Serial Killers: As Contemporâneas de Jack – As Baby Farmers

Este post é parte da série “As Contemporâneas de Jack”: histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram...
Baby Farmers - Serial Killers

Serial Killers - As Baby Farmers

Este post é parte da série “As Contemporâneas de Jack”: histórias de serial killers mulheres que viveram na mesma época de Jack, o Estripador, mas ao contrário dele não gozaram da fama, não se tornaram assuntos de livros, muito menos filmes; seus crimes ficaram perdidos no tempo e na história, e não fosse o trabalho (tipo old school) de pesquisadores/escritores/jornalistas/entusiastas/etc (como este que aqui escreve), muitos nunca saberiam que um dia elas existiram.

Elas são europeias, elas são assassinas, elas são diabólicas, elas são serial killers. Elas são mulheres!

O assassinato em série nunca foi um fenômeno moderno que pareceu surgir nos anos 1970 com seus representantes máximos vindos dos Estados Unidos: os Bundy’s, Kemper’s, Gacy’s e Berkowitz’s da vida. Serial killers são tão antigos quanto a própria humanidade. É bem verdade que parece haver um ciclo. De tempos em tempos, eles, de repente, surgem. São centenas, milhares deles. E, da mesma forma que surgem, desaparecem nas sombras. Definitivamente hoje não há o número de assassinos em série que experimentamos, por exemplo, nos anos de 1970. Por quê? Não faço a mínima ideia. Claro, podemos especular, mas deixemos isso para outra hora.

Um outro momento em que serial killers infestaram o mundo foi na Europa do final do século 19. E eles não eram homens. Eram mulheres!

As Criadoras de Bebês


Há tipos históricos de mulheres serial killers, dentre eles as bem conhecidas Viúvas Negras, as famosas Envenenadoras e a pouco falada Criadora de Bebê.

“Agricultura de Bebês” (Baby Farming, no inglês) é uma expressão que se referia à uma prática bastante comum – na Europa dos séculos 18, 19 e 20 – de aceitar a custódia de um bebê ou criança em troca de pagamento. Algumas criadoras de bebês cuidavam de crianças cobrando um pagamento fixo, já outras aceitavam receber pagamentos periódicos. Não demorou muito para que mulheres psicopatas enxergassem nesse mercado uma forma de tirar proveito.

Para entender porque mulheres davam seus bebês e crianças a criadoras de bebês temos que voltar no tempo.

Em primeiro lugar, o aborto era ilegal. Em segundo lugar, a concepção era mal compreendida. A taxa de mortalidade infantil era alta (leia a história de Mary Ann Cotton em Lady Killers – Assassinas em Série e você entenderá porque tantas crianças suas morriam e todos consideravam as mortes “naturais”) e crianças indesejadas eram muitas vezes uma pressão sobre a família (ou garota) já em situação financeira precária. A gravidez fora do casamento era um pecado mortal; a maioria das famílias praticamente expulsava suas moças que caíam na armadilha da gravidez. Em muitos casos elas eram forçadas a viajar para outra cidade onde, sem amigos e família, ela dava à luz. Se ela tivesse sorte, a família permitiria que ela voltasse para o aconchego do lar após o parto, mas muitas vezes voltavam sem o filho. É aqui que entram as criadoras de bebês. Por uma quantia paga pela mãe, elas aceitavam cuidar dos recém-nascidos.

É bom lembrar que não existiam creches credenciadas pelo governo ou organizadas por entidades filantrópicas. Muitos orfanatos, convencidos de que um filho bastardo herdaria a natureza imoral dos pais, se recusavam a aceitar filhos nascidos fora do casamento ou de mulheres solteiras. Para a jovem mãe, as chances de se casar tendo um filho ilegítimo a reboque eram de fato escassas, afinal de contas, que homem que se “preze” assumiria uma mulher de tão “pobre caráter moral”?

