John Kobler, The Murderess With The Melting Eyes – The Truth (Sydney, Australia), 27 de Maio de 1951, p. 30; [4] Indiciamento: L’affaire Joniaux, triple empoisonnement : acte d’accusation; [5] Memória: L’affaire Joniaux, triple empoisonnement : acte d’accusation;

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