As criadoras de bebês, às vezes, funcionavam como pais adotivos – embora a mãe biológica pudesse passar semanas ou meses sem ver o filho ou renunciar às visitas, ela continuava a pagar uma taxa semanal ou mensal. Muitas mantinham esperanças de recuperar o filho. Em outros casos, também bastante comum, as criadoras de bebês combinavam com a mãe de encontrar uma família amorosa e com boa condição financeira para adoção.

Devido ao estigma associado às mães solteiras, todo o assunto, muitas vezes, era envolto em segredo, especialmente quando a criança estava sendo adotada. As criadoras de bebês não eram obrigadas a manterem registros das crianças que recebiam. Mães que eram gratas ou estavam envergonhadas relutavam em fazer perguntas, e os médicos raramente perdiam um segundo do seu tempo investigando a causa de um bebê que aparecia morto.

Não há dúvidas de que a maioria das criadoras de bebês eram mulheres bem intencionadas, de bom coração, que continuavam a cuidar das crianças mesmo quando a mãe biológica não podia mais pagar. Algumas eram mulheres que nunca tiveram filhos e faziam exatamente o que seus anúncios nos jornais proclamavam: elas adotavam a criança por amor e tratavam dela como se tivesse saído de seu ventre.

No entanto havia as assassinas em série.

Uma das primeiras documentadas foi a portuguesa Luiza de Jesus, de 22 anos. Em sua casa, autoridades encontraram os restos cadavéricos de 33 bebês. Luiza confessou ter “garrotados vinte e oito“. Os dez primeiros foram completamente desossados. “Na casa dela descobriram em um pote de barro vários pedaços de cadáveres corrompidos e fétidos, sem se poder divisar o seu número senão por três caveiras que nele estavam. E semelhantemente debaixo de uma pouca de palha se acharam quatro cascos de cabeças com a carne comida e um corpo de criança organizado, mas já corrupto,” diz a sua sentença publicada em 1772. Chamada de “monstro” pelos juízes que a julgaram, Luiza foi executada da mesma forma que matou suas vítimas:

“Levada ao lugar da forca, nele lhe sejam decepadas suas mãos. Depois do que, morra de morte natural de garrote. E dado este, seja o seu corpo queimado, e reduzido a cinzas, para que nunca mais haja memória de semelhante Monstro.”

No caso português nós temos um nome: Luiza. Mas nem sempre foi assim. Em inúmeros casos ao longo da história envolvendo serial killers mulheres, seus nomes sequer foram citados.

Os anúncios em jornais da serial killer matadora de bebês inglesa Amelia Dyer. "CASAL casado que não tem filho deseja adotar um; bom lar; pequena recompensa", dizia um dos anúncios. Foto: Thames Valley Police Museum.

Os anúncios em jornais da serial killer matadora de bebês inglesa Amelia Dyer. “CASAL casado que não tem filho deseja adotar um; bom lar; pequena recompensa”, dizia um dos anúncios. Foto: Thames Valley Police Museum.

Assassinas em Série Sem Nome


Se tivéssemos como contar o número de bebês e crianças mortas por criadoras de bebês serial killers no século 19 e início do século 20 ficaríamos assustados. Isso porque o número dessas assassinas em série é impressionante. Temos, obviamente, as famosas, como Amelia Dyer, mas centenas de outras nós não temos sequer o nome. Uma delas é uma ucraniana capturada em 1887, cerca de um ano antes do último assassinato de Jack, o Estripador.

“Uma horrível descoberta foi feita aqui outro dia em um dos subúrbios. Uma mulher de meia-idade, dona de sua própria casa, teve nos últimos anos a posse de um número de bebês ilegítimos. De tempos em tempos muitas dessas jovens crianças desapareciam. Os vizinhos achavam que elas foram levadas pelos pais. O desaparecimento de uma menina outro dia levantou suspeita, e a polícia iniciou uma investigação. A polícia ontem descobriu o corpo da criança desaparecida enterrada sob o chão. Uma busca posterior levou à descoberta dos restos de 10 bebês dispostos de uma maneira similar. A criadora de bebê foi acusada de assassinato de todas essas infelizes crianças.”

[Russian Baby Farmer – Sheffield Evening Telegraph. 15/11/1887]

Esse caso aconteceu na cidade de Odessa e (após profundas pesquisas) tudo o que encontramos foi apenas o texto acima, republicado em um punhado de jornais ingleses do século XIX. Nada mais. Seu nome nunca foi mencionado.

Russian Baby Farmer - Sheffield Evening Telegraph. 15/11/1887

Russian Baby Farmer “10 Crianças Assassinadas” – Sheffield Evening Telegraph. 15/11/1887.

Em 1854, na Vila Viçosa, Portugal, uma criadora de bebê assassinou nove: “ela fez um comércio de destruição de filhos ilegítimos,” escreveu o The Press, de Londres, em 29 de julho de 1854. (Essa portuguesa sem nome apareceu em três publicações na época; os textos são iguais e tem apenas duas linhas).

Em 1892, “os cadáveres de 15 bebês foram encontrados em uma casa na qual a prisioneira usava.” A prisioneira em questão era uma alemã residente de Berlim. Um ano depois, em Kuttenberg, atual República Tcheca, “duas amigas sem coração” foram presas por tocarem um negócio de assassinato de bebês cujos pais não os queriam. “Os bebês tinham deformidades ou os pais eram muito pobres ou sem coração para cuidar de suas crianças, ou porque as crianças eram ilegítimas e uma fonte de reprovação da família.”

Ainda em 1893, na cidade de Przemysi, atual Polônia, três criadoras de bebês foram presas suspeitas de assassinar a filha de uma autoridade do governo que passava a noite na casa de uma das mulheres. Esse caso é interessante ao exemplificar, mais uma vez, quando serial killers saem do controle e passam a matar indiscriminadamente. E muitos são pegos por isso. Uma escavação no quintal de uma das criadoras de bebês revelou o horror.

“Os cadáveres de vinte e sete jovens bebês foram encontrados em caixas de charuto a poucos centímetros da superfície. Uma investigação similar resultou na descoberta dos esqueletos de 19 crianças. As mulheres confessaram, mas disseram que, se indiciadas, elas iriam abalar a cidade com suas revelações.”

[Wholesale Infanticide – Terrible Revelations of an Austrian Baby-Farm – Dozens of Bodies Found by the Authorities – Social Scandals Threatened – The Toronto Daily Mail. 06/03/1893, p. 1]

“Vinte e sete bebês!”…”dezenove esqueletos!”…”revelações que abalariam a cidade!” e Jack, o Estripador matou “só” cinco e tem essa fama toda… Qual o nome dessas assassinas em série? No que deu essa história? 

Em 1902, outra serial killer criadora de bebê sem nome foi presa na cidade de Colônia, Alemanha, acusada do envenenamento de mais de 50 bebês. O The Daily Inter Ocean, de Chicago, citando o jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger, revelou que “a polícia prendeu uma mulher suspeita de envenenar mais de cinquenta bebês que estavam sob sua guarda. O promotor público está de posse de evidências em massa contra a mulher.” 

O assassinato de mais de 50 seres humanos coloca essa mulher na lista dos (e das) piores serial killers da história, porém, os crimes cometidos por esta alemã pareceram não chamar muito a atenção das pessoas no começo do século passado já que referências a ela são praticamente inexistentes. Talvez uma viagem pelos arquivos do Kölner Stadt-Anzeiger nos fornecesse mais dados, mas isso não é possível já que o jornal disponibiliza apenas as edições do ano 2000 para frente.  

O que é mais assustador, os crimes cometidos por essas mulheres ou a completa indiferença para com elas e suas vítimas? 

Ainda em 1902, um grupo de 20 (20!) serial killers criadoras de bebês foi julgado na Noruega pelo assassinato de um número indeterminado de bebês. A única menção a este caso na língua inglesa apareceu em 6 de julho de 1902 no The Atlanta Constitution, um jornal americano com base em Atlanta, Geórgia.

Serial Killers - Baby Farmers

Pequena nota no The Atlanta Constitution sobre o caso das serial killers norueguesas. Data: 6 de Julho de 1902.

CHRISTIANIA A CAPITAL MAIS PERVERSA EM TODA EUROPA

5 de Julho – O conhecido ditado de Ibsen de que Christiania [atual Oslo] era a capital mais perversa da Europa é confirmada por um julgamento monstruoso contra cerca de vinte criadoras de bebês, onde o assassinato em larga escala de crianças tem acontecido nos últimos dez ou quinze anos. Várias dessas criadoras de bebês tinham cemitérios particulares em jardins campos, onde os restos de um pequeno exército de minúsculos cadáveres foram desenterrados.

[Christiania The Wickedest Capital in All Europe – The Atlanta Constitution. 6/07/1902. P. 16]

Essas mulheres mataram indiscriminadamente, mas nenhuma das assassinas em série sem nome acima é páreo para uma japonesa que administrava uma casa da morte em Osaka. Em dezembro de 1902, a Associated Press publicou “uma horrível conspiração de criadora de bebê em Osaka“. Segundo a nota, uma mulher idosa teria sido presa acusada de liderar uma eficiente máquina de matança de bebês na qual “300 crianças foram assassinadas.” A anciã criadora de bebês tocava o “negócio” e era a chefe da “empresa”, composta por sua filha, pelo marido da filha e duas outras pessoas. Todas foram presas por infanticídio.

BABY FARMING IN JAPAN - Indianapolis Journal. 29/12/1902. P.5;

BABY FARMING IN JAPAN – Indianapolis Journal. 29/12/1902. P.5;

Qualquer livro de serial killer que se preze cita o colombiano Pedro Alonso Lopez como um dos mais assustadores e prolíficos assassinos em série da história. Muitos gostam de citar suas 300 possíveis vítimas como um exemplo da virilidade do super macho que caça menininhas indefesas para estuprá-las e matá-las. Por isso, ele é tema de livros, reportagens, documentários para a TV, etc., pois ele matou demais. A idosa de Osaka também, e supostamente, assassinou 300 seres humanos. Ela rivaliza com Lopes como um dos piores assassinos em série de todos os tempos. Ainda assim não temos o nome dela!

Talvez no final do século XIX e início do XX a comunicação fosse mais evoluída no ocidente – daí as assassinas em série dos Estados Unidos e Inglaterra serem bem identificadas e suas histórias contadas (não é à toa que a britânica Amelia Dyer tem o infame apelido de a “rainha das criadoras de bebês” assassinas). Talvez naquela época a mortalidade fosse tão alta que tais crimes, apesar de hediondos, não chamassem tanto a atenção. Ou talvez o perfil das vítimas, bebês e crianças pobres, vindas de famílias pobres e dadas a criadoras de bebês pobres, não fosse digno de preocupação. Apenas uma notinha para informar sobre o ocorrido e tudo bem. 

Quatro Criadoras de Bebês | Quatro Mil Bebês Mortos


Há inúmeras criadoras de bebês assassinas em série cujos nomes ficaram enterrados no esquecimento. Mas para cada uma sem nome há dezenas de outras bem nomeadas. Elas mataram 3, 7, 11, 20, 50, 80, a lista é longa, e posteriormente podemos dedicar um tempo para escrever suas histórias. Entretanto, há quatro delas que merecem uma citação nesta matéria. 

  • Madame Guzovska, 1903polonia

Uma “assassina por atacado”. Foi assim que a imprensa chamou uma polonesa identificada como Guzovska em 1903 por matar indiscriminadamente bebês em mais ou menos três anos de “funcionamento” de sua “empresa”. A criadora de bebê cobrava o valor da mãe da criança de acordo com a cara da freguesa. Se ela parecesse não ter onde cair morta, era cinco pratas, mas se a moça aparentasse ter grana, o preço passava para cem. E esse mercado era excelente, clientes não faltavam e todas pagavam, bem ou mal. 

O preço podia variar, mas o destino dos pobres bebês não.  A única fonte sobre esta assassina em série cita “mais de 500 bebês” mortos “de vários meios“, mas não especifica quais. 

Única fonte sobre o caso, o jornal neozelandês The Bruce Herald nem mesmo deu um título à notícia, muito menos citou de onde veio a informação.

Única fonte sobre o caso, o jornal neozelandês The Bruce Herald nem mesmo deu um título à notícia, muito menos citou de onde veio a informação.

“Uma assassina por atacado foi presa em Varsóvia na pessoa de uma viúva chamada Guzovska, que assumiu o controle de crianças indesejadas e as despachou por vários meios o mais rápido possível. Ela cobrava de 5 a 100 liras para se livrar da criança, de acordo com a posição social da mãe. As autoridades tem razões para acreditar que Madame Guzovska assassinou mais de 500 bebês no curso de dois ou três anos, e que recebeu cerca de dez mil liras por seus crimes, os quais os russos expressamente chamam de ‘criadora de anjo’.”

[The Bruce Herald. 16/06/1903, p. 4]

  • Sra. Holmen, 1906Suécia

Nos últimos 10 anos, romances policiais nórdicos tomaram de assalto o mundo com suas histórias misteriosas e violentas. Um dos mais famosos, Män som hatar kvinnor (lançado no Brasil como Os Homens que Não Amavam as Mulheres), se passa em uma ilha sueca cujos moradores parecem esconder um terrível segredo.

No começo do século passado, uma pequena ilha no estreito de Lilla Värtan também foi palco de um terrível segredo. A história tem todos os ingredientes de um romance policial sueco moderno: uma ilha nórdica remota, um sanatório, administradores estranhos e desaparecimentos misteriosos.

Para muitos, o “Sanatório Nacional de Crianças” era um lugar de Deus onde crianças, cujos nascimentos eram indesejados, tinham um lugar para ficar e receber carinho e atenção. Essa ideia perdurou até 1906 quando uma mãe resolveu pegar a sua cria de volta. Os donos do local entregaram o bebê a ela, mas a mãe sabia que aquela criança não era a dela.

A mãe havia entregue o seu bebê aos cuidados do sanatório por ser mãe solteira. Dias depois, preenchidos de culpa e remorso, a mulher e o pai da criança resolveram se casar e a mãe correu de volta até a ilha para pegar seu filho recém-nascido. A princípio, a dona do lugar (uma mulher sem nome!), se recusou a entregar o bebê, mas voltou atrás quando a mãe foi dura nas palavras, afirmando que não sairia dali sem o seu bebê. A mulher sem nome, então, foi até uma sala e trouxe um bebê, mas aquele bebê não era o filho da mulher, que a esse ponto já perdera as estribeiras com a dona do lugar. Então a mulher sem nome levou a moça até uma sala e mostrou 13 bebês a ela. Nenhum deles era o seu filho.

A discussão chamou a atenção do marido da mulher sem nome (o marido tinha nome!), Reverendo Gustav Holmen. O reverendo e sua esposa, vamos chamá-la de Sra. Holmen, mandaram a real para a moça: ela estava sendo muito mau educada, por isso, não sairia daquela ilha e seria mantida prisioneira ali até que ela se “curasse de sua loucura”. A moça os ameaçou de volta: meu marido sabe onde estou e se eu não voltar a polícia irá bater em sua porta. O casal se assustou e a deixou ir embora. A mulher foi direto contar sua história à polícia e dias depois jornais publicavam textos como o abaixo:

Baby Farmers - serial killers suecos

“Demônios suecos massacram bebês” – The Sunday Oregonian.

“…73 bebês foram recebidos no último mês. O local onde os corpos de 60 foram enterrados foi descoberto. Os bebês, aparentemente, foram assassinados logo após serem recebidos e, provavelmente, imediatamente após aqueles que os trouxeram saírem da ilha. O reverendo Gustav era um açougueiro habilidoso, alguns de seus métodos para se livrar das crianças são horríveis demais para serem publicados…Calcula-se que nos três anos em que a instituição funcionou mais de mil bebês foram recebidos. No entanto, apenas 13 bebês estão vivos e bem. Estes eram os mais saudáveis, os mais gordos e bonitos, e eram usados como chamarizes em anúncios e mostrados às mães e visitantes que apareciam…”

[Swedish Fiends Butcher Babies – The Sunday Oregonian. 16/09/1906, p. 12;]

O Sanatório Nacional de Crianças de Estocolmo era um nome bonito para uma casa de açougue humano especializado em assassinato em massa de bebês. Os donos do local era o casal Holmen. Ele posava como um pastor que gostava de recitar a bíblia, ela era uma enfermeira de formação e especialista em educação infantil. Não há muitas informações sobre esse macabro casal a não ser o fato de que apareceram na capital sueca por volta de 1903 e logo estabeleceram seu negócio em uma pequena ilha ao sul de Estocolmo.

O casal publicava anúncios em jornais locais e essa era a principal forma como a clientela chegava até eles. E eles ganharam muito, mas muito dinheiro. 

Como a polonesa Guzovska, o preço para receber os bebês variava de acordo com a cara do freguês. O pagamento podia ser feito de uma só vez ou em parcelas. Eles também faziam “caridade”, recebendo de graça bebês órfãos ou cujos pais eram pobres demais.

Quando a polícia invadiu a casa dos horrores descobriu apenas 13 bebês vivos. Esses bebês, os mais bonitos e sadios, eram usados como iscas, para mostrar aos pais e visitantes como os bebês que ficavam naquela casa eram bem cuidados. Deles também eram tiradas fotos para ilustrar os anúncios nos jornais. Um cemitério clandestino foi encontrado na propriedade com os corpos de 60 bebês. É bem possível que os 13 que eram mantidos vivos logo se juntariam aos mortos à medida que novos bebês chegassem, provavelmente esse era o modo de operação dos Holmen: pegar o máximo de bebês possível, escolher uma meia dúzia entre a massa e se livrar do resto de maneiras “horríveis demais” para se falar. Esse ciclo se repetiu nos três supostos anos de operação do sanatório, daí o absurdo número levantado pelas autoridades da época de mil bebês assassinados (se em apenas um mês eles mataram 60, o número faz sentido).

Gustav e a Sra. Holmen fugiram antes da chegada da polícia e sua história, por mais estranho que possa parecer, foi esquecida. A última coisa que vocês irão encontrar em um ou outro jornal antigo é: 

“As autoridades estão tentando rastrear Gustav Holmen e a mulher que se passava por sua esposa.”

  • Madame Kusnezowa

Rússia

O mais colossal julgamento de assassinato dos anais da história“, noticiou alguns jornais em março de 1913 sobre a “ogra filantrópica” Madame Kusnezowa, acusada de assassinar um mil e doze crianças por envenenamento na cidade russa de Arkhangelsk.

Madame Kusnezowa supostamente mantinha uma casa para receber crianças nos arredores de Arkhangelsk, na qual cobrava cinco rublos para cuidar de crianças indesejadas. Preços especiais eram feitos para mães da aristocracia.

“O fato de que desde a abertura do local há cinco anos a taxa de mortalidade entre os bebês foi tragicamente alta (320 morreram no ano de 1909) não atraiu atenção, já que a mortalidade infantil nessa gelada região é normalmente alta. Eventualmente, entretanto, a polícia começou a investigar. Depois de exumar uma quantidade de corpos no cemitério ao lado da casa, eles prenderam a mulher.”

Como em outros casos envolvendo serial killers mulheres, o “negócio” era bastante organizado já que cada bebê morto tinha uma certidão de óbito. Apesar de vários bebês morrerem de causas naturais, a grande maioria foi envenenada.

O único texto sobre o caso, republicado em vários jornais da época, diz que a polícia desconfiava da equipe de Kusnezowa e estava à procura do médico que emitia as certidões de óbito. O seu julgamento estava marcado para ocorrer em maio de 1913 e poderia levar meses, já que cerca de 800 mães que deixaram seus filhos ao cuidado da cuidadora de bebês seriam ouvidas.

Reportagem sobre o caso publicada no Poverty Bay Herald em 12 de abril de 1913.

Reportagem sobre o caso publicada no Poverty Bay Herald em 12 de abril de 1913.

  • Veuve Chartier, 1906França

Às margens do rio Sena, Vivienne é um bairro na região centro-norte da capital francesa distante cerca de três quilômetros da boate Bataclan, palco de um massacre de extremistas em 2015. No início do século passado, o comissário de polícia local, M. Labat, recebeu uma denúncia de um banqueiro, Léon de Re, que teve uma joia roubada. O banqueiro suspeitava de uma mulher com quem teve um caso e M. Labat ordenou uma busca na casa da suspeita. Enquanto a mulher protestava sua inocência, os policiais ficaram intrigados, não em relação ao roubo, mas com o fato de no lugar, uma suposta maternidade, não ter nenhum bebê.

Os policiais levaram suas suspeitas ao comissário que convocou a suspeita até a delegacia para um interrogatório. O silêncio dela para com as perguntas fez o comissário ficar ainda mais suspeito. Inspetores foram designados para investigação e descobriram que, em um ano, mais de 100 pessoas foram vistas na casa deixando seus bebês aos cuidados da dona do lugar, ainda assim não havia nenhum bebê nas dependências.

Um mandato de busca foi obtido e os policiais encontraram instrumentos que poderiam ser usados em abortos. O mistério da maternidade sem bebês permaneceu intrigando a polícia até eles voltarem sua atenção para um grande fogão na sala de jantar. Logo, peritos recuperariam vestígios de restos humanos. A mulher picava os corpos dos bebês e os incendiavam até as cinzas em um grande forno.

O nome desta serial killer é Eleonore Vauthier Chartier, uma francesa de meia-idade cuja história (quase) se perdeu no tempo. Alguns poucos jornais de época registraram as descobertas da polícia parisiense e nada mais além disso. Um jornal australiano noticiou em 28 de dezembro de 1906 que “Um exame mais detalhado das premissas já foi feito, e isso revelou evidências das quais se estima que 1.500 bebês foram cremados na casa.” O número pode ser um exagero, como também pode não ser. Como ninguém se interessou por Veuve Chartier, nunca saberemos.

Reportagem do Albury Banner and Wodonga Express de 28 de dezembro de 1906 sobre os crimes de Veuve Chartier.

“1.500 bebês cremados”. Reportagem do Albury Banner and Wodonga Express de 28 de dezembro de 1906 sobre os crimes de Veuve Chartier.

O Fim das Criadoras de Bebês


Um dos primeiros países a criar estruturas no combate a esses crimes foi a Austrália. Para ajudar no combate à prática da agricultura de bebês, foi criado em 1877 o Victorian Infant Asylum, no qual bebês ilegítimos e não bem-vindos eram adotados (sob taxa) por uma ama de leite. O asilo infantil foi uma resposta do governo australiano à alta taxa de mortalidade (três quartos maior) de crianças cuidadas por criadoras de bebês; elas passaram a ser vistas como mulheres exploradoras e inescrupulosas que abusavam de crianças e mães pobres, usando o dinheiro pago para comprar bebidas alcoólicas em vez de leite.

Em sites do governo australiano dedicados à digitalização de jornais antigos, é fácil encontrar notícias e matérias das décadas de 1870, 1880 e 1890 que detalham casos escabrosos e trágicos de mortes de crianças, negligenciadas e famintas; com seus corpos minúsculos enterrados em quintais e alegações de extrema crueldade. Em 1896, foi estabelecida a Society for the Prevention of Cruelty to Children, que criou asilos e creches pelo país para cuidar de bebês e crianças pequenas, tirando-as das mãos de mulheres despreparadas ou assassinas.

Enfermeiras australianas em um dos asilos criados pelo governo ainda no século XIX para cuidar de bebês e crianças órfãs ou indesejadas. Foto: Drew, Michael J. Data: 1880-1890. State Library Victoria.

Enfermeiras australianas em um dos asilos criados pelo governo ainda no século XIX para cuidar de bebês e crianças órfãs ou indesejadas. Foto: Drew, Michael J. Data: 1880-1890. State Library Victoria.

Na Inglaterra, como resultado das dezenas de casos de cuidadoras de bebês assassinas, o parlamento aprovou várias leis para proteger recém-nascidos e crianças pequenas, incluindo a Infant Life Protection Act, de 1897, e a Children’s Act, de 1908. Estas leis incluíam, dentre outras coisas, a obrigação de avisar – dentro de 48 horas – autoridades sobre a morte ou mudança na custódia de uma criança com menos de sete anos, além de dar apoio e capacitação a assistentes sociais na realização de buscas em locais conhecidos por existir cuidadoras de bebês, casas e fazendas suspeitas de abusar de crianças, removendo-as para um lugar em segurança caso fosse necessário. As leis também redefiniram a forma como bebês eram cuidados. Antes indiferentes, agora autoridades garantiam que “nenhum bebê poderia ser mantido em uma casa imprópria e superlotada que ponha em risco sua saúde; e nenhum bebê pode ser mantido por uma enfermeira incapaz ou que o ameace, por negligência ou abusco, seu devido cuidado e manutenção“. O governo inglês também introduziu regulamentações mais adequadas para a adoção e amparo. O restante do mundo seguiu na mesma linha, o que levou ao fim desse mercado, por consequência, das assassinas em série cuidadoras de bebês. O último caso notório é da americana Georgia Tann, descoberto em 1950.

Mais sobre esta série:

Universo DarkSide – os melhores livros sobre serial killers e psicopatas

http://www.darksidebooks.com.br/category/crime-scene/

Fontes consultadas: [1] Russian Baby Farmer – Sheffield Evening Telegraph. 15/11/1887; [2] The Press, London, Middlesex. 29/07/1854. p. 704; [3] Wholesale Infanticide – Terrible Revelations of an Austrian Baby-Farm – Dozens of Bodies Found by the Authorities – Social Scandals Threatened – The Toronto Daily Mail. 06/03/1893, p. 1; [4] Wholesale Infanticide In Berlin. – Arrest Of A Baby Farmer – Fifteen Bodies Found – The Argus. 27/01/1892, p. 5; [5] Luísa de Jesus confessou ter assassinado 28 crianças. Talvez seja a única “serial killer” portuguesa – Expresso; [6] “Accused of Fifty Murders. – Woman Arrested at Cologne Suspected of Wholesale Poisoning” – The Daily Inter Ocean. 16/01/1902, p. 3; [7] Christiania The Wickedest Capital in All Europe – The Atlanta Constitution. 6/07/1902. P. 16; [8] BABY FARMING IN JAPAN – Indianapolis Journal. 29/12/1902. P. 5; [9] The Bruce Herald. 16/06/1903, p. 4; [10] Swedish Fiends Butcher Babies – The Sunday Oregonian. 16/09/1906, p. 12; [11] A Thousand Babies Murdered – The Truth. 22/09/1906. p. 8; [12] Paris Horror – 1500 Infants Cremated – Albury Banner and Wodonga Express. 28/12/1906; [13] Baby Farming – State Library Victoria; [14] Baby Farming – University of Oregon;

Com colaboração de:


Rochele Kothe
Revisão – Psicóloga Forense

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